EXISTIR É RELACIONAR-SE© Um Ensaio Sobre Presença, Legado E Sentido

por Homero Reis

A pergunta me foi feita de maneira simples, quase despretensiosa, como só as perguntas verdadeiramente importantes sabem ser: “Professor, o que é existir?” Não houve nela qualquer pretensão acadêmica, tampouco o desejo de uma resposta definitiva ou de um debate filosófico. Apenas uma pergunta. Ainda assim, ou talvez justamente por isso, a pergunta abriu-me um espaço de silêncio e reflexão. Porque algumas perguntas não pedem respostas rápidas; pedem tempo, escuta e maturação interior. Essa foi uma delas.

A primeira resposta que me ocorreu foi direta: existir é relacionar-se. À primeira vista, pode soar simplista. Mas, quanto mais me aprofundo nessa afirmação, mais ela se revela densa, exigente e transformadora. Exigir pensar a existência como relação é deslocá-la do campo do mero fato biológico para o território ético, histórico e simbólico da presença humana no mundo.

Essa reflexão me conduziu, quase imediatamente, a uma canção do Caetano Veloso, Cajuína, cuja pergunta central ecoa como um mantra filosófico: “Existir, a que será que se destina?” Durante muito tempo, essa música foi tomada como ingênua por alguns críticos. No entanto, como costuma acontecer com as obras verdadeiramente profundas, sua simplicidade é apenas aparente. Caetano escreveu essa canção atravessado pela dor do suicídio de seu amigo Torquato Neto. E é justamente dessa ferida aberta que emerge a pergunta radical sobre o sentido da existência.

Quando alguém perde o sentido de seus vínculos, quando não encontra mais razão para permanecer em relação consigo, com os outros e com o mundo, a própria vida se torna absurda. Albert Camus já havia diagnosticado isso com precisão ao afirmar que o absurdo nasce do divórcio entre o ser humano e o sentido. Mas eu ouso ir um passo além: o absurdo nasce da ruptura relacional. Onde não há vínculo, não há sentido; onde não há sentido, a vida se esvazia.

Existir nunca foi uma evidência simples para o ser humano. Desde que tomamos consciência de nós mesmos, a pergunta pelo sentido da existência se impõe como uma inquietação silenciosa que atravessa culturas, épocas e tradições. Não se trata apenas de estar vivo biologicamente, mas de compreender o que significa ser no tempo, no mundo e em relação com os outros. Quando alguém pergunta “o que é existir?”, essa pergunta raramente é teórica; ela é existencial, ética e relacional; além de estampar o fato de que cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, para continuar com Caetano.

A filosofia existencialista foi uma das tradições que mais radicalmente enfrentou essa questão. Para Kierkegaard, existir é viver sob a tensão da possibilidade, experimentando a angústia como sinal da liberdade. A existência, para ele, não é um conceito abstrato, mas uma experiência concreta e singular, marcada por escolhas que não podem ser delegadas.

Nietzsche aprofunda essa ruptura ao afirmar que não há fundamentos últimos que garantam sentido à vida; existir, então, passa a ser um ato de afirmação, mesmo diante do trágico. Quando ele proclama o amor fati, expressão latina que significa “amor ao destino”,  ele nos convida a dizer “sim” à vida como ela é, assumindo a responsabilidade por criar valores.

Sartre radicaliza essa visão ao afirmar que “a existência precede a essência”. Não nascemos com um sentido pré-determinado; tornamo-nos aquilo que fazemos de nós mesmos. Existir é escolher, e escolher é assumir responsabilidade não apenas por si, mas pelo mundo que ajudamos a construir.

Albert Camus, por sua vez, descreve o momento em que essa busca por sentido encontra o silêncio do mundo: o absurdo. Para Camus, o absurdo não nasce da vida em si, mas do confronto entre o desejo humano de significado e a indiferença do mundo. Ainda assim, ele recusa o desespero e propõe a revolta lúcida: continuar vivendo, criando e se relacionando, mesmo sem garantias. Em todos esses autores, existir é um ato ativo, nunca passivo; é um compromisso contínuo com a própria liberdade.

A teologia cristã conversa com essa inquietação por outro caminho, sem negá-la. Para o cristianismo, existir não é apenas resultado do acaso, mas resposta a um chamado. A existência é compreendida como vocação. Agostinho de Hipona descreveu essa condição com profundidade ao afirmar que o coração humano permanece inquieto enquanto não repousa em Deus. Essa inquietação não é um defeito da existência, mas sua marca constitutiva. Tomás de Aquino, ao afirmar que existir é participar do Ser, entende a vida humana como um dom que encontra plenitude quando orientado para o bem e para o amor.

Nos Evangelhos, Jesus muda radicalmente o eixo da existência ao afirmar que “quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á”. Existir, nesse horizonte, não é preservar-se a qualquer custo, mas doar-se. A vida encontra sentido quando se transforma em relação viva: amar a Deus e ao próximo. O apóstolo Paulo expressa isso ao dizer que a vida frutifica quando é entregue, e não quando é retida.

Dietrich Bonhoeffer, teólogo alemão que enfrentou o nazismo, escrevendo em meio ao horror, compreende a existência cristã como responsabilidade concreta diante do outro; existir é responder pelo mundo que nos foi confiado. Paul Tillich, por sua vez, fala da coragem de ser como a capacidade de afirmar a própria existência apesar da ameaça do não-ser. Em todos esses pensadores, existir é relação com Deus, com o outro e consigo mesmo, sustentada pelo amor e pela responsabilidade, inclusive dos que não creem.

Curiosamente, essa mesma compreensão aparece de forma muito simples e concreta na sabedoria popular, ainda que sem o vocabulário filosófico ou teológico. No cotidiano, diz-se que alguém “existiu de verdade” quando deixou marcas. Quando uma família se reúne e alguém diz: “depois que ela/ele morreu, nunca mais fomos os mesmos”, está afirmando, ainda que intuitivamente, que aquela pessoa existiu de forma significativa. Não se trata da grandiosidade dos feitos, mas da profundidade da presença e da qualidade dos encontros.

Penso, por exemplo, naquela avó cuja cozinha era um lugar de acolhimento. Anos depois, seus netos ainda repetem as receitas, mas sobretudo repetem o gesto: reunir, cuidar, ouvir. Aquela mulher continua existindo na forma como aquela família se relaciona. Ou no professor que, décadas depois, ainda é reconhecido e citado como referência: “foi ele que me ensinou a pensar”. Muitos não se lembram necessariamente do conteúdo das aulas, mas da experiência de serem levados a refletir. No senso comum, existir é fazer falta quando se vai; é ser lembrado não por obrigação, mas por gratidão e amor.

A Inteligência Relacional se apresenta como uma síntese ética dessas tradições. Do seu ponto de vista, existir é gerar presença significativa nos vínculos e transformar essa presença em legado. Não basta estar biologicamente vivo; é preciso existir no outro. A existência se confirma naquilo que permanece depois do encontro: uma ideia, um valor, uma coragem despertada, uma pergunta que continua ecoando.

A Inteligência Relacional parte do pressuposto de que ninguém passa ileso pelo mundo. Todos causamos e recebemos impacto. A questão não é se impactamos, mas como impactamos e como lidamos com os impactos que causamos. Nesse sentido, existir é tornar-se consciente da marca que deixamos nas relações. Quando escolho ser autêntico, como sugerem Nietzsche e Kierkegaard; quando assumo responsabilidade, como propõe Sartre; quando respondo ao chamado do amor, como ensina o cristianismo; quando sou lembrado por ter feito diferença, como revela a sabedoria popular; quando enfrento o que é desumano, como Bonhoeffer o fez, é aí que minha existência se torna densa.

Existir, então, não é cumprir tabela, nem executar um destino pré-escrito. Existir é construir sentido no encontro. É reconhecer que a vida não traz um significado pronto, mas oferece a possibilidade de criá-lo por meio das relações. A Inteligência Relacional afirma que nos tornamos eternos não pelo tempo que vivemos, mas pela qualidade da presença que deixamos. O que permanece de nós não são os cargos, os títulos ou os bens, mas aquilo que ajudamos o outro a se tornar.

Assim, existir é relacionar-se com consciência. É assumir que cada encontro é uma oportunidade de gerar humanidade. E é nessa tessitura silenciosa dos vínculos que a existência encontra, enfim, o seu sentido mais profundo.

Existência como presença real e memorável.

Existir, para mim, como já afirmei, não é apenas estar vivo biologicamente. É ter presença real e memorável. Presença em mim mesmo, consciência de quem sou, do que faço, do que escolho, e presença no outro, naquilo que deixo como marca, legado, memória. Nesse sentido, a existência não se encerra com a morte física; ela se prolonga porque o que fazemos em vida, ecoa na eternidade” como disse o personagem  Maximus Décimus Meridus, interpretado por Russell Crowe, no filme “Gladiador”.

Quando recito Fernando Pessoa, ele continua existindo. Quando leio um salmo atribuído a Davi, ele permanece vivo. Quando dialogo com Sócrates, Platão ou Aristóteles, ainda que separados de mim por milênios, suas ideias continuam me formando. Aristóteles dizia que o ser humano é um ser político, um ser de relação, constituído na pólis. Sócrates afirmava que uma vida não examinada não merece ser vivida, e examinar a vida é, essencialmente, examinar as relações que a tecem. Platão, por sua vez, nos ensinou que participamos do mundo das ideias na medida em que damos forma ao bem, ao belo e ao verdadeiro em nossas ações. Tudo isso aponta para uma mesma direção: existimos naquilo que compartilhamos, transmitimos e transformamos.

Essa lógica se manifesta de maneira ainda mais concreta na experiência da parentalidade. Continuo existindo nos meus filhos, geneticamente, sim, mas sobretudo simbolicamente. Eles carregam valores, gestos, modos de estar no mundo que lhes foram transmitidos não por discursos, mas por convivência. O mesmo acontecerá com meus netos, bisnetos, e assim sucessivamente. A ancestralidade é a prova viva de que existir é estar em relação no tempo.

Existência, essência e liberdade.

O existencialismo, ao afirmar que a existência precede a essência, aprofundou essa reflexão. Kierkegaard, Nietzsche, Gabriel Marcel e, mais tarde, Jean-Paul Sartre, insistiram que o ser humano não nasce com um roteiro pré-definido. Não há um propósito dado que precisa apenas ser executado. Pelo contrário: é no exercício da liberdade, nas escolhas concretas e nos vínculos que estabelecemos que vamos construindo aquilo que somos.

Na perspectiva da Inteligência Relacional, essa afirmação ganha contornos ainda mais claros: não executamos um destino; construímos um legado. Não viemos ao mundo para cumprir uma tarefa eterna; criamos, no tempo, algo que pode atravessar a eternidade. Aquilo que realizo hoje, nos meus relacionamentos, pode permanecer quando eu já não estiver mais aqui.

Essa consciência transforma profundamente a forma como me posiciono diante da vida. A pergunta deixa de ser “qual é o meu propósito?” e passa a ser: o que estou construindo, nas minhas relações, que merece permanecer? O que faço que seja memorável, não no sentido da fama, mas da significação?

Histórias que permanecem.

Certa vez, fui abordado por alguém que eu não reconhecia. Ele se apresentou como filho de um ex-aluno meu. Disse-me que havia escolhido cursar determinada disciplina porque ouvira, durante toda a infância, as histórias que seu pai contava sobre minhas aulas. Mais tarde, ele próprio se tornara pai e agora repetia essas histórias ao seu filho. Confesso que fiquei profundamente emocionado. Não porque me senti importante, mas porque compreendi, naquele instante, o que significa existir como relação: eu estava presente numa história que atravessava gerações.

O mesmo acontece com os livros e ensaios que escrevo. Eles não têm valor em si mesmos. Seu valor está na possibilidade de provocar reflexão, diálogo, deslocamento interior, ao longo do tempo e quando encontra acolhimento em quem os lê. Talvez alguém discorde do que escrevi; talvez critique. Ainda assim, o texto cumpre sua função se gerar pensamento. Hannah Arendt dizia que pensar é dialogar consigo mesmo. Se meus escritos ajudam alguém a sustentar esse diálogo interior, então minha existência ali, encontra sentido.

O mundo como absurdo relacional.

Vivemos tempos confusos. A quantidade de pessoas que vivem sem saber por que vivem é alarmante. O crescimento dos índices de suicídio é um sintoma trágico dessa perda de sentido. Muitas pessoas sentem que sua ausência não faria diferença alguma no mundo. Essa percepção é devastadora e profundamente relacional.

Quando a vida se reduz a cumprir tabela: acordar, trabalhar, consumir, dormir, sem consciência de legado, o mundo se torna um absurdo. Bauman chamou isso de modernidade líquida: relações frágeis, descartáveis, utilitárias. Byung-Chul Han fala de uma sociedade do desempenho, na qual o sujeito se explora até a exaustão, perdendo o sentido do encontro. As relações passam a ser utilitárias: o outro existe enquanto supre uma necessidade minha. Quando deixa de fazê-lo, é descartado. Essa lógica não apenas empobrece os vínculos; ela esvazia a própria existência.

Os pilares da existência relacional.

A Inteligência Relacional propõe um caminho distinto, sustentado por alguns pilares fundamentais.

O primeiro é a autenticidade. Tornamo-nos memoráveis quando somos fiéis àquilo que somos. Michelangelo não se tornou burocrata; Freud rompeu com a medicina tradicional; Mozart recusou a mediocridade; Einstein desafiou os limites da física clássica. Independentemente de concordarmos ou não com suas ideias, todos eles permaneceram porque foram autênticos e permanecem nos legados que deixaram.

O segundo pilar é a escolha consciente. Existem relações naturais: família, ancestralidade, das quais não podemos escapar. Mas existem relações propositivas, escolhidas: amigos, parceiros, lugares, projetos. É nessas escolhas que se constrói grande parte do nosso legado.

O terceiro pilar é a consciência da presença. Existir é saber que estou presente naquilo que faço e comunico. É perguntar constantemente: o que as pessoas levam comigo depois do nosso encontro? Há encontros que nos esvaziam; outros que nos nutrem. Relações inteligentes são aquelas que deixam ambos maiores do que antes.

A Inteligência Relacional como ética da existência.

Assim, continuo firme na convicção que sustenta todo o meu trabalho e, porque não dizer, minha vida como aprendiz: a existência humana é essencialmente relacional. Não há existência fora do vínculo. Não há eternidade fora do legado. Existimos na medida em que tocamos, transformamos, nos deixamos tocar e somos transformados.

A Inteligência Relacional é uma ética da existência. Ela nos convida a viver com consciência do impacto que causamos, da memória que geramos, da história que escrevemos nos outros. Quando eu deixar de existir fisicamente, algo de mim permanecerá nas palavras que disse, nos gestos que fiz, nos vínculos que cultivei, no trabalho que exerci.

No fim, a pergunta que me foi feita retorna, agora mais madura e exigente: existir, a que que se destina? Destina-se a isso: a deixar marcas que humanizam, vínculos que libertam e memórias que permanecem. Porque, no fim das contas, existir é, e sempre será, relacionar-se, seja aqui ou na eternidade.

Reflitam em paz!

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