ESTRATÉGIA E CONQUISTA© O jogo de xadrez, a vida e a aprendizagem do encontro

por Homero Reis

A vida acontece diante de nós, o tempo todo. E tudo o que acontece pode nos acrescentar experiências excelentes, não para se ter respostas para as “acontecencias”, mas para se desfrutar delas de modo que a vida valha a pena ser habitada. Nesses momentos, percebo que o mundo cotidiano, aquilo que sempre esteve ali, começa a revelar uma densidade inesperada. Um gesto simples, uma cena banal, um encontro aparentemente irrelevante passa a carregar um sentido que me ultrapassa. É como se a realidade deixasse de ser apenas cenário e se tornasse protagonista no teatro da existência.

Tenho aprendido que o mundo não se cala. Somos nós que, muitas vezes, perdemos a capacidade de escuta. Quando desaceleramos, quando suspendemos a pressa de concluir, a vida começa a se apresentar de modo metafórico. E metáforas não explicam; elas revelam. Não ensinam por imposição, mas por reconhecimento.

Foi em um desses dias, em que caminhava sem objetivo prático, que me deparei com uma cena que ainda hoje me habita. Um senhor idoso e um menino jogavam xadrez em um banco de parque. Não havia tensão competitiva, nem público, nem cronômetro. Ainda assim, algo naquele encontro me convocou a permanecer. Intuí, quase imediatamente, que não se tratava apenas de um jogo. Ali estava uma narrativa condensada sobre a vida, o tempo e a arte de aprender com o outro.

O homem mais velho jogava com uma serenidade que não era lentidão, mas presença. Antes de cada movimento, percorria o tabuleiro com os olhos, como quem respeita o campo inteiro antes de interferir nele. Havia silêncio, contemplação e, sobretudo, responsabilidade. Cada peça parecia ser tocada com a consciência de que todo movimento produz consequências que não se limitam à peça movida.

O menino, por sua vez, jogava com a impetuosidade própria de quem ainda confunde intensidade com profundidade. Movia as peças rapidamente, buscava ataques diretos, desejava encerrar a partida. Era evidente sua vontade de vencer, mas também sua dificuldade de permanecer no processo. Ele ainda não havia aprendido aquilo que a vida ensina com o tempo: a beleza não está em chegar, mas em caminhar.

Ali, diante de mim, estavam dois tempos dialogando. Não em conflito, mas em aprendizagem mútua. O velho não humilhava, não corrigia em excesso, não acelerava o jogo para ensinar uma lição. Ele jogava de modo que o menino pudesse permanecer jogando. E isso, percebo hoje, é uma das formas mais sofisticadas de amor: não vencer o outro, mas sustentá-lo no jogo.

Enquanto observava, algo se organizava em mim com clareza: o xadrez é uma metáfora precisa da existência humana. O tabuleiro é a história concreta, limitada, mas cheia de possibilidades. Não é infinito, mas também não é pobre. Ele oferece caminhos, impõe limites e exige discernimento. Ninguém escolhe o tabuleiro em que nasce, mas todos são responsáveis pela forma como nos movemos nele.

Na vida, como no xadrez, não há liberdade absoluta. Há liberdade situada. Somos livres dentro de um conjunto de regras, circunstâncias, vínculos e consequências. Quem se rebela contra o tabuleiro desperdiça energia. Quem o compreende, aprende a jogar com inteligência.

E há algo ainda mais decisivo: não se joga sozinho. O outro não é um detalhe acidental da vida; é sua condição estrutural. Sem o outro, não há jogo. Não há tensão, não há aprendizagem, não há história. Na clínica, vejo isso com frequência: pessoas que sofrem não por falta de recursos, mas por terem transformado o outro em inimigo ou ameaça permanente. Jogar contra todos é um jogo que não se sustenta.

No xadrez, ambos os jogadores desejam avançar. Isso não é um defeito; é parte da dinâmica. Na vida também. O problema não está no desejo de avançar, mas na incapacidade de reconhecer que o avanço precisa considerar o campo inteiro. As regras são as mesmas para todos. Não por justiça ideal, mas por realidade. Ignorá-las não nos torna livres; apenas nos torna imprudentes.

Ao longo dos anos, acompanhei pessoas brilhantes que perderam o jogo da própria vida por não compreenderem as regras invisíveis que sustentam as relações. Queriam resultados sem processo, autoridade sem vínculo, conquista sem responsabilidade. No xadrez, isso é impossível. Na vida, cobra-se o preço mais adiante.

Cada partida tem um vencedor, mas não há vencedores permanentes. Essa talvez seja uma das lições mais difíceis de aceitar. A vida não consagra campeões eternos. Cada jogo é único. Cada ciclo ensina algo diferente. Quem vence hoje pode aprender com a derrota amanhã. Quem perde, se aprende, amadurece.

No início do jogo, todos têm as mesmas peças. Isso sempre me chamou atenção. Não há privilégios. O que diferencia um jogador do outro é a inteligência estratégica, a paciência, a leitura do campo e a capacidade de aprender com o outro. Assim também na vida. Não somos definidos apenas pelo que recebemos, mas pelo modo como organizamos o que temos.

O rei é a peça mais valiosa e, paradoxalmente, a mais frágil. Ele não avança sem proteção. Sua força está na preservação. Na clínica, vejo muitos “reis” adoecidos: pessoas que ocupam posições centrais na família ou na organização, mas que se expõem além do que deveriam, confundindo protagonismo com onipotência. O rei ensina que centralidade exige cuidado.

A rainha, por sua vez, é potência pura. Move-se em todas as direções, amplia o campo, cria possibilidades. Mas quando se afasta demais do rei, sem estratégia, torna-se vulnerável. Quantas vezes vi talentos extraordinários se perderem por não protegerem aquilo que era essencial: o vínculo, a saúde, o sentido e os afetos.

As torres representam os limites. São a casa, o território, o patrimônio simbólico e real. Ignorar limites custa caro. Pessoas que não sabem dizer “não”, que não reconhecem fronteiras emocionais, profissionais ou éticas, acabam exauridas. Respeitar limites não é empobrecer a vida; é torná-la sustentável. Não estabelecer limites e guardiães para eles é deixar-se invadir.

Os cavalos sempre me fascinaram. Pulam obstáculos, criam soluções improváveis, surpreendem. Representam nossas competências e habilidades. Mas há algo importante: quando trabalham isolados, perdem eficácia. Quando atuam juntos, tornam-se decisivos. Em muitas equipes que acompanhei, mentorias que fiz, em líderes que formei, o fracasso não se deu por falta de talento, mas por ausência de cooperação. Uma casa dividida não sustenta o jogo.

Os bispos caminham em diagonais diferentes, mas complementares. Um vê o mundo por uma perspectiva, o outro por outra. Separados, protegem pouco. Juntos, cobrem o tabuleiro inteiro. Aqui vejo a metáfora do sentido. A vida exige integração de olhares. Quando absolutizamos uma única perspectiva, empobrecemos o jogo. Quando dialogamos com o diferente, ampliamos a consciência.

E então há os peões. Simples, discretos, quase invisíveis. Mas são eles que sustentam o jogo até o final. Quantas vezes, em processos terapêuticos profundos, a mudança não aconteceu por grandes decisões, mas por pequenos gestos repetidos com fidelidade: uma conversa honesta, um limite colocado, um pedido de perdão, uma rotina reorganizada. O peão ensina que a grandeza da vida está no cotidiano das pequenas ações elegantes.

Não há vitória sem perdas. O xadrez ensina isso com clareza implacável. Algumas peças precisam ser sacrificadas. Quem tenta proteger tudo acaba paralisado. Na vida, isso se traduz em escolhas difíceis. Não podemos manter intactos o ego, a vaidade, o controle absoluto e ainda assim avançar. Muitas vezes, o sofrimento nasce da recusa em “abrir mão” daquilo que já deveria ter sido deixado para trás.

É preciso pensar, sim. Mas arriscar também é necessário. O excesso de cálculo paralisa. A ausência de risco empobrece. Cada jogo é diferente, assim como cada vida. O prazer não está apenas em vencer, mas em jogar com presença, com inteireza.

Quando aquela partida terminou, o velho e o menino se levantaram, abraçaram-se e foram embora conversando. Não celebravam um vencedor, mas o tempo compartilhado. Aquilo me pareceu uma síntese profunda: a vida não é um torneio a ser vencido, mas um encontro a ser vivido.

Inteligência Relacional: aprender a jogar para que o jogo continue

Ao revisitar essa metáfora hoje, à luz de todo o meu percurso intelectual e profissional, percebo com ainda mais clareza como ela se articula com aquilo que denomino Inteligência Relacional. Jogar bem a vida não é apenas mover peças com eficiência, mas reconhecer que todo movimento acontece em um campo relacional.

A Inteligência nas relações nasce da consciência de que o outro não é um obstáculo, mas parte constitutiva do jogo. Cada ação comunica algo. Cada escolha constrói ou fragiliza vínculos. Cada vitória obtida à custa da destruição do outro cobra um preço elevado no futuro.

Ser relacionalmente inteligente é saber olhar o tabuleiro inteiro, não apenas a própria peça. É compreender que nem toda jogada possível é desejável. Que nem toda vitória é ética. Que nem todo avanço é sustentável.

A verdadeira estratégia não é aquela que elimina o outro, mas a que preserva o jogo. A verdadeira conquista não é o xeque-mate, mas a continuidade da relação com dignidade. Viver, afinal, é aprender a jogar de modo que o jogo continue dentro de nós, entre nós e depois de nós.

E talvez essa seja a sabedoria mais profunda: não jogar para vencer o outro, mas para honrar o encontro.

Reflitam em paz!

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