Gênios da Inteligência Artificial, mas e a Inteligência Relacional? O que a foto das “mãos não dadas” nos ensina.
Recentemente, uma cena inusitada dominou os noticiários de tecnologia: durante um encontro global, os grandes chefões das gigantes de Inteligência Artificial — incluindo nomes…
Conversas Difíceis – Inteligência Relacional com Homero Reis
Por que as conversas difíceis acontecem? Neste artigo, Homero Reis explora a Inteligência Relacional através de três dimensões essenciais: percepção estética, gosto artístico e distinções de mercado. Aprenda como transformar seus diálogos e construir relações mais produtivas e nutritivas.
Gênios da Inteligência Artificial, mas e a Inteligência Relacional? O que a foto das “mãos não dadas” nos ensina.
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Recentemente, uma cena inusitada dominou os noticiários de tecnologia: durante um encontro global, os grandes chefões das gigantes de Inteligência Artificial — incluindo nomes de peso como Sam Altman (OpenAI),…
Conversas Difíceis – Inteligência Relacional com Homero Reis
Por que as conversas difíceis acontecem? Neste artigo, Homero Reis explora a Inteligência Relacional através de três dimensões essenciais: percepção estética, gosto artístico e distinções de mercado. Aprenda como transformar seus diálogos e construir relações mais produtivas e nutritivas.
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Uma meditação sobre o patriarcado e a cultura matrística através da história dos Homens e dos Lobos. Homero Reis analisa como a humanidade substituiu a cooperação pela dominação e como podemos resgatar a Inteligência Relacional.
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Uma meditação sobre o patriarcado e a cultura matrística através da história dos Homens e dos Lobos. Homero Reis analisa como a humanidade substituiu a cooperação pela dominação e como podemos resgatar a Inteligência Relacional.

Recentemente, uma cena inusitada dominou os noticiários de tecnologia: durante um encontro global, os grandes chefões das gigantes de Inteligência Artificial — incluindo nomes de peso como Sam Altman (OpenAI), Sundar Pichai (Google/Alphabet), Satya Nadella (Microsoft), Mark Zuckerberg (Meta) e Elon Musk (xAI) — simplesmente se recusaram a dar as mãos para a tradicional foto em grupo. O constrangimento foi visível. A tentativa de demonstrar união falhou publicamente.
Como estudioso do comportamento humano, não pude deixar de analisar esse episódio sob a ótica da Inteligência Relacional (IR), tema que desenvolvo há mais de três décadas em meus livros da Coleção Inteligência Relacional e no Método QR.
Esses líderes possuem um QI (Quociente de Inteligência) formidável. São mentes brilhantes que estão desenhando o futuro da humanidade através de algoritmos, machine learning e redes neurais complexas. No entanto, a cena expõe um déficit preocupante em outro quociente vital para a nossa espécie: o QR (Quociente Relacional).
O que a recusa daquele simples gesto físico revela sobre o mundo corporativo que estamos construindo?
1. O excesso de Relações Instrumentais e a falta de Relações Nutritivas
Na Teoria da Inteligência Relacional, entendemos que grande parte do adoecimento corporativo moderno vem da superficialidade. Na “sociedade líquida” em que vivemos — conceito cunhado pelo sociólogo Zygmunt Bauman —, os relacionamentos muitas vezes se tornam puramente instrumentais: você vale o que você entrega. Quando líderes de mercado se encontram apenas como competidores vorazes, não existe o que chamamos de ERA (Espaço Reflexivo da Aprendizagem). Sem esse espaço de confiança, tentar forçar um gesto de união (dar as mãos) torna-se uma hipocrisia insustentável. O corpo, que não mente, simplesmente trava.
2. A ausência de Ressonância Límbica e Acoplamento
Dois dos pilares da Inteligência Relacional são a Ressonância Límbica (a nossa capacidade humana de entrar em sintonia com a emoção do outro, de ter empatia) e o Acoplamento (a habilidade de nos complementarmos, unindo forças para um bem maior). A atitude dos CEOs é a materialização do oposto disso: o Distanciamento. Quando a Força Excêntrica (o modo como nos expressamos para o mundo) está sob pressão e vemos o “Outro” apenas como uma ameaça ou um rival a ser batido, a nossa resposta natural é o isolamento e a esquiva. Esse padrão está diretamente ligado ao que abordamos nos nossos programas de palestras corporativas.
3. O Paradoxo do Futuro: Máquinas humanizadas, humanos mecanizados?
Como destaco em minhas reflexões sobre “A Gestação do Futuro”, estamos criando máquinas cada vez mais capazes de simular conversas, emoções e empatia, enquanto nós, humanos, estamos nos comportando cada vez mais como máquinas frias, programadas apenas para competir e bater metas. Não por acaso, pesquisas recentes do Harvard Business Review reforçam que a vantagem competitiva do futuro será híbrida: humanos com IA substituirão humanos sem IA — mas apenas quem souber cultivar conexões humanas genuínas liderará essa transição.
Como nos alertou Chaplin de forma magistral em O Grande Ditador: “Não sois máquinas! Homens é que sois!” Se os criadores das tecnologias que vão reger o amanhã não conseguem dar as mãos, reconhecer a legitimidade do outro e estabelecer um mínimo de respeito colaborativo, que tipo de futuro estamos gestando?
A reflexão para nós, Líderes e Gestores
Não precisamos ser amigos íntimos de nossos concorrentes ou concordar com tudo o que nossos colegas dizem. A Inteligência Relacional não exige que sejamos iguais. Ela exige que saibamos lidar com a diferença sem que ela seja vista como uma ameaça mortal. Requer a maturidade de sentar à mesa (ou posar para uma foto) compreendendo que, apesar da concorrência, o respeito e o reconhecimento da humanidade do outro são inegociáveis. Esse é o cerne do que ensino em Gente Inteligente Se Olha no Espelho.
Olhe para a sua equipe hoje: vocês estão genuinamente de mãos dadas, construindo um propósito juntos através do Acoplamento, ou estão apenas dividindo o mesmo sinal de Wi-Fi em um ambiente de Distanciamento e competição silenciosa? Se precisar de apoio para diagnosticar esse cenário, conheça nosso processo de Mapear e Diagnosticar e os artigos sobre Gestão e Liderança.
O futuro pertencerá àqueles que souberem usar a tecnologia, sim. Mas a liderança do futuro pertencerá àqueles que nunca perderem a capacidade de se conectar humanamente.
E você, o que achou dessa atitude dos líderes de IA? Faz sentido para o momento que vivemos? Vamos conversar nos comentários! 👇
#InteligenciaRelacional #Lideranca #InteligenciaArtificial #GestaoDePessoas #FuturoDoTrabalho #HomeroReis #MaturidadeCorporativa

Por que que as pessoas discutem? Por que que, às vezes, as conversas parecem um rodopiar sem fim, sem chegar a lugar nenhum? Por que que, muitas vezes, as nossas relações dialogais são infrutíferas? Estas são questões que eu quero discutir com você nesse bate-papo que teremos nos próximos minutos. A complexidade das conversas e os resultados. Fique comigo.
René Descartes, século XVI, ele disse uma frase, uma vez, que é muito significativa para os dias de hoje. Ele dizia assim, defina os termos que as discussões cessam. O que se queria dizer com isso, numa proposta racionalista, é que a partir do momento que todos os interlocutores sabem exatamente o significado das palavras e das coisas que estão utilizando, muito provavelmente as discussões cessam, porque não há muita discordância, necessariamente, a partir do momento em que as pessoas conhecem sobre aquilo que se está falando.
E aí você passa a conversar ou a refletir mais efetivamente sobre a construção dos conteúdos do que, muito provavelmente, pela construção da significância prévia dos conteúdos. Então, quando René Descartes dizia isso, ele dizia, olha, defina os termos que as discussões cessam. Por outro lado, você descobre que, ao longo da história da humanidade, conversar tem sido um grande desafio na questão da expressão dos nossos valores e das nossas percepções de realidade e do modo como a gente percebe as coisas e gera assunto para que as relações aconteçam e se mantenham.
Então, existe um nível conversacional que eu diria que é um nível de entretenimento, que são aquelas conversas que você tem tomando uma cerveja, conversando com os amigos, rindo, que são conversas muito pouco estruturadas, mas que são conversas cujo grande objetivo é trazer em si mesmas o entretenimento relacional. Se você pensar bem, destas conversas de entretenimento, você se recorda muito pouco. Elas são extremamente efêmeras.
Então, são conversas que você as tem tomando uma cerveja, batendo um papo com os amigos na praia, falando sobre qualquer coisa, mas quando essas conversas, quando aquele setting se conclui, muito provavelmente o conteúdo dessas conversas se dissipa. Você não fica gastando a sua mente em preservar essas conversas e elas são, eu as chamo de conversas de entretenimento. Existe um outro tipo de conversa que a gente chama de conversas instrutivas ou conversas instrumentais.
São aquelas conversas que a gente tem que efetivamente determinam relações operacionais dialógicas que estão acontecendo entre aqueles atores. Então, por exemplo, você diz para um garoto, olha, coma de boca fechada, sente-se de uma forma mais adequada, por favor, cumprimente as pessoas, me traga aquele relatório, enfim. São conversas que você tem aonde você instrumentaliza, orienta as pessoas para fazerem determinadas coisas e aí, nestas conversas instrumentais, elas estão envolvidas, os pedidos estão envolvidos, as ofertas estão envolvidas, as coordenações de ações no sentido genérico das coisas estão envolvidas, as reclamações.
Então nós temos um grupo de conversas que a gente chama de conversas de entretenimento, nós temos um conjunto de conversas de coordenação de ações que são conversas para que as coisas sejam feitas, tanto do ponto de vista da minha oferta para o mundo, quanto no sentido dos pedidos e reclamações que faço, etc, que é um segundo tipo de conversa, mas tem um terceiro tipo de conversa que eu chamo de conversas nutritivas, que são as conversas que fazem com que a gente reflita sobre a natureza da nossa vida, sobre a nossa cosmovisão, sobre os nossos princípios éticos, os nossos princípios morais, os nossos princípios de valores e que regem a nossa aprendizagem enquanto membros de uma sociedade organizada e complexa na qual a gente tem que conviver com um pouco dessas disparidades entre as pessoas. E é nessas conversas nutritivas que muitas vezes a gente se exaspera, a gente discute naquele sentido de que dois diferentes observadores estão falando a mesma coisa e por não conseguirem escutar efetivamente um ao outro eles acabam discutindo sobre a mesma coisa e passam horas a fio numa dialogação, essa palavra não existe, vamos criá-la agora, numa dialogação complexa e que acaba não chegando em lugar nenhum. Então são três grandes níveis em que estas conversas acontecem.
A primeira delas é o que eu chamo de percepção estética, a segunda é o que eu chamo de gosto artístico e a terceira é o que eu chamo de distinções de mercado. Então percepção estética, gosto artístico e distinções de mercado. Por que que esses três elementos são importantes para nós orientarmos uma conversa nutritiva? Porque pelo seguinte, veja, quando eu falo de percepção estética eu estou me referindo ao conjunto de informações que o observador tem e não só da informação, mas como da sua formação acerca do objeto ao qual ele está se referindo.
Então imagine que por percepção estética é a capacidade que o observador tem de conhecer de forma efetiva as normas, os critérios, os paradigmas daquela sua área de conhecimento, de valor ou da qual ele está discutindo. Por exemplo, quando eu falo de percepção estética na arte eu estou falando da capacidade que aquele observador tem de conhecer a técnica artística utilizada, de conhecer a história da arte, de conhecer, enfim, de ter informação e conhecimento sobre os elementos que constituem aquele objeto sobre o qual ele está se falando. Então isso nós chamamos de percepção estética.
Um segundo elemento, quando eu falo de gosto artístico, eu estou falando se aquilo que você observa você gosta ou não gosta. E essa questão do gosto artístico ela é de foro íntimo. Então eu gosto ou não gosto de determinadas coisas por razões subjetivas da minha própria concepção enquanto ser humano.
E o terceiro elemento, que são as dimensões de mercado, eu começo a perceber o impacto que aquele objeto, que aquele tema que nós estamos discutindo tem na sociedade organizada como um tal. Então a isso chamamos dimensões de mercado. Deixe-me dar um exemplo a você que explica de uma forma mais ilustrativa todo esse conjunto.
Eu estava no Louvre, em Paris, certa vez agora, na questão de um ano e meio, e observando num dia de extrema sorte, o Louvre, pasmem, estava vazio nesse dia, e eu estava observando Monalisa, já o tinha feito por diversas outras ocasiões, e nesse dia como o Louvre estava vazio eu me dediquei a observar um pouco mais as pessoas que adentravam ao salão onde está a Monalisa para observar a Monalisa. Nisso aparece uma família, cinco pessoas, o pai, a mãe e três filhos. Eles andam por um caminho que estava lá previamente determinado e dão de cara com a Monalisa.
O pai, em alto e bom som, vira para a esposa e para os três filhos e diz textualmente assim, isto é Monalisa? Para mim não vale nada, não daria dez dólares por ela. Que decepção. E sai.
E a mãe, a esposa e os filhos o acompanham após essa declaração bombástica. O que aconteceu aí? Vamos analisar este fenômeno a partir desses três elementos que eu lhes apresentei. Percepção estética, gosto artístico e dimensão de mercado.
Primeiro, este pai, este senhor, pode não ter nenhuma percepção estética. Ou seja, ele não conhece da arte, ele não conhece de técnica de pintura, ele não conhece absolutamente nada sobre os elementos artísticos que estão presentes no quadro da Monalisa. Portanto, ele não tem nenhuma distinção daquilo que chamamos de percepção estética.
O segundo elemento é o gosto artístico. Ele não gosta daquele quadro. Ou seja, ele olha para aquele quadro e o quadro não desperta nele nenhuma emoção, a não ser a emoção do desgosto.
Eu não gosto daquilo que vejo, ele não me provoca absolutamente nada. Mas, no que diz respeito às distinções de mercado, este senhor não pode ignorar o fato de que ele está diante de uma obra que mobiliza milhões de pessoas ao longo do mundo, que gastam milhões de dinheiros todos os dias, ao longo de centenas de anos, para ver esse quadro. Quer dizer, um dos quadros mais visitados na história da humanidade é Monalisa de Leonardo Da Vinci.
Quer dizer, veja, eu não tenho percepção estética, o meu gosto artístico não tem nenhuma relação com aquela coisa, mas eu não posso negar o fato de que milhões de pessoas estão observando aquele quadro. Ou seja, no mínimo, eu deveria ter a humildade de perguntar o seguinte, o que que esse quadro contém que mobiliza milhões de dólares, milhares de pessoas, há centenas de anos, e que faz parte da grande curiosidade humana? Então veja, este é um exemplo interessantíssimo para a gente poder caminhar no entendimento desses processos. Agora, olha só, vamos continuar ainda com o exemplo da Monalisa e o caso do pai desgostoso de vê-la.
Eu posso agora ser um outro observador que conheço tudo sobre arte, eu entendo toda a técnica pictórica, eu entendo toda a técnica plástica, eu estudei Leonardo Da Vinci, eu estudei a estética da arte, eu estudei a história da arte, eu entendi os processos pelos quais a Monalisa foi feita, eu entendi tudo sobre aquela arte. Então eu conheço a obra, eu olho para a obra e sei dizer se ela é bem pintada, se ela é mal pintada, se ela é uma boa obra, se ela é… Enfim, eu tenho essas distinções. Olhando para a Monalisa, aí eu construo um juízo estético sobre ela.
Eu digo, olha, é um quadro bem estruturado, bem pintado, a técnica apuradíssima. Então veja, eu estou falando da minha percepção estética. Quando eu vou para o gosto artístico, eu posso, apesar disso, olhar e dizer, mesmo assim, eu não gosto da Monalisa.
Ou seja, eu sei como ela foi pintada, sei da importância, sei disso, sei daquilo, mas não gosto. Perfeito? E além disso, eu reconheço que existe uma permeação mercadológica, portanto a permeação no mercado da imagem da Monalisa, que é uma segunda abordagem. A terceira abordagem é, eu conheço a arte e, por causa disso, eu admiro a Monalisa, gosto da Monalisa, eu olho para ela e gosto do que vejo e tenho a percepção de mercado de que ela é uma obra mundialmente reconhecida.
Então, se você usa esses três critérios, isso facilita muito a sua discussão sobre qualquer coisa. Você quer ver um outro exemplo muito contextualizado para a nossa cultura? E aí eu digo respeito a mim mesmo. Por exemplo, eu não tenho nenhuma filiação com times de futebol.
Eu não gosto de futebol. Mas eu não posso negar que o futebol é uma das expressões da nossa cultura. Então, quando eu vejo centenas de milhares de pessoas reunidos num estágio vendo um Fla-Flu, repare só, eu reconheço a importância dessa partida flamenco-feminense porque existe uma paixão nacional que mobiliza milhões de pessoas em torno desse tema chamado futebol.
Então, eu não posso negar que essa partida Fla-Flu seja uma partida significativa. Então, isso são distinções de mercado. Segundo, no que diz respeito à percepção, ao gosto artístico, eu não gosto de futebol.
Então, não há nada, embora seja importante, que me atraia no futebol. E eu não tenho nenhuma percepção estética. Quer dizer, eu não conheço futebol.
Eu não saberia dizer se as pessoas gostam ou não gostam, jogam ou não jogam bem. Então, veja você, esse exemplo que eu dei para o futebol pode nos levar a quase todas as outras reflexões. Então, por exemplo, recentemente eu vi, presenciei num determinado local dois casais tendo uma acirrada discussão sobre questões religiosas que envolviam a bíblia e outros elementos religiosos aí presentes.
E a discussão estava acalorada. E eu comecei a analisar isso sob a perspectiva desses três pontos. Então, veja só.
Primeiro, eu tenho uma percepção, eu tenho uma distinções estéticas, percepções estéticas, acerca daquele fenômeno religioso que eu estou estudando. Eu conheço, por exemplo, religião. Estudei religião, estudei as manifestações religiosas, portanto eu olho para o cristianismo, para o budismo, para… ou seja, para qualquer expressão religiosa.
Por hipótese, imagine que eu conheça teológica e filosoficamente essas religiões. Eu opto agora por ser, digamos, presbiteriano ou ser evangélico. Repare, eu conheço, tenho percepções estéticas e tenho gosto artístico por uma determinada manifestação religiosa.
E não posso negar que todas as outras percepções religiosas, mesmo aquelas que eu não gosto, tem uma grande representatividade de mercado. Então, reconhecer que determinada religião tem representatividade de mercado não significa desqualificar uma para qualificar outra ou simplesmente validar uma ou validar outra. Não é essa a questão.
É eu entender que nesse universo mundial de sete bilhões, quase sete bilhões e meio de pessoas, existem manifestações de mercado para quase todas as apreciações religiosas que existem. Portanto, mercadologicamente elas têm adeptos e eu tenho que reconhecer isso. Isso é um fato.
Isso não depende de mim, portanto não cabe aqui o julgamento de certo ou errado. Na questão do gosto artístico, também não, porque veja, eu gosto de certas coisas e não gosto de certas coisas. Quer dizer, ainda do ponto de vista religioso existem certas liturgias, ou seja, modos de fazer, que eu gosto.
Outros modos de fazer eu não gosto. E aqui também não se estabelece a condição de nenhum julgamento de valor, porque é uma questão pessoal. Aqui é uma questão mercadológica, aqui é uma questão pessoal.
E nesse primeiro elemento, no que diz respeito às construções daquilo que eu estou chamando de percepções estéticas, aqui diz respeito ao grau de conhecimento que eu tenho daquela coisa. Também diz respeito ao volume de informação e de formação que eu tenho. O que me faz dizer que eu conheço tal coisa, mas não conheço outra coisa e eu aceito aquilo que eu conheço.
Entende? Então veja, percepção estética, gosto artístico e distinções de mercado, se eu tenho essas três coisas claramente na minha forma de percepção da realidade, você vai descobrir que as minhas conversas se tornam muito mais nutritivas. Então, por exemplo, muitas vezes o meu gosto artístico não é favorável a determinada distinção de mercado porque me falta a percepção estética. E então muitas vezes uma pessoa, quando me diz assim, ô Mero, eu não gosto de música clássica, gosto artístico, esta pessoa o faz porque ela não tem formação estética suficiente para poder fazer um juízo sobre isso.
E o que a gente tem percebido nas conversas nutritivas é que muitas vezes o não gostar é decorrência da ignorância da percepção estética. Então o que a gente faz? Quando eu tenho essa distinção na minha cabeça e eu descubro que eu não gosto de alguma coisa, eu preciso primeiro perguntar o seguinte, eu não gosto porque eu sou ignorante com relação à percepção estética ou eu não gosto porque conhecendo a percepção estética, eu agora não opto por aquilo. E agora não posso negar em nenhum momento de que existe volume mercadológico suficiente.
Recentemente eu estava em Las Vegas, ali no Rock in Rio em Las Vegas, eu andava lá no último dia, fui lá assistir o encerramento daquele show maravilhoso. A produção do show é fantástica a mobilização do show é fantástica. Então milhares de pessoas estavam ali.
Eu não posso negar as distinções de mercado. Agora se você me pergunta se eu gosto daquele tipo de música, não. Agora eu conheço essa, conheço, conheço.
Eu conheço rock and roll, eu conheço samba, eu conheço a estrutura da música, eu conheço a história da música, eu conheço essa história da arte, eu conheço um pouco de onde vem a música clássica, como é que ela se fundamentou nos seus diversos matizes, nos seus diversos atores. Então veja, embora conheça eu não gosto, mas não posso negar a sua representatividade mercadológica. Isso faz com que agora a discussão ou ela se dá no limite de coisas que eu não conheço sobre o rock que se vier a conhecer eu passo a gostar ou a conversa agora transita simplesmente pelo fato de gostar ou não gostar e isso não me leva a lugar nenhum.
Portanto se eu estou interessado em mudar o meu gosto eu preciso aprofundar o meu conhecimento, mas mesmo assim aprofundando o conhecimento isso não é garantia suficiente para que eu mude o meu gostar. Em outras palavras, eu posso aprofundar indefinidamente o meu conhecimento sobre determinada coisa e continuar não gostando dela embora não possa negar a sua realidade mercada. Então eu quero deixar isso com você como uma forma de você refletir sobre a natureza das suas conversas nutritivas para que elas se tornem conversas que te nutrem e não conversas que lhe desgastem.
Resumindo, todas as pessoas podem gostar ou não, isso é um direito que você tem e não cabe sobre isso juízo meu. Eu não posso lhe forçar a gostar ou não gostar de coisa alguma. Agora você deve ser responsável por ter formação e informação acerca das coisas que você conversa, porque se você tem formação e informação sobre as coisas que você conversa você me ajuda naquilo que eu não sei e isso pode alterar o meu gosto artístico.
Agora lembre-se, essa alteração é de foro íntimo. Em terceiro lugar, eu preciso perceber que existe uma representatividade de mercado. Essa representatividade é infinitamente maior do que aquilo que eu sei ou não sei, do que aquilo que eu gosto ou não gosto.
É uma circunstância de mercado. Esses tempos atrás eu conversava com um amigo sobre esse tema e nós discutimos o seguinte, e eu refletia com ele sobre o seguinte aspecto. Por exemplo, existe um conjunto de músicas que hoje se veicula no mercado nacional que são músicas que eu não gosto, portanto fazem parte daquele segundo elemento do gosto artístico, eu simplesmente não gosto.
Conheço aquelas músicas, conheço. Há uma representatividade de mercado? Sim, vendem-se milhões de discos daquelas músicas que eu não gosto. Agora, quando você submete essas músicas aos critérios técnicos de elaboração de uma música enquanto arte, você descobre que elas deixam muito a desejar do ponto de vista da construção estética.
Ou seja, elas não atendem aos princípios normativos da estética, mas são populares. Isso as invalida de hipótese alguma, mas as tira da qualificação de uma música um pouco mais elaborada, de uma música um pouco mais erudita. Aí, isso você diz respeito, por exemplo, à literatura.
Portanto, eu diria para você, não existem livros ruins e livros bons. Existem livros mal escritos e livros bem escritos. Então, nessa questão dos livros, que não existem livros bons nem ruins, livros mal escritos e bem escritos, isso diz respeito a quase todos os assuntos com os quais nós lidamos no nosso dia a dia.
Qual é o desafio nosso? É você perceber uma coisa bem interessante. Existem coisas populares que são esteticamente ruins. E existem pessoas que gostam ou não gostam destas coisas, do ponto de vista do seu gosto artístico.
Agora, existe uma norma que gerencia, que estabelece as bases para as quais as coisas sejam feitas. Então, estas coisas merecem o meu conhecimento. Então, veja, eu não posso, em nome de uma liberdade qualquer, escrever um livro cometendo erros de português porque é a minha forma de escrever.
Não. Se você quer escrever, você tem que seguir a norma. Essa norma é dinâmica com relação ao tempo, sim, mas diz respeito às chamadas percepções estéticas.
Quem é que escreve melhor, do ponto de vista da forma? Quem conhece melhor a forma? Isso é garantia de que as pessoas vão gostar? Não. Isso é garantia de que há mercado? Também não. Tanto é que existem muita coisa bem escrita que não tem representação de mercado.
Existe música bem composta, bem elaborada, bem executada e que não tem repercussão de mercado. Algumas pessoas gostam, outras não. Então, o que a gente precisa entender é que se eu tenho discernimento destas três coisas, eu consigo agora interagir com você numa conversa em que eu começo a me nutrir daquilo que você sabe que eu não sei e eu começo a lhe nutrir daquilo que eu sei que você não sabe.
E esse processo de nutrição poderá alterar o nosso gosto sobre as coisas e isso é desenvolver, isso é mudar, isso é crescer, isso é aprender. Isso vai ter repercussão de mercado para nós? Pode ser que sim, pode ser que não, mas aí já não é mais um nível de controle nosso, mas um nível de percepção da realidade. Fique com isso, percepção estética, gosto artístico, dimensões de mercado.
Essas três coisas caracterizam de forma mais efetiva as conversas nutritivas que são aquelas conversas que nos tornam melhores nas nossas relações. Fique com isso. Um beijo!

por Homero Reis
Há uma história que me acompanha há muitos anos. Eu a conto de diferentes maneiras, em contextos distintos, mas sua essência permanece a mesma. É uma história simples, quase infantil, mas quanto mais a examino, mais percebo que ela carrega em si o drama inteiro da civilização. Eu a chamo de “A História Dos Homens E Dos Lobos”.
No princípio, e esse princípio não é um ponto no tempo, mas uma condição do viver, todos os seres estavam inscritos em uma complementaridade sistêmica. Não uso essa expressão de maneira ingênua; uso-a no sentido antropológico que observa vestígios arqueológicos, pinturas rupestres, ferramentas quebradas, ossadas espalhadas, encontrados no que chamo de lixo civilizatório.
A vida, naquele momento originário, obedecia a uma lógica simples: a da interdependência. O lobo comia a ovelha quando tinha fome. O homem também fazia o mesmo. Não havia moralização da cadeia alimentar. Havia necessidade. Havia sobrevivência. Havia um equilíbrio dinâmico inscrito na própria natureza da vida e nos seus ciclos.
Mas, em algum momento, e essa é a inflexão decisiva da história, algo mudou. Não se sabe exatamente quando, nem como. Sabe-se apenas que os vestígios arqueológicos indicam que os lobos começaram a morrer de forma diferente. Não apenas por fome, doença ou disputa intraespécie; mas, com crânios perfurados, com pontas de flecha cravadas no tórax. Esses “encontrados” são sinais inequívocos de agressão deliberada feita pelos “então humanos”. Isso significa uma coisa: os homens começaram a matar os lobos não para comer, mas para impedir que eles comessem do que lhes era também de direito, por exemplo, as ovelhas, considerando o equilíbrio natural. E aqui nasce a ruptura.
A Primeira Apropriação
Quando os homens cercaram as ovelhas e disseram “estas ovelhas são nossas”, inauguraram algo que não existia antes: a propriedade exclusiva de um bem coletivo.
Antes disso, a ovelha era parte do ecossistema. Ela não “pertencia” ao lobo, nem ao homem. Ela fazia parte de um fluxo. O lobo a comia. O homem também e a vida seguia.
Mas, ao cerca-las, impedindo que os lobos tivessem acesso a elas, o homem não apenas “as protegeu”, como reivindicou exclusividade sobre elas. E toda exclusividade precisa de defesa: a defesa gerou conflito; o conflito gerou medo; e, o medo gerou comando e controle. Eis aí o início de nossa atual forma de nos movermos no mundo. Mas, tem mais.
Aprendi, ao longo da minha trajetória refletindo sobre Inteligência Relacional, que todo sistema baseado em controle nasce do medo. E aqui vejo o nascimento do medo estruturado como cultura. Não era apenas o medo da fome. Era o medo da perda da posse. Era o início da individualização das coisas e das relações numa estrutura de poder danosa.
A partir desse momento, a ovelha deixou de ser alimento compartilhado no fluxo da vida e tornou-se capital acumulado. E onde há capital acumulado, há necessidade de vigilância e desigualdade social gritante.
O Segundo Movimento: A Dominação Entre Homens
Mas a história não para aí. Há um segundo momento ainda mais revelador. Se, no primeiro movimento, os homens se colocaram contra os lobos, no segundo eles se colocaram uns contra os outros.
Em algum ponto do processo, um homem, ou um grupo específico de homens, declarou:
“Estas ovelhas são minhas.” Não “nossas”. Minhas.
Essa palavra inaugura a hierarquia. Agora, não apenas os lobos estão excluídos. Outros homens também estão. E o acesso ao alimento passa a depender de uma nova condição: submissão ao proprietário: se você quiser comer, trabalhe para mim; se você quiser viver, submeta-se à minha estrutura; se quiser viver, me obedeça. Aqui nasce o que mais tarde chamaríamos de sistema econômico hierarquizado. E aqui começa a consolidação do patriarcado, sustentado por uma narrativa de poder ideologicamente construído, ou por “força física”, ou por manipulação da ignorância (esoterismo, misticismo e demais coisas semelhantes).
Patriarcado: A Cultura do Comando
Quando observo esse processo, percebo que o patriarcado não é apenas uma organização social masculina. Ele é uma matriz emocional que se fundamenta em três pilares: apropriação exclusiva; controle do acesso; hierarquização baseada no medo; ideologia da diferenciação baseada em narrativas esotéricas, místicas e outras que tais, como forma de legitimar o poder.
O fato do homem está no centro do patriarcado, decorreu de uma situação interessante, que exploro em outro ensaio, “O Cálice e a Espada”.
O patriarcado transforma a interdependência em dependência unilateral. Ele substitui o fluxo pela retenção. Ele troca cooperação por dominação. Eu aprendi com Humberto Maturana, especialmente em Amar e Brincar, que existem culturas baseadas no controle e na competição, e culturas baseadas na colaboração e no cuidado. A primeira estrutura-se na negação do outro como legítimo outro. A segunda reconhece o outro como parte constitutiva do sistema. O patriarcado, na minha leitura, nasce exatamente no momento em que o outro deixa de ser legítimo. Primeiro o lobo.
Depois o homem vizinho. E, mais tarde, a mulher, quando se “descobre a relação direta entre o coito e a gravidez”. Nesse momento a gravidez deixa de ser uma “concepção divina”, para ser resultado da “semente” do homem; e, a mulher deixa de ser uma “representação da divindade” e passa a ser uma incubadora do “macho dominante”.
Em resumo: a “descoberta” da relação direta entre coito, gestação e parto, tirou da mulher a condição de sacralidade da “produção de um novo ser”, e colocou tal possibilidade “na semente masculina”. A mulher tornou-se a incubadora e o homem o “representante” dos deuses. Isso o tronou o centro do poder e, portanto, a estrutura básica do patriarcado.
O Medo Como Fundamento Civilizatório
Não posso deixar de relacionar essa história com os “Quatro Gigantes da Alma”, livro de Emilio Mira y López, sobre o qual tantas vezes revisitei em minha obra.
O medo, um dos gigantes, quando é guardião, nos protege. Mas quando se torna carcereiro, nos aprisiona. Aqui, o medo deixa de ser instinto de sobrevivência e passa a ser instrumento de controle social. O dono das ovelhas precisa que os outros homens temam perder o acesso ao alimento. O sistema se sustenta na escassez administrada.
E quando o medo se institucionaliza, nasce o Estado coercitivo, a economia concentrada, a guerra preventiva, a violência legitimada.
A partir da cerca das ovelhas, começa a cerca das terras. Depois a cerca das fronteiras e as cercas ideológicas. O mundo passa a ser organizado por limites impostos e defendidos pela força.
A Cultura Matrística: Outra Possibilidade
Mas a história dos homens e dos lobos não é apenas denúncia. Ela é também possibilidade. Existe outro modo de viver.
A lógica do caçador existiu de fato, e ainda existe no nosso “inconsciente coletivo”; mas, paralelamente, aparece na história da humanidade, a lógica do agricultor. Enquanto o caçador se orienta pela captura e pelo controle, o agricultor se orienta pelo cultivo e pela renovação. O agricultor não domina a terra; ele coopera com ela. Ele não acumula para excluir; ele cultiva para compartilhar.
Aqui aproximo-me daquilo que Maturana chama de cultura matrística, não no sentido biológico, mas no sentido emocional e relacional .A cultura matrística se organiza pela convivência, pela reciprocidade e pela horizontalidade. Ela não elimina o conflito, mas não o estrutura como sistema permanente. Ela não depende da exclusão para se afirmar.
Um exemplo contemporâneo disso são as olimpíadas: há competição, há disputa, há “luta”, mas não há inimizade: vencedores e vencidos, ao final, irmanam-se na celebração da vida.
Amar e Brincar: A Raiz da Cooperação
Quando penso na cultura matrística, penso na experiência do brincar. No brincar não há hierarquia fixa. Há coordenação. Há alternância. Há criatividade compartilhada.
A criança que brinca não domina o brinquedo para excluir o outro. O brincar é o espaço da convivência sem medo, embora haja nele conflitos, relações de poder; mas não há inimizades. Amar, no sentido maturânico, é reconhecer o outro como legítimo outro na convivência, nessa dinâmica exploratória das relações.
Se aplico essa lente à história dos homens e dos lobos, percebo que o ponto de ruptura foi justamente a negação da legitimidade do outro. O lobo deixou de ser parte do sistema e passou a ser ameaça. O homem vizinho deixou de ser parceiro e passou a ser competidor. A mulher deixou de ser co-criadora e passou a ser subordinada. O que é ou pensa diferente, deixou de ser possibilidade para ser ameaça.
O Nascimento da Estrutura Hierárquica
A partir da “cerca das ovelhas”, surge algo que se repete até hoje:
- A propriedade privada concentrada.
- O trabalho como condição de acesso.
- A remuneração mínima como forma de controle.
- A obediência como moeda de sobrevivência.
A história que conto é primitiva, mas sua lógica é contemporânea. Hoje as ovelhas podem ser substituídas por capital financeiro, tecnologia, informação, terras, dados; mas, a estrutura permanece: quem controla o recurso controla o acesso; quem controla o acesso controla as pessoas; quem controla as pessoas controla o que elas pensam; quem controla o que o outro pensa cria ideologias de conveniência; e quem controla as ideologias de conveniência, mantém o sistema; quem controla o sistema, controla o recurso. Assim, o ciclo se mantém.
A Transição Necessária
Eu não conto essa história para romantizar o passado nem para demonizar o presente. Conto-a para revelar a matriz relacional que sustenta nossas instituições. Se o patriarcado nasceu do medo da perda, a restauração da cultura matrística exige confiança.
Confiança é um ato relacional. Ela não nasce da imposição, mas da reciprocidade. Ela exige que eu veja o outro não como ameaça ao meu estoque de ovelhas, mas como parceiro na produção de novos campos. Essa transição não é apenas estrutural. É ontológica. Ela exige mudança no modo como observamos as coisas para interferir nelas.
Se sou um observador formado pela lógica do controle, minhas ações gerarão resultados de dominação. Se torno-me um observador relacional, minhas ações produzirão cooperação.
A História Continua
Hoje, quando olho para o mundo, vejo homens ainda lutando contra lobos imaginários, vejo sistemas construídos sobre o medo de perder. Vejo muros sendo erguidos. Vejo discursos de exclusividade e exclusão.
Mas também vejo algo diferente surgindo, quando percebo o movimento das minorias por vez e voz. Aí vejo redes colaborativas, economias solidárias, lideranças que trocam comando por cuidado, empresas e organizações que substituem controle por confiança.
A transição da cultura patriarcal para a restauração da cultura matrística não é um retorno ao passado. É um salto evolutivo. Ela não elimina a força. Ela redireciona a força para a proteção da vida, não da posse. Ela não elimina a liderança. Ela transforma liderança em serviço.
Mas, acima de tudo, ela reconhece a igualdade de gênero com condição indispensável parra uma humanidade restaurada em sua saúde relacional. Isso porque o patriarcado não possui em si mesmo, todas as distinções relacionais para aquilo que chamamos de humano. A cultura matrística integra essas distinções.
A Pergunta Final
A história dos homens e dos lobos me deixa sempre com algumas perguntas nas quais debruço minhas atenções, pesquisas e estudos:
- O que estamos cercando hoje?
- Quais são as ovelhas que declaramos exclusivamente nossas?
- Quais lobos estamos “matando” por medo?
- Por que precisamos enxergar o diferente como inimigo?
- Em que momento perdemos a capacidade de conversar para resolver nossas “questões”?
Preocupa-me o fato de que em pleno século XXI, com tanta tecnologia e informação disponível, com tanta conexão à nossa disposição, ainda encontramos pessoas que creem que “jogar bomba na cabeça uns dos outros” é a melhor forma de resolver os dramas da humanidade. Para mim, a cultura do patriarcado sofre de uma profunda miopia relacional e a cultura matrística surge como uma possibilidade restauradora de todas as coisas que nos são genuína e essencialmente humanas.
Mas, sobretudo e para isso, precisamos nos perguntar: estamos dispostos a desmontar as cercas internas que sustentam nosso próprio patriarcado emocional? Porque, no fundo, o patriarcado não é apenas uma estrutura social externa. Ele é uma estrutura interna de controle. Por sua vez, a cultura matrística começa quando eu deixo de viver como proprietário do mundo e passo a viver como cuidador do vínculo.
Reflitam em paz!


Recentemente, uma cena inusitada dominou os noticiários de tecnologia: durante um encontro global, os grandes chefões das gigantes de Inteligência Artificial — incluindo nomes de peso como Sam Altman (OpenAI), Sundar Pichai (Google/Alphabet), Satya Nadella (Microsoft), Mark Zuckerberg (Meta) e Elon Musk (xAI) — simplesmente se recusaram a dar as mãos para a tradicional foto em grupo. O constrangimento foi visível. A tentativa de demonstrar união falhou publicamente.
Como estudioso do comportamento humano, não pude deixar de analisar esse episódio sob a ótica da Inteligência Relacional (IR), tema que desenvolvo há mais de três décadas em meus livros da Coleção Inteligência Relacional e no Método QR.
Esses líderes possuem um QI (Quociente de Inteligência) formidável. São mentes brilhantes que estão desenhando o futuro da humanidade através de algoritmos, machine learning e redes neurais complexas. No entanto, a cena expõe um déficit preocupante em outro quociente vital para a nossa espécie: o QR (Quociente Relacional).
O que a recusa daquele simples gesto físico revela sobre o mundo corporativo que estamos construindo?
1. O excesso de Relações Instrumentais e a falta de Relações Nutritivas
Na Teoria da Inteligência Relacional, entendemos que grande parte do adoecimento corporativo moderno vem da superficialidade. Na “sociedade líquida” em que vivemos — conceito cunhado pelo sociólogo Zygmunt Bauman —, os relacionamentos muitas vezes se tornam puramente instrumentais: você vale o que você entrega. Quando líderes de mercado se encontram apenas como competidores vorazes, não existe o que chamamos de ERA (Espaço Reflexivo da Aprendizagem). Sem esse espaço de confiança, tentar forçar um gesto de união (dar as mãos) torna-se uma hipocrisia insustentável. O corpo, que não mente, simplesmente trava.
2. A ausência de Ressonância Límbica e Acoplamento
Dois dos pilares da Inteligência Relacional são a Ressonância Límbica (a nossa capacidade humana de entrar em sintonia com a emoção do outro, de ter empatia) e o Acoplamento (a habilidade de nos complementarmos, unindo forças para um bem maior). A atitude dos CEOs é a materialização do oposto disso: o Distanciamento. Quando a Força Excêntrica (o modo como nos expressamos para o mundo) está sob pressão e vemos o “Outro” apenas como uma ameaça ou um rival a ser batido, a nossa resposta natural é o isolamento e a esquiva. Esse padrão está diretamente ligado ao que abordamos nos nossos programas de palestras corporativas.
3. O Paradoxo do Futuro: Máquinas humanizadas, humanos mecanizados?
Como destaco em minhas reflexões sobre “A Gestação do Futuro”, estamos criando máquinas cada vez mais capazes de simular conversas, emoções e empatia, enquanto nós, humanos, estamos nos comportando cada vez mais como máquinas frias, programadas apenas para competir e bater metas. Não por acaso, pesquisas recentes do Harvard Business Review reforçam que a vantagem competitiva do futuro será híbrida: humanos com IA substituirão humanos sem IA — mas apenas quem souber cultivar conexões humanas genuínas liderará essa transição.
Como nos alertou Chaplin de forma magistral em O Grande Ditador: “Não sois máquinas! Homens é que sois!” Se os criadores das tecnologias que vão reger o amanhã não conseguem dar as mãos, reconhecer a legitimidade do outro e estabelecer um mínimo de respeito colaborativo, que tipo de futuro estamos gestando?
A reflexão para nós, Líderes e Gestores
Não precisamos ser amigos íntimos de nossos concorrentes ou concordar com tudo o que nossos colegas dizem. A Inteligência Relacional não exige que sejamos iguais. Ela exige que saibamos lidar com a diferença sem que ela seja vista como uma ameaça mortal. Requer a maturidade de sentar à mesa (ou posar para uma foto) compreendendo que, apesar da concorrência, o respeito e o reconhecimento da humanidade do outro são inegociáveis. Esse é o cerne do que ensino em Gente Inteligente Se Olha no Espelho.
Olhe para a sua equipe hoje: vocês estão genuinamente de mãos dadas, construindo um propósito juntos através do Acoplamento, ou estão apenas dividindo o mesmo sinal de Wi-Fi em um ambiente de Distanciamento e competição silenciosa? Se precisar de apoio para diagnosticar esse cenário, conheça nosso processo de Mapear e Diagnosticar e os artigos sobre Gestão e Liderança.
O futuro pertencerá àqueles que souberem usar a tecnologia, sim. Mas a liderança do futuro pertencerá àqueles que nunca perderem a capacidade de se conectar humanamente.
E você, o que achou dessa atitude dos líderes de IA? Faz sentido para o momento que vivemos? Vamos conversar nos comentários! 👇
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Por que que as pessoas discutem? Por que que, às vezes, as conversas parecem um rodopiar sem fim, sem chegar a lugar nenhum? Por que que, muitas vezes, as nossas relações dialogais são infrutíferas? Estas são questões que eu quero discutir com você nesse bate-papo que teremos nos próximos minutos. A complexidade das conversas e os resultados. Fique comigo.
René Descartes, século XVI, ele disse uma frase, uma vez, que é muito significativa para os dias de hoje. Ele dizia assim, defina os termos que as discussões cessam. O que se queria dizer com isso, numa proposta racionalista, é que a partir do momento que todos os interlocutores sabem exatamente o significado das palavras e das coisas que estão utilizando, muito provavelmente as discussões cessam, porque não há muita discordância, necessariamente, a partir do momento em que as pessoas conhecem sobre aquilo que se está falando.
E aí você passa a conversar ou a refletir mais efetivamente sobre a construção dos conteúdos do que, muito provavelmente, pela construção da significância prévia dos conteúdos. Então, quando René Descartes dizia isso, ele dizia, olha, defina os termos que as discussões cessam. Por outro lado, você descobre que, ao longo da história da humanidade, conversar tem sido um grande desafio na questão da expressão dos nossos valores e das nossas percepções de realidade e do modo como a gente percebe as coisas e gera assunto para que as relações aconteçam e se mantenham.
Então, existe um nível conversacional que eu diria que é um nível de entretenimento, que são aquelas conversas que você tem tomando uma cerveja, conversando com os amigos, rindo, que são conversas muito pouco estruturadas, mas que são conversas cujo grande objetivo é trazer em si mesmas o entretenimento relacional. Se você pensar bem, destas conversas de entretenimento, você se recorda muito pouco. Elas são extremamente efêmeras.
Então, são conversas que você as tem tomando uma cerveja, batendo um papo com os amigos na praia, falando sobre qualquer coisa, mas quando essas conversas, quando aquele setting se conclui, muito provavelmente o conteúdo dessas conversas se dissipa. Você não fica gastando a sua mente em preservar essas conversas e elas são, eu as chamo de conversas de entretenimento. Existe um outro tipo de conversa que a gente chama de conversas instrutivas ou conversas instrumentais.
São aquelas conversas que a gente tem que efetivamente determinam relações operacionais dialógicas que estão acontecendo entre aqueles atores. Então, por exemplo, você diz para um garoto, olha, coma de boca fechada, sente-se de uma forma mais adequada, por favor, cumprimente as pessoas, me traga aquele relatório, enfim. São conversas que você tem aonde você instrumentaliza, orienta as pessoas para fazerem determinadas coisas e aí, nestas conversas instrumentais, elas estão envolvidas, os pedidos estão envolvidos, as ofertas estão envolvidas, as coordenações de ações no sentido genérico das coisas estão envolvidas, as reclamações.
Então nós temos um grupo de conversas que a gente chama de conversas de entretenimento, nós temos um conjunto de conversas de coordenação de ações que são conversas para que as coisas sejam feitas, tanto do ponto de vista da minha oferta para o mundo, quanto no sentido dos pedidos e reclamações que faço, etc, que é um segundo tipo de conversa, mas tem um terceiro tipo de conversa que eu chamo de conversas nutritivas, que são as conversas que fazem com que a gente reflita sobre a natureza da nossa vida, sobre a nossa cosmovisão, sobre os nossos princípios éticos, os nossos princípios morais, os nossos princípios de valores e que regem a nossa aprendizagem enquanto membros de uma sociedade organizada e complexa na qual a gente tem que conviver com um pouco dessas disparidades entre as pessoas. E é nessas conversas nutritivas que muitas vezes a gente se exaspera, a gente discute naquele sentido de que dois diferentes observadores estão falando a mesma coisa e por não conseguirem escutar efetivamente um ao outro eles acabam discutindo sobre a mesma coisa e passam horas a fio numa dialogação, essa palavra não existe, vamos criá-la agora, numa dialogação complexa e que acaba não chegando em lugar nenhum. Então são três grandes níveis em que estas conversas acontecem.
A primeira delas é o que eu chamo de percepção estética, a segunda é o que eu chamo de gosto artístico e a terceira é o que eu chamo de distinções de mercado. Então percepção estética, gosto artístico e distinções de mercado. Por que que esses três elementos são importantes para nós orientarmos uma conversa nutritiva? Porque pelo seguinte, veja, quando eu falo de percepção estética eu estou me referindo ao conjunto de informações que o observador tem e não só da informação, mas como da sua formação acerca do objeto ao qual ele está se referindo.
Então imagine que por percepção estética é a capacidade que o observador tem de conhecer de forma efetiva as normas, os critérios, os paradigmas daquela sua área de conhecimento, de valor ou da qual ele está discutindo. Por exemplo, quando eu falo de percepção estética na arte eu estou falando da capacidade que aquele observador tem de conhecer a técnica artística utilizada, de conhecer a história da arte, de conhecer, enfim, de ter informação e conhecimento sobre os elementos que constituem aquele objeto sobre o qual ele está se falando. Então isso nós chamamos de percepção estética.
Um segundo elemento, quando eu falo de gosto artístico, eu estou falando se aquilo que você observa você gosta ou não gosta. E essa questão do gosto artístico ela é de foro íntimo. Então eu gosto ou não gosto de determinadas coisas por razões subjetivas da minha própria concepção enquanto ser humano.
E o terceiro elemento, que são as dimensões de mercado, eu começo a perceber o impacto que aquele objeto, que aquele tema que nós estamos discutindo tem na sociedade organizada como um tal. Então a isso chamamos dimensões de mercado. Deixe-me dar um exemplo a você que explica de uma forma mais ilustrativa todo esse conjunto.
Eu estava no Louvre, em Paris, certa vez agora, na questão de um ano e meio, e observando num dia de extrema sorte, o Louvre, pasmem, estava vazio nesse dia, e eu estava observando Monalisa, já o tinha feito por diversas outras ocasiões, e nesse dia como o Louvre estava vazio eu me dediquei a observar um pouco mais as pessoas que adentravam ao salão onde está a Monalisa para observar a Monalisa. Nisso aparece uma família, cinco pessoas, o pai, a mãe e três filhos. Eles andam por um caminho que estava lá previamente determinado e dão de cara com a Monalisa.
O pai, em alto e bom som, vira para a esposa e para os três filhos e diz textualmente assim, isto é Monalisa? Para mim não vale nada, não daria dez dólares por ela. Que decepção. E sai.
E a mãe, a esposa e os filhos o acompanham após essa declaração bombástica. O que aconteceu aí? Vamos analisar este fenômeno a partir desses três elementos que eu lhes apresentei. Percepção estética, gosto artístico e dimensão de mercado.
Primeiro, este pai, este senhor, pode não ter nenhuma percepção estética. Ou seja, ele não conhece da arte, ele não conhece de técnica de pintura, ele não conhece absolutamente nada sobre os elementos artísticos que estão presentes no quadro da Monalisa. Portanto, ele não tem nenhuma distinção daquilo que chamamos de percepção estética.
O segundo elemento é o gosto artístico. Ele não gosta daquele quadro. Ou seja, ele olha para aquele quadro e o quadro não desperta nele nenhuma emoção, a não ser a emoção do desgosto.
Eu não gosto daquilo que vejo, ele não me provoca absolutamente nada. Mas, no que diz respeito às distinções de mercado, este senhor não pode ignorar o fato de que ele está diante de uma obra que mobiliza milhões de pessoas ao longo do mundo, que gastam milhões de dinheiros todos os dias, ao longo de centenas de anos, para ver esse quadro. Quer dizer, um dos quadros mais visitados na história da humanidade é Monalisa de Leonardo Da Vinci.
Quer dizer, veja, eu não tenho percepção estética, o meu gosto artístico não tem nenhuma relação com aquela coisa, mas eu não posso negar o fato de que milhões de pessoas estão observando aquele quadro. Ou seja, no mínimo, eu deveria ter a humildade de perguntar o seguinte, o que que esse quadro contém que mobiliza milhões de dólares, milhares de pessoas, há centenas de anos, e que faz parte da grande curiosidade humana? Então veja, este é um exemplo interessantíssimo para a gente poder caminhar no entendimento desses processos. Agora, olha só, vamos continuar ainda com o exemplo da Monalisa e o caso do pai desgostoso de vê-la.
Eu posso agora ser um outro observador que conheço tudo sobre arte, eu entendo toda a técnica pictórica, eu entendo toda a técnica plástica, eu estudei Leonardo Da Vinci, eu estudei a estética da arte, eu estudei a história da arte, eu entendi os processos pelos quais a Monalisa foi feita, eu entendi tudo sobre aquela arte. Então eu conheço a obra, eu olho para a obra e sei dizer se ela é bem pintada, se ela é mal pintada, se ela é uma boa obra, se ela é… Enfim, eu tenho essas distinções. Olhando para a Monalisa, aí eu construo um juízo estético sobre ela.
Eu digo, olha, é um quadro bem estruturado, bem pintado, a técnica apuradíssima. Então veja, eu estou falando da minha percepção estética. Quando eu vou para o gosto artístico, eu posso, apesar disso, olhar e dizer, mesmo assim, eu não gosto da Monalisa.
Ou seja, eu sei como ela foi pintada, sei da importância, sei disso, sei daquilo, mas não gosto. Perfeito? E além disso, eu reconheço que existe uma permeação mercadológica, portanto a permeação no mercado da imagem da Monalisa, que é uma segunda abordagem. A terceira abordagem é, eu conheço a arte e, por causa disso, eu admiro a Monalisa, gosto da Monalisa, eu olho para ela e gosto do que vejo e tenho a percepção de mercado de que ela é uma obra mundialmente reconhecida.
Então, se você usa esses três critérios, isso facilita muito a sua discussão sobre qualquer coisa. Você quer ver um outro exemplo muito contextualizado para a nossa cultura? E aí eu digo respeito a mim mesmo. Por exemplo, eu não tenho nenhuma filiação com times de futebol.
Eu não gosto de futebol. Mas eu não posso negar que o futebol é uma das expressões da nossa cultura. Então, quando eu vejo centenas de milhares de pessoas reunidos num estágio vendo um Fla-Flu, repare só, eu reconheço a importância dessa partida flamenco-feminense porque existe uma paixão nacional que mobiliza milhões de pessoas em torno desse tema chamado futebol.
Então, eu não posso negar que essa partida Fla-Flu seja uma partida significativa. Então, isso são distinções de mercado. Segundo, no que diz respeito à percepção, ao gosto artístico, eu não gosto de futebol.
Então, não há nada, embora seja importante, que me atraia no futebol. E eu não tenho nenhuma percepção estética. Quer dizer, eu não conheço futebol.
Eu não saberia dizer se as pessoas gostam ou não gostam, jogam ou não jogam bem. Então, veja você, esse exemplo que eu dei para o futebol pode nos levar a quase todas as outras reflexões. Então, por exemplo, recentemente eu vi, presenciei num determinado local dois casais tendo uma acirrada discussão sobre questões religiosas que envolviam a bíblia e outros elementos religiosos aí presentes.
E a discussão estava acalorada. E eu comecei a analisar isso sob a perspectiva desses três pontos. Então, veja só.
Primeiro, eu tenho uma percepção, eu tenho uma distinções estéticas, percepções estéticas, acerca daquele fenômeno religioso que eu estou estudando. Eu conheço, por exemplo, religião. Estudei religião, estudei as manifestações religiosas, portanto eu olho para o cristianismo, para o budismo, para… ou seja, para qualquer expressão religiosa.
Por hipótese, imagine que eu conheça teológica e filosoficamente essas religiões. Eu opto agora por ser, digamos, presbiteriano ou ser evangélico. Repare, eu conheço, tenho percepções estéticas e tenho gosto artístico por uma determinada manifestação religiosa.
E não posso negar que todas as outras percepções religiosas, mesmo aquelas que eu não gosto, tem uma grande representatividade de mercado. Então, reconhecer que determinada religião tem representatividade de mercado não significa desqualificar uma para qualificar outra ou simplesmente validar uma ou validar outra. Não é essa a questão.
É eu entender que nesse universo mundial de sete bilhões, quase sete bilhões e meio de pessoas, existem manifestações de mercado para quase todas as apreciações religiosas que existem. Portanto, mercadologicamente elas têm adeptos e eu tenho que reconhecer isso. Isso é um fato.
Isso não depende de mim, portanto não cabe aqui o julgamento de certo ou errado. Na questão do gosto artístico, também não, porque veja, eu gosto de certas coisas e não gosto de certas coisas. Quer dizer, ainda do ponto de vista religioso existem certas liturgias, ou seja, modos de fazer, que eu gosto.
Outros modos de fazer eu não gosto. E aqui também não se estabelece a condição de nenhum julgamento de valor, porque é uma questão pessoal. Aqui é uma questão mercadológica, aqui é uma questão pessoal.
E nesse primeiro elemento, no que diz respeito às construções daquilo que eu estou chamando de percepções estéticas, aqui diz respeito ao grau de conhecimento que eu tenho daquela coisa. Também diz respeito ao volume de informação e de formação que eu tenho. O que me faz dizer que eu conheço tal coisa, mas não conheço outra coisa e eu aceito aquilo que eu conheço.
Entende? Então veja, percepção estética, gosto artístico e distinções de mercado, se eu tenho essas três coisas claramente na minha forma de percepção da realidade, você vai descobrir que as minhas conversas se tornam muito mais nutritivas. Então, por exemplo, muitas vezes o meu gosto artístico não é favorável a determinada distinção de mercado porque me falta a percepção estética. E então muitas vezes uma pessoa, quando me diz assim, ô Mero, eu não gosto de música clássica, gosto artístico, esta pessoa o faz porque ela não tem formação estética suficiente para poder fazer um juízo sobre isso.
E o que a gente tem percebido nas conversas nutritivas é que muitas vezes o não gostar é decorrência da ignorância da percepção estética. Então o que a gente faz? Quando eu tenho essa distinção na minha cabeça e eu descubro que eu não gosto de alguma coisa, eu preciso primeiro perguntar o seguinte, eu não gosto porque eu sou ignorante com relação à percepção estética ou eu não gosto porque conhecendo a percepção estética, eu agora não opto por aquilo. E agora não posso negar em nenhum momento de que existe volume mercadológico suficiente.
Recentemente eu estava em Las Vegas, ali no Rock in Rio em Las Vegas, eu andava lá no último dia, fui lá assistir o encerramento daquele show maravilhoso. A produção do show é fantástica a mobilização do show é fantástica. Então milhares de pessoas estavam ali.
Eu não posso negar as distinções de mercado. Agora se você me pergunta se eu gosto daquele tipo de música, não. Agora eu conheço essa, conheço, conheço.
Eu conheço rock and roll, eu conheço samba, eu conheço a estrutura da música, eu conheço a história da música, eu conheço essa história da arte, eu conheço um pouco de onde vem a música clássica, como é que ela se fundamentou nos seus diversos matizes, nos seus diversos atores. Então veja, embora conheça eu não gosto, mas não posso negar a sua representatividade mercadológica. Isso faz com que agora a discussão ou ela se dá no limite de coisas que eu não conheço sobre o rock que se vier a conhecer eu passo a gostar ou a conversa agora transita simplesmente pelo fato de gostar ou não gostar e isso não me leva a lugar nenhum.
Portanto se eu estou interessado em mudar o meu gosto eu preciso aprofundar o meu conhecimento, mas mesmo assim aprofundando o conhecimento isso não é garantia suficiente para que eu mude o meu gostar. Em outras palavras, eu posso aprofundar indefinidamente o meu conhecimento sobre determinada coisa e continuar não gostando dela embora não possa negar a sua realidade mercada. Então eu quero deixar isso com você como uma forma de você refletir sobre a natureza das suas conversas nutritivas para que elas se tornem conversas que te nutrem e não conversas que lhe desgastem.
Resumindo, todas as pessoas podem gostar ou não, isso é um direito que você tem e não cabe sobre isso juízo meu. Eu não posso lhe forçar a gostar ou não gostar de coisa alguma. Agora você deve ser responsável por ter formação e informação acerca das coisas que você conversa, porque se você tem formação e informação sobre as coisas que você conversa você me ajuda naquilo que eu não sei e isso pode alterar o meu gosto artístico.
Agora lembre-se, essa alteração é de foro íntimo. Em terceiro lugar, eu preciso perceber que existe uma representatividade de mercado. Essa representatividade é infinitamente maior do que aquilo que eu sei ou não sei, do que aquilo que eu gosto ou não gosto.
É uma circunstância de mercado. Esses tempos atrás eu conversava com um amigo sobre esse tema e nós discutimos o seguinte, e eu refletia com ele sobre o seguinte aspecto. Por exemplo, existe um conjunto de músicas que hoje se veicula no mercado nacional que são músicas que eu não gosto, portanto fazem parte daquele segundo elemento do gosto artístico, eu simplesmente não gosto.
Conheço aquelas músicas, conheço. Há uma representatividade de mercado? Sim, vendem-se milhões de discos daquelas músicas que eu não gosto. Agora, quando você submete essas músicas aos critérios técnicos de elaboração de uma música enquanto arte, você descobre que elas deixam muito a desejar do ponto de vista da construção estética.
Ou seja, elas não atendem aos princípios normativos da estética, mas são populares. Isso as invalida de hipótese alguma, mas as tira da qualificação de uma música um pouco mais elaborada, de uma música um pouco mais erudita. Aí, isso você diz respeito, por exemplo, à literatura.
Portanto, eu diria para você, não existem livros ruins e livros bons. Existem livros mal escritos e livros bem escritos. Então, nessa questão dos livros, que não existem livros bons nem ruins, livros mal escritos e bem escritos, isso diz respeito a quase todos os assuntos com os quais nós lidamos no nosso dia a dia.
Qual é o desafio nosso? É você perceber uma coisa bem interessante. Existem coisas populares que são esteticamente ruins. E existem pessoas que gostam ou não gostam destas coisas, do ponto de vista do seu gosto artístico.
Agora, existe uma norma que gerencia, que estabelece as bases para as quais as coisas sejam feitas. Então, estas coisas merecem o meu conhecimento. Então, veja, eu não posso, em nome de uma liberdade qualquer, escrever um livro cometendo erros de português porque é a minha forma de escrever.
Não. Se você quer escrever, você tem que seguir a norma. Essa norma é dinâmica com relação ao tempo, sim, mas diz respeito às chamadas percepções estéticas.
Quem é que escreve melhor, do ponto de vista da forma? Quem conhece melhor a forma? Isso é garantia de que as pessoas vão gostar? Não. Isso é garantia de que há mercado? Também não. Tanto é que existem muita coisa bem escrita que não tem representação de mercado.
Existe música bem composta, bem elaborada, bem executada e que não tem repercussão de mercado. Algumas pessoas gostam, outras não. Então, o que a gente precisa entender é que se eu tenho discernimento destas três coisas, eu consigo agora interagir com você numa conversa em que eu começo a me nutrir daquilo que você sabe que eu não sei e eu começo a lhe nutrir daquilo que eu sei que você não sabe.
E esse processo de nutrição poderá alterar o nosso gosto sobre as coisas e isso é desenvolver, isso é mudar, isso é crescer, isso é aprender. Isso vai ter repercussão de mercado para nós? Pode ser que sim, pode ser que não, mas aí já não é mais um nível de controle nosso, mas um nível de percepção da realidade. Fique com isso, percepção estética, gosto artístico, dimensões de mercado.
Essas três coisas caracterizam de forma mais efetiva as conversas nutritivas que são aquelas conversas que nos tornam melhores nas nossas relações. Fique com isso. Um beijo!

por Homero Reis
Há uma história que me acompanha há muitos anos. Eu a conto de diferentes maneiras, em contextos distintos, mas sua essência permanece a mesma. É uma história simples, quase infantil, mas quanto mais a examino, mais percebo que ela carrega em si o drama inteiro da civilização. Eu a chamo de “A História Dos Homens E Dos Lobos”.
No princípio, e esse princípio não é um ponto no tempo, mas uma condição do viver, todos os seres estavam inscritos em uma complementaridade sistêmica. Não uso essa expressão de maneira ingênua; uso-a no sentido antropológico que observa vestígios arqueológicos, pinturas rupestres, ferramentas quebradas, ossadas espalhadas, encontrados no que chamo de lixo civilizatório.
A vida, naquele momento originário, obedecia a uma lógica simples: a da interdependência. O lobo comia a ovelha quando tinha fome. O homem também fazia o mesmo. Não havia moralização da cadeia alimentar. Havia necessidade. Havia sobrevivência. Havia um equilíbrio dinâmico inscrito na própria natureza da vida e nos seus ciclos.
Mas, em algum momento, e essa é a inflexão decisiva da história, algo mudou. Não se sabe exatamente quando, nem como. Sabe-se apenas que os vestígios arqueológicos indicam que os lobos começaram a morrer de forma diferente. Não apenas por fome, doença ou disputa intraespécie; mas, com crânios perfurados, com pontas de flecha cravadas no tórax. Esses “encontrados” são sinais inequívocos de agressão deliberada feita pelos “então humanos”. Isso significa uma coisa: os homens começaram a matar os lobos não para comer, mas para impedir que eles comessem do que lhes era também de direito, por exemplo, as ovelhas, considerando o equilíbrio natural. E aqui nasce a ruptura.
A Primeira Apropriação
Quando os homens cercaram as ovelhas e disseram “estas ovelhas são nossas”, inauguraram algo que não existia antes: a propriedade exclusiva de um bem coletivo.
Antes disso, a ovelha era parte do ecossistema. Ela não “pertencia” ao lobo, nem ao homem. Ela fazia parte de um fluxo. O lobo a comia. O homem também e a vida seguia.
Mas, ao cerca-las, impedindo que os lobos tivessem acesso a elas, o homem não apenas “as protegeu”, como reivindicou exclusividade sobre elas. E toda exclusividade precisa de defesa: a defesa gerou conflito; o conflito gerou medo; e, o medo gerou comando e controle. Eis aí o início de nossa atual forma de nos movermos no mundo. Mas, tem mais.
Aprendi, ao longo da minha trajetória refletindo sobre Inteligência Relacional, que todo sistema baseado em controle nasce do medo. E aqui vejo o nascimento do medo estruturado como cultura. Não era apenas o medo da fome. Era o medo da perda da posse. Era o início da individualização das coisas e das relações numa estrutura de poder danosa.
A partir desse momento, a ovelha deixou de ser alimento compartilhado no fluxo da vida e tornou-se capital acumulado. E onde há capital acumulado, há necessidade de vigilância e desigualdade social gritante.
O Segundo Movimento: A Dominação Entre Homens
Mas a história não para aí. Há um segundo momento ainda mais revelador. Se, no primeiro movimento, os homens se colocaram contra os lobos, no segundo eles se colocaram uns contra os outros.
Em algum ponto do processo, um homem, ou um grupo específico de homens, declarou:
“Estas ovelhas são minhas.” Não “nossas”. Minhas.
Essa palavra inaugura a hierarquia. Agora, não apenas os lobos estão excluídos. Outros homens também estão. E o acesso ao alimento passa a depender de uma nova condição: submissão ao proprietário: se você quiser comer, trabalhe para mim; se você quiser viver, submeta-se à minha estrutura; se quiser viver, me obedeça. Aqui nasce o que mais tarde chamaríamos de sistema econômico hierarquizado. E aqui começa a consolidação do patriarcado, sustentado por uma narrativa de poder ideologicamente construído, ou por “força física”, ou por manipulação da ignorância (esoterismo, misticismo e demais coisas semelhantes).
Patriarcado: A Cultura do Comando
Quando observo esse processo, percebo que o patriarcado não é apenas uma organização social masculina. Ele é uma matriz emocional que se fundamenta em três pilares: apropriação exclusiva; controle do acesso; hierarquização baseada no medo; ideologia da diferenciação baseada em narrativas esotéricas, místicas e outras que tais, como forma de legitimar o poder.
O fato do homem está no centro do patriarcado, decorreu de uma situação interessante, que exploro em outro ensaio, “O Cálice e a Espada”.
O patriarcado transforma a interdependência em dependência unilateral. Ele substitui o fluxo pela retenção. Ele troca cooperação por dominação. Eu aprendi com Humberto Maturana, especialmente em Amar e Brincar, que existem culturas baseadas no controle e na competição, e culturas baseadas na colaboração e no cuidado. A primeira estrutura-se na negação do outro como legítimo outro. A segunda reconhece o outro como parte constitutiva do sistema. O patriarcado, na minha leitura, nasce exatamente no momento em que o outro deixa de ser legítimo. Primeiro o lobo.
Depois o homem vizinho. E, mais tarde, a mulher, quando se “descobre a relação direta entre o coito e a gravidez”. Nesse momento a gravidez deixa de ser uma “concepção divina”, para ser resultado da “semente” do homem; e, a mulher deixa de ser uma “representação da divindade” e passa a ser uma incubadora do “macho dominante”.
Em resumo: a “descoberta” da relação direta entre coito, gestação e parto, tirou da mulher a condição de sacralidade da “produção de um novo ser”, e colocou tal possibilidade “na semente masculina”. A mulher tornou-se a incubadora e o homem o “representante” dos deuses. Isso o tronou o centro do poder e, portanto, a estrutura básica do patriarcado.
O Medo Como Fundamento Civilizatório
Não posso deixar de relacionar essa história com os “Quatro Gigantes da Alma”, livro de Emilio Mira y López, sobre o qual tantas vezes revisitei em minha obra.
O medo, um dos gigantes, quando é guardião, nos protege. Mas quando se torna carcereiro, nos aprisiona. Aqui, o medo deixa de ser instinto de sobrevivência e passa a ser instrumento de controle social. O dono das ovelhas precisa que os outros homens temam perder o acesso ao alimento. O sistema se sustenta na escassez administrada.
E quando o medo se institucionaliza, nasce o Estado coercitivo, a economia concentrada, a guerra preventiva, a violência legitimada.
A partir da cerca das ovelhas, começa a cerca das terras. Depois a cerca das fronteiras e as cercas ideológicas. O mundo passa a ser organizado por limites impostos e defendidos pela força.
A Cultura Matrística: Outra Possibilidade
Mas a história dos homens e dos lobos não é apenas denúncia. Ela é também possibilidade. Existe outro modo de viver.
A lógica do caçador existiu de fato, e ainda existe no nosso “inconsciente coletivo”; mas, paralelamente, aparece na história da humanidade, a lógica do agricultor. Enquanto o caçador se orienta pela captura e pelo controle, o agricultor se orienta pelo cultivo e pela renovação. O agricultor não domina a terra; ele coopera com ela. Ele não acumula para excluir; ele cultiva para compartilhar.
Aqui aproximo-me daquilo que Maturana chama de cultura matrística, não no sentido biológico, mas no sentido emocional e relacional .A cultura matrística se organiza pela convivência, pela reciprocidade e pela horizontalidade. Ela não elimina o conflito, mas não o estrutura como sistema permanente. Ela não depende da exclusão para se afirmar.
Um exemplo contemporâneo disso são as olimpíadas: há competição, há disputa, há “luta”, mas não há inimizade: vencedores e vencidos, ao final, irmanam-se na celebração da vida.
Amar e Brincar: A Raiz da Cooperação
Quando penso na cultura matrística, penso na experiência do brincar. No brincar não há hierarquia fixa. Há coordenação. Há alternância. Há criatividade compartilhada.
A criança que brinca não domina o brinquedo para excluir o outro. O brincar é o espaço da convivência sem medo, embora haja nele conflitos, relações de poder; mas não há inimizades. Amar, no sentido maturânico, é reconhecer o outro como legítimo outro na convivência, nessa dinâmica exploratória das relações.
Se aplico essa lente à história dos homens e dos lobos, percebo que o ponto de ruptura foi justamente a negação da legitimidade do outro. O lobo deixou de ser parte do sistema e passou a ser ameaça. O homem vizinho deixou de ser parceiro e passou a ser competidor. A mulher deixou de ser co-criadora e passou a ser subordinada. O que é ou pensa diferente, deixou de ser possibilidade para ser ameaça.
O Nascimento da Estrutura Hierárquica
A partir da “cerca das ovelhas”, surge algo que se repete até hoje:
- A propriedade privada concentrada.
- O trabalho como condição de acesso.
- A remuneração mínima como forma de controle.
- A obediência como moeda de sobrevivência.
A história que conto é primitiva, mas sua lógica é contemporânea. Hoje as ovelhas podem ser substituídas por capital financeiro, tecnologia, informação, terras, dados; mas, a estrutura permanece: quem controla o recurso controla o acesso; quem controla o acesso controla as pessoas; quem controla as pessoas controla o que elas pensam; quem controla o que o outro pensa cria ideologias de conveniência; e quem controla as ideologias de conveniência, mantém o sistema; quem controla o sistema, controla o recurso. Assim, o ciclo se mantém.
A Transição Necessária
Eu não conto essa história para romantizar o passado nem para demonizar o presente. Conto-a para revelar a matriz relacional que sustenta nossas instituições. Se o patriarcado nasceu do medo da perda, a restauração da cultura matrística exige confiança.
Confiança é um ato relacional. Ela não nasce da imposição, mas da reciprocidade. Ela exige que eu veja o outro não como ameaça ao meu estoque de ovelhas, mas como parceiro na produção de novos campos. Essa transição não é apenas estrutural. É ontológica. Ela exige mudança no modo como observamos as coisas para interferir nelas.
Se sou um observador formado pela lógica do controle, minhas ações gerarão resultados de dominação. Se torno-me um observador relacional, minhas ações produzirão cooperação.
A História Continua
Hoje, quando olho para o mundo, vejo homens ainda lutando contra lobos imaginários, vejo sistemas construídos sobre o medo de perder. Vejo muros sendo erguidos. Vejo discursos de exclusividade e exclusão.
Mas também vejo algo diferente surgindo, quando percebo o movimento das minorias por vez e voz. Aí vejo redes colaborativas, economias solidárias, lideranças que trocam comando por cuidado, empresas e organizações que substituem controle por confiança.
A transição da cultura patriarcal para a restauração da cultura matrística não é um retorno ao passado. É um salto evolutivo. Ela não elimina a força. Ela redireciona a força para a proteção da vida, não da posse. Ela não elimina a liderança. Ela transforma liderança em serviço.
Mas, acima de tudo, ela reconhece a igualdade de gênero com condição indispensável parra uma humanidade restaurada em sua saúde relacional. Isso porque o patriarcado não possui em si mesmo, todas as distinções relacionais para aquilo que chamamos de humano. A cultura matrística integra essas distinções.
A Pergunta Final
A história dos homens e dos lobos me deixa sempre com algumas perguntas nas quais debruço minhas atenções, pesquisas e estudos:
- O que estamos cercando hoje?
- Quais são as ovelhas que declaramos exclusivamente nossas?
- Quais lobos estamos “matando” por medo?
- Por que precisamos enxergar o diferente como inimigo?
- Em que momento perdemos a capacidade de conversar para resolver nossas “questões”?
Preocupa-me o fato de que em pleno século XXI, com tanta tecnologia e informação disponível, com tanta conexão à nossa disposição, ainda encontramos pessoas que creem que “jogar bomba na cabeça uns dos outros” é a melhor forma de resolver os dramas da humanidade. Para mim, a cultura do patriarcado sofre de uma profunda miopia relacional e a cultura matrística surge como uma possibilidade restauradora de todas as coisas que nos são genuína e essencialmente humanas.
Mas, sobretudo e para isso, precisamos nos perguntar: estamos dispostos a desmontar as cercas internas que sustentam nosso próprio patriarcado emocional? Porque, no fundo, o patriarcado não é apenas uma estrutura social externa. Ele é uma estrutura interna de controle. Por sua vez, a cultura matrística começa quando eu deixo de viver como proprietário do mundo e passo a viver como cuidador do vínculo.
Reflitam em paz!


Recentemente, uma cena inusitada dominou os noticiários de tecnologia: durante um encontro global, os grandes chefões das gigantes de Inteligência Artificial — incluindo nomes de peso como Sam Altman (OpenAI), Sundar Pichai (Google/Alphabet), Satya Nadella (Microsoft), Mark Zuckerberg (Meta) e Elon Musk (xAI) — simplesmente se recusaram a dar as mãos para a tradicional foto em grupo. O constrangimento foi visível. A tentativa de demonstrar união falhou publicamente.
Como estudioso do comportamento humano, não pude deixar de analisar esse episódio sob a ótica da Inteligência Relacional (IR), tema que desenvolvo há mais de três décadas em meus livros da Coleção Inteligência Relacional e no Método QR.
Esses líderes possuem um QI (Quociente de Inteligência) formidável. São mentes brilhantes que estão desenhando o futuro da humanidade através de algoritmos, machine learning e redes neurais complexas. No entanto, a cena expõe um déficit preocupante em outro quociente vital para a nossa espécie: o QR (Quociente Relacional).
O que a recusa daquele simples gesto físico revela sobre o mundo corporativo que estamos construindo?
1. O excesso de Relações Instrumentais e a falta de Relações Nutritivas
Na Teoria da Inteligência Relacional, entendemos que grande parte do adoecimento corporativo moderno vem da superficialidade. Na “sociedade líquida” em que vivemos — conceito cunhado pelo sociólogo Zygmunt Bauman —, os relacionamentos muitas vezes se tornam puramente instrumentais: você vale o que você entrega. Quando líderes de mercado se encontram apenas como competidores vorazes, não existe o que chamamos de ERA (Espaço Reflexivo da Aprendizagem). Sem esse espaço de confiança, tentar forçar um gesto de união (dar as mãos) torna-se uma hipocrisia insustentável. O corpo, que não mente, simplesmente trava.
2. A ausência de Ressonância Límbica e Acoplamento
Dois dos pilares da Inteligência Relacional são a Ressonância Límbica (a nossa capacidade humana de entrar em sintonia com a emoção do outro, de ter empatia) e o Acoplamento (a habilidade de nos complementarmos, unindo forças para um bem maior). A atitude dos CEOs é a materialização do oposto disso: o Distanciamento. Quando a Força Excêntrica (o modo como nos expressamos para o mundo) está sob pressão e vemos o “Outro” apenas como uma ameaça ou um rival a ser batido, a nossa resposta natural é o isolamento e a esquiva. Esse padrão está diretamente ligado ao que abordamos nos nossos programas de palestras corporativas.
3. O Paradoxo do Futuro: Máquinas humanizadas, humanos mecanizados?
Como destaco em minhas reflexões sobre “A Gestação do Futuro”, estamos criando máquinas cada vez mais capazes de simular conversas, emoções e empatia, enquanto nós, humanos, estamos nos comportando cada vez mais como máquinas frias, programadas apenas para competir e bater metas. Não por acaso, pesquisas recentes do Harvard Business Review reforçam que a vantagem competitiva do futuro será híbrida: humanos com IA substituirão humanos sem IA — mas apenas quem souber cultivar conexões humanas genuínas liderará essa transição.
Como nos alertou Chaplin de forma magistral em O Grande Ditador: “Não sois máquinas! Homens é que sois!” Se os criadores das tecnologias que vão reger o amanhã não conseguem dar as mãos, reconhecer a legitimidade do outro e estabelecer um mínimo de respeito colaborativo, que tipo de futuro estamos gestando?
A reflexão para nós, Líderes e Gestores
Não precisamos ser amigos íntimos de nossos concorrentes ou concordar com tudo o que nossos colegas dizem. A Inteligência Relacional não exige que sejamos iguais. Ela exige que saibamos lidar com a diferença sem que ela seja vista como uma ameaça mortal. Requer a maturidade de sentar à mesa (ou posar para uma foto) compreendendo que, apesar da concorrência, o respeito e o reconhecimento da humanidade do outro são inegociáveis. Esse é o cerne do que ensino em Gente Inteligente Se Olha no Espelho.
Olhe para a sua equipe hoje: vocês estão genuinamente de mãos dadas, construindo um propósito juntos através do Acoplamento, ou estão apenas dividindo o mesmo sinal de Wi-Fi em um ambiente de Distanciamento e competição silenciosa? Se precisar de apoio para diagnosticar esse cenário, conheça nosso processo de Mapear e Diagnosticar e os artigos sobre Gestão e Liderança.
O futuro pertencerá àqueles que souberem usar a tecnologia, sim. Mas a liderança do futuro pertencerá àqueles que nunca perderem a capacidade de se conectar humanamente.
E você, o que achou dessa atitude dos líderes de IA? Faz sentido para o momento que vivemos? Vamos conversar nos comentários! 👇
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Por que que as pessoas discutem? Por que que, às vezes, as conversas parecem um rodopiar sem fim, sem chegar a lugar nenhum? Por que que, muitas vezes, as nossas relações dialogais são infrutíferas? Estas são questões que eu quero discutir com você nesse bate-papo que teremos nos próximos minutos. A complexidade das conversas e os resultados. Fique comigo.
René Descartes, século XVI, ele disse uma frase, uma vez, que é muito significativa para os dias de hoje. Ele dizia assim, defina os termos que as discussões cessam. O que se queria dizer com isso, numa proposta racionalista, é que a partir do momento que todos os interlocutores sabem exatamente o significado das palavras e das coisas que estão utilizando, muito provavelmente as discussões cessam, porque não há muita discordância, necessariamente, a partir do momento em que as pessoas conhecem sobre aquilo que se está falando.
E aí você passa a conversar ou a refletir mais efetivamente sobre a construção dos conteúdos do que, muito provavelmente, pela construção da significância prévia dos conteúdos. Então, quando René Descartes dizia isso, ele dizia, olha, defina os termos que as discussões cessam. Por outro lado, você descobre que, ao longo da história da humanidade, conversar tem sido um grande desafio na questão da expressão dos nossos valores e das nossas percepções de realidade e do modo como a gente percebe as coisas e gera assunto para que as relações aconteçam e se mantenham.
Então, existe um nível conversacional que eu diria que é um nível de entretenimento, que são aquelas conversas que você tem tomando uma cerveja, conversando com os amigos, rindo, que são conversas muito pouco estruturadas, mas que são conversas cujo grande objetivo é trazer em si mesmas o entretenimento relacional. Se você pensar bem, destas conversas de entretenimento, você se recorda muito pouco. Elas são extremamente efêmeras.
Então, são conversas que você as tem tomando uma cerveja, batendo um papo com os amigos na praia, falando sobre qualquer coisa, mas quando essas conversas, quando aquele setting se conclui, muito provavelmente o conteúdo dessas conversas se dissipa. Você não fica gastando a sua mente em preservar essas conversas e elas são, eu as chamo de conversas de entretenimento. Existe um outro tipo de conversa que a gente chama de conversas instrutivas ou conversas instrumentais.
São aquelas conversas que a gente tem que efetivamente determinam relações operacionais dialógicas que estão acontecendo entre aqueles atores. Então, por exemplo, você diz para um garoto, olha, coma de boca fechada, sente-se de uma forma mais adequada, por favor, cumprimente as pessoas, me traga aquele relatório, enfim. São conversas que você tem aonde você instrumentaliza, orienta as pessoas para fazerem determinadas coisas e aí, nestas conversas instrumentais, elas estão envolvidas, os pedidos estão envolvidos, as ofertas estão envolvidas, as coordenações de ações no sentido genérico das coisas estão envolvidas, as reclamações.
Então nós temos um grupo de conversas que a gente chama de conversas de entretenimento, nós temos um conjunto de conversas de coordenação de ações que são conversas para que as coisas sejam feitas, tanto do ponto de vista da minha oferta para o mundo, quanto no sentido dos pedidos e reclamações que faço, etc, que é um segundo tipo de conversa, mas tem um terceiro tipo de conversa que eu chamo de conversas nutritivas, que são as conversas que fazem com que a gente reflita sobre a natureza da nossa vida, sobre a nossa cosmovisão, sobre os nossos princípios éticos, os nossos princípios morais, os nossos princípios de valores e que regem a nossa aprendizagem enquanto membros de uma sociedade organizada e complexa na qual a gente tem que conviver com um pouco dessas disparidades entre as pessoas. E é nessas conversas nutritivas que muitas vezes a gente se exaspera, a gente discute naquele sentido de que dois diferentes observadores estão falando a mesma coisa e por não conseguirem escutar efetivamente um ao outro eles acabam discutindo sobre a mesma coisa e passam horas a fio numa dialogação, essa palavra não existe, vamos criá-la agora, numa dialogação complexa e que acaba não chegando em lugar nenhum. Então são três grandes níveis em que estas conversas acontecem.
A primeira delas é o que eu chamo de percepção estética, a segunda é o que eu chamo de gosto artístico e a terceira é o que eu chamo de distinções de mercado. Então percepção estética, gosto artístico e distinções de mercado. Por que que esses três elementos são importantes para nós orientarmos uma conversa nutritiva? Porque pelo seguinte, veja, quando eu falo de percepção estética eu estou me referindo ao conjunto de informações que o observador tem e não só da informação, mas como da sua formação acerca do objeto ao qual ele está se referindo.
Então imagine que por percepção estética é a capacidade que o observador tem de conhecer de forma efetiva as normas, os critérios, os paradigmas daquela sua área de conhecimento, de valor ou da qual ele está discutindo. Por exemplo, quando eu falo de percepção estética na arte eu estou falando da capacidade que aquele observador tem de conhecer a técnica artística utilizada, de conhecer a história da arte, de conhecer, enfim, de ter informação e conhecimento sobre os elementos que constituem aquele objeto sobre o qual ele está se falando. Então isso nós chamamos de percepção estética.
Um segundo elemento, quando eu falo de gosto artístico, eu estou falando se aquilo que você observa você gosta ou não gosta. E essa questão do gosto artístico ela é de foro íntimo. Então eu gosto ou não gosto de determinadas coisas por razões subjetivas da minha própria concepção enquanto ser humano.
E o terceiro elemento, que são as dimensões de mercado, eu começo a perceber o impacto que aquele objeto, que aquele tema que nós estamos discutindo tem na sociedade organizada como um tal. Então a isso chamamos dimensões de mercado. Deixe-me dar um exemplo a você que explica de uma forma mais ilustrativa todo esse conjunto.
Eu estava no Louvre, em Paris, certa vez agora, na questão de um ano e meio, e observando num dia de extrema sorte, o Louvre, pasmem, estava vazio nesse dia, e eu estava observando Monalisa, já o tinha feito por diversas outras ocasiões, e nesse dia como o Louvre estava vazio eu me dediquei a observar um pouco mais as pessoas que adentravam ao salão onde está a Monalisa para observar a Monalisa. Nisso aparece uma família, cinco pessoas, o pai, a mãe e três filhos. Eles andam por um caminho que estava lá previamente determinado e dão de cara com a Monalisa.
O pai, em alto e bom som, vira para a esposa e para os três filhos e diz textualmente assim, isto é Monalisa? Para mim não vale nada, não daria dez dólares por ela. Que decepção. E sai.
E a mãe, a esposa e os filhos o acompanham após essa declaração bombástica. O que aconteceu aí? Vamos analisar este fenômeno a partir desses três elementos que eu lhes apresentei. Percepção estética, gosto artístico e dimensão de mercado.
Primeiro, este pai, este senhor, pode não ter nenhuma percepção estética. Ou seja, ele não conhece da arte, ele não conhece de técnica de pintura, ele não conhece absolutamente nada sobre os elementos artísticos que estão presentes no quadro da Monalisa. Portanto, ele não tem nenhuma distinção daquilo que chamamos de percepção estética.
O segundo elemento é o gosto artístico. Ele não gosta daquele quadro. Ou seja, ele olha para aquele quadro e o quadro não desperta nele nenhuma emoção, a não ser a emoção do desgosto.
Eu não gosto daquilo que vejo, ele não me provoca absolutamente nada. Mas, no que diz respeito às distinções de mercado, este senhor não pode ignorar o fato de que ele está diante de uma obra que mobiliza milhões de pessoas ao longo do mundo, que gastam milhões de dinheiros todos os dias, ao longo de centenas de anos, para ver esse quadro. Quer dizer, um dos quadros mais visitados na história da humanidade é Monalisa de Leonardo Da Vinci.
Quer dizer, veja, eu não tenho percepção estética, o meu gosto artístico não tem nenhuma relação com aquela coisa, mas eu não posso negar o fato de que milhões de pessoas estão observando aquele quadro. Ou seja, no mínimo, eu deveria ter a humildade de perguntar o seguinte, o que que esse quadro contém que mobiliza milhões de dólares, milhares de pessoas, há centenas de anos, e que faz parte da grande curiosidade humana? Então veja, este é um exemplo interessantíssimo para a gente poder caminhar no entendimento desses processos. Agora, olha só, vamos continuar ainda com o exemplo da Monalisa e o caso do pai desgostoso de vê-la.
Eu posso agora ser um outro observador que conheço tudo sobre arte, eu entendo toda a técnica pictórica, eu entendo toda a técnica plástica, eu estudei Leonardo Da Vinci, eu estudei a estética da arte, eu estudei a história da arte, eu entendi os processos pelos quais a Monalisa foi feita, eu entendi tudo sobre aquela arte. Então eu conheço a obra, eu olho para a obra e sei dizer se ela é bem pintada, se ela é mal pintada, se ela é uma boa obra, se ela é… Enfim, eu tenho essas distinções. Olhando para a Monalisa, aí eu construo um juízo estético sobre ela.
Eu digo, olha, é um quadro bem estruturado, bem pintado, a técnica apuradíssima. Então veja, eu estou falando da minha percepção estética. Quando eu vou para o gosto artístico, eu posso, apesar disso, olhar e dizer, mesmo assim, eu não gosto da Monalisa.
Ou seja, eu sei como ela foi pintada, sei da importância, sei disso, sei daquilo, mas não gosto. Perfeito? E além disso, eu reconheço que existe uma permeação mercadológica, portanto a permeação no mercado da imagem da Monalisa, que é uma segunda abordagem. A terceira abordagem é, eu conheço a arte e, por causa disso, eu admiro a Monalisa, gosto da Monalisa, eu olho para ela e gosto do que vejo e tenho a percepção de mercado de que ela é uma obra mundialmente reconhecida.
Então, se você usa esses três critérios, isso facilita muito a sua discussão sobre qualquer coisa. Você quer ver um outro exemplo muito contextualizado para a nossa cultura? E aí eu digo respeito a mim mesmo. Por exemplo, eu não tenho nenhuma filiação com times de futebol.
Eu não gosto de futebol. Mas eu não posso negar que o futebol é uma das expressões da nossa cultura. Então, quando eu vejo centenas de milhares de pessoas reunidos num estágio vendo um Fla-Flu, repare só, eu reconheço a importância dessa partida flamenco-feminense porque existe uma paixão nacional que mobiliza milhões de pessoas em torno desse tema chamado futebol.
Então, eu não posso negar que essa partida Fla-Flu seja uma partida significativa. Então, isso são distinções de mercado. Segundo, no que diz respeito à percepção, ao gosto artístico, eu não gosto de futebol.
Então, não há nada, embora seja importante, que me atraia no futebol. E eu não tenho nenhuma percepção estética. Quer dizer, eu não conheço futebol.
Eu não saberia dizer se as pessoas gostam ou não gostam, jogam ou não jogam bem. Então, veja você, esse exemplo que eu dei para o futebol pode nos levar a quase todas as outras reflexões. Então, por exemplo, recentemente eu vi, presenciei num determinado local dois casais tendo uma acirrada discussão sobre questões religiosas que envolviam a bíblia e outros elementos religiosos aí presentes.
E a discussão estava acalorada. E eu comecei a analisar isso sob a perspectiva desses três pontos. Então, veja só.
Primeiro, eu tenho uma percepção, eu tenho uma distinções estéticas, percepções estéticas, acerca daquele fenômeno religioso que eu estou estudando. Eu conheço, por exemplo, religião. Estudei religião, estudei as manifestações religiosas, portanto eu olho para o cristianismo, para o budismo, para… ou seja, para qualquer expressão religiosa.
Por hipótese, imagine que eu conheça teológica e filosoficamente essas religiões. Eu opto agora por ser, digamos, presbiteriano ou ser evangélico. Repare, eu conheço, tenho percepções estéticas e tenho gosto artístico por uma determinada manifestação religiosa.
E não posso negar que todas as outras percepções religiosas, mesmo aquelas que eu não gosto, tem uma grande representatividade de mercado. Então, reconhecer que determinada religião tem representatividade de mercado não significa desqualificar uma para qualificar outra ou simplesmente validar uma ou validar outra. Não é essa a questão.
É eu entender que nesse universo mundial de sete bilhões, quase sete bilhões e meio de pessoas, existem manifestações de mercado para quase todas as apreciações religiosas que existem. Portanto, mercadologicamente elas têm adeptos e eu tenho que reconhecer isso. Isso é um fato.
Isso não depende de mim, portanto não cabe aqui o julgamento de certo ou errado. Na questão do gosto artístico, também não, porque veja, eu gosto de certas coisas e não gosto de certas coisas. Quer dizer, ainda do ponto de vista religioso existem certas liturgias, ou seja, modos de fazer, que eu gosto.
Outros modos de fazer eu não gosto. E aqui também não se estabelece a condição de nenhum julgamento de valor, porque é uma questão pessoal. Aqui é uma questão mercadológica, aqui é uma questão pessoal.
E nesse primeiro elemento, no que diz respeito às construções daquilo que eu estou chamando de percepções estéticas, aqui diz respeito ao grau de conhecimento que eu tenho daquela coisa. Também diz respeito ao volume de informação e de formação que eu tenho. O que me faz dizer que eu conheço tal coisa, mas não conheço outra coisa e eu aceito aquilo que eu conheço.
Entende? Então veja, percepção estética, gosto artístico e distinções de mercado, se eu tenho essas três coisas claramente na minha forma de percepção da realidade, você vai descobrir que as minhas conversas se tornam muito mais nutritivas. Então, por exemplo, muitas vezes o meu gosto artístico não é favorável a determinada distinção de mercado porque me falta a percepção estética. E então muitas vezes uma pessoa, quando me diz assim, ô Mero, eu não gosto de música clássica, gosto artístico, esta pessoa o faz porque ela não tem formação estética suficiente para poder fazer um juízo sobre isso.
E o que a gente tem percebido nas conversas nutritivas é que muitas vezes o não gostar é decorrência da ignorância da percepção estética. Então o que a gente faz? Quando eu tenho essa distinção na minha cabeça e eu descubro que eu não gosto de alguma coisa, eu preciso primeiro perguntar o seguinte, eu não gosto porque eu sou ignorante com relação à percepção estética ou eu não gosto porque conhecendo a percepção estética, eu agora não opto por aquilo. E agora não posso negar em nenhum momento de que existe volume mercadológico suficiente.
Recentemente eu estava em Las Vegas, ali no Rock in Rio em Las Vegas, eu andava lá no último dia, fui lá assistir o encerramento daquele show maravilhoso. A produção do show é fantástica a mobilização do show é fantástica. Então milhares de pessoas estavam ali.
Eu não posso negar as distinções de mercado. Agora se você me pergunta se eu gosto daquele tipo de música, não. Agora eu conheço essa, conheço, conheço.
Eu conheço rock and roll, eu conheço samba, eu conheço a estrutura da música, eu conheço a história da música, eu conheço essa história da arte, eu conheço um pouco de onde vem a música clássica, como é que ela se fundamentou nos seus diversos matizes, nos seus diversos atores. Então veja, embora conheça eu não gosto, mas não posso negar a sua representatividade mercadológica. Isso faz com que agora a discussão ou ela se dá no limite de coisas que eu não conheço sobre o rock que se vier a conhecer eu passo a gostar ou a conversa agora transita simplesmente pelo fato de gostar ou não gostar e isso não me leva a lugar nenhum.
Portanto se eu estou interessado em mudar o meu gosto eu preciso aprofundar o meu conhecimento, mas mesmo assim aprofundando o conhecimento isso não é garantia suficiente para que eu mude o meu gostar. Em outras palavras, eu posso aprofundar indefinidamente o meu conhecimento sobre determinada coisa e continuar não gostando dela embora não possa negar a sua realidade mercada. Então eu quero deixar isso com você como uma forma de você refletir sobre a natureza das suas conversas nutritivas para que elas se tornem conversas que te nutrem e não conversas que lhe desgastem.
Resumindo, todas as pessoas podem gostar ou não, isso é um direito que você tem e não cabe sobre isso juízo meu. Eu não posso lhe forçar a gostar ou não gostar de coisa alguma. Agora você deve ser responsável por ter formação e informação acerca das coisas que você conversa, porque se você tem formação e informação sobre as coisas que você conversa você me ajuda naquilo que eu não sei e isso pode alterar o meu gosto artístico.
Agora lembre-se, essa alteração é de foro íntimo. Em terceiro lugar, eu preciso perceber que existe uma representatividade de mercado. Essa representatividade é infinitamente maior do que aquilo que eu sei ou não sei, do que aquilo que eu gosto ou não gosto.
É uma circunstância de mercado. Esses tempos atrás eu conversava com um amigo sobre esse tema e nós discutimos o seguinte, e eu refletia com ele sobre o seguinte aspecto. Por exemplo, existe um conjunto de músicas que hoje se veicula no mercado nacional que são músicas que eu não gosto, portanto fazem parte daquele segundo elemento do gosto artístico, eu simplesmente não gosto.
Conheço aquelas músicas, conheço. Há uma representatividade de mercado? Sim, vendem-se milhões de discos daquelas músicas que eu não gosto. Agora, quando você submete essas músicas aos critérios técnicos de elaboração de uma música enquanto arte, você descobre que elas deixam muito a desejar do ponto de vista da construção estética.
Ou seja, elas não atendem aos princípios normativos da estética, mas são populares. Isso as invalida de hipótese alguma, mas as tira da qualificação de uma música um pouco mais elaborada, de uma música um pouco mais erudita. Aí, isso você diz respeito, por exemplo, à literatura.
Portanto, eu diria para você, não existem livros ruins e livros bons. Existem livros mal escritos e livros bem escritos. Então, nessa questão dos livros, que não existem livros bons nem ruins, livros mal escritos e bem escritos, isso diz respeito a quase todos os assuntos com os quais nós lidamos no nosso dia a dia.
Qual é o desafio nosso? É você perceber uma coisa bem interessante. Existem coisas populares que são esteticamente ruins. E existem pessoas que gostam ou não gostam destas coisas, do ponto de vista do seu gosto artístico.
Agora, existe uma norma que gerencia, que estabelece as bases para as quais as coisas sejam feitas. Então, estas coisas merecem o meu conhecimento. Então, veja, eu não posso, em nome de uma liberdade qualquer, escrever um livro cometendo erros de português porque é a minha forma de escrever.
Não. Se você quer escrever, você tem que seguir a norma. Essa norma é dinâmica com relação ao tempo, sim, mas diz respeito às chamadas percepções estéticas.
Quem é que escreve melhor, do ponto de vista da forma? Quem conhece melhor a forma? Isso é garantia de que as pessoas vão gostar? Não. Isso é garantia de que há mercado? Também não. Tanto é que existem muita coisa bem escrita que não tem representação de mercado.
Existe música bem composta, bem elaborada, bem executada e que não tem repercussão de mercado. Algumas pessoas gostam, outras não. Então, o que a gente precisa entender é que se eu tenho discernimento destas três coisas, eu consigo agora interagir com você numa conversa em que eu começo a me nutrir daquilo que você sabe que eu não sei e eu começo a lhe nutrir daquilo que eu sei que você não sabe.
E esse processo de nutrição poderá alterar o nosso gosto sobre as coisas e isso é desenvolver, isso é mudar, isso é crescer, isso é aprender. Isso vai ter repercussão de mercado para nós? Pode ser que sim, pode ser que não, mas aí já não é mais um nível de controle nosso, mas um nível de percepção da realidade. Fique com isso, percepção estética, gosto artístico, dimensões de mercado.
Essas três coisas caracterizam de forma mais efetiva as conversas nutritivas que são aquelas conversas que nos tornam melhores nas nossas relações. Fique com isso. Um beijo!

por Homero Reis
Há uma história que me acompanha há muitos anos. Eu a conto de diferentes maneiras, em contextos distintos, mas sua essência permanece a mesma. É uma história simples, quase infantil, mas quanto mais a examino, mais percebo que ela carrega em si o drama inteiro da civilização. Eu a chamo de “A História Dos Homens E Dos Lobos”.
No princípio, e esse princípio não é um ponto no tempo, mas uma condição do viver, todos os seres estavam inscritos em uma complementaridade sistêmica. Não uso essa expressão de maneira ingênua; uso-a no sentido antropológico que observa vestígios arqueológicos, pinturas rupestres, ferramentas quebradas, ossadas espalhadas, encontrados no que chamo de lixo civilizatório.
A vida, naquele momento originário, obedecia a uma lógica simples: a da interdependência. O lobo comia a ovelha quando tinha fome. O homem também fazia o mesmo. Não havia moralização da cadeia alimentar. Havia necessidade. Havia sobrevivência. Havia um equilíbrio dinâmico inscrito na própria natureza da vida e nos seus ciclos.
Mas, em algum momento, e essa é a inflexão decisiva da história, algo mudou. Não se sabe exatamente quando, nem como. Sabe-se apenas que os vestígios arqueológicos indicam que os lobos começaram a morrer de forma diferente. Não apenas por fome, doença ou disputa intraespécie; mas, com crânios perfurados, com pontas de flecha cravadas no tórax. Esses “encontrados” são sinais inequívocos de agressão deliberada feita pelos “então humanos”. Isso significa uma coisa: os homens começaram a matar os lobos não para comer, mas para impedir que eles comessem do que lhes era também de direito, por exemplo, as ovelhas, considerando o equilíbrio natural. E aqui nasce a ruptura.
A Primeira Apropriação
Quando os homens cercaram as ovelhas e disseram “estas ovelhas são nossas”, inauguraram algo que não existia antes: a propriedade exclusiva de um bem coletivo.
Antes disso, a ovelha era parte do ecossistema. Ela não “pertencia” ao lobo, nem ao homem. Ela fazia parte de um fluxo. O lobo a comia. O homem também e a vida seguia.
Mas, ao cerca-las, impedindo que os lobos tivessem acesso a elas, o homem não apenas “as protegeu”, como reivindicou exclusividade sobre elas. E toda exclusividade precisa de defesa: a defesa gerou conflito; o conflito gerou medo; e, o medo gerou comando e controle. Eis aí o início de nossa atual forma de nos movermos no mundo. Mas, tem mais.
Aprendi, ao longo da minha trajetória refletindo sobre Inteligência Relacional, que todo sistema baseado em controle nasce do medo. E aqui vejo o nascimento do medo estruturado como cultura. Não era apenas o medo da fome. Era o medo da perda da posse. Era o início da individualização das coisas e das relações numa estrutura de poder danosa.
A partir desse momento, a ovelha deixou de ser alimento compartilhado no fluxo da vida e tornou-se capital acumulado. E onde há capital acumulado, há necessidade de vigilância e desigualdade social gritante.
O Segundo Movimento: A Dominação Entre Homens
Mas a história não para aí. Há um segundo momento ainda mais revelador. Se, no primeiro movimento, os homens se colocaram contra os lobos, no segundo eles se colocaram uns contra os outros.
Em algum ponto do processo, um homem, ou um grupo específico de homens, declarou:
“Estas ovelhas são minhas.” Não “nossas”. Minhas.
Essa palavra inaugura a hierarquia. Agora, não apenas os lobos estão excluídos. Outros homens também estão. E o acesso ao alimento passa a depender de uma nova condição: submissão ao proprietário: se você quiser comer, trabalhe para mim; se você quiser viver, submeta-se à minha estrutura; se quiser viver, me obedeça. Aqui nasce o que mais tarde chamaríamos de sistema econômico hierarquizado. E aqui começa a consolidação do patriarcado, sustentado por uma narrativa de poder ideologicamente construído, ou por “força física”, ou por manipulação da ignorância (esoterismo, misticismo e demais coisas semelhantes).
Patriarcado: A Cultura do Comando
Quando observo esse processo, percebo que o patriarcado não é apenas uma organização social masculina. Ele é uma matriz emocional que se fundamenta em três pilares: apropriação exclusiva; controle do acesso; hierarquização baseada no medo; ideologia da diferenciação baseada em narrativas esotéricas, místicas e outras que tais, como forma de legitimar o poder.
O fato do homem está no centro do patriarcado, decorreu de uma situação interessante, que exploro em outro ensaio, “O Cálice e a Espada”.
O patriarcado transforma a interdependência em dependência unilateral. Ele substitui o fluxo pela retenção. Ele troca cooperação por dominação. Eu aprendi com Humberto Maturana, especialmente em Amar e Brincar, que existem culturas baseadas no controle e na competição, e culturas baseadas na colaboração e no cuidado. A primeira estrutura-se na negação do outro como legítimo outro. A segunda reconhece o outro como parte constitutiva do sistema. O patriarcado, na minha leitura, nasce exatamente no momento em que o outro deixa de ser legítimo. Primeiro o lobo.
Depois o homem vizinho. E, mais tarde, a mulher, quando se “descobre a relação direta entre o coito e a gravidez”. Nesse momento a gravidez deixa de ser uma “concepção divina”, para ser resultado da “semente” do homem; e, a mulher deixa de ser uma “representação da divindade” e passa a ser uma incubadora do “macho dominante”.
Em resumo: a “descoberta” da relação direta entre coito, gestação e parto, tirou da mulher a condição de sacralidade da “produção de um novo ser”, e colocou tal possibilidade “na semente masculina”. A mulher tornou-se a incubadora e o homem o “representante” dos deuses. Isso o tronou o centro do poder e, portanto, a estrutura básica do patriarcado.
O Medo Como Fundamento Civilizatório
Não posso deixar de relacionar essa história com os “Quatro Gigantes da Alma”, livro de Emilio Mira y López, sobre o qual tantas vezes revisitei em minha obra.
O medo, um dos gigantes, quando é guardião, nos protege. Mas quando se torna carcereiro, nos aprisiona. Aqui, o medo deixa de ser instinto de sobrevivência e passa a ser instrumento de controle social. O dono das ovelhas precisa que os outros homens temam perder o acesso ao alimento. O sistema se sustenta na escassez administrada.
E quando o medo se institucionaliza, nasce o Estado coercitivo, a economia concentrada, a guerra preventiva, a violência legitimada.
A partir da cerca das ovelhas, começa a cerca das terras. Depois a cerca das fronteiras e as cercas ideológicas. O mundo passa a ser organizado por limites impostos e defendidos pela força.
A Cultura Matrística: Outra Possibilidade
Mas a história dos homens e dos lobos não é apenas denúncia. Ela é também possibilidade. Existe outro modo de viver.
A lógica do caçador existiu de fato, e ainda existe no nosso “inconsciente coletivo”; mas, paralelamente, aparece na história da humanidade, a lógica do agricultor. Enquanto o caçador se orienta pela captura e pelo controle, o agricultor se orienta pelo cultivo e pela renovação. O agricultor não domina a terra; ele coopera com ela. Ele não acumula para excluir; ele cultiva para compartilhar.
Aqui aproximo-me daquilo que Maturana chama de cultura matrística, não no sentido biológico, mas no sentido emocional e relacional .A cultura matrística se organiza pela convivência, pela reciprocidade e pela horizontalidade. Ela não elimina o conflito, mas não o estrutura como sistema permanente. Ela não depende da exclusão para se afirmar.
Um exemplo contemporâneo disso são as olimpíadas: há competição, há disputa, há “luta”, mas não há inimizade: vencedores e vencidos, ao final, irmanam-se na celebração da vida.
Amar e Brincar: A Raiz da Cooperação
Quando penso na cultura matrística, penso na experiência do brincar. No brincar não há hierarquia fixa. Há coordenação. Há alternância. Há criatividade compartilhada.
A criança que brinca não domina o brinquedo para excluir o outro. O brincar é o espaço da convivência sem medo, embora haja nele conflitos, relações de poder; mas não há inimizades. Amar, no sentido maturânico, é reconhecer o outro como legítimo outro na convivência, nessa dinâmica exploratória das relações.
Se aplico essa lente à história dos homens e dos lobos, percebo que o ponto de ruptura foi justamente a negação da legitimidade do outro. O lobo deixou de ser parte do sistema e passou a ser ameaça. O homem vizinho deixou de ser parceiro e passou a ser competidor. A mulher deixou de ser co-criadora e passou a ser subordinada. O que é ou pensa diferente, deixou de ser possibilidade para ser ameaça.
O Nascimento da Estrutura Hierárquica
A partir da “cerca das ovelhas”, surge algo que se repete até hoje:
- A propriedade privada concentrada.
- O trabalho como condição de acesso.
- A remuneração mínima como forma de controle.
- A obediência como moeda de sobrevivência.
A história que conto é primitiva, mas sua lógica é contemporânea. Hoje as ovelhas podem ser substituídas por capital financeiro, tecnologia, informação, terras, dados; mas, a estrutura permanece: quem controla o recurso controla o acesso; quem controla o acesso controla as pessoas; quem controla as pessoas controla o que elas pensam; quem controla o que o outro pensa cria ideologias de conveniência; e quem controla as ideologias de conveniência, mantém o sistema; quem controla o sistema, controla o recurso. Assim, o ciclo se mantém.
A Transição Necessária
Eu não conto essa história para romantizar o passado nem para demonizar o presente. Conto-a para revelar a matriz relacional que sustenta nossas instituições. Se o patriarcado nasceu do medo da perda, a restauração da cultura matrística exige confiança.
Confiança é um ato relacional. Ela não nasce da imposição, mas da reciprocidade. Ela exige que eu veja o outro não como ameaça ao meu estoque de ovelhas, mas como parceiro na produção de novos campos. Essa transição não é apenas estrutural. É ontológica. Ela exige mudança no modo como observamos as coisas para interferir nelas.
Se sou um observador formado pela lógica do controle, minhas ações gerarão resultados de dominação. Se torno-me um observador relacional, minhas ações produzirão cooperação.
A História Continua
Hoje, quando olho para o mundo, vejo homens ainda lutando contra lobos imaginários, vejo sistemas construídos sobre o medo de perder. Vejo muros sendo erguidos. Vejo discursos de exclusividade e exclusão.
Mas também vejo algo diferente surgindo, quando percebo o movimento das minorias por vez e voz. Aí vejo redes colaborativas, economias solidárias, lideranças que trocam comando por cuidado, empresas e organizações que substituem controle por confiança.
A transição da cultura patriarcal para a restauração da cultura matrística não é um retorno ao passado. É um salto evolutivo. Ela não elimina a força. Ela redireciona a força para a proteção da vida, não da posse. Ela não elimina a liderança. Ela transforma liderança em serviço.
Mas, acima de tudo, ela reconhece a igualdade de gênero com condição indispensável parra uma humanidade restaurada em sua saúde relacional. Isso porque o patriarcado não possui em si mesmo, todas as distinções relacionais para aquilo que chamamos de humano. A cultura matrística integra essas distinções.
A Pergunta Final
A história dos homens e dos lobos me deixa sempre com algumas perguntas nas quais debruço minhas atenções, pesquisas e estudos:
- O que estamos cercando hoje?
- Quais são as ovelhas que declaramos exclusivamente nossas?
- Quais lobos estamos “matando” por medo?
- Por que precisamos enxergar o diferente como inimigo?
- Em que momento perdemos a capacidade de conversar para resolver nossas “questões”?
Preocupa-me o fato de que em pleno século XXI, com tanta tecnologia e informação disponível, com tanta conexão à nossa disposição, ainda encontramos pessoas que creem que “jogar bomba na cabeça uns dos outros” é a melhor forma de resolver os dramas da humanidade. Para mim, a cultura do patriarcado sofre de uma profunda miopia relacional e a cultura matrística surge como uma possibilidade restauradora de todas as coisas que nos são genuína e essencialmente humanas.
Mas, sobretudo e para isso, precisamos nos perguntar: estamos dispostos a desmontar as cercas internas que sustentam nosso próprio patriarcado emocional? Porque, no fundo, o patriarcado não é apenas uma estrutura social externa. Ele é uma estrutura interna de controle. Por sua vez, a cultura matrística começa quando eu deixo de viver como proprietário do mundo e passo a viver como cuidador do vínculo.
Reflitam em paz!



Recentemente, uma cena inusitada dominou os noticiários de tecnologia: durante um encontro global, os grandes chefões das gigantes de Inteligência Artificial — incluindo nomes de peso como Sam Altman (OpenAI), Sundar Pichai (Google/Alphabet), Satya Nadella (Microsoft), Mark Zuckerberg (Meta) e Elon Musk (xAI) — simplesmente se recusaram a dar as mãos para a tradicional foto em grupo. O constrangimento foi visível. A tentativa de demonstrar união falhou publicamente.
Como estudioso do comportamento humano, não pude deixar de analisar esse episódio sob a ótica da Inteligência Relacional (IR), tema que desenvolvo há mais de três décadas em meus livros da Coleção Inteligência Relacional e no Método QR.
Esses líderes possuem um QI (Quociente de Inteligência) formidável. São mentes brilhantes que estão desenhando o futuro da humanidade através de algoritmos, machine learning e redes neurais complexas. No entanto, a cena expõe um déficit preocupante em outro quociente vital para a nossa espécie: o QR (Quociente Relacional).
O que a recusa daquele simples gesto físico revela sobre o mundo corporativo que estamos construindo?
1. O excesso de Relações Instrumentais e a falta de Relações Nutritivas
Na Teoria da Inteligência Relacional, entendemos que grande parte do adoecimento corporativo moderno vem da superficialidade. Na “sociedade líquida” em que vivemos — conceito cunhado pelo sociólogo Zygmunt Bauman —, os relacionamentos muitas vezes se tornam puramente instrumentais: você vale o que você entrega. Quando líderes de mercado se encontram apenas como competidores vorazes, não existe o que chamamos de ERA (Espaço Reflexivo da Aprendizagem). Sem esse espaço de confiança, tentar forçar um gesto de união (dar as mãos) torna-se uma hipocrisia insustentável. O corpo, que não mente, simplesmente trava.
2. A ausência de Ressonância Límbica e Acoplamento
Dois dos pilares da Inteligência Relacional são a Ressonância Límbica (a nossa capacidade humana de entrar em sintonia com a emoção do outro, de ter empatia) e o Acoplamento (a habilidade de nos complementarmos, unindo forças para um bem maior). A atitude dos CEOs é a materialização do oposto disso: o Distanciamento. Quando a Força Excêntrica (o modo como nos expressamos para o mundo) está sob pressão e vemos o “Outro” apenas como uma ameaça ou um rival a ser batido, a nossa resposta natural é o isolamento e a esquiva. Esse padrão está diretamente ligado ao que abordamos nos nossos programas de palestras corporativas.
3. O Paradoxo do Futuro: Máquinas humanizadas, humanos mecanizados?
Como destaco em minhas reflexões sobre “A Gestação do Futuro”, estamos criando máquinas cada vez mais capazes de simular conversas, emoções e empatia, enquanto nós, humanos, estamos nos comportando cada vez mais como máquinas frias, programadas apenas para competir e bater metas. Não por acaso, pesquisas recentes do Harvard Business Review reforçam que a vantagem competitiva do futuro será híbrida: humanos com IA substituirão humanos sem IA — mas apenas quem souber cultivar conexões humanas genuínas liderará essa transição.
Como nos alertou Chaplin de forma magistral em O Grande Ditador: “Não sois máquinas! Homens é que sois!” Se os criadores das tecnologias que vão reger o amanhã não conseguem dar as mãos, reconhecer a legitimidade do outro e estabelecer um mínimo de respeito colaborativo, que tipo de futuro estamos gestando?
A reflexão para nós, Líderes e Gestores
Não precisamos ser amigos íntimos de nossos concorrentes ou concordar com tudo o que nossos colegas dizem. A Inteligência Relacional não exige que sejamos iguais. Ela exige que saibamos lidar com a diferença sem que ela seja vista como uma ameaça mortal. Requer a maturidade de sentar à mesa (ou posar para uma foto) compreendendo que, apesar da concorrência, o respeito e o reconhecimento da humanidade do outro são inegociáveis. Esse é o cerne do que ensino em Gente Inteligente Se Olha no Espelho.
Olhe para a sua equipe hoje: vocês estão genuinamente de mãos dadas, construindo um propósito juntos através do Acoplamento, ou estão apenas dividindo o mesmo sinal de Wi-Fi em um ambiente de Distanciamento e competição silenciosa? Se precisar de apoio para diagnosticar esse cenário, conheça nosso processo de Mapear e Diagnosticar e os artigos sobre Gestão e Liderança.
O futuro pertencerá àqueles que souberem usar a tecnologia, sim. Mas a liderança do futuro pertencerá àqueles que nunca perderem a capacidade de se conectar humanamente.
E você, o que achou dessa atitude dos líderes de IA? Faz sentido para o momento que vivemos? Vamos conversar nos comentários! 👇
#InteligenciaRelacional #Lideranca #InteligenciaArtificial #GestaoDePessoas #FuturoDoTrabalho #HomeroReis #MaturidadeCorporativa

Por que que as pessoas discutem? Por que que, às vezes, as conversas parecem um rodopiar sem fim, sem chegar a lugar nenhum? Por que que, muitas vezes, as nossas relações dialogais são infrutíferas? Estas são questões que eu quero discutir com você nesse bate-papo que teremos nos próximos minutos. A complexidade das conversas e os resultados. Fique comigo.
René Descartes, século XVI, ele disse uma frase, uma vez, que é muito significativa para os dias de hoje. Ele dizia assim, defina os termos que as discussões cessam. O que se queria dizer com isso, numa proposta racionalista, é que a partir do momento que todos os interlocutores sabem exatamente o significado das palavras e das coisas que estão utilizando, muito provavelmente as discussões cessam, porque não há muita discordância, necessariamente, a partir do momento em que as pessoas conhecem sobre aquilo que se está falando.
E aí você passa a conversar ou a refletir mais efetivamente sobre a construção dos conteúdos do que, muito provavelmente, pela construção da significância prévia dos conteúdos. Então, quando René Descartes dizia isso, ele dizia, olha, defina os termos que as discussões cessam. Por outro lado, você descobre que, ao longo da história da humanidade, conversar tem sido um grande desafio na questão da expressão dos nossos valores e das nossas percepções de realidade e do modo como a gente percebe as coisas e gera assunto para que as relações aconteçam e se mantenham.
Então, existe um nível conversacional que eu diria que é um nível de entretenimento, que são aquelas conversas que você tem tomando uma cerveja, conversando com os amigos, rindo, que são conversas muito pouco estruturadas, mas que são conversas cujo grande objetivo é trazer em si mesmas o entretenimento relacional. Se você pensar bem, destas conversas de entretenimento, você se recorda muito pouco. Elas são extremamente efêmeras.
Então, são conversas que você as tem tomando uma cerveja, batendo um papo com os amigos na praia, falando sobre qualquer coisa, mas quando essas conversas, quando aquele setting se conclui, muito provavelmente o conteúdo dessas conversas se dissipa. Você não fica gastando a sua mente em preservar essas conversas e elas são, eu as chamo de conversas de entretenimento. Existe um outro tipo de conversa que a gente chama de conversas instrutivas ou conversas instrumentais.
São aquelas conversas que a gente tem que efetivamente determinam relações operacionais dialógicas que estão acontecendo entre aqueles atores. Então, por exemplo, você diz para um garoto, olha, coma de boca fechada, sente-se de uma forma mais adequada, por favor, cumprimente as pessoas, me traga aquele relatório, enfim. São conversas que você tem aonde você instrumentaliza, orienta as pessoas para fazerem determinadas coisas e aí, nestas conversas instrumentais, elas estão envolvidas, os pedidos estão envolvidos, as ofertas estão envolvidas, as coordenações de ações no sentido genérico das coisas estão envolvidas, as reclamações.
Então nós temos um grupo de conversas que a gente chama de conversas de entretenimento, nós temos um conjunto de conversas de coordenação de ações que são conversas para que as coisas sejam feitas, tanto do ponto de vista da minha oferta para o mundo, quanto no sentido dos pedidos e reclamações que faço, etc, que é um segundo tipo de conversa, mas tem um terceiro tipo de conversa que eu chamo de conversas nutritivas, que são as conversas que fazem com que a gente reflita sobre a natureza da nossa vida, sobre a nossa cosmovisão, sobre os nossos princípios éticos, os nossos princípios morais, os nossos princípios de valores e que regem a nossa aprendizagem enquanto membros de uma sociedade organizada e complexa na qual a gente tem que conviver com um pouco dessas disparidades entre as pessoas. E é nessas conversas nutritivas que muitas vezes a gente se exaspera, a gente discute naquele sentido de que dois diferentes observadores estão falando a mesma coisa e por não conseguirem escutar efetivamente um ao outro eles acabam discutindo sobre a mesma coisa e passam horas a fio numa dialogação, essa palavra não existe, vamos criá-la agora, numa dialogação complexa e que acaba não chegando em lugar nenhum. Então são três grandes níveis em que estas conversas acontecem.
A primeira delas é o que eu chamo de percepção estética, a segunda é o que eu chamo de gosto artístico e a terceira é o que eu chamo de distinções de mercado. Então percepção estética, gosto artístico e distinções de mercado. Por que que esses três elementos são importantes para nós orientarmos uma conversa nutritiva? Porque pelo seguinte, veja, quando eu falo de percepção estética eu estou me referindo ao conjunto de informações que o observador tem e não só da informação, mas como da sua formação acerca do objeto ao qual ele está se referindo.
Então imagine que por percepção estética é a capacidade que o observador tem de conhecer de forma efetiva as normas, os critérios, os paradigmas daquela sua área de conhecimento, de valor ou da qual ele está discutindo. Por exemplo, quando eu falo de percepção estética na arte eu estou falando da capacidade que aquele observador tem de conhecer a técnica artística utilizada, de conhecer a história da arte, de conhecer, enfim, de ter informação e conhecimento sobre os elementos que constituem aquele objeto sobre o qual ele está se falando. Então isso nós chamamos de percepção estética.
Um segundo elemento, quando eu falo de gosto artístico, eu estou falando se aquilo que você observa você gosta ou não gosta. E essa questão do gosto artístico ela é de foro íntimo. Então eu gosto ou não gosto de determinadas coisas por razões subjetivas da minha própria concepção enquanto ser humano.
E o terceiro elemento, que são as dimensões de mercado, eu começo a perceber o impacto que aquele objeto, que aquele tema que nós estamos discutindo tem na sociedade organizada como um tal. Então a isso chamamos dimensões de mercado. Deixe-me dar um exemplo a você que explica de uma forma mais ilustrativa todo esse conjunto.
Eu estava no Louvre, em Paris, certa vez agora, na questão de um ano e meio, e observando num dia de extrema sorte, o Louvre, pasmem, estava vazio nesse dia, e eu estava observando Monalisa, já o tinha feito por diversas outras ocasiões, e nesse dia como o Louvre estava vazio eu me dediquei a observar um pouco mais as pessoas que adentravam ao salão onde está a Monalisa para observar a Monalisa. Nisso aparece uma família, cinco pessoas, o pai, a mãe e três filhos. Eles andam por um caminho que estava lá previamente determinado e dão de cara com a Monalisa.
O pai, em alto e bom som, vira para a esposa e para os três filhos e diz textualmente assim, isto é Monalisa? Para mim não vale nada, não daria dez dólares por ela. Que decepção. E sai.
E a mãe, a esposa e os filhos o acompanham após essa declaração bombástica. O que aconteceu aí? Vamos analisar este fenômeno a partir desses três elementos que eu lhes apresentei. Percepção estética, gosto artístico e dimensão de mercado.
Primeiro, este pai, este senhor, pode não ter nenhuma percepção estética. Ou seja, ele não conhece da arte, ele não conhece de técnica de pintura, ele não conhece absolutamente nada sobre os elementos artísticos que estão presentes no quadro da Monalisa. Portanto, ele não tem nenhuma distinção daquilo que chamamos de percepção estética.
O segundo elemento é o gosto artístico. Ele não gosta daquele quadro. Ou seja, ele olha para aquele quadro e o quadro não desperta nele nenhuma emoção, a não ser a emoção do desgosto.
Eu não gosto daquilo que vejo, ele não me provoca absolutamente nada. Mas, no que diz respeito às distinções de mercado, este senhor não pode ignorar o fato de que ele está diante de uma obra que mobiliza milhões de pessoas ao longo do mundo, que gastam milhões de dinheiros todos os dias, ao longo de centenas de anos, para ver esse quadro. Quer dizer, um dos quadros mais visitados na história da humanidade é Monalisa de Leonardo Da Vinci.
Quer dizer, veja, eu não tenho percepção estética, o meu gosto artístico não tem nenhuma relação com aquela coisa, mas eu não posso negar o fato de que milhões de pessoas estão observando aquele quadro. Ou seja, no mínimo, eu deveria ter a humildade de perguntar o seguinte, o que que esse quadro contém que mobiliza milhões de dólares, milhares de pessoas, há centenas de anos, e que faz parte da grande curiosidade humana? Então veja, este é um exemplo interessantíssimo para a gente poder caminhar no entendimento desses processos. Agora, olha só, vamos continuar ainda com o exemplo da Monalisa e o caso do pai desgostoso de vê-la.
Eu posso agora ser um outro observador que conheço tudo sobre arte, eu entendo toda a técnica pictórica, eu entendo toda a técnica plástica, eu estudei Leonardo Da Vinci, eu estudei a estética da arte, eu estudei a história da arte, eu entendi os processos pelos quais a Monalisa foi feita, eu entendi tudo sobre aquela arte. Então eu conheço a obra, eu olho para a obra e sei dizer se ela é bem pintada, se ela é mal pintada, se ela é uma boa obra, se ela é… Enfim, eu tenho essas distinções. Olhando para a Monalisa, aí eu construo um juízo estético sobre ela.
Eu digo, olha, é um quadro bem estruturado, bem pintado, a técnica apuradíssima. Então veja, eu estou falando da minha percepção estética. Quando eu vou para o gosto artístico, eu posso, apesar disso, olhar e dizer, mesmo assim, eu não gosto da Monalisa.
Ou seja, eu sei como ela foi pintada, sei da importância, sei disso, sei daquilo, mas não gosto. Perfeito? E além disso, eu reconheço que existe uma permeação mercadológica, portanto a permeação no mercado da imagem da Monalisa, que é uma segunda abordagem. A terceira abordagem é, eu conheço a arte e, por causa disso, eu admiro a Monalisa, gosto da Monalisa, eu olho para ela e gosto do que vejo e tenho a percepção de mercado de que ela é uma obra mundialmente reconhecida.
Então, se você usa esses três critérios, isso facilita muito a sua discussão sobre qualquer coisa. Você quer ver um outro exemplo muito contextualizado para a nossa cultura? E aí eu digo respeito a mim mesmo. Por exemplo, eu não tenho nenhuma filiação com times de futebol.
Eu não gosto de futebol. Mas eu não posso negar que o futebol é uma das expressões da nossa cultura. Então, quando eu vejo centenas de milhares de pessoas reunidos num estágio vendo um Fla-Flu, repare só, eu reconheço a importância dessa partida flamenco-feminense porque existe uma paixão nacional que mobiliza milhões de pessoas em torno desse tema chamado futebol.
Então, eu não posso negar que essa partida Fla-Flu seja uma partida significativa. Então, isso são distinções de mercado. Segundo, no que diz respeito à percepção, ao gosto artístico, eu não gosto de futebol.
Então, não há nada, embora seja importante, que me atraia no futebol. E eu não tenho nenhuma percepção estética. Quer dizer, eu não conheço futebol.
Eu não saberia dizer se as pessoas gostam ou não gostam, jogam ou não jogam bem. Então, veja você, esse exemplo que eu dei para o futebol pode nos levar a quase todas as outras reflexões. Então, por exemplo, recentemente eu vi, presenciei num determinado local dois casais tendo uma acirrada discussão sobre questões religiosas que envolviam a bíblia e outros elementos religiosos aí presentes.
E a discussão estava acalorada. E eu comecei a analisar isso sob a perspectiva desses três pontos. Então, veja só.
Primeiro, eu tenho uma percepção, eu tenho uma distinções estéticas, percepções estéticas, acerca daquele fenômeno religioso que eu estou estudando. Eu conheço, por exemplo, religião. Estudei religião, estudei as manifestações religiosas, portanto eu olho para o cristianismo, para o budismo, para… ou seja, para qualquer expressão religiosa.
Por hipótese, imagine que eu conheça teológica e filosoficamente essas religiões. Eu opto agora por ser, digamos, presbiteriano ou ser evangélico. Repare, eu conheço, tenho percepções estéticas e tenho gosto artístico por uma determinada manifestação religiosa.
E não posso negar que todas as outras percepções religiosas, mesmo aquelas que eu não gosto, tem uma grande representatividade de mercado. Então, reconhecer que determinada religião tem representatividade de mercado não significa desqualificar uma para qualificar outra ou simplesmente validar uma ou validar outra. Não é essa a questão.
É eu entender que nesse universo mundial de sete bilhões, quase sete bilhões e meio de pessoas, existem manifestações de mercado para quase todas as apreciações religiosas que existem. Portanto, mercadologicamente elas têm adeptos e eu tenho que reconhecer isso. Isso é um fato.
Isso não depende de mim, portanto não cabe aqui o julgamento de certo ou errado. Na questão do gosto artístico, também não, porque veja, eu gosto de certas coisas e não gosto de certas coisas. Quer dizer, ainda do ponto de vista religioso existem certas liturgias, ou seja, modos de fazer, que eu gosto.
Outros modos de fazer eu não gosto. E aqui também não se estabelece a condição de nenhum julgamento de valor, porque é uma questão pessoal. Aqui é uma questão mercadológica, aqui é uma questão pessoal.
E nesse primeiro elemento, no que diz respeito às construções daquilo que eu estou chamando de percepções estéticas, aqui diz respeito ao grau de conhecimento que eu tenho daquela coisa. Também diz respeito ao volume de informação e de formação que eu tenho. O que me faz dizer que eu conheço tal coisa, mas não conheço outra coisa e eu aceito aquilo que eu conheço.
Entende? Então veja, percepção estética, gosto artístico e distinções de mercado, se eu tenho essas três coisas claramente na minha forma de percepção da realidade, você vai descobrir que as minhas conversas se tornam muito mais nutritivas. Então, por exemplo, muitas vezes o meu gosto artístico não é favorável a determinada distinção de mercado porque me falta a percepção estética. E então muitas vezes uma pessoa, quando me diz assim, ô Mero, eu não gosto de música clássica, gosto artístico, esta pessoa o faz porque ela não tem formação estética suficiente para poder fazer um juízo sobre isso.
E o que a gente tem percebido nas conversas nutritivas é que muitas vezes o não gostar é decorrência da ignorância da percepção estética. Então o que a gente faz? Quando eu tenho essa distinção na minha cabeça e eu descubro que eu não gosto de alguma coisa, eu preciso primeiro perguntar o seguinte, eu não gosto porque eu sou ignorante com relação à percepção estética ou eu não gosto porque conhecendo a percepção estética, eu agora não opto por aquilo. E agora não posso negar em nenhum momento de que existe volume mercadológico suficiente.
Recentemente eu estava em Las Vegas, ali no Rock in Rio em Las Vegas, eu andava lá no último dia, fui lá assistir o encerramento daquele show maravilhoso. A produção do show é fantástica a mobilização do show é fantástica. Então milhares de pessoas estavam ali.
Eu não posso negar as distinções de mercado. Agora se você me pergunta se eu gosto daquele tipo de música, não. Agora eu conheço essa, conheço, conheço.
Eu conheço rock and roll, eu conheço samba, eu conheço a estrutura da música, eu conheço a história da música, eu conheço essa história da arte, eu conheço um pouco de onde vem a música clássica, como é que ela se fundamentou nos seus diversos matizes, nos seus diversos atores. Então veja, embora conheça eu não gosto, mas não posso negar a sua representatividade mercadológica. Isso faz com que agora a discussão ou ela se dá no limite de coisas que eu não conheço sobre o rock que se vier a conhecer eu passo a gostar ou a conversa agora transita simplesmente pelo fato de gostar ou não gostar e isso não me leva a lugar nenhum.
Portanto se eu estou interessado em mudar o meu gosto eu preciso aprofundar o meu conhecimento, mas mesmo assim aprofundando o conhecimento isso não é garantia suficiente para que eu mude o meu gostar. Em outras palavras, eu posso aprofundar indefinidamente o meu conhecimento sobre determinada coisa e continuar não gostando dela embora não possa negar a sua realidade mercada. Então eu quero deixar isso com você como uma forma de você refletir sobre a natureza das suas conversas nutritivas para que elas se tornem conversas que te nutrem e não conversas que lhe desgastem.
Resumindo, todas as pessoas podem gostar ou não, isso é um direito que você tem e não cabe sobre isso juízo meu. Eu não posso lhe forçar a gostar ou não gostar de coisa alguma. Agora você deve ser responsável por ter formação e informação acerca das coisas que você conversa, porque se você tem formação e informação sobre as coisas que você conversa você me ajuda naquilo que eu não sei e isso pode alterar o meu gosto artístico.
Agora lembre-se, essa alteração é de foro íntimo. Em terceiro lugar, eu preciso perceber que existe uma representatividade de mercado. Essa representatividade é infinitamente maior do que aquilo que eu sei ou não sei, do que aquilo que eu gosto ou não gosto.
É uma circunstância de mercado. Esses tempos atrás eu conversava com um amigo sobre esse tema e nós discutimos o seguinte, e eu refletia com ele sobre o seguinte aspecto. Por exemplo, existe um conjunto de músicas que hoje se veicula no mercado nacional que são músicas que eu não gosto, portanto fazem parte daquele segundo elemento do gosto artístico, eu simplesmente não gosto.
Conheço aquelas músicas, conheço. Há uma representatividade de mercado? Sim, vendem-se milhões de discos daquelas músicas que eu não gosto. Agora, quando você submete essas músicas aos critérios técnicos de elaboração de uma música enquanto arte, você descobre que elas deixam muito a desejar do ponto de vista da construção estética.
Ou seja, elas não atendem aos princípios normativos da estética, mas são populares. Isso as invalida de hipótese alguma, mas as tira da qualificação de uma música um pouco mais elaborada, de uma música um pouco mais erudita. Aí, isso você diz respeito, por exemplo, à literatura.
Portanto, eu diria para você, não existem livros ruins e livros bons. Existem livros mal escritos e livros bem escritos. Então, nessa questão dos livros, que não existem livros bons nem ruins, livros mal escritos e bem escritos, isso diz respeito a quase todos os assuntos com os quais nós lidamos no nosso dia a dia.
Qual é o desafio nosso? É você perceber uma coisa bem interessante. Existem coisas populares que são esteticamente ruins. E existem pessoas que gostam ou não gostam destas coisas, do ponto de vista do seu gosto artístico.
Agora, existe uma norma que gerencia, que estabelece as bases para as quais as coisas sejam feitas. Então, estas coisas merecem o meu conhecimento. Então, veja, eu não posso, em nome de uma liberdade qualquer, escrever um livro cometendo erros de português porque é a minha forma de escrever.
Não. Se você quer escrever, você tem que seguir a norma. Essa norma é dinâmica com relação ao tempo, sim, mas diz respeito às chamadas percepções estéticas.
Quem é que escreve melhor, do ponto de vista da forma? Quem conhece melhor a forma? Isso é garantia de que as pessoas vão gostar? Não. Isso é garantia de que há mercado? Também não. Tanto é que existem muita coisa bem escrita que não tem representação de mercado.
Existe música bem composta, bem elaborada, bem executada e que não tem repercussão de mercado. Algumas pessoas gostam, outras não. Então, o que a gente precisa entender é que se eu tenho discernimento destas três coisas, eu consigo agora interagir com você numa conversa em que eu começo a me nutrir daquilo que você sabe que eu não sei e eu começo a lhe nutrir daquilo que eu sei que você não sabe.
E esse processo de nutrição poderá alterar o nosso gosto sobre as coisas e isso é desenvolver, isso é mudar, isso é crescer, isso é aprender. Isso vai ter repercussão de mercado para nós? Pode ser que sim, pode ser que não, mas aí já não é mais um nível de controle nosso, mas um nível de percepção da realidade. Fique com isso, percepção estética, gosto artístico, dimensões de mercado.
Essas três coisas caracterizam de forma mais efetiva as conversas nutritivas que são aquelas conversas que nos tornam melhores nas nossas relações. Fique com isso. Um beijo!

por Homero Reis
Há uma história que me acompanha há muitos anos. Eu a conto de diferentes maneiras, em contextos distintos, mas sua essência permanece a mesma. É uma história simples, quase infantil, mas quanto mais a examino, mais percebo que ela carrega em si o drama inteiro da civilização. Eu a chamo de “A História Dos Homens E Dos Lobos”.
No princípio, e esse princípio não é um ponto no tempo, mas uma condição do viver, todos os seres estavam inscritos em uma complementaridade sistêmica. Não uso essa expressão de maneira ingênua; uso-a no sentido antropológico que observa vestígios arqueológicos, pinturas rupestres, ferramentas quebradas, ossadas espalhadas, encontrados no que chamo de lixo civilizatório.
A vida, naquele momento originário, obedecia a uma lógica simples: a da interdependência. O lobo comia a ovelha quando tinha fome. O homem também fazia o mesmo. Não havia moralização da cadeia alimentar. Havia necessidade. Havia sobrevivência. Havia um equilíbrio dinâmico inscrito na própria natureza da vida e nos seus ciclos.
Mas, em algum momento, e essa é a inflexão decisiva da história, algo mudou. Não se sabe exatamente quando, nem como. Sabe-se apenas que os vestígios arqueológicos indicam que os lobos começaram a morrer de forma diferente. Não apenas por fome, doença ou disputa intraespécie; mas, com crânios perfurados, com pontas de flecha cravadas no tórax. Esses “encontrados” são sinais inequívocos de agressão deliberada feita pelos “então humanos”. Isso significa uma coisa: os homens começaram a matar os lobos não para comer, mas para impedir que eles comessem do que lhes era também de direito, por exemplo, as ovelhas, considerando o equilíbrio natural. E aqui nasce a ruptura.
A Primeira Apropriação
Quando os homens cercaram as ovelhas e disseram “estas ovelhas são nossas”, inauguraram algo que não existia antes: a propriedade exclusiva de um bem coletivo.
Antes disso, a ovelha era parte do ecossistema. Ela não “pertencia” ao lobo, nem ao homem. Ela fazia parte de um fluxo. O lobo a comia. O homem também e a vida seguia.
Mas, ao cerca-las, impedindo que os lobos tivessem acesso a elas, o homem não apenas “as protegeu”, como reivindicou exclusividade sobre elas. E toda exclusividade precisa de defesa: a defesa gerou conflito; o conflito gerou medo; e, o medo gerou comando e controle. Eis aí o início de nossa atual forma de nos movermos no mundo. Mas, tem mais.
Aprendi, ao longo da minha trajetória refletindo sobre Inteligência Relacional, que todo sistema baseado em controle nasce do medo. E aqui vejo o nascimento do medo estruturado como cultura. Não era apenas o medo da fome. Era o medo da perda da posse. Era o início da individualização das coisas e das relações numa estrutura de poder danosa.
A partir desse momento, a ovelha deixou de ser alimento compartilhado no fluxo da vida e tornou-se capital acumulado. E onde há capital acumulado, há necessidade de vigilância e desigualdade social gritante.
O Segundo Movimento: A Dominação Entre Homens
Mas a história não para aí. Há um segundo momento ainda mais revelador. Se, no primeiro movimento, os homens se colocaram contra os lobos, no segundo eles se colocaram uns contra os outros.
Em algum ponto do processo, um homem, ou um grupo específico de homens, declarou:
“Estas ovelhas são minhas.” Não “nossas”. Minhas.
Essa palavra inaugura a hierarquia. Agora, não apenas os lobos estão excluídos. Outros homens também estão. E o acesso ao alimento passa a depender de uma nova condição: submissão ao proprietário: se você quiser comer, trabalhe para mim; se você quiser viver, submeta-se à minha estrutura; se quiser viver, me obedeça. Aqui nasce o que mais tarde chamaríamos de sistema econômico hierarquizado. E aqui começa a consolidação do patriarcado, sustentado por uma narrativa de poder ideologicamente construído, ou por “força física”, ou por manipulação da ignorância (esoterismo, misticismo e demais coisas semelhantes).
Patriarcado: A Cultura do Comando
Quando observo esse processo, percebo que o patriarcado não é apenas uma organização social masculina. Ele é uma matriz emocional que se fundamenta em três pilares: apropriação exclusiva; controle do acesso; hierarquização baseada no medo; ideologia da diferenciação baseada em narrativas esotéricas, místicas e outras que tais, como forma de legitimar o poder.
O fato do homem está no centro do patriarcado, decorreu de uma situação interessante, que exploro em outro ensaio, “O Cálice e a Espada”.
O patriarcado transforma a interdependência em dependência unilateral. Ele substitui o fluxo pela retenção. Ele troca cooperação por dominação. Eu aprendi com Humberto Maturana, especialmente em Amar e Brincar, que existem culturas baseadas no controle e na competição, e culturas baseadas na colaboração e no cuidado. A primeira estrutura-se na negação do outro como legítimo outro. A segunda reconhece o outro como parte constitutiva do sistema. O patriarcado, na minha leitura, nasce exatamente no momento em que o outro deixa de ser legítimo. Primeiro o lobo.
Depois o homem vizinho. E, mais tarde, a mulher, quando se “descobre a relação direta entre o coito e a gravidez”. Nesse momento a gravidez deixa de ser uma “concepção divina”, para ser resultado da “semente” do homem; e, a mulher deixa de ser uma “representação da divindade” e passa a ser uma incubadora do “macho dominante”.
Em resumo: a “descoberta” da relação direta entre coito, gestação e parto, tirou da mulher a condição de sacralidade da “produção de um novo ser”, e colocou tal possibilidade “na semente masculina”. A mulher tornou-se a incubadora e o homem o “representante” dos deuses. Isso o tronou o centro do poder e, portanto, a estrutura básica do patriarcado.
O Medo Como Fundamento Civilizatório
Não posso deixar de relacionar essa história com os “Quatro Gigantes da Alma”, livro de Emilio Mira y López, sobre o qual tantas vezes revisitei em minha obra.
O medo, um dos gigantes, quando é guardião, nos protege. Mas quando se torna carcereiro, nos aprisiona. Aqui, o medo deixa de ser instinto de sobrevivência e passa a ser instrumento de controle social. O dono das ovelhas precisa que os outros homens temam perder o acesso ao alimento. O sistema se sustenta na escassez administrada.
E quando o medo se institucionaliza, nasce o Estado coercitivo, a economia concentrada, a guerra preventiva, a violência legitimada.
A partir da cerca das ovelhas, começa a cerca das terras. Depois a cerca das fronteiras e as cercas ideológicas. O mundo passa a ser organizado por limites impostos e defendidos pela força.
A Cultura Matrística: Outra Possibilidade
Mas a história dos homens e dos lobos não é apenas denúncia. Ela é também possibilidade. Existe outro modo de viver.
A lógica do caçador existiu de fato, e ainda existe no nosso “inconsciente coletivo”; mas, paralelamente, aparece na história da humanidade, a lógica do agricultor. Enquanto o caçador se orienta pela captura e pelo controle, o agricultor se orienta pelo cultivo e pela renovação. O agricultor não domina a terra; ele coopera com ela. Ele não acumula para excluir; ele cultiva para compartilhar.
Aqui aproximo-me daquilo que Maturana chama de cultura matrística, não no sentido biológico, mas no sentido emocional e relacional .A cultura matrística se organiza pela convivência, pela reciprocidade e pela horizontalidade. Ela não elimina o conflito, mas não o estrutura como sistema permanente. Ela não depende da exclusão para se afirmar.
Um exemplo contemporâneo disso são as olimpíadas: há competição, há disputa, há “luta”, mas não há inimizade: vencedores e vencidos, ao final, irmanam-se na celebração da vida.
Amar e Brincar: A Raiz da Cooperação
Quando penso na cultura matrística, penso na experiência do brincar. No brincar não há hierarquia fixa. Há coordenação. Há alternância. Há criatividade compartilhada.
A criança que brinca não domina o brinquedo para excluir o outro. O brincar é o espaço da convivência sem medo, embora haja nele conflitos, relações de poder; mas não há inimizades. Amar, no sentido maturânico, é reconhecer o outro como legítimo outro na convivência, nessa dinâmica exploratória das relações.
Se aplico essa lente à história dos homens e dos lobos, percebo que o ponto de ruptura foi justamente a negação da legitimidade do outro. O lobo deixou de ser parte do sistema e passou a ser ameaça. O homem vizinho deixou de ser parceiro e passou a ser competidor. A mulher deixou de ser co-criadora e passou a ser subordinada. O que é ou pensa diferente, deixou de ser possibilidade para ser ameaça.
O Nascimento da Estrutura Hierárquica
A partir da “cerca das ovelhas”, surge algo que se repete até hoje:
- A propriedade privada concentrada.
- O trabalho como condição de acesso.
- A remuneração mínima como forma de controle.
- A obediência como moeda de sobrevivência.
A história que conto é primitiva, mas sua lógica é contemporânea. Hoje as ovelhas podem ser substituídas por capital financeiro, tecnologia, informação, terras, dados; mas, a estrutura permanece: quem controla o recurso controla o acesso; quem controla o acesso controla as pessoas; quem controla as pessoas controla o que elas pensam; quem controla o que o outro pensa cria ideologias de conveniência; e quem controla as ideologias de conveniência, mantém o sistema; quem controla o sistema, controla o recurso. Assim, o ciclo se mantém.
A Transição Necessária
Eu não conto essa história para romantizar o passado nem para demonizar o presente. Conto-a para revelar a matriz relacional que sustenta nossas instituições. Se o patriarcado nasceu do medo da perda, a restauração da cultura matrística exige confiança.
Confiança é um ato relacional. Ela não nasce da imposição, mas da reciprocidade. Ela exige que eu veja o outro não como ameaça ao meu estoque de ovelhas, mas como parceiro na produção de novos campos. Essa transição não é apenas estrutural. É ontológica. Ela exige mudança no modo como observamos as coisas para interferir nelas.
Se sou um observador formado pela lógica do controle, minhas ações gerarão resultados de dominação. Se torno-me um observador relacional, minhas ações produzirão cooperação.
A História Continua
Hoje, quando olho para o mundo, vejo homens ainda lutando contra lobos imaginários, vejo sistemas construídos sobre o medo de perder. Vejo muros sendo erguidos. Vejo discursos de exclusividade e exclusão.
Mas também vejo algo diferente surgindo, quando percebo o movimento das minorias por vez e voz. Aí vejo redes colaborativas, economias solidárias, lideranças que trocam comando por cuidado, empresas e organizações que substituem controle por confiança.
A transição da cultura patriarcal para a restauração da cultura matrística não é um retorno ao passado. É um salto evolutivo. Ela não elimina a força. Ela redireciona a força para a proteção da vida, não da posse. Ela não elimina a liderança. Ela transforma liderança em serviço.
Mas, acima de tudo, ela reconhece a igualdade de gênero com condição indispensável parra uma humanidade restaurada em sua saúde relacional. Isso porque o patriarcado não possui em si mesmo, todas as distinções relacionais para aquilo que chamamos de humano. A cultura matrística integra essas distinções.
A Pergunta Final
A história dos homens e dos lobos me deixa sempre com algumas perguntas nas quais debruço minhas atenções, pesquisas e estudos:
- O que estamos cercando hoje?
- Quais são as ovelhas que declaramos exclusivamente nossas?
- Quais lobos estamos “matando” por medo?
- Por que precisamos enxergar o diferente como inimigo?
- Em que momento perdemos a capacidade de conversar para resolver nossas “questões”?
Preocupa-me o fato de que em pleno século XXI, com tanta tecnologia e informação disponível, com tanta conexão à nossa disposição, ainda encontramos pessoas que creem que “jogar bomba na cabeça uns dos outros” é a melhor forma de resolver os dramas da humanidade. Para mim, a cultura do patriarcado sofre de uma profunda miopia relacional e a cultura matrística surge como uma possibilidade restauradora de todas as coisas que nos são genuína e essencialmente humanas.
Mas, sobretudo e para isso, precisamos nos perguntar: estamos dispostos a desmontar as cercas internas que sustentam nosso próprio patriarcado emocional? Porque, no fundo, o patriarcado não é apenas uma estrutura social externa. Ele é uma estrutura interna de controle. Por sua vez, a cultura matrística começa quando eu deixo de viver como proprietário do mundo e passo a viver como cuidador do vínculo.
Reflitam em paz!

Recentemente, uma cena inusitada dominou os noticiários de tecnologia: durante um encontro global, os grandes chefões das gigantes de Inteligência Artificial — incluindo nomes de peso como Sam Altman (OpenAI), Sundar Pichai (Google/Alphabet), Satya Nadella (Microsoft), Mark Zuckerberg (Meta) e Elon Musk (xAI) — simplesmente se recusaram a dar as mãos para a tradicional foto em grupo. O constrangimento foi visível. A tentativa de demonstrar união falhou publicamente.
Como estudioso do comportamento humano, não pude deixar de analisar esse episódio sob a ótica da Inteligência Relacional (IR), tema que desenvolvo há mais de três décadas em meus livros da Coleção Inteligência Relacional e no Método QR.
Esses líderes possuem um QI (Quociente de Inteligência) formidável. São mentes brilhantes que estão desenhando o futuro da humanidade através de algoritmos, machine learning e redes neurais complexas. No entanto, a cena expõe um déficit preocupante em outro quociente vital para a nossa espécie: o QR (Quociente Relacional).
O que a recusa daquele simples gesto físico revela sobre o mundo corporativo que estamos construindo?
1. O excesso de Relações Instrumentais e a falta de Relações Nutritivas
Na Teoria da Inteligência Relacional, entendemos que grande parte do adoecimento corporativo moderno vem da superficialidade. Na “sociedade líquida” em que vivemos — conceito cunhado pelo sociólogo Zygmunt Bauman —, os relacionamentos muitas vezes se tornam puramente instrumentais: você vale o que você entrega. Quando líderes de mercado se encontram apenas como competidores vorazes, não existe o que chamamos de ERA (Espaço Reflexivo da Aprendizagem). Sem esse espaço de confiança, tentar forçar um gesto de união (dar as mãos) torna-se uma hipocrisia insustentável. O corpo, que não mente, simplesmente trava.
2. A ausência de Ressonância Límbica e Acoplamento
Dois dos pilares da Inteligência Relacional são a Ressonância Límbica (a nossa capacidade humana de entrar em sintonia com a emoção do outro, de ter empatia) e o Acoplamento (a habilidade de nos complementarmos, unindo forças para um bem maior). A atitude dos CEOs é a materialização do oposto disso: o Distanciamento. Quando a Força Excêntrica (o modo como nos expressamos para o mundo) está sob pressão e vemos o “Outro” apenas como uma ameaça ou um rival a ser batido, a nossa resposta natural é o isolamento e a esquiva. Esse padrão está diretamente ligado ao que abordamos nos nossos programas de palestras corporativas.
3. O Paradoxo do Futuro: Máquinas humanizadas, humanos mecanizados?
Como destaco em minhas reflexões sobre “A Gestação do Futuro”, estamos criando máquinas cada vez mais capazes de simular conversas, emoções e empatia, enquanto nós, humanos, estamos nos comportando cada vez mais como máquinas frias, programadas apenas para competir e bater metas. Não por acaso, pesquisas recentes do Harvard Business Review reforçam que a vantagem competitiva do futuro será híbrida: humanos com IA substituirão humanos sem IA — mas apenas quem souber cultivar conexões humanas genuínas liderará essa transição.
Como nos alertou Chaplin de forma magistral em O Grande Ditador: “Não sois máquinas! Homens é que sois!” Se os criadores das tecnologias que vão reger o amanhã não conseguem dar as mãos, reconhecer a legitimidade do outro e estabelecer um mínimo de respeito colaborativo, que tipo de futuro estamos gestando?
A reflexão para nós, Líderes e Gestores
Não precisamos ser amigos íntimos de nossos concorrentes ou concordar com tudo o que nossos colegas dizem. A Inteligência Relacional não exige que sejamos iguais. Ela exige que saibamos lidar com a diferença sem que ela seja vista como uma ameaça mortal. Requer a maturidade de sentar à mesa (ou posar para uma foto) compreendendo que, apesar da concorrência, o respeito e o reconhecimento da humanidade do outro são inegociáveis. Esse é o cerne do que ensino em Gente Inteligente Se Olha no Espelho.
Olhe para a sua equipe hoje: vocês estão genuinamente de mãos dadas, construindo um propósito juntos através do Acoplamento, ou estão apenas dividindo o mesmo sinal de Wi-Fi em um ambiente de Distanciamento e competição silenciosa? Se precisar de apoio para diagnosticar esse cenário, conheça nosso processo de Mapear e Diagnosticar e os artigos sobre Gestão e Liderança.
O futuro pertencerá àqueles que souberem usar a tecnologia, sim. Mas a liderança do futuro pertencerá àqueles que nunca perderem a capacidade de se conectar humanamente.
E você, o que achou dessa atitude dos líderes de IA? Faz sentido para o momento que vivemos? Vamos conversar nos comentários! 👇
#InteligenciaRelacional #Lideranca #InteligenciaArtificial #GestaoDePessoas #FuturoDoTrabalho #HomeroReis #MaturidadeCorporativa

Por que que as pessoas discutem? Por que que, às vezes, as conversas parecem um rodopiar sem fim, sem chegar a lugar nenhum? Por que que, muitas vezes, as nossas relações dialogais são infrutíferas? Estas são questões que eu quero discutir com você nesse bate-papo que teremos nos próximos minutos. A complexidade das conversas e os resultados. Fique comigo.
René Descartes, século XVI, ele disse uma frase, uma vez, que é muito significativa para os dias de hoje. Ele dizia assim, defina os termos que as discussões cessam. O que se queria dizer com isso, numa proposta racionalista, é que a partir do momento que todos os interlocutores sabem exatamente o significado das palavras e das coisas que estão utilizando, muito provavelmente as discussões cessam, porque não há muita discordância, necessariamente, a partir do momento em que as pessoas conhecem sobre aquilo que se está falando.
E aí você passa a conversar ou a refletir mais efetivamente sobre a construção dos conteúdos do que, muito provavelmente, pela construção da significância prévia dos conteúdos. Então, quando René Descartes dizia isso, ele dizia, olha, defina os termos que as discussões cessam. Por outro lado, você descobre que, ao longo da história da humanidade, conversar tem sido um grande desafio na questão da expressão dos nossos valores e das nossas percepções de realidade e do modo como a gente percebe as coisas e gera assunto para que as relações aconteçam e se mantenham.
Então, existe um nível conversacional que eu diria que é um nível de entretenimento, que são aquelas conversas que você tem tomando uma cerveja, conversando com os amigos, rindo, que são conversas muito pouco estruturadas, mas que são conversas cujo grande objetivo é trazer em si mesmas o entretenimento relacional. Se você pensar bem, destas conversas de entretenimento, você se recorda muito pouco. Elas são extremamente efêmeras.
Então, são conversas que você as tem tomando uma cerveja, batendo um papo com os amigos na praia, falando sobre qualquer coisa, mas quando essas conversas, quando aquele setting se conclui, muito provavelmente o conteúdo dessas conversas se dissipa. Você não fica gastando a sua mente em preservar essas conversas e elas são, eu as chamo de conversas de entretenimento. Existe um outro tipo de conversa que a gente chama de conversas instrutivas ou conversas instrumentais.
São aquelas conversas que a gente tem que efetivamente determinam relações operacionais dialógicas que estão acontecendo entre aqueles atores. Então, por exemplo, você diz para um garoto, olha, coma de boca fechada, sente-se de uma forma mais adequada, por favor, cumprimente as pessoas, me traga aquele relatório, enfim. São conversas que você tem aonde você instrumentaliza, orienta as pessoas para fazerem determinadas coisas e aí, nestas conversas instrumentais, elas estão envolvidas, os pedidos estão envolvidos, as ofertas estão envolvidas, as coordenações de ações no sentido genérico das coisas estão envolvidas, as reclamações.
Então nós temos um grupo de conversas que a gente chama de conversas de entretenimento, nós temos um conjunto de conversas de coordenação de ações que são conversas para que as coisas sejam feitas, tanto do ponto de vista da minha oferta para o mundo, quanto no sentido dos pedidos e reclamações que faço, etc, que é um segundo tipo de conversa, mas tem um terceiro tipo de conversa que eu chamo de conversas nutritivas, que são as conversas que fazem com que a gente reflita sobre a natureza da nossa vida, sobre a nossa cosmovisão, sobre os nossos princípios éticos, os nossos princípios morais, os nossos princípios de valores e que regem a nossa aprendizagem enquanto membros de uma sociedade organizada e complexa na qual a gente tem que conviver com um pouco dessas disparidades entre as pessoas. E é nessas conversas nutritivas que muitas vezes a gente se exaspera, a gente discute naquele sentido de que dois diferentes observadores estão falando a mesma coisa e por não conseguirem escutar efetivamente um ao outro eles acabam discutindo sobre a mesma coisa e passam horas a fio numa dialogação, essa palavra não existe, vamos criá-la agora, numa dialogação complexa e que acaba não chegando em lugar nenhum. Então são três grandes níveis em que estas conversas acontecem.
A primeira delas é o que eu chamo de percepção estética, a segunda é o que eu chamo de gosto artístico e a terceira é o que eu chamo de distinções de mercado. Então percepção estética, gosto artístico e distinções de mercado. Por que que esses três elementos são importantes para nós orientarmos uma conversa nutritiva? Porque pelo seguinte, veja, quando eu falo de percepção estética eu estou me referindo ao conjunto de informações que o observador tem e não só da informação, mas como da sua formação acerca do objeto ao qual ele está se referindo.
Então imagine que por percepção estética é a capacidade que o observador tem de conhecer de forma efetiva as normas, os critérios, os paradigmas daquela sua área de conhecimento, de valor ou da qual ele está discutindo. Por exemplo, quando eu falo de percepção estética na arte eu estou falando da capacidade que aquele observador tem de conhecer a técnica artística utilizada, de conhecer a história da arte, de conhecer, enfim, de ter informação e conhecimento sobre os elementos que constituem aquele objeto sobre o qual ele está se falando. Então isso nós chamamos de percepção estética.
Um segundo elemento, quando eu falo de gosto artístico, eu estou falando se aquilo que você observa você gosta ou não gosta. E essa questão do gosto artístico ela é de foro íntimo. Então eu gosto ou não gosto de determinadas coisas por razões subjetivas da minha própria concepção enquanto ser humano.
E o terceiro elemento, que são as dimensões de mercado, eu começo a perceber o impacto que aquele objeto, que aquele tema que nós estamos discutindo tem na sociedade organizada como um tal. Então a isso chamamos dimensões de mercado. Deixe-me dar um exemplo a você que explica de uma forma mais ilustrativa todo esse conjunto.
Eu estava no Louvre, em Paris, certa vez agora, na questão de um ano e meio, e observando num dia de extrema sorte, o Louvre, pasmem, estava vazio nesse dia, e eu estava observando Monalisa, já o tinha feito por diversas outras ocasiões, e nesse dia como o Louvre estava vazio eu me dediquei a observar um pouco mais as pessoas que adentravam ao salão onde está a Monalisa para observar a Monalisa. Nisso aparece uma família, cinco pessoas, o pai, a mãe e três filhos. Eles andam por um caminho que estava lá previamente determinado e dão de cara com a Monalisa.
O pai, em alto e bom som, vira para a esposa e para os três filhos e diz textualmente assim, isto é Monalisa? Para mim não vale nada, não daria dez dólares por ela. Que decepção. E sai.
E a mãe, a esposa e os filhos o acompanham após essa declaração bombástica. O que aconteceu aí? Vamos analisar este fenômeno a partir desses três elementos que eu lhes apresentei. Percepção estética, gosto artístico e dimensão de mercado.
Primeiro, este pai, este senhor, pode não ter nenhuma percepção estética. Ou seja, ele não conhece da arte, ele não conhece de técnica de pintura, ele não conhece absolutamente nada sobre os elementos artísticos que estão presentes no quadro da Monalisa. Portanto, ele não tem nenhuma distinção daquilo que chamamos de percepção estética.
O segundo elemento é o gosto artístico. Ele não gosta daquele quadro. Ou seja, ele olha para aquele quadro e o quadro não desperta nele nenhuma emoção, a não ser a emoção do desgosto.
Eu não gosto daquilo que vejo, ele não me provoca absolutamente nada. Mas, no que diz respeito às distinções de mercado, este senhor não pode ignorar o fato de que ele está diante de uma obra que mobiliza milhões de pessoas ao longo do mundo, que gastam milhões de dinheiros todos os dias, ao longo de centenas de anos, para ver esse quadro. Quer dizer, um dos quadros mais visitados na história da humanidade é Monalisa de Leonardo Da Vinci.
Quer dizer, veja, eu não tenho percepção estética, o meu gosto artístico não tem nenhuma relação com aquela coisa, mas eu não posso negar o fato de que milhões de pessoas estão observando aquele quadro. Ou seja, no mínimo, eu deveria ter a humildade de perguntar o seguinte, o que que esse quadro contém que mobiliza milhões de dólares, milhares de pessoas, há centenas de anos, e que faz parte da grande curiosidade humana? Então veja, este é um exemplo interessantíssimo para a gente poder caminhar no entendimento desses processos. Agora, olha só, vamos continuar ainda com o exemplo da Monalisa e o caso do pai desgostoso de vê-la.
Eu posso agora ser um outro observador que conheço tudo sobre arte, eu entendo toda a técnica pictórica, eu entendo toda a técnica plástica, eu estudei Leonardo Da Vinci, eu estudei a estética da arte, eu estudei a história da arte, eu entendi os processos pelos quais a Monalisa foi feita, eu entendi tudo sobre aquela arte. Então eu conheço a obra, eu olho para a obra e sei dizer se ela é bem pintada, se ela é mal pintada, se ela é uma boa obra, se ela é… Enfim, eu tenho essas distinções. Olhando para a Monalisa, aí eu construo um juízo estético sobre ela.
Eu digo, olha, é um quadro bem estruturado, bem pintado, a técnica apuradíssima. Então veja, eu estou falando da minha percepção estética. Quando eu vou para o gosto artístico, eu posso, apesar disso, olhar e dizer, mesmo assim, eu não gosto da Monalisa.
Ou seja, eu sei como ela foi pintada, sei da importância, sei disso, sei daquilo, mas não gosto. Perfeito? E além disso, eu reconheço que existe uma permeação mercadológica, portanto a permeação no mercado da imagem da Monalisa, que é uma segunda abordagem. A terceira abordagem é, eu conheço a arte e, por causa disso, eu admiro a Monalisa, gosto da Monalisa, eu olho para ela e gosto do que vejo e tenho a percepção de mercado de que ela é uma obra mundialmente reconhecida.
Então, se você usa esses três critérios, isso facilita muito a sua discussão sobre qualquer coisa. Você quer ver um outro exemplo muito contextualizado para a nossa cultura? E aí eu digo respeito a mim mesmo. Por exemplo, eu não tenho nenhuma filiação com times de futebol.
Eu não gosto de futebol. Mas eu não posso negar que o futebol é uma das expressões da nossa cultura. Então, quando eu vejo centenas de milhares de pessoas reunidos num estágio vendo um Fla-Flu, repare só, eu reconheço a importância dessa partida flamenco-feminense porque existe uma paixão nacional que mobiliza milhões de pessoas em torno desse tema chamado futebol.
Então, eu não posso negar que essa partida Fla-Flu seja uma partida significativa. Então, isso são distinções de mercado. Segundo, no que diz respeito à percepção, ao gosto artístico, eu não gosto de futebol.
Então, não há nada, embora seja importante, que me atraia no futebol. E eu não tenho nenhuma percepção estética. Quer dizer, eu não conheço futebol.
Eu não saberia dizer se as pessoas gostam ou não gostam, jogam ou não jogam bem. Então, veja você, esse exemplo que eu dei para o futebol pode nos levar a quase todas as outras reflexões. Então, por exemplo, recentemente eu vi, presenciei num determinado local dois casais tendo uma acirrada discussão sobre questões religiosas que envolviam a bíblia e outros elementos religiosos aí presentes.
E a discussão estava acalorada. E eu comecei a analisar isso sob a perspectiva desses três pontos. Então, veja só.
Primeiro, eu tenho uma percepção, eu tenho uma distinções estéticas, percepções estéticas, acerca daquele fenômeno religioso que eu estou estudando. Eu conheço, por exemplo, religião. Estudei religião, estudei as manifestações religiosas, portanto eu olho para o cristianismo, para o budismo, para… ou seja, para qualquer expressão religiosa.
Por hipótese, imagine que eu conheça teológica e filosoficamente essas religiões. Eu opto agora por ser, digamos, presbiteriano ou ser evangélico. Repare, eu conheço, tenho percepções estéticas e tenho gosto artístico por uma determinada manifestação religiosa.
E não posso negar que todas as outras percepções religiosas, mesmo aquelas que eu não gosto, tem uma grande representatividade de mercado. Então, reconhecer que determinada religião tem representatividade de mercado não significa desqualificar uma para qualificar outra ou simplesmente validar uma ou validar outra. Não é essa a questão.
É eu entender que nesse universo mundial de sete bilhões, quase sete bilhões e meio de pessoas, existem manifestações de mercado para quase todas as apreciações religiosas que existem. Portanto, mercadologicamente elas têm adeptos e eu tenho que reconhecer isso. Isso é um fato.
Isso não depende de mim, portanto não cabe aqui o julgamento de certo ou errado. Na questão do gosto artístico, também não, porque veja, eu gosto de certas coisas e não gosto de certas coisas. Quer dizer, ainda do ponto de vista religioso existem certas liturgias, ou seja, modos de fazer, que eu gosto.
Outros modos de fazer eu não gosto. E aqui também não se estabelece a condição de nenhum julgamento de valor, porque é uma questão pessoal. Aqui é uma questão mercadológica, aqui é uma questão pessoal.
E nesse primeiro elemento, no que diz respeito às construções daquilo que eu estou chamando de percepções estéticas, aqui diz respeito ao grau de conhecimento que eu tenho daquela coisa. Também diz respeito ao volume de informação e de formação que eu tenho. O que me faz dizer que eu conheço tal coisa, mas não conheço outra coisa e eu aceito aquilo que eu conheço.
Entende? Então veja, percepção estética, gosto artístico e distinções de mercado, se eu tenho essas três coisas claramente na minha forma de percepção da realidade, você vai descobrir que as minhas conversas se tornam muito mais nutritivas. Então, por exemplo, muitas vezes o meu gosto artístico não é favorável a determinada distinção de mercado porque me falta a percepção estética. E então muitas vezes uma pessoa, quando me diz assim, ô Mero, eu não gosto de música clássica, gosto artístico, esta pessoa o faz porque ela não tem formação estética suficiente para poder fazer um juízo sobre isso.
E o que a gente tem percebido nas conversas nutritivas é que muitas vezes o não gostar é decorrência da ignorância da percepção estética. Então o que a gente faz? Quando eu tenho essa distinção na minha cabeça e eu descubro que eu não gosto de alguma coisa, eu preciso primeiro perguntar o seguinte, eu não gosto porque eu sou ignorante com relação à percepção estética ou eu não gosto porque conhecendo a percepção estética, eu agora não opto por aquilo. E agora não posso negar em nenhum momento de que existe volume mercadológico suficiente.
Recentemente eu estava em Las Vegas, ali no Rock in Rio em Las Vegas, eu andava lá no último dia, fui lá assistir o encerramento daquele show maravilhoso. A produção do show é fantástica a mobilização do show é fantástica. Então milhares de pessoas estavam ali.
Eu não posso negar as distinções de mercado. Agora se você me pergunta se eu gosto daquele tipo de música, não. Agora eu conheço essa, conheço, conheço.
Eu conheço rock and roll, eu conheço samba, eu conheço a estrutura da música, eu conheço a história da música, eu conheço essa história da arte, eu conheço um pouco de onde vem a música clássica, como é que ela se fundamentou nos seus diversos matizes, nos seus diversos atores. Então veja, embora conheça eu não gosto, mas não posso negar a sua representatividade mercadológica. Isso faz com que agora a discussão ou ela se dá no limite de coisas que eu não conheço sobre o rock que se vier a conhecer eu passo a gostar ou a conversa agora transita simplesmente pelo fato de gostar ou não gostar e isso não me leva a lugar nenhum.
Portanto se eu estou interessado em mudar o meu gosto eu preciso aprofundar o meu conhecimento, mas mesmo assim aprofundando o conhecimento isso não é garantia suficiente para que eu mude o meu gostar. Em outras palavras, eu posso aprofundar indefinidamente o meu conhecimento sobre determinada coisa e continuar não gostando dela embora não possa negar a sua realidade mercada. Então eu quero deixar isso com você como uma forma de você refletir sobre a natureza das suas conversas nutritivas para que elas se tornem conversas que te nutrem e não conversas que lhe desgastem.
Resumindo, todas as pessoas podem gostar ou não, isso é um direito que você tem e não cabe sobre isso juízo meu. Eu não posso lhe forçar a gostar ou não gostar de coisa alguma. Agora você deve ser responsável por ter formação e informação acerca das coisas que você conversa, porque se você tem formação e informação sobre as coisas que você conversa você me ajuda naquilo que eu não sei e isso pode alterar o meu gosto artístico.
Agora lembre-se, essa alteração é de foro íntimo. Em terceiro lugar, eu preciso perceber que existe uma representatividade de mercado. Essa representatividade é infinitamente maior do que aquilo que eu sei ou não sei, do que aquilo que eu gosto ou não gosto.
É uma circunstância de mercado. Esses tempos atrás eu conversava com um amigo sobre esse tema e nós discutimos o seguinte, e eu refletia com ele sobre o seguinte aspecto. Por exemplo, existe um conjunto de músicas que hoje se veicula no mercado nacional que são músicas que eu não gosto, portanto fazem parte daquele segundo elemento do gosto artístico, eu simplesmente não gosto.
Conheço aquelas músicas, conheço. Há uma representatividade de mercado? Sim, vendem-se milhões de discos daquelas músicas que eu não gosto. Agora, quando você submete essas músicas aos critérios técnicos de elaboração de uma música enquanto arte, você descobre que elas deixam muito a desejar do ponto de vista da construção estética.
Ou seja, elas não atendem aos princípios normativos da estética, mas são populares. Isso as invalida de hipótese alguma, mas as tira da qualificação de uma música um pouco mais elaborada, de uma música um pouco mais erudita. Aí, isso você diz respeito, por exemplo, à literatura.
Portanto, eu diria para você, não existem livros ruins e livros bons. Existem livros mal escritos e livros bem escritos. Então, nessa questão dos livros, que não existem livros bons nem ruins, livros mal escritos e bem escritos, isso diz respeito a quase todos os assuntos com os quais nós lidamos no nosso dia a dia.
Qual é o desafio nosso? É você perceber uma coisa bem interessante. Existem coisas populares que são esteticamente ruins. E existem pessoas que gostam ou não gostam destas coisas, do ponto de vista do seu gosto artístico.
Agora, existe uma norma que gerencia, que estabelece as bases para as quais as coisas sejam feitas. Então, estas coisas merecem o meu conhecimento. Então, veja, eu não posso, em nome de uma liberdade qualquer, escrever um livro cometendo erros de português porque é a minha forma de escrever.
Não. Se você quer escrever, você tem que seguir a norma. Essa norma é dinâmica com relação ao tempo, sim, mas diz respeito às chamadas percepções estéticas.
Quem é que escreve melhor, do ponto de vista da forma? Quem conhece melhor a forma? Isso é garantia de que as pessoas vão gostar? Não. Isso é garantia de que há mercado? Também não. Tanto é que existem muita coisa bem escrita que não tem representação de mercado.
Existe música bem composta, bem elaborada, bem executada e que não tem repercussão de mercado. Algumas pessoas gostam, outras não. Então, o que a gente precisa entender é que se eu tenho discernimento destas três coisas, eu consigo agora interagir com você numa conversa em que eu começo a me nutrir daquilo que você sabe que eu não sei e eu começo a lhe nutrir daquilo que eu sei que você não sabe.
E esse processo de nutrição poderá alterar o nosso gosto sobre as coisas e isso é desenvolver, isso é mudar, isso é crescer, isso é aprender. Isso vai ter repercussão de mercado para nós? Pode ser que sim, pode ser que não, mas aí já não é mais um nível de controle nosso, mas um nível de percepção da realidade. Fique com isso, percepção estética, gosto artístico, dimensões de mercado.
Essas três coisas caracterizam de forma mais efetiva as conversas nutritivas que são aquelas conversas que nos tornam melhores nas nossas relações. Fique com isso. Um beijo!

por Homero Reis
Há uma história que me acompanha há muitos anos. Eu a conto de diferentes maneiras, em contextos distintos, mas sua essência permanece a mesma. É uma história simples, quase infantil, mas quanto mais a examino, mais percebo que ela carrega em si o drama inteiro da civilização. Eu a chamo de “A História Dos Homens E Dos Lobos”.
No princípio, e esse princípio não é um ponto no tempo, mas uma condição do viver, todos os seres estavam inscritos em uma complementaridade sistêmica. Não uso essa expressão de maneira ingênua; uso-a no sentido antropológico que observa vestígios arqueológicos, pinturas rupestres, ferramentas quebradas, ossadas espalhadas, encontrados no que chamo de lixo civilizatório.
A vida, naquele momento originário, obedecia a uma lógica simples: a da interdependência. O lobo comia a ovelha quando tinha fome. O homem também fazia o mesmo. Não havia moralização da cadeia alimentar. Havia necessidade. Havia sobrevivência. Havia um equilíbrio dinâmico inscrito na própria natureza da vida e nos seus ciclos.
Mas, em algum momento, e essa é a inflexão decisiva da história, algo mudou. Não se sabe exatamente quando, nem como. Sabe-se apenas que os vestígios arqueológicos indicam que os lobos começaram a morrer de forma diferente. Não apenas por fome, doença ou disputa intraespécie; mas, com crânios perfurados, com pontas de flecha cravadas no tórax. Esses “encontrados” são sinais inequívocos de agressão deliberada feita pelos “então humanos”. Isso significa uma coisa: os homens começaram a matar os lobos não para comer, mas para impedir que eles comessem do que lhes era também de direito, por exemplo, as ovelhas, considerando o equilíbrio natural. E aqui nasce a ruptura.
A Primeira Apropriação
Quando os homens cercaram as ovelhas e disseram “estas ovelhas são nossas”, inauguraram algo que não existia antes: a propriedade exclusiva de um bem coletivo.
Antes disso, a ovelha era parte do ecossistema. Ela não “pertencia” ao lobo, nem ao homem. Ela fazia parte de um fluxo. O lobo a comia. O homem também e a vida seguia.
Mas, ao cerca-las, impedindo que os lobos tivessem acesso a elas, o homem não apenas “as protegeu”, como reivindicou exclusividade sobre elas. E toda exclusividade precisa de defesa: a defesa gerou conflito; o conflito gerou medo; e, o medo gerou comando e controle. Eis aí o início de nossa atual forma de nos movermos no mundo. Mas, tem mais.
Aprendi, ao longo da minha trajetória refletindo sobre Inteligência Relacional, que todo sistema baseado em controle nasce do medo. E aqui vejo o nascimento do medo estruturado como cultura. Não era apenas o medo da fome. Era o medo da perda da posse. Era o início da individualização das coisas e das relações numa estrutura de poder danosa.
A partir desse momento, a ovelha deixou de ser alimento compartilhado no fluxo da vida e tornou-se capital acumulado. E onde há capital acumulado, há necessidade de vigilância e desigualdade social gritante.
O Segundo Movimento: A Dominação Entre Homens
Mas a história não para aí. Há um segundo momento ainda mais revelador. Se, no primeiro movimento, os homens se colocaram contra os lobos, no segundo eles se colocaram uns contra os outros.
Em algum ponto do processo, um homem, ou um grupo específico de homens, declarou:
“Estas ovelhas são minhas.” Não “nossas”. Minhas.
Essa palavra inaugura a hierarquia. Agora, não apenas os lobos estão excluídos. Outros homens também estão. E o acesso ao alimento passa a depender de uma nova condição: submissão ao proprietário: se você quiser comer, trabalhe para mim; se você quiser viver, submeta-se à minha estrutura; se quiser viver, me obedeça. Aqui nasce o que mais tarde chamaríamos de sistema econômico hierarquizado. E aqui começa a consolidação do patriarcado, sustentado por uma narrativa de poder ideologicamente construído, ou por “força física”, ou por manipulação da ignorância (esoterismo, misticismo e demais coisas semelhantes).
Patriarcado: A Cultura do Comando
Quando observo esse processo, percebo que o patriarcado não é apenas uma organização social masculina. Ele é uma matriz emocional que se fundamenta em três pilares: apropriação exclusiva; controle do acesso; hierarquização baseada no medo; ideologia da diferenciação baseada em narrativas esotéricas, místicas e outras que tais, como forma de legitimar o poder.
O fato do homem está no centro do patriarcado, decorreu de uma situação interessante, que exploro em outro ensaio, “O Cálice e a Espada”.
O patriarcado transforma a interdependência em dependência unilateral. Ele substitui o fluxo pela retenção. Ele troca cooperação por dominação. Eu aprendi com Humberto Maturana, especialmente em Amar e Brincar, que existem culturas baseadas no controle e na competição, e culturas baseadas na colaboração e no cuidado. A primeira estrutura-se na negação do outro como legítimo outro. A segunda reconhece o outro como parte constitutiva do sistema. O patriarcado, na minha leitura, nasce exatamente no momento em que o outro deixa de ser legítimo. Primeiro o lobo.
Depois o homem vizinho. E, mais tarde, a mulher, quando se “descobre a relação direta entre o coito e a gravidez”. Nesse momento a gravidez deixa de ser uma “concepção divina”, para ser resultado da “semente” do homem; e, a mulher deixa de ser uma “representação da divindade” e passa a ser uma incubadora do “macho dominante”.
Em resumo: a “descoberta” da relação direta entre coito, gestação e parto, tirou da mulher a condição de sacralidade da “produção de um novo ser”, e colocou tal possibilidade “na semente masculina”. A mulher tornou-se a incubadora e o homem o “representante” dos deuses. Isso o tronou o centro do poder e, portanto, a estrutura básica do patriarcado.
O Medo Como Fundamento Civilizatório
Não posso deixar de relacionar essa história com os “Quatro Gigantes da Alma”, livro de Emilio Mira y López, sobre o qual tantas vezes revisitei em minha obra.
O medo, um dos gigantes, quando é guardião, nos protege. Mas quando se torna carcereiro, nos aprisiona. Aqui, o medo deixa de ser instinto de sobrevivência e passa a ser instrumento de controle social. O dono das ovelhas precisa que os outros homens temam perder o acesso ao alimento. O sistema se sustenta na escassez administrada.
E quando o medo se institucionaliza, nasce o Estado coercitivo, a economia concentrada, a guerra preventiva, a violência legitimada.
A partir da cerca das ovelhas, começa a cerca das terras. Depois a cerca das fronteiras e as cercas ideológicas. O mundo passa a ser organizado por limites impostos e defendidos pela força.
A Cultura Matrística: Outra Possibilidade
Mas a história dos homens e dos lobos não é apenas denúncia. Ela é também possibilidade. Existe outro modo de viver.
A lógica do caçador existiu de fato, e ainda existe no nosso “inconsciente coletivo”; mas, paralelamente, aparece na história da humanidade, a lógica do agricultor. Enquanto o caçador se orienta pela captura e pelo controle, o agricultor se orienta pelo cultivo e pela renovação. O agricultor não domina a terra; ele coopera com ela. Ele não acumula para excluir; ele cultiva para compartilhar.
Aqui aproximo-me daquilo que Maturana chama de cultura matrística, não no sentido biológico, mas no sentido emocional e relacional .A cultura matrística se organiza pela convivência, pela reciprocidade e pela horizontalidade. Ela não elimina o conflito, mas não o estrutura como sistema permanente. Ela não depende da exclusão para se afirmar.
Um exemplo contemporâneo disso são as olimpíadas: há competição, há disputa, há “luta”, mas não há inimizade: vencedores e vencidos, ao final, irmanam-se na celebração da vida.
Amar e Brincar: A Raiz da Cooperação
Quando penso na cultura matrística, penso na experiência do brincar. No brincar não há hierarquia fixa. Há coordenação. Há alternância. Há criatividade compartilhada.
A criança que brinca não domina o brinquedo para excluir o outro. O brincar é o espaço da convivência sem medo, embora haja nele conflitos, relações de poder; mas não há inimizades. Amar, no sentido maturânico, é reconhecer o outro como legítimo outro na convivência, nessa dinâmica exploratória das relações.
Se aplico essa lente à história dos homens e dos lobos, percebo que o ponto de ruptura foi justamente a negação da legitimidade do outro. O lobo deixou de ser parte do sistema e passou a ser ameaça. O homem vizinho deixou de ser parceiro e passou a ser competidor. A mulher deixou de ser co-criadora e passou a ser subordinada. O que é ou pensa diferente, deixou de ser possibilidade para ser ameaça.
O Nascimento da Estrutura Hierárquica
A partir da “cerca das ovelhas”, surge algo que se repete até hoje:
- A propriedade privada concentrada.
- O trabalho como condição de acesso.
- A remuneração mínima como forma de controle.
- A obediência como moeda de sobrevivência.
A história que conto é primitiva, mas sua lógica é contemporânea. Hoje as ovelhas podem ser substituídas por capital financeiro, tecnologia, informação, terras, dados; mas, a estrutura permanece: quem controla o recurso controla o acesso; quem controla o acesso controla as pessoas; quem controla as pessoas controla o que elas pensam; quem controla o que o outro pensa cria ideologias de conveniência; e quem controla as ideologias de conveniência, mantém o sistema; quem controla o sistema, controla o recurso. Assim, o ciclo se mantém.
A Transição Necessária
Eu não conto essa história para romantizar o passado nem para demonizar o presente. Conto-a para revelar a matriz relacional que sustenta nossas instituições. Se o patriarcado nasceu do medo da perda, a restauração da cultura matrística exige confiança.
Confiança é um ato relacional. Ela não nasce da imposição, mas da reciprocidade. Ela exige que eu veja o outro não como ameaça ao meu estoque de ovelhas, mas como parceiro na produção de novos campos. Essa transição não é apenas estrutural. É ontológica. Ela exige mudança no modo como observamos as coisas para interferir nelas.
Se sou um observador formado pela lógica do controle, minhas ações gerarão resultados de dominação. Se torno-me um observador relacional, minhas ações produzirão cooperação.
A História Continua
Hoje, quando olho para o mundo, vejo homens ainda lutando contra lobos imaginários, vejo sistemas construídos sobre o medo de perder. Vejo muros sendo erguidos. Vejo discursos de exclusividade e exclusão.
Mas também vejo algo diferente surgindo, quando percebo o movimento das minorias por vez e voz. Aí vejo redes colaborativas, economias solidárias, lideranças que trocam comando por cuidado, empresas e organizações que substituem controle por confiança.
A transição da cultura patriarcal para a restauração da cultura matrística não é um retorno ao passado. É um salto evolutivo. Ela não elimina a força. Ela redireciona a força para a proteção da vida, não da posse. Ela não elimina a liderança. Ela transforma liderança em serviço.
Mas, acima de tudo, ela reconhece a igualdade de gênero com condição indispensável parra uma humanidade restaurada em sua saúde relacional. Isso porque o patriarcado não possui em si mesmo, todas as distinções relacionais para aquilo que chamamos de humano. A cultura matrística integra essas distinções.
A Pergunta Final
A história dos homens e dos lobos me deixa sempre com algumas perguntas nas quais debruço minhas atenções, pesquisas e estudos:
- O que estamos cercando hoje?
- Quais são as ovelhas que declaramos exclusivamente nossas?
- Quais lobos estamos “matando” por medo?
- Por que precisamos enxergar o diferente como inimigo?
- Em que momento perdemos a capacidade de conversar para resolver nossas “questões”?
Preocupa-me o fato de que em pleno século XXI, com tanta tecnologia e informação disponível, com tanta conexão à nossa disposição, ainda encontramos pessoas que creem que “jogar bomba na cabeça uns dos outros” é a melhor forma de resolver os dramas da humanidade. Para mim, a cultura do patriarcado sofre de uma profunda miopia relacional e a cultura matrística surge como uma possibilidade restauradora de todas as coisas que nos são genuína e essencialmente humanas.
Mas, sobretudo e para isso, precisamos nos perguntar: estamos dispostos a desmontar as cercas internas que sustentam nosso próprio patriarcado emocional? Porque, no fundo, o patriarcado não é apenas uma estrutura social externa. Ele é uma estrutura interna de controle. Por sua vez, a cultura matrística começa quando eu deixo de viver como proprietário do mundo e passo a viver como cuidador do vínculo.
Reflitam em paz!


Recentemente, uma cena inusitada dominou os noticiários de tecnologia: durante um encontro global, os grandes chefões das gigantes de Inteligência Artificial — incluindo nomes de peso como Sam Altman (OpenAI), Sundar Pichai (Google/Alphabet), Satya Nadella (Microsoft), Mark Zuckerberg (Meta) e Elon Musk (xAI) — simplesmente se recusaram a dar as mãos para a tradicional foto em grupo. O constrangimento foi visível. A tentativa de demonstrar união falhou publicamente.
Como estudioso do comportamento humano, não pude deixar de analisar esse episódio sob a ótica da Inteligência Relacional (IR), tema que desenvolvo há mais de três décadas em meus livros da Coleção Inteligência Relacional e no Método QR.
Esses líderes possuem um QI (Quociente de Inteligência) formidável. São mentes brilhantes que estão desenhando o futuro da humanidade através de algoritmos, machine learning e redes neurais complexas. No entanto, a cena expõe um déficit preocupante em outro quociente vital para a nossa espécie: o QR (Quociente Relacional).
O que a recusa daquele simples gesto físico revela sobre o mundo corporativo que estamos construindo?
1. O excesso de Relações Instrumentais e a falta de Relações Nutritivas
Na Teoria da Inteligência Relacional, entendemos que grande parte do adoecimento corporativo moderno vem da superficialidade. Na “sociedade líquida” em que vivemos — conceito cunhado pelo sociólogo Zygmunt Bauman —, os relacionamentos muitas vezes se tornam puramente instrumentais: você vale o que você entrega. Quando líderes de mercado se encontram apenas como competidores vorazes, não existe o que chamamos de ERA (Espaço Reflexivo da Aprendizagem). Sem esse espaço de confiança, tentar forçar um gesto de união (dar as mãos) torna-se uma hipocrisia insustentável. O corpo, que não mente, simplesmente trava.
2. A ausência de Ressonância Límbica e Acoplamento
Dois dos pilares da Inteligência Relacional são a Ressonância Límbica (a nossa capacidade humana de entrar em sintonia com a emoção do outro, de ter empatia) e o Acoplamento (a habilidade de nos complementarmos, unindo forças para um bem maior). A atitude dos CEOs é a materialização do oposto disso: o Distanciamento. Quando a Força Excêntrica (o modo como nos expressamos para o mundo) está sob pressão e vemos o “Outro” apenas como uma ameaça ou um rival a ser batido, a nossa resposta natural é o isolamento e a esquiva. Esse padrão está diretamente ligado ao que abordamos nos nossos programas de palestras corporativas.
3. O Paradoxo do Futuro: Máquinas humanizadas, humanos mecanizados?
Como destaco em minhas reflexões sobre “A Gestação do Futuro”, estamos criando máquinas cada vez mais capazes de simular conversas, emoções e empatia, enquanto nós, humanos, estamos nos comportando cada vez mais como máquinas frias, programadas apenas para competir e bater metas. Não por acaso, pesquisas recentes do Harvard Business Review reforçam que a vantagem competitiva do futuro será híbrida: humanos com IA substituirão humanos sem IA — mas apenas quem souber cultivar conexões humanas genuínas liderará essa transição.
Como nos alertou Chaplin de forma magistral em O Grande Ditador: “Não sois máquinas! Homens é que sois!” Se os criadores das tecnologias que vão reger o amanhã não conseguem dar as mãos, reconhecer a legitimidade do outro e estabelecer um mínimo de respeito colaborativo, que tipo de futuro estamos gestando?
A reflexão para nós, Líderes e Gestores
Não precisamos ser amigos íntimos de nossos concorrentes ou concordar com tudo o que nossos colegas dizem. A Inteligência Relacional não exige que sejamos iguais. Ela exige que saibamos lidar com a diferença sem que ela seja vista como uma ameaça mortal. Requer a maturidade de sentar à mesa (ou posar para uma foto) compreendendo que, apesar da concorrência, o respeito e o reconhecimento da humanidade do outro são inegociáveis. Esse é o cerne do que ensino em Gente Inteligente Se Olha no Espelho.
Olhe para a sua equipe hoje: vocês estão genuinamente de mãos dadas, construindo um propósito juntos através do Acoplamento, ou estão apenas dividindo o mesmo sinal de Wi-Fi em um ambiente de Distanciamento e competição silenciosa? Se precisar de apoio para diagnosticar esse cenário, conheça nosso processo de Mapear e Diagnosticar e os artigos sobre Gestão e Liderança.
O futuro pertencerá àqueles que souberem usar a tecnologia, sim. Mas a liderança do futuro pertencerá àqueles que nunca perderem a capacidade de se conectar humanamente.
E você, o que achou dessa atitude dos líderes de IA? Faz sentido para o momento que vivemos? Vamos conversar nos comentários! 👇
#InteligenciaRelacional #Lideranca #InteligenciaArtificial #GestaoDePessoas #FuturoDoTrabalho #HomeroReis #MaturidadeCorporativa

Por que que as pessoas discutem? Por que que, às vezes, as conversas parecem um rodopiar sem fim, sem chegar a lugar nenhum? Por que que, muitas vezes, as nossas relações dialogais são infrutíferas? Estas são questões que eu quero discutir com você nesse bate-papo que teremos nos próximos minutos. A complexidade das conversas e os resultados. Fique comigo.
René Descartes, século XVI, ele disse uma frase, uma vez, que é muito significativa para os dias de hoje. Ele dizia assim, defina os termos que as discussões cessam. O que se queria dizer com isso, numa proposta racionalista, é que a partir do momento que todos os interlocutores sabem exatamente o significado das palavras e das coisas que estão utilizando, muito provavelmente as discussões cessam, porque não há muita discordância, necessariamente, a partir do momento em que as pessoas conhecem sobre aquilo que se está falando.
E aí você passa a conversar ou a refletir mais efetivamente sobre a construção dos conteúdos do que, muito provavelmente, pela construção da significância prévia dos conteúdos. Então, quando René Descartes dizia isso, ele dizia, olha, defina os termos que as discussões cessam. Por outro lado, você descobre que, ao longo da história da humanidade, conversar tem sido um grande desafio na questão da expressão dos nossos valores e das nossas percepções de realidade e do modo como a gente percebe as coisas e gera assunto para que as relações aconteçam e se mantenham.
Então, existe um nível conversacional que eu diria que é um nível de entretenimento, que são aquelas conversas que você tem tomando uma cerveja, conversando com os amigos, rindo, que são conversas muito pouco estruturadas, mas que são conversas cujo grande objetivo é trazer em si mesmas o entretenimento relacional. Se você pensar bem, destas conversas de entretenimento, você se recorda muito pouco. Elas são extremamente efêmeras.
Então, são conversas que você as tem tomando uma cerveja, batendo um papo com os amigos na praia, falando sobre qualquer coisa, mas quando essas conversas, quando aquele setting se conclui, muito provavelmente o conteúdo dessas conversas se dissipa. Você não fica gastando a sua mente em preservar essas conversas e elas são, eu as chamo de conversas de entretenimento. Existe um outro tipo de conversa que a gente chama de conversas instrutivas ou conversas instrumentais.
São aquelas conversas que a gente tem que efetivamente determinam relações operacionais dialógicas que estão acontecendo entre aqueles atores. Então, por exemplo, você diz para um garoto, olha, coma de boca fechada, sente-se de uma forma mais adequada, por favor, cumprimente as pessoas, me traga aquele relatório, enfim. São conversas que você tem aonde você instrumentaliza, orienta as pessoas para fazerem determinadas coisas e aí, nestas conversas instrumentais, elas estão envolvidas, os pedidos estão envolvidos, as ofertas estão envolvidas, as coordenações de ações no sentido genérico das coisas estão envolvidas, as reclamações.
Então nós temos um grupo de conversas que a gente chama de conversas de entretenimento, nós temos um conjunto de conversas de coordenação de ações que são conversas para que as coisas sejam feitas, tanto do ponto de vista da minha oferta para o mundo, quanto no sentido dos pedidos e reclamações que faço, etc, que é um segundo tipo de conversa, mas tem um terceiro tipo de conversa que eu chamo de conversas nutritivas, que são as conversas que fazem com que a gente reflita sobre a natureza da nossa vida, sobre a nossa cosmovisão, sobre os nossos princípios éticos, os nossos princípios morais, os nossos princípios de valores e que regem a nossa aprendizagem enquanto membros de uma sociedade organizada e complexa na qual a gente tem que conviver com um pouco dessas disparidades entre as pessoas. E é nessas conversas nutritivas que muitas vezes a gente se exaspera, a gente discute naquele sentido de que dois diferentes observadores estão falando a mesma coisa e por não conseguirem escutar efetivamente um ao outro eles acabam discutindo sobre a mesma coisa e passam horas a fio numa dialogação, essa palavra não existe, vamos criá-la agora, numa dialogação complexa e que acaba não chegando em lugar nenhum. Então são três grandes níveis em que estas conversas acontecem.
A primeira delas é o que eu chamo de percepção estética, a segunda é o que eu chamo de gosto artístico e a terceira é o que eu chamo de distinções de mercado. Então percepção estética, gosto artístico e distinções de mercado. Por que que esses três elementos são importantes para nós orientarmos uma conversa nutritiva? Porque pelo seguinte, veja, quando eu falo de percepção estética eu estou me referindo ao conjunto de informações que o observador tem e não só da informação, mas como da sua formação acerca do objeto ao qual ele está se referindo.
Então imagine que por percepção estética é a capacidade que o observador tem de conhecer de forma efetiva as normas, os critérios, os paradigmas daquela sua área de conhecimento, de valor ou da qual ele está discutindo. Por exemplo, quando eu falo de percepção estética na arte eu estou falando da capacidade que aquele observador tem de conhecer a técnica artística utilizada, de conhecer a história da arte, de conhecer, enfim, de ter informação e conhecimento sobre os elementos que constituem aquele objeto sobre o qual ele está se falando. Então isso nós chamamos de percepção estética.
Um segundo elemento, quando eu falo de gosto artístico, eu estou falando se aquilo que você observa você gosta ou não gosta. E essa questão do gosto artístico ela é de foro íntimo. Então eu gosto ou não gosto de determinadas coisas por razões subjetivas da minha própria concepção enquanto ser humano.
E o terceiro elemento, que são as dimensões de mercado, eu começo a perceber o impacto que aquele objeto, que aquele tema que nós estamos discutindo tem na sociedade organizada como um tal. Então a isso chamamos dimensões de mercado. Deixe-me dar um exemplo a você que explica de uma forma mais ilustrativa todo esse conjunto.
Eu estava no Louvre, em Paris, certa vez agora, na questão de um ano e meio, e observando num dia de extrema sorte, o Louvre, pasmem, estava vazio nesse dia, e eu estava observando Monalisa, já o tinha feito por diversas outras ocasiões, e nesse dia como o Louvre estava vazio eu me dediquei a observar um pouco mais as pessoas que adentravam ao salão onde está a Monalisa para observar a Monalisa. Nisso aparece uma família, cinco pessoas, o pai, a mãe e três filhos. Eles andam por um caminho que estava lá previamente determinado e dão de cara com a Monalisa.
O pai, em alto e bom som, vira para a esposa e para os três filhos e diz textualmente assim, isto é Monalisa? Para mim não vale nada, não daria dez dólares por ela. Que decepção. E sai.
E a mãe, a esposa e os filhos o acompanham após essa declaração bombástica. O que aconteceu aí? Vamos analisar este fenômeno a partir desses três elementos que eu lhes apresentei. Percepção estética, gosto artístico e dimensão de mercado.
Primeiro, este pai, este senhor, pode não ter nenhuma percepção estética. Ou seja, ele não conhece da arte, ele não conhece de técnica de pintura, ele não conhece absolutamente nada sobre os elementos artísticos que estão presentes no quadro da Monalisa. Portanto, ele não tem nenhuma distinção daquilo que chamamos de percepção estética.
O segundo elemento é o gosto artístico. Ele não gosta daquele quadro. Ou seja, ele olha para aquele quadro e o quadro não desperta nele nenhuma emoção, a não ser a emoção do desgosto.
Eu não gosto daquilo que vejo, ele não me provoca absolutamente nada. Mas, no que diz respeito às distinções de mercado, este senhor não pode ignorar o fato de que ele está diante de uma obra que mobiliza milhões de pessoas ao longo do mundo, que gastam milhões de dinheiros todos os dias, ao longo de centenas de anos, para ver esse quadro. Quer dizer, um dos quadros mais visitados na história da humanidade é Monalisa de Leonardo Da Vinci.
Quer dizer, veja, eu não tenho percepção estética, o meu gosto artístico não tem nenhuma relação com aquela coisa, mas eu não posso negar o fato de que milhões de pessoas estão observando aquele quadro. Ou seja, no mínimo, eu deveria ter a humildade de perguntar o seguinte, o que que esse quadro contém que mobiliza milhões de dólares, milhares de pessoas, há centenas de anos, e que faz parte da grande curiosidade humana? Então veja, este é um exemplo interessantíssimo para a gente poder caminhar no entendimento desses processos. Agora, olha só, vamos continuar ainda com o exemplo da Monalisa e o caso do pai desgostoso de vê-la.
Eu posso agora ser um outro observador que conheço tudo sobre arte, eu entendo toda a técnica pictórica, eu entendo toda a técnica plástica, eu estudei Leonardo Da Vinci, eu estudei a estética da arte, eu estudei a história da arte, eu entendi os processos pelos quais a Monalisa foi feita, eu entendi tudo sobre aquela arte. Então eu conheço a obra, eu olho para a obra e sei dizer se ela é bem pintada, se ela é mal pintada, se ela é uma boa obra, se ela é… Enfim, eu tenho essas distinções. Olhando para a Monalisa, aí eu construo um juízo estético sobre ela.
Eu digo, olha, é um quadro bem estruturado, bem pintado, a técnica apuradíssima. Então veja, eu estou falando da minha percepção estética. Quando eu vou para o gosto artístico, eu posso, apesar disso, olhar e dizer, mesmo assim, eu não gosto da Monalisa.
Ou seja, eu sei como ela foi pintada, sei da importância, sei disso, sei daquilo, mas não gosto. Perfeito? E além disso, eu reconheço que existe uma permeação mercadológica, portanto a permeação no mercado da imagem da Monalisa, que é uma segunda abordagem. A terceira abordagem é, eu conheço a arte e, por causa disso, eu admiro a Monalisa, gosto da Monalisa, eu olho para ela e gosto do que vejo e tenho a percepção de mercado de que ela é uma obra mundialmente reconhecida.
Então, se você usa esses três critérios, isso facilita muito a sua discussão sobre qualquer coisa. Você quer ver um outro exemplo muito contextualizado para a nossa cultura? E aí eu digo respeito a mim mesmo. Por exemplo, eu não tenho nenhuma filiação com times de futebol.
Eu não gosto de futebol. Mas eu não posso negar que o futebol é uma das expressões da nossa cultura. Então, quando eu vejo centenas de milhares de pessoas reunidos num estágio vendo um Fla-Flu, repare só, eu reconheço a importância dessa partida flamenco-feminense porque existe uma paixão nacional que mobiliza milhões de pessoas em torno desse tema chamado futebol.
Então, eu não posso negar que essa partida Fla-Flu seja uma partida significativa. Então, isso são distinções de mercado. Segundo, no que diz respeito à percepção, ao gosto artístico, eu não gosto de futebol.
Então, não há nada, embora seja importante, que me atraia no futebol. E eu não tenho nenhuma percepção estética. Quer dizer, eu não conheço futebol.
Eu não saberia dizer se as pessoas gostam ou não gostam, jogam ou não jogam bem. Então, veja você, esse exemplo que eu dei para o futebol pode nos levar a quase todas as outras reflexões. Então, por exemplo, recentemente eu vi, presenciei num determinado local dois casais tendo uma acirrada discussão sobre questões religiosas que envolviam a bíblia e outros elementos religiosos aí presentes.
E a discussão estava acalorada. E eu comecei a analisar isso sob a perspectiva desses três pontos. Então, veja só.
Primeiro, eu tenho uma percepção, eu tenho uma distinções estéticas, percepções estéticas, acerca daquele fenômeno religioso que eu estou estudando. Eu conheço, por exemplo, religião. Estudei religião, estudei as manifestações religiosas, portanto eu olho para o cristianismo, para o budismo, para… ou seja, para qualquer expressão religiosa.
Por hipótese, imagine que eu conheça teológica e filosoficamente essas religiões. Eu opto agora por ser, digamos, presbiteriano ou ser evangélico. Repare, eu conheço, tenho percepções estéticas e tenho gosto artístico por uma determinada manifestação religiosa.
E não posso negar que todas as outras percepções religiosas, mesmo aquelas que eu não gosto, tem uma grande representatividade de mercado. Então, reconhecer que determinada religião tem representatividade de mercado não significa desqualificar uma para qualificar outra ou simplesmente validar uma ou validar outra. Não é essa a questão.
É eu entender que nesse universo mundial de sete bilhões, quase sete bilhões e meio de pessoas, existem manifestações de mercado para quase todas as apreciações religiosas que existem. Portanto, mercadologicamente elas têm adeptos e eu tenho que reconhecer isso. Isso é um fato.
Isso não depende de mim, portanto não cabe aqui o julgamento de certo ou errado. Na questão do gosto artístico, também não, porque veja, eu gosto de certas coisas e não gosto de certas coisas. Quer dizer, ainda do ponto de vista religioso existem certas liturgias, ou seja, modos de fazer, que eu gosto.
Outros modos de fazer eu não gosto. E aqui também não se estabelece a condição de nenhum julgamento de valor, porque é uma questão pessoal. Aqui é uma questão mercadológica, aqui é uma questão pessoal.
E nesse primeiro elemento, no que diz respeito às construções daquilo que eu estou chamando de percepções estéticas, aqui diz respeito ao grau de conhecimento que eu tenho daquela coisa. Também diz respeito ao volume de informação e de formação que eu tenho. O que me faz dizer que eu conheço tal coisa, mas não conheço outra coisa e eu aceito aquilo que eu conheço.
Entende? Então veja, percepção estética, gosto artístico e distinções de mercado, se eu tenho essas três coisas claramente na minha forma de percepção da realidade, você vai descobrir que as minhas conversas se tornam muito mais nutritivas. Então, por exemplo, muitas vezes o meu gosto artístico não é favorável a determinada distinção de mercado porque me falta a percepção estética. E então muitas vezes uma pessoa, quando me diz assim, ô Mero, eu não gosto de música clássica, gosto artístico, esta pessoa o faz porque ela não tem formação estética suficiente para poder fazer um juízo sobre isso.
E o que a gente tem percebido nas conversas nutritivas é que muitas vezes o não gostar é decorrência da ignorância da percepção estética. Então o que a gente faz? Quando eu tenho essa distinção na minha cabeça e eu descubro que eu não gosto de alguma coisa, eu preciso primeiro perguntar o seguinte, eu não gosto porque eu sou ignorante com relação à percepção estética ou eu não gosto porque conhecendo a percepção estética, eu agora não opto por aquilo. E agora não posso negar em nenhum momento de que existe volume mercadológico suficiente.
Recentemente eu estava em Las Vegas, ali no Rock in Rio em Las Vegas, eu andava lá no último dia, fui lá assistir o encerramento daquele show maravilhoso. A produção do show é fantástica a mobilização do show é fantástica. Então milhares de pessoas estavam ali.
Eu não posso negar as distinções de mercado. Agora se você me pergunta se eu gosto daquele tipo de música, não. Agora eu conheço essa, conheço, conheço.
Eu conheço rock and roll, eu conheço samba, eu conheço a estrutura da música, eu conheço a história da música, eu conheço essa história da arte, eu conheço um pouco de onde vem a música clássica, como é que ela se fundamentou nos seus diversos matizes, nos seus diversos atores. Então veja, embora conheça eu não gosto, mas não posso negar a sua representatividade mercadológica. Isso faz com que agora a discussão ou ela se dá no limite de coisas que eu não conheço sobre o rock que se vier a conhecer eu passo a gostar ou a conversa agora transita simplesmente pelo fato de gostar ou não gostar e isso não me leva a lugar nenhum.
Portanto se eu estou interessado em mudar o meu gosto eu preciso aprofundar o meu conhecimento, mas mesmo assim aprofundando o conhecimento isso não é garantia suficiente para que eu mude o meu gostar. Em outras palavras, eu posso aprofundar indefinidamente o meu conhecimento sobre determinada coisa e continuar não gostando dela embora não possa negar a sua realidade mercada. Então eu quero deixar isso com você como uma forma de você refletir sobre a natureza das suas conversas nutritivas para que elas se tornem conversas que te nutrem e não conversas que lhe desgastem.
Resumindo, todas as pessoas podem gostar ou não, isso é um direito que você tem e não cabe sobre isso juízo meu. Eu não posso lhe forçar a gostar ou não gostar de coisa alguma. Agora você deve ser responsável por ter formação e informação acerca das coisas que você conversa, porque se você tem formação e informação sobre as coisas que você conversa você me ajuda naquilo que eu não sei e isso pode alterar o meu gosto artístico.
Agora lembre-se, essa alteração é de foro íntimo. Em terceiro lugar, eu preciso perceber que existe uma representatividade de mercado. Essa representatividade é infinitamente maior do que aquilo que eu sei ou não sei, do que aquilo que eu gosto ou não gosto.
É uma circunstância de mercado. Esses tempos atrás eu conversava com um amigo sobre esse tema e nós discutimos o seguinte, e eu refletia com ele sobre o seguinte aspecto. Por exemplo, existe um conjunto de músicas que hoje se veicula no mercado nacional que são músicas que eu não gosto, portanto fazem parte daquele segundo elemento do gosto artístico, eu simplesmente não gosto.
Conheço aquelas músicas, conheço. Há uma representatividade de mercado? Sim, vendem-se milhões de discos daquelas músicas que eu não gosto. Agora, quando você submete essas músicas aos critérios técnicos de elaboração de uma música enquanto arte, você descobre que elas deixam muito a desejar do ponto de vista da construção estética.
Ou seja, elas não atendem aos princípios normativos da estética, mas são populares. Isso as invalida de hipótese alguma, mas as tira da qualificação de uma música um pouco mais elaborada, de uma música um pouco mais erudita. Aí, isso você diz respeito, por exemplo, à literatura.
Portanto, eu diria para você, não existem livros ruins e livros bons. Existem livros mal escritos e livros bem escritos. Então, nessa questão dos livros, que não existem livros bons nem ruins, livros mal escritos e bem escritos, isso diz respeito a quase todos os assuntos com os quais nós lidamos no nosso dia a dia.
Qual é o desafio nosso? É você perceber uma coisa bem interessante. Existem coisas populares que são esteticamente ruins. E existem pessoas que gostam ou não gostam destas coisas, do ponto de vista do seu gosto artístico.
Agora, existe uma norma que gerencia, que estabelece as bases para as quais as coisas sejam feitas. Então, estas coisas merecem o meu conhecimento. Então, veja, eu não posso, em nome de uma liberdade qualquer, escrever um livro cometendo erros de português porque é a minha forma de escrever.
Não. Se você quer escrever, você tem que seguir a norma. Essa norma é dinâmica com relação ao tempo, sim, mas diz respeito às chamadas percepções estéticas.
Quem é que escreve melhor, do ponto de vista da forma? Quem conhece melhor a forma? Isso é garantia de que as pessoas vão gostar? Não. Isso é garantia de que há mercado? Também não. Tanto é que existem muita coisa bem escrita que não tem representação de mercado.
Existe música bem composta, bem elaborada, bem executada e que não tem repercussão de mercado. Algumas pessoas gostam, outras não. Então, o que a gente precisa entender é que se eu tenho discernimento destas três coisas, eu consigo agora interagir com você numa conversa em que eu começo a me nutrir daquilo que você sabe que eu não sei e eu começo a lhe nutrir daquilo que eu sei que você não sabe.
E esse processo de nutrição poderá alterar o nosso gosto sobre as coisas e isso é desenvolver, isso é mudar, isso é crescer, isso é aprender. Isso vai ter repercussão de mercado para nós? Pode ser que sim, pode ser que não, mas aí já não é mais um nível de controle nosso, mas um nível de percepção da realidade. Fique com isso, percepção estética, gosto artístico, dimensões de mercado.
Essas três coisas caracterizam de forma mais efetiva as conversas nutritivas que são aquelas conversas que nos tornam melhores nas nossas relações. Fique com isso. Um beijo!

por Homero Reis
Há uma história que me acompanha há muitos anos. Eu a conto de diferentes maneiras, em contextos distintos, mas sua essência permanece a mesma. É uma história simples, quase infantil, mas quanto mais a examino, mais percebo que ela carrega em si o drama inteiro da civilização. Eu a chamo de “A História Dos Homens E Dos Lobos”.
No princípio, e esse princípio não é um ponto no tempo, mas uma condição do viver, todos os seres estavam inscritos em uma complementaridade sistêmica. Não uso essa expressão de maneira ingênua; uso-a no sentido antropológico que observa vestígios arqueológicos, pinturas rupestres, ferramentas quebradas, ossadas espalhadas, encontrados no que chamo de lixo civilizatório.
A vida, naquele momento originário, obedecia a uma lógica simples: a da interdependência. O lobo comia a ovelha quando tinha fome. O homem também fazia o mesmo. Não havia moralização da cadeia alimentar. Havia necessidade. Havia sobrevivência. Havia um equilíbrio dinâmico inscrito na própria natureza da vida e nos seus ciclos.
Mas, em algum momento, e essa é a inflexão decisiva da história, algo mudou. Não se sabe exatamente quando, nem como. Sabe-se apenas que os vestígios arqueológicos indicam que os lobos começaram a morrer de forma diferente. Não apenas por fome, doença ou disputa intraespécie; mas, com crânios perfurados, com pontas de flecha cravadas no tórax. Esses “encontrados” são sinais inequívocos de agressão deliberada feita pelos “então humanos”. Isso significa uma coisa: os homens começaram a matar os lobos não para comer, mas para impedir que eles comessem do que lhes era também de direito, por exemplo, as ovelhas, considerando o equilíbrio natural. E aqui nasce a ruptura.
A Primeira Apropriação
Quando os homens cercaram as ovelhas e disseram “estas ovelhas são nossas”, inauguraram algo que não existia antes: a propriedade exclusiva de um bem coletivo.
Antes disso, a ovelha era parte do ecossistema. Ela não “pertencia” ao lobo, nem ao homem. Ela fazia parte de um fluxo. O lobo a comia. O homem também e a vida seguia.
Mas, ao cerca-las, impedindo que os lobos tivessem acesso a elas, o homem não apenas “as protegeu”, como reivindicou exclusividade sobre elas. E toda exclusividade precisa de defesa: a defesa gerou conflito; o conflito gerou medo; e, o medo gerou comando e controle. Eis aí o início de nossa atual forma de nos movermos no mundo. Mas, tem mais.
Aprendi, ao longo da minha trajetória refletindo sobre Inteligência Relacional, que todo sistema baseado em controle nasce do medo. E aqui vejo o nascimento do medo estruturado como cultura. Não era apenas o medo da fome. Era o medo da perda da posse. Era o início da individualização das coisas e das relações numa estrutura de poder danosa.
A partir desse momento, a ovelha deixou de ser alimento compartilhado no fluxo da vida e tornou-se capital acumulado. E onde há capital acumulado, há necessidade de vigilância e desigualdade social gritante.
O Segundo Movimento: A Dominação Entre Homens
Mas a história não para aí. Há um segundo momento ainda mais revelador. Se, no primeiro movimento, os homens se colocaram contra os lobos, no segundo eles se colocaram uns contra os outros.
Em algum ponto do processo, um homem, ou um grupo específico de homens, declarou:
“Estas ovelhas são minhas.” Não “nossas”. Minhas.
Essa palavra inaugura a hierarquia. Agora, não apenas os lobos estão excluídos. Outros homens também estão. E o acesso ao alimento passa a depender de uma nova condição: submissão ao proprietário: se você quiser comer, trabalhe para mim; se você quiser viver, submeta-se à minha estrutura; se quiser viver, me obedeça. Aqui nasce o que mais tarde chamaríamos de sistema econômico hierarquizado. E aqui começa a consolidação do patriarcado, sustentado por uma narrativa de poder ideologicamente construído, ou por “força física”, ou por manipulação da ignorância (esoterismo, misticismo e demais coisas semelhantes).
Patriarcado: A Cultura do Comando
Quando observo esse processo, percebo que o patriarcado não é apenas uma organização social masculina. Ele é uma matriz emocional que se fundamenta em três pilares: apropriação exclusiva; controle do acesso; hierarquização baseada no medo; ideologia da diferenciação baseada em narrativas esotéricas, místicas e outras que tais, como forma de legitimar o poder.
O fato do homem está no centro do patriarcado, decorreu de uma situação interessante, que exploro em outro ensaio, “O Cálice e a Espada”.
O patriarcado transforma a interdependência em dependência unilateral. Ele substitui o fluxo pela retenção. Ele troca cooperação por dominação. Eu aprendi com Humberto Maturana, especialmente em Amar e Brincar, que existem culturas baseadas no controle e na competição, e culturas baseadas na colaboração e no cuidado. A primeira estrutura-se na negação do outro como legítimo outro. A segunda reconhece o outro como parte constitutiva do sistema. O patriarcado, na minha leitura, nasce exatamente no momento em que o outro deixa de ser legítimo. Primeiro o lobo.
Depois o homem vizinho. E, mais tarde, a mulher, quando se “descobre a relação direta entre o coito e a gravidez”. Nesse momento a gravidez deixa de ser uma “concepção divina”, para ser resultado da “semente” do homem; e, a mulher deixa de ser uma “representação da divindade” e passa a ser uma incubadora do “macho dominante”.
Em resumo: a “descoberta” da relação direta entre coito, gestação e parto, tirou da mulher a condição de sacralidade da “produção de um novo ser”, e colocou tal possibilidade “na semente masculina”. A mulher tornou-se a incubadora e o homem o “representante” dos deuses. Isso o tronou o centro do poder e, portanto, a estrutura básica do patriarcado.
O Medo Como Fundamento Civilizatório
Não posso deixar de relacionar essa história com os “Quatro Gigantes da Alma”, livro de Emilio Mira y López, sobre o qual tantas vezes revisitei em minha obra.
O medo, um dos gigantes, quando é guardião, nos protege. Mas quando se torna carcereiro, nos aprisiona. Aqui, o medo deixa de ser instinto de sobrevivência e passa a ser instrumento de controle social. O dono das ovelhas precisa que os outros homens temam perder o acesso ao alimento. O sistema se sustenta na escassez administrada.
E quando o medo se institucionaliza, nasce o Estado coercitivo, a economia concentrada, a guerra preventiva, a violência legitimada.
A partir da cerca das ovelhas, começa a cerca das terras. Depois a cerca das fronteiras e as cercas ideológicas. O mundo passa a ser organizado por limites impostos e defendidos pela força.
A Cultura Matrística: Outra Possibilidade
Mas a história dos homens e dos lobos não é apenas denúncia. Ela é também possibilidade. Existe outro modo de viver.
A lógica do caçador existiu de fato, e ainda existe no nosso “inconsciente coletivo”; mas, paralelamente, aparece na história da humanidade, a lógica do agricultor. Enquanto o caçador se orienta pela captura e pelo controle, o agricultor se orienta pelo cultivo e pela renovação. O agricultor não domina a terra; ele coopera com ela. Ele não acumula para excluir; ele cultiva para compartilhar.
Aqui aproximo-me daquilo que Maturana chama de cultura matrística, não no sentido biológico, mas no sentido emocional e relacional .A cultura matrística se organiza pela convivência, pela reciprocidade e pela horizontalidade. Ela não elimina o conflito, mas não o estrutura como sistema permanente. Ela não depende da exclusão para se afirmar.
Um exemplo contemporâneo disso são as olimpíadas: há competição, há disputa, há “luta”, mas não há inimizade: vencedores e vencidos, ao final, irmanam-se na celebração da vida.
Amar e Brincar: A Raiz da Cooperação
Quando penso na cultura matrística, penso na experiência do brincar. No brincar não há hierarquia fixa. Há coordenação. Há alternância. Há criatividade compartilhada.
A criança que brinca não domina o brinquedo para excluir o outro. O brincar é o espaço da convivência sem medo, embora haja nele conflitos, relações de poder; mas não há inimizades. Amar, no sentido maturânico, é reconhecer o outro como legítimo outro na convivência, nessa dinâmica exploratória das relações.
Se aplico essa lente à história dos homens e dos lobos, percebo que o ponto de ruptura foi justamente a negação da legitimidade do outro. O lobo deixou de ser parte do sistema e passou a ser ameaça. O homem vizinho deixou de ser parceiro e passou a ser competidor. A mulher deixou de ser co-criadora e passou a ser subordinada. O que é ou pensa diferente, deixou de ser possibilidade para ser ameaça.
O Nascimento da Estrutura Hierárquica
A partir da “cerca das ovelhas”, surge algo que se repete até hoje:
- A propriedade privada concentrada.
- O trabalho como condição de acesso.
- A remuneração mínima como forma de controle.
- A obediência como moeda de sobrevivência.
A história que conto é primitiva, mas sua lógica é contemporânea. Hoje as ovelhas podem ser substituídas por capital financeiro, tecnologia, informação, terras, dados; mas, a estrutura permanece: quem controla o recurso controla o acesso; quem controla o acesso controla as pessoas; quem controla as pessoas controla o que elas pensam; quem controla o que o outro pensa cria ideologias de conveniência; e quem controla as ideologias de conveniência, mantém o sistema; quem controla o sistema, controla o recurso. Assim, o ciclo se mantém.
A Transição Necessária
Eu não conto essa história para romantizar o passado nem para demonizar o presente. Conto-a para revelar a matriz relacional que sustenta nossas instituições. Se o patriarcado nasceu do medo da perda, a restauração da cultura matrística exige confiança.
Confiança é um ato relacional. Ela não nasce da imposição, mas da reciprocidade. Ela exige que eu veja o outro não como ameaça ao meu estoque de ovelhas, mas como parceiro na produção de novos campos. Essa transição não é apenas estrutural. É ontológica. Ela exige mudança no modo como observamos as coisas para interferir nelas.
Se sou um observador formado pela lógica do controle, minhas ações gerarão resultados de dominação. Se torno-me um observador relacional, minhas ações produzirão cooperação.
A História Continua
Hoje, quando olho para o mundo, vejo homens ainda lutando contra lobos imaginários, vejo sistemas construídos sobre o medo de perder. Vejo muros sendo erguidos. Vejo discursos de exclusividade e exclusão.
Mas também vejo algo diferente surgindo, quando percebo o movimento das minorias por vez e voz. Aí vejo redes colaborativas, economias solidárias, lideranças que trocam comando por cuidado, empresas e organizações que substituem controle por confiança.
A transição da cultura patriarcal para a restauração da cultura matrística não é um retorno ao passado. É um salto evolutivo. Ela não elimina a força. Ela redireciona a força para a proteção da vida, não da posse. Ela não elimina a liderança. Ela transforma liderança em serviço.
Mas, acima de tudo, ela reconhece a igualdade de gênero com condição indispensável parra uma humanidade restaurada em sua saúde relacional. Isso porque o patriarcado não possui em si mesmo, todas as distinções relacionais para aquilo que chamamos de humano. A cultura matrística integra essas distinções.
A Pergunta Final
A história dos homens e dos lobos me deixa sempre com algumas perguntas nas quais debruço minhas atenções, pesquisas e estudos:
- O que estamos cercando hoje?
- Quais são as ovelhas que declaramos exclusivamente nossas?
- Quais lobos estamos “matando” por medo?
- Por que precisamos enxergar o diferente como inimigo?
- Em que momento perdemos a capacidade de conversar para resolver nossas “questões”?
Preocupa-me o fato de que em pleno século XXI, com tanta tecnologia e informação disponível, com tanta conexão à nossa disposição, ainda encontramos pessoas que creem que “jogar bomba na cabeça uns dos outros” é a melhor forma de resolver os dramas da humanidade. Para mim, a cultura do patriarcado sofre de uma profunda miopia relacional e a cultura matrística surge como uma possibilidade restauradora de todas as coisas que nos são genuína e essencialmente humanas.
Mas, sobretudo e para isso, precisamos nos perguntar: estamos dispostos a desmontar as cercas internas que sustentam nosso próprio patriarcado emocional? Porque, no fundo, o patriarcado não é apenas uma estrutura social externa. Ele é uma estrutura interna de controle. Por sua vez, a cultura matrística começa quando eu deixo de viver como proprietário do mundo e passo a viver como cuidador do vínculo.
Reflitam em paz!
































