VIDA E PARIDADE© Georg Simmel E O Aprendizado Relacional Da Existência

por Homero Reis

Escrevo sobre relacionamentos porque, ao longo da vida, fui aprendendo que não existe experiência humana fora deles. Mesmo quando me penso só, estou dialogando com vozes que me atravessaram, com histórias que me formaram, com vínculos que deixaram marcas. A solidão absoluta é uma abstração; o que existe, de fato, são formas diferentes de presença e ausência do outro. Foi nesse horizonte que encontrei, quase por acaso, o pensamento de Georg Simmel, e digo “quase” porque, hoje, percebo que certos autores só nos encontram quando estamos maduros para escutá-los.

Georg Simmel (1858-1918) foi um influente sociólogo e filósofo alemão, considerado um dos fundadores da sociologia moderna e da Sociologia Formal (Sociologia das Formas Sociais), que focava nas interações individuais e nas “formas” da vida social, sendo precursor da microssociologia e dos estudos urbanos. De suas diversas obras, a mais significativa para mim e que me interessa particularmente é  a “Sociologia: Pesquisas Sobre as Formas de Socialização” (1908).

Simmel não se propôs explicitamente a escrever uma teoria dos relacionamentos humanos. Seu interesse estava voltado para a vida social, para as dinâmicas urbanas, para o dinheiro como mediador simbólico das relações modernas. Ainda assim, ao ler sua obra com atenção relacional, torna-se evidente que ele tocou em algo essencial: a vida humana acontece sempre entre sujeitos, entre interesses, entre forças, entre tensões. Essa intuição, que atravessa sua obra, nos apresenta de modo contundente aquilo que venho chamando, há décadas, de Inteligência Relacional.

Não me interesso por disputas da paternidade conceitual do tema. A Inteligência Relacional, como a compreendo, é uma grande bacia hidrográfica onde confluem distintos rios do pensamento e dos saberes humanos. Alguns vêm da filosofia, outros da psicologia, outros da sociologia, outros ainda da teologia. Simmel é um desses rios. Um rio discreto, às vezes esquecido, mas profundamente fértil.

O ser humano como ser-em-relação

Antes de entrar propriamente na contribuição de Simmel, preciso situar o solo filosófico onde essa reflexão se ancora. Desde Sócrates, aprendemos que uma vida não examinada não merece ser vivida. Mas o exame socrático não é solitário: ele acontece no diálogo. Sócrates só pensa porque pergunta, e só pergunta porque há um outro que responde. O “conhece-te a ti mesmo” já nasce como um ato relacional.

Platão aprofunda essa intuição ao afirmar que o ser humano é um ser de desejos: desejo do bem, do belo, do verdadeiro; e, que esses desejos se manifestam em direção a algo ou alguém. Amar, para Platão, é reconhecer uma falta e mover-se em direção àquilo que nos pode completar. Já Aristóteles, ao tratar da amizade (philia), afirma algo que considero central: ninguém escolheria viver sem amigos, ainda que possuísse todos os outros bens. A vida boa é, necessariamente, uma vida compartilhada. Portanto, sempre estamos indo em direção a alguém, seja porque motivo for.

Essa herança clássica encontra ressonância na filosofia alemã. Kant nos lembra que o outro nunca pode ser reduzido a meio, mas deve ser sempre reconhecido como fim. Hegel mostra que a consciência só se constitui no reconhecimento recíproco; não há “eu” sem um “tu” que o reconheça. Nietzsche, por sua vez, desmonta idealizações ingênuas e nos lembra que toda relação envolve forças, vontades, tensões e que ignora-las é produzir moralismos frágeis. Weber, contemporâneo de Simmel, ajuda a compreender como estruturas sociais moldam e condicionam as formas de relação. É nesse caldo filosófico que Simmel se insere, ainda que por um caminho próprio.

A descoberta fundamental: a paridade.

O que mais me impressiona em Simmel é sua percepção de que toda complexidade social pode ser reduzida, analiticamente, a uma unidade básica: o par. Ele não está propondo um dualismo ou uma polaridade. Sua ideia é mais profunda que isso. Não importa quão grande seja o grupo, quão sofisticada seja a estrutura social, quão complexa seja a organização, quantos atores estão em cena ou quantos interlocutores estão a interagir; quando descemos aos níveis elementares da interação, sempre encontramos pares: Amigos são pares; amantes são pares; Sócios são pares; Irmãos são pares. Até mesmo as instituições se estruturam, em última instância, a partir de relações paritárias.

Essa ideia é simples e, ao mesmo tempo, revolucionária. Simmel mostra que os grandes grupos não funcionam segundo uma lógica distinta da dos pequenos; funcionam segundo a mesma lógica, apenas com menor densidade relacional. Quanto maior o grupo, mais diluída se torna a intensidade do vínculo; quanto menor, mais densa.

Essa constatação tem implicações profundas. Ela nos ensina que compreender uma relação paritária é, de certo modo, compreender a lógica das relações humanas em geral. Para Simmel, relações paritária são aquelas que se baseiam na construção de igualdades, equilíbrios e poder de negociação entre as partes envolvidas, onde todos têm vez e voz, e os termos são discutidos e acordados em pé de igualdade, sem que uma parte imponha suas vontades sobre a outra, sendo comum em contratos, comissões, estruturas de poder e relacionamentos de qualquer outra natureza.

É aqui que vejo uma convergência direta com a Inteligência Relacional: quem não sabe cuidar do vínculo próximo dificilmente saberá atuar de forma ética e inteligente em sistemas maiores.

Lembro-me de um caso concreto. Certa vez atendi, como mentor, um executivo brilhante, tecnicamente impecável, mas incapaz de sustentar relações de confiança com sua equipe imediata. Sua organização era grande, seus projetos ambiciosos, mas sua vida relacional cotidiana era marcada por rupturas constantes. Simmel me ajudou a compreender: não era um problema de comportamental, mas de fundamento. Ele não sabia viver a paridade. Meu trabalho com aquele executivo baseou-se numa estratégia de Simmel, chamada de adesão e reforço.

Complementaridade: adesão e reforço.

Nesse jogo, o primeiro princípio relacional que Simmel explicita é o da complementaridade. Diferente da ideia romantizada de que “os opostos se atraem”, ele mostra que as relações se constroem por dois movimentos básicos: adesão ou reforço.

Na adesão, busco no outro aquilo que me falta. No reforço, busco alguém que confirme, amplifique ou legitime aquilo que já sou. Ambos os movimentos são legítimos; o problema não está neles, mas na falta de consciência sobre o que está sendo buscado.

Aqui, Simmel toca em algo que a psicologia aprofundaria mais tarde. Freud falaria de escolhas objetais inconscientes; Jung, de projeções da sombra; Fromm, de amores imaturos que buscam fusão. Eu prefiro dizer, em linguagem relacional: todo vínculo revela algo sobre o que estou tentando completar ou proteger em mim.

Vi isso muitas vezes em relações afetivas. Pessoas que se aproximam não por encontro, mas por carência; não por escolha, mas por dependência. Outras, que só se relacionam com iguais para não serem confrontadas. Em ambos os casos, a falta de consciência transforma a complementaridade em armadilha.

Relacionamentos inteligentes exigem lucidez: o que estou reforçando em mim ao me ligar a essa pessoa? O que estou tentando suprir?

Quantificação: os limites do eu.

O segundo princípio de Simmel é o da quantificação, que interpreto como a consciência dos limites toleráveis da relação. Toda relação exige renúncia parcial da individualidade. Eu abro mão de algo para construir um “nós”. Mas abrir mão de tudo é perder-se.

Simmel é contundente: quando um sujeito abdica integralmente de sua individualidade em nome da relação, instala-se uma patologia relacional. A sustentação desse princípio se dá com Martin Buber: a relação Eu-Tu só é possível quando ambos permanecem sujeitos. Se um se dissolve, o vínculo deixa de ser encontro e passa a ser fusão.

Recordo-me de uma cliente que me dizia: “Eu vivo em função dele”. Ao ouvi-la, não senti admiração, mas preocupação. Onde não há limite, não há relação; há absorção. Inteligência Relacional é saber até onde ir e onde parar. De fato, se estou sempre disponível, não sou priorizado; se não estabeleço limites, sou invadido; se não digo o que quero, o outro se impõe.

Dominação e subordinação: a dança das posições.

O terceiro princípio é talvez um dos mais mal-compreendidos: dominação e subordinação. Simmel mostra que as relações saudáveis não são estáticas. Em determinados contextos, conduzo; em outros, sigo. O problema não está na alternância, mas na rigidez. Por assim dizer, nos relacionamentos não existe “zona desmilitarizada”. Se não há limite, sempre alguém estará avançando sobre o espaço do outro.

Nietzsche já havia nos alertado para isso ao falar da vontade de poder como elemento constitutivo da vida. O erro não é o poder, mas a negação de sua existência. Quando não reconheço as dinâmicas de poder, torno-me tirano ou submisso. A equalização das relações equilibra a dinâmica da convivência.

Em relações maduras, a alternância é natural. Já vi doutores dependerem de mecânicos, líderes dependerem de auxiliares, pais aprenderem com filhos. A maturidade relacional está em saber quando conduzir e quando se deixar conduzir. E esse jogo é natural e saudável. É como um rio que tem seu ritmo próprio: as vezes corredeira, as vezes remanso, as vezes cachoeira. Mas no fim, tudo se dissolve na grandeza do mar.

O que Simmel discute aqui é a capacidade de adaptação à paridade. Essa competência si instala quando os “sujeitos” atuam como protagonistas em igualdade de condições relacionais. Isso é essencial porque nos desafia a enxergar as relações de poder como relações de coordenação de ações (pedidos, ofertas e reclamações). Nesse sentido o poder não é a capacidade de “mandar”, mas sim a competência de saber atuar juntos a partir das diferenças.

O conflito como elemento estruturante.

O ponto mais atual de Simmel é a sua compreensão do conflito. Ele não o vê como falha ou turbulência, mas como elemento constitutivo das relações e como mecanismo regulador das relações de poder. Onde há diferença, há tensão. Negar isso é infantilizar a vida.

Simmel vê no conflito um espaço político legítimo. O mesmo que Paul Tillich vê como a tensão que integra a coragem de ser. O conflito não precisa destruir; ele pode revelar.

Em minha trajetória, aprendi que relações sem conflito são, muitas vezes, relações sem verdade. O problema não é o conflito, mas a incapacidade de gerenciá-lo. A Inteligência Relacional, usando todo esse arcabouço conceitual, transforma o conflito em espaço de aprendizado, não em campo de batalha.

As etapas do relacionamento.

Simmel descreve, ainda que de forma implícita, um percurso relacional que reconheço claramente na experiência humana:

1. A atração: quando a complementaridade nos chama.

Toda relação começa antes do encontro propriamente dito. Ela nasce num movimento silencioso, quase imperceptível, que chamamos de atração. Não se trata apenas de atração física, afetiva ou intelectual, mas de algo mais profundo: uma sensação de que o outro, de algum modo, toca uma região sensível da minha própria história. Georg Simmel ajuda a compreender esse fenômeno ao afirmar que os vínculos humanos se organizam a partir da complementaridade, seja por adesão, seja por reforço.

Quando sou atraído por alguém, raramente sei explicar com precisão o motivo. Digo que “gostei”, que “me senti à vontade”, que “houve sintonia”. Mas, por trás dessas palavras vagas, há um movimento relacional claro: ou reconheço no outro algo que me falta e que desejo integrar à minha vida, ou encontro nele a confirmação daquilo que já sou e preciso reforçar. Em ambos os casos, a atração não é neutra; ela revela necessidades, carências, aspirações e defesas.

Lembro-me de um caso emblemático: um mentorado meu, profissional extremamente racional, estruturado, previsível, que se apaixonou por uma mulher espontânea, intuitiva, criativa. Ele dizia admirá-la porque ela “trazia cor” à sua vida. O que ele talvez não percebesse, à primeira vista, é que aquela atração era um pedido silencioso de integração de partes suas que haviam sido reprimidas ao longo da vida. A complementaridade, ali, não era romântica; era existencial.

Simmel me ensina que não há nada de errado nesse movimento inicial. A atração é necessária, vital, fundadora. O problema não está na complementaridade em si, mas na ausência de consciência sobre o que ela mobiliza. Quando não sei o que busco no outro, corro o risco de transformar o vínculo em dependência ou em palco de expectativas irreais. A atração, portanto, é sempre um convite, nunca uma garantia.

2. A ideação: quando o outro se torna espelho do meu desejo.

Se a atração é o chamado inicial, a ideação é o momento em que esse chamado ganha forma narrativa. Aqui o relacionamento começa, de fato, a ser construído, não ainda sobre quem o outro é, mas sobre quem imagino que ele seja. Projetamos, idealizamos, fantasiamos. Criamos uma versão do outro que, muitas vezes, diz mais sobre nós do que sobre ele.

Na linguagem de Simmel, esse momento é decisivo porque a relação ainda não se dá entre dois sujeitos concretos, mas entre um sujeito real e um sujeito imaginado. Eu me relaciono com a ideia que faço do outro. Freud chamaria isso de projeção; Jung, de anima e animus; Platão, talvez, de ilusão do desejo. Independentemente do nome, o fenômeno é o mesmo: vejo no outro aquilo que quero ver.

Já acompanhei inúmeros vínculos que prosperaram rapidamente nessa fase. Tudo parece fluir, há encantamento, cumplicidade, promessas implícitas. O outro parece compreender-me como ninguém: corresponde exatamente às minhas expectativas, preenche lacunas antigas. Mas essa harmonia inicial não nasce da compatibilidade real; nasce da sobreposição entre desejo e imagem.

Recordo-me de uma cliente que dizia, emocionada: “Ele é tudo o que sempre sonhei”. O problema, como aprendi a reconhecer ao longo dos anos, é que ninguém sustenta por muito tempo o papel de sonho alheio. A ideação é uma fase inevitável e até necessária do processo relacional, mas ela carrega um risco estrutural: quanto mais distante a imagem projetada estiver da realidade, mais violento será o impacto quando a realidade se impuser.

Simmel não condena a ideação; ele a descreve como parte do jogo relacional. A inteligência não está em evitá-la, mas em saber que ela existe. Relações maduras não se alimentam da ilusão de que o outro é aquilo que desejo, mas da disposição de descobrir quem ele realmente é.

3. A limitação: quando a realidade exige escolha.

Chega, inevitavelmente, o momento em que a realidade se impõe. Aquilo que era encanto revela arestas; aquilo que era admiração mostra limites; aquilo que era idealização confronta-se com o cotidiano. Esse é o ponto que Simmel identifica como decisivo na trajetória dos vínculos: o encontro com a limitação.

A limitação não é um acidente do percurso; ela é o próprio teste da relação. Descubro que o outro não responde como imaginei, não oferece tudo o que esperei, não sustenta integralmente a imagem que projetei. Aqui, muitos vínculos se rompem, não porque o outro seja insuficiente, mas porque a fantasia era excessiva.

Tenho assistido, repetidas vezes, relações ruírem nesse ponto. Pessoas que dizem: “Ele mudou”, “Ela não é mais a mesma”; raramente percebem que quem mudou foi o olhar. A limitação não é uma falha moral do outro; é a revelação de sua humanidade. É quando o vínculo deixa de ser promessa e passa a ser decisão.

Simmel nos mostra que, diante da limitação, só há dois caminhos possíveis: a ruptura ou a passagem para a consciência da paridade. Se não consigo aceitar o outro como ele é, com seus limites, contradições e fragilidades, o rompimento é quase inevitável. Mas, se atravesso esse momento com lucidez, entro numa nova etapa da relação, mais real, menos idealizada, mais exigente e, paradoxalmente, mais profunda.

Aqui reside um dos maiores desafios da Inteligência Relacional: sustentar o vínculo quando o encanto cede lugar à realidade. É nesse ponto que descubro se amo uma pessoa ou uma projeção; se me relaciono com um sujeito ou com uma fantasia; se estou disposto a crescer ou apenas a ser confortado.

A limitação, portanto, não é o fim da relação, é o seu batismo na realidade. Só relações que atravessam esse momento têm condições de se tornarem verdadeiramente humanas, éticas e transformadoras.

Se atravessamos essa fase, chegamos à consciência da paridade: vejo o outro como ele é e, ainda assim, escolho permanecer. A integração vem depois, quando se forma uma unidade, não fusão, mas compromisso. Por fim, inevitavelmente, a perda e o luto. Saber viver o luto é, talvez, uma das maiores competências relacionais. Nada é eterno na forma; tudo é eterno no significado que deixa.

Simmel e a Inteligência Relacional

Ao revisitar Simmel à luz da minha trajetória, percebo o quanto seu pensamento se alinha ao que venho desenvolvendo como Inteligência Relacional: consciência da paridade, clareza dos limites, gestão do conflito, alternância de posições, elaboração do luto. Tudo isso são competências relacionais fundamentais.

A Inteligência Relacional não evita a dor, mas nos capacita a atravessá-la com sentido. Não é eliminar tensão, mas saber habitá-la. Não é buscar relações perfeitas, mas relações conscientes.

Simmel me ensina que a vida acontece entre pares. Eu acrescentaria: a qualidade da vida depende da qualidade desses entre-lugares. É ali que nos humanizamos ou nos perdemos. É ali que aprendemos quem somos.

Escrevo, ensino e trabalho com Inteligência Relacional porque acredito que relações podem ser espaços de crescimento, não de adoecimento. Simmel me ajuda a lembrar que, antes de qualquer técnica, está o olhar: olhar o outro como par, não como objeto; como sujeito, não como meio; como alguém com quem aprendo a existir.

No fim das contas é isso que chamo de sabedoria relacional: aprender a viver entre, sem desaparecer e sem dominar, sustentando a delicada arte de ser eu com o outro.

Reflitam em paz!

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