por Homero Reis
Há muitos anos venho percebendo que todo trabalho envolvendo relacionamentos humanos começa e termina numa tensão fundamental: o cuidado. Não apenas o cuidado de si, tão celebrado pelas éticas clássicas, nem tampouco apenas o cuidado do outro, tão enfatizado pelas tradições religiosas e comunitárias, mas a interação delicada entre ambos. Com o tempo, aprendi que não posso cuidar do outro se não sei cuidar de mim; e não posso cuidar de mim se não reconheço que o outro possui a mesma legitimidade existencial que reivindico para minha própria vida. Na verdade, todos nós somos igualmente livres, legítimos, autônomos e diferentes.
Essa é a razão pela qual essa reflexão nasce: compreender, à luz dos inúmeros saberes que formam minha identidade e da própria vida ordinária, aquilo que sintetizo na expressão: “Cuide de você, cuide do outro.” A relação entre esses dois polos forma o campo onde se desenvolve a Inteligência Relacional, esse espaço onde eu e você deixamos de ser apenas indivíduos isolados e nos tornamos cocriadores de algo que emerge entre nós.
Como dizia Jesus, “a árvore se conhece pelos frutos”; e talvez a árvore de cada relação seja conhecida precisamente pelos frutos do cuidado. Aquele cuidado que nasce de dentro e aquele que se estende para fora.
O ENIGMA DO OUTRO: A DESCOBERTA PIAGETIANA.
Quando iniciei meus estudos sobre educação, ainda no mestrado pesquisando Jean Piaget e Rubem Alves, senti que eles me ofereciam uma chave interpretativa surpreendentemente poderosa para pensar não apenas o desenvolvimento cognitivo, mas também o desenvolvimento inteligente dos relacionamentos humanos. Piaget nunca pretendeu formular uma teoria das relações, muito menos o Rubem; mas, ao estuda-los, percebi em suas obras, como construímos o conhecimento relacional e isso acabou por revelar algo essencial sobre como construímos vínculos.
O modo construtivista de Piaget, tão criticado e tão admirado, aponta que o ser humano se desenvolve em estágios, e que cada estágio estabelece o horizonte do que é possível compreender. Assim como uma criança de cinco anos não possui aparato cognitivo para a matemática abstrata, nós também não possuímos, em determinados momentos da vida, os instrumentos emocionais, éticos e relacionais para compreender certas nuances das pessoas e das situações. Vamos aprendendo à medida que crescemos, desaprendendo certos egocentrismos e abrindo espaço para percepções mais amplas.
No início da vida, afirma Piaget, a criança não distingue entre si e a mãe; há uma fusão epistêmica e afetiva. Depois, aos poucos, ela percebe que há um outro. Só que, mesmo quando reconhece essa diferença, ela ainda pensa o mundo de maneira egocêntrica: tudo existe porque ela existe; tudo orbita ao seu redor como um pequeno Sócrates que ainda não reconheceu o limite da própria ignorância. Só mais tarde ela compreende que o outro possui existência própria, independência, desejos, medos, significados, e que esses elementos não dependem do que ela pensa ou deseja.
Piaget nunca disse isso nesses termos, mas eu percebo sua teoria como uma convocação ética: crescer é abandonar a fantasia narcísica de que o mundo é extensão do meu eu.
Aristóteles, dois milênios antes, já intuía esse movimento: a phronesis, a sabedoria prática, surge quando reconhecemos as circunstâncias do mundo e dos outros, regulando nosso agir segundo a justa medida. E a justa medida é sempre relacional: nem eu demais, nem o outro de menos.
Por sua vez, Rubem me ensinou que tudo o que descubro sobre mim precisa ser ampliado para reconhecer a mesma legitimidade no outro. Se desejo dignidade para mim, devo reconhecê-la neles; se busco respeito, preciso admiti-lo para eles; se reclamo por espaço, devo considerar que os outros também precisam respirar.
O EGOÍSMO NECESSÁRIO E O EGOÍSMO PATOLÓGICO.
Não há nada de errado em ter fome de vida, desejo de realização, defesa do próprio espaço. Nietzsche, tão mal interpretado sobre esse aspecto, recorda que toda força vital quer expandir-se. A criança corre no parquinho, agarra o brinquedo do outro, disputa território. Ali se expressa a centelha dionisíaca da vida: elemento vital, irracional e criativo que é a fonte profunda da grande arte (encontro com o sublime), e de uma existência plena. É o antídoto contra uma vida reduzida ao racionalismo estéril, ao niilismo passivo e à negação dos instintos. Reacendê-la seria uma forma de renascimento cultural e fortalecimento do espírito humano. Mas, sem limites, essa centelha vira incêndio.
Durante minha pesquisa de base, passei muito tempo observando e descrevendo crianças convivendo e brincando nos parquinhos da cidade e das escolas. Com elas aprendi que nos anos iniciais da vida, ainda não se compreende o conceito de posse; para elas, o brinquedo do outro é tão seu quanto o próprio. Não porque sejam más, mas porque ainda não diferenciam a interioridade da exterioridade. Ambas querem o mesmo carrinho, a mesma bola, e rapidamente o jogo vira disputa. Isso se chama “desejo mimético”. Tema que discorri em outro ensaio.
Nessas horas, cabe ao adulto o papel de mediador do equilíbrio. O adulto não suprime o desejo da criança, porque suprimir desejo é adoecer a infância; mas impede que um desejo destrua o outro. Freud diria que é nessa contenção amorosa que nasce o eu civilizado, aquele que percebe que o mundo não é extensão dos seus impulsos. Em minhas atividades como educador, sempre repeti a mim mesmo esse princípio: permitir a luta, impedir o abuso.
Esse é um dos núcleos do cuidado: proteger a potência da criança sem transformar essa potência em tirania. Quando o adulto falha nisso, a criança cresce acreditando que sua vontade é lei, e daí surgem os adultos que explodem contra guardas de trânsito, garçons, vizinhos, colegas, o mundo inteiro… como se cada interação fosse um ataque pessoal.
Byung-Chul Han diria que vivemos na “sociedade do cansaço”, onde cada um está tão encapsulado em sua própria subjetividade que qualquer atrito se torna intolerável. Não porque o outro seja realmente ameaçador, mas porque eu já não sei lidar com o fato de que o outro não sou eu.
QUANDO O EGO VIRA TIRANO.
Impressiona-me observar como algumas pessoas parecem levar tudo para o plano pessoal. O guarda de trânsito pede para mudar o carro de lugar: pronto, é uma ofensa. O professor corrige a tarefa: é humilhação. O colega dá feedback: é perseguição. Não há relação, só reação.
Kierkegaard talvez dissesse que é a angústia do eu que não suporta o espelho do outro. Arendt diria que é a incapacidade de pensar, porque pensar, para ela, é sempre dialogar com a alteridade dentro de nós.
Esse egocentrismo adulto é, no fundo, um resíduo infantil não elaborado. Uma criança que não aprendeu a reconhecer a legitimidade do outro cresce acreditando que toda negação é desrespeito, toda fronteira é agressão, toda orientação é ataque. Assim, o outro se torna inimigo antes mesmo de ser pessoa.
Mas o problema não é a irritação, e sim a tirania, aquela posição subjetiva de quem acredita que o mundo deve funcionar exatamente como ele deseja. E tirania, diz Hannah Arendt, nasce sempre da incapacidade de reconhecer o outro como um sujeito equivalente. Para isso, preciso me cuidar. Porque, se não cuido da minha própria saúde emocional, a mínima frustração se torna tempestade.
A EDUCAÇÃO COMO OBRA COLETIVA.
Aprendi com Piaget, e mais tarde com Vygotsky, que ninguém cresce sozinho. O desenvolvimento humano é sempre uma construção compartilhada; nasce da interação, do conflito produtivo, da frustração equilibrada, do apoio que não infantiliza e da autonomia que não abandona.
Nas comunidades antigas, penso nas tribos africanas, nos clãs hebraicos, nas aldeias gregas, a educação era responsabilidade de todos. Era a paideia grega: o cultivo integral do ser humano como tarefa da pólis (cidade-estado na Grécia Antiga, uma comunidade política autônoma). Nelas, não existia essa ideia moderna de “não toque no meu filho”. A criança pertencia à comunidade, e a comunidade a moldava porque a educação era um fenômeno societário e uma responsabilidade coletiva.
Certa vez, vi uma criança à beira de um lago profundo, num dos parques que costumava frequentar. A criança estava numa situação perigosa. Então aproximei-me e lhe pedi que afastasse daquele lugar. Nesse momento, sua mãe, questionou-me com muita indignação: – “Quem é você para corrigir meu filho?”
Respondi-lhe, com doçura e firmeza: “Sou um adulto. Sou parte da sociedade que o acolhe. Sou alguém que deseja que ele cresça íntegro. Isso me dá responsabilidade, não autoridade absoluta, mas responsabilidade partilhada.”
Jesus também ensinava isso quando dizia: “Somos sal da terra e luz do mundo”. O sal não tempera só a si mesmo; a luz não ilumina só o próprio corpo. Ser pessoa é ser para o outro.
QUANDO NÃO É COMIGO, MAS ME AFETA.
Há um equívoco recorrente na vida adulta: achar que tudo é pessoal.
Quando alguém me pede algo num espaço público, como estacionar melhor, falar mais baixo, reorganizar uma fila, isso raramente é sobre mim. Trata-se do funcionamento comunitário, das regras tácitas que sustentam a vida em sociedade.
Aristóteles dizia que somos “animais políticos”, seres da comunidade. Mas esquecemos isso, e entramos na lógica da bolha individual: ninguém pode me dizer nada, ninguém pode corrigir nada, ninguém pode discordar. É a morte do diálogo, e, como lembraria Platão, sem diálogo, a verdade morre sufocada no ruído dos egos. Do ponto de vista prático, reconheço que muitos conflitos não são conflitos. São apenas tensões de convivência interpretadas por uma subjetividade ferida e por uma percepção relacional equivocada. Isso porque não nos é ensinado na vida moderna, o papel sócio-comunitário da educação para os relacionamentos na coletividade.
UMA HISTÓRIA PESSOAL: O CARRO, A CRIANÇA E O VIZINHO.
Guardo com nitidez uma cena de muitos anos atrás. Fui morar numa rua muito tranquila, onde também residia um vizinho conhecido pelos demais como “problemático”: brigas, discussões, agressividades eram comuns entre ele e os demais. Eu não o conhecia; apenas ouvia rumores.
Um dia, ao entrar na rua, sua filha pequena a atravessou correndo diante do meu carro. Consegui frear a tempo. Nada aconteceu. Ela nem percebeu. Mas o pai viu e veio até mim aos berros: “Seu idiota! Você não sabe dirigir?”, esbravejou. Eu poderia ter respondido no mesmo tom. Talvez fosse o “justo”. Talvez fosse o “lógico”. Mas, naquele instante, alguma sabedoria silenciosa, talvez uma lembrança de Tillich sobre a coragem de ser, falou dentro de mim. Abaixei o vidro e lhe disse: – “Você tem razão. Me desculpe. Como posso reparar isso? Me perdoe. Eu deveria ter entrado ainda mais devagar.” Algo desarmou naquele homem. A tirania evaporou-se. Ele murmurou: “Essas crianças são distraídas… A gente vive preocupado. Desculpe meu jeito.”
Ao chegar em casa, encontrei sua filha brincando alegremente com a minha.
Os anos seguintes nos tornaram amigos. Hoje rimos daquele dia, como quem reconhece que a paz começa sempre no coração de alguém que decidiu desarmar o próprio ego. Frankl está certo: entre o estímulo e a resposta há um espaço, e nesse espaço reside a nossa liberdade de construir o novo.
CUIDAR DE MIM PARA PODER CUIDAR DO OUTRO.
É impossível cuidar de outra pessoa quando estou tomado pela minha própria confusão interna. Se estou exausto, ansioso, ferido, irritado ou inseguro, tudo o que o outro fizer se tornará uma ameaça, um incômodo, um desafio à minha identidade.
C.S. Lewis observou que “as dores não transformadas se transformam em dores transmitidas”. Aquilo que não cuido em mim, despejo no outro. Por isso, cuidar de mim não é egoísmo; é responsabilidade. É o que Fromm chamaria de amor maduro, aquele que nasce da auto-aceitação e se estende como oferta, não como carência.
Jesus dizia: “Ame ao próximo como a si mesmo.” Essa conjunção como, ensina-me que a medida do amor ao próximo é a forma como cuido da minha própria interioridade. Nietzsche, do outro lado do espectro, também dizia que precisamos aprender a nos tornar quem somos, e isso implica não projetar nossa sombra sobre o outro.
Cuidar de mim é reconhecer minhas fases, meus limites, minhas dores, minha história. É entender como funciono psicológica, emocional e cognitivamente. É perceber quais padrões me ajudam e quais me sabotam. Quando faço isso, torno-me capaz de ver o outro com mais nitidez, não como ameaça, mas como presença.
ENTRE O EU E O TU: A REGIÃO DO ENCONTRO.
Martin Buber dizia que o verdadeiro humano nasce quando digo “Tu”. Quando reconheço o outro como sujeito e não como objeto. Piaget, sem usar essa linguagem, também afirmava que crescemos quando percebemos que o outro possui legitimidade equivalente à minha. Rubem, vai mais além ao dizer, que encontrar o outro é uma prática ética, afetiva e poética de acolhimento, escuta e diálogo, que nos humaniza e nos liberta do isolamento. Em “A Arte do Encontro” ele diz: “Encontrar o outro é aceitar que ele é um mistério inesgotável. Ao aproximarmos dele, devemos fazê-lo com curiosidade poética, não com vontade de dominar ou explicar totalmente sua essência. O outro é também parte do inefável”.
A partir dessa compreensão, nasce aquilo que chamo de Espaço Reflexivo da Aprendizagem, descrito em outro ensaio; esse espaço entre eu e você que não é meu nem seu, mas que só existe porque ambos decidimos construí-la. Ali, nossas subjetividades trocam, nossas narrativas se aproximam, nossos pontos cegos se iluminam. É nesse espaço que se forma a Inteligência Relacional.
O CUIDADO COMO FUNDAMENTO DA INTELIGÊNCIA RELACIONAL
Tenho sido aprendiz ao longo de décadas de trabalho e convivência humana. Não tem sido fácil sê-lo porque tenho um natureza “mais rebelde” do que gosto de reconhecer. Mas, a duras penas, tenho entendido que cuidar de mim é a porta de entrada para cuidar do outro. E cuidar do outro é a prova prática de que cuidei bem de mim. E esse tem sido meu desafio porque “cuidar do outro” é o alicerce de todo o meu trabalho.
Quando me percebo como processo, em constante desenvolvimento, com estágios, limites, potencialidades, reconheço que o outro também é processo. Ele também está crescendo, errando, aprendendo. Ele também passa por fases, como ensinou Piaget. Ele também luta contra sombras internas, como diria Jung. Ele também carrega dores que não conheço, como lembraria Frankl. Ele também é filho de uma história, como explicaria Ricoeur.
A Inteligência Relacional nasce exatamente dessa consciência dupla: Eu sou legítimo. O outro é igualmente legítimo. A relação é o espaço onde nossas legitimidades se encontram, negociam e amadurecem. Quando ultrapasso meus limites, transformo minha dor em tirania e destruo esse espaço. Quando reconheço a legitimidade do outro e regulo minha presença, fortaleço o espaço. Quando amadureço, permito que a relação amadureça.
Por isso digo, e repito, que cuidar de mim é um ato político, ético, espiritual e filosófico. É aquilo que Sócrates chamaria de “cuidar da alma”. É aquilo que Jesus chamaria de “o cumprimento da lei”. É aquilo que Arendt chamaria de “preservar o mundo comum”. É aquilo que a psicologia chamaria de autorregulação. É aquilo que minha própria experiência chama de caminho para a paz.
E cuidar do outro? Cuidar do outro é reconhecer que ele também é parte constitutiva da minha existência. Como disse Buber, “o Eu só existe a partir do Tu”. Somos coautores do mundo que compartilhamos. E, nesse mundo, o cuidado funciona como a argamassa invisível que mantém as estruturas relacionais em pé.
Cuide de você. Cuide do outro. Porque a vida não é batalha de egos, mas construção de encontros. E toda relação inteligente começa quando aprendemos a honrar essa construção.
Reflitam em paz!




