HOMENS E LOBOS© Uma Meditação Sobre O Patriarcado E A Cultura Matrística

por Homero Reis

Há uma história que me acompanha há muitos anos. Eu a conto de diferentes maneiras, em contextos distintos, mas sua essência permanece a mesma. É uma história simples, quase infantil, mas quanto mais a examino, mais percebo que ela carrega em si o drama inteiro da civilização. Eu a chamo de “A História Dos Homens E Dos Lobos”.

No princípio, e esse princípio não é um ponto no tempo, mas uma condição do viver, todos os seres estavam inscritos em uma complementaridade sistêmica. Não uso essa expressão de maneira ingênua; uso-a no sentido antropológico que observa vestígios arqueológicos, pinturas rupestres, ferramentas quebradas, ossadas espalhadas, encontrados no que chamo de lixo civilizatório.

A vida, naquele momento originário, obedecia a uma lógica simples: a da interdependência. O  lobo comia a ovelha quando tinha fome. O homem também fazia o mesmo. Não havia moralização da cadeia alimentar. Havia necessidade. Havia sobrevivência. Havia um equilíbrio dinâmico inscrito na própria natureza da vida e nos seus ciclos.

Mas, em algum momento, e essa é a inflexão decisiva da história, algo mudou. Não se sabe exatamente quando, nem como. Sabe-se apenas que os vestígios arqueológicos indicam que os lobos começaram a morrer de forma diferente. Não apenas por fome, doença ou disputa intraespécie; mas, com crânios perfurados, com pontas de flecha cravadas no tórax. Esses “encontrados” são sinais inequívocos de agressão deliberada feita pelos “então humanos”. Isso significa uma coisa: os homens começaram a matar os lobos não para comer, mas para impedir que eles comessem do que lhes era também de direito, por exemplo, as ovelhas, considerando o equilíbrio natural. E aqui nasce a ruptura.

A Primeira Apropriação

Quando os homens cercaram as ovelhas e disseram “estas ovelhas são nossas”, inauguraram algo que não existia antes: a propriedade exclusiva de um bem coletivo.

Antes disso, a ovelha era parte do ecossistema. Ela não “pertencia” ao lobo, nem ao homem. Ela fazia parte de um fluxo. O lobo a comia. O homem também  e a vida seguia.

Mas, ao cerca-las, impedindo que os lobos tivessem acesso a elas, o homem não apenas “as protegeu”, como reivindicou exclusividade sobre elas. E toda exclusividade precisa de defesa: a defesa gerou conflito; o conflito gerou medo; e, o medo gerou  comando e controle. Eis aí o início de nossa atual forma de nos movermos no mundo. Mas, tem mais.

Aprendi, ao longo da minha trajetória refletindo sobre Inteligência Relacional, que todo sistema baseado em controle nasce do medo. E aqui vejo o nascimento do medo estruturado como cultura. Não era apenas o medo da fome. Era o medo da perda da posse. Era o início da individualização das coisas e das relações numa estrutura de poder danosa.

A partir desse momento, a ovelha deixou de ser alimento compartilhado no fluxo da vida e tornou-se capital acumulado. E onde há capital acumulado, há necessidade de vigilância e desigualdade social gritante.

O Segundo Movimento: A Dominação Entre Homens

Mas a história não para aí. Há um segundo momento ainda mais revelador. Se, no primeiro movimento, os homens se colocaram contra os lobos, no segundo eles se colocaram uns contra os outros.

Em algum ponto do processo, um homem, ou um grupo específico de homens, declarou:

“Estas ovelhas são minhas.” Não “nossas”. Minhas.

Essa palavra inaugura a hierarquia. Agora, não apenas os lobos estão excluídos. Outros homens também estão. E o acesso ao alimento passa a depender de uma nova condição: submissão ao proprietário: se você quiser comer, trabalhe para mim; se você quiser viver, submeta-se à minha estrutura; se quiser viver, me obedeça. Aqui nasce o que mais tarde chamaríamos de sistema econômico hierarquizado. E aqui começa a consolidação do patriarcado, sustentado por uma narrativa de poder ideologicamente construído, ou por “força física”, ou por manipulação da ignorância (esoterismo, misticismo e demais coisas semelhantes).

Patriarcado: A Cultura do Comando

Quando observo esse processo, percebo que o patriarcado não é apenas uma organização social masculina. Ele é uma matriz emocional que se fundamenta em três pilares: apropriação exclusiva; controle do acesso; hierarquização baseada no medo; ideologia da diferenciação baseada em narrativas esotéricas, místicas e outras que tais, como forma de legitimar o poder.

O fato do homem está no centro do patriarcado, decorreu de uma situação interessante, que exploro em outro ensaio, “O Cálice e a Espada”.

O patriarcado transforma a interdependência em dependência unilateral. Ele substitui o fluxo pela retenção. Ele troca cooperação por dominação. Eu aprendi com Humberto Maturana, especialmente em Amar e Brincar, que existem culturas baseadas no controle e na competição, e culturas baseadas na colaboração e no cuidado. A primeira estrutura-se na negação do outro como legítimo outro. A segunda reconhece o outro como parte constitutiva do sistema. O patriarcado, na minha leitura, nasce exatamente no momento em que o outro deixa de ser legítimo. Primeiro o lobo.
Depois o homem vizinho. E, mais tarde, a mulher, quando se “descobre a relação direta entre o coito e a gravidez”. Nesse momento a gravidez deixa de ser uma “concepção divina”, para ser resultado da “semente” do homem; e, a mulher deixa de ser uma “representação da divindade” e passa a ser uma incubadora do “macho dominante”.

Em resumo: a “descoberta” da relação direta entre coito, gestação e parto, tirou da mulher a condição de sacralidade da “produção de um novo ser”, e colocou tal possibilidade “na semente masculina”. A mulher tornou-se a incubadora e o homem o “representante” dos deuses. Isso o tronou o centro do poder e, portanto, a estrutura básica do patriarcado.

O Medo Como Fundamento Civilizatório

Não posso deixar de relacionar essa história com os “Quatro Gigantes da Alma”, livro de Emilio Mira y López, sobre o qual tantas vezes revisitei em minha obra.

O medo, um dos gigantes, quando é guardião, nos protege. Mas quando se torna carcereiro, nos aprisiona. Aqui, o medo deixa de ser instinto de sobrevivência e passa a ser instrumento de controle social. O dono das ovelhas precisa que os outros homens temam perder o acesso ao alimento. O sistema se sustenta na escassez administrada.

E quando o medo se institucionaliza, nasce o Estado coercitivo, a economia concentrada, a guerra preventiva, a violência legitimada.

A partir da cerca das ovelhas, começa a cerca das terras. Depois a cerca das fronteiras e as cercas ideológicas. O mundo passa a ser organizado por limites impostos e defendidos pela força.

A Cultura Matrística: Outra Possibilidade

Mas a história dos homens e dos lobos não é apenas denúncia. Ela é também possibilidade. Existe outro modo de viver.

A lógica do caçador existiu de fato, e ainda existe no nosso “inconsciente coletivo”; mas, paralelamente, aparece na história da humanidade, a lógica do agricultor. Enquanto o caçador se orienta pela captura e pelo controle, o agricultor se orienta pelo cultivo e pela renovação. O agricultor não domina a terra; ele coopera com ela. Ele não acumula para excluir; ele cultiva para compartilhar.

Aqui aproximo-me daquilo que Maturana chama de cultura matrística, não no sentido biológico, mas no sentido emocional e relacional .A cultura matrística se organiza pela convivência, pela reciprocidade e pela horizontalidade. Ela não elimina o conflito, mas não o estrutura como sistema permanente. Ela não depende da exclusão para se afirmar.

Um exemplo contemporâneo disso são as olimpíadas: há competição, há disputa, há “luta”, mas não há inimizade: vencedores e vencidos, ao final, irmanam-se na celebração da vida.

Amar e Brincar: A Raiz da Cooperação

Quando penso na cultura matrística, penso na experiência do brincar. No brincar não há hierarquia fixa. Há coordenação. Há alternância. Há criatividade compartilhada.

A criança que brinca não domina o brinquedo para excluir o outro. O brincar é o espaço da convivência sem medo, embora haja nele conflitos, relações de poder; mas não há inimizades. Amar, no sentido maturânico, é reconhecer o outro como legítimo outro na convivência, nessa dinâmica exploratória das relações.

Se aplico essa lente à história dos homens e dos lobos, percebo que o ponto de ruptura foi justamente a negação da legitimidade do outro. O lobo deixou de ser parte do sistema e passou a ser ameaça. O homem vizinho deixou de ser parceiro e passou a ser competidor. A mulher deixou de ser co-criadora e passou a ser subordinada. O que é ou pensa diferente, deixou de ser possibilidade para ser ameaça.

O Nascimento da Estrutura Hierárquica

A partir da “cerca das ovelhas”, surge algo que se repete até hoje:

  • A propriedade privada concentrada.
  • O trabalho como condição de acesso.
  • A remuneração mínima como forma de controle.
  • A obediência como moeda de sobrevivência.

A história que conto é primitiva, mas sua lógica é contemporânea. Hoje as ovelhas podem ser substituídas por capital financeiro, tecnologia, informação, terras, dados; mas, a estrutura permanece: quem controla o recurso controla o acesso; quem controla o acesso controla as pessoas; quem controla as pessoas controla o que elas pensam; quem controla o que o outro pensa cria ideologias de conveniência; e quem controla as ideologias de conveniência, mantém o sistema; quem controla o sistema, controla o recurso. Assim, o ciclo se mantém.

A Transição Necessária

Eu não conto essa história para romantizar o passado nem para demonizar o presente. Conto-a para revelar a matriz relacional que sustenta nossas instituições. Se o patriarcado nasceu do medo da perda, a restauração da cultura matrística exige confiança.

Confiança é um ato relacional. Ela não nasce da imposição, mas da reciprocidade. Ela exige que eu veja o outro não como ameaça ao meu estoque de ovelhas, mas como parceiro na produção de novos campos. Essa transição não é apenas estrutural. É ontológica. Ela exige mudança no modo como observamos as coisas para interferir nelas.

Se sou um observador formado pela lógica do controle, minhas ações gerarão resultados de dominação. Se torno-me um observador relacional, minhas ações produzirão cooperação.

A História Continua

Hoje, quando olho para o mundo, vejo homens ainda lutando contra lobos imaginários, vejo sistemas construídos sobre o medo de perder. Vejo muros sendo erguidos. Vejo discursos de exclusividade e exclusão.

Mas também vejo algo diferente surgindo, quando percebo o movimento das minorias por vez e voz. Aí vejo redes colaborativas, economias solidárias, lideranças que trocam comando por cuidado, empresas e organizações que substituem controle por confiança.

A transição da cultura patriarcal para a restauração da cultura matrística não é um retorno ao passado. É um salto evolutivo. Ela não elimina a força. Ela redireciona a força para a proteção da vida, não da posse. Ela não elimina a liderança. Ela transforma liderança em serviço.

Mas, acima de tudo, ela reconhece a igualdade de gênero com condição indispensável parra uma humanidade restaurada em sua saúde relacional. Isso porque o patriarcado não possui em si mesmo, todas as distinções relacionais para aquilo que chamamos de humano. A cultura matrística integra essas distinções.

A Pergunta Final

A história dos homens e dos lobos me deixa sempre com algumas perguntas nas quais debruço minhas atenções, pesquisas e estudos:

  1. O que estamos cercando hoje?
  2. Quais são as ovelhas que declaramos exclusivamente nossas?
  3. Quais lobos estamos “matando” por medo?
  4. Por que precisamos enxergar o diferente como inimigo?
  5. Em que momento perdemos a capacidade de conversar para resolver nossas “questões”?

Preocupa-me o fato de que em pleno século XXI, com tanta tecnologia e informação disponível, com tanta conexão à nossa disposição, ainda encontramos pessoas que creem que “jogar bomba na cabeça uns dos outros” é a melhor forma de resolver os dramas da humanidade. Para mim, a cultura do patriarcado sofre de uma profunda miopia relacional e a cultura matrística surge como uma possibilidade restauradora de todas as coisas que nos são genuína e essencialmente humanas.

Mas, sobretudo e para isso, precisamos nos perguntar: estamos dispostos a desmontar as cercas internas que sustentam nosso próprio patriarcado emocional? Porque, no fundo, o patriarcado não é apenas uma estrutura social externa. Ele é uma estrutura interna de controle. Por sua vez, a cultura matrística começa quando eu deixo de viver como proprietário do mundo e passo a viver como cuidador do vínculo.

 

Reflitam em paz!

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