por Homero Reis
Esse é um segundo “ensaio” que escrevo sobre J.P.Sartre, mais especificamente sobre sua célebre frase “o inferno são os outros”. A citação aparece na sua peça teatral de 1944, intitulada Huis clos (em português, Entre Quatro Paredes ou Sem Saída). A frase é dita pelo personagem Garcin e, no contexto da peça, refere-se ao fato de que o sofrimento humano decorre, em grande parte, do julgamento, da expectativa e da influência que as outras pessoas exercem sobre nós, limitando a nossa liberdade e definindo a nossa imagem.
Escrevo movido por uma inquietação pessoal, mas que atravessa a história da filosofia, da psicologia e da teologia, e que, curiosamente, continua sendo vivida de forma ingênua, reativa e pouco reflexiva no cotidiano das pessoas: a relação entre o eu e o outro. Poucas frases provocaram tanto desconforto quanto esta afirmação de Sartre.
Sempre que retorno a ela, percebo que não se trata de uma sentença sobre convivência difícil ou antipatia cotidiana, mas de uma denúncia profunda sobre o modo como construímos nossa consciência, nossa liberdade e nossa responsabilidade diante do outro.
Sartre não falava de convivência trivial. Falava de existência. Falava do modo como o olhar do outro me constitui, me revela, me expõe e, muitas vezes, me ameaça. Sua frase, tantas vezes mal interpretada, não é um convite ao isolamento, mas um alerta severo: quando não elaboro minha relação comigo mesmo, o outro se torna um cárcere.
Essa inquietação não nasce em um vazio histórico. Sartre escreve sob o peso de duas guerras mundiais, do avanço do totalitarismo, da ocupação nazista da França, do colapso de valores humanistas que pareciam sólidos. Ele olha para o mundo e percebe que a barbárie coletiva nasce de microdinâmicas relacionais mal resolvidas. O que acontece nos campos de batalha começa, quase sempre, nas salas de estar, nos vínculos familiares, nos jogos silenciosos de poder e ressentimento. Hannah Arendt chamaria isso, anos depois, de banalidade do mal: o mal que não nasce de monstros, mas de pessoas incapazes de pensar criticamente sua relação com o outro.
Ao refletir sobre isso, percebo que Sartre não é um pessimista vulgar. Ele não anuncia o fim da esperança, mas denuncia a irresponsabilidade humana diante da liberdade. Como diria Nietzsche, “o homem é o animal que ainda não foi fixado”. Somos projeto, não produto acabado. E exatamente por isso, quando fugimos da responsabilidade de nos tornarmos quem somos, transformamos o outro em ameaça.
O outro como espelho e ferida
Desde Sócrates, sabemos que a vida não examinada não merece ser vivida. Mas o que raramente admitimos é que o exame de si passa inevitavelmente pelo encontro com o outro. Platão já intuía isso ao afirmar que o conhecimento de si é inseparável da vida na pólis. Aristóteles, por sua vez, diria que o ser humano é um ser de relações, de comunidade, de laços.
Não nascemos humanos prontos. Nascemos biologicamente viáveis, mas humanamente inacabados. É na relação que nos tornamos quem somos. É no conflito, no contraste, no espelhamento, que a consciência se estrutura. O outro me revela não apenas quem eu sou, mas também quem eu não sou. Essa diferença, quando não elaborada, dói. E quando dói, tende a ser evitada, atacada ou desqualificada.
Ao longo da minha trajetória, percebo três movimentos recorrentes quando alguém conclui, ainda que inconscientemente, que “o inferno são os outros”.
O primeiro é o isolamento. A pessoa decide que o problema está fora e que a solução é retirar-se. Silencia, afasta-se, constrói muros emocionais. Mas o que parece proteção logo se transforma em punição. Viktor Frankl nos lembra que o ser humano precisa de sentido, e o sentido nasce do encontro. O isolamento prolongado não gera paz; gera adoecimento. Já acompanhei pessoas brilhantes, tecnicamente competentes, que se perderam não por falta de talento, mas por ausência de vínculos significativos.
O segundo movimento é a agressividade. Aqui, o outro não é evitado, mas enfrentado como inimigo. Tudo vira disputa, confronto, prova de força. Freud me ensinou que, quando o ego se sente ameaçado, ativa mecanismos de defesa. A agressividade é apenas o medo mal elaborado. Uma sociedade agressiva é, no fundo, uma sociedade assustada. Byung-Chul Han diria que vivemos em uma cultura da positividade, onde não sabemos mais lidar com o limite, com o não, com a frustração, e por isso mesmo reagimos com violência simbólica. Haja visto a popularidade dos videogames onde se mata “por diversão” desde a infância.
O terceiro movimento é a desqualificação. O outro não é atacado frontalmente, mas esvaziado de dignidade. Ironia, sarcasmo, mentira, manipulação. É uma violência mais sofisticada, porém igualmente destrutiva. Aqui, o outro deixa de ser sujeito e passa a ser objeto do meu narcisismo, como alertava Erich Fromm ao falar da transformação do humano em coisa.
Em todos esses movimentos, o inferno não está no outro. Está na incapacidade de sustentar a própria interioridade diante da diferença.
O outro é necessário
Há um ponto decisivo que preciso afirmar com clareza: preciso do outro. Não como acessório, não como ameaça, mas como condição da minha humanidade. Jesus já havia intuído isso ao resumir toda a lei no duplo mandamento do amor: amar a Deus e ao próximo. Não há espiritualidade autêntica sem alteridade. C.S. Lewis diria que o amor não é um sentimento que surge espontaneamente, mas uma decisão que se aprende na convivência concreta, imperfeita e, muitas vezes, frustrante.
Quando afirmo que preciso do outro, não estou dizendo que preciso concordar com ele, nem estou construindo uma relação de dependência. Estou dizendo que preciso aprender a lidar com o que ele desperta em mim. Sartre estava correto ao afirmar que o olhar do outro me constitui. O problema não é ser visto; é não saber o que fazer com aquilo que o olhar do outro revela.
Ao longo da minha vida, percebi que as pessoas que mais me incomodaram foram, quase sempre, aquelas que tocaram em pontos meus ainda não elaborados. Aquilo que me tira do eixo raramente é apenas externo. É interno, projetado. Jung chamaria isso de sombra: aquilo que não integrei em mim e que, por isso, me assusta quando aparece no outro.
Autoconhecimento como caminho de libertação
O ponto central da frase de Sartre é que quanto mais me conheço, menos ameaçador o outro se torna. O autoconhecimento não elimina o conflito, mas o ressignifica. Uma pessoa que sabe quem é não precisa transformar o outro em inimigo para afirmar sua identidade.
Aristóteles falava da virtude como hábito aprendido. Ninguém nasce virtuoso; torna-se. O mesmo vale para a convivência. Relacionar-se de forma inteligente é uma competência que se desenvolve. Quando compreendo minhas habilidades, minhas limitações, minhas fragilidades e meus medos, passo a olhar o outro não como ameaça, mas como diferença legítima.
Uso frequentemente uma metáfora simples: o leão e a zebra não são inimigos; fazem parte de um ecossistema. O problema é que o ser humano não aceita limites naturais. Ele precisa construir conscientemente suas próprias regras éticas. Quando não o faz, substitui ética por poder. Aí, vale qualquer coisa.
Paul Tillich dizia que o oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença. Quando desisto do outro, quando o reduzo a objeto, quando o ignoro ou o instrumentalizo, estou negando minha própria vocação humana.
Afeto, conflito e maturidade
É impossível relacionar-se sem ser afetado. Essa é uma ilusão infantil. A questão não é se serei afetado, mas como lidarei com o afeto. Kierkegaard já alertava que fugir da angústia é fugir da própria existência. O conflito não é sinal de fracasso relacional; é sinal de encontro real.
Aprender a conviver com a diferença exige maturidade emocional. Exige capacidade de escuta, de pausa, de reflexão. Exige tempo. Exige aceitar que o mundo não será moldado à minha imagem. Vivemos em mundos possíveis, não em mundos perfeitos.
Recordo-me de uma situação concreta em que, diante de uma discordância profunda com um colega, minha reação inicial foi de defesa. O corpo tenciona, a mente acelera, o ego se arma. Mas, ao sustentar o silêncio e a escuta, algo se transformou. A discordância não desapareceu, mas deixou de ser ameaça. Tornou-se aprendizado. Ali percebi que conversas inteligentes constroem relações inteligentes, e relações inteligentes sustentam sociedades menos violentas.
Respeito como fundamento do amor
Chego, então, a um ponto que considero inegociável: o respeito é a base de toda relação saudável. Costumo dizer que o respeito é a taça delicada onde se derrama o líquido sagrado do amor. Sem respeito, o amor se degenera em posse, controle ou idealização.
Quando perdemos o respeito, construímos uma humanidade instrumental. Passamos a usar pessoas como meios para nossos fins. Kant já havia alertado para isso ao afirmar que o ser humano deve ser sempre tratado como fim, nunca como meio. Quando isso se perde, o outro vira inferno porque deixa de ser humano.
O respeito nasce do reconhecimento da dignidade do outro, independentemente de concordância. É aqui que a espiritualidade cristã, a filosofia clássica e a psicologia humanista se encontram. Amar não é sentir afinidade constante; é reconhecer valor intrínseco no outro.
Inteligência Relacional: a travessia possível
Com isso, integro forma explícita, o conceito que estrutura todo o meu trabalho. Entendo Inteligência Relacional como a capacidade de cuidar de si, cuidar do outro e cuidar do vínculo, de forma consciente, ética e responsável.
Quando digo que “o inferno são os outros”, posso estar revelando apenas a ausência dessa inteligência. A Inteligência Relacional não elimina conflitos, mas impede que eles se tornem destrutivos. Ela nos ensina a transformar tensão em aprendizagem, diferença em crescimento, limite em sabedoria.
Uma pessoa emocionalmente resolvida não precisa vencer o outro; precisa compreendê-lo. Uma sociedade relacionalmente inteligente não se estrutura pela força, mas pela confiança. E a confiança nasce quando o medo deixa de governar as relações.
O inferno não são os outros. O inferno é a incapacidade de sustentar a própria humanidade diante da alteridade. O outro não é o problema; é o caminho. E quando aprendemos a trilhar esse caminho com respeito, consciência e amor, transformamos o inferno em possibilidade de redenção relacional.
Essa é, afinal, a aposta ética e existencial da Inteligência Relacional: não negar o conflito, mas humanizá-lo; não negar o outro, mas compreendê-lo; não fugir da diferença, mas aprender com ela. É assim que seguimos, juntos, construindo mundos possíveis, mais conscientes, mais dignos e mais humanos.
Reflitam em paz!




