Você foi cancelado. E agora?

Recebi, recentemente, um texto sobre “cancelamento nas redes sociais”. Quem me enviou, pede-me uma opinião sobre o tema. Aceitei o desafio de refletir sobre o assunto e apresento agora, minhas considerações. Antes, segue o texto que me foi enviado.

 

“Hoje em dia as coisas tão mudando bastante. Antes, um monte de coisas que hoje a gente não curte, eram super normais, tipo comentários racistas, homofóbicos, machistas, étnicos. Essas paradas não colam mais. Cada vez mais a gente tá se manifestando contra essas atitudes e querendo botar um fim nelas. Você acha legal ver esse debate todo rolando nas redes sociais? A internet virou um lugar gigante pra se discutir causas importantes e se manifestar. Mas, olha só, às vezes, a galera que tá contra esses comportamentos errados acaba passando dos limites e virando uma espécie de “linchamento virtual” contra quem fez a besteira. É tipo uma punição, querendo fazer justiça social na hora. Só que, mano, todo mundo erra, né? E agora tá rolando uma parada chamada “cancelamento” online. Ou seja, se você vacila, pode acabar sendo “cancelado” pela galera. Mas, me diga o que faz alguém ser “cancelado”? É tipo assim: hoje em dia, com a tecnologia dominando tudo e as redes sociais crescendo sem parar, ser “cancelado” tá ligado direto ao jeito que você pensa? Tipo, se você fez alguma coisa que não tá no esquema, pode se preparar pra levar um “cancelamento”. E olha, na maioria das vezes, isso acontece por causa de discordâncias de opinião, né? Porque tem muita gente que acha que tem um jeito “certo” e um jeito “errado” de ser e agir na sociedade. E aí, professor, me diga o que você pensa”.

 

Olá, o tema é oportuno para uma conversa que, espero, não se esgote aqui. Mas, para começar, quero apresentar um autor que me ajuda a entender um pouco do que está acontecendo no cenário dos “costumes em nossa sociedade. Não sei se você conhece o psicólogo, antropólogo e sociólogo canadense Erving Goffman (1922-1982). Se não, vale a pena ler sua obra, principalmente em tempos de “redes sociais”. Ele foi considerado “o sociólogo norte-americano mais influente do século XX” e seu legado, a meu ver, é de fundamental importância para entendermos o mundo conectado das redes sociais e o modo como nos comportamos nele. Erving Goffman não conheceu o mundo digital, conectado pela internet e pelas redes sociais. Mas, dedicou sua vida à observação participante do comportamento humano, gerando vastíssimo material sobre as interações sociais e o lugar que cada indivíduo ocupa na estrutura e hierarquia social. Seu trabalho me tem sido de muita ajuda para entender esses “tempos modernos”. De toda sua obra, destaco três textos particularmente interessantes. O primeiro é A Representação do Eu na vida Cotidiana (1959), onde ele faz interpretações do comportamento humano, mostrando que ao se comportar socialmente, o indivíduo procura fazer com que os outros acreditem no que ele diz e faz, sendo verdade ou não. O segundo é o Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada (1963), onde ele estuda o que acontece na sociedade na relação entre pessoas “estigmatizadas” e as ditas “normais”. O terceiro é o Manicômios, prisões e conventos (1961), onde ele estuda como determinadas instituições sociais criam suas normas de condutas para “justificar” os comportamentos que elas valoram e os que são passíveis de punição. Esses textos vão lhe ajudar a entender melhor o “cancelamento”, além de lhe proporcionar um saber com conhecimento.

 

Para início de conversa, a Goffman defende a tese de que a “a conduta humana depende de seus cenários e das relações pessoais”. Estamos todos imersos em uma gestão constante da nossa imagem diante do resto do mundo, na tentativa de conseguir controlá-la a partir das impressões que queremos causar nos outros. O importante é que o maior número possível de pessoas pense, sobre mim, coisas que eu valorizo. Mas, se o que eu penso são verdades ou não, pouco importam. Esta interação que o indivíduo realiza com seu ambiente o incentiva a buscar a definição de cada situação com o objetivo de conseguir controlá-la e de punir quem discorda. No universo das redes sociais isso se manifesta, objetivamente, na quantidade de likes que tenho, na quantidade de seguidores que possuo, no quanto sou capaz de influenciar; e, eu uso isso para “exercer meu poder de punir” quem discorda de mim ou de “minha tribo”.

 

Mas Goffman continua seu raciocínio quando afirma que “somos atores interpretando nosso papel diante de um auditório que pode ser de uma ou de milhões de pessoas”. Somos atores num palco gigantesco, em um teatro global, seja tentando gostar, agradar, simpatizar, fazer com que nos odeiem. Todos nós agimos tentando ser conscientes, e até certo ponto coerentes, com a imagem pretendida.

 

Tudo bem! Esse é o contexto em que nos colocamos nas redes sociais. No entanto, “nem tudo são flores”. Do outro lado da cena estão os outros atores e espectadores com suas histórias, personagens e cenários, nem sempre amistosos e convergentes com os nossos. Aí surge a prática do cancelamento, fenômeno que tem sido amplamente estudado e discutido nos dias atuais, como uma prática que permite, imediatamente, o exercício da minha justiça pessoal e imediata, bem como o sentimento de injustiça quando “sou eu o cancelado”.

 

Para tirar alguma dúvida conceitual sobre o tema, entenda o seguinte: o cancelamento consiste na exclusão social de um indivíduo (ou de um grupo), geralmente em resposta a comportamentos considerados socialmente reprováveis. Tal exclusão ocorre principalmente nas plataformas digitais, onde a disseminação de informações é rápida e abrangente. Também é fato que as exclusões (ou cancelamentos), ocorrem a partir de um certo senso de “micropoder” que os canceladores julgam ter para punir ou reprovar os que pensam de forma diferente do senso que se acha majoritário em determinada cultura ou contexto.

 

O cancelamento pode ser desencadeado por vários motivos, desde atitudes claramente prejudiciais, como manifestações de preconceito, até opiniões ou posicionamentos divergentes. A rapidez com que uma pessoa pode ser cancelada e a severidade das consequências associadas a esse ato destacam a complexidade e a potencialidade danosa dessa prática. Além disso, o cancelamento não se limita ao indivíduo diretamente envolvido na polêmica, mas pode se estender às pessoas que mantêm algum tipo de vínculo com ele, como amigos ou seguidores nas redes sociais. Isso cria um ambiente de cautela e temor, onde a liberdade de expressão pode ser cerceada e a sinceridade nos relacionamentos pode ser comprometida.

 

A análise desse fenômeno levanta questões importantes sobre a natureza das interações sociais online e off-line, bem como sobre os valores e padrões de comportamento adotados pela sociedade contemporânea. Embora o cancelamento possa ser visto como uma forma de responsabilizar indivíduos por seus atos, também suscita preocupações sobre justiça, empatia e oportunidades de redenção, além do fato de que quem cancela, não dá ao outro o “direito de defesa”.

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Goffman defende a tese da promoção do debate construtivo entre diferentes como forma de se pacificar as relações entre as pessoas, não pela busca de uma concordância sobre tudo e sobre todos, mas pelo aprofundamento das relações de respeito entre os divergentes. Isso porque em nossa sociedade avoluma-se cada vez mais, o “saber sem conhecer” como uma prática que “permite” a qualquer um dizer-se especialista em coisas “que só ouviu dizer”, mas que nada conhece sobre o tema. Ora, ao “cancelar” alguém, o que cancela revela uma atitude semelhante ao que foi cancelado. Por exemplo: você cancela alguém porque julga que suas opiniões, postagens, etc, são preconceituosas; mas, ao cancelar, você também revela preconceito àquela opinião ou postagem.

 

Bem, só para reforçar, isso que estou falando é uma interpretação que faço do pensamento de Goffman, a partir da Inteligência Relacional, mesmo porque ele jamais imaginou uma sociedade com o nível de conectividade e interatividade que temos e com a teia social que se constitui a partir das “redes”.

 

Do ponto de vista do pensamento de Goffman, o cancelamento em si mesmo, não representa uma prática saudável nas relações; antes, mostra o quão difícil é para “determinados segmentos e pessoas” conversarem sobre suas próprias diferenças. Preferimos uma “sociedade” de iguais porque fica mais fácil viver e justificar determinado estilo de vida. Para além da prática do cancelamento deve-se incentivar o diálogo reflexivo e aberto, a compreensão mútua e a busca por soluções que promovam a inclusão e o respeito às diferenças. Somente por meio de uma reflexão crítica e do engajamento coletivo será possível mitigar os efeitos negativos do cancelamento e construir uma sociedade mais justa e solidária.

 

Mas, Goffman nos possibilita ir além, apresentando como o cancelamento pode ser entendido pela sociologia. Nesse sentido o cancelamento é uma forma de controle social exercida pela comunidade virtual sobre seus membros, refletindo as normas e valores predominantes em determinados grupos sociais online, que podem ser influenciados por fatores como identidade cultural, geracional e contexto histórico, político e econômico. A sociologia nos ajuda a entender como as interações sociais nas “redes” refletem e reproduzem dinâmicas sociais mais amplas, incluindo hierarquias de poder, estruturas de dominação e processos de exclusão social. Esses são temas que merecem conversas e entendimentos e não, “simplesmente”, exclusão porque nos é mais confortável “continuar sendo como somos”.

 

Do ponto de vista filosófico, o cancelamento levanta questões éticas e morais sobre justiça, responsabilidade e perdão. O filósofo alemão Immanuel Kant, citado por Goffman, aborda a noção da responsabilidade moral individual em sua obra Fundamentação da Metafísica dos Costumes” (1785). Nessa obra, Kant destaca a importância de agir de acordo com princípios universalizáveis. Ora, sendo assim, Goffman, vê o cancelamento como uma forma de responsabilização por comportamentos considerados moralmente reprováveis, embora também suscite questões sobre a possibilidade de redenção e perdão. Filósofos contemporâneos, como Hannah Arendt, exploram o papel da ação pública e da responsabilidade política na esfera pública, oferecendo insights sobre os limites do poder de julgamento e punição nas sociedades democráticas.

 

Por fim, a abordagem antropológica entende o cancelamento como um mecanismo de reforço de identidade e coesão social dentro de comunidades online. Antropólogos como Clifford Geertz e Pierre Bourdieu estudaram como os símbolos culturais e as práticas sociais são utilizados para estabelecer e manter fronteiras simbólicas entre grupos. Nesse sentido, o cancelamento pode ser visto como uma forma de demarcar essas fronteiras e reafirmar os valores e normas compartilhados dentro de uma comunidade específica.

 

Muito embora se tenha diferentes abordagens sobre o tema, a ideia que prevalece em todas as formas do “pensar e agir sobre o cancelamento” é de que precisamos conversar sobre sua prática, reconhecendo que ela nos poderá ser útil, mas que não pode ser a primeira forma de agir em razão dos desacordos e das diferenças.

 

Esse espaço conversacional, proposto por Goffman, ajuda a entender como as redes sociais digitais proporcionam novas formas de sociabilidade e interação social, que muitas vezes desafiam as categorias tradicionais de identidade e pertencimento. Questões essenciais podem compor uma agenda sobre o tema. Por exemplo, como o cancelamento pode influenciar a construção e negociação de identidades sociais nas redes? Como ele pode impactar a autoimagem e o bem-estar psicológico dos envolvidos? De que maneira, o fenômeno do cancelamento nas redes sociais nos permite compreender nossas origens, dinâmicas, valores e, até mesmo, nossa noção de justiça, direito e punição? Ao integrar insights da sociologia, filosofia e antropologia, podemos desenvolver abordagens mais holísticas e informadas para lidar com esse fenômeno complexo e suas implicações para a sociedade contemporânea.  Esse diálogo reflexivo nos trará imensos benefícios, começando pelo fato de superar a lógica intrinsecamente binária (seguir ou não; curtir ou não), característica dos ambientes digitais que acabamos por transferir para a dinâmica social nas redes não cibernéticas.

 

Enfim, o tema do cancelamento nas redes sociais por sua relevância e contemporaneidade, levanta questões que vão desde a ética e a moralidade até a construção de identidades e pertencimento nas comunidades virtuais. Ao integrar esse fenômeno à luz do pensamento de Erving Goffman, é possível compreender suas origens, dinâmicas e implicações para a sociedade contemporânea de maneira mais abrangente e informada. A prática do cancelamento, embora possa surgir como uma forma de responsabilizar comportamentos considerados reprováveis, também suscita preocupações sobre justiça, empatia e oportunidades de redenção, que merecem ser conversados através do diálogo reflexivo e da busca por soluções que promovam a inclusão e o respeito às diferenças. Se assim nos propusermos a fazer, certamente evitaremos os efeitos negativos do cancelamento e construir uma sociedade mais justa e solidária.  Para tanto, é essencial reconhecer que as redes sociais digitais oferecem novas formas de sociabilidade e interação social, desafiando as categorias tradicionais de identidade e pertencimento. Ao promover um diálogo construtivo sobre o cancelamento, podemos transcender a lógica binária que muitas vezes permeia esses ambientes digitais e criar espaços mais inclusivos e reflexivos, tanto online quanto off-line.

 

Obrigado por participar. Espero que essa conversa continue. Estou disponível nas redes sociais.

 

Forte abraço,

Homero Reis©.

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