SABER SEM CONHECER

Um dos meus programas favoritos é, numa cafeteria charmosa, tomar café, ler, conversar com amigos. Pois é. Dia desses estava fazendo isso quando numa mesa ao lado sentaram-se algumas pessoas. O papo rolou solto. Mas, de repente, algo começo a chamar minha atenção. Os assuntos tratados eram os mais variáveis possíveis. Falaram de física quântica a massa de pizza, passando por politica internacional, psicologia profunda, previsão do tempo e, é claro, sobre os perigos da inteligência artificial. Fiquei boquiaberto. Ou aquelas pessoas eram enciclopédias ambulantes, ou falastrões. Fica a dúvida. Mas, ocorreu-me um questionamento legítimo (pelo menos me parece legítimo). É possível saber sem conhecer? O fato é que, a partir dessa experiência, comecei a “escutar as conversas alheias”. Impressiona-me o fato de que todo mundo tem opinião certa e segura sobre todas as coisas. Aliás, não me lembro de ter escutado alguém dizer: isso eu não sei, vou estudar o assunto, meu conhecimento sobre tal coisa é irrisório; enfim, as pessoas sabem sem conhecer, dão palpite em tudo sem ter a menor ideia do que estão falando. Por isso, resolvi escrever esse texto para propor uma reflexão sobre a questão do saber e do conhecer. A questão é intrigante e pode ser abordada de diferentes maneiras, dependendo das nuances conceituais atribuídas a esses termos. Vou começar por ai.

 

Se considerarmos o “saber” como a posse de informações factuais ou proposicionais, então é difícil argumentar que alguém possa saber algo sem, de alguma forma, estar familiarizado com esse algo, ou seja, sem conhecer. Afinal, o conhecimento está intrinsecamente ligado à compreensão e à familiaridade com o objeto de conhecimento. Nesse sentido só se conhece aquilo que se sabe, e só se sabe aquilo que se experiencializa ou se estuda na perspectiva de se estabelecer uma relação plausível entre causas e efeitos ou consequências. Se isso não ocorre e mesmo assim julga-se saber, o que decorre é um falatório sem sentido e com “pitadas” de arrogância.

 

Em um sentido mais abstrato ou filosófico, o “conhecer” poderia existir em um estado potencial, latente ou subconsciente, sem necessariamente se manifestar na consciência ou na experiência consciente. Por exemplo, alguém poderia ter adquirido conhecimento de algo sem estar totalmente consciente desse conhecimento ou sem ter tido a oportunidade de aplicá-lo ou expressá-lo em um contexto específico. Além disso, em certos contextos, como a linguagem cotidiana, pode-se usar o termo “conhecer” de forma mais ampla para se referir a uma crença ou convicção sobre algo, mesmo que essa crença não seja baseada em um saber completo ou profundo do assunto. Nesse sentido, alguém poderia “conhecer” algo de maneira superficial ou intuitiva, sem necessariamente “saber” plenamente os detalhes ou nuances do assunto. Mas aí, o conhecer é, de fato, apenas uma percepção ou (vou ser generoso), uma opinião que pode ser expressa, obviamente, apenas nessa categoria e não reivindicando para si, status de verdade.

 

 

Na história da reflexão filosófica sobre a diferença (e possibilidade) entre saber e conhecer encontramos grandes pensadores de peso. Platão, Aristóteles, Kant, Hegel, enfim, gente que discutiu o assunto sobre os mais diferentes vieses, mas que concordam em um ponto. Expressar o saber, sem conhecer é estupidez. E expressar o conhecer sem o saber é devaneio. Embora esses termos possam ser usados de forma intercambiável no discurso cotidiano, na filosofia, eles assumem significados distintos e profundamente significativos. Assim é que os filósofos recomendam a busca do conhecimento como expressão de sabedoria e o interesse em aprender a partir da declaração de ignorância, com um método oportuno.

 

Meus colegas de cafeteria não precisam ser experts em todos os temas apresentados naquele encontro, mas poderiam adotar a busca de informações ou o compartilhamento delas como uma forma de tornar a conversa mais agradável, sem o uso das prerrogativas “do sujeito pressuposto saber”.

 

Aprofundando um pouco mais. Saber é frequentemente associado ao domínio de informações factuais ou proposicionais. É o entendimento de algo específico, com uma base sólida de evidências ou razões. Por exemplo, saber que a Terra orbita o Sol ou que Paris é a capital da França são exemplos de conhecimento factual. O saber está intimamente ligado à capacidade de descrever, explicar e aplicar esse conhecimento de maneira coerente e consistente. Conhecer transcende a mera posse de informações. Conhecer implica uma conexão mais profunda e pessoal com o objeto de conhecimento. Envolve uma compreensão não apenas cognitiva, mas também experiencial e emocional. Conhecer uma pessoa, uma obra de arte ou um conceito abstrato implica uma familiaridade íntima que vai além do simples saber dos fatos associados a eles. Por exemplo, alguém pode saber muito sobre a teoria musical, mas só quem a conhece profundamente pode compor uma sinfonia emocionante ou pode sensibilizar-se com alguma música. Por isso, quando alguém me diz que não gosta de arte (p.ex.), escuto ela dizer que nada sabe sobre arte. Isso porque conquanto o conhecimento transcenda a mera informação, não pode prescindir do saber.

 

Platão, na Teoria das Formas[1], sugere que o conhecimento verdadeiro transcende o mundo sensível e está relacionado à contemplação das ideias eternas e imutáveis. Nesse contexto, conhecer é acessar a essência ou a realidade subjacente de algo, enquanto saber é reconhecer a sua manifestação no mundo empírico.  Por exemplo: toda a percepção que tenho de verdade, a partir da experiência pessoal, remete a uma “realidade universal chamada de verdade”, o mesmo acontecendo com qualquer outra distinção.

 

Kant também segue esse caminho na distinção entre saber e conhecer. Para ele, o conhecimento é uma síntese entre o que percebemos (fenômeno) e as estruturas cognitivas inatas da mente (noumeno). Assim, o que sabemos é limitado ao que podemos perceber e compreender através do filtro das nossas capacidades cognitivas, decorrentes de nossas vivências, experiências e aprendizagens. Portanto, enquanto saber se concentra no conhecimento objetivo e factual, conhecer abarca uma compreensão mais profunda e subjetiva, incorporando experiência, intuição e conexão pessoal com o objeto de conhecimento. Ambos os aspectos são fundamentais e imprescindíveis para uma compreensão completa e enriquecedora do mundo ao nosso redor ou daquilo que “chamamos de realidade.

 

Além das análises filosóficas, as perspectivas da sociologia e da psicologia acrescentam camadas adicionais à distinção entre saber e conhecer. Na sociologia, a diferenciação se dá à luz das estruturas sociais e das dinâmicas de poder. O saber muitas vezes é associado ao conhecimento institucionalizado e legitimado pela sociedade, como o conhecimento científico ou acadêmico. Por outro lado, o conhecer pode envolver formas mais subjetivas de percepção e sensibilidade que são moldadas pela experiência pessoal e pela posição social. Por exemplo, as pessoas podem conhecer a realidade da pobreza não apenas por meio de estatísticas ou teorias sociológicas, mas também através de suas próprias experiências vividas ou na experiência de suas comunidades. No entanto, conhecer a partir da experiência revela apenas o modo como “eu” percebo tal experiência. Na relação social tal percepção deve ser “conferida” com outras percepções para se produzir um entendimento que explique, da forma mais ampla possível,  o fenômeno. Isso porque uma coisa são os fatos e outra coisa são as interpretações pessoais que fazemos deles. Rafael Echeverria  tem uma frase que deixa esse conceito mais claro. Diz ele: “as coisas não são como são; são apenas o modo como as percebemos ou interpretamos. Vivemos em mundos interpretativos”.  Anaïs Nin, escritora francesa (1903-1977), acrescenta que “não vemos as coisas como são: vemos como somos”. Ora, isso é fundamental para se entender que qualquer forma de expressão do conhecimento sem o saber, está fadado a um jogo de poder ou a uma busca do saber. Novamente, meus colegas de cafeteria estavam mais próximos de uma “disputa de poder” do que, propriamente, conversando.

 

Na psicologia, a distinção entre saber e conhecer é entendida nos termos dos processos cognitivos e emocionais. O saber está relacionado à cognição consciente, à memória e ao pensamento racional, enquanto o conhecer pode envolver aspectos mais emocionais, intuitivos e subconscientes da mente. Por exemplo, alguém pode saber que um determinado alimento é saudável, mas ainda assim escolher comer algo prejudicial devido a impulsos emocionais ou hábitos arraigados. A psicologia destaca a importância do conhecimento tácito, ou seja, o conhecimento implícito e não articulado que influencia nossas ações e decisões. Esse tipo de conhecimento muitas vezes não pode ser totalmente descrito ou explicado verbalmente, mas é essencial para nossa compreensão do mundo e nossa interação com ele. Por exemplo, um artesão pode conhecer intuitivamente como esculpir uma peça de madeira, mesmo que não consiga explicar completamente seu processo mental. Mas, mesmo assim, se quer se tornar um artesão excelente, deve saber as melhores práticas da arte de esculpir. Daí a necessidade do estudo, da pesquisa, da prática experimental, enfim, da ciência. Qual a consequência disso? Veja, você pode filosofar sem ter estudado filosofia; você pode tocar um instrumento “de ouvido” sem ter estudado. Mas se quer ser um “virtuose” em qualquer coisa, saiba o que existe, pratique o que está disponível; e expresse seu saber com o conhecimento decorrente de sua subjetividade e sensibilidade.

 

Então, entendo que a distinção entre saber e conhecer é ainda mais complexa do que simplesmente uma questão de informação factual versus compreensão subjetiva. Envolve também questões de poder, experiência social, processos cognitivos e emocionais, e formas de conhecimento que podem ser tanto conscientes quanto inconscientes.

 

Não sei quanto a vocês, mas para mim, essas reflexões enriquecem nossa compreensão da natureza multifacetada do conhecimento humano e, se as temos, nossas conversas, ainda que de entretenimento, tornar-se-ão muito mais ricas. Veja, por exemplo, o que a Inteligência Relacional fala sobre o tema.

 

A perspectiva da Inteligência Relacional oferece insights valiosos sobre a distinção entre saber e conhecer, especialmente ao considerar a diversidade cultural e as diferentes formas de conhecimento que existem ao redor do mundo. Ao adotar o conceito de “etnocentrismo”, oriundo da antropologia, ela entende como diferentes culturas podem ter visões distintas sobre o que é considerado conhecimento legítimo e verdadeiro. O saber, muitas vezes, é moldado por sistemas de crenças e valores culturais específicos, o que pode levar a diferentes entendimentos sobre o que é considerado válido e verdadeiro em diferentes contextos sociais. Por exemplo, em algumas culturas, o conhecimento era (a ainda é), é transmitido oralmente de geração em geração, e a sabedoria é valorizada não apenas pelo que é dito, mas também pela maneira como é transmitida, incorporando histórias, mitos e rituais. Nesses casos, o conhecimento está enraizado na tradição e na prática cultural, e pode não se alinhar necessariamente com os padrões da validação científica, o que, de fato, não é necessariamente errado.

 

Além disso, a Inteligência Relacional entende a importância do “conhecimento local”, das “distinções pessoais” ou da “sabedoria prática” – conhecimentos específicos de determinados contextos culturais – como essenciais para a sobrevivência e adaptação em ambientes específicos. Por exemplo, as habilidades de navegação dos povos polinésios, os métodos agrícolas tradicionais de comunidades rurais, a sobrevivência na selva dos povos indígenas, o modo de vida dos esquimós, etc, podem ser considerados formas valiosas de conhecimento que não se enquadram nas categorias tradicionais de saber acadêmico. Isso legitima e amplia nossa compreensão da distinção entre saber e conhecer, destacando a importância da cultura, da tradição e da prática social na formação e na validação do conhecimento humano, mostrando e reconhecendo que diferentes sociedades e grupos sociais podem valorizar formas de conhecimento que vão além do conhecimento institucionalizado ou científico, enriquecendo assim nossa compreensão da diversidade e da complexidade do conhecimento humano. Esse princípio é o que valida as “tribos” urbanas, seus hábitos e valores.

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Mas, vamos avançar. Do ponto de vista prático, como se pode diferenciar o saber do conhecer? Seguem alguns critérios que estou anotando sobre isso. Certamente existem outros, mas, por ora, fiquemos com esses.

 

  1. As Fontes de Informações: O saber muitas vezes é adquirido através de fontes reconhecidas e institucionalizadas, como livros acadêmicos, artigos científicos, cursos formais, entre outros. Por outro lado, o conhecer pode surgir de experiências pessoais, interações sociais, observações diretas do ambiente e da vida cotidiana. No entanto, ambos são faces da mesma moeda.
  2. A Natureza do Conhecimento: O saber tende a ser mais objetivo e factual, baseado em evidências verificáveis e teorias estabelecidas. Em contraste, o conhecer pode ser mais subjetivo e situacional, influenciado por valores pessoais, emoções e contextos culturais. Juntos promovem segurança. Separados promovem disputas de poder. Conversar na perspectiva da unidade desses dois elementos promovem sabedoria.
  3. Aplicações Práticas: O saber muitas vezes se traduz em habilidades técnicas específicas ou na capacidade de resolver problemas de maneira sistemática e lógica. O conhecer, por outro lado, pode se manifestar em insights intuitivos, compreensão interpessoal e adaptação criativa a novas situações. No entanto, o que for proposto a partir os insights e intuições dever ser, a seu tempo, submetido ao saber como método.
  4. Validação social: O saber é frequentemente validado por comunidades acadêmicas, científicas ou profissionais, que seguem critérios rigorosos de revisão e avaliação. O conhecer pode ser validado através do reconhecimento e respeito de outros membros da comunidade ou grupo social, sem necessariamente passar pelos mesmos processos formais de validação.
  5. Tempo e experiência: O saber muitas vezes é construído ao longo do tempo, através do estudo e da acumulação de conhecimento sistemático. O conhecer pode se desenvolver através de experiências vividas e interações contínuas com o mundo ao nosso redor, sendo moldado pela reflexão e pela prática ao longo da vida.

 

Por fim, é importante reconhecer que, na prática, o saber e o conhecer frequentemente se entrelaçam e se complementam. Ambos são aspectos essenciais da nossa compreensão do mundo e do nosso lugar nele, e cada um oferece perspectivas únicas que enriquecem nossa visão global, embora dissociados promovam perspectivas muito limitadas. Meus colegas de cafeteria devem continuar conversando e celebrando a amizade. Mas deve-se tomar cuidado para não se pressupor conhecer o que não se sabe. Mas, a máxima que se deve considerar é: nosso conhecimento refere-se a fragmentos, nossa visão da “realidade” é particular e é na conversa interativa que busca o saber que desenvolvemos o conhecer. Que aprendamos uns com os outros.

 

 

E você, gostou?

Faz sentido essa reflexão?

Vamos conversar sobre o tema.

 

Reflitam em paz!

Homero Reis©.

Curitiba/PR, fevereiro/2024.

 

[1] Costuma-se chamar “teoria das Formas” de Platão a crença difusa nos diálogos platônicos de que para determinado conjunto de objetos tangíveis que compartilham de uma mesma qualidade, essa qualidade comum tem existência real configurando-se como uma Forma Inteligível da qual participando estes objetos recebem as características que apresentam; por exemplo, além das muitas coisas belas visíveis existe a beleza em si da qual participando as coisas belas são belas”; conforme afirma o Prof. Dr. José Lourenço Pereira da Silva

 

 

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