by Homero Reis©
Nossas experiências relacionais decorrem do que nos foi ensinado, do contexto em que vivemos, das experiências que temos e das histórias que “escolhemos acreditar”. Tudo isso está enraizado na nossa forma de ser, estar e agir no mundo. No entanto, essas coisas não estão plenamente conscientes em nós. Como dizia Freud, grande parte de nossa vida psíquica é regida pelo inconsciente, e assim, muitas vezes, acreditamos estar escolhendo livremente quando, na verdade, estamos apenas repetindo roteiros silenciosos que nos habitam.
Percebo isso quando diante de um conflito familiar minha primeira reação é levantar a voz, como tantas vezes aconteceu comigo e vi acontecer com clientes, amigos, em reuniões onde alguém “perde alinha”; aí, o outro entra na “vibe” e o “caldo entorna”. Lembro-me bem disso quando recordo os motivos pelos quais entrei em atrito com alguém ou como reagi “quando fui provocado”. Ou seja, todos estamos sujeitos a “respostas automáticas inconscientes”, a maioria delas inadequadas. Quando em um ambiente de trabalho, o grupo guarda ressentimentos ou agendas ocultas, instalam-se mecanismos de defesa e as respostas “apressadas”, muitas vezes desnecessárias, acabam por trazer discórdia. Isso porque, no fundo, carregamos a lembrança de experiências dolorosas onde questionar a autoridade, no nosso contexto de origem, era proibido. Aí, os roteiros defensivos atuam como fios invisíveis que moldam nossas emoções e respostas sem que percebamos quão imaturas são.
Mas não são apenas as histórias individuais que nos condicionam; o inconsciente coletivo da sociedade em que vivemos atua como força silenciosa sobre nossas escolhas. Nas redes sociais, por exemplo, é fácil ser tragado pela lógica da reação imediata. Uma opinião contrária, uma provocação, uma notícia polêmica, tudo nos impele a responder rapidamente, quase sem pensar, como se nossa identidade estivesse em jogo em cada clique. Esse impulso coletivo, esse condicionamento social da pressa, nos empurra para respostas automáticas que raramente constroem diálogo.
Também no campo político noto como esses roteiros coletivos se impõem. Muitas vezes, em meio a discursos polarizados, sinto dentro de mim a tentação de me alinhar automaticamente a um grupo, de repetir slogans sem reflexão, de reforçar muros em vez de construir pontes. Essa tendência é poderosa porque nos dá a sensação de pertencimento imediato, mas, se cedemos a ela sem reflexão, acabamos preso em narrativas que nos impedem de enxergar a complexidade da realidade. Quando ativo o ERA, posso reconhecer esse impulso e escolher outro caminho: escutar quem pensa diferente, buscar compreender as razões alheias, sustentar a ambiguidade sem me perder nela. Esse exercício não é fácil, mas é libertador, porque me livra da prisão das respostas automáticas e me abre ao exercício da maturidade relacional.
Nas instituições em que participo, percebo dinâmicas semelhantes. Muitas vezes, há scripts invisíveis de poder, lealdades herdadas, formas de pensar cristalizadas que moldam as respostas coletivas. É comum ver decisões tomadas por repetição, porque “sempre foi assim”. Sem o espaço reflexivo, caímos na armadilha da esquizofrenia organizacional, dizendo uma coisa nos discursos e fazendo outra na prática. O ERA, nesse contexto, é um convite a parar e perguntar: por que fazemos as coisas do jeito que fazemos? Que heranças estão moldando nossas escolhas sem que as percebamos? Quando um grupo é capaz de sustentar essa reflexão, abre-se a possibilidade de criar instituições mais coerentes, mais humanas e mais livres.
Para entender isso melhor e ser capaz de construir maturidade precisamos compreender o que estou chamando de ERA – Espaço Reflexivo da Aprendizagem. O ERA é um “espaço psíquico” no qual o aprender deixa de ser mera aquisição de informações e passa a ser um exercício de consciência, de integração e de transformação relacional que gera maturidade. É um espaço-tempo de pausa, diálogo e elaboração, no qual cada experiência é decantada e conectada com a própria história, com os vínculos estabelecidos e com os desafios presentes. É um lugar simbólico em que a aprendizagem se dá pelo movimento de refletir sobre si mesmo, sobre o outro e sobre o contexto, trazendo à tona aspectos que muitas vezes permanecem inconscientes ou não nomeados.
Esse conceito articula-se diretamente à Inteligência Relacional, quando estimula o autocuidado, pois exige que eu escute a mim mesmo e reconheça meus limites e potências; quando entendo a reciprocidade, porque o espaço reflexivo se enriquece na troca com o outro; quanto me proponho à escuta ativa, que sustenta a qualidade do diálogo e do aprendizado; quando tomo consciência da dignidade que deve gerir as relações, já que cada voz deve ser considerada legítima e necessária; e, quando entendo a responsabilidade compartilhada, uma vez que aprender implica corresponsabilidade na construção do conhecimento e dos vínculos.
No plano prático, o ERA expressa-se de forma diversa: uma roda de conversa, um diário reflexivo, uma supervisão, uma mentoria, ou mesmo o simples gesto de interromper a correria para dar sentido ao que se está vivendo. O essencial é que seja um espaço seguro e estruturado, onde a experiência pode ser processada, onde as perguntas podem emergir e onde se constrói significado. Se consigo pausar, respirar, verificar a fonte, escolher não reagir no calor da emoção, então recuso ser marionete do inconsciente e exerço minha liberdade de forma madura.
O Espaço Reflexivo da Aprendizagem não é um método, mas uma atitude psíquica-pedagógica-relacional a partir da convicção de que só amadurecemos de fato quando conseguimos integrar o saber, sentir e agir num movimento coerente e transformador.
A maturidade e o autodesenvolvimento, tanto pessoais quanto coletivos, se constituem justamente na forma como me torno consciente desses processos. Cada vez que reconheço em mim o peso das heranças inconscientes, seja da minha família, da minha biografia ou da minha cultura, e decido não ser escravo delas, amplio o ERA. Nesse espaço, posso transformar repetição em criação, herança em aprendizado, automatismo em escolha intencional. É nesse exercício que a liberdade deixa de ser ideal distante e se torna prática cotidiana. E quanto mais prático essa consciência, mais maduro me torno, porque minhas respostas não são simples ecos do passado, mas escolhas que dignificam o presente e projetam futuro.
Entre os estímulos que recebo e as respostas que ofereço, existe um espaço que não pode ser medido em segundos ou metros, mas apenas em profundidade. O ERA é esse espaço. Ele é o epicentro daquilo que compreendo como liberdade. Nesse território invisível deixo de ser apenas resultado de condicionamentos passados e me torno protagonista de minha presença no mundo e autor do meu futuro. É nele que descubro que a maturidade pessoal não é um estado fixo, mas um processo contínuo de expansão dessa liberdade interior. Quanto mais amplio esse espaço, mais capaz me torno de sustentar relações maduras, responsáveis e criadoras. O ERA não é apenas um recurso psicológico, mas o lugar onde a liberdade se instala e de onde se irradiam todas as escolhas significativas de minha vida.
Durante grande parte da minha história, não percebia a existência desse espaço. Reagia no automático, como se cada estímulo que me alcançava exigisse uma resposta imediata. Se alguém me elogiava, eu me inflava de orgulho; se alguém me criticava, eu me retraía ou atacava de volta; se a vida me frustrava, eu me afundava em ressentimentos. Não havia, entre o que acontecia e o que eu fazia, qualquer intervalo consciente. Era como se eu fosse governado por uma programação invisível, escrita por traumas, medos, expectativas e heranças familiares. Eu não respondia: eu apenas reagia. Somente mais tarde compreendi que, essa brecha entre estímulo e resposta, é onde me é permitido escolher como vou reagir. É nela que a liberdade consciente nasce. Não fora, em ideais abstratos ou discursos inflamados, mas ali, nesse instante minúsculo onde posso parar, respirar e escolher. A liberdade, descobri, não está em fazer o que quero a qualquer momento, mas em ter consciência e domínio sobre a forma como respondo àquilo que me acontece.
Recordo-me de um episódio em que fui alvo de palavras irônicas, ditas com o claro propósito de me diminuir. Minha reação automática teria sido responder na mesma moeda, ferir para não ser ferido. Mas naquele instante, percebi que dentro de mim havia um espaço onde eu podia escolher. Respirei, ouvi, e em vez de contra-atacar, perguntei à pessoa como ela estava se sentindo e que pedidos queria fazer. Para minha surpresa, o tom mudou. Percebi que sua ironia era fruto de um sofrimento que ela não sabia expressar de outra forma. Se eu tivesse reagido no automático, teríamos travado uma batalha de egos. Mas ao escolher no espaço reflexivo, abri a porta para um diálogo autêntico. Foi ali que compreendi, de forma concreta, que o ERA é o espaço da liberdade, não da liberdade retórica, mas da liberdade real, que se manifesta no instante em que decido não ser prisioneiro do estímulo.
A inspiração para “construir” o ERA, veio de Viktor Frankl no livro “Em Busca de Sentido”. A frase “entre o estímulo e a resposta existe um espaço, e nesse espaço reside a liberdade humana porque é nele que posso escolher como quero estar no mundo”, é dele. Essa afirmação, feita por alguém que sobreviveu ao inferno dos campos de concentração, tem para mim uma autoridade inquestionável. Se ele foi capaz de manter sua liberdade interior diante da barbárie, como posso eu, em minha vida cotidiana, renunciar a esse mesmo poder? Frankl ensina que a liberdade não é apenas ausência de correntes externas, mas capacidade de escolher a atitude diante do inevitável. Essa lição ecoa em mim: não posso escolher tudo o que me acontece, mas posso sempre escolher a resposta que ofereço. E essa escolha é o gesto mais radical de liberdade que possuo.
Ao refletir sobre o ERA, vejo como ele se conecta à filosofia da liberdade. Kant dizia que a verdadeira liberdade não é fazer o que quero, mas agir de acordo com a lei moral que reconheço em mim mesmo. Essa definição, tão exigente, só se torna possível quando cultivo o espaço reflexivo: é nele que posso discernir entre o impulso e o dever, entre o desejo imediato e o valor duradouro. Sartre, por sua vez, afirmava que estamos condenados à liberdade, porque em todo instante somos chamados a escolher. Para ele, não existe fuga: até não escolher já é uma escolha. O ERA é justamente o palco dessa condenação libertadora. Nele, percebo que não posso transferir a responsabilidade de minhas respostas a ninguém. Sou eu que decido, sou eu que crio, sou eu que assumo. Essa responsabilidade é pesada, mas também é o que dá dignidade à existência.
Simone Weil acrescenta uma nuance preciosa: para ela, a verdadeira liberdade se manifesta no consentimento interior, na capacidade de dizer “sim” ou “não” a partir da atenção plena. Essa atenção, que ela chama de oração, é exatamente o que o ERA me ensina a cultivar. Quando paro para refletir antes de responder, não estou apenas adiando um gesto: estou praticando atenção. Estou abrindo espaço para que a resposta seja fruto de liberdade e não de automatismo. Paulo Freire, por sua vez, me lembra que não há liberdade sem consciência crítica. O ERA é o lugar da pedagogia da liberdade: é nele que me torno sujeito de minha história, em vez de objeto das circunstâncias. Cada vez que escolho o espaço reflexivo, estou exercendo minha própria educação existencial.
Mas não basta falar em conceitos filosóficos. Preciso descer à vida concreta. No cotidiano, o ERA se revela nos pequenos gestos. Quando um filho me desafia com teimosia, posso reagir com autoritarismo, impondo-me pela força, ou posso pausar e escutar, escolhendo a via da paciência. Quando no trabalho alguém erra, posso reagir com dureza e acusação, ou posso respirar e transformar o erro em oportunidade de aprendizagem. Quando na rua alguém me ofende no trânsito, posso explodir em raiva, ou posso simplesmente deixar passar, preservando minha paz. Cada uma dessas situações, aparentemente banais, é um campo de batalha da liberdade. E a vitória não está em dominar o outro, mas em não ser dominado por meus próprios impulsos. O ERA me ensina que a liberdade não é gritar mais alto, mas escolher com mais consciência.
Na esfera relacional, esse espaço se torna ainda mais precioso. Só posso amar verdadeiramente quando sou livre por dentro. Se sou refém de meus medos, carências, impulsos ou histórias que escolhi acreditar, transformo o outro em objeto de minhas necessidades. Mas quando cultivo o ERA, descubro que posso escolher amar como ato criador, não como reação automática. Posso escolher perdoar, mesmo quando a mágoa grita em mim. Posso escolher dialogar, mesmo quando a raiva pede silêncio hostil. Posso escolher dignificar o outro, mesmo quando tudo em mim gostaria de reduzi-lo a uma caricatura. O ERA é, assim, o espaço onde a maturidade pessoal se transforma em maturidade relacional. É nele que a reciprocidade deixa de ser palavra bonita e se torna prática viva.
A sociedade contemporânea torna esse exercício ainda mais difícil e, por isso, ainda mais necessário. Vivemos na era da aceleração, como descreve Hartmut Rosa: tudo nos empurra para respostas rápidas, decisões instantâneas, cliques imediatos. Estimulados a reagir no calor da emoção, a responder antes de refletir, a julgar antes de compreender, revelamos uma imaturidade presunçosa, uma prepotência absurda, e a cegueira relacional. O ERA é, nesse contexto, um ato de resistência. Pausar é revolucionário. Escolher refletir, antes de reagir é contracultural. No espaço reflexivo, recupero a calma necessária para ser livre. Descubro que não preciso responder a tudo, não preciso participar de todas as polêmicas, não preciso entrar em todas as guerras simbólicas. Posso escolher o silêncio, posso escolher a escuta, posso escolher a dignidade.
A espiritualidade reforça essa compreensão. Penso no gesto de Jesus diante da mulher adúltera: ele não responde de imediato à pressão dos acusadores. Ele se inclina, escreve no chão, cria um intervalo. Esse intervalo é o ERA em ação: espaço de liberdade diante da pressão coletiva. E desse espaço nasce uma resposta inédita, que desarma a violência e devolve dignidade. Esse episódio me mostra que o ERA não é apenas uma técnica psicológica, mas uma prática espiritual. É no silêncio do coração que escuto a voz divina, que me chama à liberdade mais radical: a liberdade de amar. E amar, quando nasce no espaço reflexivo, não é sentimentalismo, mas decisão consciente de dignificar o outro.
Quanto mais reflito, mais vejo que o ERA não é apenas individual, mas também coletivo. Uma instituição que aprende a pausar antes de decidir, que escuta antes de agir, que reflete antes de punir, é uma instituição mais livre. Uma sociedade que cultiva espaços de diálogo, que resiste à polarização automática, que sustenta o silêncio da reflexão, é uma sociedade mais madura. O ERA, quando praticado em comunidade, se torna a base da cidadania responsável. Ele cria as condições para que a liberdade de um não destrua a liberdade do outro, mas se converta em liberdade compartilhada. Nesse sentido, o espaço reflexivo é também o alicerce da democracia: sem ele, caímos no automatismo da massa; com ele, cultivamos a responsabilidade do cidadão.
Há ainda uma dimensão criadora que preciso enfatizar. O impulso automático é previsível, é repetição. A resposta escolhida no ERA é surpresa, é novidade. É nesse espaço que posso criar futuros que o passado não determinava. É nele que invento gestos inéditos de bondade, palavras inesperadas de reconciliação, atitudes criativas de solidariedade. O ERA é, portanto, o útero da esperança. Nele, o impossível torna-se possível, porque não estou mais preso ao que foi, mas aberto ao que pode vir a ser. É nele que a liberdade se revela em sua face mais luminosa: como poder de criar o que ainda não existe.
Por isso, insisto: o ERA é o epicentro da liberdade. Não existe liberdade fora dele. Fora dele, só há repetição de padrões, automatismos, escravidão aos impulsos. Dentro dele, encontro a possibilidade de ser mais do que minhas feridas, mais do que minhas heranças, mais do que meus medos. Dentro dele, descubro que posso ser novo, posso ser autor, posso ser criador. Essa liberdade não é absoluta, porque não elimina condicionamentos externos; mas é radical, porque me dá a chance de escolher quem serei diante deles. É nesse espaço que me torno humano em plenitude.
E, ao final de cada reflexão, volto à frase de Frankl que ecoa em mim como oração: entre o estímulo e a resposta existe um espaço. Nesse espaço está minha liberdade. Nesse espaço está minha maturidade. Nesse espaço está a qualidade de todas as minhas relações. Cultivar esse espaço é, portanto, o maior exercício de humanidade que posso realizar. É nele que quero habitar todos os dias, para que minha vida seja não apenas sobrevivência, mas criação; não apenas reação, mas escolha; não apenas repetição, mas liberdade.
Pense nisso e reflitam em paz!
Homero Reis




