por Homero Reis
Há momentos em minha vida em que sinto que minha mente se move como um compasso de quatro pontas, cada qual apontando para uma direção essencial: o eu, o outro, o passado e o futuro. E percebo que grande parte do que chamo de maturidade consiste em aprender a interpretar o movimento entre essas direções; um movimento contínuo, não linear, complexo e profundamente humano.
Enquanto escrevo, reconheço que nada disso é definitivo. Trata-se de uma reflexão em curso, um relato de alguém que tenta compreender a si mesmo enquanto caminha. Sempre que revisito essas quatro direções, algo novo se revela. Talvez porque a consciência seja sempre uma travessia, nunca um destino. Talvez porque, como dizia Heidegger, “existo em permanente projeto, lançado no mundo e simultaneamente convocado a respondê-lo”.
Hoje, escrevo como quem se olha no espelho pela primeira vez: consciente da singularidade que carrego, mas igualmente consciente de que essa singularidade não se basta. Ela só se sustenta nas minhas relações comigo mesmo, com os outros e com as coisas; e, tais relações, por sua vez, dependem de como acolho essas quatro direções. Por isso escrevo em primeira pessoa: para não fugir de mim mesmo enquanto reflito.
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Primeira Direção: O Eu — A identidade como chão do existir
A primeira direção aponta para dentro. E é sempre para dentro que começo, não porque o mundo gire em torno de mim, mas porque tudo o que percebo do mundo passa pelos filtros que sou e tenho. Minha identidade, portanto, não é apenas um conjunto de características; é a lente que dá forma ao real.
Foi Paul Ricoeur quem me ajudou a compreender que o “eu” é uma narrativa, e não uma substância fixa. Eu me conto, e ao me contar, me torno. Minha identidade não é um bloco de mármore, mas um texto sempre em revisão. Há capítulos que escondo, outros que exalto, outros que tento, inutilmente, esquecer. E há contornos que só descubro quando alguém me interpela.
Não me percebo como uma entidade isolada. Edith Stein ensinou que cada pessoa é um “núcleo espiritual singular”, irrepetível e inviolável, e essa frase sempre ressoa em mim. Ela afirma minha unicidade, mas também revela minha vulnerabilidade: apenas quem é único pode ser ferido; apenas quem é singular pode se perder de si mesmo.
E é justamente por ser único que jamais posso viver comparando-me com referencial externo. Comparações são, quase sempre, uma forma de me afastar de mim. Byung-Chul Han descreve nossa era como uma época de “exaustão do eu”, marcada por um excesso de desempenho. É como se, ao tentar ser tudo, eu deixasse de ser alguém. Essa percepção, dolorosa e lúcida, devolve-me ao essencial: só posso responder à vida a partir do lugar onde meus pés estão, não de onde imagino que eles deveriam estar.
Assim, minha identidade é, antes de tudo, uma chamada à responsabilidade. A responsabilidade de ser quem sou. A responsabilidade de reconhecer que minhas percepções são apenas isso: percepções. Não verdades absolutas. Não decretos universais. Apenas modos de interpretar. Sou o ponto de partida, nunca o ponto de chegada.
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Segunda Direção: O Outro — O encontro que me desinstala
A segunda direção é o outro. Tudo aquilo que não sou eu. Tudo aquilo que me confronta, me desafia, me amplia, e às vezes me assusta.
Martin Buber me ensinou a diferença entre relacionar-se com alguém como um “isto” ou como um “tu”. O “isto” é um objeto, um meio, uma extensão das minhas necessidades. O “tu” é um mistério. É um ser que existe por conta própria e, ao existir, me convoca. Não posso reduzir um “tu” a uma função, a uma utilidade, a uma projeção. O “tu” sempre me transcende.
Esse encontro com o outro é, muitas vezes, desconcertante. O outro pensa diferente, sente diferente, age diferente. E há momentos em que essa diferença me fere, não porque o outro seja violento, mas porque sua autonomia revela meus limites. Kierkegaard dizia que a angústia é o “sentimento da liberdade” e a dificuldade que tenho de lidar com ela. Talvez por isso o outro me angustie: ele é sempre livre. E a liberdade do outro evidencia a minha, na mesma proporção que me mostra como não sei lidar com ela.
Quando encontro alguém, carrego comigo um desejo quase instintivo de que a relação seja fácil. Mas a verdade é que a convivência é um campo de tensão. James Hillman lembrava que a psique não evolui na comodidade, mas no atrito. E o atrito do encontro é o que me desperta para o real.
Reconhecer o outro como alteridade é exercitar algo raro: a humildade. A humildade de admitir que meu olhar é apenas um entre muitos. A humildade de aceitar que a verdade não se esgota na minha perspectiva. A humildade de abrir espaço para que a diferença exista sem que eu precise corrigi-la, dominá-la ou moldá-la.
O outro não está no mundo para me agradar. Nem para me confirmar. O outro está no mundo porque existe, e sua existência me revela o quanto ainda preciso aprender a existir.
Grandes conflitos humanos nascem quando tento usar poder para resolver aquilo que deveria ser resolvido com presença. O poder tenta moldar; a presença acolhe. Tillich dizia que amar é “afirmar o outro na totalidade do seu ser”. Afirmar não significa concordar. Significa reconhecer. Acolher a existência do outro como legítima, mesmo quando discordo dela.
Quando me encontro verdadeiramente com alguém, algo aparece entre nós que não me pertence, nem lhe pertence. Algo novo, algo que nenhum dos dois poderia criar sozinho. E talvez seja aí que eu descubra, com mais clareza, quem eu sou.
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Terceira Direção: O Passado — As histórias que escolho carregar
A terceira direção aponta para trás, para o território nebuloso das lembranças, das marcas e dos significados. Mas quanto mais reflito sobre o passado, mais percebo que ele não é um depósito de fatos, e sim um campo de interpretações.
Paul Ricoeur distingue lembrança de recordação. A lembrança é o que fica; a recordação é o que construo. Todo passado é reconstruído pela imaginação, pela memória, pelos afetos. Não se trata de falsificação, mas de condição humana. Sou o narrador da minha própria história, escolho quais capítulos enfatizo, quais minimizo, quais apago.
Essa escolha diz muito sobre quem sou agora. Heidegger afirmava que estamos sempre projetados para frente, mas trazemos o passado como herança. Contudo, essa herança não é um destino. Ela é matéria. Matéria interpretativa. Matéria viva. O passado só pesa quando o trato como prisão; ele se transforma quando o trato como material de trabalho.
Pergunto-me, então: Por que carrego certas histórias e deixo outras?
Por que determinados episódios me acompanham como sombras longas, enquanto outros se dissolvem como se jamais tivessem acontecido?
Descobri que minha memória é seletiva e carregada de intenção. Não lembro porque quero; lembro porque preciso, mesmo que inconscientemente. O passado que me fere pode, paradoxalmente, ser o mesmo passado que me forma. Mas ele não determina quem sou. Ele apenas me oferece matéria para compreender quem posso ser.
Edith Stein dizia que a pessoa é um ser espiritual em desenvolvimento. Portanto, olhar para o passado não significa revisitar dores como colecionador de cicatrizes; significa reinterpretar essas dores até que se tornem fonte de compreensão. A maturidade, para mim, está em transformar o peso da história em significado, não justificando o que me feriu, mas libertando-me da obrigação de carregá-lo sem questionamento.
Paul Tillich escreve no seu livro A coragem de ser (The Courage to be-1972), que a coragem de ser inclui revisitar o passado sem medo de desfazer narrativas antigas, sem medo de admitir que posso ter interpretado errado, sem medo de reconhecer que o sentido que atribuí ontem talvez não sirva mais hoje. O passado é uma bússola, não porque aponta o caminho, mas porque lembra de onde vim. E ao lembrar de onde vim, descubro que posso escolher para onde vou.
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Quarta Direção: O Futuro — A promessa que faço a mim mesmo
A quarta direção aponta para adiante; o território do possível, do desejado, do incerto. O futuro, quando o observo com honestidade, não existe. Ele é apenas uma projeção, uma promessa que faço a mim mesmo. Mas, de fato, ele é o resultado das nossas escolhas, quando convertidas em ações. Kierkegaard dizia que viver é escolher, e que toda escolha é a adoção de uma possibilidade num mundo de infinitas possibilidades. Assim, o futuro não é um campo aberto, mas um campo delimitado pelas decisões que tomo agora. E é nesse “agora” que começa a responsabilidade. O futuro só começa a existir quando assumo compromissos com ele.
Byung-Chul Han lembra que vivemos num tempo saturado de promessas não cumpridas, planos que não se tornam ação, desejos que não se tornam caminho. Talvez por isso haja tanta ansiedade: a distância entre o que desejo e o que sustento com minhas decisões.
O futuro é uma construção ética. Não acontece comigo; acontece por meu intermédio. Ele é consequência de escolhas cotidianas, discretas, às vezes invisíveis. Escolhas que exigem renúncias, foco, disciplina e, sobretudo, presença.
Mas o futuro também é espaço de esperança. Comte-Sponville afirma que a esperança é ambígua: pode ser fonte de energia, mas também de fuga. Esperar sem agir é adiar a vida; agir sem esperar é reduzir o futuro ao cálculo racional. A maturidade consiste em equilibrar essas duas dimensões: agir com lucidez, esperar com humildade.
O futuro é o lugar onde depositamos nossa coragem, porque coragem é “afirmar a vida apesar da morte”. Para mim, construir o futuro é justamente isso: afirmar o possível mesmo diante do incerto. Projetar um caminho mesmo quando ele ainda não existe. Criar um horizonte onde antes havia apenas desejo difuso. Assim, o futuro não é apenas expectativa, é responsabilidade. A responsabilidade de sustentar, dia após dia, o comprometimento com aquilo que desejo construir.
E é nesse ponto que as quatro direções começam a convergir.
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O Agora — O território onde tudo se encontra
O agora é o lugar onde o eu encontra o outro, onde o passado é reinterpretado e onde o futuro começa a ser tecido. Nenhuma das direções existe por si só. Elas só fazem sentido quando se cruzam no instante presente.
O agora é exigente. Ele me obriga a estar inteiro. A não me esconder em projeções fantasiosas, nem em culpas antigas. A não usar o passado como álibi, nem o futuro como fuga. A não me proteger do outro pelo silêncio, nem me proteger de mim pela correria. O agora me chama para o chão da vida.
Heidegger dizia que a existência autêntica é aquela que se abre ao real, aquilo que ele chama de “claro”, o espaço onde a verdade se desvela. Mas esse desvelar exige presença, exige coragem de olhar para si, para o outro e para o tempo com honestidade.
O agora é o ponto de encontro entre minhas possibilidades e minhas limitações. É o lugar onde descubro que não sou onipotente, mas também não sou impotente. Sou alguém que pode escolher, e essa escolha é, sempre, o começo de tudo. James Hillman afirmava que a alma não busca resultados, mas profundidade. E talvez seja isso que o agora me oferece: profundidade. O agora não exige perfeição; exige presença. Não pede que eu domine o mundo; pede que eu o habite.
Quando me coloco inteiro no agora, descubro uma forma diferente de existir. Mais simples. Mais verdadeira. Menos defensiva. Mais sensível. É no agora que encontro o outro sem máscaras. É no agora que reconheço minha história sem me aprisionar a ela. É no agora que dou o primeiro passo em direção ao futuro que desejo. O agora é o único lugar onde a vida é possível.
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As Direções que me tornam humano
Quando volto a olhar para as quatro direções que estruturam minha experiência: o eu, o outro, o passado e o futuro, percebo que elas jamais se apresentam de forma isolada. São como quatro correntes subterrâneas que se encontram continuamente, alterando o curso da minha vida sem que eu me dê conta. É impossível falar de mim sem falar do outro; impossível falar do futuro sem revisitar as marcas do passado; impossível compreender minhas escolhas sem mergulhar no agora que me atravessa.
Às vezes percebo essas direções se revelando nas situações mais simples do cotidiano. Como numa manhã em que estou preparando café e, sem saber por quê, sou tomado por uma lembrança antiga: talvez um cheiro da infância, talvez a imagem de alguém que já não vejo há anos. Essa lembrança, que parecia adormecida, retorna carregando interpretações que construí ao longo do tempo.
Enquanto mexo a xícara, percebo que minha relação com aquele episódio mudou. Antes doía; hoje ensina. Antes limitava; agora abre caminho. Nesse instante, o passado está ali, vivo, dialogando com quem sou hoje e, de algum modo, orientando discretamente a pessoa que desejo me tornar.
Ou então quando encontro alguém que pensa diferente de mim. Posso estar numa conversa banal, talvez pedindo uma simples tarefa, e de repente me sinto contrariado. A diferença do outro me incomoda, e é aí que percebo que não estou lidando apenas com a situação concreta, mas com interpretações antigas, medos antigos, expectativas futuras que coloco sobre os ombros de alguém que sequer sabe disso. O outro, sem querer, me devolve a mim mesmo, e me obriga a revisitar o que trago dentro. A conversa, que parecia trivial, torna-se um espelho. E neste espelho descubro que, ao tentar mudar o outro, eu estava tentando, na verdade, corrigir uma sombra minha que ainda não aprendi a acolher.
Há também momentos lúdicos, quase infantis, em que percebo essas direções operando como engrenagens silenciosas. Lembro de um dia em que observei uma criança tentando montar um quebra-cabeça. Ela olhava para as peças espalhadas, tentava encaixá-las de qualquer jeito, frustrava-se, tentava de novo. Em certo momento, pediu ajuda. Sentei-me ao lado dela e disse: “Olhe a imagem na caixa. Pense no que já está montado. Veja o que falta”. Enquanto falava, percebi que estava descrevendo as quatro direções da mente humana: a criança representava o eu em busca de sentido; a imagem na caixa era o futuro que ela desejava alcançar; as peças já montadas eram seu passado; e eu ali, ao lado dela, era o outro oferecendo uma presença que lhe permitia continuar.
A vida adulta não é tão diferente daquele quebra-cabeça infantil. Carrego peças que às vezes não sei onde pertencem. Fragmentos de histórias incompletas, expectativas desordenadas, lacunas que me inquietam. E é só quando olho para mim, para o outro, para o passado e para o futuro ao mesmo tempo que começo a compreender a figura maior que estou tentando construir.
Percebo também esses entrelaçamentos nos conflitos pessoais. Quando sinto raiva de alguém, por exemplo, descubro que a emoção nem sempre nasce daquela pessoa em si, mas de uma tentativa de proteger quem acho que sou. A identidade reage para preservar-se, o passado sopra interpretações antigas ao meu ouvido, o futuro pressiona com expectativas e medos, e o outro torna-se, sem querer, o palco onde tudo isso aparece. É como se as quatro direções conversassem silenciosamente por trás de cada gesto meu, conduzindo-me para um tipo de presença mais honesta, não apenas com os outros, mas comigo mesmo.
E quando preciso tomar uma decisão importante, vejo essas direções se alinharem como astros. A pergunta “o que devo fazer agora?” parece simples, mas carrega um universo de fios invisíveis. Se escuto apenas o futuro, perco-me em ansiedade. Se escuto apenas o passado, torno-me prisioneiro de memórias. Se escuto apenas o outro, diluo-me. Se escuto apenas a mim, corro o risco de cegar-me. É somente quando deixo que todas essas vozes se encontrem, sem que nenhuma se imponha violentamente às outras, é que consigo perceber um caminho possível, ainda que imperfeito, ainda que provisório.
A vida, afinal, não é uma reta, mas um tecido. E cada direção é um fio que se cruza com os demais, tecendo minha humanidade. O eu oferece o traço da identidade; o outro adiciona cor e profundidade; o passado cria textura; o futuro oferece movimento. E é no agora que esse tecido se organiza em forma, em sentido, em direção.
Escrevo tudo isso sabendo que continuarei a me perder e me reencontrar ao longo do caminho. Sei que haverá dias em que o passado falará mais alto que o futuro; dias em que o outro me desafiará mais do que me acolherá; dias em que não conseguirei distinguir o que é meu do que é projeção. Mas também sei que, se eu permitir que essas direções se movam juntas, sem hierarquias rígidas, posso viver de forma mais lúcida, mais inteira, mais humana.
No fim das contas, percebo que as quatro direções não são apenas estruturas da mente, mas modos de me relacionar com o próprio mistério de existir. Elas me lembram que sou um ser singular que vive entre outros seres singulares; que carrego histórias, mas não sou prisioneiro delas; que projeto futuros, mas não posso controlá-los; que sou feito de encontros, escolhas e interpretações. E é justamente nesse entrelaçamento delicado, imperfeito e profundamente vivo, que descubro, a cada dia, o caminho do qual sou feito.
Reflitam em paz!




