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A partir da aprendizagem organizacional e suas implicações relacionais, quero prosseguir com o objetivo de expor um modelo de gestão, que nos permita compreender melhor os processos de negócios de uma organização: como funcionam, quais são os componentes, como são estabelecidas as relações entre as partes.
O modelo que proponho nos conduz a entender a dinâmica organizacional, de modo a permitir intervir nela para redesenhar suas funções, incrementando, não só a efetividade, como também a capacidade de criar e agregar valor ao negócio.
O centro da interpretação é simples. Sustento que todo o processo de negócios é um sistema de operações que possui, pelo menos, duas dimensões. Uma delas é a dimensão da atividade, que se refere às tarefas “físicas” e individuais, realizadas pelos colaboradores nos respectivos cargos e conhecidas como “descrição profissiográfica”. A outra é a dimensão da coordenação, que se refere ao aspecto relacional do trabalho, no qual se escutam os requerimentos dos clientes (internos e externos), se negociam as condições de um produto ou serviço e se avaliam os resultados. Diante disso, afirmo que toda atividade organizacional, individual ou coletiva, é precedida por uma conversação de coordenação, cuja qualidade dos resultados será determinada pela qualidade da conversação.
Grande parte dos problemas e resultados deficientes, encontrados em nossas organizações, tem origem na cegueira que as metodologias e modelos de gestão tradicionais têm sobre esse aspecto da conversa de coordenação. O modelo de gestão tradicional, baseado na gestão por hierarquia de comando e controle, é um ponto cego na formação das equipes de alto desempenho.
Drucker[1] escreveu que o principal problema a ser enfrentado pela atual economia é o incremento da produtividade do trabalhador não manual. Ou seja, o trabalhador do conhecimento. A noção de trabalho manual – ponto central da Revolução Industrial e principal conceito gerencial da Administração Clássica – agregou importantes valores na construção da sociedade moderna. Aliás, tais distinções foram responsáveis diretas pela criação de riqueza, a partir dos primeiros anos do século XX até a última década.
Atualmente, o trabalhador manual representa pouco mais que 50% da força de produção nas sociedades mais desenvolvidas, e a tendência desse percentual é cair velozmente nos próximos anos. Isso se dá em função da tecnologia de produção, cujo princípio é a automação de todos os processos rotineiros de trabalho. A informática e a robótica se encarregarão de fazer com que as “coisas” sejam feitas. Por outro lado, cada vez mais, os insumos de produção se tornam commodities, inclusive, o conhecimento. O único elemento que, de fato, representa agregação de valor é a pessoa.
As tecnologias da informação estão criando uma nova ordem para a indústria e o comércio, em escala mundial. Todas as atividades econômicas e sociais da civilização humana estão sendo transformadas, redesenhadas e reinventadas a partir do impacto gerado pelas infinitas possibilidades que a tecnologia da informação tem trazido para a experiência humana. Isso se dá não apenas nas práticas sociais, mas também na forma como temos aprendido a pensar sobre nossas possibilidades. Hoje, é praticamente impossível dizer que alguma coisa é impossível ou afirmar que alguma coisa não será realizada. Tudo agora é uma questão de tempo e vontade. Parece que descobrimos o veio mestre da construção do conhecimento. Essas mudanças propostas e as possibilidades advindas prometem expandir, de maneira nunca antes vista, os horizontes da vida humana em todos os domínios – saúde, segurança, comunicação, entretenimento, lazer, cultura, etc.
Não cabem dúvidas de que as novas tecnologias afetaram e afetarão a forma de vida dos seres humanos e constituirão um fenômeno tão rápido e profundo, que determinará, provavelmente, um lugar na história das revoluções sócio-econômicas que deram origem à sociedade moderna.
Grandes mudanças definem para o mundo empresarial uma era de competência impecável. É cada vez menor o espaço para erros e retrabalhos. A exigência corporativa tem sido a de fazer mais com menores custos, aumentando, assim, as exigências sobre as pessoas. As margens de lucro estão se estreitando e exigindo capacidade extra de todos em todos os domínios da atividade humana. Do pondo de vista macro, estamos vendo uma contínua e gradual desregulamentação global, um forte crescimento do poder dos clientes e uma sofisticação dos consumidores. Já não se tem na qualidade um diferencial, é um pressuposto. O ciclo dos negócios se torna menor e os riscos maiores. A conveniência e a satisfação estão sendo levadas ao máximo e a rotatividade de organizações no cenário econômico nunca foi tão dramática. A economia dá sinais de falência profunda, exigindo um novo paradigma que inclua outros valores para além da questão financeira.
Algumas cifras refletem claramente as mudanças que estamos vivendo nesse momento. Vejamos:
As mudanças são regra, não exceção. Essa frase tem se tornado cada vez mais verdadeira, embora muitos ainda não compreendam o impacto no dia-a-dia. As atuais formas de lidar com essa mudança rápida e profunda têm sido insuficientes para responder a um mundo de transformações, que está diante dos gestores a todo o momento. Estávamos habituados a processos graduais e, agora, temos que conviver com processos de ruptura. As empresas enfrentam não só o desafio de sobreviver, como o de aproveitar a oportunidade de participar, de forma ativa, da criação e configuração de um mundo radicalmente novo. As empresas de classe mundial começam a entender que não poderão ser líderes no século XXI se não participarem ativa e inovadoramente da construção do próprio século XXI. Essa visão vem sendo abordada de diferentes formas, particularmente desde 1990. Quero comentar algumas dessas visões.
Em 1990, Michael Hammer escreveu na Harvard Business Review um artigo que ficou famoso pela contundência com que tratava as transformações gerenciais. Chamava-se Trabalhando com a Reengenharia. A partir daí, surgiu um movimento que levou o nome de reengenharia por advogar uma maneira radical de abordar o fenômeno organizacional e o uso das tecnologias da informação nos processos de produção e gestão.
A reengenharia é definida por seu autor como “a reconceituação fundamental e o redesenho radical dos processos de negócios para se obter uma melhora dramática nas medidas de desempenho, tais como custo, qualidade, serviço e tempo”. Desde então, a reengenharia se converteu em um referencial para muitas organizações de médio e grande porte. Nos últimos 10 anos, foi aplicada em muitas empresas em todo o mundo, embora os resultados não tenham sido aqueles preconizados por Hammer.
A consultoria estratégica Artur D’Little (HBR – 2004) fez um estudo sobre o reflexo da reengenharia nas empresas que adotaram essa ferramenta, nos três últimos anos da década de 90. Segundo ela, foram gastos nesse período, nos Estados Unidos, cerca de US$ 52 milhões em reengenharia, dos quais US$ 40 milhões foram investidos em tecnologia da informação. O resultado mostra que 70% desse valor converteram-se em projetos com fracasso absoluto e os 30% restantes obtiveram resultados medianos, que não compensavam os custos. Esses dados revelam o árduo trabalho realizado dentro das organizações e os resultados obtidos, nem sempre bons.
A noção de olhar uma empresa como processo foi promovida pelo movimento da reengenharia. Tal noção deu um golpe mortal no enfoque tradicional, que entendia as empresas por meio de suas funções verticais e, portanto, centrado na visão hierárquica e de capatazia. Esse enfoque obrigava os gestores a resolver assuntos que estavam abaixo de suas estruturas de comando e transformava os colaboradores em pessoal operativo com a obrigação de executar ordens.
A visão de processos, pelo contrário, viu a empresa como um sistema horizontal, que ultrapassava as fronteiras funcionais delimitadas no organograma funcional e hierárquico. Se dermos uma olhada nos processos, poderemos ver que o fluxo do trabalho ultrapassa as barreiras funcionais e cria uma relação de interdependência entre os diversos segmentos da organização.
Essa visão, que transforma e muda radicalmente a visão tradicional, está sustentada por conceitos que têm raízes mais profundas nos princípios da engenharia industrial, fundada no início do século XX, com o nascimento da organização científica do trabalho, a partir de F. Taylor.
Na tradição da engenharia industrial, um processo é visto como um conjunto de atividades logicamente relacionadas, que tomam insumos e os transformam em produtos. Esse conceito tem sido atualizado para ser aplicado nos domínios dos bens e serviços, bem como para se entender as atividades e mecanismos de controle que as regulam.
Esse enfoque de processo, usado com distintas variações nos projetos de reengenharia, tem demonstrado ser insuficiente para desenhar atividades de negócios que mudam rapidamente. Em situações, nas quais as transformações mercadológicas, tecnológicas, políticas e sociais ocorrem com alta velocidade, tal conceito se mostra pouco efetivo. Isso porque a velocidade da mudança é maior que a capacidade de manter os processos atualizados, fazendo com que os benefícios, prometidos pela reengenharia, não se transformem em valor econômico para as empresas.
Penso que o modelo tradicional de ver e modelar os processos de trabalho como uma cadeia de atividades não nos permite ver a coordenação de ações entre distintos observadores, como um sistema caórdico[2] que se auto-renova. Esse cartesianismo clássico se constitui na grande debilidade da reengenharia. Isso porque o comportamento organizacional não é previsível a um nível de controle que nos permita concatená-lo ao ponto de ser “lógico” no sentido cartesiano. Tudo leva a crer que a organização está mais conformada ao modelo biológico que ao modelo matemático.
O modelo que proponho adota novos paradigmas de funcionamento. Primeiro, deixa de olhar a empresa como uma organização para vê-la como um organismo. Isso muda toda a lógica das operações. Os organismos são capacitados a processos cada vez mais rápidos de adaptação. Aqueles que fazem isso como maior velocidade e que descobrem oportunidades mais cedo, certamente, estarão na frente dos demais. Segundo, a plataforma dos organismos é a vida e não a matemática. Isso amplia infinitamente as possibilidades de operação de um determinado negócio. Do ponto de vista biológico, existem infinitas formas de se construir um sistema auto-sustentável. Ou seja, as leis biológicas são muito mais “flexíveis” que as matemáticas. Terceiro, por ser centrado na biologia, o modelo de coordenação é pouco previsível, assim como o são as pessoas. E, aqui, temos o diferencial básico do modelo: pessoas. As organizações caórdicas entendem que o único diferencial que se tem, de fato, são as pessoas. O resto são commodities.
Mas, para abordar efetivamente o desafio de melhorar os processos, com vistas a incrementar o rendimento das empresas, quero reafirmar o sentido comum de como o trabalho é entendido. Com efeito, a concepção tradicional nos remete a uma dimensão de atividade individual. Ou seja, quando falamos de trabalho, nos reportamos basicamente a um conjunto de ações individuais que acometem as pessoas para criar valor a um dado processo.
Creio, particularmente, que há pelo menos outra dimensão do trabalho que tem importância similar ou maior que a das ações individuais: a coordenação. O dicionário define coordenação como a arte de trabalhar junto e harmoniosamente. Existem outras conceituações[3] mais completas, que explicam a coordenação como um modelo de enfoque holístico para gerenciar a interdependência entre atividades, atores, recursos e responsabilidades em uma organização complexa ou em um processo, que busca um fim ou um objetivo comum. Isso significa que a coordenação sempre nos remete ao trabalho com um processo de relacionamento entre pessoas. Se adotarmos a linguagem da Teoria dos Sistemas, podemos dizer que a tarefa nos remete a um componente do sistema, enquanto a coordenação nos fala da relação entre os componentes. É dizer que a coordenação, como um fenômeno relacional, existe em um sistema de trabalho ou processos de negócios.
A coordenação, como fenômeno relacional, é o que permite aos participantes de um sistema de trabalho sincronizar as próprias atividades, cooperar e colaborar entre si, escutar efetivamente os requerimentos do cliente e assumir responsabilidades para com eles. É a coordenação que dá liberdade para negociar, aceitar compromissos, dar e receber feedback sobre as relações com os diversos clientes envolvidos nos processos. Nela, podemos avaliar a impecabilidade das ações e dos resultados dos processos para aprender com eles. Tudo nos remete a uma relação entre clientes e fornecedores, como distintos observadores legítimos, autônomos, livres e diferentes. Enfim, tudo nos remete às distinções ontológicas das redes conversacionais de alto desempenho.
Existem vários enfoques ou teorias que abordam a dimensão da coordenação. Esse tema tem adquirido grande relevância nos últimos anos, tanto que o Massachusetts Institute of Technology (MIT) criou, em meados da década de 1990, o Centre for Coordination Science (CCS), cujo objetivo é estudar os processos de trabalho e de resultados, como fomentos à aprendizagem ontológica da gestão.
Embora vários enfoques caracterizem, hoje, toda a aprendizagem das redes conversacionais sobre a coordenação, uma questão está presente em todos os estudos sobre esse tema, como fenômeno gerencial ontológico: a conceituação precisa (tanto quanto é possível) sobre o que é a coordenação. Na teoria clássica sobre gestão, o tema é reduzido, por muitos autores, à comunicação. “Coordenar nada mais é do que comunicar-se. Coordenar bem é comunicar-se com efetividade” – dizem. Tudo bem, mas o fenômeno da coordenação é bem distinto disso. É possível cuidar de todos os aspectos da comunicação, tais como identificar bem o emissor, o receptor, checar o canal (ou o meio), ter clareza dos signos e dos símbolos, e mesmo assim, não produzir uma boa coordenação. A coordenação vai mais além da comunicação, pois inclui os aspectos humanos relacionais das interpretações e da compreensão da realidade por distintos observadores. Na base da coordenação, estão pessoas com diferentes histórias, interesses e intenções.
Outro enfoque muito difundido afirma que a coordenação é o manejo da gestão da dependência entre as diversas atividades de um processo. Essa teoria afirma que o problema central a ser resolvido sobre a questão da coordenação é a capacidade de relacionar, adequadamente, as tarefas, identificar restrições ou pré-requisitos, sincronizar a simultaneidade das atividades, compartilhar recursos e estabelecer a comunicação efetiva entre os diversos níveis envolvidos no trabalho. Tal afirmação parece-me excessivamente linear. Na prática, as coisas não são assim. Antes sobrem influências ingovernáveis em todos os domínios.
Assim, ofereço uma concepção diferente: distingo a coordenação como um juízo de afetividade de uma ação coletiva, em que participam duas ou mais pessoas em distintas atividades e com diferentes tecnologias, na busca de um objetivo comum, de acordo com critérios e padrões previamente acertados. Isso que dizer que a coordenação pressupõe aos atores envolvidos no processo serem capazes de escutar com efetividade, indagar de modo a obter respostas adequadas, fazer afirmações e declarações sobre o que desejam, estabelecer pedidos e ofertas (eventualmente reclamações), de modo claro e preciso, baseados na confiança. Enfim, a coordenação é o modo objetivo e claro de avaliar uma rede conversacional como paradigma da efetividade na gestão.
As falhas na coordenação levam pessoas e empresas a realizar tarefas que muitas vezes não agregam valor ao cliente. Levam também a aceitar compromissos que não podem ser cumpridos, a não escutar corretamente os requerimentos do cliente, a ter uma baixa taxa de cooperação e colaboração entre os membros da equipe. Uma coordenação com baixa efetividade tem muitos efeitos negativos no rendimento das organizações, porque compromete a construção de resultados e eleva, consideravelmente, os custos dos processos.
Essa distinção me conduz a sustentar que a coordenação é um conceito central na abordagem efetiva do problema da produtividade dos “trabalhadores não manuais”. Da mesma forma, o uso estratégico das tecnologias da informação como suporte aos processos de trabalho. Sustento que a aplicação das ferramentas da reengenharia nos tem dado poucos resultados, em relação àqueles prometidos, por centrar-se excessivamente no redesenho das atividades e muito pouco no redesenho da coordenação de ações que subjaz ao dito processo.
A coordenação, enquanto modelo ontológico de ação, tem impacto em quatro aspectos-chave de uma empresa (organização) de alto desempenho. Em primeiro lugar: a criação da satisfação no cliente depende da capacidade gerencial da organização de escutar, por meio de seus membros, as condições em que os pedidos e ofertas são feitos. Nesse aspecto, somente uma rede conversacional efetiva é capaz de estabelecer e cumprir prioridades, ter compromisso com a impecabilidade, envolver-se corporativamente, de modo integral[4], e diferenciar-se pela qualidade dos relacionamentos negociais.
Em segundo lugar: a eficiência do processo depende, diretamente, da capacidade da equipe de realizar as atividades adequadas para o cliente da primeira vez. Isso significa que equipes de alto desempenho têm a redução a zero do retrabalho como um dos critérios de avaliação de eficácia.
Em terceiro lugar: a coordenação se torna cada vez mais efetiva, na medida em que a aprendizagem organizacional estabelece o aumento da capacidade da empresa em melhorar continuamente práticas e competências. É sempre possível fazer melhor aquilo que já se faz bem. Essa distinção está ligada à prática do feedback em todos os níveis, ao processo de avaliação ao término de toda e qualquer atividade, produção ou entrega, e ao ajustamento constante de condutas entre os distintos observadores.
Em quarto lugar: a coordenação incide na criação de valor econômico para a empresa, por meio da agregação de clientes satisfeitos (fidelização), pela manutenção de uma equipe motivada, pela preocupação constante com a sustentabilidade e pela geração de imagem e de práticas organizacionais socialmente éticas e inovadoras.
A noção de coordenação, que acabo de enunciar, leva-me a redimensionar o conceito tradicional de processos de negócios. O enfoque teórico, que tenho usado, desenvolve-se a partir dos postulados de Fernando Flores[5] e se baseia, fundamentalmente, nos seguintes postulados.
Primeiro: considero a nova visão dos processos de negócios para os padrões organizacionais de alto desempenho. Afirmo que os processos de negócios de uma organização seguem os padrões de uma rede conversacional de alto desempenho (RCAD). A definição dos níveis de excelência dessa rede depende do nível de profundidade das relações entre os diversos gestores-coaches. Esse nível de exigência contrasta com o enfoque tradicional de ver o trabalho como uma cadeia de valor ou cadeia linear de procedimentos, entrelaçada logicamente. A nova visão dos negócios, como redes conversacionais de alto desempenho (RCAD), implica na instalação de uma cultura caórdica[6], não linear. A propriedade básica do padrão da RCAD é a circularidade e a não linearidade. Em particular, uma mensagem no padrão RCAD pode viajar por caminhos cíclicos e por inúmeros níveis de retroalimentação. Levando-se em conta que as RCAD podem gerar novas distinções, para além daquelas construídas pelos observadores que dela participam, também é fato que tais redes são capazes de se regularem e ter uma enorme capacidade de aprendizagem para melhoria continua.
Segundo: relacionado com o fenômeno da comunicação e da linguagem. Além de ver a comunicação (transmissão de mensagens), a linguagem é uma ferramenta para descrever o mundo, dando-lhe uma capacidade ativa e geradora, como nos sinaliza Rafael Echeverria[7], dizendo que “a linguagem não só nos permite falar sobre as coisas; também faz com que as coisas aconteçam”. Portanto, a linguagem não só transmite mensagens como sinaliza aos distintos observadores que “através da linguagem fazemos com que as coisas ocorram”. Com a linguagem, participamos ativamente na criação do futuro. Digo, inclusive, que a linguagem é determinante do tipo de futuro que queremos para nós e para nossas organizações. Ora, a linguagem se manifesta na forma como as pessoas conversam nas organizações, de onde se conclui que a arquitetura e o futuro corporativo estão condicionados ao modo como percebemos a linguagem usada na organização.
Essa nova visão, que dá à linguagem o caráter gerador, como diz o próprio Echeverría, modifica o sentido de como as atividades organizacionais se relacionam no processo gerencial. Essa mudança de caráter torna a liderança corporativa um espaço muito mais horizontal, reduzindo a burocracia e fazendo como que as respostas sejam mais rápidas e em melhor qualidade. Sustento que a linguagem, antes que a própria informação, é o “gatilho” relacional das atividades em um negócio qualquer.
Terceiro: refere-se ao conceito das conversações para a ação (coordenação). Uma conversação para a ação usa o caráter gerador da linguagem como distinção para fazer com que algo ocorra, para que as coisas sejam feitas, para desenhar uma ação futura. Por exemplo, quando Denise solicita uma reunião com Cristiane, trata-se de uma conversação para a ação em sua forma mais simples. Ou seja, um pedido e uma promessa de cumprimento. Nessa conversa, são produzidas duas coisas: uma ação futura (a reunião) e um compromisso para realizá-la. Ora, no sentido mais amplo, a aceitação por Cristiane do convite de Denise, dispara nela (Cristiane) conversas privadas que mobilizam sua emocionalidade e a predispõe, de uma forma específica, para a reunião. Assim, processos conversacionais contínuos vão levar a organização a ter nas “conversas privadas” possibilidades mais adequadas ao desempenho, por eliminarem (ou reduzirem significativamente) o estado de medo e de desconfiança, tão comuns em organizações convencionais.
Esses três postulados me levam a defender um conceito mais adequado para as organizações de alto desempenho. Defino um processo de negócio como uma rede conversacional de coordenação de ações que se executam de forma cíclica, interativa e permanente, para gerar um produto, bem ou serviço que satisfaça as condições estabelecidas pelos clientes (interno e/ou externo), mantendo alto nível de participação, comunicação, respeito e criatividade entre todos os atores do processo.
Esse novo modelo é um desafio ontológico. Fazê-lo acontecer é construir o futuro que se chama “agora”.
Paz e Vida Longa!
Homero Reis, M.Sc.
A Distinção da Coordenação apresentada por Homero Reis não é apenas um modelo teórico — é um convite à transformação da forma como líderes e gestores concebem o trabalho em equipe. Quando compreendemos que toda atividade organizacional começa com uma conversa de coordenação, abrimos espaço para a construção de equipes verdadeiramente impecáveis.
Quer aprofundar a compreensão sobre inteligência relacional e liderança de alto desempenho? Confira outros artigos de Homero Reis:
[1] Peter Drucker – O novo problema da produtividade, HBR, 1990.
[2] Caórdico adj [port caos + ordem] – 1.Comportamento de qualquer organismo, organização ou sistema autogovernado que combine harmoniosamente características de ordem e caos. 2.Disposto de maneira a não ser dominado nem pelo caos nem pela ordem. 3.Característica dos princípios organizadores fundamentais da evolução e da natureza.
Ver também o texto “A Revoada Caórdica” de Homero Reis, disponível me www.hrconsultoria.com.br
[3] Definições de coordenação na internet: Coordenação diz respeito à liderança da organização de um sistema qualquer; o ato ou efeito de coordenar ou de estar coordenado; ordem ou relacionamento apropriados; combinação ou interação harmoniosas, como por exemplo em funções ou partes de mecanismos ou sistemas; Possibilidade de conectar ações entre si …
[4] Veja os princípios caórdicos – participação intensa, comunicação intensa, respeito mútuo e criatividade.
[5] CARLOS FERNANDO FLORES LABRA – engenheiro Civil Industrial, doutor em Filosofia da Linguagem, político e empresário emprendedor. Senador da República do Chile, eleito para o período 2002- 2010. Membro da Comissão de Economia, Ciência, Tecnología e Innovación do Senado chileno. Diretor da Fundação País Digital, fundador e presidente da fundação Mercator. Homem multifacetário, é reconhecido como um dos mais importantes pensadores da atualidade no âmbito da gestão e da ação emprendedora. É COACH Ontológico Organizacional e um dos idealizadores dessa ferramenta.
[6] Hock; Dee – Nascimento da Era Caórdica – Cultrix – Amana-key, São Paulo, SP, 1999. – Caórdico adj [port caos + ordem] – Comportamento de qualquer organismo, organização ou sistema autogovernado que combine harmoniosamente características de ordem e caos. 2.Disposto de maneira a não ser dominado nem pelo caos nem pela ordem. 3.Característica dos princípios organizadores fundamentais da evolução e da natureza.
[7] Echeverria, R – Ontologia del Lingaje – Dolmen, Santiago, Chile, 1998.


Recentemente, uma cena inusitada dominou os noticiários de tecnologia: durante um encontro global, os grandes chefões das gigantes de Inteligência Artificial — incluindo nomes de peso como Sam Altman (OpenAI), Sundar Pichai (Google/Alphabet), Satya Nadella (Microsoft), Mark Zuckerberg (Meta) e Elon Musk (xAI) — simplesmente se recusaram a dar as mãos para a tradicional foto em grupo. O constrangimento foi visível. A tentativa de demonstrar união falhou publicamente.
Como estudioso do comportamento humano, não pude deixar de analisar esse episódio sob a ótica da Inteligência Relacional (IR), tema que desenvolvo há mais de três décadas em meus livros da Coleção Inteligência Relacional e no Método QR.
Esses líderes possuem um QI (Quociente de Inteligência) formidável. São mentes brilhantes que estão desenhando o futuro da humanidade através de algoritmos, machine learning e redes neurais complexas. No entanto, a cena expõe um déficit preocupante em outro quociente vital para a nossa espécie: o QR (Quociente Relacional).
O que a recusa daquele simples gesto físico revela sobre o mundo corporativo que estamos construindo?
Na Teoria da Inteligência Relacional, entendemos que grande parte do adoecimento corporativo moderno vem da superficialidade. Na “sociedade líquida” em que vivemos — conceito cunhado pelo sociólogo Zygmunt Bauman —, os relacionamentos muitas vezes se tornam puramente instrumentais: você vale o que você entrega. Quando líderes de mercado se encontram apenas como competidores vorazes, não existe o que chamamos de ERA (Espaço Reflexivo da Aprendizagem). Sem esse espaço de confiança, tentar forçar um gesto de união (dar as mãos) torna-se uma hipocrisia insustentável. O corpo, que não mente, simplesmente trava.
Dois dos pilares da Inteligência Relacional são a Ressonância Límbica (a nossa capacidade humana de entrar em sintonia com a emoção do outro, de ter empatia) e o Acoplamento (a habilidade de nos complementarmos, unindo forças para um bem maior). A atitude dos CEOs é a materialização do oposto disso: o Distanciamento. Quando a Força Excêntrica (o modo como nos expressamos para o mundo) está sob pressão e vemos o “Outro” apenas como uma ameaça ou um rival a ser batido, a nossa resposta natural é o isolamento e a esquiva. Esse padrão está diretamente ligado ao que abordamos nos nossos programas de palestras corporativas.
Como destaco em minhas reflexões sobre “A Gestação do Futuro”, estamos criando máquinas cada vez mais capazes de simular conversas, emoções e empatia, enquanto nós, humanos, estamos nos comportando cada vez mais como máquinas frias, programadas apenas para competir e bater metas. Não por acaso, pesquisas recentes do Harvard Business Review reforçam que a vantagem competitiva do futuro será híbrida: humanos com IA substituirão humanos sem IA — mas apenas quem souber cultivar conexões humanas genuínas liderará essa transição.
Como nos alertou Chaplin de forma magistral em O Grande Ditador: “Não sois máquinas! Homens é que sois!” Se os criadores das tecnologias que vão reger o amanhã não conseguem dar as mãos, reconhecer a legitimidade do outro e estabelecer um mínimo de respeito colaborativo, que tipo de futuro estamos gestando?
Não precisamos ser amigos íntimos de nossos concorrentes ou concordar com tudo o que nossos colegas dizem. A Inteligência Relacional não exige que sejamos iguais. Ela exige que saibamos lidar com a diferença sem que ela seja vista como uma ameaça mortal. Requer a maturidade de sentar à mesa (ou posar para uma foto) compreendendo que, apesar da concorrência, o respeito e o reconhecimento da humanidade do outro são inegociáveis. Esse é o cerne do que ensino em Gente Inteligente Se Olha no Espelho.
Olhe para a sua equipe hoje: vocês estão genuinamente de mãos dadas, construindo um propósito juntos através do Acoplamento, ou estão apenas dividindo o mesmo sinal de Wi-Fi em um ambiente de Distanciamento e competição silenciosa? Se precisar de apoio para diagnosticar esse cenário, conheça nosso processo de Mapear e Diagnosticar e os artigos sobre Gestão e Liderança.
O futuro pertencerá àqueles que souberem usar a tecnologia, sim. Mas a liderança do futuro pertencerá àqueles que nunca perderem a capacidade de se conectar humanamente.
E você, o que achou dessa atitude dos líderes de IA? Faz sentido para o momento que vivemos? Vamos conversar nos comentários! 👇
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Por que que as pessoas discutem? Por que que, às vezes, as conversas parecem um rodopiar sem fim, sem chegar a lugar nenhum? Por que que, muitas vezes, as nossas relações dialogais são infrutíferas? Estas são questões que eu quero discutir com você nesse bate-papo que teremos nos próximos minutos. A complexidade das conversas e os resultados. Fique comigo.
René Descartes, século XVI, ele disse uma frase, uma vez, que é muito significativa para os dias de hoje. Ele dizia assim, defina os termos que as discussões cessam. O que se queria dizer com isso, numa proposta racionalista, é que a partir do momento que todos os interlocutores sabem exatamente o significado das palavras e das coisas que estão utilizando, muito provavelmente as discussões cessam, porque não há muita discordância, necessariamente, a partir do momento em que as pessoas conhecem sobre aquilo que se está falando.
E aí você passa a conversar ou a refletir mais efetivamente sobre a construção dos conteúdos do que, muito provavelmente, pela construção da significância prévia dos conteúdos. Então, quando René Descartes dizia isso, ele dizia, olha, defina os termos que as discussões cessam. Por outro lado, você descobre que, ao longo da história da humanidade, conversar tem sido um grande desafio na questão da expressão dos nossos valores e das nossas percepções de realidade e do modo como a gente percebe as coisas e gera assunto para que as relações aconteçam e se mantenham.
Então, existe um nível conversacional que eu diria que é um nível de entretenimento, que são aquelas conversas que você tem tomando uma cerveja, conversando com os amigos, rindo, que são conversas muito pouco estruturadas, mas que são conversas cujo grande objetivo é trazer em si mesmas o entretenimento relacional. Se você pensar bem, destas conversas de entretenimento, você se recorda muito pouco. Elas são extremamente efêmeras.
Então, são conversas que você as tem tomando uma cerveja, batendo um papo com os amigos na praia, falando sobre qualquer coisa, mas quando essas conversas, quando aquele setting se conclui, muito provavelmente o conteúdo dessas conversas se dissipa. Você não fica gastando a sua mente em preservar essas conversas e elas são, eu as chamo de conversas de entretenimento. Existe um outro tipo de conversa que a gente chama de conversas instrutivas ou conversas instrumentais.
São aquelas conversas que a gente tem que efetivamente determinam relações operacionais dialógicas que estão acontecendo entre aqueles atores. Então, por exemplo, você diz para um garoto, olha, coma de boca fechada, sente-se de uma forma mais adequada, por favor, cumprimente as pessoas, me traga aquele relatório, enfim. São conversas que você tem aonde você instrumentaliza, orienta as pessoas para fazerem determinadas coisas e aí, nestas conversas instrumentais, elas estão envolvidas, os pedidos estão envolvidos, as ofertas estão envolvidas, as coordenações de ações no sentido genérico das coisas estão envolvidas, as reclamações.
Então nós temos um grupo de conversas que a gente chama de conversas de entretenimento, nós temos um conjunto de conversas de coordenação de ações que são conversas para que as coisas sejam feitas, tanto do ponto de vista da minha oferta para o mundo, quanto no sentido dos pedidos e reclamações que faço, etc, que é um segundo tipo de conversa, mas tem um terceiro tipo de conversa que eu chamo de conversas nutritivas, que são as conversas que fazem com que a gente reflita sobre a natureza da nossa vida, sobre a nossa cosmovisão, sobre os nossos princípios éticos, os nossos princípios morais, os nossos princípios de valores e que regem a nossa aprendizagem enquanto membros de uma sociedade organizada e complexa na qual a gente tem que conviver com um pouco dessas disparidades entre as pessoas. E é nessas conversas nutritivas que muitas vezes a gente se exaspera, a gente discute naquele sentido de que dois diferentes observadores estão falando a mesma coisa e por não conseguirem escutar efetivamente um ao outro eles acabam discutindo sobre a mesma coisa e passam horas a fio numa dialogação, essa palavra não existe, vamos criá-la agora, numa dialogação complexa e que acaba não chegando em lugar nenhum. Então são três grandes níveis em que estas conversas acontecem.
A primeira delas é o que eu chamo de percepção estética, a segunda é o que eu chamo de gosto artístico e a terceira é o que eu chamo de distinções de mercado. Então percepção estética, gosto artístico e distinções de mercado. Por que que esses três elementos são importantes para nós orientarmos uma conversa nutritiva? Porque pelo seguinte, veja, quando eu falo de percepção estética eu estou me referindo ao conjunto de informações que o observador tem e não só da informação, mas como da sua formação acerca do objeto ao qual ele está se referindo.
Então imagine que por percepção estética é a capacidade que o observador tem de conhecer de forma efetiva as normas, os critérios, os paradigmas daquela sua área de conhecimento, de valor ou da qual ele está discutindo. Por exemplo, quando eu falo de percepção estética na arte eu estou falando da capacidade que aquele observador tem de conhecer a técnica artística utilizada, de conhecer a história da arte, de conhecer, enfim, de ter informação e conhecimento sobre os elementos que constituem aquele objeto sobre o qual ele está se falando. Então isso nós chamamos de percepção estética.
Um segundo elemento, quando eu falo de gosto artístico, eu estou falando se aquilo que você observa você gosta ou não gosta. E essa questão do gosto artístico ela é de foro íntimo. Então eu gosto ou não gosto de determinadas coisas por razões subjetivas da minha própria concepção enquanto ser humano.
E o terceiro elemento, que são as dimensões de mercado, eu começo a perceber o impacto que aquele objeto, que aquele tema que nós estamos discutindo tem na sociedade organizada como um tal. Então a isso chamamos dimensões de mercado. Deixe-me dar um exemplo a você que explica de uma forma mais ilustrativa todo esse conjunto.
Eu estava no Louvre, em Paris, certa vez agora, na questão de um ano e meio, e observando num dia de extrema sorte, o Louvre, pasmem, estava vazio nesse dia, e eu estava observando Monalisa, já o tinha feito por diversas outras ocasiões, e nesse dia como o Louvre estava vazio eu me dediquei a observar um pouco mais as pessoas que adentravam ao salão onde está a Monalisa para observar a Monalisa. Nisso aparece uma família, cinco pessoas, o pai, a mãe e três filhos. Eles andam por um caminho que estava lá previamente determinado e dão de cara com a Monalisa.
O pai, em alto e bom som, vira para a esposa e para os três filhos e diz textualmente assim, isto é Monalisa? Para mim não vale nada, não daria dez dólares por ela. Que decepção. E sai.
E a mãe, a esposa e os filhos o acompanham após essa declaração bombástica. O que aconteceu aí? Vamos analisar este fenômeno a partir desses três elementos que eu lhes apresentei. Percepção estética, gosto artístico e dimensão de mercado.
Primeiro, este pai, este senhor, pode não ter nenhuma percepção estética. Ou seja, ele não conhece da arte, ele não conhece de técnica de pintura, ele não conhece absolutamente nada sobre os elementos artísticos que estão presentes no quadro da Monalisa. Portanto, ele não tem nenhuma distinção daquilo que chamamos de percepção estética.
O segundo elemento é o gosto artístico. Ele não gosta daquele quadro. Ou seja, ele olha para aquele quadro e o quadro não desperta nele nenhuma emoção, a não ser a emoção do desgosto.
Eu não gosto daquilo que vejo, ele não me provoca absolutamente nada. Mas, no que diz respeito às distinções de mercado, este senhor não pode ignorar o fato de que ele está diante de uma obra que mobiliza milhões de pessoas ao longo do mundo, que gastam milhões de dinheiros todos os dias, ao longo de centenas de anos, para ver esse quadro. Quer dizer, um dos quadros mais visitados na história da humanidade é Monalisa de Leonardo Da Vinci.
Quer dizer, veja, eu não tenho percepção estética, o meu gosto artístico não tem nenhuma relação com aquela coisa, mas eu não posso negar o fato de que milhões de pessoas estão observando aquele quadro. Ou seja, no mínimo, eu deveria ter a humildade de perguntar o seguinte, o que que esse quadro contém que mobiliza milhões de dólares, milhares de pessoas, há centenas de anos, e que faz parte da grande curiosidade humana? Então veja, este é um exemplo interessantíssimo para a gente poder caminhar no entendimento desses processos. Agora, olha só, vamos continuar ainda com o exemplo da Monalisa e o caso do pai desgostoso de vê-la.
Eu posso agora ser um outro observador que conheço tudo sobre arte, eu entendo toda a técnica pictórica, eu entendo toda a técnica plástica, eu estudei Leonardo Da Vinci, eu estudei a estética da arte, eu estudei a história da arte, eu entendi os processos pelos quais a Monalisa foi feita, eu entendi tudo sobre aquela arte. Então eu conheço a obra, eu olho para a obra e sei dizer se ela é bem pintada, se ela é mal pintada, se ela é uma boa obra, se ela é… Enfim, eu tenho essas distinções. Olhando para a Monalisa, aí eu construo um juízo estético sobre ela.
Eu digo, olha, é um quadro bem estruturado, bem pintado, a técnica apuradíssima. Então veja, eu estou falando da minha percepção estética. Quando eu vou para o gosto artístico, eu posso, apesar disso, olhar e dizer, mesmo assim, eu não gosto da Monalisa.
Ou seja, eu sei como ela foi pintada, sei da importância, sei disso, sei daquilo, mas não gosto. Perfeito? E além disso, eu reconheço que existe uma permeação mercadológica, portanto a permeação no mercado da imagem da Monalisa, que é uma segunda abordagem. A terceira abordagem é, eu conheço a arte e, por causa disso, eu admiro a Monalisa, gosto da Monalisa, eu olho para ela e gosto do que vejo e tenho a percepção de mercado de que ela é uma obra mundialmente reconhecida.
Então, se você usa esses três critérios, isso facilita muito a sua discussão sobre qualquer coisa. Você quer ver um outro exemplo muito contextualizado para a nossa cultura? E aí eu digo respeito a mim mesmo. Por exemplo, eu não tenho nenhuma filiação com times de futebol.
Eu não gosto de futebol. Mas eu não posso negar que o futebol é uma das expressões da nossa cultura. Então, quando eu vejo centenas de milhares de pessoas reunidos num estágio vendo um Fla-Flu, repare só, eu reconheço a importância dessa partida flamenco-feminense porque existe uma paixão nacional que mobiliza milhões de pessoas em torno desse tema chamado futebol.
Então, eu não posso negar que essa partida Fla-Flu seja uma partida significativa. Então, isso são distinções de mercado. Segundo, no que diz respeito à percepção, ao gosto artístico, eu não gosto de futebol.
Então, não há nada, embora seja importante, que me atraia no futebol. E eu não tenho nenhuma percepção estética. Quer dizer, eu não conheço futebol.
Eu não saberia dizer se as pessoas gostam ou não gostam, jogam ou não jogam bem. Então, veja você, esse exemplo que eu dei para o futebol pode nos levar a quase todas as outras reflexões. Então, por exemplo, recentemente eu vi, presenciei num determinado local dois casais tendo uma acirrada discussão sobre questões religiosas que envolviam a bíblia e outros elementos religiosos aí presentes.
E a discussão estava acalorada. E eu comecei a analisar isso sob a perspectiva desses três pontos. Então, veja só.
Primeiro, eu tenho uma percepção, eu tenho uma distinções estéticas, percepções estéticas, acerca daquele fenômeno religioso que eu estou estudando. Eu conheço, por exemplo, religião. Estudei religião, estudei as manifestações religiosas, portanto eu olho para o cristianismo, para o budismo, para… ou seja, para qualquer expressão religiosa.
Por hipótese, imagine que eu conheça teológica e filosoficamente essas religiões. Eu opto agora por ser, digamos, presbiteriano ou ser evangélico. Repare, eu conheço, tenho percepções estéticas e tenho gosto artístico por uma determinada manifestação religiosa.
E não posso negar que todas as outras percepções religiosas, mesmo aquelas que eu não gosto, tem uma grande representatividade de mercado. Então, reconhecer que determinada religião tem representatividade de mercado não significa desqualificar uma para qualificar outra ou simplesmente validar uma ou validar outra. Não é essa a questão.
É eu entender que nesse universo mundial de sete bilhões, quase sete bilhões e meio de pessoas, existem manifestações de mercado para quase todas as apreciações religiosas que existem. Portanto, mercadologicamente elas têm adeptos e eu tenho que reconhecer isso. Isso é um fato.
Isso não depende de mim, portanto não cabe aqui o julgamento de certo ou errado. Na questão do gosto artístico, também não, porque veja, eu gosto de certas coisas e não gosto de certas coisas. Quer dizer, ainda do ponto de vista religioso existem certas liturgias, ou seja, modos de fazer, que eu gosto.
Outros modos de fazer eu não gosto. E aqui também não se estabelece a condição de nenhum julgamento de valor, porque é uma questão pessoal. Aqui é uma questão mercadológica, aqui é uma questão pessoal.
E nesse primeiro elemento, no que diz respeito às construções daquilo que eu estou chamando de percepções estéticas, aqui diz respeito ao grau de conhecimento que eu tenho daquela coisa. Também diz respeito ao volume de informação e de formação que eu tenho. O que me faz dizer que eu conheço tal coisa, mas não conheço outra coisa e eu aceito aquilo que eu conheço.
Entende? Então veja, percepção estética, gosto artístico e distinções de mercado, se eu tenho essas três coisas claramente na minha forma de percepção da realidade, você vai descobrir que as minhas conversas se tornam muito mais nutritivas. Então, por exemplo, muitas vezes o meu gosto artístico não é favorável a determinada distinção de mercado porque me falta a percepção estética. E então muitas vezes uma pessoa, quando me diz assim, ô Mero, eu não gosto de música clássica, gosto artístico, esta pessoa o faz porque ela não tem formação estética suficiente para poder fazer um juízo sobre isso.
E o que a gente tem percebido nas conversas nutritivas é que muitas vezes o não gostar é decorrência da ignorância da percepção estética. Então o que a gente faz? Quando eu tenho essa distinção na minha cabeça e eu descubro que eu não gosto de alguma coisa, eu preciso primeiro perguntar o seguinte, eu não gosto porque eu sou ignorante com relação à percepção estética ou eu não gosto porque conhecendo a percepção estética, eu agora não opto por aquilo. E agora não posso negar em nenhum momento de que existe volume mercadológico suficiente.
Recentemente eu estava em Las Vegas, ali no Rock in Rio em Las Vegas, eu andava lá no último dia, fui lá assistir o encerramento daquele show maravilhoso. A produção do show é fantástica a mobilização do show é fantástica. Então milhares de pessoas estavam ali.
Eu não posso negar as distinções de mercado. Agora se você me pergunta se eu gosto daquele tipo de música, não. Agora eu conheço essa, conheço, conheço.
Eu conheço rock and roll, eu conheço samba, eu conheço a estrutura da música, eu conheço a história da música, eu conheço essa história da arte, eu conheço um pouco de onde vem a música clássica, como é que ela se fundamentou nos seus diversos matizes, nos seus diversos atores. Então veja, embora conheça eu não gosto, mas não posso negar a sua representatividade mercadológica. Isso faz com que agora a discussão ou ela se dá no limite de coisas que eu não conheço sobre o rock que se vier a conhecer eu passo a gostar ou a conversa agora transita simplesmente pelo fato de gostar ou não gostar e isso não me leva a lugar nenhum.
Portanto se eu estou interessado em mudar o meu gosto eu preciso aprofundar o meu conhecimento, mas mesmo assim aprofundando o conhecimento isso não é garantia suficiente para que eu mude o meu gostar. Em outras palavras, eu posso aprofundar indefinidamente o meu conhecimento sobre determinada coisa e continuar não gostando dela embora não possa negar a sua realidade mercada. Então eu quero deixar isso com você como uma forma de você refletir sobre a natureza das suas conversas nutritivas para que elas se tornem conversas que te nutrem e não conversas que lhe desgastem.
Resumindo, todas as pessoas podem gostar ou não, isso é um direito que você tem e não cabe sobre isso juízo meu. Eu não posso lhe forçar a gostar ou não gostar de coisa alguma. Agora você deve ser responsável por ter formação e informação acerca das coisas que você conversa, porque se você tem formação e informação sobre as coisas que você conversa você me ajuda naquilo que eu não sei e isso pode alterar o meu gosto artístico.
Agora lembre-se, essa alteração é de foro íntimo. Em terceiro lugar, eu preciso perceber que existe uma representatividade de mercado. Essa representatividade é infinitamente maior do que aquilo que eu sei ou não sei, do que aquilo que eu gosto ou não gosto.
É uma circunstância de mercado. Esses tempos atrás eu conversava com um amigo sobre esse tema e nós discutimos o seguinte, e eu refletia com ele sobre o seguinte aspecto. Por exemplo, existe um conjunto de músicas que hoje se veicula no mercado nacional que são músicas que eu não gosto, portanto fazem parte daquele segundo elemento do gosto artístico, eu simplesmente não gosto.
Conheço aquelas músicas, conheço. Há uma representatividade de mercado? Sim, vendem-se milhões de discos daquelas músicas que eu não gosto. Agora, quando você submete essas músicas aos critérios técnicos de elaboração de uma música enquanto arte, você descobre que elas deixam muito a desejar do ponto de vista da construção estética.
Ou seja, elas não atendem aos princípios normativos da estética, mas são populares. Isso as invalida de hipótese alguma, mas as tira da qualificação de uma música um pouco mais elaborada, de uma música um pouco mais erudita. Aí, isso você diz respeito, por exemplo, à literatura.
Portanto, eu diria para você, não existem livros ruins e livros bons. Existem livros mal escritos e livros bem escritos. Então, nessa questão dos livros, que não existem livros bons nem ruins, livros mal escritos e bem escritos, isso diz respeito a quase todos os assuntos com os quais nós lidamos no nosso dia a dia.
Qual é o desafio nosso? É você perceber uma coisa bem interessante. Existem coisas populares que são esteticamente ruins. E existem pessoas que gostam ou não gostam destas coisas, do ponto de vista do seu gosto artístico.
Agora, existe uma norma que gerencia, que estabelece as bases para as quais as coisas sejam feitas. Então, estas coisas merecem o meu conhecimento. Então, veja, eu não posso, em nome de uma liberdade qualquer, escrever um livro cometendo erros de português porque é a minha forma de escrever.
Não. Se você quer escrever, você tem que seguir a norma. Essa norma é dinâmica com relação ao tempo, sim, mas diz respeito às chamadas percepções estéticas.
Quem é que escreve melhor, do ponto de vista da forma? Quem conhece melhor a forma? Isso é garantia de que as pessoas vão gostar? Não. Isso é garantia de que há mercado? Também não. Tanto é que existem muita coisa bem escrita que não tem representação de mercado.
Existe música bem composta, bem elaborada, bem executada e que não tem repercussão de mercado. Algumas pessoas gostam, outras não. Então, o que a gente precisa entender é que se eu tenho discernimento destas três coisas, eu consigo agora interagir com você numa conversa em que eu começo a me nutrir daquilo que você sabe que eu não sei e eu começo a lhe nutrir daquilo que eu sei que você não sabe.
E esse processo de nutrição poderá alterar o nosso gosto sobre as coisas e isso é desenvolver, isso é mudar, isso é crescer, isso é aprender. Isso vai ter repercussão de mercado para nós? Pode ser que sim, pode ser que não, mas aí já não é mais um nível de controle nosso, mas um nível de percepção da realidade. Fique com isso, percepção estética, gosto artístico, dimensões de mercado.
Essas três coisas caracterizam de forma mais efetiva as conversas nutritivas que são aquelas conversas que nos tornam melhores nas nossas relações. Fique com isso. Um beijo!

por Homero Reis
Há uma história que me acompanha há muitos anos. Eu a conto de diferentes maneiras, em contextos distintos, mas sua essência permanece a mesma. É uma história simples, quase infantil, mas quanto mais a examino, mais percebo que ela carrega em si o drama inteiro da civilização. Eu a chamo de “A História Dos Homens E Dos Lobos”.
No princípio, e esse princípio não é um ponto no tempo, mas uma condição do viver, todos os seres estavam inscritos em uma complementaridade sistêmica. Não uso essa expressão de maneira ingênua; uso-a no sentido antropológico que observa vestígios arqueológicos, pinturas rupestres, ferramentas quebradas, ossadas espalhadas, encontrados no que chamo de lixo civilizatório.
A vida, naquele momento originário, obedecia a uma lógica simples: a da interdependência. O lobo comia a ovelha quando tinha fome. O homem também fazia o mesmo. Não havia moralização da cadeia alimentar. Havia necessidade. Havia sobrevivência. Havia um equilíbrio dinâmico inscrito na própria natureza da vida e nos seus ciclos.
Mas, em algum momento, e essa é a inflexão decisiva da história, algo mudou. Não se sabe exatamente quando, nem como. Sabe-se apenas que os vestígios arqueológicos indicam que os lobos começaram a morrer de forma diferente. Não apenas por fome, doença ou disputa intraespécie; mas, com crânios perfurados, com pontas de flecha cravadas no tórax. Esses “encontrados” são sinais inequívocos de agressão deliberada feita pelos “então humanos”. Isso significa uma coisa: os homens começaram a matar os lobos não para comer, mas para impedir que eles comessem do que lhes era também de direito, por exemplo, as ovelhas, considerando o equilíbrio natural. E aqui nasce a ruptura.
Quando os homens cercaram as ovelhas e disseram “estas ovelhas são nossas”, inauguraram algo que não existia antes: a propriedade exclusiva de um bem coletivo.
Antes disso, a ovelha era parte do ecossistema. Ela não “pertencia” ao lobo, nem ao homem. Ela fazia parte de um fluxo. O lobo a comia. O homem também e a vida seguia.
Mas, ao cerca-las, impedindo que os lobos tivessem acesso a elas, o homem não apenas “as protegeu”, como reivindicou exclusividade sobre elas. E toda exclusividade precisa de defesa: a defesa gerou conflito; o conflito gerou medo; e, o medo gerou comando e controle. Eis aí o início de nossa atual forma de nos movermos no mundo. Mas, tem mais.
Aprendi, ao longo da minha trajetória refletindo sobre Inteligência Relacional, que todo sistema baseado em controle nasce do medo. E aqui vejo o nascimento do medo estruturado como cultura. Não era apenas o medo da fome. Era o medo da perda da posse. Era o início da individualização das coisas e das relações numa estrutura de poder danosa.
A partir desse momento, a ovelha deixou de ser alimento compartilhado no fluxo da vida e tornou-se capital acumulado. E onde há capital acumulado, há necessidade de vigilância e desigualdade social gritante.
Mas a história não para aí. Há um segundo momento ainda mais revelador. Se, no primeiro movimento, os homens se colocaram contra os lobos, no segundo eles se colocaram uns contra os outros.
Em algum ponto do processo, um homem, ou um grupo específico de homens, declarou:
“Estas ovelhas são minhas.” Não “nossas”. Minhas.
Essa palavra inaugura a hierarquia. Agora, não apenas os lobos estão excluídos. Outros homens também estão. E o acesso ao alimento passa a depender de uma nova condição: submissão ao proprietário: se você quiser comer, trabalhe para mim; se você quiser viver, submeta-se à minha estrutura; se quiser viver, me obedeça. Aqui nasce o que mais tarde chamaríamos de sistema econômico hierarquizado. E aqui começa a consolidação do patriarcado, sustentado por uma narrativa de poder ideologicamente construído, ou por “força física”, ou por manipulação da ignorância (esoterismo, misticismo e demais coisas semelhantes).
Quando observo esse processo, percebo que o patriarcado não é apenas uma organização social masculina. Ele é uma matriz emocional que se fundamenta em três pilares: apropriação exclusiva; controle do acesso; hierarquização baseada no medo; ideologia da diferenciação baseada em narrativas esotéricas, místicas e outras que tais, como forma de legitimar o poder.
O fato do homem está no centro do patriarcado, decorreu de uma situação interessante, que exploro em outro ensaio, “O Cálice e a Espada”.
O patriarcado transforma a interdependência em dependência unilateral. Ele substitui o fluxo pela retenção. Ele troca cooperação por dominação. Eu aprendi com Humberto Maturana, especialmente em Amar e Brincar, que existem culturas baseadas no controle e na competição, e culturas baseadas na colaboração e no cuidado. A primeira estrutura-se na negação do outro como legítimo outro. A segunda reconhece o outro como parte constitutiva do sistema. O patriarcado, na minha leitura, nasce exatamente no momento em que o outro deixa de ser legítimo. Primeiro o lobo.
Depois o homem vizinho. E, mais tarde, a mulher, quando se “descobre a relação direta entre o coito e a gravidez”. Nesse momento a gravidez deixa de ser uma “concepção divina”, para ser resultado da “semente” do homem; e, a mulher deixa de ser uma “representação da divindade” e passa a ser uma incubadora do “macho dominante”.
Em resumo: a “descoberta” da relação direta entre coito, gestação e parto, tirou da mulher a condição de sacralidade da “produção de um novo ser”, e colocou tal possibilidade “na semente masculina”. A mulher tornou-se a incubadora e o homem o “representante” dos deuses. Isso o tronou o centro do poder e, portanto, a estrutura básica do patriarcado.
Não posso deixar de relacionar essa história com os “Quatro Gigantes da Alma”, livro de Emilio Mira y López, sobre o qual tantas vezes revisitei em minha obra.
O medo, um dos gigantes, quando é guardião, nos protege. Mas quando se torna carcereiro, nos aprisiona. Aqui, o medo deixa de ser instinto de sobrevivência e passa a ser instrumento de controle social. O dono das ovelhas precisa que os outros homens temam perder o acesso ao alimento. O sistema se sustenta na escassez administrada.
E quando o medo se institucionaliza, nasce o Estado coercitivo, a economia concentrada, a guerra preventiva, a violência legitimada.
A partir da cerca das ovelhas, começa a cerca das terras. Depois a cerca das fronteiras e as cercas ideológicas. O mundo passa a ser organizado por limites impostos e defendidos pela força.
Mas a história dos homens e dos lobos não é apenas denúncia. Ela é também possibilidade. Existe outro modo de viver.
A lógica do caçador existiu de fato, e ainda existe no nosso “inconsciente coletivo”; mas, paralelamente, aparece na história da humanidade, a lógica do agricultor. Enquanto o caçador se orienta pela captura e pelo controle, o agricultor se orienta pelo cultivo e pela renovação. O agricultor não domina a terra; ele coopera com ela. Ele não acumula para excluir; ele cultiva para compartilhar.
Aqui aproximo-me daquilo que Maturana chama de cultura matrística, não no sentido biológico, mas no sentido emocional e relacional .A cultura matrística se organiza pela convivência, pela reciprocidade e pela horizontalidade. Ela não elimina o conflito, mas não o estrutura como sistema permanente. Ela não depende da exclusão para se afirmar.
Um exemplo contemporâneo disso são as olimpíadas: há competição, há disputa, há “luta”, mas não há inimizade: vencedores e vencidos, ao final, irmanam-se na celebração da vida.
Quando penso na cultura matrística, penso na experiência do brincar. No brincar não há hierarquia fixa. Há coordenação. Há alternância. Há criatividade compartilhada.
A criança que brinca não domina o brinquedo para excluir o outro. O brincar é o espaço da convivência sem medo, embora haja nele conflitos, relações de poder; mas não há inimizades. Amar, no sentido maturânico, é reconhecer o outro como legítimo outro na convivência, nessa dinâmica exploratória das relações.
Se aplico essa lente à história dos homens e dos lobos, percebo que o ponto de ruptura foi justamente a negação da legitimidade do outro. O lobo deixou de ser parte do sistema e passou a ser ameaça. O homem vizinho deixou de ser parceiro e passou a ser competidor. A mulher deixou de ser co-criadora e passou a ser subordinada. O que é ou pensa diferente, deixou de ser possibilidade para ser ameaça.
A partir da “cerca das ovelhas”, surge algo que se repete até hoje:
A história que conto é primitiva, mas sua lógica é contemporânea. Hoje as ovelhas podem ser substituídas por capital financeiro, tecnologia, informação, terras, dados; mas, a estrutura permanece: quem controla o recurso controla o acesso; quem controla o acesso controla as pessoas; quem controla as pessoas controla o que elas pensam; quem controla o que o outro pensa cria ideologias de conveniência; e quem controla as ideologias de conveniência, mantém o sistema; quem controla o sistema, controla o recurso. Assim, o ciclo se mantém.
Eu não conto essa história para romantizar o passado nem para demonizar o presente. Conto-a para revelar a matriz relacional que sustenta nossas instituições. Se o patriarcado nasceu do medo da perda, a restauração da cultura matrística exige confiança.
Confiança é um ato relacional. Ela não nasce da imposição, mas da reciprocidade. Ela exige que eu veja o outro não como ameaça ao meu estoque de ovelhas, mas como parceiro na produção de novos campos. Essa transição não é apenas estrutural. É ontológica. Ela exige mudança no modo como observamos as coisas para interferir nelas.
Se sou um observador formado pela lógica do controle, minhas ações gerarão resultados de dominação. Se torno-me um observador relacional, minhas ações produzirão cooperação.
Hoje, quando olho para o mundo, vejo homens ainda lutando contra lobos imaginários, vejo sistemas construídos sobre o medo de perder. Vejo muros sendo erguidos. Vejo discursos de exclusividade e exclusão.
Mas também vejo algo diferente surgindo, quando percebo o movimento das minorias por vez e voz. Aí vejo redes colaborativas, economias solidárias, lideranças que trocam comando por cuidado, empresas e organizações que substituem controle por confiança.
A transição da cultura patriarcal para a restauração da cultura matrística não é um retorno ao passado. É um salto evolutivo. Ela não elimina a força. Ela redireciona a força para a proteção da vida, não da posse. Ela não elimina a liderança. Ela transforma liderança em serviço.
Mas, acima de tudo, ela reconhece a igualdade de gênero com condição indispensável parra uma humanidade restaurada em sua saúde relacional. Isso porque o patriarcado não possui em si mesmo, todas as distinções relacionais para aquilo que chamamos de humano. A cultura matrística integra essas distinções.
A história dos homens e dos lobos me deixa sempre com algumas perguntas nas quais debruço minhas atenções, pesquisas e estudos:
Preocupa-me o fato de que em pleno século XXI, com tanta tecnologia e informação disponível, com tanta conexão à nossa disposição, ainda encontramos pessoas que creem que “jogar bomba na cabeça uns dos outros” é a melhor forma de resolver os dramas da humanidade. Para mim, a cultura do patriarcado sofre de uma profunda miopia relacional e a cultura matrística surge como uma possibilidade restauradora de todas as coisas que nos são genuína e essencialmente humanas.
Mas, sobretudo e para isso, precisamos nos perguntar: estamos dispostos a desmontar as cercas internas que sustentam nosso próprio patriarcado emocional? Porque, no fundo, o patriarcado não é apenas uma estrutura social externa. Ele é uma estrutura interna de controle. Por sua vez, a cultura matrística começa quando eu deixo de viver como proprietário do mundo e passo a viver como cuidador do vínculo.
Reflitam em paz!

por Homero Reis
A vida acontece diante de nós, o tempo todo. E tudo o que acontece pode nos acrescentar experiências excelentes, não para se ter respostas para as “acontecencias”, mas para se desfrutar delas de modo que a vida valha a pena ser habitada. Nesses momentos, percebo que o mundo cotidiano, aquilo que sempre esteve ali, começa a revelar uma densidade inesperada. Um gesto simples, uma cena banal, um encontro aparentemente irrelevante passa a carregar um sentido que me ultrapassa. É como se a realidade deixasse de ser apenas cenário e se tornasse protagonista no teatro da existência.
Tenho aprendido que o mundo não se cala. Somos nós que, muitas vezes, perdemos a capacidade de escuta. Quando desaceleramos, quando suspendemos a pressa de concluir, a vida começa a se apresentar de modo metafórico. E metáforas não explicam; elas revelam. Não ensinam por imposição, mas por reconhecimento.
Foi em um desses dias, em que caminhava sem objetivo prático, que me deparei com uma cena que ainda hoje me habita. Um senhor idoso e um menino jogavam xadrez em um banco de parque. Não havia tensão competitiva, nem público, nem cronômetro. Ainda assim, algo naquele encontro me convocou a permanecer. Intuí, quase imediatamente, que não se tratava apenas de um jogo. Ali estava uma narrativa condensada sobre a vida, o tempo e a arte de aprender com o outro.
O homem mais velho jogava com uma serenidade que não era lentidão, mas presença. Antes de cada movimento, percorria o tabuleiro com os olhos, como quem respeita o campo inteiro antes de interferir nele. Havia silêncio, contemplação e, sobretudo, responsabilidade. Cada peça parecia ser tocada com a consciência de que todo movimento produz consequências que não se limitam à peça movida.
O menino, por sua vez, jogava com a impetuosidade própria de quem ainda confunde intensidade com profundidade. Movia as peças rapidamente, buscava ataques diretos, desejava encerrar a partida. Era evidente sua vontade de vencer, mas também sua dificuldade de permanecer no processo. Ele ainda não havia aprendido aquilo que a vida ensina com o tempo: a beleza não está em chegar, mas em caminhar.
Ali, diante de mim, estavam dois tempos dialogando. Não em conflito, mas em aprendizagem mútua. O velho não humilhava, não corrigia em excesso, não acelerava o jogo para ensinar uma lição. Ele jogava de modo que o menino pudesse permanecer jogando. E isso, percebo hoje, é uma das formas mais sofisticadas de amor: não vencer o outro, mas sustentá-lo no jogo.
Enquanto observava, algo se organizava em mim com clareza: o xadrez é uma metáfora precisa da existência humana. O tabuleiro é a história concreta, limitada, mas cheia de possibilidades. Não é infinito, mas também não é pobre. Ele oferece caminhos, impõe limites e exige discernimento. Ninguém escolhe o tabuleiro em que nasce, mas todos são responsáveis pela forma como nos movemos nele.
Na vida, como no xadrez, não há liberdade absoluta. Há liberdade situada. Somos livres dentro de um conjunto de regras, circunstâncias, vínculos e consequências. Quem se rebela contra o tabuleiro desperdiça energia. Quem o compreende, aprende a jogar com inteligência.
E há algo ainda mais decisivo: não se joga sozinho. O outro não é um detalhe acidental da vida; é sua condição estrutural. Sem o outro, não há jogo. Não há tensão, não há aprendizagem, não há história. Na clínica, vejo isso com frequência: pessoas que sofrem não por falta de recursos, mas por terem transformado o outro em inimigo ou ameaça permanente. Jogar contra todos é um jogo que não se sustenta.
No xadrez, ambos os jogadores desejam avançar. Isso não é um defeito; é parte da dinâmica. Na vida também. O problema não está no desejo de avançar, mas na incapacidade de reconhecer que o avanço precisa considerar o campo inteiro. As regras são as mesmas para todos. Não por justiça ideal, mas por realidade. Ignorá-las não nos torna livres; apenas nos torna imprudentes.
Ao longo dos anos, acompanhei pessoas brilhantes que perderam o jogo da própria vida por não compreenderem as regras invisíveis que sustentam as relações. Queriam resultados sem processo, autoridade sem vínculo, conquista sem responsabilidade. No xadrez, isso é impossível. Na vida, cobra-se o preço mais adiante.
Cada partida tem um vencedor, mas não há vencedores permanentes. Essa talvez seja uma das lições mais difíceis de aceitar. A vida não consagra campeões eternos. Cada jogo é único. Cada ciclo ensina algo diferente. Quem vence hoje pode aprender com a derrota amanhã. Quem perde, se aprende, amadurece.
No início do jogo, todos têm as mesmas peças. Isso sempre me chamou atenção. Não há privilégios. O que diferencia um jogador do outro é a inteligência estratégica, a paciência, a leitura do campo e a capacidade de aprender com o outro. Assim também na vida. Não somos definidos apenas pelo que recebemos, mas pelo modo como organizamos o que temos.
O rei é a peça mais valiosa e, paradoxalmente, a mais frágil. Ele não avança sem proteção. Sua força está na preservação. Na clínica, vejo muitos “reis” adoecidos: pessoas que ocupam posições centrais na família ou na organização, mas que se expõem além do que deveriam, confundindo protagonismo com onipotência. O rei ensina que centralidade exige cuidado.
A rainha, por sua vez, é potência pura. Move-se em todas as direções, amplia o campo, cria possibilidades. Mas quando se afasta demais do rei, sem estratégia, torna-se vulnerável. Quantas vezes vi talentos extraordinários se perderem por não protegerem aquilo que era essencial: o vínculo, a saúde, o sentido e os afetos.
As torres representam os limites. São a casa, o território, o patrimônio simbólico e real. Ignorar limites custa caro. Pessoas que não sabem dizer “não”, que não reconhecem fronteiras emocionais, profissionais ou éticas, acabam exauridas. Respeitar limites não é empobrecer a vida; é torná-la sustentável. Não estabelecer limites e guardiães para eles é deixar-se invadir.
Os cavalos sempre me fascinaram. Pulam obstáculos, criam soluções improváveis, surpreendem. Representam nossas competências e habilidades. Mas há algo importante: quando trabalham isolados, perdem eficácia. Quando atuam juntos, tornam-se decisivos. Em muitas equipes que acompanhei, mentorias que fiz, em líderes que formei, o fracasso não se deu por falta de talento, mas por ausência de cooperação. Uma casa dividida não sustenta o jogo.
Os bispos caminham em diagonais diferentes, mas complementares. Um vê o mundo por uma perspectiva, o outro por outra. Separados, protegem pouco. Juntos, cobrem o tabuleiro inteiro. Aqui vejo a metáfora do sentido. A vida exige integração de olhares. Quando absolutizamos uma única perspectiva, empobrecemos o jogo. Quando dialogamos com o diferente, ampliamos a consciência.
E então há os peões. Simples, discretos, quase invisíveis. Mas são eles que sustentam o jogo até o final. Quantas vezes, em processos terapêuticos profundos, a mudança não aconteceu por grandes decisões, mas por pequenos gestos repetidos com fidelidade: uma conversa honesta, um limite colocado, um pedido de perdão, uma rotina reorganizada. O peão ensina que a grandeza da vida está no cotidiano das pequenas ações elegantes.
Não há vitória sem perdas. O xadrez ensina isso com clareza implacável. Algumas peças precisam ser sacrificadas. Quem tenta proteger tudo acaba paralisado. Na vida, isso se traduz em escolhas difíceis. Não podemos manter intactos o ego, a vaidade, o controle absoluto e ainda assim avançar. Muitas vezes, o sofrimento nasce da recusa em “abrir mão” daquilo que já deveria ter sido deixado para trás.
É preciso pensar, sim. Mas arriscar também é necessário. O excesso de cálculo paralisa. A ausência de risco empobrece. Cada jogo é diferente, assim como cada vida. O prazer não está apenas em vencer, mas em jogar com presença, com inteireza.
Quando aquela partida terminou, o velho e o menino se levantaram, abraçaram-se e foram embora conversando. Não celebravam um vencedor, mas o tempo compartilhado. Aquilo me pareceu uma síntese profunda: a vida não é um torneio a ser vencido, mas um encontro a ser vivido.
Ao revisitar essa metáfora hoje, à luz de todo o meu percurso intelectual e profissional, percebo com ainda mais clareza como ela se articula com aquilo que denomino Inteligência Relacional. Jogar bem a vida não é apenas mover peças com eficiência, mas reconhecer que todo movimento acontece em um campo relacional.
A Inteligência nas relações nasce da consciência de que o outro não é um obstáculo, mas parte constitutiva do jogo. Cada ação comunica algo. Cada escolha constrói ou fragiliza vínculos. Cada vitória obtida à custa da destruição do outro cobra um preço elevado no futuro.
Ser relacionalmente inteligente é saber olhar o tabuleiro inteiro, não apenas a própria peça. É compreender que nem toda jogada possível é desejável. Que nem toda vitória é ética. Que nem todo avanço é sustentável.
A verdadeira estratégia não é aquela que elimina o outro, mas a que preserva o jogo. A verdadeira conquista não é o xeque-mate, mas a continuidade da relação com dignidade. Viver, afinal, é aprender a jogar de modo que o jogo continue dentro de nós, entre nós e depois de nós.
E talvez essa seja a sabedoria mais profunda: não jogar para vencer o outro, mas para honrar o encontro.
Reflitam em paz!

Enfim as férias. Família reunida dos quatro cantos do pais, além dos que vieram de fora para comemorar mais uma virada de ano. Coisa comum para nós, pelo menos para o meu grupo de convivas. O pequeno clã é enorme, considerando os padrões das famílias pós-modernas. Mais ou menos trinta pessoas com idades variando da caçula do grupo com onze meses, até o ancião com oitenta e sete. Para acomodar a trupe, foi alugada uma casa com dez suítes, sala, cozinha, varanda, piscina e demais equipamentos de suporte, além de três carros e quatro ajudantes. Tudo isso, sem considerar o fato de que a casa fica a cem metros da praia.
Os relacionamentos começaram impulsionados pelas narrativas das novidades ocorridas durante o ano, seguidas pelas releituras das coisas antigas incluindo as velhas histórias e as mesmas piadas. Nascimentos, mortes, separações, casamentos inusitados, ascensões sociais, algumas arrogâncias, poucas mentiras, muitos exageros e a tentativa de manter esse caldeirão aquecido, mas sem explodir. Fiquei surpreso de não ter tido a ideia de vender esse formato às redes de televisão que exploram os reality shows. No nosso caso não faltava nada, a não ser as câmaras e os comentários nem sempre criativos dos âncoras.
No roteiro estavam presentes os especialistas em tudo, cujos argumentos estão sempre atrelados ao fato de “haver farta pesquisa científica sobre o tema”. Resolvemos de forma cabal todos os problemas do mundo, desde a questão ambiental até a escolha do cardápio para a próxima refeição, passando pelo aquecimento global, controle da inflação e as medidas contra a espionagem americana. Conta-se também com as “palavras de sabedoria” do ancião, cujo benefício da longevidade lhe permite dizer qualquer coisa, por mais insana que seja, e finalizar qualquer assunto com uma “máxima inquestionável”, fruto do seu farto viver. O que não é o “pressuposto saber”, heim? Por outro lado, os pais das crianças mais novas, sempre ciosos de suas responsabilidades, as enchem de conselhos, explicações filosóficas e reflexões sobre a vida. Conversas de fazer inveja a Proust e a seus discípulos, mesmo em se tratando de ouvidos ainda tão infantis. É bom acreditar que elas entendem e que guardarão para sempre aquelas instruções tão necessárias para a vida, quando se tem dois anos de idade.
Quanto se trata de férias é bom lembrar que não se está falando de ausência de trabalho. Muito pelo contrário. O trabalho é exaustivo considerando que são requeridas habilidades e competências para as quais não se prepara jamais. Eu diria que as férias em família requerem um profissionalismo enorme, além de uma hercúlea atitude empreendedora. É desafiador ser capaz de montar aquelas geringonças feitas para distrair as crianças. São parquinhos infláveis, boias, casinhas, mundos fantásticos, barracas temáticas, sem falar do verdadeiro zoológico com animais de todas as espécies e eras a conviver numa simbiose assustadora para o mais liberal dos evolucionistas de plantão. Os adultos empenhados em recuperar as ausências cotidianas fomentadas pelo excesso de trabalho e pouco tempo doméstico, mostram-se empolgados nas tarefas de entreter as crianças e divertir os colegas. Com o tempo essa energia vai se desfazendo e estratégias de escapadas e fugas começam a aparecer do nada. É bem verdade que ninguém consegue conviver muito tempo nessa dinâmica tão divertida. Estamos acostumados ao ativismo produtivo da sociedade capitalista; essa coisa de não ter obrigações, nos exaure facilmente.
Do ponto de vista da intrincada teia das relações humanas, tios e tias, agregados, correlatos e demais seres de mesma natureza, até então desconhecidos, tornam-se num passe de mágica, íntimos. Privacidade é coisa que não existe nesses contextos. Todos atuam como se fossem habitués dos mesmos espaços de vida e conhecedores dos hábitos e cheiros de cada um. Histórias de família, acrescidas de novas performances, são apresentadas e reapresentadas com muita naturalidade e algum constrangimento, como é natural em situações semelhantes. Vale lembrar que o senso de adequação não faz parte da categoria “férias em família”. Aliás, percebo cada vez mais que somos corajosos, o que nos falta é bom senso.
Aos poucos os dias vão ficando mais compridos, as horas passando mais lentamente e a certeza de que vamos precisar de umas férias das férias torna-se cada vez mais evidente. É bem verdade que se perde a noção do tempo. Não estamos acostumados ao reinado de Kairós e as oportunidades de desfrutarmos uns dos outros com autenticidade legítima é algo a aprender. Ficamos no trivial variado. Alguns tentam conversas mais ou menos densas, dividindo as argumentações filosóficas com as preocupações com crianças na piscina, anúncios de que o lanche está posto, comentários sobre a altura do som do vizinho e as decisões sobre a agenda do dia seguinte. Finalmente a dispersão vence e, conformados, cedemos à evidência de que não dá para fazer reflexões profundas em reality shows. Somos realmente divertidos.
À noite cai, as crianças dormem para alegria e deleite dos pais. Se isso não acontecesse é bem provável que teríamos uma forte tendência de achar Herodes natural, como cantava Vinícius. Abrem-se os espaços adultos. Jogos de todas as naturezas e algumas invenções “non sense”, aparecem como alternativas para o entretenimento. Junta-se a isso algum corajoso que empunha um violão que, mal tocado, inspira uma cantoria intensa, embora as letras das músicas não sejam conhecidas. Tudo bem, o refrão é suficiente: “olha a lua mansa (me leva amor); a lua descansa (me leva amor)”; mas, nessa altura já é fim de festa. Vinhos, cervejas e batidas de toda a natureza regam a noite, degustados com salames, queijos e patês diversos de sabores exóticos. Acho que no fundo todos querem ficar um pouco entorpecidos. É, as férias são mágicas. Fico encantado com nossa capacidade de fazer as coisas terem algum sentido.
Capítulo especial se faz pelas manhãs, logo após o café, servido desde o frugal café-com-leite e pão com manteiga, até o buffet estilo “hotel cinco estrelas”. O pequeno batalhão segue rumo à praia munido de um arsenal de fazer inveja ao mais audacioso estrategista militar. Acho que o desembarque na Normandia não foi tão intenso como levar as crianças ao mar. Boias, barracas, baldinhos se misturam a protetores solares, areia, lanches e cangas, além do inseparável isopor das cervejas. Isso sem falar do quadriciclo, do jet-ski, da moto e do bote para os aficionados em praticar algum esporte. Dessa vez não trouxemos o submarino. Benza Deus, a coisa é intensa. Depois de instalado o PACEF – Posto Avançado do Comando Estratégico das Férias, começam as atividades, não sem antes termos várias aulas dadas pelos especialistas presentes, sobre as melhores técnicas para manobrar os diversos equipamentos conforme suas naturezas e os avançadíssimos cuidados com a segurança e a sobrevivência nas férias. Lá vamos nós – de colete a capacete.
A gastronomia é tão farta e variada quanto pouco saudável. Ser saudável é tudo o que não se quer, nessa época. Vale lembrar que alfaces, saladinhas, peitos de peru, carnes magras grelhadas e bebidas isotônicas também entram em férias. Nesse período, atendem em regime integral, as leitoas pururucas, pernis, bobós, lasanhas, massas, tortinhas açucaradas, cervejas, vinhos, refrigerantes diet e correlatos (off curse). Sem falar dos lanches a base de bolo de chocolate e tortas de banana com chantili, finalizados com cafezinho expresso e açúcar dietético (para manter a forma). A associação Natal, Ano Novo e férias é bem explosiva para a balança e para a bioquímica do sangue. Triglicerídeos, colesterol, creatinina e glicose entram em colapso, sem falar do desespero das enzimas hepáticas, obviamente.
Aos poucos, como convém à dinâmica dos grupos, começam a ser reinstaladas as antigas panelinhas e os assuntos de “outros carnavais” voltam a ser pautados. Ressentimentos antigos, rivalidades históricas e resignações próprias das idades e dos relacionamentos, voltam à pauta. Pequenos conflitos e grandes dramas são comuns a todas as famílias da terra e os “unfinished subjects”, acabam reaparecendo. “Unfinished subjects?” Sim, assuntos inacabados para aqueles brasileiros que moram nos States a pouco tempo, mas que esqueceram rapidamente como se diz as coisas em português. Então, alguém, em meio ao jantar, pergunta sobre a cotação do dólar, comenta sobre a política econômica do pais e, apressadamente liga-se a TV para assistir ao jornal. Essa era a “deixa” de que as férias estavam terminando. Num passe de mágica, a realidade reaparece inteira e os afazeres do mundo real reassumem o controle. Celulares, computadores e i-pads voltam à cena cheios de internet para check-ins, conferências bancarias, respostas de e-mails e um aviso ao mundo: estamos de volta.
Beijos, abraços, declarações de amor e promessas de que vamos nos encontrar mais vezes nesse ano, se seguem a choros e despedidas já saudosas. A rosa dos ventos dá as direções e partimos todos de volta para os nossos planetas de origem. Foi muito bom! Ainda bem que acabou! Mas, onde é que será a próxima?
Reflitam em paz!

POR HOMERO REIS
Friedrich Nietzsche dizia que toda verdade não acompanhada por uma risada era, por definição, falsa. Estava em São Paulo e fui ao teatro assistir a Cissa Guimarães na peça Doidas e Santas (Julho/2013). A princípio achei que seria mais um besteirol dentre os muitos que ocupam nossos teatros. Mas não! É uma história contextualizada sobre os dramas da vida pós moderna, onde os grandes temas contemporâneos afloram de modo sutil e provocante. Não deixa de ser uma comédia; e, como tal, nos faz rir as vezes por adesão, outras por auto crítica. De qualquer forma, ninguém sai impune do teatro.
O contexto é a história da psicanalista Beatriz (Cissa Guimarães) que vive a crise da mulher de meia idade, emancipada. No auge da carreira profissional, a vida pessoal anda um caos. Sua extravagante mãe voltou a morar com ela e vive às turras com sua filha adolescente. O casamento de vinte anos, está cada vez mais distante do que fora idealizado um dia. O marido mais surdo, mais mudo, mais morno, mais jogado no sofá. Três gerações em crise. Assim, não há quem aguente a vida. Não há quem se mantenha santo, e todos “endoidecem” um pouco.
A peça começa com uma pergunta insólita que me pegou em cheio: qual foi a última vez que você gargalhou? A pergunta não se referia aos sorrisos comportados e politicamente corretos que fomos treinados a dar; não! Tratava-se das gargalhadas que fazem doer a barriga, perder a compostura, tirar a noção do tempo, implodir as etiquetas, desfazer a maquiagem, gerar uma descompostura terapêutica. Pois é. Fazia muito tempo que eu não fazia isso (ou não me permitia fazê-lo). Fiquei surpreso porque estava aprendendo a crer que seriedade e humor seriam excludentes. Descobri que não. A gargalhada está ligada a uma disposição mental só encontrada em quem tem saúde emocional. Quem se leva demasiadamente a sério, se julga paradigma da verdade, se sente superior aos outros, protegido por alguma entidade superior ou intocável pelas loucuras da vida, dificilmente gargalha. Gargalhar não presume que a vida esteja perfeita, nem que você esteja vivendo no paraíso. Gargalhar é para fazer a vida perfeita, é para pôr as coisas nos trilhos apesar dos problemas. É saber que desarranjos ocorrem e que vive-los faz parte das regras da vida. Tem coisa mais engraçada do que piada em velório? É o contraditório, o proibido, o transgressor que nos mostra a fragilidade de nossas conveniências. Um tropeção, uma “vídeo cassetada”, um espirro fora de hora, são coisas que nos tiram daquela posição de “orgulho da criação” e nos faz cair na real.
Gargalhar é coisa de quem está de bem consigo e com os outros; é coisa de quem está desarmado e que entende que a vida é mais cômica do que trágica, é mais louca do que se imagina. Gargalhar é responder à vida, quando essa se apresenta absurdamente fora dos padrões que admitimos como “certos”. Por isso se diz que uma boa gargalhada é a melhor forma de denunciar nossa presumida prepotência diante das coisas. É a vida nos dizendo: “sou incontrolável, surpreendente e maior do que você pode imaginar. Não tente me controlar. Viva!”. Gargalhar é expressar que o humor está cheio de saúde. Por isso se diz que “rir é o melhor remédio”.
Esse estado de ânimo cuja intensidade representa o grau de bem-estar psíquico e emocional das pessoas, surgiu na medicina de Hipócrates. Naqueles tempos (460 – 370 a.C. – Tessália, Grécia), cria-se que o humor era o maior indicador de saúde. Se uma pessoa não fosse capaz de apresentar em sua fisionomia traços de alegria, de disponibilidade ao riso, leveza no olhar e comportamento afável, certamente estaria com alguma disfunção orgânica (pathos) que, mais cedo ou mais tarde, se manifestaria no corpo. Por isso, criam os gregos que a dor estaria para o corpo, como o humor estaria para a emoção. Se o corpo dói é porque há algo disfuncional nele; se o humor é pequeno é porque a emoção está adoecida; se a emoção está adoecida, o corpo começará a reclamar.
A teoria do humor constituiu-se no principal conjunto de explicações racionais da saúde e da doença entre os séculos IV a.C. e XVII d.C. Vale ressaltar que a palavra humor, originalmente significava fluido. Também conhecida como Teoria Hipocrática da Saúde, seguia a tese de que a vida seria mantida pelo equilíbrio dinâmico entre quatro humores (fluidos) fundamentais do corpo: sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra, cuja origem se davam no coração, sistema respiratório, fígado e baço, respectivamente. Cada um destes humores teria diferentes qualidades. O predomínio natural de um deles na constituição dos indivíduos, daria origem aos quatro tipos fisiológicos básicos, cujas emoções lhes seriam indexadas como características de suas identidades. Hipócrates também ensinava que as alterações desses fluidos se davam em função dos alimentos preferidos pelos indivíduos. Os alimentos, segundo ele, eram agrupados em quatro grandes categorias: ar (frutas), fogo (as carnes vermelhas preparadas a base de calor), terra (os vegetais) e água (peixes e líquidos em geral incluindo chás, vinhos, cervejas, etc).
O sanguíneo (sangue – coração), alimenta-se do ar (frutas). É emotivo, demonstrativo, entusiasta e expressivo. Tem uma personalidade cativante. É um verdadeiro falador e contador de histórias. Está sempre de bom humor, embora a sua disposição possa variar. Faz-se notar onde quer que esteja, sendo alegre, curioso, inocente e sincero. No entanto, quando explode é visceral, contundente, intenso. Manifesta-se como visionário e líder.
O fleumático (fleuma – sistema respiratório), alimenta-se da água (peixes e líquidos em geral incluindo chás, vinhos, cervejas, etc). É calmo, quieto, cheio de humor e condescendente. Moderado, frio, diplomático, é digno de confiança. Demonstra ser uma pessoa objetiva, organizada, eficiente e prática. Por outro lado é egoísta, avarento, temeroso e desmotivado. Muitas vezes é preguiçoso, preocupado, indeciso e auto protetor. De raciocínio excessivamente complexo é exímio em atropelar-se.
O bilioso ou colérico (bílis amarela – fígado), alimenta-se do fogo(as carnes vermelhas preparadas a base de calor). Tem vontade forte, espírito prático, produtivo e decidido. É Irritadiço, agressivo e corajoso, como também é independente, mas pouco visionário. Pode ser cruel, irado, sarcástico, vingativo, dominador e impetuoso. É auto-sufiente e muitas vezes insensível.
O melancólico (bílis negra – baço), alimenta-se da terra (vegetais). É desanimado, inquieto, complexo, embora talentoso. É Analítico, habilidoso, indisciplinado, sensível e vitimizado. Julga que só atingirá seu potencial máximo se trabalhar excessivamente. É autocentrado mas tem dificuldades em trabalhar com os outros. É desconfiado, susceptível, vingativo e mal-humorado, mas disfarça bem. Em si mesmo é crítico, teórico, pessimista e não social.
Cada tipo fisiológico manifesta um tipo específico de humor predominante, mas todos eles estariam em plena saúde se fossem capazes de gargalhar de suas próprias limitações e dos acontecimentos da vida. As doenças, consequências de desequilíbrios entre os humores (fluidos), seria tratada com os alimentos corretos e com estímulos às emoções que levariam o corpo (physis) a voltar a seguir seus mecanismos normais. A noção de “cura” era percebida pela restauração da capacidade de rir e de gargalhar espontaneamente.
Embora a associação dos temperamentos com os fluidos corporais esteja obsoleta, a teoria dos quatro humores foi adaptada por vários pesquisadores contemporâneos, e muitos ainda a adotam para descrever traços de personalidade. Dessa forma é comum vermos nas teorias modernas os nomes artesão para o antigo sanguíneo, racional para o antigo colérico, idealista para o antigo melancólico e guardião para o antigo fleumático. De qualquer forma, o humor é uma das chaves para a compreensão das pessoas. O homem é o único animal que ri, e através dos tempos a maneira humana de sorrir modifica-se acompanhando os costumes e correntes de pensamento. Em cada época a forma de pensar cria e derruba paradigmas, e o humor acompanha essa tendência sociocultural. Expressões culturais do humor podem representar retratos fiéis de uma época, como foi o caso das comédias gregas e como é o caso das comédias de costumes.
Apesar do humor ser largamente estudado, teorizado e discutido por filósofos e outros, permanece extraordinariamente difícil defini-lo. Determinado essencialmente pela personalidade de quem ri, pode-se pensar que o humor não ultrapassa o campo do jogo ou os limites imediatos da sanção moral ou social. No entanto, muito mais do que isso, o humor instala-se no que há de mais íntimo na natureza humana, no mistério do psíquico, na complexidade da consciência, no significado espiritual do mundo que nos rodeia. O humor é a mais subjetiva categoria do cósmico e a mais individual, pela coragem e elevação que pressupõe. Trata-se, portanto, de uma categoria intrinsecamente enraizada na personalidade, fazendo parte dela e definindo-a até.
Tomás de Aquino (1225-1274 d.C.) dizia que o humor é fundamental para a vida humana. “O corpo precisa do sono, assim como a alma precisa do humor”. Esta analogia entre o sono e o humor, bastante explícita no que diz respeito à sua importância na vida humana, ressalta o humor como um “bem útil”, mesmo sendo um vício por excesso ou por falta de controle. Aqueles que exageram no brincar tornam-se inoportunos, por querer fazer rir constantemente, ao invés de tentar não dizer algo agressivo para com aqueles a quem a “brincadeira” é dirigida. O humor pode também ser um vício por ausência. Aqueles que carecem de humor, irritam-se com os que o usam e tornam-se “frios” e distantes, não deixando a sua alma repousar pelo uso do humor. Como a virtude está no meio, aqueles que usam convenientemente o humor, têm a capacidade de converter as coisas que dizem ou fazem em riso.
O humor é tido como a dissolução de uma pressão emocional gerada por contextos conflitantes. É produzido pela associação de duas ideias inicialmente distantes, cuja conclusão surpreende por não ser óbvia, nem previsível. Segundo estes preceitos a piada de boa qualidade, o fato cômico, a ocorrência inusitada deverá necessariamente mesclar elementos altamente contrastantes de modo que se estabeleça forte relação entre eles, embora ilógica. Uma piada “lógica” é profundamente sem graça por ser previsível. Essa surpresa aparentemente incoerente e ilógica das “acontecências”, remove a tensão racional que nos impomos, resultado das censuras internas que nos impedem de dar forma aos impulsos naturais, como queria Freud. Segundo ele, o humor, seria uma forma de enganar a censura (ou o super-ego), provocando alívio e por conseguinte o riso, levando a pessoa a um estado de graça eivado de saúde.
Doidas e Santas chega ao final. Cissa Guimarães, Giusepe Oristanio e Josie Antello fazem rir e refletir, magistralmente. Várias gargalhadas depois, senti-me capaz de responder àquela pergunta insólita. Refeitas a alegria e a reflexão, a noite em São Paulo foi mais divertida do que se previa. E esse texto, bem mais fácil de escrever.
Reflitam em paz!

por Homero Rei
Gosto de histórias e principalmente de vê-las por outro ponto de vista. Assim, quero examinar um pouco o modo como temos entendido o trabalho e suas consequências na vida.
“Do suor do teu rosto comerás o teu pão” (Gn. 3:19). Pronto, estava instituído o trabalho. O contexto é o seguinte: o homem – Adão e Eva – viviam no paraíso até que desobedeceram a Deus. Consequência: foram expulsos e castigados. O castigo foi ter que trabalhar para garantir seu sustento. Essa história, conforme narrada em Gênesis levou muitos a entenderem o trabalho (e outras coisas), como a maldição pelo pecado. Independente da história ser fato ou mito, ou ainda se é verdadeira ou falsa, o fato é que influenciou muito (e ainda influencia) o modo como construímos nossas explicações sobre a vida. Tanto é que o termo “trabalho” provém do latim tripalium – instrumento de tortura composto por três varas em cruz onde se prendia e torturava o réu ou, ainda, “ferro em tripé que servia para ferrar os cavalos.”
A noção de trabalho conforme a temos hoje, não foi uma constante na vida da humanidade. Os povos pré-históricos tinham uma noção diferente do que era trabalhar. Tal noção, diretamente ligada à ideia de identidade do grupo, estava plenamente integrada com a natureza de seu modo de vida e com as narrativas que a sustentavam. As pessoas faziam o que lhes parecia necessário e suficiente para garantir a vida e os relacionamentos.
O período em que a humanidade foi nômade, vivendo da coleta e da caça, favorecia as movimentações geográficas e sociais dos grupos humanos em torno da sobrevivência – garantia de comida e água. A humanidade viveu durante essa época, um período de harmonia, uma época em que tudo estava à disposição. Teria sido essa época a que decidimos chamar de paraíso? A natureza pródiga fornecia o que o homem precisava de modo abundante. No entanto, era necessário um conjunto de atividades para se apropriar disso. Essa era a ideia de trabalho, certamente bem diferente da que temos hoje. O próprio homem, na qualidade de ser ser natural vivia de acordo com rigores e ritmos naturais. O trabalho assim concebido era executado de forma coletiva, cooperativa, comunitária. As tarefas eram distribuídas em função do sexo, da idade, das habilidades naturais e não se discutia muito isso, nem tampouco tal acomodação fazia parte dos problemas existenciais da humanidade. As mulheres cuidavam dos filhos, os mais idosos transmitiam as histórias, os homens, conforme sua natureza apanhavam frutos, caçavam, pescavam e a vida estava estabelecida.
Somente após a revolução industrial do Século XVIII é que a noção de trabalho assume o perfil que temos hoje. É bem verdade que o caminho da sociedade nômade, pré-histórica, até hoje foi longo. Discutiremos isso em outra provocação. Passamos por vários momentos e fases, fomos artesãos, escravos, mercadores, financistas, intelectualistas, trabalhadores do conhecimento. No entanto, começamos a cultivar uma dicotomia entre trabalho e lazer, como se fossem coisas excludentes. O advento constante, embora cada vez mais veloz da tecnologia, trouxe-nos um mundo novo, movimentado, irrequieto, mas com uma boa dose do antigo conceito de trabalho como “um mal necessário” a que estamos inexoravelmente presos.
Mas será que existe uma outra forma de pensar isso? Creio que sim. A noção de trabalho como pagamento pelo pecado é uma narrativa típica da cultura que construímos, embora hajam outras possíveis.
Assisti, recentemente, um vídeo interessante em que aparece uma mulher indígena, moldando um pode de cerâmica que seria usado para guardar grãos. A seu lado, uma criança, “destruindo” o pote moldado. A mulher então refaz o pote e a criança estraga o pote. Assistindo a cena estão o diretor do documentário e um antropólogo. A cena se repete dezenas de vezes. Ao comentar o fato, o diretor, indignado, afirma que aquela criança deveria ser educada a respeitar o trabalho da mãe. O antropólogo, por sua vez, argumenta que não há ali nenhuma falta de respeito. O que há é o princípio produtivo do amar e brincar. A mãe está brincando de produzir o que precisa (um pote), a criança está brincando com o que ela faz. Depois de algum tempo, a criança foi brincar com outra coisa e a mãe teve o pote que precisava. O dia passou em paz e ambos cumpriram seu papel social sem os dramas da narrativa industrial, mercadológica, capitalista, pós moderna. A criança cria seu espaço relacional ao viver na intimidade do contato social e corporal com sua mãe. A convivência em total aceitação e confiança mútuas só ocorre a partir da qualidade desse contato; isto é, o que a criança fará, ouvirá, cheirará, verá, pensará, temerá, desejará ou rechaçará como aspectos óbvios de sua vida individual e social, dependerá desse relacionamento. Na qualidade de membro de uma família e de uma cultura, ela será consequência desse relacionar-se em uma comunidade que pensa e age de uma forma específica e que colherá, no futuro, os resultados dessa forma específica de ser. Assim é com a nossa cultura. Estamos colhendo, em todos os domínios de nossas vidas, o resultado das narrativas que escolhemos sobre como nos relacionamos com a noção de trabalho.
Essa narrativa pode parecer romântica demais para os nossos dias. É verdade! Mas podemos pensar sobre ela como se fosse uma provocação para entendermos os desdobramentos práticos que nos fornece. Ao pensar sobre isso, podemos construir uma nova forma de nos relacionar com o “trabalho”, de modo a pacificar nossas relações conosco mesmos, com as coisas e com as pessoas.
Qual seria o contraponto da noção de trabalho como castigo? Será que o homem “no paraíso” viveria em estado de contemplação? Em que medida a contemplação não requer também “trabalho”? Cuidar do Éden não seria uma forma de trabalhar? Quando se faz o que gosta e gosta-se do que se faz, a narrativa sobre o trabalho deixa de ser algo penoso e converte-se numa atividade produtiva prazerosa cujo fundamento básico é o que estou chamando aqui de amar e brincar. Quando o amor brinca, engravida. E não há nada mais produtivo e efetivo do que o resultado disso.
Parece-me que confundimos a necessidade de produzir com o conceito de trabalho. Isso é tão transparente para nós que julgamos que ao brincar as crianças não estão “trabalhando”. De fato, não estão, mas estão produzindo. Piaget, psicólogo genebrino fundador do construtivismo, concorda totalmente com essa afirmação. Ao brincar, a criança constrói e reconstrói o mundo onde está inserido, desenvolvendo o que mais tarde lhe dará a autonomia para adultecer. Quando desrespeitamos o “brincar da criança” e seus momentos de construção do mundo, podemos estar gerando um adulto com muitas dificuldades quanto a criatividade, relacionamentos e emocionalidades. Quando temos uma concepção utilitarista de nossas atividades, julgamos que o produzir muitos potes é mais importante do que brincar com eles. Julgamos que trabalhar é um fardo que temos que carregar.
Esse novo pensar, onde substituímos a ideia de trabalho pela ideia de amar e brincar, possibilita o surgimento de uma nova cultura produtiva guiada e demarcada precisamente por uma nova emoção que começa a se conservar na aprendizagem das crianças.
Percorrer o caminho reflexivo da relação materno-infantil que lhes expus, envolve amar e brincar num processo que produz, mas que cuida e sustenta-se num novo conjunto de valores que restaura nosso senso de humanidade.
O ato de produzir que lhes apresentei, vivida no amar e brincar, só é possível se baseada na total confiança e aceitação mútuas e não no controle e na exigência. Quero com isso, convidá-los a uma participação responsável na modulação dessa história de acordo com o modo como desejamos viver, antes de viver conforme pensamos que deveríamos fazê-lo.
Amar e brincar é uma nova narrativa que questiona se o que fazemos faz sentido para nós mesmos e para os outros; agora e no futuro. Uma pesquisa que mantenho desde 1998, mostra que menos de 10% dos estudantes universitários estão fazendo o curso que desejam. A maioria escolhe sua profissão por conveniência ou por atender a demandas de outros, sejam eles quem forem. Ao amar e brincar, descubro que sou presenteado com a possibilidade de ter que viver a minha vida, e não a de outrem; descubro a possibilidade de aprender a fazer o que gosto e a gostar do que faço.
Amar e brincar me faz entender que precisamos ser previdentes, mas isso não significa deixarmos de ser generosos. Significa rever nosso estilo de vida que está tornando o mundo insustentável, exageradamente desigual, perigosamente raivoso e relacionalmente instável. Isso tem a ver com o estilo de vida que adotamos. Modificar isso é complexo, mas começa com uma alteração na nossa forma de ver como nos relacionamos com as coisas que fazemos. Quem ama e brinca, está sempre de férias e em processo produtivo. Os dias acontecem, as dificuldades existem, mas a emocionalidade com a qual lido com essas e outras coisas, é muitíssimo diferente.
Amar e brincar coloca-me na senda de um humanismo consciente, de uma liberdade responsável, de um compromisso com o outro, de uma existência significativa. Essa narrativa modela o modo como escolho minha profissão e aquilo que faço, meu modo de vida, meus relacionamentos. Faz-me responsável pela qualidade de vida que tenho e que promovo, pelos valores que cultivo, professo e dissemino; faz-me coerente com tudo isso e co-responsável pelo futuro. Amar e brincar é uma ideia. Convido-os a refletir comigo.
Reflitam em Paz!
Homero Reis

por Homero Reis
Escrevo sobre relacionamentos porque, ao longo da vida, fui aprendendo que não existe experiência humana fora deles. Mesmo quando me penso só, estou dialogando com vozes que me atravessaram, com histórias que me formaram, com vínculos que deixaram marcas. A solidão absoluta é uma abstração; o que existe, de fato, são formas diferentes de presença e ausência do outro. Foi nesse horizonte que encontrei, quase por acaso, o pensamento de Georg Simmel, e digo “quase” porque, hoje, percebo que certos autores só nos encontram quando estamos maduros para escutá-los.
Georg Simmel (1858-1918) foi um influente sociólogo e filósofo alemão, considerado um dos fundadores da sociologia moderna e da Sociologia Formal (Sociologia das Formas Sociais), que focava nas interações individuais e nas “formas” da vida social, sendo precursor da microssociologia e dos estudos urbanos. De suas diversas obras, a mais significativa para mim e que me interessa particularmente é a “Sociologia: Pesquisas Sobre as Formas de Socialização” (1908).
Simmel não se propôs explicitamente a escrever uma teoria dos relacionamentos humanos. Seu interesse estava voltado para a vida social, para as dinâmicas urbanas, para o dinheiro como mediador simbólico das relações modernas. Ainda assim, ao ler sua obra com atenção relacional, torna-se evidente que ele tocou em algo essencial: a vida humana acontece sempre entre sujeitos, entre interesses, entre forças, entre tensões. Essa intuição, que atravessa sua obra, nos apresenta de modo contundente aquilo que venho chamando, há décadas, de Inteligência Relacional.
Não me interesso por disputas da paternidade conceitual do tema. A Inteligência Relacional, como a compreendo, é uma grande bacia hidrográfica onde confluem distintos rios do pensamento e dos saberes humanos. Alguns vêm da filosofia, outros da psicologia, outros da sociologia, outros ainda da teologia. Simmel é um desses rios. Um rio discreto, às vezes esquecido, mas profundamente fértil.
Antes de entrar propriamente na contribuição de Simmel, preciso situar o solo filosófico onde essa reflexão se ancora. Desde Sócrates, aprendemos que uma vida não examinada não merece ser vivida. Mas o exame socrático não é solitário: ele acontece no diálogo. Sócrates só pensa porque pergunta, e só pergunta porque há um outro que responde. O “conhece-te a ti mesmo” já nasce como um ato relacional.
Platão aprofunda essa intuição ao afirmar que o ser humano é um ser de desejos: desejo do bem, do belo, do verdadeiro; e, que esses desejos se manifestam em direção a algo ou alguém. Amar, para Platão, é reconhecer uma falta e mover-se em direção àquilo que nos pode completar. Já Aristóteles, ao tratar da amizade (philia), afirma algo que considero central: ninguém escolheria viver sem amigos, ainda que possuísse todos os outros bens. A vida boa é, necessariamente, uma vida compartilhada. Portanto, sempre estamos indo em direção a alguém, seja porque motivo for.
Essa herança clássica encontra ressonância na filosofia alemã. Kant nos lembra que o outro nunca pode ser reduzido a meio, mas deve ser sempre reconhecido como fim. Hegel mostra que a consciência só se constitui no reconhecimento recíproco; não há “eu” sem um “tu” que o reconheça. Nietzsche, por sua vez, desmonta idealizações ingênuas e nos lembra que toda relação envolve forças, vontades, tensões e que ignora-las é produzir moralismos frágeis. Weber, contemporâneo de Simmel, ajuda a compreender como estruturas sociais moldam e condicionam as formas de relação. É nesse caldo filosófico que Simmel se insere, ainda que por um caminho próprio.
O que mais me impressiona em Simmel é sua percepção de que toda complexidade social pode ser reduzida, analiticamente, a uma unidade básica: o par. Ele não está propondo um dualismo ou uma polaridade. Sua ideia é mais profunda que isso. Não importa quão grande seja o grupo, quão sofisticada seja a estrutura social, quão complexa seja a organização, quantos atores estão em cena ou quantos interlocutores estão a interagir; quando descemos aos níveis elementares da interação, sempre encontramos pares: Amigos são pares; amantes são pares; Sócios são pares; Irmãos são pares. Até mesmo as instituições se estruturam, em última instância, a partir de relações paritárias.
Essa ideia é simples e, ao mesmo tempo, revolucionária. Simmel mostra que os grandes grupos não funcionam segundo uma lógica distinta da dos pequenos; funcionam segundo a mesma lógica, apenas com menor densidade relacional. Quanto maior o grupo, mais diluída se torna a intensidade do vínculo; quanto menor, mais densa.
Essa constatação tem implicações profundas. Ela nos ensina que compreender uma relação paritária é, de certo modo, compreender a lógica das relações humanas em geral. Para Simmel, relações paritária são aquelas que se baseiam na construção de igualdades, equilíbrios e poder de negociação entre as partes envolvidas, onde todos têm vez e voz, e os termos são discutidos e acordados em pé de igualdade, sem que uma parte imponha suas vontades sobre a outra, sendo comum em contratos, comissões, estruturas de poder e relacionamentos de qualquer outra natureza.
É aqui que vejo uma convergência direta com a Inteligência Relacional: quem não sabe cuidar do vínculo próximo dificilmente saberá atuar de forma ética e inteligente em sistemas maiores.
Lembro-me de um caso concreto. Certa vez atendi, como mentor, um executivo brilhante, tecnicamente impecável, mas incapaz de sustentar relações de confiança com sua equipe imediata. Sua organização era grande, seus projetos ambiciosos, mas sua vida relacional cotidiana era marcada por rupturas constantes. Simmel me ajudou a compreender: não era um problema de comportamental, mas de fundamento. Ele não sabia viver a paridade. Meu trabalho com aquele executivo baseou-se numa estratégia de Simmel, chamada de adesão e reforço.
Nesse jogo, o primeiro princípio relacional que Simmel explicita é o da complementaridade. Diferente da ideia romantizada de que “os opostos se atraem”, ele mostra que as relações se constroem por dois movimentos básicos: adesão ou reforço.
Na adesão, busco no outro aquilo que me falta. No reforço, busco alguém que confirme, amplifique ou legitime aquilo que já sou. Ambos os movimentos são legítimos; o problema não está neles, mas na falta de consciência sobre o que está sendo buscado.
Aqui, Simmel toca em algo que a psicologia aprofundaria mais tarde. Freud falaria de escolhas objetais inconscientes; Jung, de projeções da sombra; Fromm, de amores imaturos que buscam fusão. Eu prefiro dizer, em linguagem relacional: todo vínculo revela algo sobre o que estou tentando completar ou proteger em mim.
Vi isso muitas vezes em relações afetivas. Pessoas que se aproximam não por encontro, mas por carência; não por escolha, mas por dependência. Outras, que só se relacionam com iguais para não serem confrontadas. Em ambos os casos, a falta de consciência transforma a complementaridade em armadilha.
Relacionamentos inteligentes exigem lucidez: o que estou reforçando em mim ao me ligar a essa pessoa? O que estou tentando suprir?
O segundo princípio de Simmel é o da quantificação, que interpreto como a consciência dos limites toleráveis da relação. Toda relação exige renúncia parcial da individualidade. Eu abro mão de algo para construir um “nós”. Mas abrir mão de tudo é perder-se.
Simmel é contundente: quando um sujeito abdica integralmente de sua individualidade em nome da relação, instala-se uma patologia relacional. A sustentação desse princípio se dá com Martin Buber: a relação Eu-Tu só é possível quando ambos permanecem sujeitos. Se um se dissolve, o vínculo deixa de ser encontro e passa a ser fusão.
Recordo-me de uma cliente que me dizia: “Eu vivo em função dele”. Ao ouvi-la, não senti admiração, mas preocupação. Onde não há limite, não há relação; há absorção. Inteligência Relacional é saber até onde ir e onde parar. De fato, se estou sempre disponível, não sou priorizado; se não estabeleço limites, sou invadido; se não digo o que quero, o outro se impõe.
O terceiro princípio é talvez um dos mais mal-compreendidos: dominação e subordinação. Simmel mostra que as relações saudáveis não são estáticas. Em determinados contextos, conduzo; em outros, sigo. O problema não está na alternância, mas na rigidez. Por assim dizer, nos relacionamentos não existe “zona desmilitarizada”. Se não há limite, sempre alguém estará avançando sobre o espaço do outro.
Nietzsche já havia nos alertado para isso ao falar da vontade de poder como elemento constitutivo da vida. O erro não é o poder, mas a negação de sua existência. Quando não reconheço as dinâmicas de poder, torno-me tirano ou submisso. A equalização das relações equilibra a dinâmica da convivência.
Em relações maduras, a alternância é natural. Já vi doutores dependerem de mecânicos, líderes dependerem de auxiliares, pais aprenderem com filhos. A maturidade relacional está em saber quando conduzir e quando se deixar conduzir. E esse jogo é natural e saudável. É como um rio que tem seu ritmo próprio: as vezes corredeira, as vezes remanso, as vezes cachoeira. Mas no fim, tudo se dissolve na grandeza do mar.
O que Simmel discute aqui é a capacidade de adaptação à paridade. Essa competência si instala quando os “sujeitos” atuam como protagonistas em igualdade de condições relacionais. Isso é essencial porque nos desafia a enxergar as relações de poder como relações de coordenação de ações (pedidos, ofertas e reclamações). Nesse sentido o poder não é a capacidade de “mandar”, mas sim a competência de saber atuar juntos a partir das diferenças.
O ponto mais atual de Simmel é a sua compreensão do conflito. Ele não o vê como falha ou turbulência, mas como elemento constitutivo das relações e como mecanismo regulador das relações de poder. Onde há diferença, há tensão. Negar isso é infantilizar a vida.
Simmel vê no conflito um espaço político legítimo. O mesmo que Paul Tillich vê como a tensão que integra a coragem de ser. O conflito não precisa destruir; ele pode revelar.
Em minha trajetória, aprendi que relações sem conflito são, muitas vezes, relações sem verdade. O problema não é o conflito, mas a incapacidade de gerenciá-lo. A Inteligência Relacional, usando todo esse arcabouço conceitual, transforma o conflito em espaço de aprendizado, não em campo de batalha.
Simmel descreve, ainda que de forma implícita, um percurso relacional que reconheço claramente na experiência humana:
Toda relação começa antes do encontro propriamente dito. Ela nasce num movimento silencioso, quase imperceptível, que chamamos de atração. Não se trata apenas de atração física, afetiva ou intelectual, mas de algo mais profundo: uma sensação de que o outro, de algum modo, toca uma região sensível da minha própria história. Georg Simmel ajuda a compreender esse fenômeno ao afirmar que os vínculos humanos se organizam a partir da complementaridade, seja por adesão, seja por reforço.
Quando sou atraído por alguém, raramente sei explicar com precisão o motivo. Digo que “gostei”, que “me senti à vontade”, que “houve sintonia”. Mas, por trás dessas palavras vagas, há um movimento relacional claro: ou reconheço no outro algo que me falta e que desejo integrar à minha vida, ou encontro nele a confirmação daquilo que já sou e preciso reforçar. Em ambos os casos, a atração não é neutra; ela revela necessidades, carências, aspirações e defesas.
Lembro-me de um caso emblemático: um mentorado meu, profissional extremamente racional, estruturado, previsível, que se apaixonou por uma mulher espontânea, intuitiva, criativa. Ele dizia admirá-la porque ela “trazia cor” à sua vida. O que ele talvez não percebesse, à primeira vista, é que aquela atração era um pedido silencioso de integração de partes suas que haviam sido reprimidas ao longo da vida. A complementaridade, ali, não era romântica; era existencial.
Simmel me ensina que não há nada de errado nesse movimento inicial. A atração é necessária, vital, fundadora. O problema não está na complementaridade em si, mas na ausência de consciência sobre o que ela mobiliza. Quando não sei o que busco no outro, corro o risco de transformar o vínculo em dependência ou em palco de expectativas irreais. A atração, portanto, é sempre um convite, nunca uma garantia.
Se a atração é o chamado inicial, a ideação é o momento em que esse chamado ganha forma narrativa. Aqui o relacionamento começa, de fato, a ser construído, não ainda sobre quem o outro é, mas sobre quem imagino que ele seja. Projetamos, idealizamos, fantasiamos. Criamos uma versão do outro que, muitas vezes, diz mais sobre nós do que sobre ele.
Na linguagem de Simmel, esse momento é decisivo porque a relação ainda não se dá entre dois sujeitos concretos, mas entre um sujeito real e um sujeito imaginado. Eu me relaciono com a ideia que faço do outro. Freud chamaria isso de projeção; Jung, de anima e animus; Platão, talvez, de ilusão do desejo. Independentemente do nome, o fenômeno é o mesmo: vejo no outro aquilo que quero ver.
Já acompanhei inúmeros vínculos que prosperaram rapidamente nessa fase. Tudo parece fluir, há encantamento, cumplicidade, promessas implícitas. O outro parece compreender-me como ninguém: corresponde exatamente às minhas expectativas, preenche lacunas antigas. Mas essa harmonia inicial não nasce da compatibilidade real; nasce da sobreposição entre desejo e imagem.
Recordo-me de uma cliente que dizia, emocionada: “Ele é tudo o que sempre sonhei”. O problema, como aprendi a reconhecer ao longo dos anos, é que ninguém sustenta por muito tempo o papel de sonho alheio. A ideação é uma fase inevitável e até necessária do processo relacional, mas ela carrega um risco estrutural: quanto mais distante a imagem projetada estiver da realidade, mais violento será o impacto quando a realidade se impuser.
Simmel não condena a ideação; ele a descreve como parte do jogo relacional. A inteligência não está em evitá-la, mas em saber que ela existe. Relações maduras não se alimentam da ilusão de que o outro é aquilo que desejo, mas da disposição de descobrir quem ele realmente é.
Chega, inevitavelmente, o momento em que a realidade se impõe. Aquilo que era encanto revela arestas; aquilo que era admiração mostra limites; aquilo que era idealização confronta-se com o cotidiano. Esse é o ponto que Simmel identifica como decisivo na trajetória dos vínculos: o encontro com a limitação.
A limitação não é um acidente do percurso; ela é o próprio teste da relação. Descubro que o outro não responde como imaginei, não oferece tudo o que esperei, não sustenta integralmente a imagem que projetei. Aqui, muitos vínculos se rompem, não porque o outro seja insuficiente, mas porque a fantasia era excessiva.
Tenho assistido, repetidas vezes, relações ruírem nesse ponto. Pessoas que dizem: “Ele mudou”, “Ela não é mais a mesma”; raramente percebem que quem mudou foi o olhar. A limitação não é uma falha moral do outro; é a revelação de sua humanidade. É quando o vínculo deixa de ser promessa e passa a ser decisão.
Simmel nos mostra que, diante da limitação, só há dois caminhos possíveis: a ruptura ou a passagem para a consciência da paridade. Se não consigo aceitar o outro como ele é, com seus limites, contradições e fragilidades, o rompimento é quase inevitável. Mas, se atravesso esse momento com lucidez, entro numa nova etapa da relação, mais real, menos idealizada, mais exigente e, paradoxalmente, mais profunda.
Aqui reside um dos maiores desafios da Inteligência Relacional: sustentar o vínculo quando o encanto cede lugar à realidade. É nesse ponto que descubro se amo uma pessoa ou uma projeção; se me relaciono com um sujeito ou com uma fantasia; se estou disposto a crescer ou apenas a ser confortado.
A limitação, portanto, não é o fim da relação, é o seu batismo na realidade. Só relações que atravessam esse momento têm condições de se tornarem verdadeiramente humanas, éticas e transformadoras.
Se atravessamos essa fase, chegamos à consciência da paridade: vejo o outro como ele é e, ainda assim, escolho permanecer. A integração vem depois, quando se forma uma unidade, não fusão, mas compromisso. Por fim, inevitavelmente, a perda e o luto. Saber viver o luto é, talvez, uma das maiores competências relacionais. Nada é eterno na forma; tudo é eterno no significado que deixa.
Ao revisitar Simmel à luz da minha trajetória, percebo o quanto seu pensamento se alinha ao que venho desenvolvendo como Inteligência Relacional: consciência da paridade, clareza dos limites, gestão do conflito, alternância de posições, elaboração do luto. Tudo isso são competências relacionais fundamentais.
A Inteligência Relacional não evita a dor, mas nos capacita a atravessá-la com sentido. Não é eliminar tensão, mas saber habitá-la. Não é buscar relações perfeitas, mas relações conscientes.
Simmel me ensina que a vida acontece entre pares. Eu acrescentaria: a qualidade da vida depende da qualidade desses entre-lugares. É ali que nos humanizamos ou nos perdemos. É ali que aprendemos quem somos.
Escrevo, ensino e trabalho com Inteligência Relacional porque acredito que relações podem ser espaços de crescimento, não de adoecimento. Simmel me ajuda a lembrar que, antes de qualquer técnica, está o olhar: olhar o outro como par, não como objeto; como sujeito, não como meio; como alguém com quem aprendo a existir.
No fim das contas é isso que chamo de sabedoria relacional: aprender a viver entre, sem desaparecer e sem dominar, sustentando a delicada arte de ser eu com o outro.
Reflitam em paz!

por Homero Reis
A pergunta me foi feita de maneira simples, quase despretensiosa, como só as perguntas verdadeiramente importantes sabem ser: “Professor, o que é existir?” Não houve nela qualquer pretensão acadêmica, tampouco o desejo de uma resposta definitiva ou de um debate filosófico. Apenas uma pergunta. Ainda assim, ou talvez justamente por isso, a pergunta abriu-me um espaço de silêncio e reflexão. Porque algumas perguntas não pedem respostas rápidas; pedem tempo, escuta e maturação interior. Essa foi uma delas.
A primeira resposta que me ocorreu foi direta: existir é relacionar-se. À primeira vista, pode soar simplista. Mas, quanto mais me aprofundo nessa afirmação, mais ela se revela densa, exigente e transformadora. Exigir pensar a existência como relação é deslocá-la do campo do mero fato biológico para o território ético, histórico e simbólico da presença humana no mundo.
Essa reflexão me conduziu, quase imediatamente, a uma canção do Caetano Veloso, Cajuína, cuja pergunta central ecoa como um mantra filosófico: “Existir, a que será que se destina?” Durante muito tempo, essa música foi tomada como ingênua por alguns críticos. No entanto, como costuma acontecer com as obras verdadeiramente profundas, sua simplicidade é apenas aparente. Caetano escreveu essa canção atravessado pela dor do suicídio de seu amigo Torquato Neto. E é justamente dessa ferida aberta que emerge a pergunta radical sobre o sentido da existência.
Quando alguém perde o sentido de seus vínculos, quando não encontra mais razão para permanecer em relação consigo, com os outros e com o mundo, a própria vida se torna absurda. Albert Camus já havia diagnosticado isso com precisão ao afirmar que o absurdo nasce do divórcio entre o ser humano e o sentido. Mas eu ouso ir um passo além: o absurdo nasce da ruptura relacional. Onde não há vínculo, não há sentido; onde não há sentido, a vida se esvazia.
Existir nunca foi uma evidência simples para o ser humano. Desde que tomamos consciência de nós mesmos, a pergunta pelo sentido da existência se impõe como uma inquietação silenciosa que atravessa culturas, épocas e tradições. Não se trata apenas de estar vivo biologicamente, mas de compreender o que significa ser no tempo, no mundo e em relação com os outros. Quando alguém pergunta “o que é existir?”, essa pergunta raramente é teórica; ela é existencial, ética e relacional; além de estampar o fato de que “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é“, para continuar com Caetano.
A filosofia existencialista foi uma das tradições que mais radicalmente enfrentou essa questão. Para Kierkegaard, existir é viver sob a tensão da possibilidade, experimentando a angústia como sinal da liberdade. A existência, para ele, não é um conceito abstrato, mas uma experiência concreta e singular, marcada por escolhas que não podem ser delegadas.
Nietzsche aprofunda essa ruptura ao afirmar que não há fundamentos últimos que garantam sentido à vida; existir, então, passa a ser um ato de afirmação, mesmo diante do trágico. Quando ele proclama o amor fati, expressão latina que significa “amor ao destino”, ele nos convida a dizer “sim” à vida como ela é, assumindo a responsabilidade por criar valores.
Sartre radicaliza essa visão ao afirmar que “a existência precede a essência”. Não nascemos com um sentido pré-determinado; tornamo-nos aquilo que fazemos de nós mesmos. Existir é escolher, e escolher é assumir responsabilidade não apenas por si, mas pelo mundo que ajudamos a construir.
Albert Camus, por sua vez, descreve o momento em que essa busca por sentido encontra o silêncio do mundo: o absurdo. Para Camus, o absurdo não nasce da vida em si, mas do confronto entre o desejo humano de significado e a indiferença do mundo. Ainda assim, ele recusa o desespero e propõe a revolta lúcida: continuar vivendo, criando e se relacionando, mesmo sem garantias. Em todos esses autores, existir é um ato ativo, nunca passivo; é um compromisso contínuo com a própria liberdade.
A teologia cristã conversa com essa inquietação por outro caminho, sem negá-la. Para o cristianismo, existir não é apenas resultado do acaso, mas resposta a um chamado. A existência é compreendida como vocação. Agostinho de Hipona descreveu essa condição com profundidade ao afirmar que o coração humano permanece inquieto enquanto não repousa em Deus. Essa inquietação não é um defeito da existência, mas sua marca constitutiva. Tomás de Aquino, ao afirmar que existir é participar do Ser, entende a vida humana como um dom que encontra plenitude quando orientado para o bem e para o amor.
Nos Evangelhos, Jesus muda radicalmente o eixo da existência ao afirmar que “quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á”. Existir, nesse horizonte, não é preservar-se a qualquer custo, mas doar-se. A vida encontra sentido quando se transforma em relação viva: amar a Deus e ao próximo. O apóstolo Paulo expressa isso ao dizer que a vida frutifica quando é entregue, e não quando é retida.
Dietrich Bonhoeffer, teólogo alemão que enfrentou o nazismo, escrevendo em meio ao horror, compreende a existência cristã como responsabilidade concreta diante do outro; existir é responder pelo mundo que nos foi confiado. Paul Tillich, por sua vez, fala da coragem de ser como a capacidade de afirmar a própria existência apesar da ameaça do não-ser. Em todos esses pensadores, existir é relação com Deus, com o outro e consigo mesmo, sustentada pelo amor e pela responsabilidade, inclusive dos que não creem.
Curiosamente, essa mesma compreensão aparece de forma muito simples e concreta na sabedoria popular, ainda que sem o vocabulário filosófico ou teológico. No cotidiano, diz-se que alguém “existiu de verdade” quando deixou marcas. Quando uma família se reúne e alguém diz: “depois que ela/ele morreu, nunca mais fomos os mesmos”, está afirmando, ainda que intuitivamente, que aquela pessoa existiu de forma significativa. Não se trata da grandiosidade dos feitos, mas da profundidade da presença e da qualidade dos encontros.
Penso, por exemplo, naquela avó cuja cozinha era um lugar de acolhimento. Anos depois, seus netos ainda repetem as receitas, mas sobretudo repetem o gesto: reunir, cuidar, ouvir. Aquela mulher continua existindo na forma como aquela família se relaciona. Ou no professor que, décadas depois, ainda é reconhecido e citado como referência: “foi ele que me ensinou a pensar”. Muitos não se lembram necessariamente do conteúdo das aulas, mas da experiência de serem levados a refletir. No senso comum, existir é fazer falta quando se vai; é ser lembrado não por obrigação, mas por gratidão e amor.
A Inteligência Relacional se apresenta como uma síntese ética dessas tradições. Do seu ponto de vista, existir é gerar presença significativa nos vínculos e transformar essa presença em legado. Não basta estar biologicamente vivo; é preciso existir no outro. A existência se confirma naquilo que permanece depois do encontro: uma ideia, um valor, uma coragem despertada, uma pergunta que continua ecoando.
A Inteligência Relacional parte do pressuposto de que ninguém passa ileso pelo mundo. Todos causamos e recebemos impacto. A questão não é se impactamos, mas como impactamos e como lidamos com os impactos que causamos. Nesse sentido, existir é tornar-se consciente da marca que deixamos nas relações. Quando escolho ser autêntico, como sugerem Nietzsche e Kierkegaard; quando assumo responsabilidade, como propõe Sartre; quando respondo ao chamado do amor, como ensina o cristianismo; quando sou lembrado por ter feito diferença, como revela a sabedoria popular; quando enfrento o que é desumano, como Bonhoeffer o fez, é aí que minha existência se torna densa.
Existir, então, não é cumprir tabela, nem executar um destino pré-escrito. Existir é construir sentido no encontro. É reconhecer que a vida não traz um significado pronto, mas oferece a possibilidade de criá-lo por meio das relações. A Inteligência Relacional afirma que nos tornamos eternos não pelo tempo que vivemos, mas pela qualidade da presença que deixamos. O que permanece de nós não são os cargos, os títulos ou os bens, mas aquilo que ajudamos o outro a se tornar.
Assim, existir é relacionar-se com consciência. É assumir que cada encontro é uma oportunidade de gerar humanidade. E é nessa tessitura silenciosa dos vínculos que a existência encontra, enfim, o seu sentido mais profundo.
Existir, para mim, como já afirmei, não é apenas estar vivo biologicamente. É ter presença real e memorável. Presença em mim mesmo, consciência de quem sou, do que faço, do que escolho, e presença no outro, naquilo que deixo como marca, legado, memória. Nesse sentido, a existência não se encerra com a morte física; ela se prolonga porque “o que fazemos em vida, ecoa na eternidade” como disse o personagem Maximus Décimus Meridus, interpretado por Russell Crowe, no filme “Gladiador”.
Quando recito Fernando Pessoa, ele continua existindo. Quando leio um salmo atribuído a Davi, ele permanece vivo. Quando dialogo com Sócrates, Platão ou Aristóteles, ainda que separados de mim por milênios, suas ideias continuam me formando. Aristóteles dizia que o ser humano é um ser político, um ser de relação, constituído na pólis. Sócrates afirmava que uma vida não examinada não merece ser vivida, e examinar a vida é, essencialmente, examinar as relações que a tecem. Platão, por sua vez, nos ensinou que participamos do mundo das ideias na medida em que damos forma ao bem, ao belo e ao verdadeiro em nossas ações. Tudo isso aponta para uma mesma direção: existimos naquilo que compartilhamos, transmitimos e transformamos.
Essa lógica se manifesta de maneira ainda mais concreta na experiência da parentalidade. Continuo existindo nos meus filhos, geneticamente, sim, mas sobretudo simbolicamente. Eles carregam valores, gestos, modos de estar no mundo que lhes foram transmitidos não por discursos, mas por convivência. O mesmo acontecerá com meus netos, bisnetos, e assim sucessivamente. A ancestralidade é a prova viva de que existir é estar em relação no tempo.
O existencialismo, ao afirmar que a existência precede a essência, aprofundou essa reflexão. Kierkegaard, Nietzsche, Gabriel Marcel e, mais tarde, Jean-Paul Sartre, insistiram que o ser humano não nasce com um roteiro pré-definido. Não há um propósito dado que precisa apenas ser executado. Pelo contrário: é no exercício da liberdade, nas escolhas concretas e nos vínculos que estabelecemos que vamos construindo aquilo que somos.
Na perspectiva da Inteligência Relacional, essa afirmação ganha contornos ainda mais claros: não executamos um destino; construímos um legado. Não viemos ao mundo para cumprir uma tarefa eterna; criamos, no tempo, algo que pode atravessar a eternidade. Aquilo que realizo hoje, nos meus relacionamentos, pode permanecer quando eu já não estiver mais aqui.
Essa consciência transforma profundamente a forma como me posiciono diante da vida. A pergunta deixa de ser “qual é o meu propósito?” e passa a ser: o que estou construindo, nas minhas relações, que merece permanecer? O que faço que seja memorável, não no sentido da fama, mas da significação?
Certa vez, fui abordado por alguém que eu não reconhecia. Ele se apresentou como filho de um ex-aluno meu. Disse-me que havia escolhido cursar determinada disciplina porque ouvira, durante toda a infância, as histórias que seu pai contava sobre minhas aulas. Mais tarde, ele próprio se tornara pai e agora repetia essas histórias ao seu filho. Confesso que fiquei profundamente emocionado. Não porque me senti importante, mas porque compreendi, naquele instante, o que significa existir como relação: eu estava presente numa história que atravessava gerações.
O mesmo acontece com os livros e ensaios que escrevo. Eles não têm valor em si mesmos. Seu valor está na possibilidade de provocar reflexão, diálogo, deslocamento interior, ao longo do tempo e quando encontra acolhimento em quem os lê. Talvez alguém discorde do que escrevi; talvez critique. Ainda assim, o texto cumpre sua função se gerar pensamento. Hannah Arendt dizia que pensar é dialogar consigo mesmo. Se meus escritos ajudam alguém a sustentar esse diálogo interior, então minha existência ali, encontra sentido.
Vivemos tempos confusos. A quantidade de pessoas que vivem sem saber por que vivem é alarmante. O crescimento dos índices de suicídio é um sintoma trágico dessa perda de sentido. Muitas pessoas sentem que sua ausência não faria diferença alguma no mundo. Essa percepção é devastadora e profundamente relacional.
Quando a vida se reduz a cumprir tabela: acordar, trabalhar, consumir, dormir, sem consciência de legado, o mundo se torna um absurdo. Bauman chamou isso de modernidade líquida: relações frágeis, descartáveis, utilitárias. Byung-Chul Han fala de uma sociedade do desempenho, na qual o sujeito se explora até a exaustão, perdendo o sentido do encontro. As relações passam a ser utilitárias: o outro existe enquanto supre uma necessidade minha. Quando deixa de fazê-lo, é descartado. Essa lógica não apenas empobrece os vínculos; ela esvazia a própria existência.
A Inteligência Relacional propõe um caminho distinto, sustentado por alguns pilares fundamentais.
O primeiro é a autenticidade. Tornamo-nos memoráveis quando somos fiéis àquilo que somos. Michelangelo não se tornou burocrata; Freud rompeu com a medicina tradicional; Mozart recusou a mediocridade; Einstein desafiou os limites da física clássica. Independentemente de concordarmos ou não com suas ideias, todos eles permaneceram porque foram autênticos e permanecem nos legados que deixaram.
O segundo pilar é a escolha consciente. Existem relações naturais: família, ancestralidade, das quais não podemos escapar. Mas existem relações propositivas, escolhidas: amigos, parceiros, lugares, projetos. É nessas escolhas que se constrói grande parte do nosso legado.
O terceiro pilar é a consciência da presença. Existir é saber que estou presente naquilo que faço e comunico. É perguntar constantemente: o que as pessoas levam comigo depois do nosso encontro? Há encontros que nos esvaziam; outros que nos nutrem. Relações inteligentes são aquelas que deixam ambos maiores do que antes.
Assim, continuo firme na convicção que sustenta todo o meu trabalho e, porque não dizer, minha vida como aprendiz: a existência humana é essencialmente relacional. Não há existência fora do vínculo. Não há eternidade fora do legado. Existimos na medida em que tocamos, transformamos, nos deixamos tocar e somos transformados.
A Inteligência Relacional é uma ética da existência. Ela nos convida a viver com consciência do impacto que causamos, da memória que geramos, da história que escrevemos nos outros. Quando eu deixar de existir fisicamente, algo de mim permanecerá nas palavras que disse, nos gestos que fiz, nos vínculos que cultivei, no trabalho que exerci.
No fim, a pergunta que me foi feita retorna, agora mais madura e exigente: existir, a que que se destina? Destina-se a isso: a deixar marcas que humanizam, vínculos que libertam e memórias que permanecem. Porque, no fim das contas, existir é, e sempre será, relacionar-se, seja aqui ou na eternidade.
Reflitam em paz!

por Homero Reis
Esse é um segundo “ensaio” que escrevo sobre J.P.Sartre, mais especificamente sobre sua célebre frase “o inferno são os outros”. A citação aparece na sua peça teatral de 1944, intitulada Huis clos (em português, Entre Quatro Paredes ou Sem Saída). A frase é dita pelo personagem Garcin e, no contexto da peça, refere-se ao fato de que o sofrimento humano decorre, em grande parte, do julgamento, da expectativa e da influência que as outras pessoas exercem sobre nós, limitando a nossa liberdade e definindo a nossa imagem.
Escrevo movido por uma inquietação pessoal, mas que atravessa a história da filosofia, da psicologia e da teologia, e que, curiosamente, continua sendo vivida de forma ingênua, reativa e pouco reflexiva no cotidiano das pessoas: a relação entre o eu e o outro. Poucas frases provocaram tanto desconforto quanto esta afirmação de Sartre.
Sempre que retorno a ela, percebo que não se trata de uma sentença sobre convivência difícil ou antipatia cotidiana, mas de uma denúncia profunda sobre o modo como construímos nossa consciência, nossa liberdade e nossa responsabilidade diante do outro.
Sartre não falava de convivência trivial. Falava de existência. Falava do modo como o olhar do outro me constitui, me revela, me expõe e, muitas vezes, me ameaça. Sua frase, tantas vezes mal interpretada, não é um convite ao isolamento, mas um alerta severo: quando não elaboro minha relação comigo mesmo, o outro se torna um cárcere.
Essa inquietação não nasce em um vazio histórico. Sartre escreve sob o peso de duas guerras mundiais, do avanço do totalitarismo, da ocupação nazista da França, do colapso de valores humanistas que pareciam sólidos. Ele olha para o mundo e percebe que a barbárie coletiva nasce de microdinâmicas relacionais mal resolvidas. O que acontece nos campos de batalha começa, quase sempre, nas salas de estar, nos vínculos familiares, nos jogos silenciosos de poder e ressentimento. Hannah Arendt chamaria isso, anos depois, de banalidade do mal: o mal que não nasce de monstros, mas de pessoas incapazes de pensar criticamente sua relação com o outro.
Ao refletir sobre isso, percebo que Sartre não é um pessimista vulgar. Ele não anuncia o fim da esperança, mas denuncia a irresponsabilidade humana diante da liberdade. Como diria Nietzsche, “o homem é o animal que ainda não foi fixado”. Somos projeto, não produto acabado. E exatamente por isso, quando fugimos da responsabilidade de nos tornarmos quem somos, transformamos o outro em ameaça.
Desde Sócrates, sabemos que a vida não examinada não merece ser vivida. Mas o que raramente admitimos é que o exame de si passa inevitavelmente pelo encontro com o outro. Platão já intuía isso ao afirmar que o conhecimento de si é inseparável da vida na pólis. Aristóteles, por sua vez, diria que o ser humano é um ser de relações, de comunidade, de laços.
Não nascemos humanos prontos. Nascemos biologicamente viáveis, mas humanamente inacabados. É na relação que nos tornamos quem somos. É no conflito, no contraste, no espelhamento, que a consciência se estrutura. O outro me revela não apenas quem eu sou, mas também quem eu não sou. Essa diferença, quando não elaborada, dói. E quando dói, tende a ser evitada, atacada ou desqualificada.
Ao longo da minha trajetória, percebo três movimentos recorrentes quando alguém conclui, ainda que inconscientemente, que “o inferno são os outros”.
O primeiro é o isolamento. A pessoa decide que o problema está fora e que a solução é retirar-se. Silencia, afasta-se, constrói muros emocionais. Mas o que parece proteção logo se transforma em punição. Viktor Frankl nos lembra que o ser humano precisa de sentido, e o sentido nasce do encontro. O isolamento prolongado não gera paz; gera adoecimento. Já acompanhei pessoas brilhantes, tecnicamente competentes, que se perderam não por falta de talento, mas por ausência de vínculos significativos.
O segundo movimento é a agressividade. Aqui, o outro não é evitado, mas enfrentado como inimigo. Tudo vira disputa, confronto, prova de força. Freud me ensinou que, quando o ego se sente ameaçado, ativa mecanismos de defesa. A agressividade é apenas o medo mal elaborado. Uma sociedade agressiva é, no fundo, uma sociedade assustada. Byung-Chul Han diria que vivemos em uma cultura da positividade, onde não sabemos mais lidar com o limite, com o não, com a frustração, e por isso mesmo reagimos com violência simbólica. Haja visto a popularidade dos videogames onde se mata “por diversão” desde a infância.
O terceiro movimento é a desqualificação. O outro não é atacado frontalmente, mas esvaziado de dignidade. Ironia, sarcasmo, mentira, manipulação. É uma violência mais sofisticada, porém igualmente destrutiva. Aqui, o outro deixa de ser sujeito e passa a ser objeto do meu narcisismo, como alertava Erich Fromm ao falar da transformação do humano em coisa.
Em todos esses movimentos, o inferno não está no outro. Está na incapacidade de sustentar a própria interioridade diante da diferença.
Há um ponto decisivo que preciso afirmar com clareza: preciso do outro. Não como acessório, não como ameaça, mas como condição da minha humanidade. Jesus já havia intuído isso ao resumir toda a lei no duplo mandamento do amor: amar a Deus e ao próximo. Não há espiritualidade autêntica sem alteridade. C.S. Lewis diria que o amor não é um sentimento que surge espontaneamente, mas uma decisão que se aprende na convivência concreta, imperfeita e, muitas vezes, frustrante.
Quando afirmo que preciso do outro, não estou dizendo que preciso concordar com ele, nem estou construindo uma relação de dependência. Estou dizendo que preciso aprender a lidar com o que ele desperta em mim. Sartre estava correto ao afirmar que o olhar do outro me constitui. O problema não é ser visto; é não saber o que fazer com aquilo que o olhar do outro revela.
Ao longo da minha vida, percebi que as pessoas que mais me incomodaram foram, quase sempre, aquelas que tocaram em pontos meus ainda não elaborados. Aquilo que me tira do eixo raramente é apenas externo. É interno, projetado. Jung chamaria isso de sombra: aquilo que não integrei em mim e que, por isso, me assusta quando aparece no outro.
O ponto central da frase de Sartre é que quanto mais me conheço, menos ameaçador o outro se torna. O autoconhecimento não elimina o conflito, mas o ressignifica. Uma pessoa que sabe quem é não precisa transformar o outro em inimigo para afirmar sua identidade.
Aristóteles falava da virtude como hábito aprendido. Ninguém nasce virtuoso; torna-se. O mesmo vale para a convivência. Relacionar-se de forma inteligente é uma competência que se desenvolve. Quando compreendo minhas habilidades, minhas limitações, minhas fragilidades e meus medos, passo a olhar o outro não como ameaça, mas como diferença legítima.
Uso frequentemente uma metáfora simples: o leão e a zebra não são inimigos; fazem parte de um ecossistema. O problema é que o ser humano não aceita limites naturais. Ele precisa construir conscientemente suas próprias regras éticas. Quando não o faz, substitui ética por poder. Aí, vale qualquer coisa.
Paul Tillich dizia que o oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença. Quando desisto do outro, quando o reduzo a objeto, quando o ignoro ou o instrumentalizo, estou negando minha própria vocação humana.
É impossível relacionar-se sem ser afetado. Essa é uma ilusão infantil. A questão não é se serei afetado, mas como lidarei com o afeto. Kierkegaard já alertava que fugir da angústia é fugir da própria existência. O conflito não é sinal de fracasso relacional; é sinal de encontro real.
Aprender a conviver com a diferença exige maturidade emocional. Exige capacidade de escuta, de pausa, de reflexão. Exige tempo. Exige aceitar que o mundo não será moldado à minha imagem. Vivemos em mundos possíveis, não em mundos perfeitos.
Recordo-me de uma situação concreta em que, diante de uma discordância profunda com um colega, minha reação inicial foi de defesa. O corpo tenciona, a mente acelera, o ego se arma. Mas, ao sustentar o silêncio e a escuta, algo se transformou. A discordância não desapareceu, mas deixou de ser ameaça. Tornou-se aprendizado. Ali percebi que conversas inteligentes constroem relações inteligentes, e relações inteligentes sustentam sociedades menos violentas.
Chego, então, a um ponto que considero inegociável: o respeito é a base de toda relação saudável. Costumo dizer que o respeito é a taça delicada onde se derrama o líquido sagrado do amor. Sem respeito, o amor se degenera em posse, controle ou idealização.
Quando perdemos o respeito, construímos uma humanidade instrumental. Passamos a usar pessoas como meios para nossos fins. Kant já havia alertado para isso ao afirmar que o ser humano deve ser sempre tratado como fim, nunca como meio. Quando isso se perde, o outro vira inferno porque deixa de ser humano.
O respeito nasce do reconhecimento da dignidade do outro, independentemente de concordância. É aqui que a espiritualidade cristã, a filosofia clássica e a psicologia humanista se encontram. Amar não é sentir afinidade constante; é reconhecer valor intrínseco no outro.
Com isso, integro forma explícita, o conceito que estrutura todo o meu trabalho. Entendo Inteligência Relacional como a capacidade de cuidar de si, cuidar do outro e cuidar do vínculo, de forma consciente, ética e responsável.
Quando digo que “o inferno são os outros”, posso estar revelando apenas a ausência dessa inteligência. A Inteligência Relacional não elimina conflitos, mas impede que eles se tornem destrutivos. Ela nos ensina a transformar tensão em aprendizagem, diferença em crescimento, limite em sabedoria.
Uma pessoa emocionalmente resolvida não precisa vencer o outro; precisa compreendê-lo. Uma sociedade relacionalmente inteligente não se estrutura pela força, mas pela confiança. E a confiança nasce quando o medo deixa de governar as relações.
O inferno não são os outros. O inferno é a incapacidade de sustentar a própria humanidade diante da alteridade. O outro não é o problema; é o caminho. E quando aprendemos a trilhar esse caminho com respeito, consciência e amor, transformamos o inferno em possibilidade de redenção relacional.
Essa é, afinal, a aposta ética e existencial da Inteligência Relacional: não negar o conflito, mas humanizá-lo; não negar o outro, mas compreendê-lo; não fugir da diferença, mas aprender com ela. É assim que seguimos, juntos, construindo mundos possíveis, mais conscientes, mais dignos e mais humanos.
Reflitam em paz!

por Homero Reis
Há histórias que habitam o silêncio. Elas não estão nos fatos que narramos, nem nas lembranças que exibimos como medalhas ou cicatrizes. Estão no que omitimos, no que esquecemos de mencionar, no que julgamos pequeno demais para ser contado. Essas histórias invisíveis, porém, são as que mais nos definem. Elas agem nas entrelinhas da nossa consciência, moldando gestos, sussurrando escolhas, assinando, sem nossa permissão, a versão que apresentamos de nós mesmos, ao mundo.
Desde sempre, aprendemos que contar nossa história é um ato de poder. Mas será que percebemos que o que deixamos de contar tem um poder ainda maior? Aquilo que silenciamos, por medo, por hábito, por desconhecimento, continua a agir. Transforma-se em pressuposto, em reação automática, em verdade não examinada. Enquanto nos preocupamos com a coerência da narrativa que construímos, é na periferia dessa narrativa que nossa identidade verdadeira se esconde, tecida por detalhes que julgamos irrelevantes, por emoções que não soubemos nomear, por relações que consideramos acidentais.
A consciência é uma construção social, mediada pela linguagem. No entanto, antes mesmo das palavras, há o não dito. Há o olhar que interpretou, o gesto que acolheu ou rejeitou, o tom de voz que ensinou o que era seguro ou perigoso.
Esses mediadores silenciosos, muitas vezes nem sequer lembrados, são os verdadeiros autores dos primeiros capítulos da nossa história. Eles não nos contaram apenas como ver o mundo; nos contaram, sobretudo, o que não ver, o que não questionar, o que não sentir.
Freud investigou os recalques; Nietzsche desconfiou das interpretações que confortam. Mas há uma camada anterior a ambas: a das histórias que nunca chegaram a se formar como narrativas. São fragmentos de experiência que, por falta de linguagem, por falta de testemunha, por falta de permissão simbólica, permaneceram à sombra. E é nessa sombra que mora o EU que acreditamos ser espontâneo.
Viver com inteligência relacional, não é apenas aprender a contar melhor a própria história. É, antes, aprender a escutar os próprios silêncios. É perguntar-se: o que esta memória esconde por trás do que ela mostra? O que esta emoção quer dizer que ainda não foi dito? O que esta relação me ensinou sem jamais ter falado? A tarefa não é preencher o vazio com mais palavras, mas iluminar o espaço entre elas, aquele mesmo espaço silencioso, invisível e poderoso onde a interpretação nasce e, sem que percebamos, nos assina.
Talvez a maior liberdade não esteja em reescrever o passado, mas em reler o que nunca foi escrito. É na lacuna entre o vivido e o narrado que encontramos a assinatura dos mediadores que nos formaram, e, ao encontrá-la, podemos finalmente, com tremor e coragem, assumir a pena. O futuro não começa quando mudamos a história que contamos; começa quando ouvimos, pela primeira vez, a história que sempre esteve lá, esperando apenas por uma testemunha.
Por isso escrevo a partir de uma convicção existencial: não sou apenas aquilo que vivi; sou, sobretudo, a forma como aprendi a narrar o que vivi. Entre os fatos que me atravessaram e o sentido que atribuí a eles existe um espaço silencioso, invisível e poderoso: o espaço da interpretação. É nesse espaço que a minha história deixa de ser apenas biográfica e se torna ontológica. É ali que eu passo a existir como sujeito.
Desde muito cedo, percebi que as pessoas contam poucas histórias sobre si mesmas, escolhidas intencionalmente, com consciência ou não, apesar de terem vivido milhares delas. Há fatos que se perdem no tempo, outros que se apagam por desuso, e alguns que retornam insistentemente, como se exigissem ser repetidos. Perguntei-me, então, por que conto as histórias que conto a meu respeito? Essa pergunta, simples à primeira vista, tornou-se uma das mais transformadoras da minha vida intelectual e relacional.
Na Psicologia Histórico-Cultural de Lev Vygotsky encontrei uma chave decisiva para essa reflexão. Para ele, a consciência não nasce pronta nem é produto exclusivo da interioridade; ela se constitui nas relações sociais e se expressa por meio da linguagem. Eu não penso sozinho; eu aprendo a pensar com outros. Não interpreto o mundo de forma autônoma desde o início; sou ensinado a interpretá-lo. Antes de dizer “eu”, alguém me disse quem eu era.
Essa constatação desloca radicalmente a ideia moderna de sujeito autossuficiente. O sujeito se torna autônomo, mas nunca autossuficiente. Sócrates já intuía isso ao afirmar que a vida não examinada não merece ser vivida. Mas o exame de si, longe de ser um monólogo interior, é sempre um diálogo mediado. Platão colocou esse diálogo no centro de sua filosofia; Aristóteles mostrou que o homem é um animal político, constituído na pólis. Vygotsky, séculos depois, traduziu essa intuição filosófica para o campo psicológico: eu me torno quem sou na trama das relações.
Quando falo da minha história, falo de fatos e de interpretações. Os fatos são irrecusáveis: aconteceram, acontecem. Não posso mudar a surra que levei, a perda que vivi, o medo que senti, o erro que cometi. Mas posso, e devo, revisitar o sentido que atribuí a esses acontecimentos. Viktor Frankl compreendeu isso de forma magistral ao afirmar que, mesmo quando não podemos mudar uma situação, somos chamados a mudar a nós mesmos diante dela. A liberdade humana começa na interpretação.
Conto as histórias que conto porque elas funcionam. Funcionam para me proteger, para justificar minhas escolhas, para sustentar uma identidade coerente. Ninguém é vilão em sua própria narrativa. Freud já havia alertado para os mecanismos de defesa que organizam nossa memória e nossa linguagem. Nietzsche foi ainda mais contundente: não existem fatos, apenas interpretações. O que chamamos de história pessoal é, muitas vezes, uma construção defensiva contra o caos da existência.
A linguagem, nesse contexto, não é apenas meio de expressão; é ferramenta de constituição do eu. É por meio dela que desenvolvemos aquilo que Vygotsky chamou de funções psíquicas superiores: pensar, refletir, projetar o futuro são atos linguísticos antes de serem atos mentais. A história que conto a meu respeito não apenas descreve quem sou; ela molda quem me torno.
Aprendi isso também pela vida. Nasci e vivi minha infância em uma fazenda. Convivi com animais grandes, com a terra, com o ritmo da natureza. Passei por baixo de vacas, montei a cavalo muito antes de saber explicar o que era coragem, nadei em rios antes de saber nadar, brincava na mata. Não me lembro de ter aprendido essas coisas; simplesmente as vivi. Meus pais nunca interpretaram aquele ambiente como perigoso. Para eles, aquele era o mundo. E porque eles o interpretaram assim, eu o vivi assim.
Hoje, observo meus filhos e netos e percebo o contraste. Crianças urbanas, cercadas por mediações artificiais, por cuidados excessivos, por medos transmitidos. Não se trata de julgar qual mundo é melhor. Trata-se de compreender como os mediadores interpretam a realidade e, ao fazê-lo, ensinam a viver. O medo, quando mediado, se torna professor ou carcereiro. A coragem, quando ensinada, pode libertar ou expor.
Vygotsky chama essas figuras de mediadores culturais. São eles que interpretam o mundo para quem chega. Pais, professores, líderes, comunidades inteiras. Antes de termos autonomia suficiente para reinterpretar a realidade, vivemos sob o olhar de outros. Kierkegaard diria que esse é o estágio estético e ético da existência, anterior à escolha consciente de si. Tornar-se adulto é assumir a tarefa de reinterpretar o mundo que nos foi dado e ter a coragem de viver nele.
Essa tarefa, no entanto, não é simples. Somos profundamente moldados pelo contexto histórico-cultural. O modo de vida, aquilo que Vygotsky chama de cultura, seleciona as relações que consideramos possíveis. Tendemos a nos aproximar de quem vive como nós. Bauman mostrou como, na modernidade líquida, buscamos relações que confirmem nossas narrativas, evitando o desconforto da diferença. A Inteligência Relacional nasce justamente da disposição de escutar outros mediadores.
Há também a dimensão comunitária da emoção. Cada comunidade desenvolve uma emocionalidade dominante. Comunidades guerreiras formam guerreiros; comunidades pastorais formam cuidadores. Atenas e Esparta são exemplos clássicos dessa diferenciação. Byung-Chul Han, ao analisar a sociedade do desempenho, mostra como a emocionalidade contemporânea é marcada pela exaustão e pela auto exploração. Somos filhos emocionais de nosso tempo.
Eric Berne acrescenta outra camada a essa compreensão ao falar da Análise Transacional. Para ele, a relação com o pai do sexo oposto influencia nossas escolhas de conteúdo; a relação com o pai do mesmo sexo influencia nosso modo de ser. Ao olhar para minha própria história, reconheço essas marcas. Mas reconheço também algo ainda mais importante: nenhuma dessas influências é determinante. Elas são condicionantes, não sentenças.
Aqui reside um ponto decisivo da Inteligência Relacional: a capacidade de ressignificar a própria história. Tornar-se adulto, do ponto de vista relacional, é assumir a autoria da própria narrativa. É deixar de ser apenas personagem e tornar-se narrador. Hannah Arendt dizia que a ação humana inaugura algo novo no mundo. Ressignificar a história é um ato político e ético.
Jesus expressou isso de forma radical ao falar de conversão: metanoia, mudança de mente, de olhar, de narrativa. Não se trata de apagar o passado, mas de redimi-lo. C.S. Lewis diria que Deus não desperdiça sofrimento; ele o reescreve. Paul Tillich falaria da coragem de ser, mesmo diante da angústia do não-ser.
A Inteligência Relacional, núcleo do meu trabalho, nasce desse ponto de interseção entre história, linguagem e liberdade. Relações inteligentes exigem consciência da própria narrativa e abertura para a narrativa do outro. Exigem escuta, responsabilidade e humildade epistemológica. Exigem reconhecer que minha história me define, mas não me aprisiona.
Quando ressignifico minha história, liberto-me dela sem negá-la. Abro espaço para novas formas de relação, novos futuros possíveis. O futuro, afinal, não é algo que acontece; é algo que se decide. E toda decisão começa na forma como conto e reconto a minha própria história.
Essa é, para mim, a tarefa ética da Inteligência Relacional: ajudar pessoas e comunidades a tornarem-se autoras de suas narrativas, sem romper com suas tradições e histórias, mas também sem se tornarem prisioneiras dela. É nesse movimento que a vida deixa de ser repetição e se torna criação.
Percebo, quase com espanto, que não sou apenas alguém que viveu coisas, mas alguém que aprendeu a explicá-las a si mesmo. Esse momento não chega de uma vez; ele se insinua lentamente, como uma pergunta incômoda que retorna: por que reajo sempre do mesmo modo? por que certas histórias insistem em voltar? por que algumas memórias ganham estatuto de verdade absoluta enquanto outras permanecem silenciosas?
Esse movimento de despertar da consciência não é ainda sabedoria, mas já é inquietação. E toda inquietação verdadeira nasce do encontro entre a experiência vivida e a suspeita de que a narrativa que construí sobre ela talvez não seja a única possível.
Platão, em sua alegoria da caverna, descreveu magistralmente esse processo. Os prisioneiros não estão acorrentados apenas fisicamente, mas narrativamente. Eles aprenderam a chamar sombras de realidade. O drama não é a escuridão em si, mas a familiaridade com ela. Algo semelhante acontece com a história de vida: tornamo-nos prisioneiros das narrativas que aprendemos a repetir, não porque sejam verdadeiras, mas porque são conhecidas. A libertação, como na caverna, dói. Exige desaprender.
Aristóteles acrescenta que esse processo não acontece fora da pólis. Não é no isolamento que revisito minha história, mas na relação. É no confronto com outros modos de vida que percebo o quanto o meu é contingente. Aquilo que chamo de “normal”, “natural” ou “óbvio” quase sempre é apenas o nome sofisticado do costume. A história que me contam é, antes de tudo, uma história socialmente aprendida.
A Psicologia Histórico-Cultural, ao revisitar esse tema, desmonta qualquer ilusão de neutralidade subjetiva. Minha consciência não é um dado, é uma construção. Ela nasce mediada por palavras, por gestos, por emoções emprestadas. Antes de eu sentir medo, alguém nomeou algo como perigoso. Antes de eu desejar, alguém me mostrou o que era desejável. Antes de eu me definir, alguém me descreveu.
Mas Freud ainda acreditava que, ao trazer à consciência os conteúdos reprimidos, alcançaríamos certa liberdade. Nietzsche foi mais radical: ele desconfiava da própria consciência. Para ele, nossas narrativas morais, nossas histórias de sentido, muitas vezes não passam de estratégias para tornar suportável aquilo que não ousamos encarar. A história que conto pode ser menos um caminho de verdade e mais um pacto com a minha própria covardia.
Essa suspeita é desconfortável, mas libertadora. Porque se a minha história é uma construção, ela pode ser reconstruída. Viktor Frankl levou essa intuição ao limite ao afirmar que a última das liberdades humanas é escolher a atitude diante das circunstâncias. Não se trata de negar o sofrimento, mas de recusar que ele tenha a última palavra sobre quem me torno. A história que me contam não precisa ser uma sentença.
Percebo isso com nitidez quando olho para os casos concretos da vida. Conheci pessoas que viveram infâncias duríssimas e fizeram disso uma narrativa de vítima perpétua. Conheci outras que viveram histórias semelhantes e transformaram essas mesmas experiências em fonte de empatia, cuidado e maturidade. Os fatos não explicam sozinhos as escolhas, nem os resultados. É a interpretação mediada, aprendida, reiterada que organiza o futuro.
Kierkegaard me acompanha de perto. Ele dizia que o desespero não é não ser quem se é, mas não querer sê-lo. Muitas pessoas vivem desesperadas não porque sofreram, mas porque se recusam a revisitar o sentido do que sofreram. Preferem a repetição conhecida ao risco da liberdade. Tornam-se fiéis à própria dor, como se ela fosse a última prova de identidade.
Esse apego à narrativa também é comunitário. Não sofremos sozinhos; sofremos em culturas que ensinam como sofrer. Bauman mostrou como a modernidade líquida dissolve vínculos, mas não dissolve o medo. Apenas o redistribui. Hoje, aprendemos a contar histórias de desempenho, de sucesso, de fracasso individual. O sofrimento deixa de ser destino compartilhado e se torna falha pessoal. A história que me contam, nesse contexto, costuma ser cruel: se não deu certo, a culpa é sua.
Aprendemos a contar histórias que produzem sujeitos exaustos, adoecidos não pela opressão externa, mas pela auto cobrança excessiva. A narrativa dominante já não é a do inimigo externo, mas a da insuficiência interna. Não sou impedido; sou inadequado. Essa história, quando internalizada, corrói as relações, porque transforma o outro em espelho de cobrança, não em espaço de acolhimento.
Por isso, manter um relacionamento inteligente comigo mesmo se torna não apenas um conceito, mas uma necessidade ética. Relações inteligentes exigem uma ruptura com narrativas únicas. Exigem a coragem de contar outras histórias internas e de escutar outros mediadores. Quando escuto alguém de outra geração, de outra cultura, de outra história emocional, descubro que o meu modo de contar não é universal. Ele é situado. Ele é histórico.
Essa escuta, no entanto, não é espontânea. Ela precisa ser aprendida. Aqui volto à minha própria história. Quando observo a diferença entre a forma como vivi minha infância e a forma como meus netos vivem a deles, não faço um julgamento moral. Faço um diagnóstico histórico. São mundos distintos, mediadores distintos, medos distintos. O erro é absolutizar qualquer um deles. A maturidade está em reconhecer que cada história forma e deforma ao mesmo tempo. Descubra outras histórias sobre si, e descobrirá outras formatações possíveis de ser.
Essas formações se cristalizam nos papéis que desempenhamos. A relação com as figuras de autoridade estrutura não apenas escolhas, mas modos de existir. Eric Berne, diante disso, não fala de destino. Ele fala de roteiro, e todo roteiro pode ser reescrito. A tragédia começa quando confundimos roteiro com essência.
Hannah Arendt dizia que nascer é iniciar algo novo no mundo. Mas essa natalidade não se esgota no nascimento biológico. Ela se renova sempre que ouso agir de modo diferente do esperado. Ressignificar a história é um ato de natalidade tardia. É permitir que algo novo comece, mesmo quando tudo parece já decidido.
Na teologia cristã temos uma contribuição decisiva. Jesus não nega a história das pessoas que encontra; ele a relê. Ao cego, não pergunta quem pecou. À mulher adúltera, não reduz sua identidade ao erro. A narrativa que ele propõe é sempre libertadora: vai e não peques mais. Não é apagamento do passado, é abertura de futuro. Paul Tillich chama isso de graça: ser aceito apesar de ser inaceitável e, a partir daí, poder mudar.
C.S. Lewis dizia que Deus sussurra em nossos prazeres, fala em nossa consciência e grita em nossas dores. Talvez a dor seja o ponto em que a história que contamos deixa de funcionar. E isso, paradoxalmente, é uma boa notícia. Quando a narrativa falha, abre-se o espaço da revisão. O sofrimento, então, deixa de ser apenas peso e se torna convite.
É exatamente esse convite que a Inteligência Relacional assume como método. Ajudar pessoas a revisitar suas histórias não para negá-las, mas para libertá-las de leituras estreitas. Ensinar que toda relação é um encontro entre narrativas e que conflitos muitas vezes não são choques de valores, mas de histórias não examinadas.
Ao longo da vida, aprendi que amadurecer não é esquecer o passado, mas fazê-lo parar de governar o presente. É assumir que a história que me contam explica muito, mas não explica tudo. A história que acredito me conforta e promove ganhos secundários. Mas sou mais do que isso. Sou histórias não contadas. O futuro, afinal, não é uma consequência automática do passado; ele é uma decisão tomada no presente. E essa decisão começa sempre pela narrativa que escolho habitar.
Se existe uma tarefa central no meu trabalho com o relacionamento das pessoas, é essa: convidar pessoas a tornarem-se autoras responsáveis de suas histórias. Não vítimas, não heróis, não vilões, autores. Porque somente quem assume a autoria da própria narrativa pode sustentar relações mais livres, mais éticas e mais humanas.
E talvez seja isso, no fim, que significa viver com sabedoria: não permitir que a história que me contaram e a história que escolhi contar, silencie a história que ainda posso escrever.
Reflitam em paz!

por Homero Reis
Há muitos anos venho percebendo que todo trabalho envolvendo relacionamentos humanos começa e termina numa tensão fundamental: o cuidado. Não apenas o cuidado de si, tão celebrado pelas éticas clássicas, nem tampouco apenas o cuidado do outro, tão enfatizado pelas tradições religiosas e comunitárias, mas a interação delicada entre ambos. Com o tempo, aprendi que não posso cuidar do outro se não sei cuidar de mim; e não posso cuidar de mim se não reconheço que o outro possui a mesma legitimidade existencial que reivindico para minha própria vida. Na verdade, todos nós somos igualmente livres, legítimos, autônomos e diferentes.
Essa é a razão pela qual essa reflexão nasce: compreender, à luz dos inúmeros saberes que formam minha identidade e da própria vida ordinária, aquilo que sintetizo na expressão: “Cuide de você, cuide do outro.” A relação entre esses dois polos forma o campo onde se desenvolve a Inteligência Relacional, esse espaço onde eu e você deixamos de ser apenas indivíduos isolados e nos tornamos cocriadores de algo que emerge entre nós.
Como dizia Jesus, “a árvore se conhece pelos frutos”; e talvez a árvore de cada relação seja conhecida precisamente pelos frutos do cuidado. Aquele cuidado que nasce de dentro e aquele que se estende para fora.
Quando iniciei meus estudos sobre educação, ainda no mestrado pesquisando Jean Piaget e Rubem Alves, senti que eles me ofereciam uma chave interpretativa surpreendentemente poderosa para pensar não apenas o desenvolvimento cognitivo, mas também o desenvolvimento inteligente dos relacionamentos humanos. Piaget nunca pretendeu formular uma teoria das relações, muito menos o Rubem; mas, ao estuda-los, percebi em suas obras, como construímos o conhecimento relacional e isso acabou por revelar algo essencial sobre como construímos vínculos.
O modo construtivista de Piaget, tão criticado e tão admirado, aponta que o ser humano se desenvolve em estágios, e que cada estágio estabelece o horizonte do que é possível compreender. Assim como uma criança de cinco anos não possui aparato cognitivo para a matemática abstrata, nós também não possuímos, em determinados momentos da vida, os instrumentos emocionais, éticos e relacionais para compreender certas nuances das pessoas e das situações. Vamos aprendendo à medida que crescemos, desaprendendo certos egocentrismos e abrindo espaço para percepções mais amplas.
No início da vida, afirma Piaget, a criança não distingue entre si e a mãe; há uma fusão epistêmica e afetiva. Depois, aos poucos, ela percebe que há um outro. Só que, mesmo quando reconhece essa diferença, ela ainda pensa o mundo de maneira egocêntrica: tudo existe porque ela existe; tudo orbita ao seu redor como um pequeno Sócrates que ainda não reconheceu o limite da própria ignorância. Só mais tarde ela compreende que o outro possui existência própria, independência, desejos, medos, significados, e que esses elementos não dependem do que ela pensa ou deseja.
Piaget nunca disse isso nesses termos, mas eu percebo sua teoria como uma convocação ética: crescer é abandonar a fantasia narcísica de que o mundo é extensão do meu eu.
Aristóteles, dois milênios antes, já intuía esse movimento: a phronesis, a sabedoria prática, surge quando reconhecemos as circunstâncias do mundo e dos outros, regulando nosso agir segundo a justa medida. E a justa medida é sempre relacional: nem eu demais, nem o outro de menos.
Por sua vez, Rubem me ensinou que tudo o que descubro sobre mim precisa ser ampliado para reconhecer a mesma legitimidade no outro. Se desejo dignidade para mim, devo reconhecê-la neles; se busco respeito, preciso admiti-lo para eles; se reclamo por espaço, devo considerar que os outros também precisam respirar.
Não há nada de errado em ter fome de vida, desejo de realização, defesa do próprio espaço. Nietzsche, tão mal interpretado sobre esse aspecto, recorda que toda força vital quer expandir-se. A criança corre no parquinho, agarra o brinquedo do outro, disputa território. Ali se expressa a centelha dionisíaca da vida: elemento vital, irracional e criativo que é a fonte profunda da grande arte (encontro com o sublime), e de uma existência plena. É o antídoto contra uma vida reduzida ao racionalismo estéril, ao niilismo passivo e à negação dos instintos. Reacendê-la seria uma forma de renascimento cultural e fortalecimento do espírito humano. Mas, sem limites, essa centelha vira incêndio.
Durante minha pesquisa de base, passei muito tempo observando e descrevendo crianças convivendo e brincando nos parquinhos da cidade e das escolas. Com elas aprendi que nos anos iniciais da vida, ainda não se compreende o conceito de posse; para elas, o brinquedo do outro é tão seu quanto o próprio. Não porque sejam más, mas porque ainda não diferenciam a interioridade da exterioridade. Ambas querem o mesmo carrinho, a mesma bola, e rapidamente o jogo vira disputa. Isso se chama “desejo mimético”. Tema que discorri em outro ensaio.
Nessas horas, cabe ao adulto o papel de mediador do equilíbrio. O adulto não suprime o desejo da criança, porque suprimir desejo é adoecer a infância; mas impede que um desejo destrua o outro. Freud diria que é nessa contenção amorosa que nasce o eu civilizado, aquele que percebe que o mundo não é extensão dos seus impulsos. Em minhas atividades como educador, sempre repeti a mim mesmo esse princípio: permitir a luta, impedir o abuso.
Esse é um dos núcleos do cuidado: proteger a potência da criança sem transformar essa potência em tirania. Quando o adulto falha nisso, a criança cresce acreditando que sua vontade é lei, e daí surgem os adultos que explodem contra guardas de trânsito, garçons, vizinhos, colegas, o mundo inteiro… como se cada interação fosse um ataque pessoal.
Byung-Chul Han diria que vivemos na “sociedade do cansaço”, onde cada um está tão encapsulado em sua própria subjetividade que qualquer atrito se torna intolerável. Não porque o outro seja realmente ameaçador, mas porque eu já não sei lidar com o fato de que o outro não sou eu.
Impressiona-me observar como algumas pessoas parecem levar tudo para o plano pessoal. O guarda de trânsito pede para mudar o carro de lugar: pronto, é uma ofensa. O professor corrige a tarefa: é humilhação. O colega dá feedback: é perseguição. Não há relação, só reação.
Kierkegaard talvez dissesse que é a angústia do eu que não suporta o espelho do outro. Arendt diria que é a incapacidade de pensar, porque pensar, para ela, é sempre dialogar com a alteridade dentro de nós.
Esse egocentrismo adulto é, no fundo, um resíduo infantil não elaborado. Uma criança que não aprendeu a reconhecer a legitimidade do outro cresce acreditando que toda negação é desrespeito, toda fronteira é agressão, toda orientação é ataque. Assim, o outro se torna inimigo antes mesmo de ser pessoa.
Mas o problema não é a irritação, e sim a tirania, aquela posição subjetiva de quem acredita que o mundo deve funcionar exatamente como ele deseja. E tirania, diz Hannah Arendt, nasce sempre da incapacidade de reconhecer o outro como um sujeito equivalente. Para isso, preciso me cuidar. Porque, se não cuido da minha própria saúde emocional, a mínima frustração se torna tempestade.
Aprendi com Piaget, e mais tarde com Vygotsky, que ninguém cresce sozinho. O desenvolvimento humano é sempre uma construção compartilhada; nasce da interação, do conflito produtivo, da frustração equilibrada, do apoio que não infantiliza e da autonomia que não abandona.
Nas comunidades antigas, penso nas tribos africanas, nos clãs hebraicos, nas aldeias gregas, a educação era responsabilidade de todos. Era a paideia grega: o cultivo integral do ser humano como tarefa da pólis (cidade-estado na Grécia Antiga, uma comunidade política autônoma). Nelas, não existia essa ideia moderna de “não toque no meu filho”. A criança pertencia à comunidade, e a comunidade a moldava porque a educação era um fenômeno societário e uma responsabilidade coletiva.
Certa vez, vi uma criança à beira de um lago profundo, num dos parques que costumava frequentar. A criança estava numa situação perigosa. Então aproximei-me e lhe pedi que afastasse daquele lugar. Nesse momento, sua mãe, questionou-me com muita indignação: – “Quem é você para corrigir meu filho?”
Respondi-lhe, com doçura e firmeza: “Sou um adulto. Sou parte da sociedade que o acolhe. Sou alguém que deseja que ele cresça íntegro. Isso me dá responsabilidade, não autoridade absoluta, mas responsabilidade partilhada.”
Jesus também ensinava isso quando dizia: “Somos sal da terra e luz do mundo”. O sal não tempera só a si mesmo; a luz não ilumina só o próprio corpo. Ser pessoa é ser para o outro.
Há um equívoco recorrente na vida adulta: achar que tudo é pessoal.
Quando alguém me pede algo num espaço público, como estacionar melhor, falar mais baixo, reorganizar uma fila, isso raramente é sobre mim. Trata-se do funcionamento comunitário, das regras tácitas que sustentam a vida em sociedade.
Aristóteles dizia que somos “animais políticos”, seres da comunidade. Mas esquecemos isso, e entramos na lógica da bolha individual: ninguém pode me dizer nada, ninguém pode corrigir nada, ninguém pode discordar. É a morte do diálogo, e, como lembraria Platão, sem diálogo, a verdade morre sufocada no ruído dos egos. Do ponto de vista prático, reconheço que muitos conflitos não são conflitos. São apenas tensões de convivência interpretadas por uma subjetividade ferida e por uma percepção relacional equivocada. Isso porque não nos é ensinado na vida moderna, o papel sócio-comunitário da educação para os relacionamentos na coletividade.
Guardo com nitidez uma cena de muitos anos atrás. Fui morar numa rua muito tranquila, onde também residia um vizinho conhecido pelos demais como “problemático”: brigas, discussões, agressividades eram comuns entre ele e os demais. Eu não o conhecia; apenas ouvia rumores.
Um dia, ao entrar na rua, sua filha pequena a atravessou correndo diante do meu carro. Consegui frear a tempo. Nada aconteceu. Ela nem percebeu. Mas o pai viu e veio até mim aos berros: “Seu idiota! Você não sabe dirigir?”, esbravejou. Eu poderia ter respondido no mesmo tom. Talvez fosse o “justo”. Talvez fosse o “lógico”. Mas, naquele instante, alguma sabedoria silenciosa, talvez uma lembrança de Tillich sobre a coragem de ser, falou dentro de mim. Abaixei o vidro e lhe disse: – “Você tem razão. Me desculpe. Como posso reparar isso? Me perdoe. Eu deveria ter entrado ainda mais devagar.” Algo desarmou naquele homem. A tirania evaporou-se. Ele murmurou: “Essas crianças são distraídas… A gente vive preocupado. Desculpe meu jeito.”
Ao chegar em casa, encontrei sua filha brincando alegremente com a minha.
Os anos seguintes nos tornaram amigos. Hoje rimos daquele dia, como quem reconhece que a paz começa sempre no coração de alguém que decidiu desarmar o próprio ego. Frankl está certo: entre o estímulo e a resposta há um espaço, e nesse espaço reside a nossa liberdade de construir o novo.
É impossível cuidar de outra pessoa quando estou tomado pela minha própria confusão interna. Se estou exausto, ansioso, ferido, irritado ou inseguro, tudo o que o outro fizer se tornará uma ameaça, um incômodo, um desafio à minha identidade.
C.S. Lewis observou que “as dores não transformadas se transformam em dores transmitidas”. Aquilo que não cuido em mim, despejo no outro. Por isso, cuidar de mim não é egoísmo; é responsabilidade. É o que Fromm chamaria de amor maduro, aquele que nasce da auto-aceitação e se estende como oferta, não como carência.
Jesus dizia: “Ame ao próximo como a si mesmo.” Essa conjunção como, ensina-me que a medida do amor ao próximo é a forma como cuido da minha própria interioridade. Nietzsche, do outro lado do espectro, também dizia que precisamos aprender a nos tornar quem somos, e isso implica não projetar nossa sombra sobre o outro.
Cuidar de mim é reconhecer minhas fases, meus limites, minhas dores, minha história. É entender como funciono psicológica, emocional e cognitivamente. É perceber quais padrões me ajudam e quais me sabotam. Quando faço isso, torno-me capaz de ver o outro com mais nitidez, não como ameaça, mas como presença.
Martin Buber dizia que o verdadeiro humano nasce quando digo “Tu”. Quando reconheço o outro como sujeito e não como objeto. Piaget, sem usar essa linguagem, também afirmava que crescemos quando percebemos que o outro possui legitimidade equivalente à minha. Rubem, vai mais além ao dizer, que encontrar o outro é uma prática ética, afetiva e poética de acolhimento, escuta e diálogo, que nos humaniza e nos liberta do isolamento. Em “A Arte do Encontro” ele diz: “Encontrar o outro é aceitar que ele é um mistério inesgotável. Ao aproximarmos dele, devemos fazê-lo com curiosidade poética, não com vontade de dominar ou explicar totalmente sua essência. O outro é também parte do inefável”.
A partir dessa compreensão, nasce aquilo que chamo de Espaço Reflexivo da Aprendizagem, descrito em outro ensaio; esse espaço entre eu e você que não é meu nem seu, mas que só existe porque ambos decidimos construí-la. Ali, nossas subjetividades trocam, nossas narrativas se aproximam, nossos pontos cegos se iluminam. É nesse espaço que se forma a Inteligência Relacional.
Tenho sido aprendiz ao longo de décadas de trabalho e convivência humana. Não tem sido fácil sê-lo porque tenho um natureza “mais rebelde” do que gosto de reconhecer. Mas, a duras penas, tenho entendido que cuidar de mim é a porta de entrada para cuidar do outro. E cuidar do outro é a prova prática de que cuidei bem de mim. E esse tem sido meu desafio porque “cuidar do outro” é o alicerce de todo o meu trabalho.
Quando me percebo como processo, em constante desenvolvimento, com estágios, limites, potencialidades, reconheço que o outro também é processo. Ele também está crescendo, errando, aprendendo. Ele também passa por fases, como ensinou Piaget. Ele também luta contra sombras internas, como diria Jung. Ele também carrega dores que não conheço, como lembraria Frankl. Ele também é filho de uma história, como explicaria Ricoeur.
A Inteligência Relacional nasce exatamente dessa consciência dupla: Eu sou legítimo. O outro é igualmente legítimo. A relação é o espaço onde nossas legitimidades se encontram, negociam e amadurecem. Quando ultrapasso meus limites, transformo minha dor em tirania e destruo esse espaço. Quando reconheço a legitimidade do outro e regulo minha presença, fortaleço o espaço. Quando amadureço, permito que a relação amadureça.
Por isso digo, e repito, que cuidar de mim é um ato político, ético, espiritual e filosófico. É aquilo que Sócrates chamaria de “cuidar da alma”. É aquilo que Jesus chamaria de “o cumprimento da lei”. É aquilo que Arendt chamaria de “preservar o mundo comum”. É aquilo que a psicologia chamaria de autorregulação. É aquilo que minha própria experiência chama de caminho para a paz.
E cuidar do outro? Cuidar do outro é reconhecer que ele também é parte constitutiva da minha existência. Como disse Buber, “o Eu só existe a partir do Tu”. Somos coautores do mundo que compartilhamos. E, nesse mundo, o cuidado funciona como a argamassa invisível que mantém as estruturas relacionais em pé.
Cuide de você. Cuide do outro. Porque a vida não é batalha de egos, mas construção de encontros. E toda relação inteligente começa quando aprendemos a honrar essa construção.
Reflitam em paz!

Por Homero Reis
Viver é, inevitavelmente, relacionar-se. Desde cedo descobri que não existe gesto humano que não seja atravessado pela presença do outro: sua palavra, seu silêncio, seu desejo, seu medo, sua ausência. Porém, durante muito tempo, busquei explicar essas relações por categorias excessivamente técnicas, quase como se os vínculos humanos fossem sistemas que pudessem ser desmontados, descritos e remontados com precisão de engenharia. Mais tarde, compreendi que essa expectativa não fazia jus ao que Hannah Arendt chamava de condição humana: somos seres de ação, imprevisíveis, inauguradores do novo, e é por isso que nossas relações nunca cabem inteiramente em esquemas ou algoritmos.
Também Jesus, em sua simplicidade contundente, ensinava que “o vento sopra onde quer” (Jo 3:8), lembrando-nos da inevitável indeterminação do viver. Relacionamentos humanos são assim: não se deixam domesticar. São sempre mais amplos do que nossos cálculos, mais profundos do que nossas explicações e, sobretudo, mais frágeis do que gostaríamos de admitir.
Mas, com o passar dos anos, comecei a perceber certos princípios que emergiam das minhas experiências, pesquisas e atendimentos psicanalíticos e organizacionais. Não se tratam de dogmas, mas de lentes interpretativas. Não são regras rígidas, mas bússolas que ajudam a navegar melhor pelas águas, muitas vezes turbulentas, da convivência humana. Hoje, olho para esses princípios como olharia para trilhas abertas por quem explorou a floresta densa da alma humana, antes de mim: trilhas que não garantem chegar ao destino, mas tornam a jornada mais lúcida.
Este ensaio apresenta esses princípios à luz de reflexões que me acompanham a partir da leitura de alguns de meus mentores preferidos: de Nietzsche a Frankl, de Kierkegaard a Fromm, de Byung-Chul Han a Paul Tillich, passando por Bauman e C.S. Lewis e, sobretudo, pelo modo radicalmente humano com que Jesus compreendia seu humanismo e as relações com as pessoas. Então, vamos a eles:
Carregamos múltiplos papéis e, como atores em um grande teatro, mudamos de atitude e comportamento conforme o cenário em que nos encontramos. Esse insight não surgiu da observação teórica, mas da convivência cotidiana: sou uma pessoa em casa, outra na universidade, outra no ambiente corporativo, e você também é. Cada uma dessas versões de mim mesmo cumpre expectativas e responsabilidades diferentes.
Nietzsche dizia que “temos arte para não morrer da verdade”. Talvez também tenhamos papéis para não morrer da convivência. Os papéis protegem, organizam, estruturam e, sobretudo, evitam que projetemos no outro aquilo que não lhe compete carregar.
Certa vez, observei o colapso completo de uma relação entre pai e filha porque ele insistia em tratá-la como uma colaboradora da empresa, com cobranças diretas, controle rígido e pouca escuta. Ele não percebia que o palco havia mudado: ela não estava sob sua autoridade organizacional, mas sob sua responsabilidade afetiva. Confundir papéis, percebo hoje, é uma das maiores fontes de conflito humano.
Esse princípio torna-se ainda mais claro quando penso nas palavras de C.S. Lewis: “Todos nós interpretamos papéis, mas a verdadeira virtude consiste em jamais esquecer quem realmente somos.” O problema não é ter papéis; é acreditar que um papel pode substituir todos os outros.
Foi refletindo sobre essa multiplicidade que passei a chamar tal fenômeno de Princípio do Teatro. Ele revela que toda relação é composta por três elementos: o cenário, os papéis desempenhados, a história pregressa que dá sentido ao encontro. Compreender essa tríade é entrar, por assim dizer, na arquitetura invisível que sustenta a convivência.
O cenário é o espaço simbólico onde a relação se desenrola. Não é apenas o lugar físico, mas o ambiente emocional, as expectativas compartilhadas, o clima que antecede e molda o encontro. Como lembrava Hannah Arendt, toda ação humana exige um “mundo comum”, um chão onde possa emergir sentido. O cenário é esse chão: o lar, a reunião de trabalho, a conversa íntima, o corredor apressado, . Cada um desses ambientes convoca formas diferentes de presença e de expressão.
Os papéis desempenhados, por sua vez, são as posições que ocupamos naquele contexto específico. Pai, filha, chefe, colega, professor, aprendiz, amigo; cada papel carrega consigo responsabilidades, limites e modos próprios de aparecer. Não se trata de máscaras no sentido negativo, mas de funções que organizam o encontro.
Kierkegaard dizia que “a vida é vivida para a frente, mas compreendida para trás”; talvez por isso, só entendemos nossas tensões relacionais quando percebemos que, muitas vezes, atuamos com o papel errado no palco errado.
E há, ainda, a história pregressa, esse fio invisível que acompanha cada relação. Nada começa do zero. Cada encontro está carregado de memórias, interpretações, feridas, expectativas, alegrias e narrativas que nos antecedem: nossas e do outro. É essa história silenciosa que explica por que certos gestos nos ferem, por que certas palavras nos confortam, por que certos silêncios nos desorganizam. Viktor Frankl lembrava que o ser humano é um ser de sentido; e é a história pregressa que fornece o repertório a partir do qual interpretamos o presente.
Quando esses três elementos (cenário, papéis e história), são ignorados, os vínculos se tornam frágeis e confusos. Quando são reconhecidos, porém, a relação se torna inteligível, possível e fértil. A Inteligência Relacional nasce para essa lucidez: saber onde estou, quem sou ali e que história me antecede, para que o encontro com o outro possa acontecer com dignidade, maturidade e verdade.
Se misturamos esses elementos, como um chefe que trata a esposa como subordinada ou um pai que dirige o filho como um funcionário, instauramos caos. A confusão de papéis fere a integridade dos vínculos porque impede que cada pessoa seja vista na singularidade da posição que ocupa naquele contexto.
Bauman, ao falar da liquidez do mundo moderno, descreve bem essa perda de enquadramento: dissolvemos fronteiras, mas nem sempre sabemos reconstruí-las de modo saudável. Por isso, o Princípio do Teatro não é uma limitação, mas uma forma de proteger a relação contra colapsos desnecessários. Ele não engessa; ele organiza.
Durante anos, acreditei, como muitos de nós, que meus problemas relacionais, vinham de fora: das circunstâncias, das pessoas, das injustiças estruturais. Atribuir ao ambiente a causa de minhas dores parecia não apenas confortável, mas lógico. Freud descreve esse movimento como mecanismo de projeção: expulsamos de nós aquilo que não queremos enfrentar.
Mas foi lendo Viktor Frankl que me dei conta de algo desconcertante: “entre o estímulo e a resposta, há um espaço”. Nesse espaço reside a nossa liberdade, e, portanto, nossa responsabilidade. Perceber isso foi doloroso. Significou reconhecer que boa parte daquilo que nomeava como “problema externo” era, na verdade, incapacidade interna de lidar com o mundo.
Certa vez, conversando com um cliente, empresário frustrado com sua equipe, perguntei o que ele fazia para produzir um ambiente em que as pessoas pudessem agir de maneira diferente. Ele se irritou. “Então você está dizendo que a culpa é minha?” Respondi com honestidade: “Não. Estou dizendo apenas que metade da responsabilidade sempre é nossa”.
Essa compreensão ecoa em Jesus: “A árvore é conhecida pelos seus frutos” (Mt 12:33). Ou seja, a exterioridade revela a interioridade. Não há como fugir. O “inimigo externo” é, muitas vezes, a sombra de nossos próprios medos, expectativas irreais, rigidez emocional ou incapacidade de comunicação.
Kierkegaard dizia que o maior desespero humano é “não querer ser quem se é”. Talvez por isso seja tão difícil aceitar que contribuímos para os conflitos que vivemos. A admissão dessa responsabilidade nos despede de nossas narrativas heroicas, aquelas em que sempre somos a vítima inocente. Afinal, ninguém é vilão na própria história. Mas essa renúncia é libertadora. Ela rompe o ciclo da queixa e inaugura o ciclo da transformação.
Compreender que o inimigo está dentro não significa negar injustiças externas; significa reconhecer que, em nossa vida, a única esfera governável é a interior. E é nela que as relações começam a mudar.
A modernidade nos ensinou a crer no controle. Acreditamos que planejamento, técnica, racionalidade e tecnologia serão suficientes para domar a realidade. Byung-Chul Han critica essa obsessão pela “eficiência”, pela tentativa de eliminar todo imprevisto e toda a complexidade do viver. Para ele, isso tem produzido uma sociedade cansada e agressiva. Mas viver é, por definição, lidar com aquilo que extrapola nossa capacidade de antecipação.
A ingovernabilidade, conceito que estudo há muito tempo, torna explícito esse fato: há domínios da vida que não se submetem à nossa vontade. Elas simplesmente acontecem, e acontecem apesar de nós. As “acontecencias” da vida são indomáveis e, saber lidar com elas é ajustar-nos à possibilidade de encantamento.
Lembro-me nitidamente de um episódio simples, mas revelador. Estava em uma estrada congestionada, rumo ao aeroporto, atrasado para pegar um voo. De repente, o motorista que conduzia o Uber, pareceu-me incompetente, o trânsito revelava “os motoristas idiotas”, o governo era mesmo equivocado. Cada minuto perdido parecia uma afronta pessoal. Minha irritação crescia. Mas, de repente, percebi que minha indignação não tinha qualquer efeito sobre os carros à minha frente, muito menos sobre o contexto daquele infortúnio. Foi um golpe de realidade: eu estava impotente. O único espaço possível de ação era minha interioridade, meu modo de lidar, interpretar e responder à situação.
Esse deslocamento de minha percepção, ecoou profundamente com o pensamento de Paul Tillich, quando descreve a coragem como a capacidade de afirmar-se apesar da ameaça do “destino” e das contingências. A sabedoria não está em controlar o trânsito, os filhos, o chefe, o cliente, o clima, a saúde ou os imprevistos da vida, mas em interpretar de maneira lúcida aquilo que não está ao nosso alcance modificar. Essa competência produz paz e serenidade. Com isso aprendi, e sigo aprendendo, que posso não controlar as circunstâncias, mas posso sempre escolher o sentido que dou a elas.
A ingovernabilidade, quando acolhida, nos amadurece. Quando negada, nos infantiliza. Ela nos desafia a responder com maturidade aos acontecimentos inevitáveis, fazendo-nos perceber que nossa maior força não está em dominar a vida, mas em aprender com ela.
Vivemos em uma sociedade marcada pelo que Han chama de “hiperatividade neurótica”, onde o sujeito moderno se converte no seu próprio algoz: explora a si mesmo em nome de produtividade, performance e relevância. Descobri, muitas vezes à custa de exaustão, que esse ativismo não é sinônimo de realização; é sintoma de fuga.
Há alguns anos, acompanhei um amigo em Paris, um daqueles viajantes compulsivos que não conseguem ficar cinco minutos parados. Sua experiência da cidade era um checklist: Louvre das 10h às 12h, almoço cronometrado, 40 minutos na Notre Dame, e assim por diante. Eu o observava e pensava em algo que Jesus dizia: “Considerai os lírios do campo” (Mt. 6:28). Para considerar, é preciso parar. Para enxergar, é preciso permanecer.
Naquele dia, propus que fizéssemos um trajeto diferente: simplesmente andar. Apenas isso. Flanar, como recomendam os poetas: sentar-nos em um café, observar as pessoas, permitir que a cidade nos afetasse. Ele ficou inquieto no início, quase angustiado. Mas aos poucos foi entrando em outra cadência, talvez a cadência da própria vida, que não é digital, não é instantânea, não é eficiente.
Nunca me esqueço da expressão dele quando percebeu que estava sentado no Café de Flore (e seu vizinho Les Deux Magots), lugar onde Sartre, Simone de Beauvoir, Camus, Picasso e tantos outros intelectuais moldaram a cultura ocidental. Ele estava ali, finalmente ali, e não apenas passando por ali. Como diria Arendt, ele havia saído do “labor” mecânico para a ação propriamente dita: o encontro com a realidade e com a história.
Outro episódio marcou meu entendimento sobre o ativismo exagerado. Em Orlando, visitando a Church Street Station, um grupo de amigos decidiu entrar e sair rapidamente de vários bares onde músicos extraordinários tocavam jazz e soul. Ao final da noite, tínhamos fotos em cinco bares, mas não tínhamos vivido nenhum deles. A experiência havia sido substituída pela coleção de eventos fotográficos.
Fromm explica esse fenômeno como a transição do ser para o ter: não queremos viver a experiência; queremos possuí-la, registrá-la, provar ao mundo que estivemos ali. Mas presença não se mede por fotos. Presença se mede por afeto, atenção e entrega. Aprendi que existe um fazer que nasce do silêncio, um agir que brota do descanso, um insight que emerge do ócio criativo, como sugere Domenico De Masi. A vida não acontece apenas quando fazemos muito; ela floresce quando fazemos com sentido.
Quando olho para minha trajetória, percebo que muitas das situações mais tensas que testemunhei em empresas, famílias, instituições públicas, surgiram da inversão deste princípio simples: coisas foram colocadas acima e antes das pessoas.
Bauman afirma que, em uma sociedade de consumo, até os vínculos humanos passam a ser avaliados por sua utilidade. Isso explica por que tantos sacrificam relações em nome de agendas, metas, processos, sistemas, dinheiro. A primazia das coisas sobre as pessoas é sempre um sintoma de desumanização.
Recordo-me de um episódio em uma repartição pública. Cheguei por volta de 11h30 e havia oito guichês funcionando. Ao meio-dia, cinco fecharam para almoço, apesar da fila crescente, do calor e da impaciência generalizada. Quando questionei o supervisor, ele respondeu apenas: “É hora do almoço.” Sem reflexão, sem alternativas, sem empatia.
Naquele instante, compreendi que, para aquela organização, o protocolo era mais importante que o atendimento. A regra era mais importante que a dignidade das pessoas. E, paradoxalmente, isso produz não ordem, mas ressentimento. Michel Foucault escreveu que a sociedade moderna criou a disciplina, a loucura e o hospício; mas a sociedade contemporânea, criou a solidão, a ansiedade e a frustração, gerando sempre indivíduos úteis e cada vez menos humanos.
Jesus subverteu esse tipo de lógica obediente, quando disse diante de uma sociedade com “ansiosa solicitude pela vida”: “olhai os lírios do campo” (Mt 06:28). Ele denunciava a idolatria do procedimento, a rigidez absurda diante das normas, a escravidão do homem ao fazer; algo assustadoramente atual.
A inteligência relacional exige essa inversão ética: pessoas primeiro; processos depois. Não se trata de abandonar métodos, mas de usá-los como meios, não como fins. Uma sociedade que protege mais suas normas do que seus cidadãos, pode até ganhar “legalidade”, mas perde senso de justiça e legitimidade. Uma família que protege mais sua rotina do que seus membros perde intimidade. Uma empresa que protege mais sua burocracia do que seus colaboradores perde humanidade. A superioridade da pessoa não é apenas um valor moral; é um princípio relacional incontornável.
A plasticidade é a capacidade de adaptar-se ao imprevisto com sabedoria. Ela representa a superação da rigidez burocrática em favor da experiência humana; a superação do legalismo em favor do acolhimento. Talvez seja um dos princípios mais negligenciados e, ao mesmo tempo, mais necessários.
Lembro-me de um episódio em um voo: ao meu lado estava um homem bastante obeso, visivelmente desconfortável em uma poltrona estreita. À frente, três assentos do espaço “mais conforto”, estavam vazios. Sugeri à comissária que ele pudesse deslocar-se para lá, pagaríamos a diferença da passagem, se fosse necessário. A resposta foi dura e automática: “Não pode. O sistema não permite.”
O “sistema não permite”, “as normas não deixam”, tornaram-se, para mim, um símbolo contemporâneo da falência da criatividade relacional, da sensibilidade humana. Tais frases (dentre outras), revelam a incapacidade de sair do script, de improvisar, de responder com humanidade. Arendt diria que essa rigidez é típica da “banalidade do mal”: não se trata de maldade ativa, mas da ausência de pensamento crítico. Fiquei muito frustrado com aquela situação, sensibilizado com o outro passageiro e decepcionado com minha inação.
Algum tempo depois, vivi novamente a mesma situação, mas eu era o passageiro desconfortável. Desta vez, decidi me mover. Fui para o assento vazio. A comissária, semelhantemente à sua colega do outro voo, advertiu-me que eu não poderia estar ali. Respondi com serenidade, mas firmeza: “Eu compreendo sua regra. Mas não é razoável exigir que eu permaneça duas horas em sofrimento quando há soluções possíveis. Assumo a responsabilidade pelo ato. Prometo que quando o avião aterrissar, eu desço.” A tensão permaneceu, mas eu havia rompido com a lógica da submissão cega. Ao final, o chefe de cabine preferiu encerrar ali a questão.
A plasticidade não é rebeldia gratuita; é inteligência aplicada. É a capacidade de perceber quando a norma serve ao humano e quando precisa ser reinterpretada. É a arte de praticar o que Fromm chamava de razão produtiva: aquela que cria soluções novas em vez de repetir fórmulas antigas. Relações inteligentes dependem dessa plasticidade. Sem ela, tornamo-nos máquinas obedientes; com ela, tornamo-nos humanos capazes.
Ao percorrer esses seis princípios : o Teatro, o Mito do Inimigo Externo, a Ilusão de Controle, o Ativismo Exacerbado, Pessoas acima das Coisas e a Plasticidade, percebo que todos convergem para uma mesma direção: a construção de relações mais humanas, maduras e responsáveis.
A Inteligência Relacional, que constitui o eixo do meu trabalho autoral, integra esses princípios como fundamentos operativos:
Nas palavras de Tillich, “a relação humana autêntica exige coragem para ser e coragem para se dar”. Essa coragem se aprende, se pratica e se cultiva. Nenhum desses princípios substitui a complexidade das relações humanas; mas cada um deles amplia nossa capacidade de habitá-las com sabedoria.
A Inteligência Relacional é, portanto, a arte de relacionar-se como quem reconhece a humanidade do outro, sem renunciar à própria; como quem assume responsabilidade sem culpa; como quem age sem ativismo; como quem escuta antes de falar; como quem honra a vida com presença e respeito.
Se há algo que aprendi nesses anos de trabalho, pesquisa, prática e convivência é que relações inteligentes não acontecem por acaso. Elas são fruto de atenção, consciência, coragem e delicadeza, virtudes que aprendemos, esquecemos, reaprendemos, praticamos e refinamos ao longo de toda a vida. E é nesse movimento contínuo que me descubro não apenas estudioso, mas aprendiz da própria arte de relacionar-me.
Reflitam em paz!

por Homero Reis
Há momentos na minha vida em que sinto que tudo o que me acontece chega como um impacto. Algumas coisas me golpeiam pela força das acontecencias do mundo que me atravessa; outras brotam da minha força interna, da forma como reajo, respondo e interpreto aquilo que me acontece. Esse jogo entre o que vem de fora e o que nasce de mim é, talvez, a descrição mais honesta do meu próprio ser-no-mundo. Heidegger dizia que existir é sempre ser lançado no mundo, e eu acrescento: é ser lançado também nas relações, nos encontros, nos afetos e nos confrontos que moldam a forma como percebo a mim mesmo e aos outros.
Ao longo da minha vida, especialmente quando passei a compreender a linguagem da inteligência relacional, descobri que nada do que vivo é neutro. Tudo se organiza no espaço entre um fato e a interpretação que faço do fato. Tudo se passa nessa brecha microscópica e, ao mesmo tempo, gigantesca, onde a consciência constrói seus sentidos e onde decido, de modo discreto, mas decisivo, que história vou contar a mim mesmo.
O mundo me oferece fatos: quebrei uma perna, consegui um trabalho, perdi alguém, ganhei um amor, falhei, fui amado, fui rejeitado. Como ensinava Epicteto, “não são as coisas que nos perturbam, mas a opinião que temos delas”. Entendi, tardiamente talvez, que os fatos são o chão; mas as interpretações são o mundo inteiro. Maturana diria: “Não vivemos em um mundo de coisas, vivemos em um mundo de distinções”. E é justamente a distinção que faço que inaugura um horizonte.
Muito cedo percebi que não sofro pelo que vivi, mas por aquilo que aprendi a pensar sobre o que vivi. Quase sempre, quando me sinto ferido, não estou ferido pelo acontecimento em si, mas pela narrativa que construí sobre ele. Nietzsche, numa frase que sempre me desconcerta, escreveu: “Não existem fatos, apenas interpretações”. E embora eu preserve a dignidade daquilo que é real e concreto, entendo que a forma como o real me atravessa depende de mim, do meu olhar, das lentes emocionais que herdei do passado. Minhas histórias são sempre interpretações que faço da vida, com algum ganho secundário: elas não são fáticas, são interpretativas.
Hoje sei que, quando interpreto negativamente um gesto, uma palavra ou um silêncio, fecho portas. E quando interpreto como possibilidade, abro caminhos. Isso, porém, não é um otimismo ingênuo; é responsabilidade. Kierkegaard dizia que a liberdade é sempre uma tarefa, nunca um dado. Interpretar, portanto, é um gesto ético: eu decido qual versão de mim mesmo deixo viver.
Quando penso em mim mesmo, vejo mais do que um nome, um CPF ou uma fotografia. Sou, como afirmava Rubem Alves, “um cofre de memórias”, um arquivo vivo, uma colcha de retalhos costurada pelas mãos de pessoas que passaram pela minha história. Minha identidade não é uma substância fixa, mas um processo, uma narrativa contínua.
Aristóteles dizia que a identidade é aquilo que permanece sendo o que é, apesar das mudanças. Mas, no meu caso, percebo que sou justamente o movimento entre permanência e transformação. Sou o menino da fazenda que experimentou a escassez sem se sentir infeliz; e sou também o adolescente que, ao mudar para a cidade, aprendeu o peso das comparações. Aquele menino que nunca precisou de “tênis de marca” tornou-se, de repente, o observador de um mundo que lhe dizia: “Você é menos”.
Ali eu aprendi, sem perceber, que a comparação é uma fabricação do olhar, não um dado da vida. Freud lembraria que nossas primeiras feridas vêm sempre dessas descobertas: perceber-se insuficiente diante do outro é parte da construção do eu. Mas na minha adolescência, aquilo doía como verdade absoluta.
Com o tempo, e depois de muita reflexão, compreendi que posso perguntar a mim mesmo: o que eu tenho, o que eu sou, que é valor para mim? E mais: como posso comunicar meu valor sem desejar ser aquilo que não sou?
Essa descoberta de que não preciso desejar ver o cometa que não é da minha natureza ver, transformou meu modo de ser. A história da topeira, do gavião e da águia, que aprendi com Rubem Alves, tornou-se uma metáfora existencial. Cada ser tem sua biologia, seu campo de visão, seu território de beleza. A sabedoria está em oferecer ao outro a beleza do lugar de onde venho, em vez de me julgar menor por não habitar o céu deles.
Aprendi, enfim, que a identidade é construída no diálogo entre minhas limitações biológicas, minhas possibilidades interpretativas e a coragem de assumir o lugar do qual falo.
Nenhuma identidade se sustenta sozinha. Só sei quem sou porque existe quem não sou. Para que eu tenha um “eu”, é preciso que exista um “outro”. Levinas diria que o rosto do outro me convoca, me desinstala e me humaniza. É na experiência relacional que percebo exatamente isso: o outro é aquele que revela aquilo que não vejo em mim, que evidencia minhas incoerências, que devolve minhas sombras, mas que também amplia minhas potências.
O outro me fascina e me desafia; e é esse fascínio que sustenta a amizade entre a topeira e os pássaros. É o outro que me oferece o céu que não posso ver e, ao mesmo tempo, que me pede que ofereça a ele o subterrâneo que ele jamais conhecerá.
Foucault lembrava que todo encontro humano envolve poder. Mas, ao contrário da visão punitiva do poder, ele também dizia que o poder é algo que circula, que se redistribui, que é exercido. Em cada relação que estabeleço, há sempre a escolha de permitir que o outro seja legítimo em sua diferença. Essa é a ética da inteligência relacional: reconhecer que o outro não é uma extensão minha, nem um inimigo a ser combatido, mas alguém tão legítimo quanto eu.
A diferença do outro não é ameaça, é convite. É justamente por ser diferente que o outro me dá a chance de crescer, revisar crenças, expandir fronteiras. Fromm dizia que amar é “permitir ao outro ser aquilo que ele é”, e isso, para mim, é também a definição de convivência inteligente. Mas, o fato é que, muitas vezes, por desconhecermos esse princípio, vemos o outro como “oponente”, aí, em vez de acolhê-lo, agimos para desqualificar, para afastar, e não para aprender e pacificar.
Carrego dentro de mim um almoxarifado emocional, uma espécie de depósito onde ficam guardadas as ferramentas com as quais interpreto o mundo. Meu passado é esse depósito. Mas ele não é feito de fatos. É feito das interpretações que, um dia, coloquei sobre os fatos. Essas interpretações acabam virando “verdades instrumentais” que não me permitem admitir a possibilidade do outro estar correto, ou de perceber nele contribuições significativas para a vida.
O dia em que deixei minha sandália virada com a sola para cima e ouvi minha mãe associar isso a uma maldição — “quem deixa a sandália virada quer que a mãe morra” — não foi apenas um acontecimento. Foi o nascimento de um vínculo psíquico que durou décadas. Freud explicaria que a infância é a matriz das nossas associações mais profundas, e ele estava certo. Mas hoje percebo que essa associação permaneceu intacta porque eu nunca a questionei.
Recentemente, quando tentei deixar a sandália virada, meu corpo inteiro se rebelou. Não foi o fato que me atingiu; foi a memória emocional inscrita nele. Foi como se minha mãe ainda estivesse ali. Foi a prova viva de que o passado é menos o que vivi e mais a interpretação que permanece em mim.
E no entanto, graças à inteligência relacional, descobri que posso reinterpretar. Posso dizer: “essa associação não me serve mais; posso deixá-la ir”. Não é fácil. O passado possui raízes profundas, como ensinaria Jung. Mas também é verdade que, como dizia Santo Agostinho, “o passado não existe; existe apenas a memória do passado”. Então, percebo que posso modificar não os fatos, mas os sentidos. Quando faço isso, abro novas possibilidades de futuro.
Byung-Chul Han escreve que vivemos numa sociedade do cansaço, onde estamos esmagados pelas exigências de desempenho, perfeição e produtividade. Muitas pessoas vivem enclausuradas em expectativas que não escolheram. E, olhando para minha história, percebo que grande parte do perfeccionismo, meu e de tantos que acompanho, nasce de exigências antigas, interpretações que aprenderam a temer o erro, a crítica, a rejeição.
Viver o presente, então, não é apenas estar aqui e agora. É libertar-se, pouco a pouco, das interpretações que mantêm minha vida algemada a expectativas irrealistas. É reinscrever o passado para caber no presente. É dar a mim mesmo a chance de nascer outra vez.
O futuro não é uma linha reta. Como diria Paul Ricoeur, ele é sempre um “ainda-não”. E esse ainda-não é construído com material que vem do passado, mas é moldado pelas interpretações que faço no presente.
Se no passado carreguei interpretações de escassez, talvez veja o futuro como ameaça. Se carreguei interpretações de rejeição, talvez veja o futuro como abandono. Mas se me permito reinterpretar, redizer, renarrar a vida, então o futuro se abre como campo fértil.
Bauman falava da modernidade líquida, onde nada é estável, tudo escorre, tudo muda rapidamente. Mas o futuro, para a inteligência relacional, não é líquido nem sólido: é responsivo. Ele responde às escolhas interpretativas que faço. Quando reinterpreto meu passado, mudo minhas possibilidades de futuro. Quando mudo minha narrativa, mudo meus possíveis. Quando mudo minha interpretação, mudo meu destino.
Quando chego ao final desta reflexão, percebo que construir relações inteligentes é, antes de tudo, construir a mim mesmo. Não como projeto acabado, mas como obra em andamento, como barro ainda úmido que recebe novas formas à medida que a vida me convida a rever aquilo que um dia tomei como verdade definitiva.
Hoje entendo que sou tecido por muitos fatos que não escolhi e por interpretações que, em algum momento, aceitei como únicas. Os fatos permanecem, mas as interpretações podem renascer, e é justamente aí que reside minha liberdade.
Também reconheço que o outro não é extensão de mim, nem ameaça, nem instrumento para meus desejos silenciosos. O outro é presença legítima, tão complexa e contraditória quanto eu. É alguém cuja existência me desafia a sair de mim mesmo, a abandonar minhas certezas rígidas, a desmontar minhas defesas afetivas para enxergar, sem filtros, a dignidade que pulsa naquela diferença que me desconcerta. Descobrir o outro, nesse sentido, é descobrir um espelho que não escolhi, mas que revela quem eu sou quando não estou desempenhando papel algum.
Do passado, carrego um baú de histórias que ainda me movem, algumas me fortalecem, outras me prendem. Penso, às vezes, naquele perfeccionismo que ainda insiste em me visitar. Vejo-me criança, diante de um pai exigente ou de uma professora impaciente, aprendendo que errar era fracassar e que fracassar era não merecer amor. Anos depois, ali estava eu, já adulto, repetindo padrões emocionais de uma vida que nem lembrava conscientemente. Até que um dia, diante de uma situação aparentemente banal, um projeto que não conseguia concluir, percebi que não era o projeto que me paralisava, mas a interpretação herdada: a ideia de que, se eu não fizesse perfeito, não deveria fazer. Ali entendi que meu passado continuava sentado ao meu lado, soprando narrativas antigas. E naquele instante, escolhi dizer não. Escolhi reinterpretar. Escolhi continuar. Esse pequeno gesto transformou mais coisas do que eu poderia imaginar. Às vezes, a vida muda quando ouso mover apenas meio milímetro do meu eixo.
E quanto ao futuro… percebo que ele não é punição nem promessa; é possibilidade. Não está pré-escrito, mas também não é terreno vazio. Levo comigo os fragmentos do que vivi e, com eles, construo a paisagem do que posso vir a ser. O futuro responde às escolhas interpretativas que faço hoje. Responde ao modo como reordeno as memórias, ao modo como trato o outro, ao modo como me trato. Responde à coragem que tenho de abandonar narrativas que me apequenam para abrir espaço para narrativas que me ampliam.
E assim, quando reúno essas percepções, a maleabilidade das interpretações, a legitimidade do outro, a força viva do passado e a plasticidade do futuro, compreendo que viver com inteligência relacional significa assumir o ofício de tornar-me humano, diariamente mais humano. É aceitar que sou autor e personagem, que sou história e reescrita, que sou limite e possibilidade. É entender que a vida não se resolve na linha do tempo, mas na forma como olho para ela.
Penso, por exemplo, em um cliente que atendi tempos atrás. Alguém extremamente talentoso, mas que vivia preso a um único episódio traumático da juventude. Durante muito tempo, ele acreditou que aquele fato o definia. E tudo o que fazia parecia justificar a interpretação antiga: “eu não sou suficiente”. Um dia, lhe perguntei, com a delicadeza que a dor alheia exige, se aquele fato ainda era real ou se tinha se tornado apenas um enredo repetido. A pergunta o desestabilizou, mas plantou uma semente. Meses depois, ele me disse: “Não consegui mudar o que aconteceu, mas consegui mudar o que significava”. Foi ali que compreendi, mais uma vez, que o coração humano só se liberta quando ousa reinterpretar sua própria história.
Por tudo isso, quero lhe fazer um convite, ou talvez um desafio. Que você examine sua vida como quem acende uma lanterna em um cômodo antigo: com cuidado, mas sem medo do que vai encontrar. Pergunte-se quais fatos ainda são fatos e quais interpretações já se tornaram prisões. Observe de que lugar você tem amado, reagido, fugido ou permanecido. Pergunte-se o que do seu passado ainda merece lugar e o que apenas insiste em ocupar espaço. Olhe para o outro com curiosidade, não com julgamento. E sobretudo, permita-se pensar: “E se eu olhar de novo? E se eu interpretar diferente? E se a vida estiver oferecendo mais caminhos do que eu imagino?”
No fim das contas, construir relações inteligentes é construir-se com coragem. É recusar a passividade diante da própria história. É decidir que a vida não será apenas aquilo que me aconteceu, mas aquilo que escolho fazer com o que me aconteceu. E é nesse gesto, simples e revolucionário, que começa a liberdade.
Reflitam em paz!

por Homero Reis
Há momentos em minha vida em que sinto que minha mente se move como um compasso de quatro pontas, cada qual apontando para uma direção essencial: o eu, o outro, o passado e o futuro. E percebo que grande parte do que chamo de maturidade consiste em aprender a interpretar o movimento entre essas direções; um movimento contínuo, não linear, complexo e profundamente humano.
Enquanto escrevo, reconheço que nada disso é definitivo. Trata-se de uma reflexão em curso, um relato de alguém que tenta compreender a si mesmo enquanto caminha. Sempre que revisito essas quatro direções, algo novo se revela. Talvez porque a consciência seja sempre uma travessia, nunca um destino. Talvez porque, como dizia Heidegger, “existo em permanente projeto, lançado no mundo e simultaneamente convocado a respondê-lo”.
Hoje, escrevo como quem se olha no espelho pela primeira vez: consciente da singularidade que carrego, mas igualmente consciente de que essa singularidade não se basta. Ela só se sustenta nas minhas relações comigo mesmo, com os outros e com as coisas; e, tais relações, por sua vez, dependem de como acolho essas quatro direções. Por isso escrevo em primeira pessoa: para não fugir de mim mesmo enquanto reflito.
A primeira direção aponta para dentro. E é sempre para dentro que começo, não porque o mundo gire em torno de mim, mas porque tudo o que percebo do mundo passa pelos filtros que sou e tenho. Minha identidade, portanto, não é apenas um conjunto de características; é a lente que dá forma ao real.
Foi Paul Ricoeur quem me ajudou a compreender que o “eu” é uma narrativa, e não uma substância fixa. Eu me conto, e ao me contar, me torno. Minha identidade não é um bloco de mármore, mas um texto sempre em revisão. Há capítulos que escondo, outros que exalto, outros que tento, inutilmente, esquecer. E há contornos que só descubro quando alguém me interpela.
Não me percebo como uma entidade isolada. Edith Stein ensinou que cada pessoa é um “núcleo espiritual singular”, irrepetível e inviolável, e essa frase sempre ressoa em mim. Ela afirma minha unicidade, mas também revela minha vulnerabilidade: apenas quem é único pode ser ferido; apenas quem é singular pode se perder de si mesmo.
E é justamente por ser único que jamais posso viver comparando-me com referencial externo. Comparações são, quase sempre, uma forma de me afastar de mim. Byung-Chul Han descreve nossa era como uma época de “exaustão do eu”, marcada por um excesso de desempenho. É como se, ao tentar ser tudo, eu deixasse de ser alguém. Essa percepção, dolorosa e lúcida, devolve-me ao essencial: só posso responder à vida a partir do lugar onde meus pés estão, não de onde imagino que eles deveriam estar.
Assim, minha identidade é, antes de tudo, uma chamada à responsabilidade. A responsabilidade de ser quem sou. A responsabilidade de reconhecer que minhas percepções são apenas isso: percepções. Não verdades absolutas. Não decretos universais. Apenas modos de interpretar. Sou o ponto de partida, nunca o ponto de chegada.
A segunda direção é o outro. Tudo aquilo que não sou eu. Tudo aquilo que me confronta, me desafia, me amplia, e às vezes me assusta.
Martin Buber me ensinou a diferença entre relacionar-se com alguém como um “isto” ou como um “tu”. O “isto” é um objeto, um meio, uma extensão das minhas necessidades. O “tu” é um mistério. É um ser que existe por conta própria e, ao existir, me convoca. Não posso reduzir um “tu” a uma função, a uma utilidade, a uma projeção. O “tu” sempre me transcende.
Esse encontro com o outro é, muitas vezes, desconcertante. O outro pensa diferente, sente diferente, age diferente. E há momentos em que essa diferença me fere, não porque o outro seja violento, mas porque sua autonomia revela meus limites. Kierkegaard dizia que a angústia é o “sentimento da liberdade” e a dificuldade que tenho de lidar com ela. Talvez por isso o outro me angustie: ele é sempre livre. E a liberdade do outro evidencia a minha, na mesma proporção que me mostra como não sei lidar com ela.
Quando encontro alguém, carrego comigo um desejo quase instintivo de que a relação seja fácil. Mas a verdade é que a convivência é um campo de tensão. James Hillman lembrava que a psique não evolui na comodidade, mas no atrito. E o atrito do encontro é o que me desperta para o real.
Reconhecer o outro como alteridade é exercitar algo raro: a humildade. A humildade de admitir que meu olhar é apenas um entre muitos. A humildade de aceitar que a verdade não se esgota na minha perspectiva. A humildade de abrir espaço para que a diferença exista sem que eu precise corrigi-la, dominá-la ou moldá-la.
O outro não está no mundo para me agradar. Nem para me confirmar. O outro está no mundo porque existe, e sua existência me revela o quanto ainda preciso aprender a existir.
Grandes conflitos humanos nascem quando tento usar poder para resolver aquilo que deveria ser resolvido com presença. O poder tenta moldar; a presença acolhe. Tillich dizia que amar é “afirmar o outro na totalidade do seu ser”. Afirmar não significa concordar. Significa reconhecer. Acolher a existência do outro como legítima, mesmo quando discordo dela.
Quando me encontro verdadeiramente com alguém, algo aparece entre nós que não me pertence, nem lhe pertence. Algo novo, algo que nenhum dos dois poderia criar sozinho. E talvez seja aí que eu descubra, com mais clareza, quem eu sou.
A terceira direção aponta para trás, para o território nebuloso das lembranças, das marcas e dos significados. Mas quanto mais reflito sobre o passado, mais percebo que ele não é um depósito de fatos, e sim um campo de interpretações.
Paul Ricoeur distingue lembrança de recordação. A lembrança é o que fica; a recordação é o que construo. Todo passado é reconstruído pela imaginação, pela memória, pelos afetos. Não se trata de falsificação, mas de condição humana. Sou o narrador da minha própria história, escolho quais capítulos enfatizo, quais minimizo, quais apago.
Essa escolha diz muito sobre quem sou agora. Heidegger afirmava que estamos sempre projetados para frente, mas trazemos o passado como herança. Contudo, essa herança não é um destino. Ela é matéria. Matéria interpretativa. Matéria viva. O passado só pesa quando o trato como prisão; ele se transforma quando o trato como material de trabalho.
Pergunto-me, então: Por que carrego certas histórias e deixo outras?
Por que determinados episódios me acompanham como sombras longas, enquanto outros se dissolvem como se jamais tivessem acontecido?
Descobri que minha memória é seletiva e carregada de intenção. Não lembro porque quero; lembro porque preciso, mesmo que inconscientemente. O passado que me fere pode, paradoxalmente, ser o mesmo passado que me forma. Mas ele não determina quem sou. Ele apenas me oferece matéria para compreender quem posso ser.
Edith Stein dizia que a pessoa é um ser espiritual em desenvolvimento. Portanto, olhar para o passado não significa revisitar dores como colecionador de cicatrizes; significa reinterpretar essas dores até que se tornem fonte de compreensão. A maturidade, para mim, está em transformar o peso da história em significado, não justificando o que me feriu, mas libertando-me da obrigação de carregá-lo sem questionamento.
Paul Tillich escreve no seu livro A coragem de ser (The Courage to be-1972), que a coragem de ser inclui revisitar o passado sem medo de desfazer narrativas antigas, sem medo de admitir que posso ter interpretado errado, sem medo de reconhecer que o sentido que atribuí ontem talvez não sirva mais hoje. O passado é uma bússola, não porque aponta o caminho, mas porque lembra de onde vim. E ao lembrar de onde vim, descubro que posso escolher para onde vou.
A quarta direção aponta para adiante; o território do possível, do desejado, do incerto. O futuro, quando o observo com honestidade, não existe. Ele é apenas uma projeção, uma promessa que faço a mim mesmo. Mas, de fato, ele é o resultado das nossas escolhas, quando convertidas em ações. Kierkegaard dizia que viver é escolher, e que toda escolha é a adoção de uma possibilidade num mundo de infinitas possibilidades. Assim, o futuro não é um campo aberto, mas um campo delimitado pelas decisões que tomo agora. E é nesse “agora” que começa a responsabilidade. O futuro só começa a existir quando assumo compromissos com ele.
Byung-Chul Han lembra que vivemos num tempo saturado de promessas não cumpridas, planos que não se tornam ação, desejos que não se tornam caminho. Talvez por isso haja tanta ansiedade: a distância entre o que desejo e o que sustento com minhas decisões.
O futuro é uma construção ética. Não acontece comigo; acontece por meu intermédio. Ele é consequência de escolhas cotidianas, discretas, às vezes invisíveis. Escolhas que exigem renúncias, foco, disciplina e, sobretudo, presença.
Mas o futuro também é espaço de esperança. Comte-Sponville afirma que a esperança é ambígua: pode ser fonte de energia, mas também de fuga. Esperar sem agir é adiar a vida; agir sem esperar é reduzir o futuro ao cálculo racional. A maturidade consiste em equilibrar essas duas dimensões: agir com lucidez, esperar com humildade.
O futuro é o lugar onde depositamos nossa coragem, porque coragem é “afirmar a vida apesar da morte”. Para mim, construir o futuro é justamente isso: afirmar o possível mesmo diante do incerto. Projetar um caminho mesmo quando ele ainda não existe. Criar um horizonte onde antes havia apenas desejo difuso. Assim, o futuro não é apenas expectativa, é responsabilidade. A responsabilidade de sustentar, dia após dia, o comprometimento com aquilo que desejo construir.
E é nesse ponto que as quatro direções começam a convergir.
O agora é o lugar onde o eu encontra o outro, onde o passado é reinterpretado e onde o futuro começa a ser tecido. Nenhuma das direções existe por si só. Elas só fazem sentido quando se cruzam no instante presente.
O agora é exigente. Ele me obriga a estar inteiro. A não me esconder em projeções fantasiosas, nem em culpas antigas. A não usar o passado como álibi, nem o futuro como fuga. A não me proteger do outro pelo silêncio, nem me proteger de mim pela correria. O agora me chama para o chão da vida.
Heidegger dizia que a existência autêntica é aquela que se abre ao real, aquilo que ele chama de “claro”, o espaço onde a verdade se desvela. Mas esse desvelar exige presença, exige coragem de olhar para si, para o outro e para o tempo com honestidade.
O agora é o ponto de encontro entre minhas possibilidades e minhas limitações. É o lugar onde descubro que não sou onipotente, mas também não sou impotente. Sou alguém que pode escolher, e essa escolha é, sempre, o começo de tudo. James Hillman afirmava que a alma não busca resultados, mas profundidade. E talvez seja isso que o agora me oferece: profundidade. O agora não exige perfeição; exige presença. Não pede que eu domine o mundo; pede que eu o habite.
Quando me coloco inteiro no agora, descubro uma forma diferente de existir. Mais simples. Mais verdadeira. Menos defensiva. Mais sensível. É no agora que encontro o outro sem máscaras. É no agora que reconheço minha história sem me aprisionar a ela. É no agora que dou o primeiro passo em direção ao futuro que desejo. O agora é o único lugar onde a vida é possível.
Quando volto a olhar para as quatro direções que estruturam minha experiência: o eu, o outro, o passado e o futuro, percebo que elas jamais se apresentam de forma isolada. São como quatro correntes subterrâneas que se encontram continuamente, alterando o curso da minha vida sem que eu me dê conta. É impossível falar de mim sem falar do outro; impossível falar do futuro sem revisitar as marcas do passado; impossível compreender minhas escolhas sem mergulhar no agora que me atravessa.
Às vezes percebo essas direções se revelando nas situações mais simples do cotidiano. Como numa manhã em que estou preparando café e, sem saber por quê, sou tomado por uma lembrança antiga: talvez um cheiro da infância, talvez a imagem de alguém que já não vejo há anos. Essa lembrança, que parecia adormecida, retorna carregando interpretações que construí ao longo do tempo.
Enquanto mexo a xícara, percebo que minha relação com aquele episódio mudou. Antes doía; hoje ensina. Antes limitava; agora abre caminho. Nesse instante, o passado está ali, vivo, dialogando com quem sou hoje e, de algum modo, orientando discretamente a pessoa que desejo me tornar.
Ou então quando encontro alguém que pensa diferente de mim. Posso estar numa conversa banal, talvez pedindo uma simples tarefa, e de repente me sinto contrariado. A diferença do outro me incomoda, e é aí que percebo que não estou lidando apenas com a situação concreta, mas com interpretações antigas, medos antigos, expectativas futuras que coloco sobre os ombros de alguém que sequer sabe disso. O outro, sem querer, me devolve a mim mesmo, e me obriga a revisitar o que trago dentro. A conversa, que parecia trivial, torna-se um espelho. E neste espelho descubro que, ao tentar mudar o outro, eu estava tentando, na verdade, corrigir uma sombra minha que ainda não aprendi a acolher.
Há também momentos lúdicos, quase infantis, em que percebo essas direções operando como engrenagens silenciosas. Lembro de um dia em que observei uma criança tentando montar um quebra-cabeça. Ela olhava para as peças espalhadas, tentava encaixá-las de qualquer jeito, frustrava-se, tentava de novo. Em certo momento, pediu ajuda. Sentei-me ao lado dela e disse: “Olhe a imagem na caixa. Pense no que já está montado. Veja o que falta”. Enquanto falava, percebi que estava descrevendo as quatro direções da mente humana: a criança representava o eu em busca de sentido; a imagem na caixa era o futuro que ela desejava alcançar; as peças já montadas eram seu passado; e eu ali, ao lado dela, era o outro oferecendo uma presença que lhe permitia continuar.
A vida adulta não é tão diferente daquele quebra-cabeça infantil. Carrego peças que às vezes não sei onde pertencem. Fragmentos de histórias incompletas, expectativas desordenadas, lacunas que me inquietam. E é só quando olho para mim, para o outro, para o passado e para o futuro ao mesmo tempo que começo a compreender a figura maior que estou tentando construir.
Percebo também esses entrelaçamentos nos conflitos pessoais. Quando sinto raiva de alguém, por exemplo, descubro que a emoção nem sempre nasce daquela pessoa em si, mas de uma tentativa de proteger quem acho que sou. A identidade reage para preservar-se, o passado sopra interpretações antigas ao meu ouvido, o futuro pressiona com expectativas e medos, e o outro torna-se, sem querer, o palco onde tudo isso aparece. É como se as quatro direções conversassem silenciosamente por trás de cada gesto meu, conduzindo-me para um tipo de presença mais honesta, não apenas com os outros, mas comigo mesmo.
E quando preciso tomar uma decisão importante, vejo essas direções se alinharem como astros. A pergunta “o que devo fazer agora?” parece simples, mas carrega um universo de fios invisíveis. Se escuto apenas o futuro, perco-me em ansiedade. Se escuto apenas o passado, torno-me prisioneiro de memórias. Se escuto apenas o outro, diluo-me. Se escuto apenas a mim, corro o risco de cegar-me. É somente quando deixo que todas essas vozes se encontrem, sem que nenhuma se imponha violentamente às outras, é que consigo perceber um caminho possível, ainda que imperfeito, ainda que provisório.
A vida, afinal, não é uma reta, mas um tecido. E cada direção é um fio que se cruza com os demais, tecendo minha humanidade. O eu oferece o traço da identidade; o outro adiciona cor e profundidade; o passado cria textura; o futuro oferece movimento. E é no agora que esse tecido se organiza em forma, em sentido, em direção.
Escrevo tudo isso sabendo que continuarei a me perder e me reencontrar ao longo do caminho. Sei que haverá dias em que o passado falará mais alto que o futuro; dias em que o outro me desafiará mais do que me acolherá; dias em que não conseguirei distinguir o que é meu do que é projeção. Mas também sei que, se eu permitir que essas direções se movam juntas, sem hierarquias rígidas, posso viver de forma mais lúcida, mais inteira, mais humana.
No fim das contas, percebo que as quatro direções não são apenas estruturas da mente, mas modos de me relacionar com o próprio mistério de existir. Elas me lembram que sou um ser singular que vive entre outros seres singulares; que carrego histórias, mas não sou prisioneiro delas; que projeto futuros, mas não posso controlá-los; que sou feito de encontros, escolhas e interpretações. E é justamente nesse entrelaçamento delicado, imperfeito e profundamente vivo, que descubro, a cada dia, o caminho do qual sou feito.
Reflitam em paz!

por Homero Reis
Ao longo da minha caminhada profissional, fui descobrindo que viver é um exercício permanente de leitura; tanto no sentido literal, como na percepção “das acontecencias da vida”: uma hermenêutica da existência. A própria raiz da palavra “inteligência”, intus legere, significa justamente ler por dentro. E se existe um campo onde essa leitura profunda se torna decisiva, é o universo dos relacionamentos.
Cada vínculo que estabeleço, cada afeto que cultivo, cada conflito que enfrento se transforma em texto vivo, cheio de símbolos, lacunas e sentidos ocultos. A vida inteira passa a ser um vasto manuscrito onde eu, simultaneamente autor e leitor, tento compreender o que está escrito.
Essa percepção tornou-se mais clara quando observei que meus encontros não eram meras casualidades, nem frutos inocentes do destino. Há uma lógica, uma estrutura invisível sustentando cada aproximação, cada distanciamento, cada vínculo duradouro ou efêmero. Freud diria que carregamos sombras que projetamos inconscientemente nos outros, enquanto Jung lembra que todo encontro revela peças do nosso próprio inconsciente, pedindo integração. Para Kierkegaard, os relacionamentos são lugares onde experimentamos a angústia e a liberdade, sempre convocados a decisões que nos definem. E Bauman, olhando para a liquidez dos tempos atuais, alerta que vivemos em um mundo onde a fragilidade dos laços revela mais sobre nós do que gostaríamos de admitir.
Percebi, então, que precisava aprender a ler por dentro das relações. Não para controlá-las, mas para compreendê-las; não para evitar dores, mas para interpretá-las; não para moldar o outro, mas para entender como o outro me transforma. Como diria Hannah Arendt, “somos seres de relação”, e o espaço entre nós, esse “entre”, é o lugar onde o mundo acontece. Viktor Frankl me ensinou que entre o estímulo e a resposta há um espaço, e nesse espaço reside a minha liberdade e a minha responsabilidade. A Inteligência Relacional nasce exatamente ali: na descoberta de que viver bem depende da qualidade com que habito esse espaço.
E, como a sabedoria bíblica afirma em Provérbios 4:23, “sobretudo, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida”. Guardar o coração, para mim, não é protegê-lo de pessoas, mas compreendê-lo nas relações. A Inteligência Relacional é essa guarda ativa, lúcida e amorosa.
Com o tempo, fui distinguindo a Inteligência Relacional de outras formas de inteligência. Simon e Binet traduziram a inteligência racional no QI. Daniel Goleman introduziu o QE, a inteligência emocional. Ambos trouxeram aportes importantes, mas percebi que faltava um terceiro elemento, uma lente pela qual razão e emoção pudessem ser colocadas a serviço da convivência humana. A Inteligência Relacional (QR) é esse terceiro vértice; a capacidade de ler dentro dos relacionamentos para compreender como eles se formam, se sustentam, se adoecem ou se fortalecem.
Entendi também que ela não se confunde com comunicação não violenta, embora a comunicação seja parte do processo. Não é sinônimo de relações humanas tradicionais, nem se limita a habilidades sociais. É mais profunda e mais exigente. Trata-se da habilidade de interpretar, com sensibilidade e clareza, a trama que liga pessoas. É o que Emmanuel Levinas sugeriu ao afirmar que o rosto do outro é uma convocação ética: não posso me relacionar sem antes reconhecer a alteridade que me interpela. A Inteligência Relacional torna-se, assim, uma gramática do encontro humano, um modo de ler a ética das interações.
A teologia cristã oferece outro ângulo: a encarnação. Deus tornando-se relação e encontro. O Evangelho de João 1:14 afirma que o “Verbo se fez carne e habitou entre nós”. Habitar é relacionar-se, é entrar no mundo do outro com respeito e verdade. E, do ponto de vista da espiritualidade, a Inteligência Relacional torna-se essa forma de encarnação cotidiana: o compromisso de estar presente, sempre no espaço sagrado do encontro.
Perguntar para que serve a Inteligência Relacional é perguntar como posso viver de modo mais pleno, mais consciente e mais humano. Ela serve para me ensinar que relacionamentos não são espontâneos; são estruturados por liturgias silenciosas, pactos não ditos, rituais emocionais que aprendemos na infância e repetimos na maturidade. Serve para mostrar que quase nada do que me irrita no outro é realmente sobre o outro, mas sobre minhas fragilidades, minhas expectativas, meus medos.
Nietzsche afirmava que “o amor é a condição na qual o homem vê as coisas mais como elas não são”. E, em certo sentido, é verdade: o amor pode nos cegar quando não é acompanhado de lucidez. A Inteligência Relacional impede essa cegueira amorosa. Ela organiza meu afeto para que ele gere vida, não dependência; para que produza liberdade, não controle; para que sustente a dignidade, não medo.
Ela também me ensina que convivência não combina com espontaneidade irresponsável. Como diria Paulo em sua carta aos Filipenses, “que cada um considere o outro superior a si mesmo”, não no sentido de submissão, mas de humildade relacional. A Inteligência Relacional serve para que eu compreenda o outro sem me anular, para que eu me expresse sem ferir, para que eu discorde sem destruir, para que eu divirja sem desqualificar. Ela serve para equilibrar razão e emoção, colocando ambas a serviço de vínculos saudáveis. No fundo, serve para responder a uma pergunta simples e profunda: que tipo de vida eu crio nos meus relacionamentos?
A resposta é óbvia e, ao mesmo tempo, desafiadora: todos precisamos. Não porque somos frágeis, mas porque somos humanos. Freud reconhecia que não somos senhores da nossa própria casa psíquica, e muito menos o somos quando navegamos a complexidade emocional de outra pessoa. Kierkegaard lembraria que viver é fazer escolhas diante da angústia, e cada relação é uma escolha que nos define.
A Inteligência Relacional não elimina todos os conflitos, mas impede que eles se repitam indefinidamente. Resolve os ciclos de autossabotagem, as dependências emocionais, as lealdades cegas, as idealizações que se transformam em frustrações, os medos que se travestem de controle. Ela pacifica. Ela antecipa. Ela previne.
Frankl diria que quando encontro sentido em algo, encontro forças para transformá-lo; e a Inteligência Relacional dá sentido aos vínculos, retirando-os da superficialidade líquida que Bauman tão bem descreveu, para resolver o analfabetismo emocional moderno. Como destaca Byung-Chul Han, vivemos um tempo de comunicação excessiva e de relação deficitária. A Inteligência Relacional devolve densidade ao encontro, profundidade ao olhar, responsabilidade às emoções.
Comecei a perceber que, por mais complexas que pareçam, as relações seguem alguns princípios simples e profundos. São perguntas estruturantes, bússolas que me orientam na convivência.
O primeiro princípio surge na pergunta “Quem é o seu dono?”. Descobri que cada vez que eu não consigo dizer “não” a algo, seja comida, consumo, aprovação, medo ou controle, estou confessando que aquilo me domina. O apóstolo Paulo, em Romanos 6, fala sobre a escravidão das paixões, lembrando que sempre servimos a algo ou alguém. A Inteligência Relacional me obriga a reconhecer minhas compulsões, minhas carências, minhas vulnerabilidades, para que eu não delegue ao outro o poder de governar minha emoção.
O segundo princípio diz respeito às neuroses complementares. Relações muitas vezes se constroem sobre complementaridades adoecidas: o controlador e o submisso, o perseguidor e o fugitivo, o que ama demais e o que não ama nada. Como diria Fromm, amar exige maturidade, e não fusão. Quando percebo que estou vivendo como refém, mercenário ou terrorista emocional, percebo também que estou distante da cooperação saudável. Uma relação madura (ou qualquer relação madura), é aquela em que minha vulnerabilidade pode ser dita sem se transformar em arma nas mãos do outro.
O terceiro princípio é a plasticidade relacional. É impossível relacionar-se e continuar igual. O azul que se encontra com o amarelo torna-se verde. Maturana chamaria isso de acoplamento estrutural; a teologia chamaria de comunhão; a filosofia diria que somos seres em devir. Eu influencio e sou influenciado. Ninguém sai de uma relação incólume. Saber disso não me fragiliza; me torna consciente.
Observando a vida, percebi que todas as espécies seguem protocolos relacionais. Há ritmos de aproximação, sinais de perigo, coreografias de cuidado. Nós, humanos, também temos nossas liturgias, ainda que silenciosas. Há uma moral relacional que sustenta o convívio, o modo de olhar, o tempo de resposta, a delicadeza ao discordar, o cuidado ao intervir.
A Bíblia fala desses protocolos de convivência quando afirma que “a resposta branda desvia o furor” ou quando Jesus ensina que, se alguém tiver algo contra mim, devo procurá-lo antes mesmo de oferecer “meu culto”. São liturgias de reconciliação. Liturgias de presença. A Inteligência Relacional revela essas ordens invisíveis, dando forma ao “entre” de que Arendt fala. É a ética do cuidado, não paternalista, mas responsável.
À medida que fui desenvolvendo essa habilidade, percebi transformações concretas em minha vida. Relações familiares ganharam sensibilidade; relações conjugais, maturidade; relações profissionais, cooperação. Os conflitos, antes explosivos, tornaram-se conversas. Minha identidade, antes inquieta, tornou-se mais assentada. Descobri que inteligência relacional não é apenas ferramenta; é espiritualidade, ética, modo de ser.
Ela me ajuda a lidar com a diferença entre o observador que sou e a ação que construo, gerando mais coerência. Essa mecânica torna mais evidente a regra básica: meus resultados são filhos das minhas ações, que são filhos do meu modo ser que se constrói no observador que sou. Minha identidade real, o observador que sou, é moldado pelas minhas relações. A Inteligência Relacional dá plasticidade ao ser, transformando o observador que estou sendo, naquele que desejo ser.
Se eu pudesse resumir tudo, diria que a Inteligência Relacional é a alfabetização mais decisiva da vida. Ela não me ensina apenas a conviver, mas a existir de modo mais íntegro. É decidir, como Paulo escreve em Filipenses 4, “viver contente em toda e qualquer situação, porque aprendi a interpretar a vida a partir de dentro. É perceber, como Jesus ensina, que o amor se reconhece pelos frutos. É compreender, como Frankl, que sentido sempre antecede liberdade. É admitir, como Nietzsche, que preciso tornar-me aquilo que sou. É reconhecer, como Bauman, que vínculos fortes são resistência em tempos líquidos. É entender, como Fromm, que amar é um ato de maturidade. É aceitar, como Han, que profundidade é antídoto para a aceleração da vida. É assumir, como Arendt, que o mundo se sustenta no “entre”.
A Inteligência Relacional me chama continuamente a perguntar quem sou no espaço entre eu e o outro. Ela me lembra que minhas relações não são acidentes, mas escolhas. E que, na arte de escolher, eu preciso ser lúcido, amoroso, responsável e íntegro. No fim, trata-se de ler por dentro. De mim. Do outro. Da vida. E, ao ler, transformar-me naquilo que sendo, torna o outro melhor.
Reflitam em paz!

por Homero Reis
Sempre que penso nos relacionamentos que mantenho, sejam eles vínculos de afeto, convivência, trabalho ou apenas casuais, tenho à sensação de que somos atravessados por forças que não se limitam ao visível. Forças que nos moldam, que nos pressionam, que nos convidam a reagir, a interpretar, a criar sentido.
Com o tempo, percebi que essas forças não são meros movimentos psicológicos: são dimensões estruturantes da maneira como existo no mundo e me relaciono com o outro. Chamo essas forças de concêntrica e excêntrica.
Essas duas forças constituem a dinâmica fundamental da Inteligência Relacional. Como em toda dialética bem compreendida, nenhuma delas é suficiente em si; nenhuma sobrevive de forma saudável sem a outra. Ambas expressam o jogo entre a realidade que me atravessa e a realidade que eu atravesso.
No fundo, é a velha condição humana descrita por Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo”. Pois conhecer-me implica reconhecer o modo como a realidade me impacta e o modo como eu impacto a realidade. E é nessa dança, tão antiga quanto o próprio espanto filosófico, que se tecem os nossos vínculos.
Chamo de força concêntrica tudo aquilo que vem de fora para dentro. É o modo como a realidade me toca, me pressiona, me seduz, me fere ou me forma. Nietzsche dizia que nós, humanos, somos “animais interpretadores”, seres que recebem estímulos e imediatamente lhes atribuem sentido. Porém, o modo como recebo algo depende do observador que sou, e esse observador nunca é neutro.
A força concêntrica se manifesta quando percebo alguém pela primeira vez e sinto que “meu santo não bate com o dela”. Esse fenômeno, tão cotidiano quanto misterioso, revela uma operação silenciosa: sou impactado. Mesmo sem história compartilhada, algo no outro me afeta: um gesto, um olhar, uma postura. Freud chamaria de projeção. Jung chamaria de sombra. Bauman talvez chamasse de estranhamento líquido, próprio de tempos em que os laços humanos se tornaram mais frágeis e os encontros mais inquietos.
Lembro-me de uma situação aparentemente banal que escancarou essa força diante de mim. Eu participava de um evento em que seria o conferencista. Enquanto aguardava minha vez, observei um homem sentado na primeira fila. Ele não fazia gestos bruscos, não demonstrava irritação, mas sua postura, seu olhar fixo e firme, sua expressão quase impassível, me geraram uma antipatia gratuita, imediata. Era como se sua presença dissesse: “Prove seu valor.”
De repente, senti o velho desconforto: “E se eu não agradar? E se ele discordar de mim? E se parecer arrogante?” Só depois percebi que aquele homem não havia feito absolutamente nada para provocar esse turbilhão em minha mente. O impacto estava mais na forma como eu o percebi do que naquilo que ele efetivamente expressou. É assim que a força concêntrica atua: ela não pede licença; simplesmente acontece.
Muitas vezes esse impacto é profundamente desconfortável; em outras, positivo. Mas o mais intrigante é perceber que aquilo que sinto quando o outro chega é também aquilo que provoco quando eu chego. Assim como há pessoas que me inspiram bem-estar imediato, sei que também inspiro antipatias repentinas, e reconhecer isso é um exercício de humildade. Kierkegaard diria que isso é um convite à interioridade: assumir que não sou apenas aquele que sente, mas também aquele que causa sentimento.
Quando a força concêntrica domina o meu modo de estar no mundo, perco minha capacidade de gerir-me. Tudo o que chega de fora ganha peso exagerado: opiniões, julgamentos, expectativas, críticas, gestos sutis, silêncios, rejeições imaginadas. E quando isso acontece, começo a viver como se estivesse sempre à mercê das circunstâncias ou das pessoas.
1.1. Consequências do predomínio concêntrico
No domínio da identidade (o Eu): Quando me deixo dominar pela força concêntrica, entro em estados depressivos, perda da autoestima, insegurança; não necessariamente clínicos, mas existenciais. É a sensação de ser menor que a vida, menor que a história, menor que os acontecimentos. É como se a realidade fosse um mar revolto e eu, uma embarcação frágil prestes a naufragar.
Aristóteles já alertava que o excesso de passividade leva à akrasia – fenômeno que descreve a situação paradoxal onde a pessoa, de forma consciente e voluntária, não consegue seguir seus próprios princípios ou planos, falhando em cumprir a promessa que fez a si mesma e, consequentemente, a perda do domínio sobre si.
No domínio do outro: Surge o distanciamento. Afasto-me não por escolha, mas por insegurança. A solidão torna-se consequência natural da incapacidade de levantar a voz, colocar limites, dizer não. É como se eu acreditasse que o outro sempre sabe mais, merece mais, pesa mais. Mas também pode acobertar-se de comportamentos irascíveis, intolerância exagerada, mal humor.
No domínio temporal do passado: Rejeito minha história. Sinto vergonha dela, ignoro-a, contorno-a. O passado deixa de ser raiz e se torna peso. Perco a capacidade de honrar minha caminhada e, com isso, perco também a dignidade das minhas narrativas e a integridade dos meus propósitos.
No domínio temporal do futuro: Com a força concêntrica dominante, o futuro se torna nebuloso. Perco ambição, desejo, mobilidade. Byung-Chul Han diria que entro num estado de “exaustão psíquica”, incapaz de mover-me porque já não acredito na minha potência, nem na minha competência.
Agora, se a força concêntrica fala do mundo que entra em mim, a força excêntrica fala do meu movimento em direção ao mundo. É a energia de dentro para fora, meu impacto, minha voz, meu modo de interferir na realidade. É a força da ação, da decisão, da imposição.
Quando essa força predomina, corro o risco de acreditar que detenho um acesso privilegiado à realidade. Creio que vejo mais, entendo mais, posso mais do que os outros. E desse lugar, deslizo facilmente para a arrogância, prepotência, tirania, comportamentos tóxicos e abusivos. Como alertaria Platão, o excesso de confiança pode se tornar violência; e, como diria Fromm, a necessidade de controle é quase sempre sintoma de medo.
2.1. Consequências do predomínio excêntrico
No domínio da identidade (o Eu):
Curiosamente, quando a força excêntrica é excessiva, não me torno mais seguro, torno-me mais temeroso. Medo de mim mesmo, medo de ultrapassar limites, medo de desestabilizar tudo. Vivo num estado de tensão, como se qualquer gesto meu pudesse ferir alguém. É a pressão interior que Freud chamou de superego punitivo, uma instância interna que vigia cada movimento.
Recordo-me de um episódio profissional que me marcou. Eu liderava um projeto importante e acreditava, honestamente, que estava garantindo o sucesso da equipe ao tomar todas as decisões essenciais. Evitava consultar os demais porque supunha que eles não teriam a mesma visibilidade, a mesma experiência ou a mesma leitura estratégica que eu.
Um dia, um dos membros da equipe, com coragem admirável, disse:
“Homero, às vezes parece que você vem com o pacote pronto. A gente só monta.”
Essa frase me atravessou como um espelho. Ali estava a força excêntrica em sua forma mais contundente: eu interferia tanto na realidade que o outro perdia lugar nela. É como se minha presença ocupasse espaços demais, não por maldade, mas por excesso de zelo, excesso de competência, excesso de pressão interna.
Nietzsche chamaria isso de “vontade de potência mal calibrada”. Fromm diria que é o medo mascarado de controle. Byung-Chul Han diria que vivemos numa sociedade onde o desempenho vira tirania, e quem assume demais acaba esmagando o espaço do outro.
No domínio do outro: Transformo-me em ausência. Não legitimo o outro, ignoro-o. Não porque o despreze, mas porque estou tão tomado pela minha própria perspectiva que não o enxergo. É como se minha presença fosse tão grande que o mundo ao redor desaparecesse. Freud diria que essa é a porta de entrada de um narcisismo crônico.
No domínio temporal do passado: Rejeito minha história não por vergonha, mas por inconformismo. Sinto culpa, arrependimento e a necessidade constante de refazer o que já foi vivido. Como Sísifo, estou sempre empurrando a pedra da mudança, incapaz de aceitar aquilo que já passou. Incapaz de superar uma história que teve seu momento dolorido, mas que agora pode ser ressignificada.
No domínio temporal do futuro: O futuro me assusta. Tenho medo de falhar, medo de repetir erros, medo de que minha força seja grande demais ou destrutiva demais. Vivo em estado de alerta permanente, como se cada passo fosse um risco. Isso me torna tão assustado que me paraliso.
Isso me lembra a história de uma cliente que vivia o drama de se casar ou não. Segundo ela, havia amor, companheirismo, cumplicidade. Mas assumir esse papel de CASADA, a tomava de um temor imobilizador. Seu argumento era assim: não quero me casar porque você não sabe a vida que meus pais levaram e eu temo repetir essa “tragédia” no futuro.
Se há uma palavra que pode resumir a jornada da maturidade, é equilíbrio. Não equilíbrio estático, mas dinâmico, como o de um bailarino sobre o palco. Equilibrar as forças concêntrica e excêntrica é alcançar aquilo que chamo de Inteligência Relacional.
Ela é a competência de dançar entre perceber e atuar; entre escutar e dizer; entre recolher e oferecer; entre ser afetado e afetar. É aquilo que Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco, chamaria de justa medida, o ponto virtuoso entre extremos que, isolados, são vícios. Quando encontro esse equilíbrio, algo profundo acontece. Senão, vejamos:
3.1. No domínio da identidade (o Eu):
Sinto-me pleno. Não inflado nem diminuído. Rico, mas não arrogante. Sereno, mas não passivo. É a experiência de habitar a própria pele com naturalidade, aquilo que a psicologia humanista de Carl Rogers chamaria de congruência.
3.2. No domínio do outro:
Aproximo-me dele com legitimidade. Já não preciso me esconder e já não preciso me impor. Posso permitir que ele seja quem é. Legitimar o outro, como sempre digo, não é concordar com ele, é reconhecê-lo. É olhar e dizer: “Tu és um mundo, e teu mundo não ameaça o meu”.
3.3. No domínio temporal do passado:
Valido minha história. Reconheço luzes e sombras. Aceito minhas falhas e celebro minhas conquistas. O passado deixa de ser prisão e se torna fundamento. Como dizia Paul Ricoeur, começo a narrar minha vida não como vítima nem como herói, mas como protagonista responsável.
3.4. No domínio temporal do futuro:
O futuro se abre como horizonte cheio de sentido. Sinto curiosidade. Sinto desejo. Sinto mobilização. Caminho como quem sabe que ainda há paisagens a descobrir, comidas a experimentar, culturas a conhecer, projetos a realizar. O futuro deixa de ser ameaça ou fantasia e se transforma em convite.
Certa vez atendi um executivo que vivia preso ao predomínio da força excêntrica. Era brilhante, competente, admirado. Mas sua presença era tão forte que seus líderes se calavam diante dele. Ele acreditava que estava sendo eficiente. Os outros acreditavam que estavam sendo descartados.
Durante uma de nossas sessões, ele me contou uma experiência que o transformou. Disse-me que, um dia, ao chegar em casa, sua filha pequena correu para mostrar-lhe um desenho. Ele olhou, disse que estava bonito e voltou ao celular. A menina, então, segurou seu rosto com as duas mãos, forçando-o a olhar para ela e disse: “PAPAI, VOCÊ ME VÊ?”
Ele ficou paralisado. Percebeu, naquele gesto simples, que não via ninguém, nem mesmo a filha. No trabalho, no trânsito, nas relações, ele não via nada além de si mesmo e de sua agenda e interesses. Apenas avançava. Era puro movimento excêntrico.
Naquele dia, algo se abriu para ele. Ele começou a permitir que a força concêntrica também tivesse lugar: o impacto, a vulnerabilidade, a sensibilidade, a escuta. Sem saber, sua filha lhe ensinou a lição que Sócrates ensinara há milênios: a vida examinada é a única digna de ser vivida, e examinar-se inclui reconhecer o impacto que o outro causa e o impacto que causamos no outro. Ela lhe ensinou aquilo que chamo de inteligência relacional.
A vida, com suas tensões, tentações, quedas e ressurgimentos, me ensinou que a inteligência relacional não se conquista de uma vez. Ela se pratica. Requer vigilância amorosa sobre mim mesmo, como recomendaria Santo Agostinho: in interiore homine habitat veritas (“a verdade habita no interior do homem”).
Ser inteligente relacionalmente não é ser perfeito. É ser impecável e fazer o melhor possível com o que tenho, como costumo ensinar. É reconhecer que sou observador e ator. É assumir que o mundo me toca e que eu o toco. É saber que o outro me modifica e que eu o modifico. É aceitar que a vida é um sistema de influências mútuas.
Byung-Chul Han diria que vivemos numa era de hipersensibilidade, onde tudo nos afeta demais, e numa era de hiperprodutividade, onde tudo exige que atuemos demais. O desafio, portanto, não é ser mais sensível nem mais ativo, é ser sensível e ativo. É escutar e agir. É perceber e interferir. É concêntrico e excêntrico.
Aristóteles diria: é encontrar o meio virtuoso. Buda diria: é trilhar o caminho do meio. Kierkegaard diria: é escolher a si mesmo na presença de Deus.
Fromm diria: é amar-se sem se perder de si, e amar o outro sem possuí-lo.
Jesus diria: é amar ao próximo como a si mesmo, o que significa amar o próximo e a si mesmo na mesma medida.
Com o tempo, desenvolvi um método simples para perceber onde estou na dança existencial das forças que me constituem: basta estar atento às minhas reações diante das acontecencias da vida.
Quando a força concêntrica está dominando:
a) fico inseguro diante do olhar alheio,
b) tenho dificuldade de dizer não,
c) sinto que a vida pesa mais do que deveria,
d) meu passado me envergonha,
e) o futuro me assusta.
Quando a força excêntrica está dominando:
a) imponho demais minhas opiniões,
b) escuto pouco,
c) ignoro o outro,
d) rejeito minha história não por vergonha, mas por revolta,
e) o futuro me pressiona como se fosse uma ameaça.
Reconhecer meu estado já é meio caminho para restabelecer equilíbrio. Como dizia Foucault, a consciência sobre si é, em si mesmo, um exercício de liberdade.
Todas as tradições filosóficas, espirituais e psicológicas convergem para a mesma ideia: tornamo-nos humanos por meio das relações. É no olhar do outro que aprendo quem sou. É na minha presença que o outro descobre quem pode ser. É na história compartilhada que construímos significados. É no futuro sonhado que criamos mundos possíveis.
A inteligência relacional é, no fundo, uma metodologia da convivência. É a arte de equilibrar as forças que nos constituem. É a capacidade de manter a espinha ereta diante da vida: firme o suficiente para sustentar-se, flexível o suficiente para acolher.
Hoje, quando olho para minha própria trajetória, percebo que vivo numa eterna oscilação entre receber e agir. Já fui excessivamente concêntrico, carregando culpas, medos, vergonhas e a sensação de insuficiência. Já fui excessivamente excêntrico, escondendo minha vulnerabilidade atrás de certezas e discursos. Já me senti vítima do mundo e já me senti senhor do mundo.
A maturidade me ensinou que não preciso ser nenhum dos dois. Posso ser os dois. Posso permitir-me a porosidade de ser tocado e a coragem de tocar. Platão imaginava que a harmonia da alma nasce quando cada parte ocupa seu devido lugar. Eu diria que a harmonia relacional nasce quando a força concêntrica e a força excêntrica encontram seu compasso comum.
E nesse encontro, descubro o que sempre busquei: não o controle, não a submissão, não a perfeição, mas a impecabilidade da presença. A vida continua a me impactar. Eu continuo a impactar a vida. E nesse movimento contínuo, encontro o lugar onde me torno plenamente humano.

por Homero Reis
Ao longo da minha trajetória pessoal e profissional, percebo que poucas palavras são tão frequentemente usadas, e tão pouco examinadas, quanto “amizade”. Fala-se muito sobre amigos, multiplica-se sua presença nas redes sociais, comemora-se o Dia do Amigo com imagens carinhosas, áudios improvisados e postagens festivas. Contudo, o que efetivamente significa ser amigo? Qual é o protocolo ou o estatuto filosófico, emocional e existencial desse vínculo tão cotidiano quanto misterioso?
A Inteligência Relacional, matriz conceitual que venho desenvolvendo há décadas, parte de uma premissa simples e exigente: não existem relacionamentos perfeitos; existem relacionamentos possíveis. Esse princípio, aparentemente óbvio, altera completamente a forma como percebo os laços humanos. Ele me convidou a reconhecer que a amizade não é um dom espontâneo, nem uma espécie de acidente afortunado: ela é construção, processo, escolha, trabalho ético e, sobretudo, vontade de presença.
Quando escrevi, anos atrás, um breve texto que posteriormente serviu de inspiração para este ensaio, eu apenas intuía a profundidade do tema. Hoje, com leituras ampliadas, conversas vividas, perdas sofridas e amizades amadurecidas, e setenta anos, percebo que falar de amizade é falar do modo como habitamos o mundo. É refletir sobre nossa condição humana mais profunda e essencial. Como afirmou Hannah Arendt, “nada do que o homem faz é possível isoladamente, porque a condição humana é a pluralidade”. A amizade encarna essa pluralidade: somos muitos, somos diferentes, e é nesse encontro de diferenças que nos tornamos possíveis.
Por isso, mais do que oferecer definições, quero convidar você, como faço sempre com meus clientes, estudantes e interlocutores, a lembrar-se de suas próprias experiências nesse campo. Como tem sido a sua vida no território da amizade? Quem lhe acompanha nos dias luminosos? E quem permanece no silêncio dos dias sombrios? Quem vê você quando você mesmo não se vê?
Esse ensaio é, portanto, uma reflexão sobre a amizade enquanto caminho de crescimento, enquanto força ética, enquanto exercício da alteridade e enquanto antídoto à solidão, talvez a mais grave doença relacional do nosso século.
Uma das convicções mais fortes que carrego, nutrida pela filosofia, pela psicologia e pela teologia, é que somos seres psiquicamente incompletos. Somos plenos enquanto sistemas biológicos, mas somos ontologicamente inacabados como seres humanos.
A literatura bíblica, ao narrar poeticamente a criação, afirma: “Não é bom que o homem esteja só.” (Gên. 2:18). Independente de leituras literais ou metafóricas desse texto, há nele uma verdade antropológica profunda: somos seres de relação, e nossa saúde depende dessa relacionalidade.
Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração e um dos pensadores que mais me inspiram, dizia que “a essência do ser humano é ser voltado para algo ou alguém além de si mesmo”. Freud, por sua vez, reconhecia que o eu é sempre atravessado pelo outro, e que nossa subjetividade é constituída num jogo delicado entre pulsões, vínculos e interdições. Kierkegaard, ao falar do desespero, apontava que o isolamento do “eu fechado sobre si” gera adoecimento espiritual. E é diante dessas vozes bíblicas, filosóficas, psicológicas, que eu compreendo: precisamos do outro não por carência, mas por natureza.
Meu pai costumava dizer algo que guardo como uma herança viva: “Quem afia um ser humano é outro ser humano.” Ele tinha razão. É no atrito das relações que nossas arestas se revelam, e é no cuidado mútuo que aprendemos a apará-las.
Essa incompletude funda a possibilidade da amizade. Se fôssemos autossuficientes, não haveria motivo para criar laços. Mas como não somos, a amizade torna-se não apenas possível, mas necessária.
A sociedade compreendeu, intuitivamente e, depois, juridicamente, que a solidão é uma forma de punição. Por exemplo: o sistema prisional funciona como metáfora radical desse princípio. O primeiro castigo que se aplica a um “criminoso” é retirar o indivíduo do convívio social; o segundo, aplicado quando a convivência mínima também falha, é colocá-lo na solitária.
Isso diz algo assustador: a falta de relacionamentos (sejam eles quais forem), produz sofrimento profundo. Byung-Chul Han observa que a sociedade contemporânea, marcada pela hiperconexão e pela lógica do desempenho, gera indivíduos exaustos e solitários. Vivemos conectados a tudo, mas pertencendo a quase nada.
Quando escolhemos a solidão estruturante, não o isolamento saudável, não o recolhimento criativo, mas a solidão como modelo de vida, adoecemos. A pandemia invisível do século XXI não é apenas a ansiedade, nem a depressão, nem o burnout, embora todas estejam relacionadas. A grande pandemia é a solidão, expressão máxima da perda dos vínculos significativos. Nesse cenário, a amizade não é luxo: é recurso de sobrevivência emocional, porque sem ela perdemos a possibilidade de ter o melhor de nós enquanto ainda temos tempo.
A amizade nasce do encontro entre seres diferentes, diferentes histórias, diferentes expectativas, diferentes vulnerabilidades. O poeta Vinícius de Moraes, no Samba da Benção, disse com sabedoria: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.”
Eu mesmo poderia enumerar inúmeros encontros que transformaram minha trajetória; alguns marcados pela leveza imediata, outros atravessados por conflitos necessários. Mas houve também inúmeros desencontros: amizades possíveis que a imaturidade não permitiu florescer. A amizade, em todos esses casos, exigiu gestão das diferenças, competência que considero um dos pilares da Inteligência Relacional.
Bauman chamou nossa época de “modernidade líquida”: vínculos frágeis, laços descartáveis, afetos substituíveis. Nesse contexto, construir amizade torna-se ato de resistência. É como nadar contra a corrente de um mundo que prefere relações rápidas, superficiais e utilitaristas.
A verdadeira amizade, ao contrário, requer trabalho, paciência, vulnerabilidade, habitação do tempo, como o vinho que precisa maturar para revelar sua profundidade.
Os linguistas propõem diversas origens para a palavra “amizade”. Gosto especialmente da hipótese grega associada à literatura homérica, segundo a qual a palavra amigo deriva da junção de a (negação) com ego, indicando a experiência do sem-ego: uma relação na qual não preciso defender-me, justificar-me, provar-me. É como se a amizade fosse o espaço onde minha identidade pode, finalmente, respirar.
Essa noção dialoga profundamente com Erich Fromm, que afirma, em A Arte de Amar, que o amor e a amizade como sua modalidade, implica uma postura ativa de cuidado, responsabilidade e respeito, e não a posse ou a fusão das identidades.
Quando chamo alguém de amigo, digo implicitamente: “Com você, não preciso ser máscara; posso ser pessoa.” Essa compreensão etimológica ilumina a experiência: a amizade não é fuga para um mundo fantasioso, mas o lugar onde o mundo “real” pode ser habitado sem medo.
Em muitos processos de mentoria, uma das primeiras perguntas que faço é simples e desarmadora: “Você tem amigos?” A resposta costuma vir rápida: “Sim, claro.” Mas quando aprofundamos a conversa, percebemos que muitos confundem amizade com coleguismo, convivência circunstancial ou proximidade familiar.
Um dos momentos mais emblemáticos dessa pergunta ocorreu com um executivo brilhante, bem-sucedido, que me respondeu: “Sim, tenho amigos.” Mas ao explorar sua experiência, ele começou a chorar. Percebeu que chamava de “amigos” apenas pessoas com quem trocava interesses profissionais. Ele não tinha com quem ser vulnerável. Não tinha com quem dividir seu medo mais íntimo e suas inseguranças mais simples.
Essa cena tem se repetido tanto que hoje reconheço: a quantidade e a qualidade dos amigos revelam mais sobre a saúde relacional de alguém do que qualquer outro indicador relacional que eu conheça.
Ao investigar a dinâmica relacional, percebi que a amizade nasce da combinação entre vontade e hábito. A vontade é o desejo de voltar-se ao outro. O hábito é a disciplina de cultivar essa aproximação ao longo do tempo. C.S. Lewis dizia que a amizade “não é necessária como o sol, a água ou o pão; mas ela lhes confere valor”. A amizade é o que dá densidade existencial ao cotidiano.
Com o tempo, percebi que meus amigos são aqueles com quem partilho presença, mesmo quando discordamos. Tenho amigos com quem já discuti duramente, amigos com quem briguei, amigos que me feriram e que eu feri. E ainda assim, há entre nós uma força de atração, quase um chamado, que nos devolve o diálogo.
Nietzsche, em sua provocação habitual, dizia que o amigo deve ser “o inimigo mais próximo”, no sentido de ser aquele que não nos quer mal, que nos confronta com honestidade e nos impede de viver uma vida medíocre. Aprendi a valorizar profundamente esses confrontos amorosos.
A amizade exige virtude, não no sentido moralista, mas como disposição permanente para o bem mútuo. Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco, dizia que a amizade é uma excelência ética, pois só floresce entre pessoas que desejam o bem umas das outras pelo que cada uma é.
Isso dialoga com Paul Tillich, teólogo e filósofo, quando define amor como “a força que aceita o outro e que o impulsiona a realizar seu próprio ser”. A amizade, portanto, é prática de aceitação e impulsão.
Quando escolho estar com alguém, não é por utilidade, prestígio ou conveniência. É porque naquela presença sinto algo que Fromm chamou de “experiência de união preservando a integridade”. A amizade não me anula, não me absorve, não me substitui: me integra.
Lembro-me de um amigo de juventude, com quem tive uma ruptura significativa após um conflito mal administrado. Passamos anos sem nos falar. Mas algo em mim, e nele, continuava inquieto.
Um dia, após refletir sobre essa relação, enviei-lhe uma mensagem simples:
“Eu não quero terminar minha vida sem que conversemos novamente.” Ele respondeu imediatamente. Retomamos a conversa, revisitamos feridas, pedimos perdão, rimos do passado. Hoje, ele é um dos vínculos mais sólidos que cultivo.
Essa história, entre tantas que vivi, reforça em mim a convicção de que a amizade é um investimento afetivo sustentado pelo tempo. E que, como dizia Frankl, “o amor vê aquilo que é essencial, invisível aos olhos de quem se defende demais”.
Heidegger, em “Ser e Tempo”, descreve o fenômeno do “todos-nós-ninguém”: vivemos cercados por muitos, mas muitas vezes sem pertencer a ninguém. Esse estado gera a sensação paradoxal de uma “multidão solitária”.
A amizade, e apenas ela, rompe esse círculo existencial. Porque na amizade encontro o espaço em que posso ser alguém diante de alguém. Como diz Byung-Chul Han, o sujeito contemporâneo está adoecido de excesso de si: hiperprodutivo, hiperperformático, hiperexposto. A amizade corrige esse excesso porque nos obriga a suspender o ego, a escutar, a acolher o ritmo do outro.
Entre todas as narrativas sobre amizade, há uma que me toca profundamente: o momento em que Jesus, diante da iminência de sua morte, volta-se aos discípulos e lhes declara: “Já não vos chamo servos, mas de amigos.” Esse gesto, que poderia ser apenas simbólico, carrega um significado revolucionário: na hora mais difícil de sua vida, Jesus escolhe cercar-se de amigos.
Quando penso nisso, faço sempre a mesma pergunta, a mim e aos outros: quem você quer que esteja ao seu lado no momento mais dramático da sua vida? Essa pergunta, simples e poderosa, revela a verdade essencial sobre a amizade: amigo é aquele cuja presença nos sustenta quando todas as outras presenças se ausentam.
A amizade, portanto, não é um enfeite da vida; é um fundamento. Não é um bônus existencial; é parte do próprio existir. Não é um afeto superficial; é uma prática ética profunda.
Volto ao conceito grego de aego (sem ego), a melhor síntese do que compreendo hoje por amizade: amizade é oferecer ao outro um espaço onde ele não precise se defender. A amizade é, finalmente, magia e trabalho, graça e disciplina, afetividade e ética, risco e proteção.
E se eu pudesse resumir esta primeira parte, numa única frase, diria: amizade é o vínculo que torna a vida possível de ser vivida, não para defini-la, mas para honrá-la.
Ao encerrar a reflexão anterior, percebi que aquilo que chamo de amizade ainda precisava ser ampliado em outra direção: a da maturidade. Não apenas porque a amizade se transforma com a idade, mas porque também exige, de cada um de nós, uma disposição interior para crescer.
Assim como certos vinhos que só revelam seu perfume, estrutura e complexidade depois de anos amadurecendo na penumbra, a amizade também pede tempo, um tempo que não é cronológico, mas humano. Um tempo tecido de paciência, de recomeços, de negociações silenciosas e de reconhecimento recíproco.
A experiência de amadurecer amizades é, a meu ver, uma das grandes artes da vida e uma das grandes forças “daquilo que é essencialmente humano”. E como toda arte, implica técnica, inspiração, disciplina e uma sensibilidade que se afina com o passar das décadas.
Quero, então, avançar na reflexão: o que distingue a amizade madura da amizade apenas circunstancial? Como ela se sustenta? Como atravessa rupturas? O que ela exige de nós em termos de ética, vulnerabilidade, perdão e coragem?
Essas perguntas acompanham minha jornada pessoal e profissional, há algum tempo. E é a partir delas que vamos prosseguir.
A amizade madura não é a amizade perfeita — esta não existe. Mas é a amizade que aprendeu a atravessar o tempo sem perder o frescor, e a suportar mudanças sem se romper.
Como diria Aristóteles, trata-se de uma amizade fundada na philia virtuosa, onde cada um deseja o bem do outro pelo que o outro é, e não pelas vantagens mútuas que podem surgir.
Numa amizade madura, eu reconheço que o outro não me pertence; ele tem sua própria biografia, seus próprios ritmos, seus próprios silêncios. Há um respeito pelo espaço vital do outro que se expressa, paradoxalmente, em um vínculo mais forte: a historicidade comum refletida na reflexão; ou seja, maturidade.
A maturidade permite que a amizade seja estável, mas nunca estática; profunda, mas nunca possessiva; contínua, mas nunca congelada; afetiva, mas nunca infantil.
Byung-Chul Han observa que a vida contemporânea padece de hiperaceleração: vínculos rápidos, promessas instantâneas, dissoluções abruptas. A amizade madura é o contrário disso: é a arte de permanecer, mesmo quando tudo ao redor se fragmenta. Ela é, de certa forma, um protesto silencioso contra a lógica utilitarista que transforma pessoas em recursos.
A amizade amadurece quando se torna um espaço onde posso ser vulnerável. Vulnerabilidade, aqui, não é exposição desmedida, nem confissão compulsiva. É a coragem de ser visto. É permitir que o outro entre no território que normalmente escondo até de mim mesmo. Nietzsche dizia que “todo profundo amor é profunda coragem”. O mesmo vale para a amizade.
É fácil ser amigo de alguém apenas no que há de luminoso. Difícil é permanecer quando a fragilidade aparece: o medo, o erro, o fracasso, o luto, o choro. A amizade madura é aquela que não recua diante do desamparo do outro. É aquela que, às vezes, mesmo sem “ter o que dizer”, está presente no silêncio.
No livro de Jó (Jó 2: 11-13), há um texto que diz o seguinte: “Quando três amigos de Jó, Elifaz, de Temã, Bildade, de Suá, e Zofar, de Naamate, souberam de todos os males que o haviam atingido, saíram, cada um da sua terra, combinaram encontrar-se para mostrar a sua solidariedade e consolá-lo. De longe, porém, não o reconheceram, e choraram em alta voz. Rasgaram o manto e atiraram pó ao ar, sobre a cabeça. Sentaram-se no chão, ao seu lado, durante sete dias e sete noites. Ninguém lhe disse uma palavra, pois viam como era grande o seu sofrimento.” Isso é muito inspirador. A amizade madura não recua diante do desamparo do outro.
Recordo-me de um período da minha vida em que estava atravessando alguns dramas familiares e profissionais. Uma daquelas crises que parecem pequenas para o mundo, mas gigantescas para quem as vive. Tive a sensação de que estava desaprendendo quem eu era e sem coragem de agir.
Nessa época, um amigo me disse: “Você não precisa ser forte agora. Estamos juntos e entendo sua dor”. Essa frase, tão simples, foi um ponto de inflexão. Ela transformou não apenas minha crise, mas meu modo de compreender a amizade. A vulnerabilidade compartilhada e acolhida é um dos lugares onde a amizade amadurece plenamente.
Não há amizade madura sem perdão. Não falo aqui do perdão heroico ou religioso, mas como competência relacional. Um amigo, por melhor que seja, inevitavelmente vai me ferir; e eu também o ferirei. Somos seres imperfeitos tentando construir algo precioso.
Erich Fromm afirma que amar é um ato de vontade que se renova todos os dias. A amizade é assim: uma decisão renovada de permanecer, mesmo após o tropeço. Hannah Arendt, refletindo sobre “os relacionamento sociais, dizia que o perdão é a única ação capaz de interromper a cadeia das consequências desastrosas e inevitáveis. Quando aplico essa ideia ao cotidiano de minhas relações, compreendo que o perdão é aquilo que abre a possibilidade de futuro. Sem perdão, só resta passado. Com perdão, recomeça o presente.
Já contei essa história: Lembro-me de um amigo com quem tive um conflito duro, quase irreversível. Durante meses, falei comigo mesmo que seria melhor deixá-lo ir. Mas havia algo em mim, talvez uma combinação de memória, afeto e honestidade, que dizia: “Essa história não terminou”.
Quando conversamos, não houve explicações longas. Houve uma frase dele que me comoveu: “Eu senti sua falta.” Foi o suficiente para reconstruir a ponte. A amizade madura sabe que pontes valem mais que muros.
Uma das características mais paradoxais da amizade adulta é que ela não depende da proximidade física.
Há amigos que vejo com pouca frequência, mas cuja presença em minha vida é constante. Com eles, a distância não diminui a intensidade; ao contrário, às vezes a realça. É que a amizade não está baseada no encontro constante, mas na fidelidade silenciosa. É possível ficar meses sem conversar e, ao reencontrar-se, retomar exatamente de onde se parou.
Essa experiência é descrita por C.S. Lewis como “a alegria surpreendente de reconhecer uma alma que caminha na mesma direção que você”. A amizade madura, portanto, desafia a tirania do tempo e do espaço. Ela é uma presença contínua, mesmo quando ausente. Uma espécie de eco que nos acompanha.
Algumas amizades se rompem. Outras se esvaziam. Algumas se transformam de tal forma que precisamos deixá-las descansar. Falar de amizade madura também significa aceitar que há vínculos que se completam e que honrar uma amizade pode significar deixá-la ir.
Mas mesmo nesses casos, carrego comigo a convicção de que nenhuma amizade verdadeira é perdida: ela cumpre sua função, deixa marcas, ensina algo.
Nietzsche dizia que “aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal”. Eu diria que aquilo que se faz na amizade está sempre além do útil e do inútil. Uma amizade que se encerra pode, ainda assim, ter sido preciosa. E uma amizade que retorna, como tantas que já vi renascerem, costuma voltar mais sábia.
A amizade madura cria uma intimidade ética, não uma intimidade invasiva.
É o espaço onde posso falar a verdade, inclusive a verdade que dói. Kierkegaard lembrava que “a ferida infligida pelo amigo é fiel”, no sentido de que há conversas que só um amigo pode ter conosco. Há alertas que só um amigo pode nos dar. Há limites que só um amigo pode apontar sem nos destruir. Em tempos de discursos superficiais e respostas automáticas, a amizade torna-se um espaço de pensamento crítico e de cuidado mútuo.
A amizade, em sua forma mais profunda, toca o território do sagrado. Não importa se alguém é religioso, espiritualizado, agnóstico ou ateu, há algo transcendental na experiência de encontrar um outro que, livremente, escolhe caminhar ao meu lado.
Quando Jesus disse aos seus discípulos: “Já não vos chamo servos, mas amigos”; ali o sagrado não se expressou na autoridade, mas na intimidade, na partilha da vida; no desejo de presença em meio ao sofrimento. Amizade é, portanto, uma forma de espiritualidade encarnada, uma liturgia da convivência.
Se a primeira parte deste ensaio buscou compreender a amizade como fenômeno relacional e antropológico, esta segunda parte procura situá-la como vocação humana, como prática de maturidade, como ética da presença, como caminho de cura e como espaço de transcendência.
A amizade madura é o lugar onde a vida se revela em sua forma mais humana. É onde descobrimos que não estamos destinados à solidão. É onde somos reconhecidos, acolhidos, confrontados e sustentados.
Na amizade, aprendemos, talvez pela primeira vez na vida, que podemos ser amados não porque somos úteis, brilhantes ou fortes, mas simplesmente porque somos.
Se eu pudesse sintetizar esta segunda parte numa só frase, diria: a amizade é a arte de permanecer, e permanecer é o gesto mais humano que existe.
Ao escrever as duas primeiras partes deste ensaio, percebi outros territórios essenciais a percorrer. A amizade, enquanto experiência humana radical, não se esgota nos temas da presença, da maturidade, do perdão ou da vulnerabilidade. Ela atravessa e é atravessada pelos dilemas mais profundos da existência: a morte, o tempo, o dissenso, a tecnologia, as gerações, as escolhas éticas.
A amizade, quando levada a sério, revela-se como uma espécie de hospitalidade ontológica, expressão que tomo emprestada de Paul Ricoeur: acolher o outro é acolher uma parte de mim que eu ainda desconheço.
Quero, portanto, avançar em direção a essas zonas de complexidade, não como quem pretende domesticar o tema, mas como quem reconhece que a amizade é inesgotável, sempre maior do que aquilo que consigo dizer.
Nada testa mais a substância de uma amizade do que a proximidade da morte. Quando a vida se contrai e tudo se reduz ao essencial, a amizade aparece como última fortaleza de sentido.
Tenho visto isso inúmeras vezes: – no hospital onde um amigo segura a mão do outro em silêncio; – no velório onde alguém chega discretamente, não para consolar, mas para simplesmente estar; – na doença prolongada, em que a presença continuada substitui qualquer discurso. Viktor Frankl dizia que “quem tem um porquê enfrenta quase qualquer como”. Na proximidade da morte, muitas vezes o “porquê” é um amigo.
Em certo momento da minha vida, acompanhei um amigo querido em seus dias finais. Ele me disse, numa tarde de pouca luz em que fui visita-lo: “Ter você aqui não muda o destino, mas muda o caminho até ele.” Entendi ali que a amizade não nos salva da morte, mas nos salva de morrer sozinhos. E isso, de certo modo, é uma salvação.
Pessoalmente, tive há pouco tempo, alguns problemas de saúde, inesperados e atordoantes. Isso fragilizou-me muito: instalou o medo da morte e a insegurança de ficar só. Foi quando um amigo veio visitar-me. Eu estava só em casa com todos as angústias que nos habitam nessas horas. Esse amigo sentou-se comigo durante um bom tempo, escutou minhas fragilidades, acolheu meus medos. Sua presença tornou aquele tempo um refrigério para minha vida. Quando terminou aquela visita, senti-me confortado e restaurado para seguir a vida.
C.S. Lewis, após perder seu grande amigo J.R.R.Tolkien, escreveu que a amizade é o único tipo de amor que jamais tenta nos possuir. Por isso, quando um amigo morre, não perdemos apenas a pessoa: perdemos o modo daquele amigo olhar o mundo, perdemos o ângulo de vida que ele nos oferecia.
A morte, paradoxalmente, revela a dimensão teológica da amizade: ela nos faz desejar que a vida continue para além de nós, porque a presença do outro se torna parte da nossa esperança. Por isso Jesus, no final de seus dias, disse aos amigos: “…e eis que estarei com vocês todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28:20).
Vivemos tempos polarizados, em que opiniões políticas, valores morais e crenças se tornaram linhas divisórias quase intransponíveis. Nessa arena, a amizade parece frequentemente ameaçada. Mas a amizade madura, aquela sobre a qual já discorri anteriormente, não é afinidade ideológica. É capacidade de ver o outro para além do que ele pensa.
Hannah Arendt dizia que o pensamento nasce da capacidade de conversar consigo mesmo. Eu acrescento: a amizade nasce da capacidade de conversar com o outro. E a amizade madura nasce da capacidade de sustentar conversas difíceis sem destruir o vínculo.
Tenho amigos que pensam radicalmente diferente de mim sobre temas fundamentais. Com alguns deles aprendi mais do que com pessoas que concordavam comigo em tudo. O dissenso, quando atravessado com ética, gera crescimento mútuo.
Nietzsche afirmava que “a verdadeira amizade exige certa tensão”. Discordar não é ruptura; é reconhecimento da alteridade. No entanto, existe um limite. A amizade não sobrevive onde há desumanização. É possível ter um amigo com quem discordo profundamente, mas não é possível ter amizade onde o outro nega minha dignidade ou minha humanidade. A amizade madura, portanto, não apaga diferenças, as ilumina sem permitir que se tornem abismos.
A digitalidade transformou completamente o cenário dos relacionamentos humanos. Nunca estivemos tão conectados e, paradoxalmente, tão sozinhos.
Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, afirma que a hiperconexão cria contato contínuo, mas não gera encontro porque confunde conexão com vínculo. Para que haja amizade, é preciso encontro, mesmo que este encontro não seja físico, mas deve ser sempre simbólico, emocional, epistolar.
Tenho amizades que nasceram no digital e se tornaram fontes profundas de sentido. Mas também vejo relações esvaziadas pela superficialidade da troca rápida, pelos “likes” que substituem conversas, pelas notificações que criam a ilusão de vínculo.
A questão não é demonizar o digital (ou o online), mas discernir: quando a tecnologia aproxima, ela é ponte; quando substitui a profundidade, ela é ruído. A amizade verdadeira resiste ao digital, mas não se satisfaz com ele, porque exige a densidade que nenhuma tecnologia consegue simular.
Nem todas as relações começam em igualdade. Há amizades que nascem entre mestre e aprendiz, líder e liderado, terapeuta e paciente, professor e aluno. É possível uma amizade nesses contextos? Sim; mas é preciso maturidade ética.
Michel Foucault lembrava que todo relacionamento humano envolve uma disputa de forças. A amizade madura, porém, não elimina essa tensão: ela a reconhece e a regula.
Em minha trajetória, desenvolvi amizades verdadeiras com pessoas que inicialmente estavam em posições assimétricas em relação a mim. O que fez a amizade emergir foi a ética: ausência de manipulação; honestidade das intenções; transparência; respeito pela autonomia.
A amizade só floresce onde o poder não se torna instrumento de controle, mas de serviço, como Jesus fez quando chamou seus discípulos de amigos e lavou-lhes os pés. O poder que serve possibilita amizade. O poder que domina a impede.
Uma das experiências mais belas da vida adulta é construir amizades com pessoas de diferentes gerações. Amizades com quem vem antes de nós carregam memória, sabedoria e chão. Amizades com quem vem depois carregam frescor, futuro e reinvenção.
Lembro-me de um jovem que se aproximou de mim certa vez, durante uma palestra, dizendo: “Vejo o senhor como um amigo que ainda não conheço bem.” Rimos juntos, mas depois percebi que havia verdade ali. A amizade inter geracional é isso: uma ponte entre tempos.
Agostinho dizia que “o tempo é distensão da alma”. Se é assim, a amizade inter geracional é a alma se distendendo para caber mais vida do que poderia caber sozinha. Essas amizades não apenas ampliam nossa experiência do mundo; ampliam também nossa responsabilidade. Somos, ao mesmo tempo, herdeiros e mentores, jardineiros e sementes. Tive muitas amizades profundas com pessoas bem mais velhas do que eu; e hoje, estou tendo a oportunidade de ser honrado com a amizade de pessoas bem mais jovens. Como isso me nutre, me alegra e me salva de mim mesmo!
Penso com recorrência sobre o que significa deixar um legado. Frequentemente, imaginamos legado como algo que fazemos: livros, obras, projetos, instituições.
Mas, quanto mais envelheço, mais percebo que o maior legado que deixamos é aquilo que plantamos nas pessoas, especialmente nos amigos.
Os amigos são testemunhas de quem fomos. São arquivos vivos da nossa biografia emocional. São guardiões das nossas melhores intenções e dos nossos piores erros, e ainda assim permanecem. A amizade, nesse sentido, é memória compartilhada. E essa memória, quando transmitida, se torna parte da história de alguém.
Nietzsche dizia que “somente aquele que constrói o futuro tem direito de julgar o passado”. Eu diria que somente aquele que vive amizade verdadeira deixa um legado que realmente toca o futuro do outro. Sim, porque amizades verdadeiras criam possibilidades que jamais seriam possíveis para alguém sem amigos. Tantas histórias confirmam isso: Mahatma Gandhi e Hermann Kallenbach; Winston Churchill e Frederick Lindemann; Martin Luther King Jr. e Bayard Rustin; Isaac Newton e John Flamsteed; Cleópatra e Mardiano; Theodore Roosevelt e Gifford Pinchot; Carlos Magno e Alcuíno de York; Frida Kahlo e Chavela Vargas; e tantos outros. Você tem amizades que lhe deixaram legados? Você tem amizades para quem você será o legado? Que tal pensar nisso?
Minha síntese para esta terceira parte, em uma imagem, seria a da hospitalidade.A amizade é o lugar onde somos recebidos, não porque somos perfeitos, mas porque somos humanos. É o espaço onde nossa existência encontra acolhimento e espelho. Onde nossas dores encontram repouso. Onde nossos medos encontram tradução. Onde nossa morte encontra companhia. Onde nossa vida encontra significado. Onde nossa história permanece viva porque toca a eternidade.
A amizade, afinal, é a forma mais concreta, humana e cotidiana de transcendência. É onde Deus está, para quem crê; onde o sentido se aflora, para quem busca; onde o outro permanece, para quem sofre; onde o futuro encanta, para quem espera; onde tudo se torna presença e encantamento. A amizade é, por fim, a hospitalidade do ser: recebo o outro e, ao recebê-lo, descubro que também fui recebido.
Ao longo das partes anteriores deste ensaio, percorri diferentes dimensões da amizade: sua profundidade existencial, sua maturidade, sua relação com a vulnerabilidade, seu papel diante da morte, do tempo, da política e das gerações.
Contudo, para finalizar (e não para concluir), quero retornar ao núcleo originário do conceito e de minhas reflexões sobre ele, como quem retorna à nascente de um rio para entender sua força. Os capítulos anteriores convidaram-me a revisitar três dimensões fundamentais: A origem gregária e filosófica do conceito de amizade (A-Ego); A ética relacional — respeito, cordialidade, limites, não comparação; A amizade como espelho ontológico — o outro como possibilidade de mim mesmo.
Estas três dimensões, aparentemente simples, ajudaram-me a estruturar toda a arquitetura afetiva da amizade. A partir delas, pude aprofundar em mim e para mim mesmo a sua análise existencial, a partir de minha própria história, sem perder a delicadeza reflexiva que caracteriza meu estilo autoral.
O ponto de partida é o termo grego que tanto gosto de evocar: A-Ego, o “sem-ego”. Essa negação não significa anulação do eu, mas sua abertura. Na amizade, o ego não desaparece, ele apenas deixa de ser soberano.
Aristóteles, na Ética a Nicômaco, já advertia: onde houver interesse, utilidade ou cálculo, pode haver convivência, parceria, até afeto, mas não amizade verdadeira. O núcleo da amizade é o prazer de estar com o outro pelo fato dele ser quem é, não pelo que oferece.
É curioso como essa compreensão se harmoniza com a etimologia existencial de Kierkegaard, para quem o EU só se torna si-mesmo diante de outro eu que o vê. Na amizade, deixo de ser “defesa”, deixo de ser “máscara”, e posso enfim ser presença.
Há, na filosofia ocidental, o relato da experiência da amizade profunda entre Montaigne e La Boétie, relato esse que, de fato, é inspirador. A frase “porque era ele, porque era eu” é talvez a mais perfeita síntese de A-Ego. Nela, o amor-amizade mostra sua natureza misteriosa: não é causal, não é racional, não é objetivável. É reconhecimento. É uma história tão intensa que Montaigne a descreveu como algo “perfeito, absoluto e que não admite explicações”.
Michel de Montaigne e Étienne de La Boétie se conheceram em 1558, quando tinham pouco mais de trinta anos. Ambos eram magistrados do Parlamento de Bordeaux e logo reconheceram um no outro algo extraordinário: uma afinidade imediata, rara e profunda. Essa amizade foi marcada por três características centrais.
(Uma conexão imediata e inexplicável) – Montaigne afirmava que sua amizade com La Boétie não podia ser justificada por razões práticas, políticas ou familiares. Não havia interesse, cálculo ou utilidade. Ele dizia simplesmente: “Se me forçarem a dizer por que eu o amava, sinto que isso não pode ser expresso senão respondendo: porque era ele, porque era eu.” Essa frase se tornou um dos maiores testemunhos de amizade já escritos.
(Reciprocidade total e profunda confiança) – Os dois partilhavam pensamentos, manuscritos, valores e segredos. La Boétie escreveu: “Na verdadeira amizade, dou-me ao meu amigo mais do que dele quero para mim.” Esse movimento, de entregar-se ao outro sem receio, revela a extraordinária confiança e abertura entre eles.
(A morte de La Boétie e o impacto devastador) – La Boétie morreu jovem, aos 32 anos, provavelmente de peste. A perda do amigo abalou profundamente Montaigne. Ele escreveu que, após a morte do amigo, sentia que havia perdido parte de si mesmo: “Compartilhávamos metade de tudo. Parece-me que eu furtava a parte dele.” E completou: “A vida me parece como uma noite escura desde que o perdi.”
Essa dor levou Montaigne à introspecção que mais tarde se transformaria nos Ensaios, obra que inaugurou a literatura moderna do EU, e cuja origem, em muitos aspectos, está na perda do amigo.
A amizade entre Montaigne e La Boétie foi: imediata, profunda, intelectual e emocional, sem interesse, recíproca, transformadora, e tão marcante que continuou viva na obra de Montaigne mesmo após a morte do amigo. É considerada até hoje um dos modelos mais altos da amizade humana, a expressão mais pura da philia aristotélica e da ideia de A-Ego, a relação onde o ego não se impõe.
Outra história inspiradora é a da relação entre Jônatas e Davi (1Sm:18 a 20). É uma das narrativas bíblicas mais belas da literatura antiga, porque revela uma amizade que transcende utilidade, sangue, posição social e expectativa.
A amizade entre Jônatas (o herdeiro natural do trono) e Davi (o futuro rei de Israel escolhido por Deus) floresceu em meio a um contexto de ciúmes políticos e tentativas de assassinato por parte do rei Saul. A lealdade de Jônatas a Davi sobrepôs-se ao seu próprio direito ao trono, e a lealdade de Davi a Jônatas estendeu-se à sua descendência, tornando-se um exemplo eterno de amizade e fidelidade.
A frase “a alma de Jônatas se ligou à alma de Davi” descreve não fusão, mas concordância de essência. Aquilo que Agostinho chamaria de consentire, “sentir com”. O ato de Jônatas entregar a Davi sua capa, seu arco e sua espada é profundamente simbólico. Ele oferece ao amigo aquilo que representa sua identidade social e militar e seu poder. Não há gesto mais radical de confiança do que despir-se diante de alguém, sem medo.
Tal gesto, quando visto pela lente da Inteligência Relacional, revela algo central: amizade é generosidade sem cálculo e, como dizia Fromm, toda generosidade verdadeira nasce da liberdade.
Há três movimentos que sustentam uma amizade: falar, escutar e edificar, temas que trato no meu trabalho como “competências conversacionais”.
Essas competências descrevem a amizade como “dança harmônica entre falar e escutar”, e isso ecoa diretamente do pensamento de Paul Ricoeur: “o si mesmo só se compreende através do outro.” A amizade é, portanto, diálogo que não se esgota.
Mas há um quarto componente: edificação. É Aristóteles novamente quem afirma que o amigo é aquele que nos torna melhores. É Jesus quem diz: “tudo vos dei a conhecer” revelando que o amigo é aquele com quem compartilho o que me constrói.
Na amizade madura, a fala não fere, a escuta não diminui, e o encontro não exige submissão. Há igualdade ontológica mesmo quando há desigualdade biográfica.
Mas, dentre os elementos nocivos à amizade, que a impedem de se desenvolver ou a destroem, listo quatro deles. Quero aprofundá-los conceitualmente, rearticulando-os com a filosofia e a psicologia.
Respeito é valor absoluto na ética da diferença. Sem respeito, não há alteridade possível. Arendt dizia que a vida em sociedade nasce do espaço entre pessoas que se reconhecem mutuamente. A amizade também. O desrespeito rompe não o vínculo, mas o solo onde o vínculo poderia brotar.
Cordialidade não é gentileza superficial. É cordis, “do coração”. A ausência de cordialidade abre espaço para a violência simbólica, expressão cara a Pierre Bourdieu, que a usa para expressar o que corrói de forma sutil e até “delicada”, a integridade do outro. Não há amizade onde o afeto é utilizado como desculpa para grosserias.
Esse ponto me é especialmente precioso. Na Inteligência Relacional, afirmo e reafirmo sempre: “Quem está sempre disponível, jamais será desejado.” A disponibilidade sufocante impede a oxigenação da relação. Em termos psicanalíticos, cria fusão; em termos filosóficos, impede individuação; em termos sociais, gera saturação. A amizade exige presença, não posse. Exige prontidão, não ubiquidade.
Comparar-se é envenenar o vínculo. Nietzsche afirmava que “o inferno das relações humanas está no ressentimento”. A comparação é o útero do ressentimento: mata a gratidão e distorce o olhar. A amizade verdadeira só é possível entre pessoas que não querem ser iguais, querem ser apenas próximas.
Tenho dito em várias oportunidades algo em que acredito profundamente: “Amigos incomodam.” O incômodo do amigo é diferente do incômodo do inimigo. O incômodo do inimigo destrói; o do amigo revela. O inimigo expõe por maldade; o amigo expõe por cuidado.
A amizade madura inclui momentos de confronto que não arrancam raízes, mas removem ervas daninhas. Kierkegaard chamaria isso de “correção amorosa”; Fromm chamaria de “cuidado ativo”. Eu chamo de integridade relacional: a coragem de dizer o que precisa ser dito sem ferir a dignidade do outro de forma educada, generosa, elegante e gentil. Isso nem sempre á fácil, mas é possível.
Mas há um limite: quando o incômodo se torna maior que o afeto, a amizade se desfaz. A amizade não exige sacrifício sufocante; exige trabalho mútuo.
O mito de Andrógino narrado por Platão em O Banquete, é um mito simbolicamente preciso. No início dos tempos, diz o mito, os seres humanos eram criaturas completas: Cada pessoa tinha duas faces, quatro braços, quatro pernas e uma força extraordinária. Eram chamados andróginos, porque uniam em um só corpo o masculino e o feminino.
Esses seres tornaram-se tão poderosos que desafiaram os deuses. Para contê-los, Zeus os dividiu ao meio, criando seres separados (homens e mulheres). Desde então, cada metade sente uma nostalgia profunda da unidade perdida e passa a vida buscando sua outra parte, não apenas no amor, mas também nas amizades profundas, que restauram simbolicamente a sensação de plenitude. Em essência: o mito diz que buscamos no outro aquilo que um dia fomos, e que a amizade é uma das formas mais elevadas dessa busca.
Platão sugere que buscamos no outro aquilo que nos restaura, ontologicamente. Assim, a amizade torna-se expressão dessa busca pela outra metade da alma, não na forma romântica, mas na forma ética. O amigo é a metade que me lembra que sou inteiro. O amigo me reconcilia comigo mesmo.
Gosto da imagem da amizade como uma “santa esquizofrenia”; porque conversar com o amigo é como conversar comigo mesmo e, ainda assim, continuar sendo outro.
Essa imagem, filosoficamente, sugere que no amigo, encontro aquilo que sou e aquilo que não sou; no amigo, reconheço minha identidade e minha diferença; no amigo, vejo a possibilidade de mim mesmo, não minha repetição. É por isso que Montaigne dizia que o amigo é “metade de tudo”. A amizade divide o fardo e multiplica o sentido.
A amizade não é apenas um sentimento, é uma competência relacional complexa que se manifesta no equilíbrio entre intimidade e limite; no diálogo entre vulnerabilidade e firmeza; na reciprocidade entre dar e receber; na gestão ética das diferenças; na habilidade de ver e ser visto.
A amizade, no ápice, é aquilo que Jesus sintetiza com impecável clareza: “Tenho chamado vocês de amigos, pois tenho compartilhado tudo com vocês.” A partilha é a essência da Inteligência Relacional. Partilhar não é dividir: é multiplicar.
Ao discorrer sobre a amizade nas quatro partes desse ensaio, percebo que, pelo menos em mim, construí uma convicção apaziguadora: Amizade é a forma mais elevada de maturidade humana. Por isso a busco, sempre, como princípio de vida. Nem sempre consigo, mas sempre a desejo.
Ela exige autoconsciência, autodisciplina, ética, responsabilidade, coragem e generosidade. É mais difícil do que o amor romântico, porque não tem rituais, não tem contratos, não tem promessas obrigatórias. E, justamente por isso, é mais livre e mais bela.
Amigos:
incomodam sem ferir;
corrigem sem humilhar;
celebram sem invejar;
permanecem sem aprisionar;
cuidam sem controlar;
caminham sem exigir.
E, sobretudo: amigos não vão embora porque permanecem dentro de nós. A amizade é, finalmente, aquilo que resta quando todas as outras formas de relação já deram o que tinham a dar. É o que permanece quando tudo passa. É o que sustenta quando tudo cai. É o que ilumina quando tudo escurece. Amizade é, no fim das contas, a mais perfeita forma da Inteligência Relacional.
Reflitam em paz!
Brasília, dezembro/2025

por Homero Reis
I. Introdução – Ler por dentro da vida
Cada vínculo que estabeleço, cada afeto que cultivo, cada conflito que enfrento se transforma em texto vivo, cheio de símbolos, lacunas e sentidos ocultos. A vida inteira passa a ser um vasto manuscrito onde eu, simultaneamente autor e leitor, tento compreender o que está escrito.
Essa percepção tornou-se mais clara quando observei que meus encontros não eram meras casualidades, nem frutos inocentes do destino. Há uma lógica, uma estrutura invisível sustentando cada aproximação, cada distanciamento, cada vínculo duradouro ou efêmero. Freud diria que carregamos sombras que projetamos inconscientemente nos outros, enquanto Jung lembra que todo encontro revela peças do nosso próprio inconsciente, pedindo integração. Para Kierkegaard, os relacionamentos são lugares onde experimentamos a angústia e a liberdade, sempre convocados a decisões que nos definem. E Bauman, olhando para a liquidez dos tempos atuais, alerta que vivemos em um mundo onde a fragilidade dos laços revela mais sobre nós do que gostaríamos de admitir.
Percebi, então, que precisava aprender a ler por dentro das relações. Não para controlá-las, mas para compreendê-las; não para evitar dores, mas para interpretá-las; não para moldar o outro, mas para entender como o outro me transforma. Como diria Hannah Arendt, “somos seres de relação”, e o espaço entre nós, esse “entre”, é o lugar onde o mundo acontece. Viktor Frankl me ensinou que entre o estímulo e a resposta há um espaço, e nesse espaço reside a minha liberdade e a minha responsabilidade. A Inteligência Relacional nasce exatamente ali: na descoberta de que viver bem depende da qualidade com que habito esse espaço.
E, como a sabedoria bíblica afirma em Provérbios 4:23, “sobretudo, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida”. Guardar o coração, para mim, não é protegê-lo de pessoas, mas compreendê-lo nas relações. A Inteligência Relacional é essa guarda ativa, lúcida e amorosa.
II. O que é – e o que não é – Inteligência Relacional
Com o tempo, fui distinguindo a Inteligência Relacional de outras formas de inteligência. Simon e Binet traduziram a inteligência racional no QI. Daniel Goleman introduziu o QE, a inteligência emocional. Ambos trouxeram aportes importantes, mas percebi que faltava um terceiro elemento, uma lente pela qual razão e emoção pudessem ser colocadas a serviço da convivência humana. A Inteligência Relacional (QR) é esse terceiro vértice; a capacidade de ler dentro dos relacionamentos para compreender como eles se formam, se sustentam, se adoecem ou se fortalecem.
Entendi também que ela não se confunde com comunicação não violenta, embora a comunicação seja parte do processo. Não é sinônimo de relações humanas tradicionais, nem se limita a habilidades sociais. É mais profunda e mais exigente. Trata-se da habilidade de interpretar, com sensibilidade e clareza, a trama que liga pessoas. É o que Emmanuel Levinas sugeriu ao afirmar que o rosto do outro é uma convocação ética: não posso me relacionar sem antes reconhecer a alteridade que me interpela. A Inteligência Relacional torna-se, assim, uma gramática do encontro humano, um modo de ler a ética das interações.
A teologia cristã oferece outro ângulo: a encarnação. Deus tornando-se relação e encontro. O Evangelho de João 1:14 afirma que o “Verbo se fez carne e habitou entre nós”. Habitar é relacionar-se, é entrar no mundo do outro com respeito e verdade. E, do ponto de vista da espiritualidade, a Inteligência Relacional torna-se essa forma de encarnação cotidiana: o compromisso de estar presente, sempre no espaço sagrado do encontro.
III. Para que serve – a finalidade ética da relação
Perguntar para que serve a Inteligência Relacional é perguntar como posso viver de modo mais pleno, mais consciente e mais humano. Ela serve para me ensinar que relacionamentos não são espontâneos; são estruturados por liturgias silenciosas, pactos não ditos, rituais emocionais que aprendemos na infância e repetimos na maturidade. Serve para mostrar que quase nada do que me irrita no outro é realmente sobre o outro, mas sobre minhas fragilidades, minhas expectativas, meus medos.
Nietzsche afirmava que “o amor é a condição na qual o homem vê as coisas mais como elas não são”. E, em certo sentido, é verdade: o amor pode nos cegar quando não é acompanhado de lucidez. A Inteligência Relacional impede essa cegueira amorosa. Ela organiza meu afeto para que ele gere vida, não dependência; para que produza liberdade, não controle; para que sustente a dignidade, não medo.
Ela também me ensina que convivência não combina com espontaneidade irresponsável. Como diria Paulo em sua carta aos Filipenses, “que cada um considere o outro superior a si mesmo”, não no sentido de submissão, mas de humildade relacional. A Inteligência Relacional serve para que eu compreenda o outro sem me anular, para que eu me expresse sem ferir, para que eu discorde sem destruir, para que eu divirja sem desqualificar. Ela serve para equilibrar razão e emoção, colocando ambas a serviço de vínculos saudáveis. No fundo, serve para responder a uma pergunta simples e profunda: que tipo de vida eu crio nos meus relacionamentos?
IV. Quem precisa do QR – e o que ela resolve?
A resposta é óbvia e, ao mesmo tempo, desafiadora: todos precisamos. Não porque somos frágeis, mas porque somos humanos. Freud reconhecia que não somos senhores da nossa própria casa psíquica, e muito menos o somos quando navegamos a complexidade emocional de outra pessoa. Kierkegaard lembraria que viver é fazer escolhas diante da angústia, e cada relação é uma escolha que nos define.
A Inteligência Relacional não elimina todos os conflitos, mas impede que eles se repitam indefinidamente. Resolve os ciclos de autossabotagem, as dependências emocionais, as lealdades cegas, as idealizações que se transformam em frustrações, os medos que se travestem de controle. Ela pacifica. Ela antecipa. Ela previne.
Frankl diria que quando encontro sentido em algo, encontro forças para transformá-lo; e a Inteligência Relacional dá sentido aos vínculos, retirando-os da superficialidade líquida que Bauman tão bem descreveu, para resolver o analfabetismo emocional moderno. Como destaca Byung-Chul Han, vivemos um tempo de comunicação excessiva e de relação deficitária. A Inteligência Relacional devolve densidade ao encontro, profundidade ao olhar, responsabilidade às emoções.
V. Os três grandes princípios – o mapa invisível das relações
Comecei a perceber que, por mais complexas que pareçam, as relações seguem alguns princípios simples e profundos. São perguntas estruturantes, bússolas que me orientam na convivência.
O primeiro princípio surge na pergunta “Quem é o seu dono?”. Descobri que cada vez que eu não consigo dizer “não” a algo, seja comida, consumo, aprovação, medo ou controle, estou confessando que aquilo me domina. O apóstolo Paulo, em Romanos 6, fala sobre a escravidão das paixões, lembrando que sempre servimos a algo ou alguém. A Inteligência Relacional me obriga a reconhecer minhas compulsões, minhas carências, minhas vulnerabilidades, para que eu não delegue ao outro o poder de governar minha emoção.
O segundo princípio diz respeito às neuroses complementares. Relações muitas vezes se constroem sobre complementaridades adoecidas: o controlador e o submisso, o perseguidor e o fugitivo, o que ama demais e o que não ama nada. Como diria Fromm, amar exige maturidade, e não fusão. Quando percebo que estou vivendo como refém, mercenário ou terrorista emocional, percebo também que estou distante da cooperação saudável. Uma relação madura (ou qualquer relação madura), é aquela em que minha vulnerabilidade pode ser dita sem se transformar em arma nas mãos do outro.
O terceiro princípio é a plasticidade relacional. É impossível relacionar-se e continuar igual. O azul que se encontra com o amarelo torna-se verde. Maturana chamaria isso de acoplamento estrutural; a teologia chamaria de comunhão; a filosofia diria que somos seres em devir. Eu influencio e sou influenciado. Ninguém sai de uma relação incólume. Saber disso não me fragiliza; me torna consciente.
VI. Interações, liturgias e moral relacional
Observando a vida, percebi que todas as espécies seguem protocolos relacionais. Há ritmos de aproximação, sinais de perigo, coreografias de cuidado. Nós, humanos, também temos nossas liturgias, ainda que silenciosas. Há uma moral relacional que sustenta o convívio, o modo de olhar, o tempo de resposta, a delicadeza ao discordar, o cuidado ao intervir.
A Bíblia fala desses protocolos de convivência quando afirma que “a resposta branda desvia o furor” ou quando Jesus ensina que, se alguém tiver algo contra mim, devo procurá-lo antes mesmo de oferecer “meu culto”. São liturgias de reconciliação. Liturgias de presença. A Inteligência Relacional revela essas ordens invisíveis, dando forma ao “entre” de que Arendt fala. É a ética do cuidado, não paternalista, mas responsável.
VII. Aplicações – onde essa inteligência se torna vida
À medida que fui desenvolvendo essa habilidade, percebi transformações concretas em minha vida. Relações familiares ganharam sensibilidade; relações conjugais, maturidade; relações profissionais, cooperação. Os conflitos, antes explosivos, tornaram-se conversas. Minha identidade, antes inquieta, tornou-se mais assentada. Descobri que inteligência relacional não é apenas ferramenta; é espiritualidade, ética, modo de ser.
Ela me ajuda a lidar com a diferença entre o observador que sou e a ação que construo, gerando mais coerência. Essa mecânica torna mais evidente a regra básica: meus resultados são filhos das minhas ações, que são filhos do meu modo ser que se constrói no observador que sou. Minha identidade real, o observador que sou, é moldado pelas minhas relações. A Inteligência Relacional dá plasticidade ao ser, transformando o observador que estou sendo, naquele que desejo ser.
VIII. Conclusão – O chamado à leitura profunda
Se eu pudesse resumir tudo, diria que a Inteligência Relacional é a alfabetização mais decisiva da vida. Ela não me ensina apenas a conviver, mas a existir de modo mais íntegro. É decidir, como Paulo escreve em Filipenses 4, “viver contente em toda e qualquer situação, porque aprendi a interpretar a vida a partir de dentro. É perceber, como Jesus ensina, que o amor se reconhece pelos frutos. É compreender, como Frankl, que sentido sempre antecede liberdade. É admitir, como Nietzsche, que preciso tornar-me aquilo que sou. É reconhecer, como Bauman, que vínculos fortes são resistência em tempos líquidos. É entender, como Fromm, que amar é um ato de maturidade. É aceitar, como Han, que profundidade é antídoto para a aceleração da vida. É assumir, como Arendt, que o mundo se sustenta no “entre”.
A Inteligência Relacional me chama continuamente a perguntar quem sou no espaço entre eu e o outro. Ela me lembra que minhas relações não são acidentes, mas escolhas. E que, na arte de escolher, eu preciso ser lúcido, amoroso, responsável e íntegro. No fim, trata-se de ler por dentro. De mim. Do outro. Da vida. E, ao ler, transformar-me naquilo que sendo, torna o outro melhor.
Reflitam em paz!

Por Homero Reis
“Tudo o que é sólido se desmancha no ar”. A sentença de Karl Marx, que atravessou o século XIX como um diagnóstico das revoluções industriais e morais que iriam redesenhar o mundo moderno, nunca me pareceu tão atual quanto agora. Quando reflito sobre ela à luz do nosso tempo, percebo que não apenas as estruturas econômicas, mas também os relacionamentos humanos, as convicções e até as verdades se tornaram voláteis. Vivemos em um tempo em que tudo se liquefaz antes mesmo de adquirir forma.
Zygmunt Bauman, que transformou a metáfora marxista em um conceito sociológico poderoso, chamou esse fenômeno de “modernidade líquida”. Ele percebeu, com lucidez e melancolia, que a aceleração das trocas, dos afetos e das ideias produziu uma sociedade incapaz de se demorar em si mesma, de criar raízes, de refletir sobre valores. Tudo precisa ser rápido, superficial, instantâneo e, portanto, descartável. A fluidez que antes era promessa de liberdade tornou-se sintoma de fragilidade. O amor líquido, a fé líquida, a identidade líquida e até a ciência líquida, tudo escorre pelos dedos antes que se possa compreender o que se tem nas mãos.
A descartabilidade passou a ser o valor dominante das relações. Nada mais parece ter vocação para durar. Os vínculos amorosos, por exemplo, tornaram-se experiências e não compromissos; aventuras emocionais e não construções de sentido. Não é que devamos idealizar o eterno, mas há uma diferença profunda entre o que se transforma e o que simplesmente se dissolve. “A experiência, quando não gera aprendizado, torna-se apenas consumo”. O risco é viver muito e compreender pouco.
Essa falta de consistência não nasce do nada. Ela se alimenta de um contexto cultural que valoriza mais a aparência do que a substância, mais a exposição do que o encontro. O século XXI herdou de seus predecessores a lógica da aceleração, mas radicalizou-a. Vivemos sob o império do “agora”, e o “agora” não suporta reflexão. Hannah Arendt advertia que o pensamento exige interrupção, Drummond de Andrade defendia que “a vida precisa de pausas”, e eu gosto de acrescentar que a vida também precisa de silêncio. Essas coisas são condições para se compreender o mundo. Parar é condição para compreender. O mundo pós-verdade, no entanto, teme o silêncio e substitui o diálogo pela emissão incessante de opiniões.
A palavra “pós-verdade” surgiu oficialmente no dicionário de Oxford em 2004, definindo o tempo em que os fatos objetivos perderam o poder de moldar a opinião pública, substituídos pelo apelo às emoções e crenças pessoais. É como se tivéssemos abdicado da verdade em favor da conveniência afetiva. A verdade passou a ser aquilo que conforta e que “interessa”, e não o que liberta.
Quando penso sobre isso, lembro-me de um episódio de sala de aula. Durante uma palestra sobre Freud e Bauman, um aluno de mestrado levantou a mão e declarou, com firmeza juvenil: “Professor, eu não concordo com Freud”. Perguntei-lhe se já havia lido ou estudado Freud. Ele respondeu que não, mas que “lá em casa as coisas não funcionavam assim”.
A cena me marcou. Não pela ousadia, mas pela naturalidade com que a opinião pessoal se sobrepôs ao conhecimento. O gesto daquele aluno simboliza uma época em que a autoridade intelectual foi substituída pela conveniência da experiência subjetiva. Todo o pensamento e trabalho de um dos homens mais importantes na formação do século XX, foi reduzido a pó porque “lá em casa as coisas não são assim”. Em nome da autenticidade, abandonamos a humildade epistemológica.
Nietzsche já havia anunciado a “morte de Deus” como metáfora da crise dos fundamentos morais. No mundo pós-verdade, parece que enterramos, junto com Deus, a própria ideia de referência. Tudo se torna equivalente, subjetivo e pessoal; nada é sagrado. As fronteiras entre certo e errado, belo e feio, importante e irrelevante, dissolvem-se em um relativismo complacente.
Vivemos, como diria Byung-Chul Han, numa sociedade da transparência e da positividade, em que tudo precisa ser visível, agradável e imediato. A negatividade, o conflito, a dúvida, o incômodo, foram banidas do convívio e da reflexão.
O problema é que, sem limites, não há profundidade. O excesso de liberdade sem direção produz vazio. Freud, em O mal-estar da civilização, alertava que o desejo humano, quando desprovido de renúncia e limite, torna-se autodestrutivo. A pós-verdade, nesse sentido, não é apenas uma crise de informação: é uma crise de sentido.
No plano das relações, essa crise se traduz em insegurança afetiva. A cada nova conexão, carregamos o medo de ser substituídos. O amor deixou de ser uma promessa e tornou-se um contrato temporário de conveniência emocional. Vivemos cercados por pessoas e, paradoxalmente, mergulhados na solidão. A hiperconectividade não produziu pertencimento, apenas exposição.
Somos, como escreveu Bauman, “turistas relacionais”: visitamos sentimentos sem jamais habitá-los.
A era digital intensificou esse fenômeno. As redes sociais criaram a ilusão de presença constante, mas o que nelas se compartilha é apenas imagem; e a imagem, como toda superfície, reflete, mas não acolhe. O selfie tornou-se a metáfora perfeita do narcisismo contemporâneo: registrar-se no mundo passou a valer mais do que estar no mundo.
A informação substituiu a formação. Sabemos de tudo um pouco e compreendemos quase nada. Viktor Frankl lembrava que “quem tem um porquê enfrenta qualquer como”; o drama do pós-verdade é que perdemos o porquê. Colecionamos dados, mas esquecemos de perguntar o que eles significam. A tecnologia, longe de ser o problema, tornou-se o espelho da nossa dispersão interior. E essa dispersão não é apenas cognitiva, é também moral e espiritual. Cada um fabrica sua própria fé, seu próprio Deus, sua própria verdade sob medida. Como observou Agostinho: “Quem escolhe o que quer crer, crê apenas em si mesmo.” E quando a crença se reduz ao eu, o outro desaparece. É o narcisismo em sua forma mais patológica que acreditamos “ser normal”.
Penso que parte dessa lógica começou com Henry Ford. Sua genial invenção, a linha de montagem, revolucionou a economia, mas fragmentou a experiência humana. O trabalho perdeu o sentido de totalidade; a vida passou a ser uma sequência de tarefas. O fordismo, que nos ensinou a produzir mais em menos tempo, também nos ensinou a sentir menos em menos tempo. Essa cultura da eficiência contaminou a educação, a fé, a amizade e tornou-se o alicerce do modelo como pensamos as relações e a vida. Tudo precisa ser “eficiente ao máximo, no menor tempo possível”.
Nas escolas, produzimos especialistas incapazes de conversar. Nas empresas, valorizamos metas mais do que pessoas. Nas famílias, substituímos presença por performance. A divisão técnica se tornou divisão relacional. E, ao final, já não montamos carros, montamos personagens.
Erich Fromm, em Ter ou Ser, advertiu que a sociedade moderna trocou o modo de ser pelo modo de ter. Hoje poderíamos acrescentar: trocamos também o modo de compreender pelo modo de opinar. A rapidez com que julgamos, descartamos e substituímos revela uma impaciência existencial. Queremos amor instantâneo, sabedoria em noventa minutos, felicidade em cápsulas. Vi, certa vez, num livraria em um aeroporto, uma coleção intitulada Filosofia Rápida: Kierkegaard em 90 minutos. Ri e me entristeci. Como condensar o desespero e a esperança de Kierkegaard, aquele que mergulhou nas profundezas da angústia humana, em uma hora e meia de voo? A pressa tornou-se nossa forma de ignorância. Em 90 minutos torno-me um “especialista em existencialismo”.
Vivemos, portanto, num mundo onde tudo tem prazo de validade. As amizades duram enquanto servem, os empregos enquanto satisfazem, as causas enquanto rendem visibilidade. Transformamos até Deus em produto personalizado: um Deus simpático, ajustado às minhas demandas, domesticado pela minha subjetividade. Ele está do meu lado, desde que eu continue no centro.
Recordo um episódio banal que me pareceu profundamente simbólico. No estacionamento de um shopping, vi um carro com dois dizeres: no para-brisa, “Presente de Deus”; no vidro traseiro, “Vende-se”. Ali estava condensado o espírito da pós-verdade: reconhecemos o valor das coisas apenas enquanto nos são úteis. O dom transforma-se em mercadoria.
Essa lógica atinge tudo. Vejo pessoas que lutam anos por uma conquista e, pouco depois, desprezam o que tanto desejaram. Alunos que sonham com o diploma e, ao consegui-lo, o desdenham. Casais que se prometem eternidade e, em poucos anos, só se comunicam por advogados. Pais que imploram por um filho e, quando o têm, se exasperam com os cuidados que ele exige. O mundo pós-verdade é, acima de tudo, um mundo impaciente. E a impaciência é a negação da vida.
O filósofo Byung-Chul Han descreve o “cansaço da sociedade do desempenho”: uma exaustão silenciosa gerada pela obrigação de estar sempre em movimento, sempre produzindo, sempre certo. A doença do século XXI não é mais a repressão, mas o excesso de positividade, a impossibilidade de dizer não, de parar, de falhar. A solidão, que deveria ser espaço de escuta e contemplação, tornou-se fardo. Estamos cercados de vozes e, paradoxalmente, cada vez mais incapazes de conversar.
Perdemos o mundo das conversas e o trocamos pelo mundo dos recados. Nas redes, opinamos sobre tudo, mas raramente nos dispomos a ouvir. A comunicação tornou-se transmissão; o diálogo, exceção. E sem diálogo, não há inteligência relacional possível.A inteligência relacional, que compreendo como a capacidade de construir vínculos consistentes a partir da escuta, do respeito e da reflexão, exige presença e tempo. Mas o tempo, em nossa cultura, tornou-se inimigo. Vivemos em modo “história curta”: tudo precisa caber em um story de trinta segundos.
Em A condição humana, Arendt dizia que “agir é iniciar algo novo”. Mas, para agir de verdade, é preciso compreender o que já existe. A ação sem reflexão é ativismo vazio. É o que vejo proliferar: movimentos rápidos, emoções rápidas, opiniões rápidas; e uma lentidão assustadora para amar, compreender e mudar.
O pós-verdade também se expressa na economia do afeto: valorizamos o útil e descartamos o essencial. “Se não me serve, não me interessa.” Esse princípio, aparentemente inofensivo, destrói silenciosamente o tecido das relações. Ele transforma o outro em instrumento, o vínculo em transação. E quando tudo se torna meio para algo, nada mais é fim em si.
A descartabilidade emocional nos impede de viver a experiência da alteridade. Emmanuel Levinas lembrava que o rosto do outro é um apelo ético que me desinstala; é o que me convoca a sair de mim. No entanto, na lógica da pós-verdade, o outro só é tolerado enquanto confirma minhas crenças. O diferente se torna ameaça; o contraditório, ofensa.
O resultado é o empobrecimento da experiência humana. Reduzimos o amor à afinidade, a amizade à conveniência, a fé à autoajuda, a filosofia a resumos rápidos. A verdade deixou de ser busca compartilhada e virou propriedade privada. Cada um tem “a sua verdade”, expressão que disfarça o medo de confrontar-se com algo maior que si. Mas a verdade, como lembrava Sócrates, nasce do diálogo, não da solidão. É fruto do espanto, da pergunta e do encontro. Precisamos reaprender a perguntar, reaprender a conversar, reaprender a refletir, reaprender a estar pacificadamente com o outro que nos é diferente.
O mundo pós-verdade também nos roubou o mistério. Tudo precisa ser explicado, classificado, decifrado, mesmo que nada saibamos sobre ele. Mas a vida perde encanto quando tudo se torna evidente. O mistério é o útero da sabedoria. Sem ele, só restam fórmulas. Vivemos cercados por explicações rápidas para aquilo que exigiria uma vida inteira de silêncio.
Os antigos, com muito menos informação, compreendiam mais o essencial. Santo Agostinho, em toda sua vida, talvez tenha lido pouco mais que vinte livros, mas de suas reflexões extraiu uma teologia que ainda sustenta o pensamento ocidental. Ele lia lentamente, refletia, conversava. O conhecimento não estava na quantidade de dados, mas na profundidade da escuta. O mesmo se pode dizer de Francisco de Assis, Anselmo e Abelardo: pensadores de uma era em que o diálogo e a reflexão eram formas de oração.
Hoje, em contrapartida, consumimos montanhas de informação e nos tornamos anêmicos de sentido. A abundância de dados não gera sabedoria; apenas ruído. Tornamo-nos “especialistas em tudo e em nada”, como ironizou Ortega y Gasset.
Penso que o drama central do pós-verdade é a perda da integridade, a incapacidade de manter coerência entre o que se pensa, o que se diz e o que se vive. Como afirmei em outros ensaios, o desenvolvimento humano começa quando aquilo que cremos (teoria esposada), e aquilo que praticamos (teoria em uso), se reencontram na busca de uma coerência que exale autoridade. Vivemos um tempo em que as pessoas defendem valores que não praticam e praticam valores que não reconhecem. A dissociação entre crença e conduta é o solo fértil da incoerência relacional.
Para recuperar consistência, é preciso desacelerar. É preciso devolver densidade às palavras, peso aos compromissos, paciência às promessas. A verdade não é uma opinião, é uma construção coletiva. E o verdadeiro, no sentido mais profundo, não é o que é “meu”, mas o que é compartilhável e sustentável pelo mover humano.
A pós-verdade nos oferece a ilusão do controle absoluto: “eu sou o que sou e nada há fora de mim que mude isso”. A frase soa libertadora, mas esconde uma prisão. O eu, quando fechado em si, torna-se cárcere. Mudar é abrir-se ao encontro.
Talvez o maior desafio do nosso tempo seja reaprender a consistência. Consistência não é rigidez; é profundidade. Não é permanecer o mesmo, é manter o sentido e propósito, mesmo mudando. O mundo líquido nos pede leveza, mas o coração humano precisa de raízes.
Viver de forma relacional é aceitar que o outro me transforma. É compreender que a verdade não está em mim, nem em ti, mas entre nós. O filósofo Martin Buber chamava esse espaço de “entre”: o lugar do encontro, onde o eu e o tu se tornam nós. É nesse entre que a Inteligência Relacional se manifesta como prática de escuta, reciprocidade, respeito e cuidado.
No fundo, o mundo pós-verdade não é o fim do mundo; é apenas o fim de um tipo de mundo. Um mundo onde a percepção pessoal se converteu em lei, onde a crença substituiu o conhecimento, e a emoção, o discernimento. Talvez estejamos apenas atravessando uma transição: o cansaço do superficial pode ser o início de uma nova fome de profundidade.
Vivemos cercados por urgências. Mas há algo em nós que ainda deseja o duradouro. Quando olho para as histórias humanas, percebo que tudo o que valeu a pena exigiu tempo. A amizade que resiste, o amor que amadurece, a fé que se aprofunda, a sabedoria que se encarna, tudo isso nasce da demora. A verdade, como o vinho, precisa respirar.
Por isso, insisto: a saída para o mundo pós-verdade não está em negar a tecnologia, nem em demonizar o presente. Está em restaurar o sentido relacional da existência. Em fazer da conversa um espaço sagrado, do desacordo uma oportunidade de aprendizagem, da diferença um convite à ampliação do olhar.
Ser verdadeiro, hoje, é um ato de coragem. Num tempo em que tudo é performance, ser autêntico é um gesto subversivo. A verdade pode até se desmanchar no ar, como disse Marx; mas é no ar que respiramos. E, enquanto houver alguém disposto a inspirar-se com lucidez, a escutar com inteireza e a viver com consistência, haverá futuro para o humano.
Porque, no fim, o que nos salva não é a velocidade, nem a eficiência, nem a exposição, é o encontro. E todo encontro verdadeiro exige pausa, presença e vulnerabilidade.
Talvez seja esse o chamado da Inteligência Relacional no mundo pós-verdade: devolver à existência a sua densidade perdida, fazer do efêmero um espaço de eternidade, e do diálogo, novamente, um lugar de verdade.
Reflitam em paz!
Homero Reis

by Homero Reis ©
Quando me detenho sobre os relacionamentos humanos, notadamente no campo da aprendizagem, percebo que ela não pode ser compreendida apenas como a transmissão linear de conteúdos, mas como um fenômeno complexo, impregnado de afetos, desejos, contextos históricos e vínculos humanos.
A aprendizagem não é um ato isolado do sujeito, mas uma dinâmica relacional que se enraíza na convivência. Nesse horizonte, o conceito de desejo mimético é central, pois recorda que muito do que aprendemos advém do movimento de desejar aquilo que o outro deseja; ser “um igual a quem admiramos ou concedemos autoridade”. Não somos apenas seres que aprendem; somos seres que aprendem na imitação, no espelhamento, na busca de reconhecimento. Principalmente quando no início de nossa vida. De fato, esse processo é mais intenso nos primeiros anos de vida, mas nos acompanha a vida toda.
Mas, antes de explorar o conceito, sua aplicabilidade e funcionalidade no nosso desenvolvimento relacional, e para deixar o fenômeno mais claro, veja algumas histórias a seguir:
Maria, de quatro anos, brincava sozinha com suas bonecas. No canto da sala, seu irmão mais velho ganhou de presente um carrinho de controle remoto. De repente, Maria deixou as bonecas e começou a chorar pedindo o carrinho. Ela não sabia exatamente como funcionava o brinquedo, nem havia pensado nele antes. Mas o simples fato de ver o irmão desejando e se divertindo despertou nela o mesmo desejo.Aqui o aprendizado não foi apenas sobre “querer um brinquedo”, mas sobre captar no olhar do outro o valor de algo. Esse movimento é o desejo mimético. A criança aprende o que é “importante” porque alguém significativo para ela, mostra que aquilo é desejável.
Carlos era um aluno cuja fama era de alguém desinteressado de tudo e que mantinha-se indiferente às aulas. Mas tudo mudou quando uma nova professora começou a dar aula. Ela falava de Machado de Assis com paixão, recitava trechos de memória, vibrava ao interpretar os personagens. Aos poucos, Carlos começou a se interessar. Aproximou-se da professora, comprou livros usados e passou a escrever resenhas. Não foi o conteúdo “literatura” que o atraiu diretamente, mas o desejo da professora. Ela desejava o saber, e esse desejo o contagiou. Esse é o poder de um modelo relacional na aprendizagem mimética.
Joana estava em dúvida sobre que carreira seguir. Em casa, seu pai sempre falava com orgulho dos médicos da família. No colégio, suas amigas admiravam as alunas que se ingressavam pelo curso de Direito. No cursinho, encontrou um professor de biologia apaixonado pela pesquisa científica. O desejo mimético aqui se expressa em várias direções: família, grupo de pares, modelos de autoridade. Joana não escolhe sozinha; ela aprende a desejar a partir dos desejos que circulam ao seu redor. O desafio é discernir qual desses desejos se conecta de fato com sua vocação singular.
Em uma empresa, o novo gestor não só cobrava metas, mas mostrava entusiasmo genuíno pelo propósito do negócio. Ele visitava clientes, compartilhava conquistas e demonstrava orgulho pelos resultados coletivos. Em pouco tempo, a equipe começou a se engajar de forma diferente, querendo entregar mais do que o mínimo. O desejo mimético transformou o ambiente: não era só a tarefa, mas o modelo vivo de alguém que deseja com paixão. Esse clima gerou aprendizagem coletiva e motivação compartilhada.
Numa pequena comunidade, os jovens começaram a se engajar em ações sociais porque viam seus líderes cuidando das pessoas com alegria e entrega. Mais do que sermões ou doutrinas, o exemplo despertava neles o desejo de participar. Aqui o aprendizado espiritual se dá por contágio de vida: imitamos o desejo do outro quando ele é percebido como digno, justo, belo.
Essas histórias mostram como a aprendizagem e o desejo mimético caminham juntos: não aprendemos isolados, mas movidos pelo espelhamento dos desejos que circulam em nossas relações. O desafio que a Inteligência Relacional é perguntar: quais desejos vale a pena imitar?
Helena e Marcos estavam casados há mais de dez anos. Tinham uma vida tranquila, com carro novo, casa própria e dois filhos. Marcos estava satisfeito com o que tinham, mas Helena acompanhava nas redes sociais os amigos de infância que viajavam constantemente para o exterior. Aos poucos, começou a insistir com Marcos: “Precisamos conhecer o mundo, não podemos ficar para trás”. No início, Marcos achava que era apenas vaidade. Mas, depois de algumas conversas e de ver o entusiasmo da esposa ao mostrar fotos de viagens de conhecidos, ele também passou a desejar o mesmo. Já não era apenas o sonho de Helena, tornou-se também o sonho dele. O casal começou a planejar cursos de idiomas, guardar dinheiro e buscar destinos. Nesse movimento, vemos como o desejo de Helena foi contagiado por modelos externos (os amigos), e depois, por mimese, foi assimilado por Marcos. Não se trata de “copiar” no sentido superficial, mas de aprender a dar novo valor à experiência de viajar. O casal se reconfigura ao desejar junto.
Essa história mostra que, mesmo na vida adulta, no espaço íntimo da família, seguimos aprendendo a desejar por meio do outro, e que esse contágio pode abrir novos horizontes de crescimento ou até gerar tensões, dependendo de como se negocia o desejo compartilhado.
André, Rogério e Flávia eram irmãos, já adultos, casados e com filhos, eram herdeiros de um pequeno, mas lucrativo, negócio. O pai deles deixou-lhes por herança, uma casa de veraneio, além do próprio negócio. No início, parecia que tudo seria resolvido de forma simples: venderiam a casa e dividiriam o valor igualmente e tocariam o negócio em parceria.
Mas, quando um dos primos comentou como aquele imóvel tinha “potencial para virar uma pousada lucrativa”, André passou a olhar para a casa de outra forma. De repente, já não queria vendê-la. Começou a imaginar os filhos crescendo perto do mar, o negócio prosperando, a família reunida. Rogério, que até então não tinha qualquer apego ao lugar, começou também a desejar manter a casa. Não queria ficar para trás, nem abrir mão de algo que o irmão passou a valorizar. O que antes era apenas um bem comum transformou-se em motivo de disputa silenciosa. Cada um alimentava o mesmo desejo, não pelo valor da casa em si, ou do negócio, mas porque o desejo do outro dava força e intensidade ao próprio desejo.
Aqui o desejo mimético gera rivalidade: o objeto (a casa e o negócio) torna-se campo de conflito não pelo seu valor objetivo, mas porque é espelhado no olhar do outro e na “forma de ser do pai”. O aprendizado familiar, nesse caso, revela seu lado tenso: os vínculos são postos à prova quando o desejo não é discernido nem mediado pelo diálogo.
Esse tipo de história mostra como o desejo mimético, quando não é acompanhado de escuta ativa, tolerância, negociação e consciência relacional, pode minar os vínculos em vez de fortalecê-los.
René Girard nos ofereceu a formulação mais contundente desse princípio ao afirmar que “o desejo é sempre desejo do desejo do outro”. Ao escutarmos essa frase, compreendemos que nossa aprendizagem, em boa parte, está orientada por esse espelhamento. Se uma criança pede o brinquedo que outra segura, se um estudante se interessa por uma disciplina porque admira seu professor, se um jovem escolhe uma profissão ao ver seus pares valorizando determinado caminho, se a família passa a disputar o que antes era “transparente”, todos esses movimentos revelam o caráter mimético do desejo. Não desejamos em isolamento; desejamos junto com os outros (conscientes ou não), e é esse desejo compartilhado que nos impulsiona a aprender.
Conceitualmente falando, conforme sugeriu René Girard, desejo mimético “é o processo pelo qual o ser humano deseja não diretamente o objeto (ou a coisa) em si, mas aquilo que o outro deseja, tomando-o como modelo ou mediador”. O objeto passa a ser valorizado porque é desejado por alguém significativo, de modo que o desejo se constitui sempre numa relação triangular: sujeito, modelo e objeto.
Esse mecanismo explica tanto a capacidade de aprendizagem por imitação quanto a emergência de rivalidades, pois dois sujeitos podem disputar o mesmo objeto por compartilharem o mesmo modelo de desejo. Girard, discorre profundamente sobre isso no livro: Mentira romântica e verdade romanesca (1961), onde apresenta a formulação inaugural do conceito, analisando grandes romances como os de Cervantes, Stendhal, Flaubert, Proust e Dostoiévski.
Quando associo esse conceito aos postulados da Inteligência Relacional, desejo mimético, é a força pela qual aprendemos e nos constituímos em vínculo, desejando não apenas coisas ou metas em si mesmas, mas aquilo que o outro nos apresenta como desejável. Esse movimento nos mostra que o desejo não é isolado, mas relacional, e que nossas escolhas se formam no entrelaçamento de olhares, exemplos e afetos. Reconhecer esse processo nos permite amadurecer: em vez de sermos prisioneiros de desejos alheios, tornamo-nos capazes de escolher conscientemente quais modelos queremos espelhar, cultivando desejos que geram vida, dignidade e responsabilidade compartilhada.
Do ponto de vista psicológico, Albert Bandura desenvolveu a teoria da aprendizagem social justamente para mostrar que “a maior parte daquilo que adquirimos vem da observação dos outros, de seus comportamentos e de suas consequências”. A aprendizagem é menos o resultado de instruções abstratas e mais o fruto de modelos vividos, incorporados pelo olhar. Quando vemos alguém alcançar algo, não apenas sabemos que é possível, mas desejamos também alcançá-lo. Nesse processo, o desejo se torna motor da aprendizagem.
Mas é preciso dizer que o desejo mimético não é neutro. Ele pode tanto abrir caminhos de crescimento quanto alimentar rivalidades. Girard alerta que, quando dois sujeitos desejam o mesmo objeto mediado, a rivalidade se instala, e daí podem emergir tensões e violências. Isso tem consequências práticas para a aprendizagem em grupos: quando transformamos o aprendizado em competição, corremos o risco de gerar rivalidades que bloqueiam a cooperação. Quando, ao contrário, cultivamos um ambiente de parceria, o desejo mimético se converte em força que impulsiona todos a aprender juntos.
A sociologia nos ajuda a ampliar esse olhar. Pierre Bourdieu nos recorda que “o habitus é a interiorização da exterioridade”, ou seja, aprendemos os modos de ser e agir que circulam em nosso meio, muitas vezes sem plena consciência. Quando nos adaptamos a uma cultura, seja ela qual for, quando incorporamos gestos familiares, quando naturalizamos hábitos de consumo, quando filhos disputam o amor dos pais, estamos aprendendo mimeticamente. Esse aprendizado é poderoso, mas também pode ser limitador. A inteligência relacional nos convida a perguntar: de quais habitus queremos ser herdeiros? Quais práticas queremos perpetuar e quais precisamos ressignificar?
No campo filosófico, Hannah Arendt acrescenta uma dimensão preciosa ao lembrar que “a educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele”. Aprender não é apenas repetir ou acumular informações; é desejar continuar no mundo junto com os outros. Esse desejo, novamente, é mimético, pois nasce do amor compartilhado por algo maior. Arendt nos faz pensar que educar é oferecer modelos de desejo que sustentem o mundo, e não que o destruam.
Nietzsche, por sua vez, nos provoca ao dizer que “tornamo-nos aquilo que contemplamos”. Aqui se inscreve um alerta: se contemplamos modelos de poder, sucesso superficial ou consumo exacerbado, acabamos desejando e aprendendo apenas esses caminhos. Mas se contemplamos a grandeza da vida, a beleza da criação e a dignidade humana, nosso aprendizado se orienta para a expansão do ser. A escolha de quem contemplamos é, portanto, decisiva para a qualidade da nossa aprendizagem.
Na psicologia histórico-cultural, Vygotsky reforça essa perspectiva ao afirmar que “toda função psíquica superior aparece primeiro no plano social para depois se interiorizar”. A aprendizagem acontece, portanto, na mediação. A zona de desenvolvimento proximal (ZDP), nos mostra que avançamos porque alguém nos aponta um horizonte além do que já alcançamos. Esse alguém, ao desejar nosso avanço, desperta em nós o desejo de avançar também.
Só para esclarecer, a zona de desenvolvimento proximal (ZDP), conceito formulado por Vygotsky, é o espaço entre aquilo que a criança já é capaz de realizar sozinha e aquilo que só consegue realizar com a mediação de outra pessoa, seja um adulto ou um par mais experiente. Vygotsky afirma que “a zona de desenvolvimento proximal define aquelas funções que ainda não amadureceram, mas que estão em processo de maturação, funções que amadurecerão amanhã, que estão atualmente em estado embrionário” . Esse conceito destaca que a aprendizagem precede e impulsiona o desenvolvimento, pois ao ser guiado por alguém, o sujeito expande suas possibilidades de ação e internaliza novas competências, tornando-se capaz de realizar sozinho aquilo que antes exigia ajuda.
A ressonância da zona de desenvolvimento proximal (ZDP), tal como formulada por Vygotsky, conecta-se plenamente com a inteligência dos relacionamentos, se compreendemos que o desenvolvimento humano se dá no espaço entre o que já conseguimos realizar sozinhos e aquilo que só alcançamos com a ajuda do outro, vemos que o vínculo é o verdadeiro motor da aprendizagem e da qualidade das relações. A mediação, nesse sentido, não é apenas um recurso didático, mas uma experiência de confiança mútua: alguém acredita em nossa potência e se dispõe a caminhar conosco até que possamos andar por conta própria. A ZDP nos mostra que não crescemos sem essa confiança compartilhada. Como lembra Vygotsky, “o aprendizado desperta processos internos de desenvolvimento que só podem operar quando o indivíduo interage com pessoas em seu ambiente”.
Ao trazermos isso para a perspectiva da Inteligência Relacional, compreendo que a maturidade consiste justamente em reconhecer e valorizar esses espaços de mediação, transformando-os em práticas de cuidado, reciprocidade e responsabilidade compartilhada. Aprender, então, é sempre também um ato ético: um encontro em que nos autorizamos a depender do outro para poder, mais tarde, sustentar-nos e sustentar outros.
Do lado teológico, encontramos ecos semelhantes. Santo Agostinho dizia que “somos aquilo que amamos”, e amar aqui significa desejar junto com os outros. O apóstolo Paulo exorta: “sede meus imitadores, como eu sou de Cristo”. Aprender a fé, nesse sentido, é imitar desejos, é entrar em um círculo de mimese que não é de rivalidade, mas de comunhão. A tradição cristã sempre compreendeu a educação menos como transmissão de dogmas e mais como contágio de vida, contágio de desejo por um bem maior.
Na psicanálise, Donald Winnicott reforça essa linha ao afirmar que “o self verdadeiro só emerge quando encontra um ambiente suficientemente bom”. Esse ambiente sustenta o sujeito, permitindo que ele diferencie entre imitar de modo alienante e aprender de modo criativo. Quando o ambiente falha, o sujeito pode aprisionar-se em desejos que não são seus. Quando o ambiente acolhe, o sujeito pode transformar o desejo do outro em inspiração para sua própria singularidade.
Emmanuel Levinas (filósofo francês), também nos convida a refletir que “o rosto do outro é o que me obriga”. A aprendizagem, nesse sentido, não é apenas acumular conhecimentos, mas responder ao apelo ético que o outro me faz. Desejamos aprender porque reconhecemos no outro uma dignidade que nos convoca. Essa perspectiva é profundamente relacional e conecta-se diretamente à inteligência relacional: aprendemos para nos responsabilizar pelo vínculo que nos une.
Na prática, isso tem desdobramentos claros. Nas escolas, percebemos que alunos aprendem mais quando os professores encarnam o desejo pelo saber. Na gestão, descobrimos que equipes se engajam quando os líderes demonstram desejo verdadeiro pelo propósito do trabalho. Nas famílias, constatamos que filhos aprendem a amar, a cuidar, a respeitar porque veem seus pais desejando essas atitudes. Na vida espiritual, compreendemos que comunidades de fé se fortalecem quando seus membros compartilham o desejo comum pelo sagrado e pela justiça. De fato, todos aprendemos copiando aqueles (e aquilo) que nos é relevante.
A sociedade contemporânea, porém, nos coloca novos desafios. Byung-Chul Han (filósofo e ensaísta Sul-Coreano), alerta que “na sociedade da transparência, o excesso de exposição gera comparações incessantes e, com isso, novas formas de violência”. Vivemos bombardeados por desejos de outros, mediados pelas redes digitais. Aprendemos rapidamente, mas corremos o risco de aprender superficialmente, sem discernimento. A inteligência relacional nos pede que filtremos esses desejos, que cultivemos práticas de autocuidado, escuta e reciprocidade para que não sejamos arrastados por uma corrente de alienação.
Paulo Freire, grande educador, nos lembra que “ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo”. Esse pensamento é precioso: a aprendizagem é sempre relacional, e o desejo mimético é a energia que circula nessa comunhão. Quando nos encontramos para aprender, não apenas trocamos informações; compartilhamos desejos, construímos significados coletivos.
Kierkegaard acrescenta ainda que “a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para frente”. Aprendemos, então, a partir do espelhamento do passado, mas desejamos avançar em direção ao futuro. O desejo mimético é motor de transcendência, não de estagnação.
Tomás de Aquino, em sua visão integradora de fé e razão, dizia que “o intelecto move-se pelo desejo do bem”. Aprender é, em última instância, desejar o bem, atraídos por modelos que nos indicam sua possibilidade. Quando escolhemos bem os modelos, nossa aprendizagem se torna caminho de plenitude.
Assim, a inteligência relacional se revela como um horizonte de discernimento. Reconhecemos que nossos desejos não são inteiramente nossos, que são sempre mediados pelos outros. Mas, em vez de viver isso como ameaça, podemos viver como oportunidade: escolher conscientemente a quem imitamos, que desejos cultivamos, que aprendizagens alimentamos. É nesse exercício que a maturidade se constrói, pois aprendemos a ser autores de nossa história sem negar a mediação do outro.
Em termos práticos, isso nos desafia a criar ambientes de aprendizagem que favoreçam o desejo consciente. Nas organizações, significa valorizar lideranças que inspirem pelo exemplo, e não apenas pelo comando. Na educação, significa estimular professores a mostrarem paixão pelo saber, pois essa paixão contagia. Nos protocolos terapêuticos e de mentoria, significa acolher desejos miméticos que sufocam o sujeito e atuar para ajudá-lo a transformá-los em desejos que libertam. Na espiritualidade, significa reconhecer que aprendemos juntos a desejar o transcendente. No empreendimento familiar, significa respeitar a história mas ressignificar as relações.
No fim, podemos dizer que a aprendizagem e o desejo mimético são inseparáveis. Somos seres de desejo, e é no entrelaçamento de desejos que crescemos. Como nos lembra Riane Eisler, “as sociedades florescem quando organizam seus vínculos no modelo da parceria e não da dominação”. Aprender, então, é participar de uma rede de desejos que se orientam para a vida, para a dignidade e para o cuidado mútuo.
A pergunta que nos cabe fazer é: quais desejos escolhemos imitar? Se tivermos clareza disso, poderemos transformar a aprendizagem em caminho de liberdade, e não de alienação. Mas também há outra pergunta inquietante: que exemplos damos ou deixamos que, se forem copiados, trarão dificuldades para “nós no mundo”?
Pensem nisso e reflitam em paz!

by Homero Reis©
Nossas experiências relacionais decorrem do que nos foi ensinado, do contexto em que vivemos, das experiências que temos e das histórias que “escolhemos acreditar”. Tudo isso está enraizado na nossa forma de ser, estar e agir no mundo. No entanto, essas coisas não estão plenamente conscientes em nós. Como dizia Freud, grande parte de nossa vida psíquica é regida pelo inconsciente, e assim, muitas vezes, acreditamos estar escolhendo livremente quando, na verdade, estamos apenas repetindo roteiros silenciosos que nos habitam.
Percebo isso quando diante de um conflito familiar minha primeira reação é levantar a voz, como tantas vezes aconteceu comigo e vi acontecer com clientes, amigos, em reuniões onde alguém “perde alinha”; aí, o outro entra na “vibe” e o “caldo entorna”. Lembro-me bem disso quando recordo os motivos pelos quais entrei em atrito com alguém ou como reagi “quando fui provocado”. Ou seja, todos estamos sujeitos a “respostas automáticas inconscientes”, a maioria delas inadequadas. Quando em um ambiente de trabalho, o grupo guarda ressentimentos ou agendas ocultas, instalam-se mecanismos de defesa e as respostas “apressadas”, muitas vezes desnecessárias, acabam por trazer discórdia. Isso porque, no fundo, carregamos a lembrança de experiências dolorosas onde questionar a autoridade, no nosso contexto de origem, era proibido. Aí, os roteiros defensivos atuam como fios invisíveis que moldam nossas emoções e respostas sem que percebamos quão imaturas são.
Mas não são apenas as histórias individuais que nos condicionam; o inconsciente coletivo da sociedade em que vivemos atua como força silenciosa sobre nossas escolhas. Nas redes sociais, por exemplo, é fácil ser tragado pela lógica da reação imediata. Uma opinião contrária, uma provocação, uma notícia polêmica, tudo nos impele a responder rapidamente, quase sem pensar, como se nossa identidade estivesse em jogo em cada clique. Esse impulso coletivo, esse condicionamento social da pressa, nos empurra para respostas automáticas que raramente constroem diálogo.
Também no campo político noto como esses roteiros coletivos se impõem. Muitas vezes, em meio a discursos polarizados, sinto dentro de mim a tentação de me alinhar automaticamente a um grupo, de repetir slogans sem reflexão, de reforçar muros em vez de construir pontes. Essa tendência é poderosa porque nos dá a sensação de pertencimento imediato, mas, se cedemos a ela sem reflexão, acabamos preso em narrativas que nos impedem de enxergar a complexidade da realidade. Quando ativo o ERA, posso reconhecer esse impulso e escolher outro caminho: escutar quem pensa diferente, buscar compreender as razões alheias, sustentar a ambiguidade sem me perder nela. Esse exercício não é fácil, mas é libertador, porque me livra da prisão das respostas automáticas e me abre ao exercício da maturidade relacional.
Nas instituições em que participo, percebo dinâmicas semelhantes. Muitas vezes, há scripts invisíveis de poder, lealdades herdadas, formas de pensar cristalizadas que moldam as respostas coletivas. É comum ver decisões tomadas por repetição, porque “sempre foi assim”. Sem o espaço reflexivo, caímos na armadilha da esquizofrenia organizacional, dizendo uma coisa nos discursos e fazendo outra na prática. O ERA, nesse contexto, é um convite a parar e perguntar: por que fazemos as coisas do jeito que fazemos? Que heranças estão moldando nossas escolhas sem que as percebamos? Quando um grupo é capaz de sustentar essa reflexão, abre-se a possibilidade de criar instituições mais coerentes, mais humanas e mais livres.
Para entender isso melhor e ser capaz de construir maturidade precisamos compreender o que estou chamando de ERA – Espaço Reflexivo da Aprendizagem. O ERA é um “espaço psíquico” no qual o aprender deixa de ser mera aquisição de informações e passa a ser um exercício de consciência, de integração e de transformação relacional que gera maturidade. É um espaço-tempo de pausa, diálogo e elaboração, no qual cada experiência é decantada e conectada com a própria história, com os vínculos estabelecidos e com os desafios presentes. É um lugar simbólico em que a aprendizagem se dá pelo movimento de refletir sobre si mesmo, sobre o outro e sobre o contexto, trazendo à tona aspectos que muitas vezes permanecem inconscientes ou não nomeados.
Esse conceito articula-se diretamente à Inteligência Relacional, quando estimula o autocuidado, pois exige que eu escute a mim mesmo e reconheça meus limites e potências; quando entendo a reciprocidade, porque o espaço reflexivo se enriquece na troca com o outro; quanto me proponho à escuta ativa, que sustenta a qualidade do diálogo e do aprendizado; quando tomo consciência da dignidade que deve gerir as relações, já que cada voz deve ser considerada legítima e necessária; e, quando entendo a responsabilidade compartilhada, uma vez que aprender implica corresponsabilidade na construção do conhecimento e dos vínculos.
No plano prático, o ERA expressa-se de forma diversa: uma roda de conversa, um diário reflexivo, uma supervisão, uma mentoria, ou mesmo o simples gesto de interromper a correria para dar sentido ao que se está vivendo. O essencial é que seja um espaço seguro e estruturado, onde a experiência pode ser processada, onde as perguntas podem emergir e onde se constrói significado. Se consigo pausar, respirar, verificar a fonte, escolher não reagir no calor da emoção, então recuso ser marionete do inconsciente e exerço minha liberdade de forma madura.
O Espaço Reflexivo da Aprendizagem não é um método, mas uma atitude psíquica-pedagógica-relacional a partir da convicção de que só amadurecemos de fato quando conseguimos integrar o saber, sentir e agir num movimento coerente e transformador.
A maturidade e o autodesenvolvimento, tanto pessoais quanto coletivos, se constituem justamente na forma como me torno consciente desses processos. Cada vez que reconheço em mim o peso das heranças inconscientes, seja da minha família, da minha biografia ou da minha cultura, e decido não ser escravo delas, amplio o ERA. Nesse espaço, posso transformar repetição em criação, herança em aprendizado, automatismo em escolha intencional. É nesse exercício que a liberdade deixa de ser ideal distante e se torna prática cotidiana. E quanto mais prático essa consciência, mais maduro me torno, porque minhas respostas não são simples ecos do passado, mas escolhas que dignificam o presente e projetam futuro.
Entre os estímulos que recebo e as respostas que ofereço, existe um espaço que não pode ser medido em segundos ou metros, mas apenas em profundidade. O ERA é esse espaço. Ele é o epicentro daquilo que compreendo como liberdade. Nesse território invisível deixo de ser apenas resultado de condicionamentos passados e me torno protagonista de minha presença no mundo e autor do meu futuro. É nele que descubro que a maturidade pessoal não é um estado fixo, mas um processo contínuo de expansão dessa liberdade interior. Quanto mais amplio esse espaço, mais capaz me torno de sustentar relações maduras, responsáveis e criadoras. O ERA não é apenas um recurso psicológico, mas o lugar onde a liberdade se instala e de onde se irradiam todas as escolhas significativas de minha vida.
Durante grande parte da minha história, não percebia a existência desse espaço. Reagia no automático, como se cada estímulo que me alcançava exigisse uma resposta imediata. Se alguém me elogiava, eu me inflava de orgulho; se alguém me criticava, eu me retraía ou atacava de volta; se a vida me frustrava, eu me afundava em ressentimentos. Não havia, entre o que acontecia e o que eu fazia, qualquer intervalo consciente. Era como se eu fosse governado por uma programação invisível, escrita por traumas, medos, expectativas e heranças familiares. Eu não respondia: eu apenas reagia. Somente mais tarde compreendi que, essa brecha entre estímulo e resposta, é onde me é permitido escolher como vou reagir. É nela que a liberdade consciente nasce. Não fora, em ideais abstratos ou discursos inflamados, mas ali, nesse instante minúsculo onde posso parar, respirar e escolher. A liberdade, descobri, não está em fazer o que quero a qualquer momento, mas em ter consciência e domínio sobre a forma como respondo àquilo que me acontece.
Recordo-me de um episódio em que fui alvo de palavras irônicas, ditas com o claro propósito de me diminuir. Minha reação automática teria sido responder na mesma moeda, ferir para não ser ferido. Mas naquele instante, percebi que dentro de mim havia um espaço onde eu podia escolher. Respirei, ouvi, e em vez de contra-atacar, perguntei à pessoa como ela estava se sentindo e que pedidos queria fazer. Para minha surpresa, o tom mudou. Percebi que sua ironia era fruto de um sofrimento que ela não sabia expressar de outra forma. Se eu tivesse reagido no automático, teríamos travado uma batalha de egos. Mas ao escolher no espaço reflexivo, abri a porta para um diálogo autêntico. Foi ali que compreendi, de forma concreta, que o ERA é o espaço da liberdade, não da liberdade retórica, mas da liberdade real, que se manifesta no instante em que decido não ser prisioneiro do estímulo.
A inspiração para “construir” o ERA, veio de Viktor Frankl no livro “Em Busca de Sentido”. A frase “entre o estímulo e a resposta existe um espaço, e nesse espaço reside a liberdade humana porque é nele que posso escolher como quero estar no mundo”, é dele. Essa afirmação, feita por alguém que sobreviveu ao inferno dos campos de concentração, tem para mim uma autoridade inquestionável. Se ele foi capaz de manter sua liberdade interior diante da barbárie, como posso eu, em minha vida cotidiana, renunciar a esse mesmo poder? Frankl ensina que a liberdade não é apenas ausência de correntes externas, mas capacidade de escolher a atitude diante do inevitável. Essa lição ecoa em mim: não posso escolher tudo o que me acontece, mas posso sempre escolher a resposta que ofereço. E essa escolha é o gesto mais radical de liberdade que possuo.
Ao refletir sobre o ERA, vejo como ele se conecta à filosofia da liberdade. Kant dizia que a verdadeira liberdade não é fazer o que quero, mas agir de acordo com a lei moral que reconheço em mim mesmo. Essa definição, tão exigente, só se torna possível quando cultivo o espaço reflexivo: é nele que posso discernir entre o impulso e o dever, entre o desejo imediato e o valor duradouro. Sartre, por sua vez, afirmava que estamos condenados à liberdade, porque em todo instante somos chamados a escolher. Para ele, não existe fuga: até não escolher já é uma escolha. O ERA é justamente o palco dessa condenação libertadora. Nele, percebo que não posso transferir a responsabilidade de minhas respostas a ninguém. Sou eu que decido, sou eu que crio, sou eu que assumo. Essa responsabilidade é pesada, mas também é o que dá dignidade à existência.
Simone Weil acrescenta uma nuance preciosa: para ela, a verdadeira liberdade se manifesta no consentimento interior, na capacidade de dizer “sim” ou “não” a partir da atenção plena. Essa atenção, que ela chama de oração, é exatamente o que o ERA me ensina a cultivar. Quando paro para refletir antes de responder, não estou apenas adiando um gesto: estou praticando atenção. Estou abrindo espaço para que a resposta seja fruto de liberdade e não de automatismo. Paulo Freire, por sua vez, me lembra que não há liberdade sem consciência crítica. O ERA é o lugar da pedagogia da liberdade: é nele que me torno sujeito de minha história, em vez de objeto das circunstâncias. Cada vez que escolho o espaço reflexivo, estou exercendo minha própria educação existencial.
Mas não basta falar em conceitos filosóficos. Preciso descer à vida concreta. No cotidiano, o ERA se revela nos pequenos gestos. Quando um filho me desafia com teimosia, posso reagir com autoritarismo, impondo-me pela força, ou posso pausar e escutar, escolhendo a via da paciência. Quando no trabalho alguém erra, posso reagir com dureza e acusação, ou posso respirar e transformar o erro em oportunidade de aprendizagem. Quando na rua alguém me ofende no trânsito, posso explodir em raiva, ou posso simplesmente deixar passar, preservando minha paz. Cada uma dessas situações, aparentemente banais, é um campo de batalha da liberdade. E a vitória não está em dominar o outro, mas em não ser dominado por meus próprios impulsos. O ERA me ensina que a liberdade não é gritar mais alto, mas escolher com mais consciência.
Na esfera relacional, esse espaço se torna ainda mais precioso. Só posso amar verdadeiramente quando sou livre por dentro. Se sou refém de meus medos, carências, impulsos ou histórias que escolhi acreditar, transformo o outro em objeto de minhas necessidades. Mas quando cultivo o ERA, descubro que posso escolher amar como ato criador, não como reação automática. Posso escolher perdoar, mesmo quando a mágoa grita em mim. Posso escolher dialogar, mesmo quando a raiva pede silêncio hostil. Posso escolher dignificar o outro, mesmo quando tudo em mim gostaria de reduzi-lo a uma caricatura. O ERA é, assim, o espaço onde a maturidade pessoal se transforma em maturidade relacional. É nele que a reciprocidade deixa de ser palavra bonita e se torna prática viva.
A sociedade contemporânea torna esse exercício ainda mais difícil e, por isso, ainda mais necessário. Vivemos na era da aceleração, como descreve Hartmut Rosa: tudo nos empurra para respostas rápidas, decisões instantâneas, cliques imediatos. Estimulados a reagir no calor da emoção, a responder antes de refletir, a julgar antes de compreender, revelamos uma imaturidade presunçosa, uma prepotência absurda, e a cegueira relacional. O ERA é, nesse contexto, um ato de resistência. Pausar é revolucionário. Escolher refletir, antes de reagir é contracultural. No espaço reflexivo, recupero a calma necessária para ser livre. Descubro que não preciso responder a tudo, não preciso participar de todas as polêmicas, não preciso entrar em todas as guerras simbólicas. Posso escolher o silêncio, posso escolher a escuta, posso escolher a dignidade.
A espiritualidade reforça essa compreensão. Penso no gesto de Jesus diante da mulher adúltera: ele não responde de imediato à pressão dos acusadores. Ele se inclina, escreve no chão, cria um intervalo. Esse intervalo é o ERA em ação: espaço de liberdade diante da pressão coletiva. E desse espaço nasce uma resposta inédita, que desarma a violência e devolve dignidade. Esse episódio me mostra que o ERA não é apenas uma técnica psicológica, mas uma prática espiritual. É no silêncio do coração que escuto a voz divina, que me chama à liberdade mais radical: a liberdade de amar. E amar, quando nasce no espaço reflexivo, não é sentimentalismo, mas decisão consciente de dignificar o outro.
Quanto mais reflito, mais vejo que o ERA não é apenas individual, mas também coletivo. Uma instituição que aprende a pausar antes de decidir, que escuta antes de agir, que reflete antes de punir, é uma instituição mais livre. Uma sociedade que cultiva espaços de diálogo, que resiste à polarização automática, que sustenta o silêncio da reflexão, é uma sociedade mais madura. O ERA, quando praticado em comunidade, se torna a base da cidadania responsável. Ele cria as condições para que a liberdade de um não destrua a liberdade do outro, mas se converta em liberdade compartilhada. Nesse sentido, o espaço reflexivo é também o alicerce da democracia: sem ele, caímos no automatismo da massa; com ele, cultivamos a responsabilidade do cidadão.
Há ainda uma dimensão criadora que preciso enfatizar. O impulso automático é previsível, é repetição. A resposta escolhida no ERA é surpresa, é novidade. É nesse espaço que posso criar futuros que o passado não determinava. É nele que invento gestos inéditos de bondade, palavras inesperadas de reconciliação, atitudes criativas de solidariedade. O ERA é, portanto, o útero da esperança. Nele, o impossível torna-se possível, porque não estou mais preso ao que foi, mas aberto ao que pode vir a ser. É nele que a liberdade se revela em sua face mais luminosa: como poder de criar o que ainda não existe.
Por isso, insisto: o ERA é o epicentro da liberdade. Não existe liberdade fora dele. Fora dele, só há repetição de padrões, automatismos, escravidão aos impulsos. Dentro dele, encontro a possibilidade de ser mais do que minhas feridas, mais do que minhas heranças, mais do que meus medos. Dentro dele, descubro que posso ser novo, posso ser autor, posso ser criador. Essa liberdade não é absoluta, porque não elimina condicionamentos externos; mas é radical, porque me dá a chance de escolher quem serei diante deles. É nesse espaço que me torno humano em plenitude.
E, ao final de cada reflexão, volto à frase de Frankl que ecoa em mim como oração: entre o estímulo e a resposta existe um espaço. Nesse espaço está minha liberdade. Nesse espaço está minha maturidade. Nesse espaço está a qualidade de todas as minhas relações. Cultivar esse espaço é, portanto, o maior exercício de humanidade que posso realizar. É nele que quero habitar todos os dias, para que minha vida seja não apenas sobrevivência, mas criação; não apenas reação, mas escolha; não apenas repetição, mas liberdade.
Pense nisso e reflitam em paz!
Homero Reis

by Homero Reis ©
Quando olho para dentro das organizações vejo o medo alojado em cada gesto contido, em cada silêncio que sufoca uma ideia, em cada olhar que se desvia diante da autoridade. Isso ocorre em maior ou menor escala, mas ocorre em todas as organizações que não são capazes de uma profunda reflexão sobre “o que é essencialmente humano” na sua forma de ser, agir e estar no mundo. Esse contexto me impele a assumir o desafio de meu propósito. Não entendo minha vida profissional como consultor, apenas cuidando das questões técnicas das organizações. Não trabalho apenas com estruturas de gestão mais sofisticadas, com metodologias ágeis, análise de cultura e instrumentalidade sofisticada de gestão. Antes disso, trabalho com gente porque tudo na vida é relacionamento. E esse é, sem dúvida, a mais complexa atividade humana: tornar-se humano em todos os domínios da existência. E, o que dificulta os relacionamentos corporativos é a “cultura do medo inconsciente”. Tão profundamente instalado que acaba por justificar hierarquias irracionais, gestões abusivas, clima tóxico, controle exacerbado, adoecimento corporativo, metas opressoras; tudo isso escondido sob o pretexto de que o mercado é assim e de que temos que dar resultados a qualquer custo. Não é de se espantar a quantidade de gente doente nas organizações de todos os matizes. Mas, há uma saída para isso. Uma solução para se ter organizações sem medo. Estou falando de se cultivar uma atmosfera em que as pessoas possam existir sem máscaras, em que não se precise gastar energia para esconder dúvidas, em que não precise encenar papéis para sobreviver. A segurança psicológica corporativa é uma necessidade, um sopro de humanidade em meio ao maquinário duro de muitas culturas corporativas, e a Inteligência Relacional nos mostrando o caminho para transformar esse sopro em respiração contínua, em oxigênio que sustenta o organismo vivo da organização.
Vejo, por exemplo, quantas vezes líderes acreditam que precisam ter todas as respostas. O imaginário da liderança ainda está fortemente associado à ideia de infalibilidade, de comando absoluto, de controle sobre cada detalhe. Mas sei, pela experiência e pela pesquisa, que essa postura não apenas é ilusória, como é contraproducente. O líder que finge saber de tudo gera silêncio ao redor, porque ninguém ousará trazer uma informação que contrarie sua certeza aparente. O líder que não admite vulnerabilidade priva a equipe da chance de crescer junto. Em contrapartida, quando a liderança reconhece que não sabe tudo, abre espaço para que a inteligência coletiva floresça. Essa humildade não diminui a autoridade; ao contrário, fortalece a confiança. A verdadeira força está na coragem de ser inteiro, de assumir tanto a potência quanto a fragilidade, de convidar o outro a ser parceiro e não apenas executor.
Tenho aprendido em minha caminhada de cinquenta anos como consultor de gente e gestão, que o medo não desaparece por decreto. Ele precisa ser reconhecido, nomeado, integrado. É o primeiro dos gigantes da alma; e, quando o tratamos como inimigo absoluto, corremos o risco de nos enganar. O medo nos protege, nos alerta, nos ensina a discernir riscos. Mas quando ele se torna carcereiro, aprisiona nossas vozes e paralisa nossa criatividade. A segurança psicológica, nesse sentido, é uma forma de educar o medo, de transformá-lo em guardião e não em tirano. É um convite para que possamos falar mesmo com o coração acelerado, para que possamos discordar mesmo com a voz trêmula, para que possamos admitir erros mesmo quando a cultura ainda não esteja plenamente humanizada e madura. Cada ato de coragem abre uma fresta, e cada fresta é a semente de uma nova cultura.
É impressionante notar como essa lógica ecoa também nas histórias familiares que carregamos. Muitos de nós aprendemos em casa a silenciar, a não contrariar, a não expor fragilidades. Herdamos narrativas de obediência, de medo da autoridade, de evitação do conflito. Quando chegamos à vida profissional, repetimos esses roteiros sem nos dar conta. A Inteligência Relacional, diante disso, insiste na importância de revisitar essas histórias, de reconhecê-las como herança invisível que molda nosso jeito de estar no mundo. Uma organização sem medo só é possível quando cada um de nós se dispõe a transformar também as narrativas herdadas, reescrevendo o pacto de silêncio em um pacto de diálogo e reflexão. E esse movimento exige paciência, exige coragem, exige amor.
Amor, não é como uma palavra ingênua ou romântica. Mas como força integradora e energia criativa. É a capacidade de ver o outro na sua inteireza. Sem amor, a segurança psicológica corre o risco de se tornar apenas uma técnica de gestão, uma moda passageira. Com amor, ela se transforma em cultura, em modo de ser. Amar, no ambiente organizacional, significa interessar-se genuinamente pelo outro, valorizar sua contribuição, respeitar sua dignidade. Significa criar um espaço em que possamos discordar sem medo de destruição, em que possamos confrontar ideias sem ferir pessoas, em que possamos sustentar a tensão criativa sem romper o vínculo. O amor é o alicerce invisível que torna possível e visível a coexistência entre diversidade e unidade.
Vivemos tempos em que o mundo do trabalho se tornou simultaneamente promissor e desafiador. Nunca tivemos tantos recursos tecnológicos à disposição, tantas metodologias sofisticadas de gestão, tantas ferramentas digitais capazes de integrar dados, processos e pessoas em tempo real. E, ao mesmo tempo, nunca fomos tão pressionados por mudanças rápidas, pela exigência de resultados imediatos, pela necessidade de inovar em ciclos cada vez mais curtos. Mas precisamos perceber um paradoxo fundamental que todo esse momento mundial está a criar: quanto mais complexa e avançada se torna a engrenagem organizacional, mais evidente fica que seu funcionamento depende de algo profundamente humano, intangível e invisível: a qualidade das relações que sustentam o cotidiano da vida e do trabalho.
De nada adianta termos algoritmos sofisticados se as pessoas que os operam não confiam umas nas outras. De nada adianta termos estratégias brilhantes se os membros da equipe não se sentem seguros para discordar, corrigir erros ou propor alternativas. De nada adianta falarmos em cultura de inovação se cada ideia fora do padrão é recebida com silêncio constrangido ou ironia velada. O que realmente define a vitalidade de uma organização é o tecido relacional que une seus membros: são as competências conversacionais, as relações dialógicas, os espaços de aprendizagem coletiva; a verticalidade hierárquica. É assim, o entendimento de que as pessoas são todas iguais porque são humanas, e que se diferenciam apenas naquilo que fazem. Essa constatação altera o sentido da gestão. Gestores deixam de ser “chefes” para serem coordenadores de ações entre diferentes. Liderar deixa de ser uma institucionalidade para ser exemplo inspirador.
Nesse ponto, dois referenciais se encontram e se iluminam mutuamente. De um lado, Amy C. Edmondson, em Organização sem Medo, nos oferece uma chave de leitura precisa: sem segurança psicológica, não há aprendizagem coletiva, não há inovação sustentável, não há futuro. De outro lado, a Inteligência Relacional, fruto de minha trajetória e reflexão, que lembra que vínculos humanos são alicerce ético, afetivo e prático de qualquer processo de convivência e governança. Quando unimos essas duas lentes, compreendemos que o desafio de criar organizações sem medo não é apenas técnico, mas profundamente ético e civilizatório.
Falar de segurança psicológica é falar de confiança, mas também de responsabilidade. É falar da possibilidade de errar sem ser punido, mas também da obrigação de aprender com o erro. É falar de escuta aberta a ideias divergentes, mas também de padrões elevados de desempenho. É falar, em última análise, de criar um clima em que vulnerabilidade e excelência caminhem juntas.
Falar de Inteligência Relacional é falar da arte de cuidar dos vínculos. É reconhecer que relações não acontecem por acaso, mas são resultado de escolhas, práticas e intenções. É admitir que cada gesto, cada palavra e cada silêncio constroem ou corroem a confiança. É assumir que autocuidado, reciprocidade, escuta ativa, construção de vínculos e responsabilidade compartilhada não são virtudes opcionais, mas competências indispensáveis para a vida coletiva, aprendidas.
Esse texto nasce desse encontro. Em primeiro lugar, exploro as principais contribuições de Amy Edmondson e sua obra Organização sem Medo, detalhando conceitos, elementos práticos e benefícios. Em seguida, relaciono essas ideias com a Inteligência Relacional, mostrando como os pilares dos vínculos humanos dão consistência à proposta da segurança psicológica. Por fim, concluo com um convite desafiador: pensar as organizações sem medo como horizonte estratégico e, ao mesmo tempo, como compromisso ético com a dignidade humana.
Mas, para irmos avante, o que é mesmo “segurança psicológica”?
De forma técnica, segurança psicológica organizacional é uma condição coletiva de trabalho em que os membros de uma organização, time ou equipe percebem que podem se expressar livremente, compartilhar ideias, questionamentos, preocupações ou admitir erros sem medo de constrangimento, retaliação ou prejuízo à sua imagem profissional.
O conceito sistematizado por Amy C. Edmondson (Harvard Business School), descreve um clima interpessoal de confiança e respeito, no qual a vulnerabilidade individual não é explorada negativamente, mas reconhecida como parte do processo de aprendizagem.
Em termos organizacionais, a segurança psicológica:
Portanto, trata-se de um ativo intangível de gestão diretamente relacionado à Inteligência Relacional, pois depende da qualidade dos vínculos, da reciprocidade entre líderes e liderados e da capacidade da organização de sustentar confiança mútua como base da cooperação.
Amy desenvolveu o conceito de segurança psicológica a partir de pesquisas realizadas em hospitais, empresas de tecnologia, indústrias e organizações diversas. Em um de seus estudos iniciais, ela observou que equipes de saúde que reportavam mais erros não eram menos competentes, ao contrário, eram mais eficazes. A explicação estava na cultura: enquanto algumas equipes escondiam falhas por medo de represálias, outras admitiam abertamente os problemas, aprendiam com eles e melhoravam continuamente.
Esse achado revela um ponto central: a diferença entre uma organização que aprende e uma organização que repete erros não está apenas em sua estrutura, mas em seu clima de confiança. A organização sem medo é aquela em que as pessoas acreditam que podem assumir riscos interpessoais sem sofrer consequências negativas para sua imagem, carreira ou pertencimento. É aquela em que levantar a mão para dizer “eu não sei”, “não entendi”, “eu errei” ou “eu discordo” não é um ato de coragem solitária, mas uma prática culturalmente legitimada.
Para Amy, a segurança psicológica não é sinônimo de conforto ou complacência. Não significa que todos estarão sempre de acordo ou que ninguém será desafiado. Significa, sim, que o desafio poderá ser feito sem risco de humilhação. Significa que o conflito de ideias é bem-vindo, porque não se transforma em conflito de pessoas. Significa que o erro é visto como dado de realidade, não como marca de incompetência.
Para construir uma organização sem medo, a autora propõe um conjunto de práticas concretas para líderes, gestores e equipes. O primeiro passo é definir o palco. Isso significa reconhecer a complexidade do trabalho, admitir incertezas e nomear explicitamente a necessidade de contribuição de todos. Um líder que diz “precisamos da sua visão porque não temos todas as respostas” está abrindo espaço para a vulnerabilidade coletiva e reduzindo a pressão pela infalibilidade.
O segundo passo é convidar à participação. É ilusório esperar que todos falem espontaneamente. Muitas vezes, as pessoas se calam por hábito ou por experiências negativas anteriores. Convidar significa perguntar ativamente, legitimar diferentes vozes, agradecer perguntas, valorizar contribuições. É criar um espaço em que falar não é risco, mas expectativa.
O terceiro passo é responder produtivamente. Quando alguém se arrisca a falar, a forma como é recebido define se continuará a participar ou se voltará ao silêncio. Uma resposta hostil, sarcástica ou indiferente anula todo esforço anterior. Responder produtivamente significa escutar, reconhecer, explorar o que foi dito, transformar ideias imperfeitas em sementes de inovação, tratar erros como pontos de aprendizagem.
O quarto passo é monitorar e medir. Segurança psicológica não é um estado permanente, mas um processo em constante construção. Mudanças de liderança, pressões externas ou falhas internas podem corroer o clima rapidamente. É preciso avaliar periodicamente, criar espaços de feedback, ouvir sinais de desconforto, identificar silêncios suspeitos.
O quinto passo é manter padrões elevados. Amy insiste que segurança não é indulgência. Pelo contrário: é justamente porque há segurança que podemos ser exigentes. Pessoas só se arriscam a buscar excelência quando sabem que não serão punidas por fracassos honestos. A combinação de confiança e exigência é o que sustenta o verdadeiro aprendizado.
Os benefícios de uma organização sem medo são profundos. Em primeiro lugar, o aprendizado se torna contínuo, porque informações fluem e erros se transformam em oportunidades de crescimento. Em segundo lugar, o desempenho se amplia, já que equipes gastam menos energia em autoproteção e mais em colaboração. Em terceiro lugar, há maior retenção de talentos, pois profissionais tendem a permanecer em ambientes que respeitam sua dignidade. Em quarto lugar, há efetiva diversidade e inclusão, porque não basta ter pessoas diferentes: é preciso que elas tenham voz.
Esses resultados mostram que a segurança psicológica não é apenas uma questão cultural ou de bem-estar, mas um ativo estratégico. Em um mundo onde a inovação é requisito de sobrevivência, não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar ideias, silenciar talentos ou desprezar inteligências. A organização sem medo é, portanto, não apenas desejável, mas necessária.
A proposta de Amy ganha ainda mais força quando suas ideias dialogam com a Inteligência Relacional. Isso porque segurança psicológica é, no fundo, um fenômeno relacional. Não depende apenas de políticas ou manuais, mas da forma como nos relacionamos no dia a dia. A Inteligência Relacional (IR), nos oferece justamente esse arcabouço para compreender, diagnosticar e fortalecer vínculos humanos, como também nos instrumentaliza por meio das “competências conversacionais”. Afinal, as conversas sustentam as relações. A qualidade das conversas revela a qualidade dos relacionamentos.
Para dar conta dessa missão, a IR se organiza em cinco pilares. O autocuidado é o primeiro deles. Nenhum líder pode sustentar um ambiente seguro se não cuida de si mesmo. O gestor exausto, reativo, sobrecarregado tende a transmitir medo, ainda que não intencionalmente. Autocuidado significa equilibrar emoções, reconhecer limites, regular comportamentos para não intoxicar as relações. E, acima de tudo criar um clima saudável nas relações e nas conversas que evite as “doenças organizacionais”, tão em moda, hoje em dia: burnout, ansiedade, síndrome do impostor, depressão, dentre outras.
A reciprocidade é o segundo pilar. Relações de confiança só se mantêm quando existe equilíbrio entre dar e receber. Isso vale para trocas de informação, apoio emocional, reconhecimento e colaboração prática. Uma cultura de reciprocidade reduz ressentimentos e fortalece o senso de justiça e pode ser sustentada por rodas de conversas sobre senso de dever, direito e equidade, entendendo que nem tudo que é legal, é justo.
A escuta ativa é talvez o pilar mais próximo da segurança psicológica. Não basta convidar à participação; é preciso escutar de verdade. Escuta ativa significa estar presente, captar nuances, legitimar sentimentos, devolver compreensão. Uma equipe em que todos se escutam tende a criar um ambiente naturalmente seguro, porque cada um se sente visto e reconhecido, o que instrumentaliza a capacidade de “falas com consistências”.
A construção de vínculos é o quarto pilar. Relações não se improvisam: precisam ser cultivadas. Reuniões bem conduzidas, feedbacks consistentes, rituais de equipe, roda de conversas e espaços de convivência são oportunidades de fortalecer laços. Quanto mais densos e confiáveis os vínculos, maior a segurança psicológica.
A responsabilidade compartilhada fecha o círculo. Vínculos são coproduzidos. Não cabe apenas à liderança zelar pela segurança; cada membro tem parte nesse processo. Reconhecer essa corresponsabilidade é fundamental para criar uma cultura sustentável, em que todos se sintam guardiões do clima relacional e de uma cultura inclusiva e sem medo.
Os benefícios da Inteligência Relacional ecoam os de Edmondson. Maior autoconsciência individual, comunicação autêntica no plano interpessoal, culturas organizacionais coerentes e sociedades mais dignas no plano social. As aplicações também são múltiplas: a IR serve de base ética para manuais de governança, de ferramenta pedagógica em processos educativos, de metodologia de diagnóstico em consultoria, de guia para práticas de liderança e até de instrumento de reconciliação em contextos familiares e comunitários.
Quando integro Organização sem Medo e Inteligência Relacional, percebo que estamos falando da mesma realidade sob dois ângulos. Amy mostra que sem segurança não há aprendizagem nem inovação. A IR mostra que sem vínculos saudáveis não há segurança possível. Juntas, as duas propostas se reforçam, oferecendo um mapa e um método para a travessia das organizações contemporâneas.
Chegamos ao ponto decisivo. A escolha entre se ter uma organização baseada no medo ou na confiança não é apenas uma questão de eficiência, mas de humanidade. Sabemos que culturas de medo geram silêncio, desperdício de talento, conformismo e estagnação. Sabemos também que culturas de segurança psicológica liberam energia criativa, fortalecem o desempenho, atraem pessoas e produzem inovação sustentável e geram resultados efetivos.
O desafio, portanto, não é teórico, mas prático e ético. Estamos dispostos a abandonar a lógica do medo, tão arraigada em muitas tradições de gestão? Estamos prontos para assumir que errar faz parte do caminho e que discordar pode ser ato de lealdade? Estamos preparados para cultivar vínculos que sustentem a confiança mesmo em meio à pressão por resultados?
Responder positivamente a essas perguntas exige coragem. Coragem para abrir mão do controle excessivo. Coragem para admitir que não sabemos tudo. Coragem para ouvir críticas e aprender com elas. Coragem para colocar a dignidade acima da performance de curto prazo. Coragem, sobretudo, para acreditar que resultados sustentáveis só nascem em ambientes humanos.
A provocação que quero deixar é clara: organizações sem medo não são apenas mais produtivas; são mais humanas. Criá-las é, ao mesmo tempo, uma estratégia inteligente e um compromisso civilizatório. É escolher um futuro em que o trabalho seja espaço de desenvolvimento, e não de opressão; em que inovação e dignidade caminhem juntas; em que cada pessoa possa ser inteira no espaço coletivo; e, que os relacionamentos sejam inteligentes como cabe a pessoas maduras em sua humanidade.
O convite está feito: que cada um de nós, em nossos papéis de líderes, educadores, consultores ou colegas, contribuamos para esse horizonte. Porque criar organizações sem medo é, em última instância, criar um mundo em que a confiança prevalece sobre o medo, a aprendizagem sobre o silêncio e a dignidade sobre a imposição. Esse é o desafio de nosso tempo, e é nele que quero investir minhas forças e esperanças.
Reflitam em paz!
Homero Reis
Brasília, outubro/2025

por Homero Reis©
Quando fecho os olhos, ainda o vejo correndo: o pelo dourado balançando ao vento, o olhar alegre como se o mundo fosse um campo aberto, e a vida, uma festa onde todos são bem-vindos. ASLAN, o nome do leão de Nárnia, e, de certo modo, o mesmo espírito. Nobre, protetor, cheio de uma doçura indomável. Um Golden Retriever de sete anos e meio, que não era apenas um cão, mas um modo de Deus me lembrar da ternura que a vida ainda pode ter, mesmo quando tudo parece duro ou cansado.
Durante sete anos e meio, Aslan foi meu companheiro de jornada, e quando digo jornada, não me refiro apenas às caminhadas diárias que fazíamos; embora elas fossem um ritual sagrado, uma conversa sem palavras entre dois seres que se entendiam no silêncio. Refiro-me ao caminho mais profundo, aquele que se faz por dentro. Porque é curioso como um cachorro pode se tornar um espelho da alma. Enquanto eu o conduzia pela coleira, era ele quem me guiava num caminho de aprendizagem.
Havia algo nele que me ensinava sobre o tempo, não o tempo do relógio, mas o tempo do coração. Ele não conhecia a pressa. Sabia estar. Cada passeio era uma descoberta. Um galho seco virava brinquedo. Um cheiro novo, uma aventura. Ele me lembrava que viver é estar inteiro, mesmo nas coisas pequenas.
Certa vez li em Saint-Exupéry que “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Mas o oposto também é verdade: tornamo-nos eternamente cativos daquilo que amamos. E o amor, quando é verdadeiro, nos humaniza, mesmo quando vem em forma de focinho, patas e rabo abanando e algumas travessuras.
Aslan me ensinou a ser presente. No mundo em que tudo corre, ele parava para cheirar o vento. No mundo em que todos querem chegar, ele se alegrava apenas por estar. Havia nele uma sabedoria ancestral, talvez a mesma que os poetas pressentem: a de que viver é um ato de gratidão constante.
Aslan era brincalhão e levado. Um dia, enquanto preparávamos dois filés para o jantar da família, deixamos a cozinha por uns instantes. Quando voltamos, um dos filés havia sumido. Silêncio. Intriga. E lá estava ele, no jardim, fingindo indiferença, o focinho brilhando e o olhar disfarçado, como quem tenta enganar o destino. A cena virou história contada em todas as reuniões da família.
Mas mais que engraçada, essa ocorrência me lembra que a vida também precisa de leveza. Quantas vezes, adultos que somos, esquecemos de brincar? Quantas vezes acreditamos que ser sério é sinônimo de ser responsável, e esquecemos que a alegria é também uma forma de fidelidade à vida? Aslan me lembrava disso o tempo todo. Sua presença era uma convocação à inocência — aquela que não é ignorância, mas pureza de coração.
Nietzsche dizia que “a maturidade do homem é ter reencontrado a seriedade que se tinha ao brincar quando era criança”. Talvez Aslan fosse isso: um mestre da seriedade do brincar. Ele me ensinou a rir das pequenas trapalhadas, a não me culpar tanto, a lembrar que viver também é fazer bagunça no jardim da existência. Ele me ensinou que não vale a pena ficar zangado enquanto há tanta coisa para explorar.
Mas a vida, que é feita de dias de sol, também traz suas tempestades. Um ano antes de partir, Aslan começou a apresentar nódulos estranhos no corpo, engasgos e dificuldades de respirar. A partir daí começaram as incontáveis visitas ao veterinário. Remédios, cirurgia na traqueia, exames diversos, remédios. Muitas noites ele não conseguia dormir, e eu o acolhia em meu colo até acalmá-lo para que adormecesse. Foram oito meses até que veio o temido diagnóstico de câncer linfocitário. Um golpe. Um nó na garganta. Lembro do primeiro dia em que ouvimos a palavra “câncer” dita pelo veterinário; o chão se abriu sob nossos pés. É estranho como o amor torna a vulnerabilidade mais nítida.
Durante um ano, ele lutou e sua luta foi linda. Não havia drama nem vitimismo em seu olhar; apenas firmeza. Quando o levávamos para os tratamentos, ele abanava o rabo, como se dissesse: “Está tudo bem, vamos juntos.” Era como se ele nos ensinasse, silenciosamente, que coragem não é ausência de dor, mas presença de amor.
Simone Weil escreveu que “a dor é o modo como o universo se faz ouvir”. A dor do Aslan, e a minha ao vê-lo enfraquecendo, foi também uma espécie de escola. Aprendi que amar é acompanhar até o fim. Que a lealdade não é feita apenas de festas e sorrisos, mas também de estar ao lado quando o corpo fraqueja e o olhar se apaga. Fiquei com ele até seu último suspiro: sereno, tranquilo consolando-me como que diz fique em paz. Eu estou bem. Obrigado.
Ele nunca se revoltou, nunca desistiu. Lutou até o último dia com a mesma dignidade com que viveu. Houve momentos em nossas últimas caminhadas, que meus olhos lacrimejavam, e ele, mesmo fraco, vinha se encostar em mim, como se me consolasse. Que força tem um ser que, mesmo à beira da morte, cuidava do meu coração?
Na madrugada em que ele partiu foi como um corte invisível. O corpo dele descansou, mas algo em mim também se deitou ao lado, cansado. Fiquei um tempo olhando para ele, antes de o deixar aos cuidados dos veterinários. Chegando em casa senti o espaço vazio de onde ele costumava se deitar ao lado de nossa cama. Ainda espero, como quem espera o inefável, escutar o som de seus passos que não mais virão.
Mas, com o passar dos dias, algo vem mudando. Percebo que o Aslan não foi embora por completo. Ele ficou dissolvido no ar, espalhado pela casa, impregnando tudo com a memória de sua presença. Ele está na coleira que guardo, nas pegadas que o tempo não apaga, nas manhãs em que ainda sinto o impulso de sair para passear. Está no vazio que tem a forma de sua presença.
Montaigne escreveu: “A amizade alimenta o espírito e cura a alma.” E talvez eu possa dizer o mesmo sobre esse laço entre homem e animal, um amor que não precisa de palavras, mas que diz tudo.
Há amores que são como rios subterrâneos: mesmo quando desaparecem da superfície, continuam a correr por baixo da terra, silenciosamente. O amor que sinto pelo Aslan é assim. Ele me ensinou a amar do modo mais simples, mais gratuito, mais inteiro. Em seus olhos, eu aprendi o que é a pureza do olhar que não julga. Em sua presença, aprendi o valor de ser confiável. Em sua despedida, aprendi que o amor verdadeiro não se mede pela duração, mas pela intensidade com que transforma quem o vive.
Alguém disse que “o amor é o último teste e a última escola”. E eu creio nisso. Aslan foi um professor paciente. Mostrou-me o que tinha que mostrar no tempo que esteve conosco. Nem mais, nem menos. Apenas o que é essencial. Mostrou-me também que amar é também saber deixar ir. Que a saudade é uma forma de amor que muda de roupa, mas não de essência. É uma forma de mostrar que as memórias afetivas nos constituem.
Às vezes penso que os cães são mensageiros. Não no sentido místico, mas simbólico. Eles carregam algo que perdemos: a inocência primordial. Não guardam rancor. Não mentem. Não planejam vingança. Apenas amam. E talvez por isso, quando morrem, deixam uma saudade que é, paradoxalmente, uma presença.
Lembro-me de um filósofo que dizia: “O amor é o único meio pelo qual nos aproximamos do eterno.” Ao olhar para Aslan, eu me sentia próximo de algo maior do que eu, uma espécie de graça silenciosa. Ele me ligava ao mistério da vida, e ao mistério de Deus.
Muitos dizem que os cães não têm alma. Eu discordo. Se alma é aquilo que sente, que reconhece o outro, que vibra com o bem, que responde ao amor então Aslan era pura alma. Alma com pelos dourados e um coração enorme e pequenas peraltices.
Hoje, quando penso no Aslan, não o vejo como ausência, mas como herança. Ele me deixou a lição do contentamento. A alegria de viver o momento. A alegria de amar sem reservas. A alegria de ser leal, mesmo quando as pessoas e o mundo parecem injustos.
Ele também nos deixou a lição da resiliência. Lutou contra o câncer como um guerreiro silencioso. Ensinou-nos que a vida não se define pelo que perdemos, mas pelo que amamos.
Por fim, deixou-me a lição da lealdade, uma palavra que se gasta fácil na boca dos humanos, mas que nele era verdade encarnada. Ele estava lá em todos os dias: bons, maus, neutros. Nunca se ausentou. Estar era seu dom.
Aprendi com Aslan que o amor é presença, não posse, não controle. Presença sem pedido ou necessidade, apenas presença. Ele me amava e, ao mesmo tempo, era livre. Havia nele uma fidelidade que não aprisionava. Um amor que não exigia reciprocidade, apenas compartilhava o que tinha: alegria, ternura, companhia.
Talvez por isso sua ausência seja tão sentida: porque foi uma presença total.
Senti culpa, por um tempo, por não poder fazer mais. Por não ter lhe prolongado a vida. Mas depois percebi que o amor não é um contrato de cura, é um pacto de cuidado. Cuidamos dele e ele cuidou de nós. Isso basta. Agora ficam a aprendizagem, as memórias afetivas, e o vazio nos afetos.
O filósofo Albert Schweitzer dizia que “até que alguém tenha amado um animal, parte da alma permanece adormecida”. Talvez tenha sido isso. Aslan despertou em nós algo que estava dormindo: uma ternura antiga, um pedaço da infância, a lembrança de afetos que o tempo havia soterrado.
Hoje, quando vejo outros cães brincando, sinto uma mistura de saudade e gratidão. Saudade do que foi, gratidão pelo que ficou. Porque o Aslan continua comigo, não na forma que os olhos veem, mas na forma que o coração reconhece.
Ele me ensinou que a vida é breve, mas o amor é vasto. Que o corpo é finito, mas o vínculo é infinito. Que morrer é apenas mudar de lugar no mapa do afeto; e, quando caminho sozinho, ainda escuto o som das suas patas ao meu lado. Talvez seja apenas o vento. Talvez seja ele. Mas, de qualquer forma, sorrio.
No fim das contas, percebo que o amor é o que nos torna humanos. E, curiosamente, às vezes é um animal que vem nos ensinar isso. Aslan foi meu espelho e meu companheiro mais presente. Ensinou-me que viver é servir, brincar, cuidar, confiar e seguir. Que o amor verdadeiro não precisa de aplauso, apenas de presença. Que a alegria é uma forma de resistência.
Nietzsche, novamente, dizia que “o que é feito por amor está sempre além do bem e do mal”. E é isso que fica: um amor que não se explica, mas que ilumina. Aslan não está mais aqui, mas tudo o que ele foi está. Sua coragem, sua travessura, sua alegria. Seu jeito de olhar, sua forma de encarar a vida, como se dissesse que tudo, no fim, dá certo.
E talvez seja isso mesmo: o amor não morre, apenas muda de forma. Hoje ele corre em outro campo, livre. E eu, aqui, sigo caminhando, levando dentro de mim o rastro luminoso do meu companheiro dourado, de quatro patas.
Como dizia Mark Twain, “Se há um paraíso, é certo que ele está repleto de cães.”
Reflitam em paz!
Homero Reis
Porto de Galinhas/PE
Outubro/2025

by Homero Reis ©
Sempre me perguntei por que conto as histórias que conto a meu respeito. Essa pergunta aparentemente simples é, na verdade, um portal para reflexões profundas sobre identidade, liberdade e sentido. Não foram poucas as vezes em que percebi que, ao selecionar algum episódio de minha história e oferecê-lo em forma de narrativa, escolhia não apenas o fato em si, mas a lente pela qual desejava que seja visto. Contar histórias é mais do que relatar acontecimentos: é escolher quem eu sou, quem fui e quem desejo ser.
Desde cedo aprendi que a realidade não é um objeto sólido que se oferece a todos da mesma forma. Ao contrário, como diria Humberto Maturana, o ser humano é um ser interpretativo; vivemos num mundo de linguagens e emoções, e é a interpretação que dá forma ao que chamamos de real. O que me acontece não é o acontecimento em si, mas aquilo que sou capaz de compreender dele e o modo como o significo. Essa constatação já bastaria para dizer que cada narrativa é sempre parcial, seletiva e impregnada daquilo que sou no instante em que a conto.
Recordo-me, por exemplo, do dia em que machuquei meu joelho numa queda de bicicleta, ainda menino, junto com meu pai. Posso recontar essa cena de mil formas diferentes. Posso dizer que foi azar, que foi negligência de meu pai, que foi “profecia” de minha mãe, vontade de Deus ou que foi a oportunidade que tive de aprender a lidar com a dor. Qual dessas versões é a verdadeira? Talvez todas, talvez nenhuma. O fato cru é que machuquei muito meu joelho; o resto são interpretações. E é nessas interpretações que me reconheço, pois sou, em grande medida, as histórias que escolho contar.
A psicanálise chamou minha atenção para isso. Freud dizia que a memória não é um arquivo, mas uma reconstrução, e cada lembrança é sempre reescrita à luz do presente. É como se o passado fosse uma massa maleável, pronta para ser moldada pelo olhar de hoje. Não existe neutralidade em nossas narrativas. Nossas conversas não são “inocentes”. Há sempre uma intenção, um desejo de justificar, obter consolo, provocar empatia, receber aprovação ou até mesmo desafiar o outro.
Hannah Arendt dizia que narrar é dar sentido ao que, de outra forma, permaneceria como um amontoado de eventos sem lógica. Ao organizar minha vida em histórias, consigo compreender melhor quem sou. Mas, ao mesmo tempo, corro o risco de cristalizar-me em papéis fixos: a vítima injustiçada, o herói incompreendido, o sábio que tudo sabe ou o humilde que nada ousa dizer. Esses papéis, quando repetidos demais, tornam-se prisões invisíveis, armaduras existenciais e acabam por afastar-me de mim mesmo.
Foi observando minhas próprias narrativas que percebi o quanto, por vezes, vitimizo-me. Ao dizer que fui azarado, que a vida foi injusta, que o outro falhou comigo, obtenho do interlocutor o consolo que desejo. Ele me dirá: “não é assim, você não está só, isso acontece com todos.” E é exatamente isso que eu queria ouvir, consciente ou não. Mas, ao mesmo tempo, é nesse jogo que corro o risco de perpetuar uma visão limitada de mim mesmo.
Viktor Frankl, sobrevivente de campos de concentração, ensinava que mesmo na mais extrema condição o homem conserva a liberdade de escolher sua atitude diante do sofrimento. Se ele, entre arames farpados e cercado pela morte, pôde reinterpretar sua história, por que eu não poderia?
Outro exemplo que guardo vem da sala de aula. Durante muitos anos, confesso, fui um professor tirano. Fechava a porta e ninguém entrava depois de mim; saía apenas quando eu autorizava. Havia em mim uma ânsia de controle, talvez nascida de minhas memórias de infância, quando nunca era escolhido para os times de futebol (de fato eu jogava muito mal), e me escondia no banheiro para não enfrentar a humilhação de ser preterido. Tornar-me professor era, de algum modo, reverter aquele destino: agora era eu quem escolhia, quem decidia quem podia falar, quem detinha o poder. Foi somente anos depois, depois de muita terapia, ao recontar essa história para mim mesmo, percebi a tirania escondida na justificativa da escolha do comportamento. Por fim entendi que podia manter meus alunos atentos não pela força, mas pela inspiração. Essa mudança de narrativa me tornou um professor melhor, menos agressivo, mais relacional. E isso alterou em muito minha forma de lidar com a vida, como meu passado e com as perspectivas de futuro.
Jean-Paul Sartre escreveu que o homem está condenado a ser livre. Essa frase, que soa tão dura, é na verdade libertadora. Estou condenado porque não há como escapar: mesmo quando não escolho, escolho. E a liberdade pesa, porque exige responsabilidade. A narrativa que construo sobre meus atos é também uma forma de escapar da angústia dessa liberdade. Se digo que fracassei porque o outro me prejudicou, alivio-me do peso da responsabilidade. Mas quando reconheço que também tive parte, que poderia ter agido de outro modo, assumo o peso da minha liberdade que proporcionou minha escolha.
Muitas vezes, ao atender casais em crise, percebi esse mecanismo em ação. Perguntava a um dos cônjuges quem era o responsável pela separação e ouvia: “ela (ou ele) é a culpada, se fosse diferente estaríamos bem.” Essa resposta revela não apenas ressentimento, mas também incapacidade de assumir a própria responsabilidade na coparticipação histórica da vida. É mais fácil culpar o outro do que admitir que nossa interpretação dos fatos também constrói o desfecho.
Goffman, em “A Representação do Eu na Vida Cotidiana”, dizia que cada um de nós é um ator em cena, desempenhando papéis para obter reconhecimento. Quando me apresento como vítima, busco consolo; quando me apresento como herói, busco admiração; quando me apresento como sábio, busco reverência. Mas nenhum desses papéis esgota quem sou. No fundo, todos são máscaras que, de tanto usa-las, fazem-me acreditar que são meu rosto verdadeiro.
Santo Agostinho também me ajuda nessa reflexão. Em suas Confissões, relatava como recontava incessantemente sua juventude pecadora não para se condenar, mas para mostrar a graça transformadora de Deus. Ele compreendia que a narrativa tem um poder pedagógico: iluminar as sombras do presente com as luzes do passado. Também eu, ao recontar minhas histórias, não busco apenas justificar-me, mas aprender, converter, reinventar; reafirmar o que me torna essencialmente humano.
Há sete anos adotei um cachorro chamado Aslan. Brinco que ele é meu filho canino. Lembro-me de uma frase que dizia aos meus filhos: “se um dia vocês me virem catando coco de cachorro na rua, me internem, porque enlouqueci.” Pois bem, hoje passeio todos os dias com Aslan e recolho com alegria seus dejetos. Quem me viu e quem me vê! Essa pequena cena doméstica é, na verdade, uma metáfora poderosa: mudei de opinião, mudei de postura, mudei de narrativa. O que antes seria sinal de loucura tornou-se sinal de cuidado e afeto. E isso não é contradição, é evolução. Como diria Heráclito, ninguém se banha duas vezes no mesmo rio; somos fluxo, mudança, processo.
Do ponto de vista familiar também o fenômeno ocorre da mesma forma. As histórias que as famílias contam funcionam como uma herança invisível. Não são apenas bens ou tradições que passam de geração em geração, mas também enredos: frases como “na nossa família sempre foi assim”, “somos fortes”, “aqui ninguém desiste”, moldam identidades, criam relacionamentos, estabelecem critérios de avaliação uns dos outros e projetam horizontes. Dentro delas, surgem roteiros silenciosos, que atribuem papéis a cada um: o filho responsável, a filha rebelde, o pai provedor, a mãe cuidadora, a “ovelha negra”. Esses roteiros tanto podem aprisionar quanto servir de ponto de partida para novas leituras. Quando alguém ousa narrar a família de outro modo, lembrando, por exemplo, a avó não apenas como sofredora, mas também como visionária, o tio “incorrigível” como o amigo brincalhão, abre-se um espaço inesperado: todos são convidados a revisitar as próprias narrativas. Nesse movimento, até as feridas podem encontrar reconciliação. Uma memória de conflito, quando contada de novo, não deixa de ser dolorosa, mas pode se converter em lição, em oportunidade ou mesmo em gratidão. Ao escutar ativamente novas versões de antigos discursos diferentes de uma mesma história, a família deixa de se prender a uma narrativa única e rígida e passa a se enxergar como um mosaico vivo, onde cada voz tem valor.
Mudar de narrativa é mudar de vida. E é aqui que entra a Inteligência Relacional, caminho que aprendi a cultivar, além de estudar, escrever e trabalhar com ela. A inteligência para as relações me ensina que é nos relacionamentos que encontro o lugar onde me descubro, e que a narrativa que crio sobre mim e sobre o outro molda a qualidade de nossos vínculos. Se conto sempre histórias críticas, é porque meu olhar se habituou a enxergar falhas. Se conto histórias esperançosas, é porque cultivei a fé de que o mundo pode ser melhor. De fato são escolhas possíveis e não categóricas. Mas, toda escolha ancora um comportamento que produz resultados, nem sempre controláveis, mas que decorrem das escolhas que fiz. Isso vale igualmente para as histórias familiares. Revisitar as conversas históricas da família, com honestidade intelectual e coragem emocional, cria um novo cenário para as relações.
Paulo Freire lembrava que ninguém liberta ninguém, mas todos podem, juntos, se libertar. O mesmo se aplica às histórias: ninguém reconta minha vida por mim, mas posso, em diálogo, descobrir novas versões que me libertam. Ao separar fato e interpretação, descubro que sempre há outras leituras possíveis. É como olhar para a história da Branca de Neve (p.ex.): posso vê-la como conto romântico, como narrativa patriarcal ou como metáfora de invejas e desejos. Nenhuma leitura esgota a história, e todas dizem mais sobre quem as conta do que sobre a história em si.
Nesse ponto Michel Foucault se torna relevante. Ele me ensinou que o discurso é atravessado por relações de poder. As histórias que conto de mim mesmo não nascem no vácuo, mas dentro de estruturas sociais que valorizam certos enredos e silenciam outros. Quando, por exemplo, a Bíblia descreve, sob a lavra de Salomão, a “mulher virtuosa” (Pv:31), como alguém que trabalha sem cessar enquanto o marido conversa à porta da cidade, percebo que há ali mais do que um elogio: há também um reflexo de uma cultura patriarcal que reduz a mulher a uma máquina de produção. Recontar essa história hoje, a partir de um viés mais inclusivo, é também um ato político, uma forma de resistir às narrativas de opressão. Uma nova narrativa pode questionar os papeis que ali estão.
Mas o recontar não é apenas denúncia. É sobretudo oportunidade de criação. Carl Rogers dizia que quando somos aceitos incondicionalmente podemos florescer. O mesmo acontece com as narrativas: quando me permito contar minha vida de outra forma, sem medo de julgamento, abro espaço para que novas possibilidades surjam. A cada nova versão descubro facetas que estavam escondidas, a cada nova narrativa descubro outros pedaços de mim.
Gosto de pensar na vida como um rio, tal como descreve Barry Stevens no livro Não apresse o rio, ele corre sozinho. Stevens foi uma psicoterapeuta ligada à Gestalt-terapia, e nesse livro ela combina reflexões existenciais, relatos de experiências pessoais e metáforas da natureza (como a imagem do rio), para falar sobre autoconhecimento e fluxo da vida. É uma obra muito usada em contextos terapêuticos, de desenvolvimento humano e espiritualidade, onde a base de todo processo se sustenta pela análise da interpretação que fazemos de nossa própria jornada. Isso me ajudou muito, e a pergunta continua reverberando em minha mente: por que conto as histórias que conto?
O rio não enfrenta os obstáculos, contorna-os. Há momentos em que se torna cachoeira, em outros se acalma em remansos. Ora profundo, ora raso, ora violento, ora tranquilo. Assim também sou eu: múltiplo, contraditório, em movimento. E ao final, como todos os rios, desaguo no mar. Essa imagem me consola porque me lembra que a história que conto hoje é apenas um trecho do curso do rio; amanhã posso narrá-la de outro modo, de acordo com as curvas que a vida me apresentar.
Ao longo de meus setenta anos, já escrevi e reescrevi minhas próprias histórias muitas vezes. Já as contei de inúmeras formas: idealizando-a, fantasiando, sofrendo; em fim, houve fases em que me orgulhava de dizer: “sou sempre o mesmo, não mudo.” Hoje vejo que isso não é virtude, mas rigidez. O verdadeiro sinal de vitalidade é poder mudar, mantendo a essência, mas ajustando-me ao compasso aos novos tempos. É como a rocha firme que permanece, mas permite que a água escorra sobre si.
Não nego que essa mudança tem exigido uma coragem que nem sempre está disponível. Recontar histórias é abandonar zonas de conforto. É admitir erros, que posso ter sido arrogante, que posso ter sido injusto. Mas é também libertar-me da síndrome de Gabriela: “nasci assim, vou viver assim, morrer assim.” Não, eu não preciso morrer assim. Posso reinventar-me. E é nessa reinvenção que encontro saúde, esperança e profundidade.
O teólogo Paul Tillich dizia que a fé é a coragem de aceitar ser aceito apesar de não sermos aceitáveis. Recontar histórias é um exercício semelhante: é aceitar-me apesar de minhas falhas, e confiar que posso ser diferente amanhã. É acreditar que há sempre portas e janelas abertas, se ouso reinterpretar o que antes parecia clausura.
Quando olho para trás, vejo que cada mudança de narrativa ampliou meu repertório. Descobri que a ira não precisava ser violência, mas guardiã da dignidade; que o medo não precisava ser carcereiro, mas professor; que o dever não precisava ser imposição, mas pacto silencioso de cuidado mútuo; que o amor podia ser a força integradora que refaz tudo. Esses quatro gigantes da alma, como os descreveu Emilio Mira y López, também são histórias que hoje, escolho contar a meu respeito. E a cada releitura deles, descubro novas dimensões de mim mesmo.
Por isso, hoje afirmo: sou responsável pelas histórias que conto. Não é meu pai, nem minha mãe, nem meu chefe, nem meus clientes, nem meus mentores que respondem por elas. Sou eu. E se uma narrativa me pesa demais, posso mudá-la. Não para negar o fato, mas para reinterpretá-lo de modo que me traga vida. Esse é o caminho do autoconhecimento: revisitar, recontar, reinventar.
Chego, assim, à convicção de que ninguém é vilão na própria história. Todos, de algum modo, buscam justificar-se, proteger o ego, preservar a autoestima. Comigo não tem sido diferente. Compreender isso me torna mais empático com os outros. Se percebo que cada um carrega uma narrativa que o absolve, posso escutá-lo sem julgar, posso dialogar sem condenar. Isso não significa relativizar tudo, mas compreender que, por trás de cada discurso, há um coração tentando sobreviver, uma dor buscando a cura, uma história buscando sentido.
Quando penso no futuro, não sei quais histórias ainda vou contar. Mas sei que tenho o direito e o dever de recontar as antigas histórias sob novas luzes. Essa é minha liberdade. Essa é minha dignidade. Essa é minha fé.
E é por isso que, ao final de cada dia, me recolho em solitude, não em solidão, mas em silêncio fecundo, como ensinava Thomas Merton, para dialogar comigo mesmo e com Deus, revisitando minhas histórias. Nesse exercício diário aprendo que a vida não é um roteiro fixo, mas um teatro em que posso improvisar, mudar a cena, reinventar o personagem.
Há uma lição que quero deixar registrada aqui: mude sua narrativa e o mundo mudará diante de você. Recontar histórias é lançar luz sobre terrenos sombrios, é abrir portas em muros fechados, é descobrir que a vida é mais ampla do que imaginávamos. Aos setenta anos, percebo que essa é a arte maior: contar e recontar histórias, não para enganar, mas para viver melhor.
E assim sigo, autor e ator de minhas histórias, narrador e personagem de minha própria vida, sempre disposto a reescrever, a reinterpretar, a me reinventar. Porque, no fundo, é isso que somos: histórias em movimento, rios que correm, palavras que se refazem.
Pensem nisso e reflitam em paz!
Homero Reis
Brasília, outubro/2025

by Homero Reis©[1]
A história dos relacionamentos humanos tem a idade da própria humanidade. Tudo o que nos tornou humanos, aprendemos de forma objetiva nas comunidades que formamos ao longo de nossa história devido à nossa natureza gregária. A reprodução gera novos animais, seres biologicamente semelhantes aos genitores, mas é a vida relacional que nos torna humanos. Somos o que somos porque vivemos na comunidade que vivemos. Enquanto frutos das comunidades, também a produzimos pelas diferenciações que construímos no nosso desenvolvimento como indivíduos que descobrem como as coisas são e como poderiam ser. Seres dotados de memória e imaginação.
Na literatura mítica de todos os povos, a criação do homem se dá nessa perspectiva de coloca-lo sempre em relação a outros, influenciando e sendo influenciado a todo o tempo. No caso bíblico, mais conhecido por nós, o fato se dá da mesma forma: “Não é bom que o homem esteja só. Far-lhe-ei uma ajudadora que lhe seja idônea” (Gn.2:18). Dessa primeira relação surge a noção de família, depois a de comunidade e assim por diante até à noção de sociedade que temos hoje. No entanto tudo isso tem por pressuposto fundamental o relacionamento entre diferentes, mas com interesses comuns. Diferenças fundamentais para a criação, manutenção e o desenvolvimento da própria comunidade. Assim é que a vida relacional surge pelo fato de que o ser humano não é um ser solitário, nem se constitui isoladamente; antes, é coletivo pela própria natureza de sua existência. Má notícia: o Tarzan como tal não existe.
Se por um lado a vida individual se auto referencia, a vida comunitária é caracterizada por um conjunto de elementos orgânicos intrínsecos entre seus membros, produzindo ajustes entre eles. Ferdinando Tönnies (1887 – Comunidade e sociedade), afirmava que “a vida comunitária compreende tudo o que é confiante e íntimo, vivendo exclusivamente em um conjunto relacional” que representa unidades comuns entre diferentes. Sociólogos posteriores como Cooley, Weber e Durkhein ampliaram esse conceito transformando-o no que se entende hoje por sociedade.
No entanto é a vida relacional entre diferentes que evidencia as coisas que funcionam e as que não funcionam. O movimento natural de equilibração entre elas da-se pela preservação de comportamentos sociais aceitáveis por um lado e de exclusão daqueles não tão efetivos assim, por outro. Esse movimento é mais observável em comunidades pequenas cujo nível de contato entre os membros é grande e a diferenciação entre eles, embora existente, não é tão expressiva assim, como nas comunidades globais. A complexidade dos relacionamentos cresceu e evidenciou que “nem tudo são flores” entre os seres humanos. A diferenciação exponencial de valores, crenças, princípios, cosmovisões, cultura enfim, tanto do ponto de vista macrossocial, quanto nas relações pessoais, passaram a requer uma nova área de estudo e pesquisa, que denomino de inteligência relacional, cujo conceito é a capacidade de “ler dentro” dos relacionamentos para saber como funcionam e se estruturam, entendendo sua dinâmica, de modo a intervir neles para construir situações mais harmônicas e efetivas em todos os domínios do viver humano! Nesse texto que explorar um pouco mais essa ideia de “ler dentro” dos relacionamentos.
Numa perspectiva bem ampla, como chegamos até aqui? Das pinturas rupestres e do lixo das civilizações até a invenção da escrita foi um longo tempo; de lá para cá outros tantos. Mas em todo o tempo parece que as dificuldades relacionais estão presentes. Se em intensidades diferentes, o mesmo não se pode dizer das categorias. Não fomos capazes de nos livrar do pecado original, conforme a literatura bíblica, nem de tudo que foge das virtudes universais, conforme escreveu Prudêncio na Idade Média. Segundo ele, a luxuria, a avareza, a gula, a preguiça, a raiva, a inveja e a vaidade, os chamados sete pecados mortais, são a tônica dos relacionamentos humanos. Ao contrário, a vida deveria ser regida pela castidade, enquanto pureza, simplicidade e sabedoria; caridade, enquanto generosidade e gratidão; temperança, enquanto autocontrole, moderação e justiça; diligência, enquanto persistência, ética, força, coragem e disciplina; paciência, enquanto serenidade e paz; bondade, enquanto compaixão, amizade e empatia; e, humildade, enquanto modéstia e respeito. Relacionamentos construídos a partir dessas premissas nos tornariam capazes de viver graciosamente aceitando os desafios impostos pela difícil tarefa de convivermos bem. Acredite ou não, não fomos bem sucedidos.
A partir da idade moderna outros elementos corroboraram para que nossas dificuldades relacionais se tornassem sistêmicas. No séc. XVI, René Descartes, desenvolve o racionalismo afirmando que tudo o que existe tem uma causa inteligível. Quanto aos relacionamentos privilegiou a razão em todas as coisas, deixando os aspectos emocionais em segundo plano. Julgava que a experiência relacional não poderia servir de base para nenhuma via de acesso ao conhecimento. Tudo deveria ser fruto de um exame racional profundo. Bem intencionado, René Descartes logra êxito em muitas áreas do conhecimento científico sendo considerado um dos mentores mais importantes da revolução científica moderna. No entanto, a exclusão de aspectos subjetivos na análise dos relacionamentos humanos, como também a não valorização do peso das emoções nesses relacionamentos dificultou o entendimento da inteligência relacional. Somente no final do séc. XX (1994), António Damásio reparou esse erro escrevendo o livro O Erro de Descartes onde retrata com detalhes neuro-anatômicos o modo de funcionamento da mente e seus impactos na estruturação dos relacionamentos. Se por um lado a ideia de racionalizar as coisas foi muito boa, a experiência mostra que isso não é suficiente para “se entender” como a inteligência dos relacionamentos se estrutura. Entender os relacionamentos requer mais que a frieza racional lógico-matemática.
Muita coisa acontece a partir de então até que nas portas do sec. XVIII (1760 – 1820/40) ocorre o que se convencionou chamar de Revolução Industrial. Esse movimento tecnológico, econômico e filosófico foi um divisor de águas na história em quase todos os aspectos da vida cotidiana. Todos os relacionamentos humanos foram influenciados. A transição dos processos de produção artesanais para a produção mecânica em massa (pelas máquinas), foi, por si só, uma grande revolução. Modifica-se não só o produzir como também o relacionar. O pressuposto geral invocava o racionalismo. Se os processos mentais podem ser racionalizados, os processos de trabalho também. Tudo o que é sistematizável é mecanizável. Até então nada tinha sido tão impactante na vida econômica e social das pessoas. No entanto, se por uma lado o crescimento econômico promoveu um efeito surpreendente, não foi acompanhado pelo respectivo desenvolvimento na qualidade de vida e das relações. A vida na era fabril começava a configurar-se desumana e cruel, fato que se aprofunda nos dias de hoje: o peso da jornada de trabalho, as condições de insalubridade e a periculosidade, o estresse, a mecanização das pessoas, a monetarização das relações, a concentração urbana e de renda, entre outras.
Partindo desse pressuposto, Max Weber (1864-1920), um dos fundadores da moderna sociologia e pai da burocracia, mergulhou nos estudos do capitalismo e do chamado processo de racionalização e desencantamento do mundo, que perde seu encantamento para nós mergulhar na frieza das relações burocrático-pragmáticas. Só é válido aquilo que produz um resultado concreto, objetivo, sistematizado e de valor econômico substantivo. Com Weber o pragmatismo é fecundado nas relações do Estado, mas também no cotidiano das pessoas. Sentimentos, afetos e coisas do gênero começam a soar “piegas” demais para uma sociedade dita moderna, científica e evoluída.
As relações pragmáticas, instrumentalizadas pela burocracia, são aquelas que produzem (ou reproduzem) o modelo mental educado burocraticamente ao ponto de ser capaz de reduzir o sentido das ocorrências à avaliação de seus aspectos úteis e necessários. Limitam suas reflexões relacionais aos efeitos práticos, de valor utilitário em todos os seus pensamentos, emoções e afetos. Nas “Teses de Weber” a ideia da burocracia surge como um dos eixos gravitacionais da sociedade contemporânea. A burocracia é entendida como o rigor da norma relacional, a impessoalidade do trabalho, a rigidez dos controles e a inflexibilidade dos processos. Com isso Weber pretendia garantir a lisura nas relações cidadão/estado, mas acabou por interferir de modo direto na vida privada. A influência do seu pensamento foi tamanha que as relações entre as pessoas passam a ser dominadas por um contratualismo exacerbado. Embora asséptica a burocracia weberiana e sua aplicação na vida privada não melhorou nem esclareceu porque as pessoas tem tantas dificuldades em seus relacionamentos. Falta ao burocratismo uma inteligência relacional.
O cenário está quase pronto. No inicio do sec. XX. Henry Ford constrói a “linha de montagem” (1913). Uma forma de produção em série, onde várias pessoas, numa sequência de processos racionais, burocratizados por normas e controles rígidos, especializados em diversas funções específicas e repetitivas, trabalham de forma sequencial, com a ajuda de máquinas que estabelecem o fluxo do processo. Tal feito foi considerado uma das maiores inovações tecnológicas da era industrial. Reduziu custos, minimizou os tempos, mecanizou as pessoas e promoveu um desenvolvimento econômico nunca dantes pensado ser possível. Não se pode negar os benefícios de tal empreendimento. Por outro lado, a desumanização nos relacionamentos foi de igual proporção. Tudo a partir de então foi modelado pela linha de montagem. A educação, o modelo social, a arquitetura urbana, a saúde, enfim, tudo foi pensado a partir desse modelo. Pensado, pasteurizado e padronizado. Formamos as coisas e as pessoas, as colocamos em formas, de modo que se possa garantir a qualidade dos processos, evitar o erro, massificar a produção e reduzir os custos. A questão é que os relacionamentos também entraram nessa “vibe”. Passamos a ter um modelo para tudo. A diversidade foi substituída pela padronização.
Embora tudo estivesse num caminho presumidamente certo, fomos atropelados por duas grandes guerras. Tudo o que aprendemos e tudo o que experimentamos com toda a nossa ciência e tecnologia não foi capaz de evitar o colapso da sociedade de então. Esperávamos construir um mundo perfeito. Não fomos capazes de fazê-lo. Reduzimos as relações entre as pessoas em uma neo-escravidão. Transformamos pessoas lindas, complexas e intensas em peças de um processo produtivo cientificamente constituído, mas incapaz de melhorar nossos relacionamentos. Tudo pode ser substituído; é mais barato substituir do que consertar. Fique esperto que a fila anda.
Charles Chaplin denunciou isso de forma veemente quando, em 1936 filmou nos Estados Unidos, Tempos Modernos. Um filme em que o seu famoso personagem “O Vagabundo” surta ao tentar sobreviver em meio ao mundo moderno e industrializado. Toda a complexidade do ser humano é reduzida a um apertador de botões do modelo industrial. A pergunta que ninguém jamais teve a coragem de enfrentar, ficou no ar: no mundo que estamos construindo, o que é mais importante, as pessoas ou as coisas? A resposta veio do próprio Chaplin em outro filme seu, O Grande Ditador. Filme premiadíssimo de 1940 em que satiriza o nazismo, o fascismo e as lideranças mundiais que os representavam. Chaplin faz isso de forma magistral. “Não sois máquina! Homens é que sois!” é a sua resposta. A crítica de Chaplin ao modelo capitalista industrial foi tão veemente que foi acusado de “atividades antiamericanas” (ser comunista), e em 1952 seu visto foi revogado mantendo-o “exilado” na Inglaterra. O discurso épico que finaliza o filme sintetiza o que criamos e o quanto nos desviamos dos relacionamentos inteligentes. Segue a íntegra de sua fala, em 1940:
Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício.
Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja.
Gostaria de ajudar – se possível – judeus, gentios… negros… brancos.
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio.
Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros?
Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens…
levantou no mundo as muralhas do ódio…
e tem-nos feito marchar a passos de gigante para a miséria e os morticínios.
Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela.
A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloquente à bondade do homem… um apelo à fraternidade universal… à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora… milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas… vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis!
A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia… da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo.
E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais… que vos desprezam… que vos escravizam… que arregimentam as vossas vidas… que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão!
Não sois máquina! Homens é que sois!
E com o amor da humanidade em vossas almas, não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os inumanos!
Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela… de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo… um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós.
Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos!
Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo das trevas para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade.
Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!
A denuncia de Chaplin antecipa o mundo racionalista, relativista, imediatista e descartável que se começou a construir no sec. XVI e que acabou por modelar o sec. XXI. A vida caminhou célere para o que Zygmunt Bauman chama de mundos líquidos. A pós-modernidade abriu espaço para o que chamo de “a vida pós-verdade” e os pessoalismos subjetivos reduziram os relacionamentos ao espaço restrito das conveniências pessoais.
Muitas perguntas clamam por respostas. Se não as conseguimos, que reflitamos sobre elas como ponto de partida para o desenvolvimento da inteligência de nossas relações. Por que caçamos e perseguimos os outros? Por que construímos relacionamentos nitidamente desumanos? O que nos faz agir de modo tão brutal nas relações mais simples do cotidiano? Por que vivemos em constante estado de competição? O que nos faz legitimar o modo como vivemos julgando a nossa forma de ser, “normal”? O que nos faz pender cronicamente para o conflito e para a necessidade de superar o outro? Por que não somos capazes de atos concretos de solidariedade global? Por que não conseguimos realizar o que temos intensão? Essas são algumas boas perguntas que precisamos enfrentar.
É isso aí! Agora não tem mais jeito. A inteligência relacional deve ser entendida para sermos capazes de reverter o que estamos fazendo conosco mesmos. Vamos começar a fazê-lo entendendo o nosso mundo pós-verdade.
Reflitam em paz!
Homero Reis
Brasília, outubro/2025

Reflexões sobre Coerência, Relações e Sentido©[1]
Quando utilizo a expressão “esquizofrenia organizacional”, não me refiro a um diagnóstico clínico, mas a uma metáfora poderosa para descrever o desencontro entre o que se proclama e o que se pratica. É um hiato que separa valores anunciados de condutas efetivas; um descompasso que se manifesta tanto em instituições quanto em pessoas. No fundo, é a incoerência como modo de existência: uma vida em que se defende a ética no discurso e se pratica a transgressão nos bastidores, em que se fala de cuidado mas se age com descaso, em que se promete inclusão mas se reproduz exclusão. Essa incoerência, embora muitas vezes silenciosa e imperceptível no início, vai corroendo os alicerces da confiança, minando a credibilidade e desestruturando os vínculos que sustentam toda forma de convivência. Como se isso não bastasse, a esquizofrenia organizacional bloqueia as ações de longo prazo, minando o propósito das instituições. Isso porque constrói uma agenda oculta. Coisas são ditas “nos bastidores” e não sustentadas na vida pública; onde “sinceridade” é confundida com agressividade, questões pessoais disfarçados de “compromissos”, solidariedade encobrindo conflitos de interesse.
A esquizofrenia, em seu conceito técnico, é um transtorno mental, marcado por uma profunda dissociação entre percepção, pensamento, emoção e comportamento. Quem vive com essa condição experimenta uma ruptura na integração da realidade: acredita em coisas que não existem, ideias que não encontram base no mundo objetivo, sente afetos que não se ajustam às circunstâncias. Suas consequências traduzem um empobrecimento da vida emocional e social. A esquizofrenia é antes de tudo uma fragmentação da percepção, da razão, da afetividade e da conduta.
Quando transporto essa conceituação para o universo das organizações, encontro um paralelo inquietante. Vejo instituições que, como sujeitos em sofrimento psíquico, vivem uma cisão interna entre o que percebem, dizem, o que sentem e o que fazem. O discurso institucional, como um delírio socialmente aceito, anuncia valores elevados: ética, sustentabilidade, inclusão, bem-estar. Mas a prática cotidiana revela outra realidade, muitas vezes contraditória: ciúmes, invejas, comportamento “bate-assopra”, exploração de pessoas, descaso ambiental, exclusão velada, sobrecarga de trabalho. É como se a organização tivesse suas próprias alucinações, vendo-se como algo que não é, projetando uma imagem que não se sustenta na experiência real de quem a habita.
Nesse sentido, a esquizofrenia organizacional não é apenas incoerência. É uma ruptura do vínculo entre palavra e gesto, entre intenção e ação, entre identidade proclamada e vida concreta. Tal como no indivíduo em sofrimento, a organização perde a unidade de seu “eu” coletivo.
Costumo dizer que essa esquizofrenia é como uma rachadura em uma grande parede. No começo, quase invisível, não incomoda. Mas, com o tempo, se amplia, e toda a estrutura começa a se fragilizar. Uma organização pode continuar erguida por algum tempo, sustentada por aparências, slogans ou marketing, mas inevitavelmente essa rachadura se tornará visível e colocará tudo em risco. O problema não é apenas institucional; ele se infiltra nas relações entre as pessoas que compõem a organização. Cada líder ou colaborador, cada cliente, cada fornecedor sente, mesmo que inconscientemente, o peso da incoerência.
Tenho acompanhado organizações que falam de resultados e futuros com entusiasmo em seus relatórios anuais, mas cujas práticas diárias revelam desperdício, poluição e desordem na gestão. Outras que proclamam a diversidade como bandeira, mas mantêm em seus conselhos e diretorias apenas perfis homogêneos, fechados à diferença. Propósitos louváveis e práticas corrosivas. Vejo empresas que se dizem defensoras da ética, mas convivem naturalmente com pequenas corrupções cotidianas, justificadas em nome da sobrevivência do negócio. Também encontro instituições que defendem publicamente o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, mas que esperam que seus colaboradores se sacrifiquem em jornadas intermináveis, respondendo e-mails de madrugada ou abrindo mão de finais de semana.
O curioso é que muitas vezes essa incoerência não nasce da má-fé, mas de um conjunto de concessões aparentemente inocentes. Surge quando se diz: “vamos abrir uma exceção só desta vez”, “todos fazem assim, não podemos ficar para trás”, “precisamos bater a meta a qualquer custo”. Essa repetição de pequenas justificativas acaba criando uma cultura em que o discurso e a prática se divorciam. O resultado é uma vida organizacional esquizofrênica: proclama-se um valor para fora, pratica-se outro para dentro. Mas o pior da esquizofrenia organizacional é a dificuldade das pessoas de conversarem amigavelmente sobre as “coisas que discorrem”. Tudo acaba sendo um grande “ringue” de exercício do poder, tentativa de manipulação, ameaças veladas.
As consequências são devastadoras. A confiança se desfaz, e sem confiança não há vínculo que sobreviva. A motivação se dilui, porque ninguém se sente mobilizado por discursos vazios. Os conflitos internos aumentam, porque os valores deixam de ser referência compartilhada e passam a ser apenas retórica. A reputação, que leva anos para ser construída, pode ser destruída rapidamente quando incoerências vêm à tona. Mas talvez a consequência mais dolorosa seja a perda de sentido: quando uma pessoa ou organização deixa de alinhar discurso e prática, perde também a razão pela qual existe, porque os valores deixam de ser bússola e se tornam apenas enfeite.
A origem dessa esquizofrenia é multifacetada. Na maior parte das vezes ela nasce da liderança. Um líder incoerente, que não encarna os valores que proclama, cria descrédito em cascata. Mas também pode nascer de falhas de comunicação, quando mensagens se perdem e a prática vai em direção oposta ao discurso. Outras vezes é fruto do excesso de foco em resultados, em que o número vale mais que a dignidade. Há também a cultura da aparência, que prioriza a imagem externa e descuida da prática interna, criando um teatro de valores que nunca se tornam realidade. Em muitos contextos, a causa é ainda mais sutil: o medo do conflito. As pessoas percebem incoerências, mas calam-se, receosas de desagradar ou de colocar em risco sua posição. O silêncio, nesse caso, se torna cúmplice da fragmentação. Mas também há o caso dos “ultra comprometidos”; ou seja, pessoas que se julgam detentores das “verdades do negócio” e, em nome disso, perdem a elegância e o trato cortes com os demais.
Superar a esquizofrenia organizacional exige coragem e humildade. Coragem para enfrentar-se a si mesmo em um processo de autoconhecimento, como também para enfrentar dilemas éticos e para recusar atalhos convenientes que traem os valores fundamentais. Humildade para admitir erros, assumir vulnerabilidades e abrir espaço para conversas sinceras. A coerência não se constrói com discursos apenas, mas com gestos cotidianos, às vezes simples, mas sempre consistentes. Um pedido de desculpas sincero pode reconstruir mais confiança do que uma campanha de marketing milionária. Uma decisão difícil, tomada em nome de um valor ético, pode inspirar mais lealdade do que qualquer incentivo financeiro. A competência de atuar em grupo, buscando o consenso, vale mais do que a arbitrariedade de uma ação isolada, ainda que legítima. Entendendo que às vezes “posso fazer, mas não devo”. Esse discernimento nos conduz à saúde organizacional.
Nesse ponto, percebo como a Inteligência Relacional se apresenta como um verdadeiro antídoto contra a esquizofrenia. Ela nos lembra que o valor de nossas ações não está apenas no que pretendemos, mas no que o outro percebe, sente e experimenta em contato conosco. Não refere a como atuo na minha “boa vontade”, mas como o outro percebe isso e como o “meu modo de ser” impacta os outros. Somos responsáveis não apenas pelo que dizemos, mas também pelo efeito que causamos. Isso significa que não basta ter boas intenções: é preciso alinhar o discurso às práticas de forma que o outro possa experimentar a coerência em cada gesto.
A coerência, nesse sentido, é mais que uma virtude: é a garantia de segurança relacional. Quando ajo em consonância com aquilo que proclamo, ofereço ao outro um espaço previsível e confiável. A confiança nasce dessa previsibilidade. A incoerência, ao contrário, gera incerteza, porque nunca se sabe qual versão da organização “está funcionando”: a do discurso ou a da prática. E a incerteza é corrosiva para qualquer vínculo.
A vida me mostrou que a coerência não significa perfeição. Significa autenticidade. Implica mostrar-se vulnerável, assumir limites, pedir desculpas quando necessário e entender que é na qualidade das relações que construímos o futuro. É justamente na vulnerabilidade que a humanidade se manifesta, e isso não fragiliza os vínculos; pelo contrário, fortalece-os. Quando um líder reconhece que errou e se dispõe a corrigir o rumo, inspira mais confiança do que quando julga estar sempre certo.
As aplicações práticas dessa reflexão são inúmeras. No campo da convivência humana corporativa, coerência significa transformar o discurso de cuidado em políticas concretas de bem-estar. No marketing, significa que as promessas feitas devem corresponder à experiência entregue, sob pena de transformar as relações em engodos. Na governança, significa alinhar relatórios de desempenho e sustentabilidade às práticas diárias, evitando o risco da “maquiagem verde”. De fato, refere-se à prática de uma empresa ou instituição que divulga(interna ou externamente) uma imagem de sustentabilidade, responsabilidade e coerência que não correspondem às suas ações reais (internas ou externas). Ou seja, usa-se um discurso ou marketing apenas para melhorar a reputação, sem mudanças consistentes na suas ações cotidianas. Na educação corporativa, significa ensinar que ética e coerência não são acessórios, mas fundamentos. Até mesmo nas relações familiares, coerência significa viver aquilo que se ensina, para que os filhos aprendam mais com o exemplo do que com as palavras. Para a liderança, significa também ser exemplo de fato.
Percebo que a coerência é um processo “terapêutico” contínuo contra a esquizofrenia organizacional, e nunca um estado acabado. Ela nasce do autocuidado, porque não posso ser coerente se vivo em contradição comigo mesmo. Ela se alimenta da escuta ativa, porque é ouvindo o outro que percebo minhas incoerências. Ela cresce na responsabilidade compartilhada, porque a cultura de uma organização não é obra apenas da liderança, mas de todos. E ela se consolida na coragem ética, quando assumimos a decisão de permanecer fiéis aos nossos valores, mesmo quando isso custa caro.
Gosto de pensar na esquizofrenia organizacional como um espelho incômodo. Ela nos mostra nossas contradições, expõe nossas feridas, mas também nos convida à transformação. Onde há incoerência, há possibilidade de aprendizado. Onde há fragmentação, pode nascer reconciliação. Cada contradição é um chamado à coerência, cada falha é um convite à responsabilidade. O risco é real, mas a oportunidade também é.
No fim, acredito que a coerência é o maior patrimônio que uma pessoa ou organização pode possuir. Não se conquista de uma vez por todas, mas se cultiva em pequenas escolhas diárias. É ela que sustenta reputações, que fortalece vínculos e que dá sentido ao trabalho. Quando penso no legado que desejo deixar, não me interessa ser lembrado pelas palavras bonitas que escrevi ou pronunciei, mas pela coerência entre o que disse e o que pratiquei. Porque, no fundo, é isso que permanece: a confiança que inspirei, os vínculos que construí, o sentido que ajudei a semear.
E se a esquizofrenia organizacional é um risco constante, ela também é um chamado à vigilância permanente. Cada gesto incoerente é um lembrete de que precisamos ajustar o rumo. Cada contradição percebida é uma oportunidade de recomeço. Ser coerente é um exercício de humanidade, uma escolha diária de alinhar discurso e prática, palavra e gesto, valor e conduta. É nesse alinhamento que se constrói a verdadeira grandeza das pessoas e das instituições.
Reflitam em paz!
Homero Reis
Brasília,outubro/2025

Da Violência à Paz
by Homero Reis©
O Cálice e a Espada (Riane Eisler)[1], é um livro essencial. A partir de uma pesquisa longitudinal de dez anos, o que ela nos oferece não é apenas uma interpretação da história humana, mas uma proposta para o porvir. Lê-lo fez-me sentir como se tivesse em mãos, duas chaves simbólicas. Uma abre a porta da violência que atravessa nossa história; a outra abre a possibilidade de um futuro tecido pela paz.
Ela nos desafia a reconhecer que a forma como estruturamos a vida em sociedade não é a única possível. Somos filhos de escolhas, e podemos escolher de novo. De fato, como gosto de dizer, “o futuro não existe como tal. Somos frutos de nossas escolhas”.
A pergunta desafiadora que me atravessa ao ler Eisler é simples e poderosa: existiram sociedades pacíficas em nossa história? Se a resposta for “sim”, então a violência que naturalizamos como destino é evitável. Ela é apenas uma narrativa dominante. E se houve outras narrativas de parceria, cuidado e respeito, então nós podemos, hoje, recontar a nossa história e reescrevê-la no presente a partir de outras perspectivas.
O que lhes quero trazer nesse texto é minha visão e algumas reflexões sobre o trabalho de Eisler.
A metáfora central é luminosa. O cálice simboliza culturas matrísticas, voltadas ao acolhimento, à nutrição, à vida que se renovam no ventre e no vínculo. É um recipiente sagrado que guarda e compartilha; é a taça que une, não a lâmina que separa. Em contrapartida, a espada representa as culturas patriarcais, fundadas na violência, na guerra e na exploração. A espada corta, fere, divide. É o símbolo da dominação que sustenta a crença de que só pela força se constrói um mundo melhor.
Durante trinta mil anos, as sociedades patriarcais nos ensinaram que a guerra e a exploração eram os motores do progresso. Esse conceito nasce do discurso de que a violência pode ser legitimada em macro ou micro escala. É a ideia do mais forte contra o mais fraco, do “olho por olho e do dente por dente”. A lógica é simples e brutal: se não posso explorar, eu guerreio para conquistar. E assim consolidamos a ideia de que dominar é a única forma legítima de nos relacionarmos. Mas Eisler nos lembra: isso não é destino, é escolha. E escolhas podem ser revistas.
O nascimento das perguntas humanas
Se voltarmos à pré-história, percebemos que a narrativa hostórico-social nasce de três perguntas fundantes: De onde viemos? O que estamos fazendo aqui? Para onde vamos?
Essas questões ecoam desde as pinturas rupestres até as filosofias contemporâneas. Não temos respostas definitivas. O que temos são narrativas, crenças, mitos. E esses mitos moldam a forma como nos relacionamos.
O fato incontornável que as primeiras sociedades puderam observar era simples: todos nós viemos da mulher. O vínculo entre ato sexual e gravidez era invisível ao olhar imediato. O tempo entre o coito e os sinais da gestação era longo demais para ser percebido. Por isso, os povos primitivos só podiam concluir uma coisa: a vida nasce da mulher, assim como todo animal nasce de sua mãe. Mas, como não era visível a relação entre coito e gravidez, as comunidades primitivas acreditavam na ideia de que a fecundação era um “ato dos deuses”, e, portanto, a mulher era o caminho pelo qual a divindade entrava na história humana. Tanto é que as narrativas das concepções divinas são comuns na história. As mais conhecidas são: o nascimento de Hércules, filho de Zeus com a mortal Alcmena; e o nascimento de Jesus, filho de Jeová com Maria. No entanto, há várias outras histórias semelhantes. Essa percepção fundou uma forma de organização relacional: a cultura matrística, baseada no acolhimento, no cuidado e na integração, tendo por centralidade a figura feminina.
Nessas culturas, havia luta, competição, conflitos, mas não havia a violência como princípio. Divergir não era destruir; disputar não era exterminar. O ventre materno era metáfora de comunidade: nele cabiam todos, sem distinção. Esse modelo ainda existe entre nós. Os jogos olímpicos, por exemplo, são expressões de competição, luta e disputa, mas não de inimizades ou violência.
A transição para a dominação
Com o tempo, a humanidade percebeu o papel masculino na concepção. O esperma passou a ser visto como a semente indispensável da vida. E a narrativa mudou: do ventre da mulher para a “semente” do homem. A sacralidade feminina foi sendo substituída pela supremacia masculina. E com ela nasceram estruturas patriarcais que subjugaram e extinguiram sociedades matrísticas inteiras.
Essa mudança não foi apenas biológica, foi política. A dominação masculina não se impôs pela persuasão, mas pela violência, pela criação de mitos aterrorizantes e pela manipulação da ignorância. Se uma colheita queimava, era porque a divindade masculina exigia submissão. Se uma doença devastava, era punição por não obedecer. Surgiu a figura dos intermediários, sacerdotes que não apenas cuidavam da espiritualidade, mas a usavam para impor medo e controle. Criou-se o inferno como ameaça e a salvação como barganha. A espada substituiu o cálice. O medo passou a reger o vínculo. A relação deixou de ser parceria e tornou-se hierarquia.
Quando penso no que significa viver em uma cultura patriarcal, vejo diante de mim um espelho que, por séculos, refletiu apenas um lado da humanidade. É como se tivéssemos aprendido a caminhar usando apenas uma perna: conseguimos nos mover, mas de forma manquitola, instável, sempre desequilibrada. A cultura patriarcal nos fez acreditar que a força, a dominação e a hierarquia eram os únicos instrumentos capazes de sustentar a vida em sociedade.
Essa cultura se estrutura em dois eixos principais: a guerra e a exploração. Se não é possível explorar, guerreia-se para conquistar e explorar depois. Ao longo da história, povos foram dominados, riquezas expropriadas, culturas inteiras sufocadas por esse modelo. A espada se tornou metáfora e prática: ela corta, divide, subjuga. Aprendemos a acreditar que sem espada não haveria ordem, progresso, futuro. Daí para o conceito de supremacia do homem, foi fácil. E dessa facilidade para se “legitimar” uma narrativa da “submissão” da mulher foi mais fácil ainda. Com isso “aceitamos” relações tóxicas, comportamentos abusivos. O feminicidio e a violência de gênero estão por todos os lados.
Mas o patriarcado não se limita a campos de batalha ou tratados políticos. Ele se infiltra no cotidiano. Está na maneira como famílias foram organizadas sob o mando do homem, no modo como religiões ergueram deuses masculinos guerreiros, na ideia de que obediência é mais importante que diálogo. Está na crença de que a violência é inevitável e até necessária. Crescemos naturalizando isso, como se fosse a ordem das coisas.
A cultura patriarcal, no fundo, é uma narrativa de poder. É a manipulação da ignorância para manter a dominação. Foi assim quando povos inteiros foram convencidos de que um deus vingativo exigia submissão sob pena de castigo e sacríficos. Foi assim quando se construiu o medo do inferno como ferramenta de controle. É assim ainda hoje, quando líderes se apresentam como salvadores da pátria, sustentando-se na lógica da força e da intimidação.
O preço dessa narrativa é alto. Perdemos a capacidade de nos indignar com o absurdo. Aceitamos fome em meio à abundância, exclusão em meio à tecnologia, guerras em meio a tantas alternativas de diálogo. É como se a cultura patriarcal tivesse anestesiado nossa sensibilidade, tornando normal o que deveria nos escandalizar.
O patriarcado nos ensina a ver diferenças como ameaças e não como riquezas. Ele nos faz acreditar que o outro só pode existir sob minha condição: ou se submete, ou é inimigo. A diversidade, que poderia ser um mosaico vivo de possibilidades humanas, é reduzida a fronteiras rígidas. Quem pensa diferente vira adversário; quem é vulnerável vira descartável.
Ao refletir sobre isso, percebo que a cultura patriarcal é como uma lente que distorce o real. Ao invés de enxergar o mundo como uma teia interdependente, ela o apresenta como um campo de batalha. Ao invés de percebermos a vida como dom compartilhado, passamos a vê-la como território a ser conquistado.
Desmontar essa lente não é fácil, porque crescemos dentro dela. Mas é necessário e urgente. Se quisermos um futuro sustentável, justo e humano, precisamos questionar a herança patriarcal que ainda orienta nossas escolhas. Precisamos reaprender a caminhar com as duas pernas: força e cuidado, razão e afeto, masculino e feminino, convivendo sem hierarquia. Só assim, talvez, possamos reencontrar o equilíbrio perdido e devolver à humanidade a capacidade de florescer em parceria, e não em dominação.
A perda da indignação
Eisler nos convida a observar como, nessa transição, perdemos a capacidade de nos indignar. Como explicar Hiroshima e Nagasaki? Como justificar o Holocausto? Que racionalidade pode sustentar tamanha barbárie? A cultura patriarcal, baseada na dominação, naturaliza absurdos e constrói o discurso de que “se queres a paz, prepara-te para a guerra”. O intolerável se torna rotina. Aceitamos a exclusão, a fome, a exploração, como se fossem leis da natureza. E quando perdemos a capacidade de dizer “isso é absurdo”, nos tornamos cúmplices do silêncio que legitima a barbárie.
Rastros da cultura matrística
Quando mergulho no conceito de cultura matrística, percebo que não se trata apenas de uma forma de organizar a sociedade, mas de uma forma de sentir o mundo. É como se o coração fosse colocado no centro da vida comunitária, orientando gestos, decisões e vínculos. A cultura matrística nasce do reconhecimento de que a vida é um dom que brota do ventre e que deve ser cuidado como um tesouro coletivo.
Ao contrário da lógica da imposição, a matriz dessa cultura é o acolhimento. Não o acolhimento condescendente, mas aquele que nasce da certeza de que cada ser tem um lugar legítimo no tecido da vida. É como uma árvore: seus galhos se abrem em direções distintas, mas todos encontram alimento na mesma seiva. Nas comunidades matrísticas, a diferença não era ameaça, mas variedade de cores dentro de um mesmo quadro.
O eixo não estava no poder de submeter, mas no poder de nutrir. Nutrir a vida, os vínculos, a diversidade. Nessa perspectiva, não se precisava de intermediários que ditassem o medo; bastava a experiência cotidiana do cuidado para compreender a espiritualidade. A mãe que amamenta, o grupo que partilha a colheita, os anciãos que transmitem sabedoria: tudo isso formava uma rede de significados que fortalecia o sentido de pertencimento.
É claro que nessas sociedades também havia conflitos e disputas. Mas o conflito não era tratado como sentença de destruição, e sim como ocasião para recompor os laços. Penso nisso como um vaso de cerâmica: quando trinca, não é descartado, é reparado com cuidado. A vida coletiva era vista como esse vaso comum, que precisa ser preservado porque todos bebem dele.
A espiritualidade matrística também reflete esse horizonte. Não haviam deuses distantes, imponentes e punitivos, mas representações do sagrado ligadas à terra, à fertilidade, ao ciclo da vida. O sagrado não era usado para amedrontar, mas para celebrar. A morte não aparecia como condenação, e sim como retorno ao todo. A existência era entendida como círculo, não como linha de chegada.
Minha tradução dessa visão para o presente está gesto de abraçar. O abraço não elimina a diferença de altura, peso, idade ou origem, mas integra as diferenças em um espaço de proximidade. A cultura matrística é esse abraço social: nela cabem as tensões, mas sem expulsar; cabem as divergências, mas sem anular.
No nosso tempo, marcado por tantas urgências, recuperar a inspiração matrística é reconhecer que não há futuro possível sem cooperação. Significa redescobrir que a vida floresce mais quando é partilhada, e que o cuidado é força transformadora, não sinal de fraqueza. É admitir que somos todos viajantes de uma mesma travessia e que, sem confiança mútua, não chegaremos a lugar algum.
A cultura matrística, portanto, não é utopia distante. É memória viva e possibilidade concreta. É um convite para reorganizar nossas relações sob o signo do vínculo e não da hierarquia. Minha filha Thirza Reis usa uma metáfora muito sutil para isso. No seu livro BASTA[2], ela diz que a cultura matrística “é como acender uma lamparina em meio à noite: talvez sua luz não afaste toda a escuridão, mas torna possível enxergar uns aos outros e continuar caminhando juntos”.
Vestígios da cultura matrística ainda sobrevivem. Eisler nos mostra exemplos contemporâneos. As Olimpíadas, por exemplo: competimos, disputamos medalhas, mas não transformamos o outro em inimigo. No fim, atletas se abraçam, reconhecendo-se como parte de uma mesma humanidade. É o espírito do jogo, não da guerra. Outro vestígio é a relação de muitas mães com seus filhos: acolhimento sem distinção, cuidado sem cálculo. Esses são ecos de um modo de ser que insiste em permanecer.
A cultura patriarcal estrutura-se na lógica da dominação. Seu alicerce é a crença de que a força garante ordem e que a hierarquia é necessária para manter a sociedade unida. Guerra e exploração tornam-se instrumentos de progresso, e o outro é visto como ameaça ou recurso a ser controlado. A diversidade é percebida com desconfiança, e a diferença tende a ser anulada ou subjugada. O sagrado assume feições punitivas, legitimando a obediência pelo medo. Nessa lente, a vida é campo de batalha, e a vitória de uns exige a derrota de outros.
Em contraste, a cultura matrística organiza-se pelo cuidado e pela integração. O vínculo é o centro: nutrir, proteger, celebrar e reparar são gestos que mantêm a comunidade viva. O conflito não é sentença de exclusão, mas ocasião para recompor laços. O sagrado é próximo, ligado à fertilidade, à terra, ao ciclo da vida. A diversidade é vista como riqueza, e a morte não é castigo, mas retorno ao todo.
Enquanto o patriarcado corta como espada, o matrístico acolhe como cálice. Um modelo fragmenta, o outro integra. A escolha entre eles revela não apenas estruturas políticas, mas visões de mundo. O que lhes convido a fazer é aprender com ambos e a construir um novo horizonte.
Creio que não precisamos ficar presos entre os extremos da espada patriarcal e do cálice matrístico. Podemos escolher uma terceira via: a cultura da parceria. Nela, não se trata de eliminar a força ou negar o cuidado, mas de integrá-los em uma nova forma de convivência.
A parceria reconhece que a vida é uma teia de interdependências. Cada pessoa é singular, mas essa singularidade ganha sentido quando colocada em relação com os outros. Diferente do patriarcado, não há hierarquia de dominação; diferente do matrístico, não há idealização da harmonia absoluta. O que existe é a construção cotidiana de equilíbrio, feita de respeito, reciprocidade e dignidade compartilhada.
Essa cultura valoriza a educação não violenta, que desperta talentos em vez de padronizar. Valoriza redes de ajuda, que sustentam a vida coletiva com solidariedade e não com exploração. Valoriza a diversidade como fonte de criatividade, e não como ameaça.
A parceria é, acima de tudo, uma escolha. É decidir que a paz não é ausência de conflito, mas presença de vínculos fortes o suficiente para enfrentar tensões sem romper. É o horizonte que nos convida a trocar a lógica do medo pela lógica do cuidado e, assim, escrever um futuro mais humano.
Mas o que significa viver matrísticamente hoje?
Viver matrísticamente não é voltar à pré-história. É atualizar valores de respeito, parceria, cuidado amoroso, sustentabilidade e inclusão. É reconhecer que diferenças não são ameaça, mas riqueza. É trocar a lógica do “ou eu ou você” pela lógica do “eu com você”.
Para isso, proponho três caminhos práticos:
A paz como escolha cotidiana
Eisler insiste: a paz não é política de Estado, é escolha pessoal. Gandhi mostrou que a revolução pode ser não violenta. Jesus escolheu a paz mesmo diante da cruz. A paz não é ausência de conflito, mas decisão de não responder com violência. É como um rio que, diante da pedra, não a quebra, mas a contorna. A água não deixa de ser água; segue fluindo até o mar.
Podemos cultivar essa paz em gestos simples: aprender a conversar sem agressão; reconhecer o outro como legítimo em sua diferença; praticar ajuda não monetizada, baseada na necessidade e não no mérito; escolher não se deixar contaminar pela lógica da violência.
A convivência pacífica nasce quando descubro que ninguém pode me agredir sem meu consentimento interior. Posso rejeitar a violência com coração aberto, como quem segura a espada do outro e a transforma em arado.
O desafio do nosso tempo
Vivemos um século de paradoxos. De um lado, temos tecnologia que nos conecta instantaneamente; de outro, seguimos isolados em bolhas de intolerância. Produzimos alimento para todos, mas aceitamos a fome de milhões. Construímos armas capazes de destruir o planeta, mas não conseguimos desarmar o coração. É como se tivéssemos avançado no poder de multiplicar, mas regredido na sabedoria de compartilhar.
A cultura patriarcal nos ensinou a confundir força com grandeza, dominação com ordem, medo com obediência. O desafio agora é reaprender outra gramática: a da parceria, da ternura, da reciprocidade. Eisler chama isso de “cultura da parceria”.
Eu gosto de pensar como uma música em que cada instrumento é diferente, mas juntos criam harmonia. A diversidade não ameaça, enriquece.
Um fecho reflexivo
Por isso tudo, quero enfatizar o que estou propondo. Quando me aproximo do pensamento de Riane Eisler, encontro a chave que abre novos horizontes para compreender a vida em sociedade e justificar o que creio e defendo: o conceito de parceria. Não de uma parceria como um arranjo estratégico ou como um contrato entre partes que buscam benefícios mútuos. Falo de algo mais profundo, quase ontológico: uma maneira de organizar a vida que se opõe radicalmente ao modelo de dominação.
Por milhares de anos, fomos ensinados a acreditar na violência, na hierarquia e no controle como inevitáveis. Herdamos a lógica da espada: quem pode mais, manda; quem não pode (ou tem juízo), obedece. Essa visão estruturou nossas instituições, nossas economias e até nossas famílias. Mas quero crer que existe outro caminho: o caminho da cultura matrística, do cálice, que simboliza a nutrição, o cuidado e a partilha. Nesse contexto o conceito de parceria nasce exatamente na contra cultura, nos mostrando que não precisamos escolher entre ser dominadores ou dominados, podemos escolher ser parceiros.
Parceria, para mim, significa reconhecer que a vida é uma rede interdependente. É entender que a minha dignidade está ligada à dignidade do outro, que o meu florescimento só se cumpre quando o outro também floresce. É como uma orquestra: cada instrumento é diferente, com seu timbre e sua potência, mas só juntos produzem harmonia. Quando um tenta se impor sobre os demais, o resultado é ruído. A parceria é a música que só existe quando há escuta, reciprocidade e cuidado.
Ao longo da história, as culturas matrísticas viveram sob esse paradigma da parceria. Não eram sociedades perfeitas, mas estruturavam-se em torno de valores de respeito, inclusão e acolhimento. Não se tratava de negar conflitos, mas de resolvê-los sem violência como princípio. Essa herança nos lembra que o modelo da dominação não é natural nem inevitável: é apenas uma escolha histórica.
Trazer o conceito de parceria para os dias de hoje é um desafio urgente. Em um mundo que ainda insiste em medir valor pelo poder de dominar, falar de parceria soa quase revolucionário. É dizer que a verdadeira grandeza não está em impor, mas em compartilhar; não em vencer, mas em conviver. É afirmar que paz não é ausência de conflito, mas a ausência de confronto e na escolha consciente de viver sem violência.
Na prática, parceria se traduz em pequenas e grandes ações: educar de forma não violenta, construir redes de ajuda, respeitar as diferenças, aprender a conversar sem agredir. É decidir, todos os dias, que a vida vale mais quando é partilhada. É optar pelo cálice em vez da espada.
No fundo, parceria é um ato de fé: fé de que a humanidade pode aprender a se reconhecer não como inimigos em guerra, mas como companheiros de jornada. E é também um ato de coragem: coragem de desarmar a mão e abrir o coração. A realidade atual de nossa história é um alerta mais que urgente para que comecemos essa travessia. Eu aceito o convite, porque acredito que o futuro só será possível se for um futuro de parceria.
O cálice e a espada continuam diante de nós. Podemos escolher qual símbolo guiará nossas relações. A espada é rápida, cortante, sedutora. O cálice exige paciência, cuidado, tempo. A espada promete vitória, mas deixa rastros de sangue. O cálice não promete domínio, mas oferece comunhão. Entre cortar e nutrir, entre dividir e integrar, está a encruzilhada da humanidade.
A história nos mostrou o poder destrutivo da espada. Talvez seja hora de experimentar a sabedoria do cálice. Se o mundo for uma mesa, a espada a corta em pedaços; o cálice a reúne em torno do vinho partilhado. Se o mundo for um corpo, a espada o fere; o cálice o cura. Se o mundo for uma canção, a espada silencia; o cálice canta.
Escolher o cálice é escolher a vida. É olhar para o outro não como ameaça, mas como parte da mesma travessia. É aceitar que não somos donos do futuro, mas guardiões da possibilidade de futuro. É abrir espaço para que a próxima geração encontre não ruínas, mas sementes.
Ao trocar a lâmina pelo gesto, o medo pelo cuidado, a dominação pela parceria. Que sejamos capazes de transformar a violência em memória e a paz em prática. Que o cálice volte a ocupar nossas mãos, não como nostalgia de um passado perdido, mas como profecia de um futuro ainda possível.
Reflitam em paz!
Homero Reis
Brasília, outubro/2025
[1] Riane Tennenhaus Eisler (Viena 1931/xx) sobrevivente do nazismo, é uma acadêmica austríaca, historiadora cultural, escritora e ativista social.
É presidente do centro para “Estudos sobre Parceria”, na Califórnia/USA.
[2] REIS, Thirza; BASTA; Ed. Literare Books, SP/SP, 2025 – thirzar@gmail.com

Sempre que penso sobre a força dos relacionamentos humanos, volto ao poder de uma atitude aparentemente simples, mas profundamente transformadora: a escuta ativa. Escutar o outro é mais do que captar palavras; é entrar em sintonia com sua experiência, acolher suas emoções, perceber seus silêncios. É um gesto que, na superfície, pode parecer óbvio, mas que, em sua profundidade, revela-se como um dos pilares da convivência ética, da inteligência relacional e da gestão de vínculos duradouros.
Falo na primeira pessoa porque esse tema não é teórico, é visceral. Tenho experimentado, em minha vida e em minha prática profissional, os efeitos da escuta ativa como ferramenta de transformação individual e coletiva. Sinto que, quando escuto ativamente, eu não apenas compreendo o outro; eu me deixo tocar por ele. Isso me lembra Martin Buber, filósofo do diálogo, que dizia que o encontro autêntico se dá quando nos dispomos ao “Eu-Tu”, e não ao “Eu-Isso”. Na escuta ativa, coloco o outro no centro da relação, não como objeto de análise, mas como sujeito de dignidade.
A psicologia humanista, especialmente na obra de Carl Rogers, nos lembra que a escuta ativa é condição essencial para que o outro possa florescer. Rogers falava da “consideração positiva incondicional” como abertura para que o outro se revele sem medo de julgamento. Eu me identifico profundamente com isso. Quando escuto ativamente, sinto que ofereço ao outro uma espécie de solo fértil, onde sua palavra pode brotar sem ser arrancada ou sufocada. Por outro lado, quando percebo que alguém é capaz de escutar o outro, as distâncias se encurtam, o diálogo floresce, as soluções são encontradas, os acordos são feitos e os resultados desejados aparecem com mais vigor e perenidade.
Escutar não é apenas de uma técnica de comunicação. A escuta ativa é, para mim, uma postura existencial. É decidir estar presente no aqui e agora, com atenção plena, com empatia e respeito. É a antítese do automatismo que marca tantas conversas cotidianas, onde falamos mais para responder do que para compreender.
O filósofo Hans-Georg Gadamer, em sua hermenêutica, dizia que compreender é sempre um processo de fusão de horizontes. Essa fusão só acontece se eu estiver disposto a sair de meu próprio horizonte para me abrir ao do outro. A escuta ativa é justamente esse movimento de deslocamento: eu amplio meus limites para que o horizonte do outro encontre espaço em mim.
Muitas vezes, penso que escutar ativamente é como abrir as janelas de uma casa que há muito tempo está fechada. O ar novo entra, a luz se espalha, e eu descubro que havia cantos esquecidos. Assim também é na relação: a escuta areja, renova, expande.
Mas, por que temos tanta dificuldade em escutar o outro ou os outros? Escutar os outros deveria ser um gesto natural, mas na prática é um dos atos mais difíceis que realizamos. Muitas vezes carregamos conosco a ilusão de que estamos escutando, quando na verdade apenas esperamos a pausa alheia para introduzir a nossa própria fala. Esse comportamento nasce de diferentes causas. Uma delas é o ego inflado, que não aceita ser deslocado do centro da cena. O desejo de protagonismo nos leva a disputar espaço em cada conversa, como se o diálogo fosse uma arena em que importa mais vencer do que compreender.
Há também a influência da ansiedade e da pressa que marcam nossa época. Vivemos em um ritmo que não tolera o silêncio e que exige respostas rápidas. Escutar, no entanto, exige tempo, paciência e disposição para permanecer diante da palavra do outro sem antecipar conclusões. Muitas vezes a pressa nos leva a interromper frases, a completar pensamentos alheios, a reduzir a complexidade do que está sendo dito apenas para que possamos voltar a falar.
Outro fator relevante é a ausência de uma cultura de escuta. Desde a infância somos ensinados a falar, argumentar, defender ideias, apresentar trabalhos. A oratória é valorizada, mas a escuta raramente é cultivada como habilidade essencial. Crescemos em ambientes em que escutar não é sinal de maturidade, mas de passividade, como se o silêncio fosse sinônimo de submissão. Assim, não aprendemos a sustentar com dignidade o lugar de receptores da palavra alheia.
Há ainda o medo de se deixar afetar. Escutar verdadeiramente é perigoso, porque nos coloca diante da dor, da diferença e da vulnerabilidade do outro. Quem escuta com profundidade pode ser transformado, pode ter de rever certezas, pode perceber fissuras em suas próprias convicções. Muitos evitam a escuta justamente para não enfrentar esse espelho. É mais seguro manter-se na bolha das próprias opiniões do que permitir que a alteridade nos desestabilize.
Além disso, cada um carrega consigo uma multidão de ruídos internos. Preocupações, preconceitos, julgamentos e ansiedades funcionam como filtros que distorcem ou abafam o que o outro diz. Mesmo presentes fisicamente em uma conversa, às vezes estamos ausentes por dentro, mergulhados em nossas vozes internas. Essa sobreposição de pensamentos nos impede de receber plenamente a mensagem alheia.
O contexto também interfere. Em ambientes hierárquicos ou tóxicos, escutar é visto como fraqueza. Quem detém poder sente que precisa falar para manter sua autoridade, enquanto quem ocupa posições subordinadas acredita que não será escutado de qualquer forma. A estrutura da organização inibe a prática da escuta e reforça a lógica do monólogo.
As consequências dessa dificuldade são muitas e profundas. A primeira delas é o empobrecimento das relações. Sem escuta, os vínculos se tornam superficiais, reduzidos a trocas utilitárias. Pessoas convivem lado a lado, mas não se encontram de verdade. Cada uma vive em seu universo particular, sem ponte com o mundo interno do outro.
Outra consequência frequente é o aumento dos conflitos. Muitas divergências não nascem de grandes diferenças, mas de pequenos mal-entendidos que poderiam ser evitados se houvesse uma escuta atenta. Quando não escutamos, interpretamos mal, alimentamos suposições e reforçamos ressentimentos. O diálogo se rompe e o que poderia ser uma diferença criativa se converte em disputa hostil.
A falta de escuta também gera isolamento emocional. Aquele que nunca é escutado tende a se retrair, a acreditar que sua voz não importa, que sua existência não é reconhecida. Esse silêncio imposto pelo desinteresse do outro é uma das formas mais cruéis de solidão. Ser ignorado mina a autoestima e enfraquece a confiança básica de que valemos a pena.
Nas organizações, a ausência de escuta corrói a confiança. Uma liderança que não escuta sua equipe perde credibilidade. As pessoas deixam de se engajar, escondem problemas, evitam trazer ideias. Em contextos mais amplos, como no espaço social ou político, instituições que não escutam seus públicos tornam-se irrelevantes, incapazes de dialogar com as transformações do tempo.
Também há um impacto direto na capacidade de inovar. Quando não escutamos clientes, colaboradores, familiares ou parceiros, deixamos escapar sinais importantes do ambiente. Ficamos presos em nossas próprias narrativas, repetindo padrões, sem perceber oportunidades de mudança. A escuta ativa, ao contrário, é fonte de adaptação e de criação, porque revela perspectivas que sozinhos jamais alcançaríamos.
Talvez a consequência mais profunda, no entanto, seja o empobrecimento humano. Quem não escuta fecha-se em suas certezas, priva-se da riqueza do outro, perde a oportunidade de aprender e de crescer. A escuta é uma via de mão dupla: ao mesmo tempo em que acolhe, também ensina. Negar-se a escutar é recusar-se à transformação que todo encontro humano traz.
No fundo, a dificuldade em escutar revela o medo de deixar o outro existir em nós. É como se houvesse receio de que a palavra alheia ocupe espaço demais, ou que sua dor se infiltre em nossas frestas. Mas quando não escutamos, pagamos caro: relações frágeis, conflitos recorrentes, isolamento, falta de confiança e estagnação. Aprender a escutar, portanto, não é apenas um gesto de bondade, mas um imperativo de sobrevivência relacional. É nesse exercício que se decide a qualidade das nossas conexões e, em última instância, a qualidade da nossa própria humanidade.
Quando penso em gestão de relacionamentos, seja no âmbito pessoal, profissional ou institucional, vejo que a escuta ativa é um divisor de águas. Empresas, famílias, comunidades, todas são atravessadas pela qualidade de suas conversas. E é pela escuta que construímos confiança.
Confiança não nasce de palavras bonitas, mas da experiência reiterada de ser escutado e respeitado. Quando uma equipe percebe que sua liderança escuta genuinamente, abre-se um campo de reciprocidade. As pessoas sentem-se autorizadas a trazer suas inquietações, suas ideias, suas vulnerabilidades. E é nesse espaço que surge a inovação, a coesão e a corresponsabilidade.
Lembro-me de Anthony Giddens, sociólogo, que fala da reflexividade da vida moderna: vivemos em um mundo onde precisamos constantemente justificar nossas ações e decisões diante dos outros. Nesse contexto, a escuta ativa não é luxo, mas necessidade. Só por meio dela conseguimos sustentar relações transparentes e evitar que a comunicação se torne apenas formalidade vazia.
Na prática da Inteligência Relacional, percebo que escutar é um dos modos mais potentes de cuidar. Escutar não é passividade, é ato ativo de sustentação do vínculo. Quando escuto, assumo responsabilidade compartilhada: reconheço que o outro existe, que tem voz, que sua narrativa é tão legítima quanto a minha. Isso cria um pacto silencioso de dignidade.
A psicologia contemporânea reforça o impacto da escuta ativa no bem-estar emocional. Estudos da psicologia positiva apontam que ser escutado é uma das experiências mais gratificantes que alguém pode ter. O simples ato de narrar uma dificuldade, e perceber que o outro realmente escutou, já diminui a carga de estresse, amplia a resiliência e fortalece a autoestima.
Também na terapia cognitivo-comportamental, percebe-se que a qualidade da escuta do terapeuta é decisiva para que o paciente consiga reestruturar suas crenças. Sem escuta, não há espaço para a reorganização da narrativa pessoal. E mesmo em contextos de mediação de conflitos, a escuta ativa se revela essencial: é quando as partes se sentem ouvidas que se abre a possibilidade de diálogo e resolução.
Na minha vivência, como conselheiro corporativo, mentor e psicanalista, noto como muitas vezes as pessoas não pedem soluções, mas apenas espaço para serem escutadas. A escuta, nesses casos, já é terapêutica. É como se o simples fato de alguém sustentar meu discurso com atenção amorosa já fosse suficiente para que eu me reorganize por dentro.
Penso, por exemplo, em reuniões de trabalho onde alguém propõe algum tema difícil, ou abre uma conversa delicada, traz um tema controverso ou aponta uma dificuldade. Muitas vezes, ele não busca um manual pronto de respostas. Busca reconhecimento. Busca sentir-se visto. Quando escuto sem interromper, sem apressar, percebo que sua própria fala já contém as sementes da solução.
Do ponto de vista filosófico, escutar ativamente é um exercício ético. Emmanuel Lévinas fala da alteridade (qualidade do que é diferente e a capacidade de se colocar no lugar do outro), como fundamento da ética: é o rosto do outro que me convoca à responsabilidade. Escutar é atender a esse chamado. É reconhecer que minha liberdade encontra limite no direito do outro de existir plenamente.
Essa dimensão ética da escuta ativa é crucial na gestão de relacionamentos. Pois gerir não é manipular, é cuidar. Não é impor, é dialogar. Não é apenas conduzir pessoas para metas, mas criar ambientes em que a dignidade seja preservada. E a dignidade começa pelo reconhecimento da voz.
Quando escuto, ergo uma ponte entre o eu e o outro. Uma ponte que não apaga diferenças, mas que as torna fecundas. Escutar é aceitar que a diversidade não é ameaça, mas riqueza. É por isso que digo: a escuta ativa é uma política da convivência inteligente.
Na sociologia, autores como Jürgen Habermas destacam a centralidade da comunicação para a vida democrática. Habermas fala da “ação comunicativa” como horizonte de uma sociedade baseada na razão dialógica. A escuta ativa é a expressão prática desse ideal: sem escuta, não há deliberação democrática, não há comunidade viva, não há coesão social.
Se ampliarmos isso para sistemas complexos (famílias etc.), e organizações corporativas e sociais, percebemos que onde não há escuta de membros, sócios, colaboradores ou clientes, as relações tornam-se frágeis, autorreferenciais, incapazes de se adaptar. Se não há escuta entre os líderes e diretores, a situação fica mais complexa ainda; torna-se “cabo de guerra”, onde os interesses individuais sobrepõem-se às demandas ou necessidades coletivas. Já aquelas que cultivam uma escuta permanente constroem resiliência, porque captam sinais, ajustam rumos e mantêm vínculos de confiança.
Eu vejo que, em tempos de excesso de informação, a escuta ativa se torna estrategicamente necessária. Recebemos e construímos mensagens e estímulos intensos e constantemente, mas nem sempre nos sentimos escutados. Escutar, nesse cenário, é contracultural: é resistir à lógica da pressa, da resposta imediata, da superficialidade.
Na minha trajetória, percebo que a escuta ativa é também um exercício de autoconhecimento. Para escutar o outro, preciso primeiro calar minhas próprias vozes internas. Preciso aquietar meu julgamento, minha ansiedade de resposta, minha ânsia de controle. Escutar é aprender a esperar.
Essa espera, por vezes desconfortável, é também fecunda. Ela me ensina a paciência, a humildade e a coragem de não ter todas as respostas. Aprendo que escutar é um ato de fé: acreditar que o outro tem algo a dizer que pode me enriquecer, mesmo quando não concordo.
Além disso, a escuta ativa me conecta ao sentido da reciprocidade. Quando sou escutado, sinto-me valorizado; e quando escuto, valorizo o outro. É nesse movimento de troca que se edifica a confiança.
Na gestão de equipes ou de grupos, a escuta ativa se traduz em liderança mais humana e eficaz. Líderes que escutam conseguem captar as nuances do ambiente, identificar conflitos latentes, reconhecer talentos ocultos. Mais ainda: líderes que escutam tornam-se referenciais de confiança.
Eu mesmo, em experiências profissionais, já vi equipes e grupos se desestruturarem por ausência de escuta. Palavras ditas em vão, reuniões em que ninguém se sentia escutado, decisões tomadas unilateralmente. O resultado era desmotivação, distanciamento, perda de energia, além de brigas e discussões sem sentido.
Por outro lado, já presenciei transformações impressionantes quando a escuta foi cultivada. Ambientes tensos se tornaram mais leves, rivalidades foram administradas, histórias entendidas, pessoas antes retraídas passaram a contribuir, soluções criativas emergiram do simples fato de alguém ter se sentido escutado.
É curioso notar como a escuta ativa também é motor de inovação. Muitas vezes, pensamos que inovar é apenas criar algo inédito. Mas, na prática, inovar é perceber de modo novo aquilo que já existe. E isso só é possível se escutamos com atenção.
Escutar clientes, escutar diferentes, por exemplo, é fonte inesgotável de insights. Escutar colaboradores revela potenciais ainda não explorados. Escutar parceiros abre portas para colaborações inéditas.
Na era digital, em que tanto se fala de big data e inteligência artificial, acredito que a escuta humana, genuína, continua sendo insubstituível. Pois não há algoritmo que capture o silêncio carregado de sentido, ou o tremor da voz que revela vulnerabilidade.
Desafios da escuta ativa:
Não romantizo a escuta ativa. Sei que ela exige disciplina, presença e, muitas vezes, coragem. Escutar pode ser doloroso, porque o que o outro diz nem sempre é o que eu gostaria de escutar. Pode ser frustrante, porque demanda tempo em um mundo acelerado. Pode ser desafiador, porque me confronta com minhas próprias limitações.
Mas é justamente nesses desafios que reside sua potência. Ao escutar, coloco-me em posição de vulnerabilidade: reconheço que não controlo tudo, que dependo do outro para compreender melhor a realidade. Esse reconhecimento é libertador.
Gosto de pensar a escuta ativa como uma arte. Uma arte relacional, que mistura técnica, sensibilidade e ética. Uma arte que se aprende praticando, errando, recomeçando. Uma arte que nunca se esgota, porque cada encontro é único.
Na prática, escutar ativamente é como afinar um instrumento musical. Preciso ajustar minhas cordas internas (atenção, paciência, empatia), para que a melodia do encontro soe harmônica. E, quando isso acontece, sinto que o relacionamento ganha nova densidade.
Lembro-me de uma situação concreta em que um gestor empresarial enfrentava altos índices de rotatividade em sua equipe. Havia tentado aumentar salários, criar bônus, melhorar a infraestrutura. Nada parecia resolver. Quando nos sentamos para refletir, percebemos que o problema era simples, mas profundo: os colaboradores não se sentiam escutados.
Iniciamos então um processo de encontros de escuta ativa. Em vez de reuniões apenas para repassar tarefas, criamos espaços para que cada voz fosse ouvida. Aos poucos, o clima organizacional mudou. O índice de rotatividade caiu, e os próprios funcionários relataram sentir-se mais motivados.
Outro caso, em contexto comunitário, envolveu um grupo em conflito por diferenças religiosas. A tensão era tão grande que já não havia diálogo. Foi pela escuta ativa, mediada com paciência, que surgiram narrativas comuns: todos, no fundo, desejavam segurança para seus filhos, dignidade em suas vidas e respeito às suas crenças. Essa descoberta partilhada foi possível apenas porque alguém decidiu escutar. Esses exemplos me confirmam: a escuta ativa não é retórica. É prática concreta de transformação.
Vivemos hoje em um ambiente em que a comunicação é acelerada por plataformas digitais. Mas, paradoxalmente, a escuta verdadeira parece cada vez mais rara. Nos aplicativos de mensagem, respondemos sem ler com atenção; nas redes sociais, interagimos apenas com fragmentos.
Acredito que a escuta ativa precisa se reinventar nesse cenário. Precisa incluir pausas, feedbacks mais conscientes, tempos de silêncio mesmo em ambientes virtuais. Quando escrevo uma mensagem e recebo uma resposta que mostra que o outro realmente entendeu, sinto o mesmo alívio que numa conversa presencial.
Na gestão de relacionamentos digitais, a escuta ativa é antídoto contra a superficialidade. É ela que distingue um atendimento robótico de uma relação humanizada.
Para resumir tudo o que disse, eu afirmo: a escuta ativa é um caminho de humanização. É ela que dá corpo ao amor como força criadora, que sustenta o dever como pacto de reciprocidade, que transforma o medo em guardião da vida, que orienta a ira para a defesa da dignidade.
Na gestão de relacionamentos, a escuta ativa é o que impede a fragmentação e favorece a integração. É o que transforma grupos em comunidades, equipes em coletivos criativos, organizações em organismos vivos.
Escutar, no fim das contas, é uma escolha. Uma escolha por estar presente, por reconhecer o outro, por apostar no diálogo. É um ato de fé na palavra e no silêncio, na vulnerabilidade e na força, na singularidade e na interdependência.
Assim, sigo aprendendo a escutar. E cada vez que escuto, renovo minha convicção de que não há inteligência mais poderosa do que a relacional. Pois é ela que nos lembra, sempre, que ninguém se humaniza sozinho.
Pense e reflita sobre isso.
HomeroReis.
Curitiba, PR, setembro/25

Um Olhar Pessoal e Relacional ©[1]
by Homero Reis
Quando penso na obra de Emilio Mira y López, Os Quatro Gigantes da Alma, sinto como se estivesse revisitando um marco fundador da minha própria trajetória. Li esse livro pela primeira vez ainda jovem, presenteado por um mentor que acreditava em mim mais do que eu mesmo acreditava. Naquele momento, não imaginava que aquelas páginas seriam como um farol que, ao longo da vida, iluminariam não apenas minha compreensão da psique humana, mas também o caminho que me levou a desenvolver e compartilhar a noção de Inteligência Relacional.
Mira y López propôs que quatro forças fundamentais habitam nossa alma: medo, ira, dever e amor. Ele os chamou de “gigantes” porque, de fato, governam muito do que somos e fazemos. Não são forças pequenas ou passageiras; são estruturantes. E, como todo gigante, podem ser aliados ou tiranos, dependendo da forma como nos relacionamos com eles.
Com o passar do tempo, percebi que refletir sobre esses quatro gigantes não é apenas um exercício intelectual ou psicológico. É, sobretudo, um convite à vida ética, à construção de relações mais saudáveis e ao florescimento de uma humanidade mais consciente. Compartilho aqui minha leitura pessoal, como se fosse uma conversa íntima sobre cada um desses gigantes e sobre a forma como eles se entrelaçam no coração da experiência humana.
O DEVER: a raiz da responsabilidade compartilhada
Escolho começar pelo dever, talvez porque ele represente para mim a espinha dorsal da convivência humana. Desde cedo, aprendi que a vida em sociedade só é possível quando cultivamos a noção de reciprocidade: cuidar e ser cuidado. O dever, nesse sentido, é a pulsão que nos lembra que não estamos sozinhos no mundo.
Vejo o dever como um pacto silencioso. Ao nascer, somos inseridos numa teia de vínculos e relações que já nos antecede. Recebemos cuidados, proteção, linguagem, cultura. Tudo isso nos impõe uma responsabilidade: retribuir e manter o fio da vida estendido para além de nós. Essa percepção ecoa no mais primitivo senso de tribo ou matilha, quando a sobrevivência dependia da confiança mútua, e reverbera hoje quando se faze necessário a restauração desses princípios.
Mas o dever não é apenas coletivo; ele também é pessoal. Há um dever para comigo mesmo, o dever do autocuidado. Esse ponto me é especialmente caro. Muitas vezes, movido pelo desejo de corresponder às expectativas externas, sobrecarreguei-me, dizendo “sim” quando deveria ter dito “não”, e acabei traindo minha própria dignidade e integridade. Creio que isso ocorreu não apenas comigo, mas é uma “realidade” que escuto de muitos de meus mentorados, clientes e alunos. Quando isso acontece, o dever, que deveria ser uma força de equilíbrio, torna-se um fardo patogênico, gerando culpa, frustração e esgotamento.
O equilíbrio está em compreender que o dever saudável nasce da reciprocidade: cuido de mim e cuido do outro, permitindo que o outro também cuide de si e de mim. Essa é, no fundo, a essência da Inteligência Relacional: reconhecer que a qualidade dos vínculos depende de um equilíbrio dinâmico entre responsabilidades, expectativas e limites.
Quando o dever é vivido com consciência, ele gera autoridade verdadeira. Não aquela autoridade burocrática, baseada apenas em funções, cargos ou títulos, mas a autoridade que brota da coerência entre o que se diz e o que se faz. Nas sociedades antigas, os anciãos eram respeitados não por imposição, mas porque suas vidas testemunhavam sabedoria, ética e cuidado. Essa é a autoridade que ainda precisamos cultivar: a representatividade ética que se constrói a partir do dever vivido de forma íntegra.
O MEDO: o guardião que pode aprisionar
O segundo gigante é o medo. Confesso: ele me fascina. O medo é, ao mesmo tempo, um aliado fundamental e uma ameaça perigosa. Ele nasce em nosso cérebro mais primitivo como um mecanismo de proteção. É o guardião da vida, lembrando-nos de que somos frágeis e que precisamos estar atentos.
Quando criança, aprendi ritos de autoridade ligados ao medo. Lembro-me de ouvir que sandálias viradas poderiam trazer desgraça, que o “homem do saco roubava crianças desobedientes” e que manga com leite “dava nó nas tripas”. Até hoje, por vezes, me percebo endireitando uma sandália sem refletir. Essa memória simples ilustra como o medo pode se infiltrar em nossos hábitos, moldando comportamentos muito além da razão.
Mira y López ensina que o medo tem três raízes: dor, sofrimento e extinção. Fugimos da dor porque desejamos prazer; evitamos o sofrimento porque ansiamos pela paz; e tememos a extinção porque buscamos perpetuar nossa consciência e legado. Nesse ponto, o medo nos conecta a questões existenciais profundas: de onde viemos, para onde vamos, o que estamos fazendo aqui e o que significa morrer.
Mas, a função saudável do medo é também nos proteger, incentivar a prudência, atenção e cuidado. O problema é quando ele se exacerba e dá lugar a fobias, paranoias e paralisias. Quando isso acontece, o medo deixa de ser guardião e se torna carcereiro.
Na minha trajetória, percebi que o medo não tratado costuma se transformar em agressividade e intolerância. É como se a energia que deveria nos proteger fosse mal direcionada e acabasse machucando os outros. Daí a importância de aprender a dialogar com o medo: escutá-lo como professor, não como tirano.
A Inteligência Relacional, nesse contexto, significa perguntar a si mesmo: o que realmente me ameaça? Estou diante de um perigo objetivo ou de uma projeção fantasiosa? Estou reagindo a uma situação presente ou a ecos do passado? Essas perguntas nos ajudam a discernir entre o medo que protege e o medo que aprisiona.
Do ponto de vista relacional, o medo inaugura uma sequência muito clara dentro de nós. Primeiro, ele se manifesta como insegurança uma sensação de vulnerabilidade, de que algo pode nos atingir ou nos expor. Essa insegurança, por sua vez, desperta a necessidade de criar estratégias de defesa e proteção. É um movimento natural, ligado à autopreservação. Porém, quando essas estratégias não são conscientes ou maduras, elas frequentemente assumem a forma de violência, belicosidade e raiva.
Em outras palavras, o que muitas vezes se apresenta como agressividade explícita é, na verdade, a ponta de um iceberg cuja base é o medo não reconhecido. Quando alguém reage de maneira desproporcional em um conflito, levantando a voz, impondo força, esmurrando mesas, quebrando coisas, ou tentando submeter o outro, não está apenas “exercendo poder”: está, na essência, tentando se proteger de uma ameaça que sente real ou imaginada. A violência, nesse sentido, é o grito desesperado de quem não sabe como lidar com a própria fragilidade ou vulnerabilidade. Esse despreparo tem proporcionado inúmeras situações tóxicas e abusivas.
Perceber esse encadeamento é um exercício de lucidez relacional. Quando consigo identificar que, por trás da agressividade de alguém (ou da minha própria), existe medo e insegurança, abro espaço para uma leitura mais compassiva e menos reativa. Deixo de combater o sintoma (a raiva explosiva), e passo a enxergar a causa: o medo que se transformou em carcereiro.
Esse medo “carcereiro” é aquele que aprisiona, que nos mantém reféns de reações automáticas, que nos torna incapazes de construir pontes, que nos tira a elegância e a diplomacia nas relações. Mas existe também o medo “guardião”, que é o medo sábio, que nos alerta e protege sem nos paralisar. Se quero ser inteligente nas minhas relações, preciso aprender a discernir entre esses dois medos. Preciso cultivar práticas de escuta e diálogo que me ajudem, e ajudem o outro, a transformar a violência defensiva em consciência protetora.
Quando o medo é reconhecido e acolhido, ele deixa de ser uma prisão e se torna um aliado. Ele nos lembra de nossos limites, mas também nos convida a avançar com prudência. Assim, o ciclo se inverte: o medo não mais gera insegurança descontrolada, mas inspira cuidado; não mais dispara violência, mas promove proteção; não mais alimenta a raiva, mas sustenta a paz, a cordialidade, o respeito e a serenidade.
A ira, terceiro gigante, é talvez o mais incompreendido de todos. Costumamos associá-la à violência, ao descontrole, às explosões de fúria que destroem relações. Mas, na verdade, como lembra Emilio Mira y López, a ira é uma emoção estruturante, necessária à vida, porque funciona como um alarme vital: ela nos alerta quando nossa dignidade, nossa identidade ou nossa integridade estão sendo ameaçadas. É, portanto, um movimento de preservação, uma força que nos convida ao autocuidado assertivo e à defesa de nossos valores, sem, necessariamente, ferir o outro.
A raiva, por sua vez, é a distorção dessa energia. É a ira que não encontrou vias de expressão saudáveis, acumulando-se até se transformar em ressentimento, explosão ou agressividade cega. Enquanto a ira pode ser um guia para estabelecer limites claros e preservar aquilo que é essencial em nós, a raiva é uma “ira enlatada”: mal elaborada, represada, e que quando extravasa, deixa rastros de violência, toxidade e destruição.
Pense comigo: quando alguém invade nossos limites, desrespeita valores que nos são caros ou ameaça nossa identidade, é natural que surja um impulso de defesa. Esse impulso não é patológico, é humano. A função da ira é justamente essa: sinalizar que algo em nós está em risco.
O problema não está na ira em si, mas em como lidamos com ela. Se reprimida, transforma-se em ressentimento corrosivo. Se mal expressa, explode em agressividade. Ambas as formas adoecem as relações e nos afastam do diálogo. A ira saudável, ao contrário, pode se manifestar como assertividade: a capacidade de dizer o que me incomoda, de colocar limites, de negociar diferenças sem precisar destruir o outro.
Aprendi, ao longo da vida, que a ira precisa ser canalizada em diálogo honesto. Se sou capaz de olhar nos olhos de alguém e dizer: “isto me fere, isto me incomoda, isto invade o meu espaço”, estou cuidando de mim, mas também estou oferecendo ao outro a chance de ajustar sua conduta. Essa é a essência da Inteligência Relacional: transformar a energia da ira em oportunidade de construção, e não de destruição.
Reconhecer a ira como guardiã da dignidade é também reconhecer que o outro tem o mesmo direito. O meu limite não é mais importante que o dele; ambos precisam ser considerados. Isso exige humildade, escuta ativa e disposição para acordos. A paz verdadeira não nasce da ausência de conflitos, nasce da capacidade de atravessá-los com respeito e criatividade.
Imagine dois vizinhos que dividem uma cerca. Um deles decide plantar uma árvore, mas escolhe um ponto que invade o terreno do outro. Aquele que se sente invadido poderia escolher duas rotas: guardar ressentimento e alimentar a raiva, ou explodir em agressividade e cortar a árvore à força. Ambos os caminhos geram conflito e afastamento. Mas se, em vez disso, ele se permite reconhecer sua ira saudável e conversar com o vizinho, dizendo: “Olha, isso me incomoda porque invade meu espaço e minha dignidade. Podemos achar uma solução juntos?”, ele transforma a energia da ira em limite claro e, ao mesmo tempo, em abertura ao diálogo. O que poderia se tornar uma guerra de vizinhos pode se converter em parceria, talvez até no cultivo conjunto da árvore em outro lugar.
Agora, transportemos a ira para o contexto organizacional. Imagine uma equipe em que o gestor constantemente desconsidera as ideias dos colaboradores, cortando-os em reuniões. Em pouco tempo, a dignidade da equipe começa a ser corroída. O primeiro sinal é o silêncio ressentido: as pessoas deixam de contribuir (ira reprimida). O segundo sinal é a hostilidade passiva ou até a sabotagem (ira transformada em raiva). O resultado é um ambiente tóxico, improdutivo e cheio de rupturas.
Mas se um membro da equipe, praticando a ira saudável, decide se posicionar, pode mudar o rumo. Ele diz: “Quando minhas ideias são interrompidas, sinto que meu trabalho não está sendo valorizado. Isso me desmotiva. Gostaria de pedir que possamos nos escutar com mais atenção.” Nesse momento, a ira não gera destruição, mas abre espaço para uma cultura mais respeitosa. O gestor, se tiver abertura, pode rever sua postura. O time, ao enxergar a coragem desse gesto, fortalece seus vínculos. É assim que a ira, quando bem conduzida, protege a dignidade coletiva e se converte em ferramenta de maturidade organizacional.
Por fim, o quarto gigante: o amor. Emilio Mira y López o descreve como a força criadora que liberta o melhor de nós. O amor é a energia que gera vida, que dá sentido à existência, que nos move para além da simples sobrevivência. É uma emoção estruturante, inata, presente em todo ser humano e em todo ser vivo que se organiza em torno da convivência. O amor é o impulso que nos possibilita criar, cuidar, acolher, gerar e regenerar.
Na tradição cristã, encontramos a ideia de que “Deus amou o mundo e o criou”. Em outras tradições, o amor também aparece como princípio criador universal, fundamento do cosmos e da vida. Mas não é preciso recorrer às grandes narrativas religiosas para perceber sua centralidade. O amor se manifesta no cotidiano mais simples: no gesto de um pai que acompanha o sono do filho, na solidariedade anônima que sustenta comunidades inteiras, na arte que dá forma ao invisível, no ofício que transforma o caos em ordem e beleza. O amor é a cola invisível que nos faz humanidade, lembrando-nos de que viver é sempre viver com o outro.
Os gregos distinguiram várias formas de amor: eros, o amor erótico, que desperta o desejo e a potência da vida; philia, o amor fraterno, que nos une pela amizade e pelo pertencimento; ágape, o amor incondicional, que transcende interesses e expectativas; pragma, o amor prático e solidário, que se expressa no cuidado cotidiano; e até o amor egóico, voltado ao autocuidado, ao respeito por si mesmo. Todos esses amores são legítimos e necessários. Compreender essa pluralidade nos liberta da ideia reducionista de que o amor se limita à paixão romântica. Amar é múltiplo, diverso, é a linguagem pela qual expressamos nossa humanidade em diferentes níveis.
Contudo, o amor também traz riscos. Ele pode ser sequestrado pelas nossas carências não elaboradas. Quantas vezes vemos pessoas mergulharem em relações tóxicas, tentando transformar o outro em resposta para vazios que só poderiam ser trabalhados dentro de si? Quantas vezes confundimos amor com dependência, entregando ao outro a chave da nossa autoestima? Quando isso acontece, o amor deixa de ser força criadora e se converte em prisão, alimentando narrativas românticas que mais infantilizam do que amadurecem. O amor, quando confundido com vitimização, perde sua potência transformadora.
Para mim, amar é como abrir a concha que guarda a pérola preciosa. Do lado de fora, a concha pode parecer dura, comum, sem valor. Mas dentro dela, o tempo, a pressão e a delicadeza do processo criaram algo raro e belo. Assim é o amor em nós: exige esforço, vulnerabilidade, coragem para abrir a concha da nossa proteção e permitir que o melhor de nós brilhe. Amar é, portanto, oferecer ao mundo a melhor versão de mim mesmo, sabendo que sou único e que essa singularidade pode ser um presente para a humanidade.
No campo da Inteligência Relacional, o amor é o terreno fértil onde todas as demais forças encontram equilíbrio. Ele é o solo onde o medo encontra coragem para se transformar em prudência, e não em paralisia; onde a ira encontra a palavra justa e o diálogo, em vez da violência; onde o dever encontra reciprocidade, deixando de ser peso e tornando-se compromisso mútuo. O amor é o princípio integrador, a energia que torna possível a convivência saudável, mesmo diante das diferenças e dos conflitos inevitáveis.
Amar, nesse sentido, não é apenas sentir. É construir. É sustentar vínculos que resistem ao tempo e às crises. É escolher, diariamente, colocar no mundo algo que promova vida, beleza e justiça. O amor é o gesto silencioso que consola, é o perdão que liberta, é a palavra que abre caminhos. Amar é também a coragem de cuidar de si mesmo com dignidade, porque só quem se ama pode amar verdadeiramente o outro.
Assim, o amor se revela como o gigante que dá sentido aos demais gigantes. Sem ele, o medo se torna tirano, a ira se transforma em destruição e o dever vira opressão. Com ele, porém, os quatro gigantes se sentam à mesma mesa e nos convidam a viver com plenitude, responsabilidade e encantamento.
Imagine uma família reunida em torno da mesa de jantar. Um pequeno conflito surge: o filho adolescente chega atrasado e os pais, preocupados, cobram explicações. Nesse momento, aparece o medo dos pais de perderem o controle, e o medo do filho de não ser compreendido. Logo depois, a ira desponta. Os pais levantam o tom, o filho responde de forma ríspida, cada um tentando proteger a própria dignidade. O dever também se manifesta: os pais sentem a obrigação de “educar” e impor limites, enquanto o filho reivindica sua autonomia e espera ser escutado e respeitado.
Se a conversa permanece nesse nível, provavelmente terminará em portas batidas, ressentimento e distância. Mas então entra em cena o amor, não como um discurso, mas como presença. A mãe respira fundo e, em vez de insistir na cobrança, olha nos olhos do filho e diz (p.ex.): “O que mais importa agora é saber se você está bem.” Esse gesto de amor muda o tom da conversa. O medo se acalma, a ira perde a força, o dever se transforma em cuidado e reciprocidade.
O conflito não desaparece magicamente, mas o amor reorganiza os outros três gigantes: o medo deixa de aprisionar e vira prudência; a ira se converte em assertividade, sem violência; o dever se torna vínculo e não fardo. O jantar prossegue com diálogo, não com silêncio hostil.
Essa cena cotidiana mostra como o amor não elimina o medo, a ira ou o dever, mas os coloca em harmonia criadora. É o amor que impede os gigantes de brigarem entre si e os convida a trabalhar em favor da vida e da convivência.
Pense agora em uma reunião de diretoria em uma empresa familiar. Os números do trimestre vieram abaixo do esperado e o clima está pesado. O medo aparece primeiro: os sócios temem perdas financeiras, demissões, falência. Em seguida, surge a ira: acusações veladas entre pessoas e setores: o comercial culpa a produção; a produção culpa o marketing; o marketing culpa a comunicação e todos se defendem. O dever também está presente, mas distorcido: cada um insiste em mostrar que “cumpriu a sua parte”, tentando se eximir de responsabilidade maior e acusando o outro.
Se a reunião parar aí, o resultado será divisão, ressentimento e decisões precipitadas. Mas então, um dos líderes decide trazer à mesa uma outra perspectiva. Em vez de reforçar o clima de cobrança, ele afirma: “Estamos todos do mesmo lado. Se chegamos até aqui, foi porque cada um de nós construiu essa empresa com esforço e dedicação. Agora, o que precisamos não é apontar culpados, mas unir forças para corrigir erros e encontrar soluções.”
Esse gesto nasce do amor organizacional, não no sentido romântico, mas como força criadora de vínculos. Quando o amor se manifesta, o medo se reorganiza em cautela estratégica (em vez de paralisar); a ira se transforma em energia de defesa da dignidade coletiva (em vez de agressividade pessoal); e o dever se traduz em compromisso compartilhado (em vez de cobrança unilateral).
A partir desse ponto, a reunião muda de tom. Surge abertura para escuta, cooperação entre áreas, clareza na divisão de responsabilidades. O conflito não desaparece, mas é canalizado para o crescimento. O amor, enquanto gigante organizador, realinha os outros três e torna possível que a empresa responda ao desafio de forma madura, sem sacrificar a qualidade das relações internas.
A PERSONA UTÓPICA: integração dos quatro gigantes
Mira y López cunhou uma expressão que me encanta: persona utópica. Para ele, o equilíbrio entre medo, ira, dever e amor gera um ser humano ideal, não perfeito no sentido de isento de falhas, mas inteiro, integrado.
A persona utópica é o ponto de interseção desses quatro gigantes. É quando o medo me ensina prudência sem me aprisionar; quando a ira me protege sem me tornar violento; quando o dever me responsabiliza sem me esmagar; e quando o amor me impulsiona sem me cegar.
Esse equilíbrio é dinâmico, não estático. É como dançar com os gigantes: ora me aproximo mais de um, ora de outro, mas sem perder a harmonia do conjunto. E aqui encontro novamente a essência da Inteligência Relacional: viver em equilíbrio comigo mesmo e com os outros, sabendo que toda relação é um espaço de aprendizado e co-criação.
A persona utópica não é uma fantasia inalcançável. É um horizonte de sentido, uma bússola que orienta nossas escolhas. Cada vez que ajo com consciência, equilíbrio e afeto, aproximo-me desse ideal.
Gosto de imaginar os quatro gigantes sentados à mesa comigo. O medo, que me alerta; a ira, que me protege; o dever, que me responsabiliza; e o amor, que me inspira. Não quero expulsá-los nem transformá-los em inimigos. Quero dialogar com cada um, aprender com cada um, integrar sua força na minha jornada.
Se há algo que Mira y López me ensinou e que procuro compartilhar nas minhas reflexões e práticas de vida, é que a saúde psíquica, relacional e espiritual depende dessa integração. Não somos plenos quando negamos um gigante em favor dos outros. Somos plenos quando reconhecemos que todos eles fazem parte de nós.
Assim, sigo minha caminhada. Busco viver o dever com coerência, acolher o medo como professor, transformar a ira em assertividade e deixar o amor criar. Sei que falho, que tropeço, que às vezes me perco. Mas sei também que, ao retomar o diálogo com esses gigantes, reencontro o caminho de uma vida com sentido, utilidade e paz.
E é nesse ponto que percebo: a obra de Mira y López não é apenas uma teoria psicológica. É um convite ético, um guia existencial. É uma provocação para que nos tornemos pessoas mais conscientes, mais relacionais, mais humanas.
Talvez seja essa a maior lição: viver é aprender a dançar com os gigantes da alma, até que, pouco a pouco, eles deixem de ser fardos e se tornem companheiros de jornada.
Reflitam em paz!
Homero Reis
[1] Proibida a reprodução desse texto no todo ou em parte, por qualquer meio sem a prévia autorização formal do autor.
Brasília, setembro, 2025.

Tenho observado em minhas conversas com executivos e nos processos de coaching uma nova angústia que se instalou silenciosamente no mundo corporativo. O debate sobre o “fim do home office” ou a “vitória do presencial” acabou. A realidade que se impôs não foi a de um vencedor, mas a de uma nova topografia para o trabalho: um ecossistema híbrido, com uma parte da equipe operando no terreno físico do escritório e outra, no fluido ambiente digital de suas casas.
Diante deste novo mapa, percebo que muitos líderes ainda tentam aplicar as velhas ferramentas de gestão, sentindo-se cronicamente frustrados. Eles cobram presença como se ela fosse sinônimo de produtividade e medem o engajamento pelo número de “câmeras ligadas”. O que não entenderam é que não estamos mais gerenciando um único ambiente. Estamos diante do desafio de uma Liderança Anfíbia.
O líder anfíbio é aquele que aprendeu a respirar e a se mover com a mesma maestria tanto na água (o mundo digital, fluido e assíncrono) quanto na terra (o mundo físico, presencial e síncrono). Ele compreende que gerir essa dualidade não é um desafio tecnológico, mas um profundo desafio de Inteligência Relacional (IR).
A partir dos fundamentos que tenho estudado e aplicado, vejo que essa nova liderança se sustenta em alguns princípios essenciais:
1. A Intencionalidade do Encontro e a Criação do ERA
No antigo escritório, os encontros aconteciam por acaso: um café, uma conversa de corredor. Esses momentos criavam laços e resolviam problemas de forma orgânica. No mundo híbrido, o acaso é um luxo raro. A conexão não acontece, ela precisa ser construída.
O líder anfíbio é um arquiteto de encontros. Ele entende que seu papel é criar intencionalmente o que chamo de
ERA – Espaço Reflexivo da Aprendizagem. Ele sabe diferenciar uma “reunião de status” (uma tarefa) de um “encontro de alinhamento” (uma relação). Ele promove rituais que garantem que as conversas importantes, aquelas que alinham propósito e fortalecem vínculos, aconteçam de forma equitativa para quem está na sala e para quem está na tela. A pergunta-chave deixa de ser “O que vamos fazer?” e passa a ser “Como estamos juntos nisso?”.
2. A Gestão da Diferença como Potência
A maior queixa que escuto sobre o modelo híbrido é a criação de “subgrupos”: o “pessoal do escritório” e o “pessoal de casa”. Isso acontece quando o líder não entende que a principal matéria-prima para o desenvolvimento de uma equipe é a diferença. A localização tornou-se a mais nova e perigosa camada da diferença.
O líder com alta Inteligência Relacional (QR) atua ativamente para que essa diferença seja uma potência, e não uma barreira. Ele se pergunta constantemente: “A oportunidade que surgiu naquela conversa de corredor foi compartilhada com a Maria, que está remota? O reconhecimento que fiz ao João na frente da equipe presencial chegou com a mesma intensidade para o Pedro, que assistia pela tela?”. Lidar com a diferença é, em essência, lutar pela equidade de oportunidades, voz e reconhecimento, transformando o que poderia ser um abismo em uma ponte de complementaridade.
3. O Fim da Ilusão do Controle
A gestão tradicional foi construída sobre a crença do controle, a ilusão de que podemos gerir as “acontecências”. O trabalho híbrido estilhaçou essa fantasia. Não é mais possível “ver” as pessoas trabalhando. Isso assusta o gerente de tarefas, mas liberta o líder de pessoas.
A liderança anfíbia substitui o controle pela confiança, que se sustenta em três pilares: sinceridade, competência e, acima de tudo, responsabilidade. O líder para de gerenciar o tempo e passa a alinhar as entregas. Ele confere autonomia, pois entende que cada um é protagonista e responsável por sua parte no todo. Ele sabe que, no final das contas, o que move as pessoas não é a supervisão, mas um senso de propósito compartilhado e a confiança de que estão juntos na jornada.
4. A Competência Conversacional Assimétrica
Em um ambiente único, a conversa tende a ser simétrica. Em um ambiente híbrido, a comunicação se torna assimétrica, exigindo uma competência conversacional muito mais apurada. O líder anfíbio precisa ser um mestre em duas linguagens.
Com a equipe presencial, ele pode usar as sutilezas da linguagem corporal e do ambiente. Com a equipe remota, sua comunicação precisa ser explícita, clara e bem documentada, pois a ausência do contexto físico pode gerar ruídos e mal-entendidos. Ele não pressupõe que uma mensagem enviada foi uma mensagem compreendida. Ele verifica, alinha e garante que a clareza prevaleça sobre a obviedade.
Conclusão: Olhar-se no Espelho Híbrido
O maior desafio da liderança hoje não é escolher a melhor plataforma de videoconferência. É ter a coragem de “olhar-se no espelho” e se perguntar: “O líder que eu sou funciona apenas em um desses mundos?”.
Ser um líder anfíbio não é sobre dominar a tecnologia. É sobre dominar a arte de construir relacionamentos significativos em qualquer terreno. É entender que, seja na terra ou na água, o que nos torna uma equipe de verdade é a qualidade de nossas conversas e a força de nossos vínculos.
E você, líder? Tem sido um especialista em apenas um terreno ou já desenvolveu as guelras e os pulmões para prosperar nos dois mundos que agora compõem a sua realidade?

Em minhas andanças pelo mundo corporativo, uma das cenas mais comuns que testemunho é a do líder sobrecarregado, correndo de uma reunião para outra, com o olhar fixo em planilhas e o discurso afiado para a cobrança de resultados. Ele gerencia o tempo, os recursos, os projetos. Ele dá feedbacks, quando se lembra, quase sempre no formato de uma correção apressada. E, ao final do dia, se pergunta por que a equipe parece um conjunto de estranhos desengajados, executando tarefas sem alma.
O que esse líder ainda não percebeu é que a liderança não é, em sua essência, um ato de gestão, mas um ato de conversação. A qualidade da sua liderança é um reflexo direto da qualidade e da profundidade dos diálogos que ele é capaz de sustentar.
O erro crasso de muitas escolas de gestão foi reduzir o vasto universo da comunicação humana a um único evento: a “reunião de feedback”. E com isso, formamos gerentes que veem o diálogo como uma ferramenta de correção, um evento pontual e muitas vezes desconfortável. A Inteligência Relacional nos ensina a ver diferente. Ela nos mostra que a liderança se edifica sobre uma arquitetura de conversas distintas, cada uma com um propósito, um tom e um momento.
Para os líderes que desejam abandonar o papel de “capatazes de tarefas” e assumir sua verdadeira vocação de “desenvolvedores de pessoas”, apresento os quatro pilares conversacionais que sustentam as equipes mais extraordinárias.
1. A Conversa de ALINHAMENTO: A Bússola Compartilhada
Esta é a conversa sobre o “Para onde vamos e por quê?”. Muitos líderes acreditam que basta apresentar os OKRs ou os KPIs do trimestre em uma reunião para que o alinhamento aconteça. Isso não é alinhar, é informar. Alinhar é um processo de construção conjunta de significado.
Em um mundo pós-pandêmico, onde as equipes estão dispersas e a estratégia das empresas muda em uma velocidade vertiginosa, a falta de alinhamento é a principal fonte de ansiedade e de retrabalho. As pessoas se sentem como passageiros em um navio sem capitão, fazendo um esforço tremendo para remar sem saber o destino.
O líder-arquiteto de diálogos cria rituais para essa conversa. Ele não apenas informa a meta; ele debate o propósito por trás dela. Ele pergunta à sua equipe: “Considerando nosso objetivo maior, o que esta meta significa para o trabalho de cada um de vocês? Que obstáculos preveem? Como podemos, juntos, traçar o melhor mapa para chegar lá?”. Ele transforma um monólogo informativo em um diálogo estratégico que gera clareza e pertencimento.
2. A Conversa de DESENVOLVIMENTO: O Projeto de Futuro Individual
Esta é, talvez, a conversa mais negligenciada e a mais poderosa de todas. É o momento em que o líder muda o foco da “empresa” para o “indivíduo”. A pergunta-chave aqui não é “O que você pode fazer pela empresa?”, mas sim “Como a empresa, através de mim, pode ser um veículo para o seu projeto de vida?”.
O maior anseio de um profissional talentoso hoje não é a estabilidade, mas o crescimento. Eles não querem apenas um emprego; eles buscam uma plataforma de desenvolvimento. Quando um líder se senta com um membro da equipe e, genuinamente, busca entender suas aspirações de carreira, seus sonhos, as competências que deseja adquirir, ele está fazendo a mais poderosa declaração de Cuidado.
Essa conversa não pode acontecer no mesmo espaço da avaliação de desempenho. Ela precisa de seu próprio ritual, um espaço sagrado de confiança. Ao se posicionar como um parceiro na jornada de carreira do indivíduo – um verdadeiro “gerador de possibilidades” –, o líder cria um vínculo de lealdade que nenhuma oferta salarial do concorrente pode quebrar facilmente.
3. A Conversa de FEEDBACK: A Calibragem Contínua
Aqui reside um universo de possibilidades. O feedback, na maioria das organizações, é um sinônimo de “crítica”. É um evento tenso, temido, que olha para o passado e aponta o erro. Na perspectiva da Inteligência Relacional, o feedback é um presente. É um ato de cuidado que visa o aprimoramento futuro.
A abordagem ontológica, que tanto utilizo em meus processos de coaching, desloca a energia da conversa. Em vez de “Você errou aqui”, a abordagem é “Notei que o resultado foi X. Me ajude a entender seu raciocínio. O que podemos aprender juntos desta experiência para aplicarmos em desafios futuros?”.
Essa mudança sutil transforma o líder de “juiz” para “treinador”. Ele não está ali para julgar o passado, mas para ser um parceiro na construção de um futuro de maior sucesso e aprendizado. Ele cria um ambiente onde o erro não é escondido, mas sim visto como matéria-prima para o crescimento.
4. A Conversa de RECONHECIMENTO: A Nutrição da Alma
Esta é a conversa que valida não apenas o “fazer”, mas o “ser”. Se o feedback calibra a performance, o reconhecimento nutre a identidade e o senso de valor do profissional. E é aqui que a maioria dos líderes falha por ser genérico e protocolar. O “parabéns pelo bom trabalho” em um e-mail em massa não tem praticamente nenhum efeito.
O reconhecimento poderoso é específico, pessoal e contextual. É parar no corredor e dizer: “Maria, a maneira como você conduziu aquela reunião tensa com o cliente X, mantendo a calma e a clareza, foi uma aula de maestria relacional para todos nós. Obrigado por ser essa referência para a equipe”.
Nesse ato, o líder não reconheceu apenas a tarefa, mas a competência, o caráter e o valor daquela pessoa para a cultura do time. Esse tipo de reconhecimento não motiva; ele inspira.
Conclusão: Sua Liderança é a Soma das Suas Conversas
Ao final do dia, a arquitetura da sua equipe – seja ela um arranha-céu de inovação e engajamento ou uma construção frágil prestes a ruir – terá sido projetada e erguida pela qualidade dos seus diálogos. Deixar de ser um gerente de tarefas para se tornar um líder de pessoas é uma decisão consciente de se tornar um mestre na arte e na ciência dessas quatro conversas. Elas são as ferramentas mais poderosas à sua disposição. Use-as com sabedoria.
“Analisando sua agenda da última semana, qual dessas quatro conversas teve mais espaço? E qual delas está sendo perigosamente negligenciada? A reflexão honesta é o ponto de partida.

Imagine a cena, tão comum no mundo corporativo de hoje: o líder, imerso na luz azul da tela, analisa seus dashboards. Gráficos de produtividade, KPIs de desempenho, metas de OKRs. Ele busca a verdade nos números. Mas que verdade ele está realmente procurando?
Em meu livro “Branca de Neve e os Sistemas Gerenciais”, uso a poderosa metáfora da Rainha Má e seu Espelho Mágico para ilustrar um dos arquétipos mais perigosos da liderança: o líder que usa suas ferramentas não para ver a realidade, mas para validar o próprio ego. A pergunta diária “Espelho, espelho meu, existe equipe mais produtiva do que a minha?” é a versão moderna da busca por validação da Rainha.
Este artigo é um convite para você, líder, a refletir: seus dashboards são um Espelho Mágico ou uma Janela para a Realidade?
O Líder-Rainha e a Métrica como Vaidade
A liderança reativa, assim como a Rainha, utiliza as métricas de forma superficial e reativa.
A Liderança com Inteligência Relacional: A Janela para a Floresta
A alternativa a esse modelo é a liderança que usa seus dados como uma janela. Uma janela não serve para ver o nosso reflexo, mas para observar o mundo lá fora, com toda a sua complexidade e nuances.
O líder que olha pela janela entende que a equipe é uma “floresta”, um ecossistema vivo, como descrevo na metáfora dos “Sete Anões”, onde cada perfil tem suas forças, fraquezas e necessidades. Para este líder:
Em sua próxima reunião de resultados, resista à tentação de simplesmente apresentar os gráficos. Comece abrindo a janela. Pergunte à sua equipe sobre a história por trás dos dados. Você pode se surpreender ao descobrir que a solução para o seu maior desafio de performance não está em uma nova métrica, mas em uma nova conversa.
Afinal, a liderança verdadeiramente “mais bela de todas” não é a que possui os dashboards mais verdes, mas aquela que cultiva a floresta mais saudável, resiliente e colaborativa.
Sua empresa opera mais no modo “Espelho” ou “Janela”? Compartilhe sua perspectiva nos comentários e vamos aprofundar essa importante reflexão.

O termo “Quiet Quitting” ecoa como um fantasma nos corredores das empresas. Virou um rótulo conveniente para explicar a queda de produtividade, a apatia e o distanciamento que tantos líderes observam em suas equipes. A reação instintiva de muitos é culpar a nova geração, a falta de comprometimento ou a preguiça. Mas e se tudo isso for apenas um diagnóstico errado?
Da minha perspectiva, após décadas atuando como psicanalista e no desenvolvimento de lideranças, afirmo com segurança: o Quiet Quitting raramente é um problema do colaborador. Ele é um sintoma visível de um sistema onde a liderança está relacionalmente ausente. É o grito de socorro silencioso em resposta a um ambiente que falhou em prover o essencial.
O Diagnóstico Errado que Aumenta o Problema
Quando um líder encara o “desligamento silencioso” como uma falha de desempenho individual, sua reação padrão é aplicar mais controle. Mais dashboards de acompanhamento, mais reuniões de status, mais pressão por resultados. O efeito? O exato oposto do desejado. Essa abordagem apenas reforça no colaborador a sensação de que ele não é confiável, compreendido ou valorizado como ser humano, intensificando seu mecanismo de defesa, que é o distanciamento.
Essa é uma falha em enxergar a dinâmica por trás da dinâmica. Trata-se de medicar o sintoma enquanto se ignora a doença.
A Raiz do Problema: A Quebra do Contrato Relacional
Em todo ambiente de trabalho, existe um “contrato relacional” implícito, um conceito que exploro em profundidade no livro “Gente Inteligente Sabe se Relacionar”. Este contrato vai muito além do salário no fim do mês. Ele envolve expectativas não escritas de reconhecimento, oportunidade de crescimento, propósito no que se faz e, acima de tudo, segurança psicológica.
O Quiet Quitting é a consequência direta da quebra deste contrato. Acontece quando o profissional, dia após dia, sente que sua entrega não é vista, sua voz não é ouvida e seu bem-estar não importa. Da perspectiva psicanalítica, o “desligamento” é um ato de autopreservação. É o ego se protegendo de um ambiente que gera frustração, ansiedade ou dor, investindo o mínimo de energia necessária para sobreviver. Não é preguiça, é estratégia de sobrevivência emocional.
O Líder como “Espelho” e a Cura pela Conexão
A solução não está em novas ferramentas de gestão, mas em um novo tipo de liderança. Como detalho em “Gente Inteligente se Olha no Espelho”, a transformação começa quando o líder tem a coragem de olhar para si e perguntar: “Como meu comportamento está contribuindo para este cenário?”.
A cura para o Quiet Quitting passa por reestabelecer o contrato relacional. E isso é feito através de três práticas fundamentais da Inteligência Relacional:
Em suma, a epidemia de Quiet Quitting é um chamado urgente para um novo paradigma de liderança. Um que entende que, em um mundo cada vez mais tecnológico e impessoal, a conexão humana não é apenas um “diferencial”, mas a única fundação sobre a qual se constrói uma equipe verdadeiramente engajada, inovadora e resiliente.
Essa reflexão fez sentido para a sua realidade? Compartilhe nos comentários qual o maior desafio relacional que você enfrenta com sua equipe. Para aprofundar nestes conceitos, convido você a conhecer meus livros e meu trabalho.

JANELA DE OVERTON
PRIMEIRAS ANOTAÇÕES
by Homero Reis ©
RESUMO: O conceito da “janela” de Overton, formulado por Joseph P. Overton, descreve como ideias consideradas inaceitáveis em um momento podem se tornar normais e até políticas públicas por meio de um deslocamento gradual da percepção pública. A “janela” define o espectro do que é socialmente aceitável e é moldada por cultura, discurso, mídia e instituições de poder. Overton defendia mudanças sociais planejadas e fundamentadas na liberdade individual e na descentralização do poder estatal, enfatizando a influência de think tanks, organizações que promovem ideias antes do tempo e moldam a opinião pública através de pesquisas, advocacy e formação de lideranças. O texto explora a metodologia da “janela” em seis fases, desde o “impensável” até a “política pública”, com exemplos históricos e sociais. Conceitos como dessensibilização, manipulação discursiva e o papel da mídia são discutidos, evidenciando como a linguagem pode normalizar práticas antes repudiadas. Referências a autores como Zimbardo, La Boétie, Kahneman, Arendt, Foucault e Popper ampliam o entendimento sobre o impacto psicológico, ético e político do fenômeno. Reis nos alerta para os riscos da manipulação da “janela” por interesses autoritários ou populistas, que, por meio da linguagem e da repetição, podem deslocar os limites do aceitável em direção a discursos intolerantes. Ao final, destaca-se a importância de consciência crítica para identificar quem move a “janela”, com que propósito e em que direção, pois nem toda mudança representa avanço, e a liberdade requer responsabilidade.
A “janela” de Overton é um conceito (e uma metodologia) da ciência política e da sociologia que descreve o espectro de ideias aceitáveis para o público em um determinado momento histórico. Ou seja, é a faixa de políticas, opiniões ou discursos considerados socialmente aceitáveis ou “pensáveis” dentro de uma sociedade. Tudo o que está fora dessa “janela” é visto como radical, impensável ou inaceitável — até que, por meio de diversos processos culturais, psicológicos e midiáticos, essas ideias sejam normalizadas e, eventualmente, aceitas.
Ela define o limite do que é considerado razoável e discutível em um contexto cultural e sócio-político específico. Essa “janela” muda com o tempo, expandindo-se ou encolhendo-se à medida que as opiniões públicas, os debates sociais e os políticos evoluem.
O termo foi cunhado por Joseph P. Overton (1960-2003), ex-vice-presidente do centro de estudos norte-americano Mackinac Center for Public Policy. Seu trabalho mais famoso é conhecido como ““janela” de Overton”, mas suas ideias vão além desse conceito, ainda que quase todo o seu pensamento acabe girando em torno da teoria da mudança do discurso político e social e sua influência na vida pública e privada.
Ele estava profundamente envolvido no debate sobre liberdade individual, mercado livre e governo limitado, quando se inquietou com a questão de como as alterações das “agendas temáticas” da sociedade se alteram fazendo com o que era absurdo em uma determinada época, tornou-se aceitável e até adotada em outra. Isso acontece organicamente ou há interesses e metodologias que provocam tal processo? Vamos entender isso.
Suas ideias refletem sobre temas como: Descentralização do poder, onde defende a tese de que o poder político deveria ser limitado e devolvido ao cidadão comum sempre que possível; menor intervenção estatal, onde criticava a ideia de políticas públicas que defendem a expansão do Estado em dependência do governo; como também considerava a Liberdade individual com eixo moral e valor supremo de um povo ou nação, acreditando que as políticas públicas deveriam ser avaliadas com base nesse critério.
Essas temáticas fizeram com que ele desenvolvesse um profundo interesse pelos mecanismos pelos quais a sociedade muda de opinião e como grupos de interesse influenciam a política, não só do ponto de vista da atividade pública, mas também do ponto de vista da micro sociedade ou das sociedades corporativas.
Seu trabalho considera a engenharia do consenso – a ideia de que opiniões populares podem ser moldadas ao longo do tempo por meio de discursos, mídias e influência cultural; a importância da narrativa – a forma como os temas são apresentados ao público (linguagem, emoção, identidade) é crucial para movê-los de inaceitáveis para aceitáveis; e, por fim, a relação entre cultura e política – a cultura molda o que é politicamente interessante para sustentar algo no poder. Nesse caso Overton preconizava que “mudar a cultura é um pré-requisito para mudar leis”.
Para isso acontecer ele pesquisou a importância das “Think Tanks” (“laboratórios de ideias” ou “institutos de pesquisa”). Tais organizações “independentes”, geralmente sem fins lucrativos, produzem e promovem ideias, pesquisas e propostas sobre comportamento, políticas públicas, economia, sociedade, tecnologia, entre outros temas, mas que também são responsáveis por descobrir pontos vulneráveis na cultura de uma sociedade ou de parte dela, para usar tais fraquezas como pontos de entrada de temas de interesse de corporações ou governos.
As “Think Tanks” são agentes de produção de ideias antes do tempo – desenvolvem e sustentam ideias que ainda não são populares, mas que podem vir a ser; promovem influência indireta – mudam a mentalidade da elite intelectual e dos formadores de opinião, que depois influenciarão a sociedade em geral; e, estimulam a advocacy – fazendo pressão, mobilizando e argumentando para provocar mudanças sociais ou políticas. Dizia ele: “Não se trata apenas de protestar, mas de atuar de forma intencional e planejada, com base em evidências, diálogo e articulação para introduzir ideias “inaceitáveis”, mas que são de interesse de algum grupo ou segmento social”; e, por fim, formar lideranças e cidadãos com uma visão clara de liberdade e responsabilidade individual que interessam (ou não) ao grupo dominante (que está no poder), ou ao grupo reagente (que almeja o poder).
Algumas Think Tanks – (centros de pesquisa e formulação de políticas), são apartidárias, outras têm orientação ideológica, mas todas se concentram em pesquisa, análise e recomendação de políticas públicas. Alguns exemplos:
Internacionais:
1. Brookings Institution (EUA) – Foco em política pública, economia, governança.
2. RAND Corporation (EUA) – Pesquisa aplicada em segurança, saúde, educação.
3. Chatham House (Reino Unido) – Política internacional, relações exteriores.
4. Carnegie Endowment for International Peace (EUA) – Relações internacionais e diplomacia.
5. Bruegel (Bélgica) – Economia europeia.
No Brasil
1. FGV (Fundação Getulio Vargas) – Políticas públicas, economia, direito.
2. IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) – Órgão do governo federal focado em estudos socioeconômicos.
3. Instituto Millenium – Liberal-conservador, atua na defesa da economia de mercado e da liberdade individual.
4. Instituto Sou da Paz – Segurança pública, controle de armas, políticas de redução da violência.
5. Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) – Ciências sociais, política, urbanismo.
Sobre a prática de Advocacy (defesa de causas e interesses públicos), essas organizações buscam influenciar políticas públicas, mobilizar a sociedade ou pressionar governos. Alguns exemplos:
Internacionais
1. Greenpeace – Meio ambiente e mudanças climáticas.
2. Amnesty International – Direitos humanos.
3. Human Rights Watch – Monitoramento e denúncia de violações de direitos humanos.
4. Oxfam – Combate à pobreza, justiça social e desigualdade.
5. Campaign for Tobacco-Free Kids – Prevenção ao tabagismo e saúde pública.
No Brasil
1. Instituto Ethos – Responsabilidade social empresarial.
2. Rede Nossa São Paulo – Transparência, cidadania e urbanismo.
3. Conectas Direitos Humanos – Justiça e equidade nos direitos humanos.
4. Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) – Defesa dos direitos dos povos indígenas.
5. MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) – Moradia, justiça social e mobilização popular.
Overton rejeitava as mudanças radicais ou imposições ideológicas súbitas, defendendo uma mudança gradual, coerente e estrategicamente pensada, mas com ampla participação da sociedade civil em todos os seus matizes. Não se tratava de manipular a sociedade, mas de abrir espaço para novas ideias. Ele acreditava que mudar a sociedade era uma batalha de longo prazo, que exigia paciência e consistência a partir de uma utopia do que seja “essencialmente humano”.
Na verdade ele foi um estrategista político com uma profunda base filosófica e libertária, que acreditava no poder das ideias, da cultura e da persuasão como instrumentos legítimos de transformação da sociedade em direção à liberdade individual e à limitação do poder estatal, sem perder de vista os ideais democráticos. Acreditava que criar pontes realistas e práticas entre a teoria e a prática política, era o caminho da verdadeira mudança e por onde ela deveria começar: fora da política partidária tradicional.
A partir de tudo isso, ele acabou construindo a ““janela” de Overton”, um “modelo conceitual e metodológico” pelo qual ficou mundialmente conhecido. Nesse trabalho ele observou que para que uma ideia se torne politicamente viável, não é necessário mudar apenas a mente das pessoas, mas sim a opinião pública.
Como funciona essa ““janela””?
A “janela” de Overton é composta por diferentes graus de aceitabilidade, divididos em etapas que se constituem em um fluxo que vai de uma situação normal para outra, inicialmente inadmissível, mas que ao final, torna-se o “novo normal”.
As etapas da “janela” são: Impensável (unthinkable) – a sociedade rejeita totalmente; Radical (radical) – alguns grupos pequenos começam a discutir o tema; aceitável (acceptable) – a ideia entra no debate privado e público; Sensato (sensible) – a ideia começa a parecer lógica e a “fazer sentido”; Popular (popular) – o apoio começa a crescer até tornar-se maioria; Política pública (policy) – a ideia torna-se um tema comum que requer uma lei ou prática oficial que a legitime.
Uma ideia pode, ao longo do tempo, migrar de “impensável” para “aceitável”, dependendo da maneira como ela é apresentada, discutida e incorporada na cultura. Isso acontece frequentemente com mudanças sociais e tecnológicas e podem ser observadas em uma infinidade de situações históricas.
Exemplos (algumas mudanças segundo a “janela” de Overton):
TEMA ANTES DEPOIS
Casamento entre pessoas do mesmo sexo Considerado impensável e até criminoso Legalizado em vários países, com apoio popular
Legalização da maconha medicinal Tabu e proibido Aceita como questão de saúde pública
Cinto de segurança em carros Visto como desnecessário ou perigoso Hoje é obrigatório por lei
Trabalho remoto (home office) Considerado improdutivo ou inviável Amplamente aceito após a pandemia
Casamento interracial Proibido ou condenado Hoje legal e socialmente aceito
Mulheres no mercado de trabalho Restritas ao ambiente doméstico Atualmente incentivadas à liderança
Paternidade ativa Homens vistos apenas como provedores Hoje se espera envolvimento ativo na criação dos filhos
Veganismo e vegetarianismo Considerado radical ou excêntrico Estilo de vida respeitado e com apoio da indústria
Tatuagens visíveis no trabalho Associadas à marginalidade Hoje são amplamente aceitas
Discussão sobre saúde mental Tabu, sinal de fraqueza Tema comum e incentivado em vários ambientes
Educação sexual nas escolas Visto como indecente Defendido como essencial por especialistas
Mudança de nome/gênero (trans) Inaceitável ou invisível Reconhecido por lei em diversos países
Energia renovável Cara e tecnicamente inviável Incentivada como solução ambiental
Na perspectiva da psicologia social, o psicólogo Philip Zimbardo, conhecido pelo experimento de Stanford (1971), entende que a mudança de normas sociais está intimamente ligada à pressão de grupo e ao comportamento conformista. Quando pequenas mudanças são introduzidas repetidamente e associadas a benefícios emocionais ou sociais, as pessoas tendem a reavaliar o que é aceitável ou moralmente correto. Isso é uma base psicológica importante da “janela” de Overton. Situações sociais e papéis impostos, seja por que mecanismo for, mídia, propaganda de massa, discursos de autoridades sociais, etc, podem transformar o comportamento das pessoas. Pessoas comuns podem agir de forma cruel ou submissa se colocadas sob certas condições, ou seguir condutas conforme o “modelo de rebanho”. O ambiente e o sistema têm grande influência sobre o comportamento humano — não apenas os traços das personalidades individuais.
A posição de Zimbardo não é totalmente nova e, parece-me, teve um pouco de sua inspiração em Étienne de La Boétie no século XVI, em seu livro, Discurso da Servidão Voluntária. No texto, La Boétie reflete sobre as razões pelas quais as pessoas aceitam ser dominadas por tiranos ou por “conceitos dominantes”. O autor questiona como é possível que um só governante exerça poder sobre milhões, e afirma que a tirania só se sustenta porque os próprios dominados consentem com ela. Segundo La Boétie, esse consentimento não é necessariamente consciente, mas resulta do hábito, da manipulação e da perda do senso de liberdade. Ele argumenta que, se as pessoas simplesmente deixassem de obedecer, o poder do tirano desapareceria. O texto defende que a liberdade é natural ao ser humano, e a servidão é aprendida. Com linguagem direta e tom moral, a obra é uma crítica a passividade popular e é um apelo à autonomia e a resistência, contra a opressão. Esse é o ponto de convergência entre La Boétie, Zimbardo e Overton.
Já, o também psicólogo Daniel Kahneman, Prêmio Nobel de Economia, contribuiu indiretamente para o entendimento da “janela” ao explicar como somos influenciados por viés de ancoragem e repetição; ou seja, quanto mais uma ideia é repetida, mesmo que absurda no início, mais ela parecerá normal e aceitável. A “janela” se move lentamente com a exposição e familiaridade.
Os comunicadores e a mídia também tem um papel central no deslocamento da “janela” de Overton. Como observou o linguista e ativista Noam Chomsky, os meios de comunicação muitas vezes delimitam o campo do debate público; ou seja, permitem certa divergência de opiniões, mas sempre dentro de uma moldura aceitável. Isso garante que a ““janela”” seja mantida dentro de certos limites — ela se move, mas sob controle de influenciadores culturais e instituições poderosas. Programas de televisão, filmes, podcasts e redes sociais funcionam como vetores para introduzir gradualmente temas antes impensáveis. É o chamado “efeito de dessensibilização”, onde algo inicialmente chocante passa a ser banalizado com o tempo.
O efeito de dessensibilização, fortemente ligado à “janela” de Overton, é um processo social e psicológico que explora a repetição de ideais, comportamentos, imagens ou discursos considerados inaceitáveis, imorais ou radicais, de forma massiva, até que o público “perca o pudor” sobre tais temas, levando-os à perda de sensibilidade crítica, diante desses temas. Gradualmente, aquilo que outrora gerava choque passa a ser visto com indiferença, tolerância e, por fim, aceitação e defesa.
O “efeito dessensibilização” descreve como os discursos públicos e privados podem ser manipulados para mover uma ideia do impensável ao aceitável, até o institucionalizado. De fato, esse processo explica o surgimento de “tribos urbanas” de todas as naturezas, a formação de grupos radicais, a aceitação de preconceitos, etc. Também explica como as transições geracionais vão ampliando o senso de limites até a perda total de qualquer referência ética ou moral. A pergunta que abre a crítica para esse processo é: qual o limite da liberdade?
Na filosofia, Hannah Arendt abordou conceito similar ao discutir a “banalização do mal” no contexto do nazismo: indivíduos que participavam de atos cruéis e/ou violentos, o faziam como se fossem tarefas rotineiras, dessensibilizados por um ambiente que normalizou a barbárie. Já na sociologia, Norbert Elias, em O Processo Civilizador, descreve como normas e sensibilidades sociais se transformam ao longo do tempo, moldando o que é aceitável, por algum interesse.
Por exemplo: punições físicas em escolas: antes vistas como disciplina, hoje são consideradas abusos; violência na mídia: filmes e jogos normalizaram imagens antes chocantes; discurso de ódio nas redes sociais ou em falas públicas, fazem com que a repetição de temas controversos se banalizem e ampliem sua aceitação; mudanças de costumes incentivadas pela propaganda de massa com uso de “autoridades e personagens de impacto social”, tornam possíveis o uso de roupas consideradas indecentes em décadas passadas como normais e que tornam-se novos padrões de beleza comuns a todos.
O efeito de dessensibilização pode ser usado tanto para o progresso social (como na aceitação de minorias, igualdade de gênero e outros temas análogos), quanto para a normalização de práticas nocivas, dependendo de como e por quem é conduzido.
Do ponto de vista da da ética, a pergunta que surge é: o que está em jogo? O filósofo Michel Foucault discutiu conceitos muito próximos à “janela” de Overton, como a ideia de regimes de verdade: “o que é considerado verdadeiro ou aceitável em uma sociedade depende das relações de poder”. A “janela”, nesse caso, não é só cultural, mas também política e estratégica. Para Foucault, o discurso é uma arma — e quem controla o discurso, controla a sociedade.
Já o filósofo austríaco Karl Popper abordaria a questão da “janela” de Overton sob a ótica da tolerância e da liberdade de expressão. Para ele, o desafio é manter uma sociedade aberta ao debate sem permitir que ideias destrutivas (como o totalitarismo p.ex.) entrem na “janela” em nome da liberdade. Isso levou Popper a propor o chamado “paradoxo da tolerância”. Em sua obra A Sociedade Aberta e Seus Inimigos (1945), ele nos apresenta uma pergunta complexa: até que ponto devemos tolerar o intolerável? Essa questão nos coloca diante de um tema delicadíssimo, principalmente nos dias de hoje, porque se trata de um dilema ético, moral e político: se uma sociedade (por extensão uma pessoa), é ilimitadamente tolerante, sua capacidade de ser tolerante pode ser destruída pelos intolerantes.
Popper argumenta que, se tolerarmos totalmente a intolerância, os intolerantes acabarão por eliminar os tolerantes, destruindo a própria base de uma sociedade livre e aberta. Portanto, para preservar a tolerância, é necessário não tolerar a intolerância extrema.
Para ser prático com esse tema, imagine uma democracia que permita a livre expressão de todas as ideias, inclusive de grupos que defendem a supressão dessa mesma democracia (como regimes totalitários ou ideologias supremacistas). Se esses grupos tiverem liberdade plena para se organizar, fazer propaganda e conquistar o poder, podem acabar destruindo o sistema democrático que os permitiu existir.
Popper não defende a censura, nem o controle da comunicação, mas entende a necessidade de limites racionais: devemos estar prontos para reprimir movimentos intolerantes quando eles se tornam uma ameaça real e quando se recusam a debater ou usam a crueldade psíquica e a violência em vez de argumentos. A tolerância ilimitada leva ao fim da tolerância. Portanto, uma sociedade tolerante deve ser intolerante com a intolerância — para preservar sua própria existência.
Overton não usou diretamente os conceitos de Popper, mas sua metodologia esclarece o paradoxo da tolerância e nos capacita a como atuar em contextos onde as polaridades acirram a racionalidade dos discursos e a liberdade tende a ser exercida sem as consequências sociais requeridas. Ser livre é também responder responsavelmente por isso.
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES AO CONCEITO E À METODOLOGIA DE OVERTON.
Alguns críticos argumentam que a “janela” de Overton pode ser manipulada de forma cínica. Estratégias de marketing político ou ideológico podem usar essa teoria para introduzir ideias extremistas de forma gradual, preparando o terreno para que se tornem aceitas. É o que muitos identificam como tática comum em regimes autoritários, em campanhas de desinformação, e até mesmo em campanhas políticas.
Além disso, críticos mais profundos do modelo apontam que a “janela” de Overton simplifica excessivamente o processo social pelo qual ideias se tornam aceitáveis ou não. A metáfora da ““janela”” sugere um movimento linear e unidimensional — do inaceitável ao popular —, quando, na realidade, a dinâmica sociopolítica é muito mais complexa, envolvendo múltiplas camadas de poder, linguagem, identidade e resistência. Ao focar quase exclusivamente na percepção pública da aceitabilidade, o modelo negligencia fatores estruturais como desigualdade social, controle econômico e institucional, e a capacidade real de grupos marginalizados influenciarem o discurso público.
Outro ponto crítico está na neutralidade aparente da teoria. Embora ela se apresente como uma ferramenta descritiva, o modelo pode ser usado como instrumento normativo, permitindo que agentes sociais com interesses particulares manipulem gradualmente o imaginário coletivo sem enfrentarem resistência imediata. Ao normalizar o processo de tornar o impensável aceitável, corre-se o risco de desresponsabilizar os envolvidos na disseminação de ideias nocivas, como o discurso de ódio ou o revisionismo histórico.
Mas há ativistas sociais e educadores que usam o conceito positivamente na promoção de debates, humanizando histórias e expondo injustiças. Tais profissionais e outros de mesma natureza, deslocam a “janela” no sentido do progresso moral, da igualdade de direitos, da inclusão e acolhimento das minorias e dos direitos humanos. No entanto, mesmo esse uso progressista do modelo precisa ser analisado com cuidado: o foco excessivo em “mudança de mentalidade e percepção” pode eclipsar a necessidade de transformações materiais concretas, como políticas públicas, acesso a direitos e redistribuição de poder.
A “janela” de Overton nos mostra que as ideias dominantes não são fixas, e sim moldadas por discurso, cultura e poder. Reafirmo que, como cidadãos, é importante estarmos atentos a quem está tentando mover essa “janela”, em que direção, e com que propósito.
Por fim, a manipulação discursiva – uso estratégico da linguagem para influenciar percepções, pensamentos e comportamentos das pessoas – é geralmente usada de forma sutil e indireta. Isso inclui eufemismos, omissão de informações, inversão de significados, repetição sistemática de ideias ou uso emocional de palavras para moldar desde as “conversas de botequim” ao debate público. Tais elementos podem ser entendidos como algo válido, que está “dentro” do discurso público legítimo, mas que, de fato, é uma “manipulação discursiva” do que seja discutido como normal, aceitável ou razoável.
Esse deslocamento artificial promovido por meio de discursos cuidadosamente manipulados (por exemplo, desqualificando pessoas, desumanizando certos grupos ou banalizando práticas autoritárias), promove a erosão de valores democráticos. A linguagem manipulada pode legitimar discursos autoritários, intolerantes ou discriminatórios, tornando-os aceitáveis dentro da “janela”: termos importantes podem ser esvaziados ou distorcidos (“liberdade”, “justiça”, “verdade”), gerando confusão e dificultando o debate racional. Tal dinâmica constrói “polarizações na sociedade”. Ao manipular o discurso para reforçar “nós contra eles”, grupos políticos ou ideológicos empurram os limites da “janela” para extremos, minando o diálogo e a moderação.
Podemos ver a manipulação discursiva em alguns exemplos históricos e contemporâneos, onde a “janela” de Overton foi alterada negativamente:
1. No Nazismo na Alemanha (1930). Manipulação: O regime de Hitler usou propaganda para desumanizar judeus, comunistas, homossexuais e outros grupos, referindo-se a eles como “pragas”, “ameaças” ou “inimigos internos”. Efeito na “janela” de Overton: Ideias como segregação, censura e até genocídio passaram de impensáveis a socialmente aceitas por boa parte da população alemã.
2. “Guerra ao Terror” nos EUA (pós – 11 de setembro, 2001). Manipulação: O termo “terrorista” foi amplamente usado para justificar políticas de vigilância em massa e tortura (eufemisticamente chamada de “técnicas aprimoradas de interrogatório”). Efeito: Medidas antes inaceitáveis (como espionagem de cidadãos e prisões sem julgamento) foram normalizadas.
3. Ditadura Militar no Brasil (1964–1985). Manipulação: A repressão foi chamada de “defesa da democracia” e a censura era apresentada como “garantia da ordem”. Efeito: Isso permitiu que o regime justificasse torturas, desaparecimentos e perseguições como ações legítimas dentro de um discurso de patriotismo.
4. Populismo contemporâneo. Manipulação: Líderes populistas frequentemente usam termos como “povo do bem” vs. “inimigos da nação” ou “mídia mentirosa” para deslegitimar opositores e a imprensa. Efeito: A crítica política é desvalorizada e propostas autoritárias passam a ser discutidas como razoáveis — ampliando a tolerância ao autoritarismo.
Esses exemplos mostram como o discurso não apenas reflete a realidade, mas molda o que é considerado possível, legítimo ou desejável.
Vivemos em uma era onde as mudanças culturais acontecem rapidamente, graças a globalização, à internet e às redes sociais. Por isso, compreender esse conceito é essencial para navegar o mundo contemporâneo com consciência crítica — e para não sermos apenas espectadores passivos da história em movimento. Mais do que identificar a mecânica da “janela”, é preciso questionar quem a empurra, com que recursos, e a quem ela se fecha ou se abre. Afinal, nem toda mudança de narrativa representa um avanço — e nem todo “progresso” é, de fato, emancipador.
Reflitam em paz!
Homero Reis
Brasília, maio/25
homero@homeroreis.com

“O Diário de um CEO” é um livro escrito por Steven Bartlett em 2023, originalmente divulgado no podcast The Diary of a CEO, com um subtítulo: “As 33 leis dos negócios e da vida”. Resumidamente é uma obra que combina memórias pessoais, lições de vida e insights sobre empreendedorismo, liderança e gestão.
Steven Bartlett, um premiado empreendedor britânico que atua como investidor em mais de 40 empresas; é palestrante e criador de conteúdo, além de apresentar um dos podcast mais populares da Europa, The Diary of a CEO, onde compartilha sua vasta experiência no mundo corporativo, agora acessível em seu livro.
Resumidamente, quando tinha 22 anos, fundou a Social Chain, uma agência de marketing digital global. Aos 27 anos abriu o capital de sua agência na bolsa de valores e foi destaque na Business Insider, no Financial Times e no The Guardiane, sendo considerado pela Forbes uma das 30 personalidades mais influentes com menos de 30 anos. Deu palestras nas Nações Unidas, na SXSW, na TEDx e no VTEX Day ao lado de Barack Obama.
O que lhes apresento nesse e-book, é um “resumo” pessoal da obra, recheado de minhas anotações e reflexões sobre o tema e de alguns complementos que me ajudaram a compreender o que Bartlett deseja transmitir. Faço isso ao tempo em que organizo as ideias do livro para uma melhor construção de práticas e insights sobre gestão, liderança, qualidade de vida e relacionamentos.
O livro é dividido em quatro pilares onde são organizadas as trinta e três leis que norteiam o trabalho de Bartlett:
O primeiro pilar trata do EU e agrupa as primeiras nove leis. Nesse pilar ele começa com uma citação de Leonardo Da Vinci: “Não se pode ter menor ou maior domínio do que o domínio de si mesmo”. Essa ideia é mote para a discussão da importância do autoconhecimento para que é, ou almeja ser um executivo qualificado.
O segundo pilar trata da HISTÓRIA e agrupa as leis 10 a 18. Nesse pilar ele conta um pouco de sua história e apresenta os aspectos estratégicos que aprendeu na vida executiva.
O terceiro pilar trata da FILOSOFIA que ele adota na sua forma de conduzir os negócios e suas estratégias de gestão, mostrando a relação direta existente entre “quem você é, as escolhas que faz e os resultados que obtém”. Segundo ele, é a partir de sua “filosofia de vida” que você se torna capaz de fazer escolhas sobre valores, propósitos e a missão que norteiam sua conduta. Nesse pilar estão as leis 19 a 27.
Por fim, o quarto pilar trata da EQUIPE, onde ele apresenta as leis 28 a 33, que tratam das relações corporativas, dos desafios e das estratégias para uma liderança e gestão efetivas.
Primeira Parte – Infância e Formação
Bartlett começa explorando suas origens humildes, crescendo em uma família modesta no Reino Unido. Nesse contexto ele reflete sobre como sua infância moldou sua ética de trabalho, determinação e visão de mundo. Apesar de enfrentar desafios como o racismo e a falta de recursos, ele encontrou motivação em suas dificuldades e no desenvolvimento de um espírito resiliente.
O autor também destaca como foi abandonar a universidade. Uma decisão arriscada, crucial para seguir seus sonhos empresariais, enfatizando que muitas vezes as escolhas não convencionais podem levar a resultados extraordinários, desde que sejam tomadas com coragem e clareza.
Sua infância e formação moldaram não apenas sua visão de mundo, mas também os pilares de sua ética de trabalho e resiliência emocional. Filho de imigrantes que enfrentaram dificuldades econômicas e sociais no Reino Unido, Bartlett cresceu sentindo o peso das expectativas familiares e os desafios de se adaptar a uma sociedade que frequentemente o fazia sentir-se um “outsider”. Essa fase inicial de sua vida é retratada como um terreno fértil para o desenvolvimento de qualidades essenciais para o sucesso – algo que outros autores, filósofos e líderes também destacam como fundamental.
As adversidades enfrentadas durante a infância – como o racismo, a exclusão social e as limitações financeiras, serviram como força motriz para sua ambição e perseverança. Ele aprendeu a transformar obstáculos em motivação, uma ideia amplamente abordada por Viktor Frankl em seu livro Em Busca de Sentido. Frankl argumenta que o sofrimento pode ser uma fonte de propósito, visto que é encarado como parte de um caminho para algo maior. Essa perspectiva também é reforçada por Angela Duckworth em Garra: O Poder da Paixão e da Perseverança. Duckworth afirma que o realização é resultado não só de talento, mas também de uma combinação de paixão e persistência. No caso de Bartlett, as dificuldades não o definiram como vítima, mas como um agente ativo em busca de mudança.
Essa busca proporciona a construção de competências diretamente ligadas a uma atitude de curiosidade extrema, autodidatismo e questionamentos. Ele abandonou a universidade por acreditar que a educação tradicional não atenderia às suas ambições, nem lhe promoveria tais atitudes.
Peter Thiel, cofundador do PayPal e investidor em diversas startups, como o Facebook (p.ex.), ao escrever o livro De Zero a Um, discorre sobre decisões semelhantes às de Bartlett, que transformaram a vida de muitas pessoas que hoje são referências no mundo corporativo e na vida político-social. Thiel critica o modelo educacional tradicional por sua falta de inovação e incentiva os jovens a explorarem caminhos alternativos para alcançar grandes feitos.
Bartlett também ecoa a filosofia de Søren Kierkegaard, que defende a importância das escolhas autênticas e individuais. Kierkegaard sugere que a verdadeira realização vem da coragem de viver de acordo com os próprios valores, mesmo que isso signifique ir contra as normas condicionais. Para Bartlett, abandonar a universidade não foi apenas uma decisão prática, mas um ato de afirmação de sua autonomia e confiança em sua visão.
Desde cedo, Bartlett trabalhou com seus pais para garantir a sobrevivência da família. Essa exposição ao trabalho árduo influenciou profundamente sua ética de trabalho. A ideia de que o esforço constante é a base do sucesso é corroborada por Malcolm Gladwell no livro Outliers (Fora de Série, na tradução brasileira) , onde ele apresenta o conceito das 10.000 horas de prática deliberada como requisito para o domínio de qualquer habilidade. Ninguém se torna virtuoso sem esforço contínuo, metodologia clara e objetivos definidos.
No entanto, Bartlett não romantiza o trabalho árduo. Ele reconhece que o sacrifício de seus pais, embora admirável, muitas vezes veio às custas de tempo em família e bem-estar emocional. Esse equilíbrio delicado entre trabalho e vida pessoal é um tema explorado por Clayton Christensen em Como Medir Sua Vida . Christensen argumenta que o verdadeiro sucesso não é medido apenas pelo progresso profissional, mas também pela qualidade dos relacionamentos e do propósito pessoal; um entendimento que Bartlett começou a desenvolver já em sua juventude.
Bartlett reflete sobre sua identidade como uma pessoa negra em um ambiente predominantemente branco e como isso influenciou sua percepção de si mesmo e de suas aspirações. Ele menciona que durante grande parte de sua infância, sentiu que precisava se provar mais do que os outros. Essa luta por validação externa é algo que Brené Brown discute no livro A Coragem de Ser Imperfeito, ao enfatizar como a vulnerabilidade e as deficiências são essenciais para superar o medo de não ser suficiente.
Por outro lado, essa busca por autoafirmação também pode ser vista sob a lente da filosofia de Friedrich Nietzsche, que apresenta o conceito do Übermensch (o “super-homem”) como alguém que transcende as limitações impostas pela sociedade e cria seus próprios valores. Bartlett, ao internalizar tais conceitos oriundos de suas lutas e dificuldades na infância, transformo-os em motivação para se tornar o arquiteto de seu próprio destino.
Sobre isso, Bartlett considera a importância do ambiente na construção daquilo que ele chama de determinação e foco para superar a deficiência financeira e a desigualdade social presentes nas circunstâncias de vida de sua infância. “O ambiente levou-me a ser criativo, disruptivo e proativo desde cedo”. Isso está alinhado com as ideias de Carol Dweck em Mindset: A Nova Psicologia do Sucesso, onde descreve como um ambiente que valoriza o crescimento pode estimular a mentalidade de aprendizado contínuo, enquanto ambientes limitadores podem sufocar grandes potenciais.
No entanto, ele também admite que nem todos conseguem superar as limitações dos seus ambientes. Mas há um contraponto esperançoso: enquanto o ambiente inicial pode influenciar, a força de vontade e a mentalidade aberta são as chaves para transcender essas barreiras.
Steven Bartlett usa sua infância e juventude como uma moldura para explorar temas universais de resiliência, autodeterminação e propósito. Ele não apenas narra sua história, mas oferece várias outras lições valiosas extraídas de sua experiência; e nisso, ele entende que aprender com os argumentos de outros compensadores, como Frankl, Duckworth, Thiel e Nietzsche, reforça a ideia de que as adversidades não precisam ser vistas como limites, mas como oportunidades de crescimento.
Essa primeira parte de O Diário de um CEO não é apenas uma introdução biográfica, mas também uma lição sobre como o início da vida pode plantar as sementes do sucesso (ou do fracasso), desde que sejam regadas com coragem, reflexão e trabalho contínuo. Bartlett nos mostra que, independentemente das situações, é possível assumir o controle da narrativa e construir um futuro que reflita valores e sonhos.
Segunda Parte 2: A Jornada Empresarial
O livro narra a criação e o crescimento meteórico da Social Chain, uma das maiores agências de mídia social do mundo. Bartlett compartilha detalhes sobre como começou o negócio com poucos recursos, mas com uma visão clara de como as redes sociais transformaram o marketing. Ele descreve os altos e baixos da construção de uma startup, desde momentos de euforia com o sucesso até episódios de combustão e dúvidas. Aqui, Bartlett fornece conselhos valiosos para aspirantes a empreendedores, como: a importância de entender profundamente o público-alvo; o papel do risco calculado e da ousadia na criação de algo inovador, a necessidade de construir equipes resilientes e motivadas e o desafio de desenvolver competências relacionais.
Na segunda parte de O Diário de um CEO, Steven Bartlett narra a criação e o crescimento da Social Chain, destacando como os desafios e conquistas ao longo de sua trajetória profissional requereram o desenvolvimento das competências fundamentais de um CEO. A jornada de um líder não é apenas sobre a construção de uma empresa ou organização; ela envolve uma transformação pessoal e profissional, na qual as habilidades técnicas, emocionais e estratégicas são continuamente lapidadas. Esse processo é amplamente corroborado por teorias de gestão e insights de líderes empresariais renomados.
Bartlett iniciou a Social Chain com recursos limitados, o que o forçou a enfrentar desafios significativos desde o início. Essas dificuldades moldaram sua resiliência, uma habilidade essencial para CEOs. Segundo o psicólogo Daniel Goleman, autor de Inteligência Emocional, a resiliência é uma das principais competências da liderança emocional, pois permite que o líder se mantenha calmo e objetivo em situações de alta pressão.
Além disso, a construção de competências para a resolução de problemas complexos foi consistentemente recorrente na trajetória de Bartlett. Os CEOs frequentemente lidam com cenários incertos e decisões multifacetadas, como alocação de recursos, estratégia de crescimento e gestão de crises. Ao enfrentar essas situações, Bartlett desenvolveu uma reflexão analítica e adaptável, características que o filósofo Nassim Nicholas Taleb destaca no livro Antifrágil. Taleb argumenta que os líderes que aprendem com adversidades não apenas sobrevivem, mas crescem em contextos imprevisíveis.
Um ponto crucial na jornada empresarial de Bartlett foi a criação de uma equipe resiliente e engajada. Ele percebeu que o sucesso da Social Chain dependia de sua capacidade de atrair, desenvolver, manter e liderar talentos. Esse aspecto destaca o papel das habilidades interpessoais no crescimento de um CEO, fundamenta nas competências da Inteligência Relacional.
Jack Welch, ex-CEO da General Electric, em seu livro Winning, afirma que os melhores líderes são aqueles que sabem como inspirar suas equipes, cultivando um ambiente de confiança e colaboração. Bartlett aprendeu que a empatia e a comunicação aberta não são apenas “atributos desejáveis”, mas requisitos para criar um espaço onde as pessoas se sintam valorizadas e motivadas. Ele internalizou a ideia de que um CEO deve ser um “líder servidor”, conceito popularizado por Robert Greenleaf. Isso significa que o papel do líder é capacitar sua equipe, removendo barreiras para que os colaboradores possam alcançar o desempenho máximo.
Bartlett transformou a Social Chain em uma das maiores agências de mídia social porque teve uma visão antecipada de tendências emergentes. Ele compreendeu, desde o início, o impacto crescente das redes sociais na forma como as marcas se conectam com os consumidores. Essa capacidade de olhar para o futuro é uma das competências mais críticas de um CEO, como enfatizado por Jim Collins em Empresas Feitas para Vencer . XXX
Collins argumenta que os CEOs visionários não apenas respondem às mudanças do mercado, mas como as antecipam, moldando o futuro do setor em que atuam. Bartlett desenvolveu essa visão estratégica ao monitorar constantemente o mercado, testando hipóteses e assumindo riscos calculados, algo que os CEOs fazem regularmente para manter suas organizações competitivas.
O crescimento de uma startup como a Social Chain envolve momentos de incerteza e riscos consideráveis. Bartlett destaca como a tomada de decisões em ambientes incertos foi um terreno útil para o aprendizado. Os CEOs precisam equilibrar riscos com oportunidades, muitas vezes tomando decisões com informações incompletas. “Não vivemos em mundos perfeitos; vivemos em mundos possíveis, como afirma Reis em “Gente Inteligente Se Olha no Espelho.”
John Kotter, especialista em liderança e autor de Acelerando a Mudança , afirma que líderes eficazes prosperam em ambientes ruidosos porque desenvolvem agilidade mental e aprendem a identificar padrões em meio ao caos. Bartlett internalizou isso às suas estratégias para gerenciamento de situações complexas, promovendo mudanças rápidas no mercado de tecnologia, promovendo o engajamento de pessoas e times com alto desempenho, e mantendo pressão por resultados.
Ao longo de sua jornada, Bartlett reforça a importância de estar em aprendizado constante. Ele menciona que as rápidas transformações no setor digital são projetadas para que se adquira novas habilidades e conhecimentos continuamente. CEOs que adotam o conceito de aprendizagem ao longo da vida demonstram maior capacidade de inovação e adaptabilidade.
Peter Senge, em A Quinta Disciplina, destaca que organizações que aprendem, lideradas por CEOs comprometidos com o aprendizado, têm uma vantagem competitiva significativa. Bartlett exemplifica isso ao demonstrar como um CEO deve ser um modelo de curiosidade, engajando-se em novas ideias e experiências que impulsionam o crescimento pessoal e organizacional.
A jornada empresarial de Bartlett também lhe ensinou a importância da inteligência relacional e emocional. Ele fala abertamente sobre os impactos do estresse e da exaustão para equilibrar as demandas de um negócio em crescimento. Daniel Goleman identifica isso com a autoconsciência e a autorregulação como pilares da inteligência emocional, ambos essenciais para CEOs que precisam gerenciar suas emoções enquanto lideram equipes sob pressão. Além disso, também há que se destacar que nenhuma competência se sustenta se não tiver por objeto sua aplicação na qualificação dos relacionamentos humanos, como demonstra Reis em Gente Inteligente Sabe Se Relacionar.
Bartlett começou a valorizar o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, reconhecendo que o sucesso empresarial não deveria custar seu bem-estar. Esse entendimento se alinha com as ideias de Arianna Huffington em Thrive , que defende uma conceituação mais ampla de sucesso, incorporando saúde, sabedoria e propósito.
A jornada empresarial de Steven Bartlett é um roteiro para o desenvolvimento de competências cruciais para sua atuação como CEO. Ele não apenas construiu uma empresa de sucesso, mas também se transformou em um líder mais resiliente, empático, visionário e adaptável.
A experiência prática de liderar a Social Chain trouxe a Bartlett lições que nenhuma sala de aula poderia ensinar. Como outros pensadores e líderes destacam, a jornada profissional é uma das maiores escolas de liderança. Os CEOs aprendem a navegar pela complexidade, a inspirar pessoas e a transformar desafios em oportunidades, habilidades que só podem ser refinadas na prática. A trajetória de Bartlett é uma prova de que a jornada é tão importante quanto o destino, pois é nela que os líderes se formam.
Terceira Parte 3: Liderança e Autoconhecimento
Um dos temas centrais do livro é sobre liderança, mas Bartlett aborda o tema de uma perspectiva muito pessoal. Ele admite suas falhas, como nos períodos em que foi um líder ineficaz devido à falta de empatia ou comunicação. No entanto, essas experiências o ensinaram que um bom líder não é apenas alguém que guia os outros, mas também alguém que se entende profundamente.
Ele discute a importância da vulnerabilidade na liderança, explicando que os líderes que são autênticos e transparentes criam conexões mais profundas com suas equipes. Bartlett também fala sobre o equilíbrio entre ser ambicioso e cuidar da saúde mental, destacando que o sucesso não pode ser alcançado à custa do bem-estar.
Essa visão se alinha aos conceitos desenvolvidos por pensadores da filosofia, psicologia e administração. Desde Sócrates, que defende o princípio do conhece-te a ti mesmo, até Daniel Goleman com a Inteligência Emocional e minhas contribuições (Reis) sobre a Inteligência Relacional, temos boas referências para a jornada de formação de um líder e/ou CEO. Nesse sentido, muito se pode aprender sobre ser líder e, O Diário de um CEO nos apresenta algumas reflexões substantivas sobre o tema.
Um dos conceitos mais influentes na conexão entre liderança e autoconhecimento é o de inteligência relacional. Bartlett, em sua trajetória, viu que muitas de suas perdas como líder vieram da falta de consciência sobre suas próprias limitações e inseguranças. Inicialmente, ele acreditava que um CEO deveria ter todas as respostas e demonstrar força o tempo todo. Com o tempo, aprendeu que assumir vulnerabilidades e considerar suas fraquezas o tornava um líder mais humano, mais acessível e mais efetivo. Com o tempo ele entendeu que não se faz nada sozinho e tudo o que se faz pressupõe relacionamentos com “diferentes”. Essa ideia é reforçada por Brené Brown, em A Coragem de Ser Imperfeito, ao afirmar que a liderança pressupõe a construção de redes relacionais em profunda interação de competências recíprocas e oportunidades de crescimento.
Um dos maiores desafios que Bartlett enfrentou em sua jornada como líder foi aprender a lidar com o próprio ego. Ele percebeu que, muitas vezes, suas decisões eram motivadas pela necessidade de validação externa, ou que priorizavam o sucesso pessoal em detrimento do grupo e do “projeto” como um todos. Essa reflexão encontra eco na filosofia estoica, especialmente nos ensinamentos de Sêneca e Marco Aurélio no livro Meditações.
Nos dias atuais, esse conceito foi amplamente discutido por Ryan Holiday em O Ego é o Inimigo. Superar a armadilha do egoísmo exacerbado significa aprender a escutar mais, delegar responsabilidades e aceitar críticas. Um líder eficaz não precisa ser uma pessoa mais inteligente do grupo, mas sim aquela que sabe reunir talentos em torno de um propósito maior.
Bartlett enfatiza que proteger o grupo é uma das qualidades mais poderosas de um líder. Em um mundo empresarial repleto de discursos ensaiados e posturas artificiais, ele percebe que os colaboradores e clientes valorizam a honestidade e a transparência. Esse conceito se alinha ao conceito de liderança autêntica que busca criar uma cultura empresarial onde a vulnerabilidade e a transparência são incentivadas. Em sua gestão, ele introduz práticas como feedbacks abertos, reuniões honestas sobre desafios da empresa e o compartilhamento de suas próprias dificuldades por meio de metodologias ágeis, que a Inteligência Relacional chama de “roda de conversas”, conversas circulares ou “conversas nutritivas”.
A psicologia organizacional reforça essa visão. Amy Edmondson, professora de Harvard, desenvolveu o conceito de segurança psicológica, onde defende que uma das maiores competências de um líder é ser capaz de fazer com que seus liderados sintam-se seguros diante dos desafios corporativos.
Outro aprendizado fundamental dessa mesma corrente é encontrar um equilíbrio possível entre habilidades e bem-estar. Durante anos, Bartlett se dedicou intensamente ao crescimento da Social Chain, sacrificando sua saúde e seus relacionamentos. No entanto, sua aprendizagem sobre isso reforça a ideia de que o verdadeiro sucesso não pode ser construído à custa do esgotamento e das demais doenças corporativas como burnout, depressão e ansiedade.
Essa lição dialoga com a visão de Arianna Huffington em Thrive , que nos desafia a aprender a equilibrar trabalho e vida pessoal. Essa é a grande contribuição que os processos de mentoria estão trazendo para as organizações e que foi um dos maiores desafios na jornada de Bartlett. Ele percebeu que os CEOs não devem apenas buscar apenas o crescimento financeiro de suas operações , mas também criar um impacto positivo na vida das pessoas ao seu redor. Entendimento que o levou a compensar sua abordagem de liderança, adotando práticas como mindfulness, pausas estratégicas e maior atenção ao bem-estar do seu time.
Bartlett entende e promove a ideia de que um CEO eficaz não é aquele que centraliza o poder, mas sim aquele que fortalece sua equipe, dando-lhe autonomia. Essa visão se aproxima do conceito de Liderança Servidora, proposta por Robert K. Greenleaf em “The Servant as Leader”, um ensaio publicado pela primeira vez em 1970.
Bartlett aplicou essa filosofia na Social Chain para criar uma cultura onde os colaboradores tivessem autonomia para inovar e tomar decisões. Ele entendeu que um CEO não precisa ser um ditador de regras, mas sim um facilitador de crescimento e de processos. Essa abordagem não apenas fortalece o engajamento da equipe, mas também cria um ambiente de alto desempenho e inovação.
A jornada de Steven Bartlett mostra que uma liderança eficaz não nasce apenas de habilidades técnicas ou conhecimento de mercado, mas sim de um profundo entendimento de si mesmo e das relações que constrói e mantem. CEOs que desenvolvem autoconsciência são capazes de tomar decisões mais equilibradas, comunicar-se de forma autêntica e criar culturas organizacionais mais saudáveis.
Por fim, a filosofia socrática, a inteligência emocional, a visão sobre o ego, os benefícios da ênfase no bem-estar e a Inteligência Relacional, convergem para fortalecer a tese de Bartlett: o sucesso de um líder começa no autoconhecimento em um mundo onde a pressão por resultados pode obscurecer a humanidade do gestor. A mensagem de Bartlett é clara: um CEO eficaz é aquele que primeiro aprende a conviver, depois aprende a ser, em seguida aprende a fazer, para enfim aprender a aprender.
Quarta Parte 4: Lições de Vida
Ao longo do livro, Bartlett compartilha reflexões práticas sobre como construir uma carreira e uma vida significativa. Algumas das principais lições incluem a
autenticidade como o ativo mais valioso, a integridade como expressão de identidade, a dignidade como forma de promover o humano e o respeito incondicional como garantia de um humanismo saudável. “Seja fiel a si mesmo e ao que você acredita, mesmo que isso signifique seguir um caminho não convencional”, reitera Bartlett.
Embora Bartlett tenha feito muito sucesso profissional, ele conclui o livro discutindo como o verdadeiro significado da vida vai além do trabalho e das realizações de materiais. Ele aborda a importância dos relacionamentos, do propósito e do impacto que deixamos no mundo. O autor incentiva os leitores a se concentrarem no legado que desejam construir e na felicidade genuína.
“O Diário de um CEO” é mais do que uma biografia ou um manual de negócios. É um convite para reflexão sobre como vivemos, vencemos e lideramos. Steven Bartlett combina vulnerabilidade, insights práticos e histórias de sobrevivência para criar um livro que ressoa tanto em aspirantes a empreendedores quanto em qualquer pessoa buscando uma vida mais plena e significativa. Mas, acima de tudo é um livro que promove a reflexão madura e desafiadora de quem quer assumir posições de liderança mais estratégicas.
Steve Bartlett aprendeu e compartilha que a vida profissional de empreendedores, executivos, empresários, gestores e candidatos a essas posições, não se caracteriza por uma jornada racional-linear. Muito pelo contrário. A incerteza é algo presente e que não deve a ser temida, mas sim compreendida e gerenciada. Esse pensamento se alinha a diversas abordagens da filosofia, psicologia e administração, que oferecem insights sobre como enfrentar o imprevisível e construir uma carreira sólida. Bartlett faz esse alerta para deixar claro que seu “livro” não é um oráculo, nem um manual; é apenas um relato que pretende ser inspirador e gerador de insights que promovam a construção de organizações mais humanas, gestores e líderes mais capazes de “servir” e colaboradores mais comprometidos e engajados em projetos com propósitos altruístas.
Para mim foi um prazer ler O Diário de um CEO. Recomendo fortemente a leitura, reflexão e o compartilhamento dessa obra, por tudo que ela tem de desafiador na construção de organizações, gestores e líderes que, de fato, representem a restauração do que seja “essencialmente humano” em nossas atividades profissionais.
Reflitam em paz!
Homero Reis
Consultor
[1]Proibida a reprodução do todo ou de partes desse texto, por qualquer meio, sem a autorização prévia e formal do autor. Homero Reis, homero@homeroreis.com. Brasília, fevereiro/25.

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Recentemente escutei um podcast em que Pedro Cardoso, (1962/… ), ator, redator, roteirista, autor, escritor e humorista brasileiro, expressou-se sobre algumas questões acerca do modo como os cristãos pensam a vida de Jesus. Provocativamente o ator pergunta sobre “do que Jesus salva a humanidade?”, afirmando que nunca lhe responderam tal questão. Pois bem, vamos a ela.

A salvação de si mesmo: a vida de Jesus como exemplo de humanidade plena
A humanidade, desde os primórdios, carrega consigo um paradoxo: ao mesmo tempo em que constrói civilizações grandiosas, também perpetua destruições, guerras e desigualdades. Ao tempo em que cultua o valor humanístico, exclui, segrega, discrimina. Ao tempo em que fala de fraternidade e paz, é incapaz de exercer tais conceitos. Na reflexão proposta por Pedro Cardoso, ao questionar “do que Jesus salva a humanidade?”, uma resposta emerge clara: Jesus salva a humanidade de si mesma.
Ele não traz uma salvação mística ou distante, mas um chamado para que o ser humano se reencontre sua própria humanidade, resgate a dignidade do outro e busque, na convivência amorosa, um mundo melhor. Sua vida é o mapa para a salvação. Sua vida é um convite a um projeto humano que transcende o egoísmo e a destruição.
Salvar-nos de nós mesmos é, antes de tudo, um ato de coragem. Significa encarar nossa arrogância, nossa busca desenfreada pelo poder, nossa incapacidade de perceber a beleza que reside nas diferenças e na pluralidade. Salvar-nos é romper com o ciclo vicioso da ganância, das guerras ideológicas, das desigualdades sociais e das violências cotidianas que praticamos, muitas vezes, de forma inconsciente. Jesus traz essa provocação. Sua vida não é uma doutrina fria ou uma ideologia vazia, mas um testemunho vivo de como o amor, a compaixão e a justiça podem transformar a humanidade.

Um reino que é contra a lógica do poder
Jesus era esperado como um rei. Há uma esperança humana quase incontrolável por um líder que destrua os opressores e instaure uma nova ordem. No entanto, ao contrário da expectativa de seu tempo, Jesus não busca substituir reis ou instituir um reino político. Seu reino é outro: é o reino em que a justiça se sobrepõe à lei, em que o amor integra e não exclui, em que o perdão tem mais valor que a vingança.
Esse reino é uma revolução silenciosa, subversiva, contra cultural. Ele contraria a lógica do poder que domina o mundo: enquanto o mundo busca a supremacia, Jesus ensina o serviço; enquanto o mundo exalta a força, Jesus celebra a mansidão; enquanto o mundo oprime os fracos, Jesus acolhe os vulneráveis. Quando lhe foi oferecida a oportunidade de falar em Atenas – o centro intelectual do mundo antigo – Jesus optou pelo Calvário, rejeitando o brilho do debate estéril que apenas explica, mas não transforma, optando pela demonstração clara da “vida a serviço da vida”.
A vida de Jesus: um exemplo de plenitude
Pedro Cardoso chama a atenção para um ponto crucial: muitos cristãos valorizam exageradamente a morte de Jesus, deixando de lado o significado de sua vida. O que Cardoso parece não perceber é que aqueles que assim o fazem, não entenderam o propósito da missão dele. De fato, é na vida de Jesus que encontramos o verdadeiro chamado à humanidade plena. Sua vida é uma declaração contínua do valor da existência humana, uma celebração da vida em si.
Jesus viveu para que outros pudessem viver. Ele celebrou a vida quando transformou água em vinho no casamento em Caná, ensinando que a alegria tem lugar especial na existência humana. Ele celebrou a vida quando trouxe luz aos olhos dos cegos, caminhou com os excluídos e resgatou a dignidade dos impuros e esquecidos. Ele celebrou a vida quando restaurou o caminhar do coxo, quando trouxe de volta a saúde da mulher com hemorragia, quando livrou a “pecadora” do apedrejamento, quando reconciliou aquele que o traiu três vezes.
Sua vida desafiou sistemas religiosos, políticos e sociais que oprimiam os mais fracos. Ele enfrentou a arrogância dos poderosos, não com espada ou violência, mas com palavras e gestos de justiça e acolhimento. Sua vida não se resumiu a milagres, mas ao exemplo de humanidade. Jesus reuniu inimigos em uma mesma mesa, reconciliou famílias divididas, devolveu a esperança aos que haviam desistido de viver.
O propósito de sua morte: uma declaração de vida
Por que então a morte de Jesus é tão celebrada? Porque sua morte é uma extensão de sua vida. Sua morte é a prova de que o amor verdadeiro não se dobra às forças da opressão. É um tributo à verdade e à vida que ele tanto defendeu. Na cruz, Jesus declarou que a vida é mais importante do que a própria existência. Sua entrega é um ato de resistência contra tudo o que desumaniza e diminui a dignidade humana.
Aqueles que valorizam apenas a morte de Jesus e esquecem sua vida, não compreenderam o significado de sua missão. Sua morte é a culminação de uma vida vivida com propósito, entrega e amor incondicional. Sua ressurreição, por sua vez, é a porta para a eternidade, a prova de que a vida é um ciclo que nunca termina.
O chamado: transcender a nós mesmos
Jesus nos convida a transcender. Transcender a lógica do egoísmo, do poder e da destruição. Transcender nossa visão limitada sobre o outro e sobre o mundo. Ele nos lembra que não somos tão importantes assim. Nossa arrogância nos leva a achar que o mundo é nosso. Ledo engano. Fazemos parte do mundo, com a responsabilidade de cuidar dele, conservando-o em sua generosa e abundante riqueza, com a sabedoria que emana da sustentabilidade.
Por isso, Jesus nos desafia a “olhar os lírios do campo”, a acolher o próximo como o “samaritano” o fez, a receber de volta o “filho pródigo”, a repartir o pão, a “dar também a túnica”, e a “andá a segunda milha”.
Jesus nos salva de nós mesmos ao nos mostrar que há um caminho melhor: o caminho do amor, da compaixão e da justiça. Ele nos convida a viver uma vida que faz sentido, uma vida que celebra a existência do outro e que busca transformar o mundo em um lugar mais justo e mais humano.
Ao olharmos para a vida de Jesus, encontramos uma resposta clara para a pergunta de Pedro Cardoso: Jesus salva a humanidade dela mesma, oferecendo um exemplo vivo de como devemos viver. Sua vida é um convite permanente a sermos melhores, a reconstruirmos o que está quebrado e a reencontrarmos nossa própria humanidade.
Reflitam em paz!
POR HOMERO REIS©
PROIBIDA A REPRODUÇÃO DO TODO OU DE PARTES DESSE TEXTO, POR QUALQUER MEIO, SEM A AUTORIZAÇÃO PRÉVIA E FORMAL DO AUTOR. HOMERO REIS, HOMERO@HOMEROREIS.COM. BRASÍLIA, DEZEMBRO/2024

by HOMERO REIS ©[1]
“Inteligência” é a capacidade de se “ler dentro de alguma coisa”. Ler dentro dos relacionamentos é o conceito básico de inteligência relacional. Nesse texto quero aplicar esse conceito no entendimento do que está acontecendo no mundo do trabalho, considerando o resultado de uma pandemia recente, a instalação durante ela do “home office” e as consequências de tudo isso para os relacionamentos entre as pessoas e para as organizações.
Nos últimos tempos o trabalho remoto ganhou muita força, principalmente considerando as experiências das organizações durante e depois da pandemia de COVID-19. No começo, parecia uma solução perfeita: sem trânsito, horários mais flexíveis, trabalhar em casa com mais autonomia, foco nos resultados e não na burocracia da legislação trabalhista, insumos da tecnologia, etc.
Mas, com o tempo, as consequências do trabalho remoto começaram a aparecer, notadamente em decorrência de temas sobre os quais tínhamos muita teoria, mas pouco experimento com tal nível de globalidade. Impactos na vida privada decorrentes do fato de que somos seres relacionais, nos fizeram perceber que existe uma demanda “quase que inconsciente” de contatos entre “diferentes” como uma forma de manter minimamente a saúde das relações entre pessoas e o senso comum de “humanidade”.
De fato, o trabalho por sua natureza coletiva, também tem um certo nível saudável de demandas de dependência uns dos outros, o que é vital para a produtividade e saúde humanas. Afinal, somos seres que atuam em redes relacionais.
Uma das grandes questões do trabalho remoto, percebida como experiência real, foi a falta de contato entre as pessoas. No escritório, a gente acaba trocando ideias, desabafando sobre o dia a dia e criando laços com os colegas, explorando outros temas que “não fazem parte do trabalho”, mas que fazem parte da vida e do que chamamos de humanidade. Já em casa, essa interação fica limitada e o resultado é que muitos se sentem sozinhos e desconfortáveis, mesmo cercados dos que se constituem como núcleo familiar seja ele de que natureza for.
Esse isolamento causou vários problemas e suas consequências apareceram nas estatísticas de saúde e produtividade em todos os institutos de pesquisa. A revista FORBES, a mais conceituada publicação sobre o mundo dos negócios, em recente artigo (setembro/24), mostrou como cresceu, nos últimos 36 meses, a tristeza, a depressão, o bournout, principalmente dentro dos espaços corporativos. A conclusão é de que o isolamento e o trabalho remoto tem muito a nos dizer sobre as origens dessas patologias emocionais.
Muitas vezes, a gente nem percebe o quanto essas pequenas interações cotidianas fazem diferença no nosso bem-estar. No início do trabalho remoto, a produtividade pareceu aumentar dada a liberdade que se tinha de se “trabalhar do jeito que a gente quiser e quando quiser”. A ideia era de que “o importante é a entrega e o acordo sobre expectativas”.
Mas, no andar da carruagem a gente acabou percebendo que a redução da interatividade interpessoal em seu aspecto físico-presencial, afetou a saúde e, como consequência, os resultados. Ou seja, aquilo que melhoramos em termos de desempenho, foi consumido pelo aumento das doenças ocupacionais. Daquelas que conhecíamos e das tantas outros que estamos a descobrir depois.
As reuniões online que, apesar de funcionais, são mais objetivas e diretas, deixam pouco espaço para conversas informais e troca de ideias espontâneas. Aqueles momentos de “brainstorm” ou uma conversas no corredor que geram insights, se perderam e aquilo que parecia ser muito bom, não foi tão bom assim.
Esse cenário tem um impacto forte não só na saúde mental, mas também nos índices dos resultados. O isolamento pode fazer com que as pessoas se sintam mais tristes, e, com o tempo, isso evolui para algo mais sério, como a depressão e outras “dificuldades”.
A falta de separação entre a vida pessoal e o trabalho também aumentou e o risco de esgotamento deixou de ser risco para ser uma realidade. Quando o escritório está em casa, muita gente acaba se sentindo “presa” no trabalho o tempo todo e o espaço sagrado da intimidade foi devastado pelo whatsapp a qualquer hora do dia ou da noite. É difícil desligar. Mas também é difícil desligar o chefe com síndrome do trabalho compulsivo.
A pessoa trabalha mais horas do que deveria, além de ficar com um sentimento de culpa latente, associado a um cansaço físico e mental não percebido.
Diante desse cenário, muitas empresas estão tentando encontrar um equilíbrio entre as vantagens do trabalho remoto e do trabalho presencial. O chamado modelo híbrido que combina o melhor do trabalho remoto e do presencial, permite que os colaboradores tenham liberdade para escolher onde e quando trabalhar, de acordo com suas necessidades e conforme os acordos feitos com as equipes e com a empresa.
Esse modelo tem ganhado popularidade à medida que as organizações registram que nem todos os funcionários se adaptam bem ao home office integral, mas, ao mesmo tempo, querem preservar as vantagens da flexibilidade, equilibrando suas responsabilidades profissionais e pessoais de maneira mais eficaz.
Foi isso que um cliente meu expressou depois de um programa de inteligência relacional. “Eles (colaboradores e gestores), podem trabalhar em casa em dias em que precisam estar perto da família ou quando têm compromissos pessoais, mas também podem ir ao escritório em momentos em que precisam de um ambiente mais colaborativo com reuniões presenciais. Estou satisfeito com os resultados.”
A promoção de momentos presenciais periódicos para fortalecer os laços da equipe são fundamentais, mas o que muda no novo cenário do trabalho híbrido é que a escolha desses momentos não é mais uma imposição gerencial; antes, passa a ser um acordo entre pessoas maduras que entendem suas responsabilidades e compromissos.
Esses encontros são usados para atividades estratégicas, como sessões de planejamento, brainstorming ou treinamentos, mas também para momentos de socialização, como confraternizações, que ajudam a construir relacionamentos mais fortes entre todos, deixando a opção do trabalho remoto para as atividades operacionais e de caráter personalíssimo.
No fim das contas, o trabalho remoto tem suas vantagens, mas também traz muitos desafios que precisam ser enfrentados. A falta de contato e o isolamento são questões sérias, e é fundamental que as empresas estejam atentas a isso.
Então, o futuro do trabalho parece caminhar-se para um modelo mais flexível, onde cada vez mais será possível aproveitar o melhor dos dois mundos: a liberdade do home office e a interação do trabalho presencial, considerando que essa combinação promove tanto a produtividade quanto o bem-estar de todos. Afinal, o que todo mundo quer é encontrar o equilíbrio perfeito entre a vida pessoal e o trabalho, sem abrir a mão da saúde e da qualidade de vida relacional.
Na Homero Reis – Relações Inteligentes (www.homeroreis.com), estamos ajudando as organizações a encontrarem esse caminho mais adequado para uma nova “cultura” do trabalho. Nosso desafio junto aos nossos clientes tem sido o de promover espaços de responsabilidade e protagonismo, a partir da flexibilidade cognitiva, que nos permite construir juntos novos paradigmas para as relações de trabalho e produção.
A partir da inteligência relacional, buscamos encontrar soluções que atendam à necessidade das organizações de melhorarem seus resultados, mas também das pessoas de melhorarem sua qualidade de vida em todos os domínios do viver. Isso porque entendemos que “existe vida para além do trabalho”, mas é no trabalho que se constrói uma parte significativa de nossa identidade social e de nosso propósito existencial.
Resolvemos isso com muitas estratégias que promovem uma combinação possível (não perfeita), entre trabalho remoto e presencial, integrando as pessoas em uma cultura acolhedora, participativa e geradora do senso de pertencimento. Essas estratégias tem minorado significativamente a saúde de todos, fortalecido o senso de cooperação e colaboração, reduzindo custos e aumentado a interatividade de todos.
Os temas mais comuns que aparecem nesses projetos híbridos e que tem sido objeto de nossa oferta ao mercado, são:
Fazemos isso a partir de dois grandes eixos andragógicos: mentorias e transferência de tecnologia. No primeiro, construímos junto com os clientes um processo educacional a partir das melhores práticas, de modo que cada um se torne um multiplicador da nova cultura do trabalho dentro da organização em que atua.
No segundo, promovemos a transferência de conteúdos para a organização, de modo que ela “ganhe tempo” na instalação de novos paradigmas nas relações de trabalho e produção, focando em resultados e qualidade de vida.
É assim que atuamos.
Seja bem-vindo à Homero Reis – Relações Inteligentes.
Venha conversar conosco.
Abraços.
Homero Reis
Sócio-fundador.
[1] © proibida a reprodução do todo ou de parte desse texto sem a prévia autorização do autor. Direitos reservados a REIS, Homero; Brasília/DF, setembro/2024. homero@homeroreis.com

Entenda, Lide e Supere
por Homero Reis©
A vida e os relacionamentos humanos são complexos e cheios de circunstâncias nem sempre agradáveis, claras e objetivas. Muito pelo contrário. Vivemos em redes relacionais em intensa interação onde as interferências recíprocas são muito mais amplas do que “supõem nossa vã filosofia”. Mas, considerando a história da humanidade, começamos a estudar há muito pouco tempo os impactos (causas e consequências) de nossas interferências recíprocas em nossa saúde pessoal, social e emocional.
É fato que o que nasce da barriga da mulher é a reprodução biológica da espécie; mas, o que nos torna seres humanos é nossa vida sócio-comunitária porque “ser humano é ser social”. É nesse sentido que somos a origem e o destino de nossas competências e fracassos. Com essa distinção básica, começou-se a estudar o que as interações sociais promovem em termos de identidade e de saúde tanto na sociedade como nos indivíduos. Desde então, muitas coisas foram sendo explicadas e entendidas, mas muitas questões novas estão surgindo desses estudos. Dentre elas, o que se tem até o momento como o mais complexo dos sentimentos, e como um dos aspectos mais difíceis de serem compreendidos e cuidados é a questão da rejeição. Nos sentimos rejeitados, aprendemos a viver com isso e rejeitamos os outros num ciclo vicioso contínuo. Mas, amos conversar sobre isso.
Conceituando melhor o termo: Rejeição é uma palavra que evoca uma gama de emoções e experiências complexas. Desde os primeiros dias de nossa existência até os estágios mais avançados da vida, todos nós nos encontramos em muitos momentos, confrontados por esse sentimento desconfortável. Mas o que exatamente é rejeição? Como ela afeta nossa mente, nossas emoções e nosso comportamento? O que filósofos, educadores e religiosos dizem sobre a rejeição? E, o mais importante, como lidar com ela e ser capaz de superar esse desafio emocional?
A rejeição é a sensação de ser excluído, abandonado ou não aceito. Ela pode ser experimentada em diversas formas e em diferentes contextos. Pode ocorrer de forma sutil, como um olhar de desaprovação, uma frase dita por alguém, ou de maneira mais direta e ostensiva, como ser demitido de um emprego, rejeitado em um pedido de amor. Rejeitar alguém significa resistir às suas diferenças, desqualificá-lo a partir de preconceitos, desprezar ou recusar algo ou alguém por qualquer que seja a razão. Estudos mostram que dentre todas as “tragédias humanas”, a rejeição é a que gera as feridas emocionais mais profundas e dolorosas. A dor que ela provoca é mais intensa que a dor da perda e da morte de alguém que amamos muito. O que é mais grave é que a rejeição se faz presente em todos os âmbitos da vida e não se conhece nenhuma mecânica social que não a tenha em seu escopo. Todos os indivíduos, povos, línguas, culturas e raças, ao longo de todo o tempo viveram (ou vivem) situações de rejeição. Isso ocorre desde as relações sociais nucleares, até as relações entre estados, povos e nações.
A rejeição ocorre quando um indivíduo é deliberadamente excluído de uma relação ou interação social por outro indivíduo ou por grupos inteiros, incluindo aí a rejeição de seus pares, a rejeição dos afetos, a étnica, cultural e a rejeição familiar, além das que decorrem de preconceitos de qualquer natureza.
Além disso, a rejeição pode ser ativa, quando promove a exposição do outro ridicularizando-o, desqualificando-o (bullying), ou; passiva, quando ignora o outro. Mas, em qualquer caso, a experiência de ser rejeitado ou de viver circunstâncias inevitáveis de rejeição, embora seja subjetiva, gera inúmeras consequências objetivas na vida. Seus efeitos mais comuns aparecem travestidos de isolamento social, sentimento de exclusão e cancelamento, quebra de vínculos afetivos, “síndrome do estrangeiro”, além de solidão, baixa autoestima, agressividade, depressão, insegurança, dificuldades afetivo-relacionais, dentre outras.
A rejeição é especialmente dolorosa porque a necessidade de interação com outros seres humanos é uma necessidade básica e essencial para a construção de nossa identidade. Segundo Maslow (falarei dele mais a frente), todos os seres humanos, mesmo aqueles mais introvertidos, precisam ser capazes de dar e receber afeto para serem psicologicamente saudáveis. O contato simples ou a interação social eventual com os outros não é suficiente para atender a essa necessidade. As pessoas necessitam formar e manter relacionamentos interpessoais significativos e estáveis para satisfazer necessidades de amar e ser amado, como de pertencimento social. Se algum desses ingredientes (pertencimento e amor), estiverem faltando, as pessoas começarão a sentir-se solitárias e infelizes. Por isso a rejeição é uma ameaça significativa. De fato, a maioria das ansiedades humanas parece decorrer de preocupações sobre a questão da rejeição.
O modo como o indivíduo espera ser reconhecido no meio em que vive é um componente-chave para a qualidade da autoimagem e do modo como ele atua me sociedade. Tanto é que um estudo da Duke University, conduzido por Mark Leary (2022), sugeriu que o objetivo principal da autoimagem é monitorar nossas relações sociais e detectar a possibilidades de rejeição. Nesse estudo, a autoimagem aparece como uma medida da nossa capacidade de tolerar a exclusão. Quando essa taxa é baixa, aparecem comportamentos antissociais (solidão, isolamento, agorafobia, etc); bem como comportamento agressivo, desatenção, impulsividade e altas taxas de ansiedade.
Depois que o indivíduo “admite” viver em estado de rejeição, ou sucumbe-se a esse estado, tende a julgar impossível livrar-se dele e sua vida, no sentido mais amplo, passa a ser determinada por desmotivações, vitimismo, resistência à mudança, comportamento excessivamente rotineiro. No estudo da Duke University, pesquisadores descobriram que, a rejeição quando internalizada como “conduta normal do mundo”, promove quebra de conexões sociais e um vazio existencial preenchido, muitas vezes, por sentimentos de preconceitos e tirania, dando lugar à angústia constante.
É importante considerar que o tema da rejeição é amplo e a maneira como ela pode se manifestar, em diferentes áreas da vida, é complexo e diverso em cada contexto. As principais formas de manifestação do “sentimento” de rejeição, começam com a exclusão passiva por um grupo social ou por alguém, e segue com rompimento amoroso ou preferência familiar, até rejeição profissional, como não ser selecionado para um emprego ou receber críticas negativas reiteradas vezes. Ela também pode ocorrer de maneira sutil, como não ser convidado para um evento, ou de forma mais direta, ser insultado ou menosprezado por outras pessoas.
A rejeição tem um impacto significativo no bem-estar mental e emocional, desencadeando uma série de emoções negativas, como tristeza, raiva, vergonha e ansiedade. Além disso, repetida ou prolongada contribui para o desenvolvimento de problemas de saúde mental, como transtornos obsessivo compulsivo, e as já citadas depressão, baixa autoestima e transtornos de ansiedade.
A rejeição cria um ciclo vicioso e negativo de vergonha crônica em que a pessoa começa a internalizar a mensagem de que não é digna de amor ou aceitação, se envergonha por isso e, por isso passa a acreditar que não é digna de amor e aceitação. Isso leva a um padrão de pensamento e comportamento que tende à autodestruição.
Do ponto de vista psíquico, a rejeição ativa áreas do cérebro associadas à dor física, sugerindo que ela pode ser percebida pelo nosso cérebro como uma forma de lesão emocional. Isso explica por que a rejeição pode ser tão dolorosa e difícil de superar. A psicologia oferece insights valiosos sobre como a rejeição funciona e como podemos lidar com ela. A Teoria da Autodeterminação, (p.ex.), afirma que todos nós temos uma necessidade inata de nos sentir conectados e aceitos pelos outros. Quando essa necessidade não é atendida, experimentamos a dor da rejeição. A resiliência como capacidade de suportar e se recuperar de adversidades e desafios, incluindo a rejeição, é outro indicador importante. A psicologia nos ensina que a resiliência não é algo inato, mas sim uma habilidade que pode ser desenvolvida através de práticas e estratégias específicas que nos fortalecem contra os “estragos” da rejeição.
Freud (Sigmund), ofereceu várias contribuições importantes para a compreensão da rejeição enquanto fenômeno psíquico. Embora ele não a tenha abordado diretamente em sua obra, muitos de seus conceitos e teorias são relevantes para a forma como entendemos esse fenômeno.
Na teoria do complexo de Édipo (p.ex.), usada para explicar o desenvolvimento da sexualidade infantil e a formação do superego, Freud defende que durante a fase fálica do desenvolvimento psicossexual, as crianças desenvolvem desejos inconscientes pelo genitor do sexo oposto e hostilidade em relação ao genitor do mesmo sexo. A resolução bem-sucedida desse complexo envolve a identificação com o genitor do mesmo sexo e a internalização dos valores e normas sociais, enquanto a rejeição desses desejos pode levar a conflitos psíquicos e distúrbios emocionais. A resolução do complexo de Édipo pressupõe a competência para se lidar com a rejeição.
Freud também descreveu uma série de mecanismos de defesa que o ego utiliza para lidar com conflitos e ansiedades. A negação (p.ex.), é um mecanismo de defesa pelo qual a pessoa recusa aceitar uma determinada realidade dolorosa ou perturbadora. Nesse caso, a rejeição é uma forma de negação, onde o indivíduo tenta negar ou minimizar o impacto emocional de uma experiência de exclusão ou não aceitação.
Na teoria sobre o narcisismo, Freud discute a questão do amor-próprio e da autoestima. Para ele o narcisismo saudável consiste em ser capaz de reconhecer sua beleza e de estimar-se por isso, sendo natural ao desenvolvimento humano uma “alta” autoestima. Mas, quando em excesso, o narcisismo leva à rigidez psíquica e à incapacidade de lidar com o fato de que os outros podem discordar de nós. Nesse caso, a rejeição pode ser particularmente desafiadora para os indivíduos com um alto grau de narcisismo, pois ameaça a imagem idealizada de si mesmos.
Embora Freud não tenha tratado explicitamente da rejeição como um fenômeno isolado, suas teorias sobre o desenvolvimento psicossexual, os mecanismos de defesa e o narcisismo oferecem insights importantes sobre como a rejeição pode ser entendida e abordada do ponto de vista psicanalítico. A partir desses conceitos, os psicanalistas contemporâneos continuam a explorar a dinâmica da rejeição e seu impacto na vida mental e emocional dos indivíduos.
Do ponto de vista filosófico, muito se fala sobre a rejeição. Vários filósofos ao longo da história exploraram o tema, oferecendo perspectivas valiosas sobre esse aspecto da experiência humana. Por exemplo, Søren Kierkegaard, o filósofo dinamarquês do século XIX, pai do existencialismo, abordou a rejeição em sua obra “O Conceito de Angústia”. Nela ele explora a ideia de que a rejeição é uma manifestação da angústia existencial, resultante da liberdade e da responsabilidade do indivíduo. Kierkegaard argumentava que a rejeição é uma parte inevitável da busca pela autenticidade e pelo significado na vida. A questão está em saber lidar com ela e não sucumbir-se a ela.
Já Friedrich Nietzsche discutiu a rejeição em relação ao conceito de ressentimento em sua obra “Genealogia da Moral”. Ele sugeria que a rejeição surge como uma reação à inferioridade percebida em relação a outra pessoa ou grupo. Nietzsche via a superação do ressentimento e da rejeição como uma parte essencial do projeto de “maturidade humana “e da afirmação da vontade de poder.
Sartre (Jean-Paul), o existencialista francês, explorou a rejeição em sua filosofia da liberdade e da responsabilidade individual. No livro “O Ser e o Nada”, argumenta que a rejeição é uma consequência inevitável da liberdade de escolha. Ele enfatizava a importância de assumir a responsabilidade por nossas próprias ações, mesmo quando enfrentamos a rejeição dos outros. Para ele, cada escolha pressupõe a renúncia de infinitas outras possibilidades. Saber renunciar é saber lidar com a rejeição.
Michel Foucault examinou a dinâmica do poder e da exclusão social em sua análise das instituições sociais e do controle disciplinar. Na obra “Vigiar e Punir”, ele descreveu como a rejeição pode ser utilizada como uma ferramenta de controle social, marginalizando aqueles que desafiam as normas estabelecidas. Foucault destacava a importância de resistir à rejeição e de lutar contra as estruturas opressivas do poder.
Esses filósofos (dentre tantos), oferecem uma variedade de perspectivas sobre a rejeição, desde sua relação com a angústia existencial e o ressentimento, até sua conexão com a liberdade e o poder. Suas ideias continuam a influenciar o pensamento contemporâneo sobre esse tema complexo e universal.
Mas o que os educadores falam sobre a rejeição? À semelhança da filosofia, os educadores também têm na rejeição um tema estruturante de suas teorias. Jean Piaget, um dos educadores mais influentes e pai do construtivismo, quando tratou do desenvolvimento cognitivo infantil, não se concentrou especificamente na rejeição, mas nos trouxe importantes princípios, no contexto educacional, que têm contribuído com perspectivas sobre como a rejeição pode afetar o processo educacional e o desenvolvimento das crianças. Suas teorias esclarecem como elas lidam com o conflito e a desaprovação. Piaget enfatizou a importância do jogo simbólico e da interação social na aprendizagem das crianças. Ele argumentava que as crianças constroem ativamente seu próprio conhecimento por meio da exploração e da experimentação. O conflito cognitivo entre a construção da identidade e a rejeição natural dos outros, desempenha um papel crucial nesse processo.
Vygotsky, outro importante teórico do desenvolvimento infantil, tem ideias relevantes para o tema da rejeição no processo educacional, com repercussões na vida adulta. Ele enfatizou o papel do ambiente social na aprendizagem das crianças, argumentando que a interação com os outros e a participação em atividades culturais e sociais são fundamentais para o desenvolvimento cognitivo. Vygotsky introduziu o conceito de “zona proximal de desenvolvimento”, que se refere ao espaço entre o que uma criança pode fazer sozinha e o que pode fazer com a ajuda de um adulto ou colega mais experiente. No contexto educacional, a rejeição por parte dos colegas ou dos professores pode afetar negativamente a autoestima e o engajamento dos alunos, limitando assim seu acesso à zona proximal de desenvolvimento e seu potencial de aprendizagem. Tal processo cria mecanismos que se repetirão na vida adulta. Quando alguém entende que está sendo rejeitado, sua mobilização e seu potencial para a vida, são profundamente reduzidos.
Carl Rogers também abordou questões relacionadas à educação e ao desenvolvimento pessoal, nos dando boas pistas para se entender o efeito da rejeição na vida. Ele enfatizou a importância da aceitação incondicional e do respeito genuíno no processo educacional, argumentando que os alunos prosperam em um ambiente onde se sentem valorizados e respeitados como indivíduos. A rejeição por parte dos professores ou dos colegas, mina a autoestima e a autoconfiança, prejudicando o desempenho acadêmico, profissional, relacional e o bem-estar emocional.
Na hierarquia das necessidades psicológicas de Abraham Maslow, depois de satisfeitas as necessidades básicas (fisiológicas: comer, beber, etc), todos os demais níveis (segurança, social, estima) presumem reconhecimento e aceitação. Segurança e pertencimento são o contraponto à rejeição que, quando não “processada” ameaça toda a estabilidade psicossocial das pessoas e dificulta o processo de aprendizagem, desenvolvimento e engajamento social.
Howard Gardner, conhecido por sua teoria das inteligências múltiplas, mentes que criam e estruturas da mente, também enfatiza a importância do reconhecimento e da valorização das habilidades e talentos únicos de cada um, num contexto de aceitação e acolhimento. A rejeição, ao surgir, pode nos fazer sentir inadequados ou desvalorizados por não nos encaixar em determinado padrão “de sucesso”, o que prejudica substantivamente a autoestima e motivação para a vida.
Carol Dweck, conhecida por seu trabalho sobre a mentalidade de crescimento, sugere que as crenças das pessoas sobre suas próprias habilidades influenciam seu comportamento e desempenho. No contexto relacional, Dweck argumenta que nossas habilidades podem ser desenvolvidas através do esforço e da prática e, se associado a isso também se tem um contexto de aceitação dessas habilidades pelo grupo social, exponencializa-se o desempenho e a saúde tanto da pessoa como da “comunidade”. Por outro lado, se esse contexto é de rejeição, as perdas pessoais e sociais são enormes. A rejeição desencadeia uma mentalidade de “fixação”, onde as pessoas se veem como incapazes de mudar ou melhorar, prejudicando assim seu desempenho, sua motivação para aprender e seu compromisso com a vida. Dweck vai mais além quando afirma que a rejeição é uma forma extremamente agressiva de relacionamentos tóxicos e abusivos.
Na religião cristã, a abordagem da rejeição segue a linha da complexidade, refletindo uma combinação de ensinamentos bíblicos, interpretações teológicas e práticas espirituais que atuam a partir de dois argumentos: 1) A rejeição é um fenômeno decorrente do pecado. O homem rejeitou a Deus e, por isso sofre as consequências de sua escolha; 2) A salvação em Cristo restaura a relação do homem com Deus, afastando a rejeição e criando um novo homem e um povo que vive a partir do amor. Esse povo é chamado de “igreja de cristo”, “corpo de Cristo”, “Reino de Deus”.
As perspectivas da rejeição, do ponto de vista da fé cristã, em seus aspectos negativos e positivos, podem ser resumidos assim:
1. Deus é amor e aceita e ama incondicionalmente cada indivíduo, independentemente de suas falhas ou imperfeições. Essa aceitação divina é vista como uma fonte de segurança e consolo para aqueles que se sentem rejeitados pelos outros.
2. A morte e ressurreição de Jesus Cristo, dá a todas as pessoas a oportunidade de serem perdoadas e reconciliadas com Deus. Isso significa que, mesmo quando nos sentimos rejeitados pelos outros ou por nós mesmos, podemos encontrar esperança e renovação na fé em Cristo, pela aceitação de seu sacrifício na cruz e de sua condição de Senhor.
3. A comunidade cristã (igreja), é vista como um lugar de acolhimento e apoio mútuo, onde os membros são encorajados a se amarem e cuidarem uns dos outros. Os cristãos são chamados a praticar a empatia, a compaixão e a solidariedade, oferecendo conforto e apoio àqueles que estão enfrentando a rejeição.
4. Para os cristãos, a identidade do indivíduo não está enraizada nas opiniões ou julgamentos dos outros, mas sim na sua relação com Deus em Cristo Jesus, como filhas e filhos amados. Isso significa que a rejeição por parte dos outros não define quem somos, pois nossa identidade é encontrada em nossa fé em Cristo.
5. A fé cristã ensina que, mesmo diante da adversidade e da rejeição, podemos encontrar força e esperança na promessa de Deus de que Ele está conosco em todas as circunstâncias. Essa confiança na providência divina nos capacita a perseverar e a superar os desafios que enfrentamos.
A religião cristã aborda a rejeição como um desafio humano comum, mas oferece uma perspectiva de esperança, amor e aceitação divinos, juntamente com o apoio da comunidade de fé. Esses ensinamentos proporcionam conforto e orientação para aqueles que lidam com a rejeição, incentivando-os a encontrar significado e propósito em sua relação com Deus e com os outros.
Aqui vão alguns textos bíblicos que abordam o tema da rejeição: Salmo 27:10 (NVI): “Embora meus pais me abandonem, o Senhor me receberá.” Isaías 53:3 (NVI): “Foi desprezado e rejeitado pelos homens, um homem de dores e familiarizado com o sofrimento. Como alguém de quem os homens escondem o rosto, foi desprezado, e nós não o tínhamos em estima.” Mateus 21:42 (NVI): “Jesus lhes disse: ‘Vocês nunca leram nas Escrituras: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; isso vem do Senhor, e é algo maravilhoso para nós’. “Lucas 20:17 (NVI): “Jesus olhou para eles e perguntou: ‘Então, o que significa o que está escrito: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular’?” João 1:11 (NVI): “Ele veio para o que era seu, mas os seus não o receberam.” Romanos 9:33 (NVI): “Como está escrito: ‘Eis que ponho em Sião uma pedra de tropeço e uma rocha que faz cair; mas aquele que confia nela jamais será envergonhado’.”
Esses textos e tantos outros, refletem diferentes aspectos da rejeição, desde a experiência de ser abandonado pelos outros até a rejeição de Jesus Cristo pelos que o cercavam durante seu ministério terreno. No entanto, eles também transmitem a mensagem de esperança e redenção, mostrando como Deus pode transformar a rejeição em algo significativo e poderoso.
Mas, a boa notícia é que todos esses filósofos, psicólogos, educadores, sociólogos, e as orientações da fé cristã, oferecem perspectivas valiosas sobre a rejeição, tanto no seu aspecto diagnóstico, como na capacitação para se saber lidar com ela. Todos os que estudam o tema destacam a importância de se construir ambientes relacionais que promovam a aceitação, respeito mútuo e o reconhecimento das habilidades e potencialidades únicas de cada um, bem como a valorização das diferenças de cor, raça, sexo e cultura. Se assim o for, a dinâmica da pluralidade-aceita cria uma mentalidade de crescimento, de apoio e incentivo para que todos, juntos, enfrentem os desafios de construir vidas e sociedades mais adequadas e saudáveis.
Aqui estão algumas perspectivas e estratégias que fomentam relacionamentos mais saudáveis, mais inclusivos, acolhedores e menos promotores da rejeição:
1. A promoção da empatia e da inclusão a partir do entendimento das experiências e perspectivas uns dos outros, reduz o potencial de rejeição e exclusão.
2. O desenvolvimento de habilidades sociais e a convivência entre diferentes é fundamental para lidar com situações de rejeição. A prática de habilidades como comunicação eficaz, resolução de conflitos e trabalho em equipe, ajudam a construir relacionamentos saudáveis e resilientes.
3. A valorização da autoestima e da autoconfiança fortalecem o desenvolvimento e a estruturação da autoimagem positiva e de uma autoestima bem alicerçadas. A importância do elogio, do feedback, da educação continuada, da mentoria constante e da valorização da autonomia, são fundamentais.
4. As estratégias de enfrentamento e confrontamento saudáveis para se lidar com a rejeição e a adversidade, são bem-vindas. Isso inclui técnicas de relaxamento, respiração profunda, mindfulness, competências conversacionais, bem como o desenvolvimento de habilidades de pensamento positivo e resiliência emocional.
5. A criação de uma cultura de segurança, de honestidade intelectual, de flexibilidade cognitiva e de resolução de problemas complexos em grupos heterogêneos, reduz sensivelmente o senso de rejeição, promovendo abertura para a relacionamentos inteligentes e fornecendo recursos e orientação para se enfrentar as circunstâncias da vida social.
6. Programas educacionais de prevenção de bullying para organizações e instituições de todas as naturezas, incluindo treinamento para gestores e funcionários sobre aceitação e respeito é fundamental. A intervenção imediata quando comportamentos e falas inadequadas são identificados, é um princípio muito eficaz. A ideia é promover em toda a sociedade, ambientes seguros, inclusivos e solidários, neutralizando qualquer expressão preconceituosa. Ao fornecerem orientação, apoio e recursos, esses programas ajudam as pessoas a desenvolverem habilidades e resiliência para enfrentar os desafios da vida e construir relacionamentos saudáveis e significativos.
Do ponto de vista pessoal, lidar com a rejeição é desafiador. Mas, existem várias estratégias e atitudes que podem nos ajudar a enfrentá-la de forma saudável e construtiva:
1. Reconheça e aceite seus sentimentos de rejeição. É normal se sentir triste, magoado ou zangado. Permita-se experimentar essas emoções, mas lembre-se de que elas não definem quem você é. Converse sobre isso com alguém competente em que você confia.
2. Reflita sobre como você está reagindo à rejeição. Está se culpando ou se depreciando? Tente identificar pensamentos distorcidos e substituí-los por pensamentos mais realistas e compassivos.
3. Busque apoio em amigos, familiares ou profissionais de saúde mental. Compartilhar seus sentimentos com outras pessoas pode ajudá-lo a se sentir compreendido e apoiado. Mentorias e processos terapêuticos são muito úteis.
4. Cultive uma autoestima saudável, reconhecendo suas qualidades e valor pessoal. Lembre-se de que a rejeição de uma pessoa ou situação não significa que você não seja digno de amor e aceitação.
5. Veja a rejeição como uma oportunidade de crescimento e aprendizado. Pergunte a si mesmo o que você pode aprender dessa experiência e como pode usá-la para se fortalecer no futuro. Seja proativo.
6. Priorize o autocuidado físico, emocional e mental. Cuide de si mesmo praticando atividades que o façam sentir-se bem, como exercícios, meditação, hobbies ou passatempos.
7. Evite se fixar no passado ou se preocupar demasiadamente com o futuro. Concentre-se no momento presente e nas coisas que você pode controlar.
A rejeição é uma parte inevitável da experiência humana, mas não precisa nos definir ou nos limitar. Ao compreendermos o que é rejeição, como ela nos afeta e como podemos lidar com ela, podemos aprender a transformar essa experiência desafiadora e dolorida, em uma oportunidade de crescimento e fortalecimento pessoal. Com práticas e atitudes positivas, podemos nos libertar do peso da rejeição e seguir em frente em direção a uma vida mais plena e satisfatória, lembrando sempre de que não estamos sozinhos nessa jornada.
E você, gostou?
Faz sentido essa reflexão?
Vamos conversar sobre o tema?
Acesse-me em homero@homeroreis.com; ou @homero.reis
Reflita em paz!
Homero Reis©.
Curitiba/PR, abril/2024

Pensadores em todos os tempos e das mais diferentes orientações sempre buscaram metáforas para construir modelos para explicar o que é a mente humana, o que a compõe e como ela funciona. John Locke a descreve como uma “tábua em branco ou tábula rasa” onde toda a nossa experiência sensorial é gravada. Para Locke nascemos sem conhecimento e nossa compreensão do mundo é moldada pela experiência, incluindo aí a educação como sendo a “forma como somos ensinados a pensar e a interpretar as coisas. Aristóteles, por sua vez, entendia a mente como um espelho que reflete a realidade externa.
Nessa metáfora, a mente é passiva e recebe informações do mundo ao seu redor, refletindo-as de volta na forma de pensamentos e percepções. Alguns filósofos modernos, como Gilbert Ryle, defendem a ideia da mente como uma máquina, argumentando que os processos mentais podem ser entendidos em termos de operações mecânicas, químicas e físicas. A Mente como um Jardim, é uma metáfora encontrada em algumas tradições filosóficas orientais, que a descreve como um espaço a ser cultivado a partir das “sementes” que elegemos escolher daquilo que os sentidos captam da realidade. Como um jardim pode ser cultivado para produzir flores bonitas e frutas saudáveis, a mente pode ser cultivada através da prática da meditação e do cultivo de pensamentos positivos.
William Shakespeare e outros, associavam a mente a um teatro, onde os pensamentos e emoções são encenações de histórias (enredo) que contamos sobre nós mesmos e sobre as coisas que acontecem conosco. Nessa metáfora, personagens, cenário e história criam o espetáculo da vida. Somos os autores, atores e os espectadores do drama que se desenrola dentro de nós mesmos. Essas são apenas algumas das muitas metáforas existentes, que os pensadores têm usado ao longo da história para descrever a complexidade da mente humana. Cada uma delas oferecendo uma perspectiva única sobre a natureza e o funcionamento da mente, contribuindo para o entendimento da experiência humana.
No entanto, uma explicação se faz necessária. É preciso deixar claro a diferença entre mente e cérebro. Vou fazer isso rapidamente. A Mente humana é um conceito abstrato e multifacetado. Refere-se ao conjunto de processos mentais e experiências subjetivas que ocorrem dentro da consciência de um indivíduo. Isso inclui pensamentos, sentimentos, percepções, memórias, desejos, crenças e imaginação, entre outros aspectos da experiência humana. A mente é responsável por nossa experiência subjetiva do mundo e por nossa capacidade de reflexão, autoconsciência e autorreflexão.
O cérebro, por sua vez, é um órgão físico do corpo humano, parte do sistema nervoso central, situado dentro do crânio. Ele desempenha diversas funções vitais, como controlar os movimentos corporais, processar informações sensoriais, regular funções autônomas (como respiração e batimentos cardíacos) e realizar funções cognitivas complexas, como pensamento, memória e emoção. O cérebro é composto por bilhões de células nervosas, chamadas neurônios, que se comunicam entre si por meio de sinais elétricos e químicos. ETop of Form
E Enquanto o cérebro é um órgão físico responsável por processar informações e controlar diversas funções corporais, a mente é um conceito mais amplo que se refere aos processos mentais e experiências subjetivas que ocorrem dentro da consciência de um indivíduo. O cérebro fornece a base física para esses processos mentais, mas a mente transcende o funcionamento puramente biológico do cérebro, envolvendo aspectos emocionais, cognitivos, sociais e espirituais da experiência humana.
Então, quero prosseguir refletindo sobre nossa mente. Apesar das inúmeras formas de se tentar representá-la, há um fator comum em toda a literatura sobre o tema: temos a consciência (mais ou menos) de que somos habitados por diferentes formas de ver o mundo. Essas formas coexistem e coabitam o mesmo “espaço” em nosso corpo, mas nem sempre estão de acordo entre si. Metaforicamente falando, essas “diferentes formas de ver o mundo” podem ser vistas como personagens autônomas com identidades próprias. Às vezes um lado de nós concorda com algo, enquanto outro lado discorda veementemente. Pensamos e fazemos coisas que “um lado aprova e o outro rejeita”. A dúvida é, de fato, um diálogo entre essas identidades (personagens) que nos habitam simultaneamente. Cada uma delas, pode-se assim dizer, é um “ser” antagônico aos demais que “luta para manter-se no domínio”.
Nesse vasto universo da mente humana, existe um baile eterno de personagens internos. Personagens que, como astros em órbita, cada um com sua própria luz e sombra, dançam ao redor do núcleo central que chamamos de “eu”. São eles que compõem a complexa sinfonia que somos nós mesmos: pai, amigo, esposo, filho, profissional, o lado bom, o lado ruim, a luz e a sombra, a “carne e o espírito – todos eles têm seu lugar nessa dança, cada um com sua própria trajetória, suas próprias influências, suas próprias histórias.
Há dias em que esses personagens fluem em harmonia, como estrelas cadentes pintando o céu noturno com sua beleza efêmera. Mas há dias em que suas órbitas se chocam, criando uma chuva de meteoros interna, onde conflitos existenciais promovem colisões de interesses e geram o caos. Imagine, se quiser, o turbilhão dos movimentos mentais que esse fenômeno promove e observe de perto esses personagens em seu eterno ballet psíquico. Quem nunca se percebeu em conflito consigo mesmo?
De um lado o ser protetor, do outro o rebelde. Um personagem amoroso com ideais de proteção e cuidado convivendo com outro anárquico, egoísta e pronto a desconstruir tudo. De um lado a responsabilidade da orientação e do amor incondicional. Do outro um ser rebelde e inquieto em busca de sua própria identidade, desafiando as convenções, testando os limites do espaço ao seu redor. O amigo leal e o inimigo convivendo num diálogo sem fim sobre como se conduzir na vida. O desejo de ser uma estrela guia e a vontade inquieta de “colocar fogo no mundo”. Um lado está cheio de luz, o outro navega na sombra. Ao lado do amigo, há uma presença mais sombria – o inimigo interior. Ele sussurra dúvidas e medos, espalhando uma sombra que obscurece a visão clara do caminho à frente. É uma batalha constante entre a confiança e a autossabotagem, entre a luz e a escuridão. Um lado é bom, o outro não.
Compondo a plêiade de personagens que nos habitam, há o profissional determinado, uma estrela de realizações e ambições. Ele trabalha incansavelmente para alcançar suas metas, navegando pelas correntes turbulentas do mercado de trabalho com habilidade e destreza. Sua luz é intensa, refletindo o brilho do sucesso conquistado com esforço e dedicação. A seu lado, como um cometa destrutivo, está o crítico implacável. O perfeccionista doentio que aponta cada falha, cada imperfeição, lançando sombras sobre os triunfos do profissional e dúvidas sobre sua competência. É uma dança perigosa entre a autoconfiança e a autocrítica, onde o menor deslize pode resultar em colisão catastrófica.
A esposa apaixonada, uma estrela de amor e compromisso, pilar de apoio em tempos de turbulência, a chama que aquece os momentos mais frios da vida. Luz suave e constante, ilumina os cantos mais escuros da alma com seu calor reconfortante. Ao seu lado, a amante proibida representando os desejos ocultos, as fantasias não realizadas, as tentações que espreitam nas sombras da rotina. É uma batalha entre o dever e o desejo, entre a fidelidade e a tentação, onde o coração é dividido entre dois mundos distintos.
A dualidade eterna – o lado bom e o lado ruim, são como luz e trevas, sempre em conflito, sempre em equilíbrio frágil. Um lado busca a paz, a compaixão, a bondade que nos habita. O outro instiga o caos, arquiteta a destruição, sussurra tentações nas horas mais escuras da noite. Sua escuridão é profunda, envolvendo os corações em um abraço gélido, corroendo a pureza com sua influência nefasta.
Assim, a mente atua num ciclo interminável de luz e sombra, de conflito e harmonia, de vida e morte. Cada personagem interno tem seu papel a desempenhar, sua própria história a contar, sua própria órbita a seguir. No centro de tudo isso, somos nós mesmos, navegando pelo vasto cosmos da alma, tentando encontrar nosso lugar neste universo infinito de possibilidades.
Diante do intricado panorama de personagens internos que nos habitam, é natural que nos encontremos em constante conflito e em busca de equilíbrio. Reconhecer a existência dessas múltiplas facetas da nossa identidade é o primeiro passo para uma jornada de autoconhecimento e crescimento pessoal. É o primeiro passo para aquilo que chamamos de maturidade, de saúde psíquica, de inteligência nos relacionamentos.
Mas, como podemos lidar com essa dinâmica intensa dos personagens internos que nos habitam? Como lidar com eles e como manter uma certa coerência diante de tantas controvérsias internas? As respostas não são fáceis, nem muito menos simples. Não há manual sobre isso. Mas existem algumas recomendações que nos podem ser úteis.
O primeiro passo para se lidar com nossos personagens internos é desenvolver a autoconsciência. Reconhecer e compreender as diferentes facetas da nossa personalidade nos permite identificar padrões de comportamento e emoções associadas a cada personagem. Isso abre a possibilidade de intervir nas atuações desses personagens “reescrevendo seus roteiros de vida” e, como diretores dessa peça teatral que é a nossa vida, alterar a importância que tais personagens tem na história que estamos contando.
O segundo passo é aceitar cada um dos personagens que nos habitam. Eles fazem parte de quem somos. Não se pode negar sua existência nem, ingenuamente, julgar que eles não têm importância nesse condomínio que somos nós. Em vez de reprimir ou negar aspectos mais sombrios, devemos aceitá-los como parte integrante da nossa identidade. A aceitação não significa aprovação, mas sim reconhecimento e compreensão de que eles lá estão. Nosso desafio é saber lidar com eles.
Em seguida, buscar o equilíbrio entre os diversos personagens internos. Esse equilíbrio é essencial para uma vida harmoniosa e saudável. Envolve aprender a integrar e gerenciar as diferentes partes de nós mesmos, reconhecendo que cada personagem tem seu papel a desempenhar, mas nenhum deve dominar completamente o cenário.
Segue-se a isso, a pratica da auto empatia. É fundamental ser empático conosco mesmos para se lidar com os conflitos internos. Isso significa cultivar uma relação auto-amorosa e compassiva consigo mesmo, reconhecendo que todos nós somos seres humanos imperfeitos e merecemos compaixão, perdão e acolhimento. Mas cuidado. A empatia tem também seu lado sombrio que é a vitimização. Entenda que você não é a vítima da sua vida. Antes, é o protagonista de sua história. Portanto, use a empatia para alavancar a proatividade.
O próximo passo é ser capaz de manter um saudável diálogo interno. Desenvolver as conversas privadas (conversas internas), é essencial para resolver conflitos e tomar decisões alinhadas com nossos valores e objetivos. Isso envolve aprender a escutar as diferentes vozes dentro de nós e buscar soluções que levem em consideração as necessidades e aspirações de todos os nossos personagens internos. Todos eles têm uma razão de existir e, portanto, um propósito na rede relacional da qual participamos no mundo. Esse diálogo interno nos fornece um rico material emocional e cognitivo que deve ser considerado quando tomamos nossas decisões.
Cuide-se, priorizando o equilíbrio entre os personagens internos. Isso envolve cuidar da nossa saúde física, mental, relacional e emocional, reservando tempo para atividades que nos tragam prazer e bem-estar, mas também desafios para superação de nós mesmos. Estabeleça limites, mas ouse avançar; respeite as regras e normas, mas considere desobedecer; seja acolhedor, mas não se omita; estabeleça limites saudáveis, mas não tenha medo de perder; seja responsável, mas não se prive dos riscos; seja acolhedor, mas não queira agradar a todos; misture-se, mas seja diferente; relacione-se, mas cuide de sua individualidade.
Ao seguir essas recomendações e cultivar uma relação mais consciente e harmoniosa com os múltiplos personagens que nos habitam, podemos nos tornar protagonistas da nossa própria jornada de autoconhecimento, crescimento pessoal e realização. Em vez de serem fontes de conflito e angústia, esses personagens internos podem se tornar aliados na busca por uma vida mais autêntica, significativa e plena, lembrando que “erros só existem quando a experiência não é usada como aprendizado que se manifesta no modo de viver a vida”.
E você, gostou? Faz sentido essa reflexão? Vamos conversar sobre o tema!
Reflita em paz!
Homero Reis©.
Curitiba/PR, abril/2024

Relacionamentos Inteligentes
Por Homero Reis ©
Ah, o amor inabalável entre pais e filhos, tão cheio de ternura, compreensão e… bem, quem sabe um pouco de sarcasmo? Vamos encarar, a ideia de que laços sanguíneos significam laços de afeto é tão antiquada quanto escrever telegramas ou escutar discos de vinil. Hoje em dia os valores são outros e as construções afetivas são construídas a partir de outras lógicas. O fato é: as relações afetivas paterno-filiais existem, mas não da forma como existiam em um passado recente, concordemos ou não. Saber atuar no cenário dos relacionamentos nos dias de hoje é difícil e o tempo está sempre contra nós porque tudo muda numa velocidade que não permite que nada se solidifique: valores se alteram, tudo é permitido, os limites se dissolvem no ar juntamente com tudo aquilo que dávamos por certo há poucos instantes. O melhor que se tem desse contexto é que pais e filhos estão totalmente confusos ou perdidos e, o que é pior, cada um acha que está “mais certo” do que o outro, sem dar ao outro o espaço necessário para entender o que está acontecendo.
Dia desses um pai me disse assim: “nessa questão dos relacionamentos com meus filhos, pare o mundo que eu quero descer. Não os entendo e sei que não sou entendido. Às vezes tenho a sensação de que somos estranhos que habitam o mesmo espaço. O que eu esperava ter com meus filhos está longe de ser o que temos e, tenho certeza de que eles também pensam assim. A questão é que a gente sente isso mas não faz nada para mudar. A gente não consegue se explicar, o outro não consegue entender e tudo continua do mesmo jeito”. De fato, a realidade é muito diferente das expectativas. Mas deixe-me lhes dizer como tenho vivido isso. Comigo não tem sido muito diferente dos pais (e filhos) com quem tenho conversado. Aliás, não tem sido diferente nem em inúmeras conversas com minha terapeuta. A gente acaba vivendo num fluxo normal com algumas pitadas de esquizofrenia social, pequenos dramas e tragédias eventuais, mas nada que nos mobilize de fato para promover uma reflexão ativa sobre o tema dos amores e afetos entre pais e filhos. É assim que inicio esse texto, que espero, possa lhe ser útil. Quero refletir sobre os relacionamentos paterno-filiais numa jornada trágica-cômica (ou pode ser ao contrário), através dos meandros tortuosos da parentalidade e da descendência, onde o amor é questionável, as brigas são frequentes, os conflitos são o prato do dia e o respeito já deixou de ser servido. Não quero ser categórico. Nesse mar de incertezas existem algumas ilhas.
Começo com umas declarações clássicas, “raras, mas que acontecem sempre”, que tenho escutado cada vez nos círculos que frequento. É claro, escutado das mais diversas formas e com muitos disfarces. Coisas do tipo: “Eu sou assim porque sou seu filho; não pedi para nascer; ela é igual à mãe; você não sabe de nada; você não manda em mim; não sou eu que vai realizar o seus sonhos”. Essas declarações presumem que a genética e a circunstância sócio-parentais são as mais fortes concorrentes a culpadas por todas as falhas de comportamento, caráter e dificuldades relacionais que vivemos. Claro, as falhas nos afetos e nos relacionamentos não tem nada a ver com a maneira como você foi criado, suas influências externas, seus ciclos expandidos de influências recíprocas ou suas próprias escolhas. Não, é tudo culpa dos nossos queridos progenitores, que convenientemente se tornam os bodes expiatórios de todas as nossas imperfeições e dificuldades afetivas. “Ah, mãe, se eu sou preguiçoso é porque herdei isso de você, aprendi isso em casa, certo? Somos espelhos um do outro”. Outra: “sou assim porque você vive me enchendo o saco”. É como se a sociologia doméstica fosse um álibi perfeito para todos os dramas comportamentais. E quando se trata de pais, há sempre aquela acusação clássica: “Você não me acrescenta nada. Deixa que eu me viro”. Ah, sim, porque claramente os pais existem apenas para serem almoxarifados emocionais, fornecendo amor, apoio e conselhos ininterruptos sem nunca esperar nada em troca. Como se a mera existência deles não fosse o suficiente para nos dar uma base sólida para a vida. “Não preciso de você para nada”, escutei um filho dizer enquanto deleitava-se com o fato de ter sido financiando nos estudos, na sustentação da vida, no teto sobre sua cabeça, na comida na mesa, na enfermidade e na certeza de o “leite nasce na geladeira, assim como no videogame, na viagem à Disney”. Sim, realmente os pais não acrescentam nada, exceto, você sabe, tudo. É incrível como às vezes usamos a desculpa de “eu sou assim porque sou seu filho, ou porque nasci nessa (ou naquela) família”, como um passe livre para todos os dramas nos relacionamentos como se nossos pais fossem uma fábrica de defeitos e nós simplesmente escolhêssemos aqueles que mais nos convêm. “Você sempre foi tão cabeça-dura e teimoso!” Como se pudéssemos, magicamente, alterar nossa genética, cultura familiar ou a maneira como nos educaram para evitar que herdássemos características indesejadas. Claro, porque se há algo que os pais adoram fazer é escolher os piores traços de personalidade para passar adiante. Então, onde isso nos deixa na grande questão do amor entre pais e filhos? Bem, talvez não seja tão simples quanto uma linha reta de afeto incondicional. Talvez seja uma dança complicada de expectativas não atendidas, ressentimentos mal direcionados, falta de conversa e amor verdadeiro que persiste, apesar de tudo. Porque, no fundo, mesmo quando estamos resmungando sobre “como nossos pais são antiquados, inadequados e desatualizados” e os acusando de serem egoístas porque tudo se trata deles, há um vínculo indelével que nos une, não importa o quanto tentemos negá-lo. E daí que, apesar de toda a ironia e sarcasmo, há uma verdade subjacente que não se pode ignorar: o vínculo entre pais e filhos, embora muitas vezes complicado e repleto de conflitos, é profundamente significativo. Mesmo quando estamos ocupados reclamando sobre os hábitos ultrapassados deles, de serem egoístas e de só pensarem em si, há um amor genuíno que persiste, um amor que transcende as diferenças e os desentendimentos. Isso é difícil de entender, mas de fato existe.
Mas, de repente, a maturidade chega. Às vezes mais cedo, às vezes mais tarde. Só se espera que não chegue “tarde demais”. A maturidade desempenha um papel crucial nos relacionamentos entre pais e filhos. (Haja paciência para espera-la acontecer). É natural que os filhos, especialmente a partir da adolescência, com ênfase no início da idade adulta, questionem a autoridade de seus pais e busquem afirmar sua própria identidade e independência. Isso muitas vezes leva a conflitos e desafios, na medida em que os jovens adultos lutam para encontrar seu lugar no mundo e definir suas próprias crenças e valores.
Sabe-se que no início da vida as relações são de dependência. Os filhos dependem dos pais e, por isso, vendo-os suprir todas as suas necessidades, os veem também como heróis. Com o tempo a figura heroica se desfaz em si mesma e surge o outro ciclo: o ciclo da independência. Nesse momento, os filhos no início da vida adulta, já se julgam sabedores de tudo e conhecedores dos meandros da vida e de sua mecânica. Criticam os pais, desejam ser “filhos de outros”, tem soluções para tudo, declaram conhecimento profundo sobre coisas complexas que desafiam a humanidade desde os primórdios. Nunca vi pessoas mais cheias de certezas do que jovens adultos. Mas, o bom disso tudo, é que tudo passa. Nada melhor do que alguns tombos para se entender que nada é tão óbvio como parece. Depois de um tempo chega o tempo da interdependência. Nesse novo ciclo, os filhos que conseguiram conquistar a “maturidade” descobrem o valor de seus pais e entendem o que eles foram, são e poderão continuar a ser até que a vida se encerre. Minha torcida é para que isso não aconteça tarde demais. Porque é isso que escuto de muitos filhos: devia ter convivido mais, devia ter conversado mais, devia ter sido mais paciente, “devia ter amado mais, chorado mais, ter visto o sol nascer…” como diz aquela música dos Titãs. Devia… devia… devia. Então, por que não o fazem?
Creio que é aí que entra a questão da honra. Honrar pai e mãe é um preceito imperativo na cultura judaico-cristã e uma ideia profundamente enraizada em muitas culturas e tradições ao redor do mundo. Originário de princípios éticos e morais, esse “mandamento” geralmente é interpretado como uma instrução para mostrar respeito, gratidão e reverência aos pais. Mas, a ideia transcende as fronteiras da religião e se torna uma parte fundamental da ética familiar em muitas sociedades. Honrar pai e mãe não se trata apenas de seguir ordens cegamente, mas de reconhecer o papel vital que os pais desempenham em nossas vidas e demonstrar apreciação por isso. Honrar pai e mãe também significa reconhecer de onde viemos e valorizar essa origem como ponto de partida de toda a nossa história pessoal, seja ela qual for. É respeitar a autoridade paterno-maternal e escutar seus conselhos, preservar a figura “genitora” e seguir seus legados, quando apropriados. Embora possamos discordar deles, e isso é mais comum do que se imagina, é importante reconhecer sua sabedoria e experiência, especialmente em questões importantes sobre o ciclo da vida. Normalmente os pais são “mais velhos que os filhos”; já viram e já passaram por mais coisas do que os filhos. Isso lhes dá, pelo menos, a autoridade de afirmar que tudo passa. Portanto, “fiquem tranquilos, meus filhos, isso vai passar (seja o que for)”.
Mas nessa conversa toda, sempre tem os interlocutores mais objetivos. Foi o caso de um “colega” ciclista que, durante o nosso pedal em que falávamos sobre o tema, perguntou-me objetivamente. –Tá bom, mas você pode dar alguns exemplos de como honrar pai e mãe? Exemplos de como resolver a questão prática do amor? – Claro, respondi. No meu modo de ver, aqui vão algumas possibilidades:
1. Respeite a autoridade de seus pais: Isso inclui considerar suas regras e diretrizes quando estamos sob seu cuidado, especialmente durante a infância e a adolescência; e, na fase adulta, ser capaz de lhes dar relevância. Mesmo quando discordamos, é importante expressar nossa opinião de maneira respeitosa e solene, até mesmo quando um entendimento mútuo não seja possível. O respeito é a taça sagrada que se enche com amor. Amor sem respeito é insustentável, respeito sem amor é formalidade.
2. Expresse gratidão: Mostre apreciação pelos sacrifícios e esforços que foram feitos por você ao longo dos anos. Tenho certeza que você não tem a menor ideia do quanto seus pais se esforçaram; e, se tem, reconheça isso. Expressar gratidão pode ser feito através de palavras sinceras de agradecimento, gestos de carinho e reconhecimento de suas contribuições para a vida.
3. Passe tempo com eles: Demonstre que você valoriza a companhia deles e que quer estar presente em suas vidas. Isso pode incluir visitas regulares, telefonemas, e-mails ou mensagens de texto, especialmente se você mora longe deles. Mas também requer “pequenas ações elegantes”; ou seja, surpreenda-os com um programa inusitado e/ou pequenos gestos criativos que fujam da rotina. A desculpa da vida corrida, da agenda apertada e de “cada um tem sua vida”, pode até ser “politicamente correta”, mas não cola mais; a não ser para aliviar sua consciência.
4. Cuide deles na velhice: Assumir a responsabilidade de cuidar de seus pais à medida que envelhecem, é um fator de honra. Faça isso generosamente, mas não queira ser “o pai dos seus pais”. Garanta que tenham o apoio necessário em termos de saúde, finanças e bem-estar emocional. Os pais, quando envelhecem, não se tornam incapazes. Talvez um pouco ranzinzas e com algumas manias. Repetem histórias e piadas. Ria disso, mesmo que já tenha escutado algumas vezes. Para você não é novidade, mas para eles é história. Cuidar pode envolver ajudá-los com tarefas cotidianas, tomar decisões médicas em seu nome e garantir que estejam seguros e confortáveis. Nem sempre os pais estão tão conectados com o mundo moderno e, talvez, não tenham tanta facilidade com as “coisas desse tempo” como você gostaria. Portanto, cuide.
5. Escute seus conselhos: Reconhecer a experiência e sabedoria de vida de seus pais e considerar a opinião deles em questões importantes da vida, como carreira, relacionamentos e saúde é uma forma de demonstrar amor e honra. Embora nem sempre você vá concordar, é importante escutar suas perspectivas e levar em consideração seus caminhos pela vida. Mas escute também suas histórias e se interesse honestamente sobre como elas se deram. Seja curioso e atento. Esse escutar alivia a ansiedade da vida, reduz a insegurança, promove um pouco mais de clareza quanto ao futuro e gera senso de pertencimento.
6. Defenda o nome e reputação de seus pais: Proteja a dignidade e a integridade de seus pais e faça isso tanto em público quanto em particular. Essa é uma forma de respeito. Significa evitar falar mal deles, envergonhá-los ou expô-los. Em vez disso, fale com orgulho sobre suas realizações e qualidades. Defenda-os não como paradigmas de virtude, mas como pessoas que lhes precederam e que trazem no corpo e na alma as marcas do caminho.
7. Perdoe e deixe ir ressentimentos passados: Reconheça que seus pais são seres humanos com falhas e imperfeições, e esteja disposto a perdoá-los por erros passados. Isso não significa esquecer as mágoas do passado, mas sim libertar-se do peso do ressentimento e cultivar um relacionamento mais saudável e positivo. Se nem sempre seus pais “acertaram na mosca”, saiba que nunca tiveram a intenção de errar.
Esses são alguns exemplos práticos que dei ao meu “colega de pedal”, de como se pode honrar pai e mãe em nossas vidas. No entanto, é importante lembrar que a maneira como expressamos esse respeito e gratidão pode variar de acordo com as circunstâncias individuais e o tipo de relacionamento que temos com eles. O importante é cultivar um vínculo baseado no amor, respeito e compreensão mútuos.
Outro aspecto que deve ser considerado é a necessidade de pais e filhos atuarem juntos para construir um relacionamento saudável e significativo, baseado na confiança, no apoio mútuo e no amor incondicional. Isso envolve práticas de expressão e apreciação de afetos, resolução de conflitos de forma construtiva e cultivo de um ambiente familiar onde todos se sintam valorizados e respeitados; e, acima de tudo, entender que é melhor viver em paz “do que estar certo”. A vida do afetos paterno-filiais, não é uma competição. Considere também como os desafios e conflitos existentes entre pais e filhos podem ser oportunidades para crescimento e fortalecimento relacional. Em vez de evitar ou ignorar os momentos difíceis, construa conexões mais profundas onde você e seus pais podem aprender a enfrentar juntos, as situações que vão surgindo na vida em função da idade e das acontecências históricas que se nos acometem a todos. Lembre-se, com a idade, um dia você chegará lá. Como diz o ditado popular, você não pode mudar sua origem, mas pode construir um belíssimo final.
E você, gostou?
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Vamos conversar sobre o tema.
Reflita em paz!
Homero Reis©.
Curitiba/PR, abril/2024

Pertencer a uma cultura, um país, uma família, a uma tribo, um grupo social é a maior demanda do ser humano. O não pertencimento gera quebra de vínculos e conexões, sendo a principal causa dos problemas de saúde emocional e relacional. Pesquisas afirmam que “não pertencer” gera desajustes sociais, sociopatias, distúrbios emocionais, agressividade, solidão e desequilíbrios relacionais. Queremos ser e fazer parte de algo que tenha significado, que seja maior do que nós mesmos e que nos forneça um propósito para a vida. Queremos pertencer e fazer parte de coisas que sejam significativas na família, no trabalho, nos relacionamentos.
Pertencer a algo, ou “pertencimento” (termo usado na literatura que trata desse assunto), é conceituado como o sentimento de estar conectado, aceito e integrado a um grupo, comunidade ou identidade compartilhada. É a sensação de fazer parte de algo maior onde nos identificamos e encontramos um lugar de propósito, aceitação e significado. O pertencimento não apenas proporciona uma rede de apoio relacional e emocional, mas contribui para o desenvolvimento da identidade pessoal e coletiva, influenciando a autoestima, os valores e comportamentos. Essa conexão com outros indivíduos ou entidades sociais é fundamental para o bem-estar psicológico, social e emocional das pessoas, influenciando diretamente sua qualidade de vida, seu senso de realização, seu propósito e trabalho.
A necessidade de pertencimento é uma característica fundamental da natureza humana, profundamente enraizada em nossa psicologia e evolução social. Desde os primórdios da humanidade os seres humanos têm vivido em grupos, tribos e comunidades, onde o pertencimento não só proporciona segurança física, mas também emocional e psíquica. A busca por pertencimento é motivada pela necessidade de conexão, identidade e significado, e é gerada pela natureza gregária de nossa espécie.
Quando uma pessoa se sente excluída ou desvinculada de qualquer grupo ao qual ela pertença ou aspire pertencer, tem como consequência uma série de desajustes. Além da solidão, o sentimento de não pertencimento pode causar ansiedade, depressão e baixa autoestima, potencializando sofrimentos crônicos e outros distúrbios mais graves.
A sensação de pertencimento está intimamente ligada à nossa identidade e autoestima. Quando nos identificamos com um grupo, seja ele uma família, uma cultura, uma religião, uma comunidade online ou qualquer outra forma de associação social, isso nos dá uma sensação de propósito e significado, nos ajudando a encontrar nosso lugar no mundo e a compreender nosso papel na sociedade. Os grupos oferecem o apoio necessário para ajudar seus membros a enfrentar desafios e as dificuldades da vida a partir do princípio da reciprocidade. Eles oferecem amizade, camaradagem e um senso de conexão que pode ser vital para o bem-estar sócio-emocional. Pertencer a algo ou a alguma coisa nos proporciona apoio para a jornada humana. O caminho sempre é mais fácil quando se caminha junto.
Sentir-se excluído ou não pertencente é o estopim (ou o gatilho) para fomentar ciclos de isolamento que se tornam em solidão crônica com efeitos devastadores em todos os domínios da vida privada e social. O sentimento de exclusão quebra o vínculo humanístico, descaracterizando nossa natureza humana. As consequências disso podem chegar a níveis em que o indivíduo já não se reconhece mais como “ser humano”, além de não reconhecer o outro, também como tal. (P.Ex.) Em extremo, mas não tanto, o suicídio se ancora no despertencimento e na quebra de vínculos com a vida.
Portanto, é crucial reconhecer a importância do pertencimento e trabalhar para criar comunidades inclusivas e acolhedoras onde todos se sintam valorizados e aceitos. Isso requer esforços tanto a nível individual quanto coletivo para promover a compreensão, a empatia e a tolerância em relação às diferenças e diversidades que existem dentro de nossa sociedade e dentro também dos grupos ou tribos. Ao cultivar um senso de pertencimento positivo e inclusivo, podemos ajudar a mitigar muitos dos problemas sociais e emocionais associados à exclusão e solidão.
O pertencimento é percebido pela experiência de envolvimento pessoal com um sistema relacional, ou ambiente social, de forma que a pessoa sinta que é parte integrada de algo maior, de uma comunidade, de um grupo de pessoas, com propósitos e valores com os quais ela se identifica ou deseja se identificar. Ela se sente vinculada, próxima e aceita pelas pessoas; sente-se “igual” e torna-se capaz de manter relações estáveis e de crescer com o grupo (uma nação, um time esportivo, uma religião ou uma família), desenvolvendo afetos orgânicos com os demais. Isso é fundamental para manter os vínculos humanísticos que nos caracterizam como espécie. Apesar de nossas inúmeras diferenças, somos todos, humanos. Por outro lado, a sensação de não pertencimento surge a partir da falta de conexão com o meio. Por exemplo, indivíduos que não se sentem pertencentes à sua família por terem personalidades e crenças muito diferentes, sentem-se alijados dos “pequenos grupos” aos quais deveria estar associado, sentem-se objeto de críticas e preconceitos; enfim, sentem-se fora do contexto. Isso desencadeia “sentimentos” que produzem desconexão, afastamento e quebra de vínculos com suas patologias associadas: depressão, solidão, agorafobia, dentre outros.
A sensação de pertencimento começa a esmorecer quando o indivíduo percebe que sua existência no grupo não é mais relevante para o conjunto de acontecimentos que caracterizam o grupo. Ao perceber-se marionete de vontades alheias, objeto de descriminação e de “cancelamento social”, além de julgamentos constantes e críticas maldosas, ocorre a fragilização de suas relações com o grupo e, por consequência, da sensação de pertencer.
Dentre as principais causas que dificultam o pertencimento, seja em organizações, empresas ou grupos sociais, as mais significativas são:
Identificar essas causas e aborda-las no sentido de promover conversas e compartilhamentos, é trabalhar para criar um ambiente inclusivo, acolhedor e participativo, essencial para promover o pertencimento e fortalecer a coesão dentro dos sistemas relacionais.
O sentimento de exclusão ou não pertencimento, decorrente das causas acima mencionadas, se manifesta de várias maneiras na vida social e relacional das pessoas. Tais manifestações podem variar de acordo com a personalidade, experiências individuais e contexto social, mas apresentam certos sinais já conhecidos. Dentre eles, os mais ocorrentes e que indicam maior sentimento de exclusão ou não pertencimento, com suas doenças relacionadas, são os seguintes:
Do ponto de vista individual é importante reconhecer esses sinais para buscar o apoio adequado necessário. A terapia individual ou em grupo e o apoio de redes sociais e comunitárias podem ser recursos úteis para se lidar com os efeitos negativos da exclusão social e promover o senso de pertencimento. Do ponto de vista social, é fundamental que gestores, professores, pais, terapeutas e demais pessoas que “cuidam de gente”, entendam esses sinais como forma de promover práticas corporativas e políticas públicas de acolhimento. O desafio é gerar nas pessoas a sensação correta de ser um elemento importante na teia social. Esse sentimento faz com que elas se sintam parte de algo maior. Já, o contrário disso é trágico, como já comentei.
Nas organizações (p.ex.), para aumentar o sentimento de pertencimento, é preciso que formadores de opinião, gestores e lideranças, demonstrem confiança nos seus times. Isso funciona muito bem quando as expectativas e objetivos ficam claros para os colaboradores, por meio de feedbacks e avaliações constantes com seus líderes. A cultura e a forma como a organização percebe seus colaboradores diz muito sobre o nível de efetividade de uma política de pertencimento. Não basta apenas teorizar sobre as condições de trabalho, mas também assegurar uma prática inclusiva condizente. Quem “sente que pertence” aonde trabalha, tende a ser mais produtivo, otimista e preocupado com o negócio. Isso se manifesta no modo como vivencia e experimenta, no dia-a-dia, uma condição de melhoria contínua do trabalho e das oportunidades de crescimento.
Seguem algumas dicas para se cuidar do “senso de pertencimento” nas organizações:
Construir “boas práticas” de pertencimento que se caracterizem como elemento de uma cultura organizacional (e social) saudável, não é resultado de uma fórmula mágica; antes, é o resultado de cuidados cotidianos constantes e de atenção com a qualidade dos relacionamentos. Essa é uma construção dinâmica, diária e evolutiva. E não se esqueça: o sentimento de pertencimento nasce da percepção de respeito, sem distinções no tratamento das pessoas independentemente do grau hierárquico ou tempo na empresa/organização. É a inclusão mostrando o valor e o real sentido da palavra pertencimento.
E você, gostou? Faz sentido essa reflexão? Vamos conversar sobre o tema.
Reflitam em paz!
Por: Homero Reis

Origens e Consequências Amargas do Egoísmo Desenfreado.
Uma Reflexão por Homero Reis.
Sou um observador do mundo em que vivo e da minha forma de viver nele. Faço isso por questões pessoais e profissionais porque creio que vivemos em redes relacionais a partir do princípio gregário que nos torna humanos. Num mundo que parece cada vez mais centrado no indivíduo, onde o mantra do “eu primeiro” ecoa mais alto do que nunca, creio que pausar e refletir sobre o modo como estamos vivendo e nos relacionando é essencial para se entender o que estamos criando. Um dos temas que me tem chamado a atenção é o egoísmo contemporâneo e suas consequências. Muitas vezes, as pessoas mergulham tão profundamente em suas próprias preocupações e interesses que acabam negligenciando completamente o impacto de suas ações sobre os outros. Essa falta de empatia e consideração, gera um ciclo vicioso de alienação e solidão, deixando pelo caminho uma trilha de desolação emocional e relacional. Nesse caminho, nada dá certo: casamentos se tornam insuportáveis; amigos incomodam; o trânsito é causa de “úlcera”; uma conversa de bar descamba para uma briga sem sentido; um jogo de futebol torna-se numa praça de guerra; os outros são idiotas; pais e filhos não se falam, nem se entendem; governantes acreditam que a guerra é a solução. Quero controlar tudo e nada me satisfaz; tenho tudo, mas não me contento com nada e por aí vai.
Mas, além do contexto acima, o que me motivou a escrever sobre o egoísmo, foi uma experiência pessoal. Eu e minha esposa viajávamos com um casal de amigos antigos que, embora fossem amigos antigos aquela era a primeira vez que viajávamos juntos. Passamos uma semana de intenso convívio e relacionamento. A relação dos dois não estava lá essas coisas, mas tudo parecia ser “um jeito de ser”. O fato é que, durante aquela semana, pude observar algumas coisas: no restaurante, meu amigo fazia o seu pedido sem se preocupar com o que a esposa gostaria de comer; no café da manhã ele se servia, sem nem perceber se os outros estavam se servindo ou se havia o suficiente para os demais; na fila para comprar ingressos para um show, ele comprou o dele e nos deixou a deriva (tivemos que entrar na fila novamente); no passeio pela praia ele foi à frente e desconectou-se de nós; em todo o tempo sua conversa foi sobre como tirar proveito das situações e como os outros “são idiotas”. Num dado momento, intervi: fulano, você não pensou em nós? Ele responde: desculpe, não os vi!!!!!. Ou seja, eu cuido de mim e cada um que cuide de si. Será? Isso me incomodou muito e resolvi estudar um pouco mais sobre as consequências amargas dessas atitudes e, conversar com ele sobre o assunto.
Nossa conversa girou em torno do egoísmo como uma erva daninha que se infiltra silenciosamente em todos os aspectos da vida, corroendo lentamente os laços que nos conectam com os outros. Seja no âmbito pessoal, profissional ou social, suas ramificações são profundas e amplamente prejudiciais: as relações interpessoais se desintegram, oportunidades são perdidas e, em última análise, a própria felicidade fica comprometida. Também é fato de que o egoísmo não é uma característica inata do ser humano, muito pelo contrário, é uma distinção aprendida e reforçada pelo contexto em que se vive e que começa em nossas relações primárias e se instala na teia social tornando-se uma cultura “transparente” nos nossos relacionamentos.
Existem várias causas geradoras do egoísmo; causas cuja origem se observa desde as experiências de vida nos círculos afetivos primários (família nuclear ou estendida), até características individuais formatadas nas macro-relações sociais (religião, escola, estado), ou nos mecanismos de defesa na teia social. As mais “visíveis”, conforme os protocolos da “pesquisa-ação”, são as seguintes:
O egoísmo pode ser influenciado por esses fatores (além de outros), ou por uma combinação deles conforme o modo particular com que cada um “interpreta ou interpretou” suas experiências e trajetórias de vida, no contexto de suas relações. Compreender essas causas pode ajudar na identificação e no enfrentamento do comportamento egoísta, tanto a nível individual quanto social.
Mas, vamos ver o que alguns pensadores têm a nos ensinar sobre o egoísmo. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, conhecido por suas reflexões sobre moralidade, poder e individualidade, nos livros “Assim Falou Zaratustra” e “ Para Além do Bem e do Mal”, explora o conceito e a “prática” do egoísmo bem como suas implicações na vida humana. Ele abordou essa questão destacando como o egoísmo excessivo leva à alienação e à falta de conexão humana. Em sua visão, a busca implacável pelo poder e pela satisfação pessoal resultam em um vazio existencial, uma sensação de desolação que assombra até os mais egocêntricos.
O egoísmo mina a confiança e o respeito mútuo nos relacionamentos, gerando quebra da confiança. Quando uma pessoa está constantemente preocupada apenas consigo mesma, ela demonstra uma falta de comprometimento e consideração pelos outros, promovendo ressentimentos e mágoas naqueles que estão ao seu redor e minando gradualmente a base sobre o qual o relacionamento foi construído.
O sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, discutiu amplamente a questão do egoísmo em suas obras “O Amor Líquido”, a “Vida Líquida “e na “Modernidade Líquida”. Nelas ele examina a fragilidade dos laços sociais na sociedade contemporânea e o impacto do individualismo e do egoísmo nas relações humanas. Discutiu também a ideia de que os laços sociais se tornam cada vez mais frágeis e transitórios onde as pessoas estão centradas em si mesmas. O egoísmo é um dos principais catalisadores da fragilidade social, corroendo os alicerces da confiança e da cooperação mútua.
No ambiente de trabalho, o egoísmo é extremamente prejudicial. Quando os indivíduos estão mais preocupados em promover seus próprios interesses do que em contribuir para o bem-estar da equipe, o moral e a produtividade sofrem.
O psicólogo norte-americano Abraham Maslow, conhecido por sua teoria da hierarquia das necessidades humanas, destaca a importância do pertencimento e da conexão social para o bem-estar psíquico das pessoas, contrastando com o foco excessivo no eu individual, gerador de desarticulação. Ao desenvolver a hierarquia das necessidades humanas, Maslow destacou a importância da realização pessoal e da autorrealização, mas associadas ao senso comunitário. Por isso enfatizou a importância de se pertencer a um grupo e de se sentir parte de algo maior (senso de propósito), do que o eu individual. O egoísmo desenfreado mina essa necessidade básica de conexão e pertencimento, prejudicando o ambiente de trabalho e suas relações como um todo.
Além das consequências interpessoais, o egoísmo também pode ter um impacto significativo na saúde mental e emocional de uma pessoa. Quando alguém está constantemente preocupado apenas consigo mesmo, desenvolve sentimentos de isolamento e solidão, mesmo quando cercado por outras pessoas. Martim Heidegger, filósofo alemão, escreve um tratado chamado “Todos nós, ninguém”, onde demonstra o conceito de solidão nas grandes aglomerações humanas, solidão gerada pelo egoísmo social, onde a identidade se dissolve na multidão. “Estamos próximos, mas não estamos juntos. Vivemos numa cegueira social que nos impede de ver o outro”, afirma ele. Já o psicólogo Eric Fromm, psicanalista e filósofo social alemão, cujo trabalho explorou temas como a alienação, a liberdade e a natureza humana, é enfático quanto aos efeitos malévolos do egoísmo. Nas suas obras “O Medo à Liberdade” e “O Amor e a Solidão”, Fromm examina as consequências emocionais do egoísmo e da falta de conexão interpessoal, explorando como a dinâmica do egoísmo na sociedade moderna pode levar à alienação e ao vazio emocional e existencial. Afirma ele que “o egoísmo exacerbado é uma manifestação contrária a liberdade genuína, onde a conexão com os outros é vista como uma ameaça à autonomia pessoal”.
O egoísmo cria um ciclo vicioso de insatisfação e busca incessante por gratificação instantânea. Quando alguém está constantemente preocupado em satisfazer suas próprias necessidades e desejos, pode encontrar-se preso em um ciclo interminável de consumo e busca de prazer. Isso cria e fomenta um sentimento de “eterna escassez” onde nunca, nada é suficiente. O filósofo existencialista francês, Jean-Paul Sartre, discorre sobre essa “busca incessante” em suas obras quando reflete sobre as questões da liberdade, responsabilidade e autenticidade. Em “O Ser e o Nada” (e em outras obras também), Sartre apresenta o egoísmo como uma forma de evasão da liberdade genuína e da responsabilidade pelos outros argumentando que a liberdade humana vem acompanhada de uma angústia existencial, necessária ao senso de humanidade. Quando as pessoas se concentram exclusivamente em si mesmas, estão evitando enfrentar essa angústia, e acabam presas em uma existência vazia e desprovida de significado e de propósito.
Na tradição judaico-cristã, o egoísmo é tratado como pecado. Mais que um sentimento ou característica da personalidade de alguém, a teologia bíblica alerta para o mal dessa propensão natural. O egoísta peca, pois busca excessivamente a realização de seus desejos, sem considerar os propósitos de Deus para a sua vida, para a vida comunitária e a necessidade dos que lhe são “próximos”. O egoísmo desencoraja a caridade, a irmandade, a generosidade, dentre outras virtudes cristãs. Assim é que, de fato, para a doutrina cristã, “ninguém morre de frio ou de fome, morre por abandono” em uma sociedade egoísta que perdeu o senso de altruísmo, abnegação, beneficência, amor, desapego, entrega, filantropia, renúncia, longanimidade. Ou seja, uma sociedade egoísta não considera o compartilhamento como um valor, tornando-se acumuladora em demasia e autodestrutiva das relações.
O pensamento rabínico sobre o egoísmo, embora multifacetado, é fundamentado nos escritos sagrados do judaísmo e pode ser encontrado em várias passagens das escrituras judaicas, incluindo a Torá, os Profetas e os escritos rabínicos, como o Talmud e a Midrash. Neles o judaísmo reconhece o egoísmo como uma característica humana decorrente do livre-arbítrio, mas também enfatiza a importância de superá-lo em prol do bem-estar da comunidade e da relação com o divino. Para tanto, explicita quatro princípios fundamentais do seu pensamento sobre a questão do egoísmo:
1. Equilíbrio entre o eu e o coletivo: o judaísmo valoriza a importância do indivíduo, mas preconiza a responsabilidade coletiva de se contribuir o bem comum para a comunidade como um todo. Essa noção está enraizada no conceito de “tikkun olam”, que significa “reparar o mundo”, encorajando os indivíduos a agir em benefício dos outros e do mundo ao seu redor.
2. Altruísmo como um ideal: os ensinamentos rabínicos frequentemente destacam a importância de praticar a caridade, a justiça social e o serviço aos outros como formas de transcender o egoísmo. O ato de dar é visto como uma expressão fundamental da conexão com o divino e uma maneira de elevar, tanto o doador quanto o receptor, para mais próximos de Jeová.
3. Autoconhecimento e controle do ego: os textos rabínicos também enfatizam a importância do autoconhecimento e do autocontrole como meios de combater o egoísmo. Isso inclui a prática da reflexão, da introspecção, do arrependimento e dos “serviços aos outros” como formas de cultivar a humildade e a empatia em relação aos outros.
4. Responsabilidade individual: embora o egoísmo seja reconhecido como uma tendência natural (mas não inata), os ensinamentos rabínicos destacam a responsabilidade individual de cada pessoa em superá-lo. Isso envolve a prática da autodisciplina e do auto aperfeiçoamento, bem como a adesão aos mandamentos e valores éticos que promovem a justiça, a compaixão e o respeito mútuo.
O pensamento rabínico reconhece a presença do egoísmo na natureza humana como “uma escolha pessoal”, mas também enfatiza a importância de transcendê-lo por meio do serviço aos outros, da autodisciplina e do compromisso com valores éticos e espirituais.
Por sua vez, o pensamento cristão sobre o egoísmo baseia-se nos ensinamentos de Jesus Cristo e nas demais considerações feitas pelos seus discípulos nas escrituras do Novo Testamento da Bíblia. O cristianismo reconhece o egoísmo como uma condição humana resultante do pecado original, mas mostrando a importância e necessidade de superá-lo em favor do amor e do serviço ao próximo, como forma de expressão da “nova natureza que o homem adquiri ao aceitar a salvação em Jesus Cristo”. Essa condição se torna uma identidade do “corpo de Cristo”; ou seja, a igreja. Semelhantemente ao pensamento judaico-rabínico, o cristianismo também sugere em sua conduta ética, quatro princípios para se abordar a questão do egoísmo:
1. Amor ao próximo como princípio central: Jesus ensinou que o maior mandamento é amar a Deus acima de tudo e amar o próximo como a si mesmo. Isso implica transcender o egoísmo, colocando as necessidades e interesses dos outros em primeiro lugar, como forma de expressão daqueles que “nasceram em Cristo”.
2. Serviço e sacrifício: O cristianismo valoriza o serviço e o sacrifício em favor uns dos outros como formas de combater o egoísmo. Jesus é apresentado como o exemplo supremo de altruísmo, sacrificando-se na cruz para redimir a humanidade do pecado.
3. Humildade e renúncia: Os cristãos são chamados a seguir o exemplo de humildade e renúncia de Jesus, abandonando o egoísmo e buscando a vontade de Deus em suas vidas. Isso envolve renunciar ao orgulho, ao materialismo e aos desejos egoístas em favor da submissão a Deus e do serviço aos outros.
4. Arrependimento e transformação: O cristianismo oferece a promessa de perdão e transformação através do arrependimento e da fé em Cristo. Isso inclui a conscientização do egoísmo como um pecado a ser confessado e abandonado, e a busca por uma vida mais alinhada com os princípios do amor e da justiça.
O pensamento cristão sobre o egoísmo também reconhece sua presença na vida humana como uma consequência do pecado, mas exorta os fiéis a superá-lo por meio do amor, do serviço ao próximo, da humildade e da busca pela vontade de Deus.
Embora o pensamento rabínico e o pensamento cristão sobre o egoísmo compartilhem algumas semelhanças, também apresentam diferenças significativas em sua abordagem e ênfase. Aqui estão dois elementos que os diferenciam:
1. Sobre a origem e natureza do egoísmo:
Rabínico: O pensamento rabínico reconhece o egoísmo como uma característica inerente à natureza humana, resultante do livre arbítrio concedido por Deus e da inclinação para o mal (yetzer hara). O egoísmo é visto como uma tendência natural que pode ser superada através do autocontrole, do serviço aos outros e do cumprimento dos mandamentos divinos.
Cristão: O pensamento cristão também reconhece o egoísmo como uma consequência do pecado original, que corrompeu a natureza humana. O egoísmo é considerado uma separação do amor de Deus e uma inclinação para satisfazer os próprios desejos em detrimento dos outros. No entanto, o cristianismo enfatiza que o egoísmo pode ser superado através do perdão, da transformação espiritual e do seguimento dos ensinamentos e exemplo de Jesus Cristo.
2. Sobre a superação do egoísmo:
Rabínico: O judaísmo promove a prática da caridade, da justiça social e do serviço à comunidade como formas de transcender o egoísmo. Além disso, enfatiza a importância do autoconhecimento, do arrependimento e do cumprimento dos mandamentos divinos como meio de controlar as tendências egoístas.
Cristão: O cristianismo enfatiza o amor ao próximo como o principal antídoto para o egoísmo. Jesus Cristo é visto como o exemplo supremo de amor e serviço, e os cristãos são chamados a seguir seu exemplo, renunciando ao egoísmo em favor do amor e da compaixão pelos outros. A fé em Cristo e o arrependimento são vistos como meios de transformação espiritual que capacitam os indivíduos a superar o egoísmo e viver em conformidade com os princípios do amor e da justiça.
Tanto o pensamento rabínico quanto o pensamento cristão reconhecem o egoísmo como um desafio moral e espiritual a ser enfrentado. Ambas as tradições religiosas enfatizam a importância do amor, do serviço e da busca pela vontade divina como meios de superar o egoísmo e viver uma vida virtuosa. No entanto, diferem em suas perspectivas sobre a origem do egoísmo e nos detalhes de como ele pode ser superado. Assim, nas tradições judaico-cristã e para os filósofos mencionados aqui (além de outros), há pontos em comum: ressaltam que o egoísmo não é uma característica inata, como já comentei, mas um comportamento aprendido pela condição humana e reforçado ao longo do tempo. No entanto é possível cultivar uma maior consciência e empatia em relação aos outros, mesmo que isso exija esforço consciente e contínuo.
Em última análise, as consequências de uma vida egoísta e excessivamente autocentrada são vastas e profundamente prejudiciais, não apenas para o indivíduo, mas também para aqueles ao seu redor e para a sociedade como um todo. É essencial reconhecer o impacto de nossas ações sobre os outros e cultivar uma maior consciência e empatia em nossas interações diárias. Somente através do entendimento e da aceitação mútua podemos construir relacionamentos significativos e uma sociedade mais justa e compassiva para todos.
Mas, como fazer isso? A psicologia positiva oferece uma série de estratégias e técnicas para cultivar uma mentalidade mais altruísta e longânime, que ajudam a mitigar os efeitos nocivos do egoísmo em nossas vidas.
Do ponto de vista terapêutico, alguns procedimentos podem nos ajudar a tratar dessa “síndrome do egoísmo exacerbado”. Nas várias abordagens sobre o tema, o que se busca é construir e promover uma maior empatia e conexão com os outros. E, para nos orientar nessa jornada, seguem algumas linhas terapêuticas que nos podem ser úteis:
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): A TCC pode ajudar os indivíduos a identificar padrões de pensamentos e práticas egocêntricas e a desenvolver estratégias para desafiar e modificar esses padrões. Isso pode envolver a prática de reconhecer e questionar pensamentos distorcidos sobre si mesmo e sobre os outros, promovendo uma perspectiva mais equilibrada e empática.
Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT): Enfatiza a importância do indivíduo aceitar pensamentos e sentimentos difíceis, ao mesmo tempo em que o desafia a se comprometer com ações que são consistentes com os valores pessoais. Para combater o egoísmo, a ACT ajuda os indivíduos a reconhecer e aceitar seus próprios desejos e necessidades, ao mesmo tempo em que cultiva uma maior sensibilidade e consideração pelos outros.
Terapia de Grupo: Participar de uma terapia de grupo pode proporcionar uma oportunidade única para os indivíduos explorarem e confrontarem seu comportamento egoísta em um ambiente de apoio e feedback construtivo. O compartilhamento de experiências com os outros pode ajudar a promover uma maior conscientização e empatia, ao mesmo tempo em que oferece suporte emocional e encorajamento para mudanças positivas.
Terapia de Casal ou Familiar: Quando o egoísmo afeta relacionamentos íntimos ou familiares, a terapia de casal ou familiar pode ser especialmente benéfica. Essas formas de terapia podem ajudar os casais e as famílias a identificar padrões de comunicação disfuncionais, resolver conflitos e desenvolver habilidades para promover a cooperação, o apoio mútuo e a empatia.
Mindfulness e Meditação: Práticas de mindfulness e meditação podem ajudar os indivíduos a cultivar uma maior consciência do momento presente e a desenvolver uma atitude de aceitação e compaixão consigo mesmo e com os outros. Ao praticar a atenção plena, a escuta ativa e a presença autêntica, as pessoas podem aprender a reconhecer e responder de forma mais consciente aos próprios pensamentos e emoções, diminuindo assim a tendência ao egoísmo.
Voluntariado e Atos de Generosidade: Engajar-se em atividades de voluntariado e realizar atos de generosidade podem ajudar a quebrar padrões de pensamentos egocêntricos, proporcionando oportunidades para servir aos outros e vivenciar a gratificação que vem com a contribuição para o bem-estar de outras pessoas.
Esses são apenas alguns exemplos de procedimentos terapêuticos que podem ser eficazes na minimização da síndrome do egoísmo. É importante lembrar que cada indivíduo é único, e o que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra. Portanto, é essencial buscar a orientação profissional qualificada para determinar a melhor abordagem terapêutica para cada situação específica.
Do ponto de vista prático, pequenas coisas podem ser feitas com um enorme impacto na construção de uma vida menos egoísta e mais empática. Seguem algumas sugestões:
Pratique a Gratidão: Reserve alguns minutos todos os dias para refletir sobre as coisas pelas quais você é grato na vida. Reconhecer as bênçãos e as contribuições dos outros pode ajudar a cultivar um senso de humildade e apreciação, contrabalançando o foco excessivo em si mesmo.
Escute Ativamente: Ao interagir com os outros, faça um esforço consciente para escutar atentamente o que estão dizendo, sem interromper ou monopolizar a conversa. Demonstre interesse genuíno nas experiências e perspectivas dos outros para desenvolver empatia e conexão.
Faça Pequenas Ações Elegantes: Procure oportunidades para realizar atos de bondade e generosidade no seu dia-a-dia, mesmo que sejam pequenos gestos. Desde segurar a porta para alguém entrar até oferecer ajuda a um colega de trabalho, essas ações podem fazer uma grande diferença na vida dos outros e ajudar a romper com o egoísmo.
Pratique a Empatia: Ao enfrentar conflitos ou desafios interpessoais, tente se colocar no lugar da outra pessoa e considere as necessidades e os sentimentos dela. O outro está em sofrimento. Entenda isso e promova uma maior compreensão e empatia, facilitando a resolução de problemas de forma colaborativa. Faça um esforço para imaginar como o outro pode estar se sentindo naquela situações. Isso pode ajudar a desenvolver acolhimento e sensibilidade às necessidades e emoções dos outros.
Cultive Relacionamentos Significativos: Dedique tempo e esforço para cultivar relacionamentos significativos com amigos, familiares e colegas. Investir na construção de conexões genuínas e solidárias pode ajudar a mitigar o egoísmo, promovendo um senso de pertencimento e apoio mútuo.
Desafie os Pensamentos Egoístas: Esteja atento aos seus próprios pensamentos e comportamentos egoístas e desafiando-os ativamente. Pergunte a si mesmo se suas ações estão considerando os impactos sobre os outros e se existe uma maneira mais compassiva de agir.
Busque Feedbacks e Aprenda com Eles: Esteja aberto ao feedback dos outros sobre seu comportamento e suas interações. Peça-os a quem considera e confia. Tenha um mentor. Use essas informações como uma oportunidade para crescer e aprender a ser uma pessoa mais compassiva e colaborativa.
Uma mentalidade mais compassiva e voltada para o outro nos ajuda a neutralizar o egoísmo excessivo e a gerar uma vida social e afetiva mais autêntica. Por isso tenha autocompaixão e reconheça que todos nós temos nossas falhas e momentos de egoísmo. Seja gentil consigo mesmo quando perceber esses padrões de comportamento e use essas oportunidades como uma chance de crescimento pessoal. Observe e aprenda com pessoas que demonstram generosidade, empatia e altruísmo em suas vidas. Modelar o comportamento de indivíduos compassivos pode ajudar a inspirar e fortalecer suas próprias práticas de bondade. Pratique a flexibilidade mental estando disposto a considerar diferentes perspectivas e estando aberto a novas ideias e experiências. Uma mente flexível e aberta pode ajudar a quebrar padrões de pensamento egoísta e promover uma maior compreensão e aceitação dos outros.
Tenha limites relacionais saudáveis porque, embora seja importante ser generoso e considerar os outros, também é crucial estabelecer limites saudáveis para não se sobrecarregar com as necessidades dos outros. Aprenda a dizer não quando necessário e reserve tempo para cuidar de si mesmo. Pratique a comunicação não violenta para expressar suas necessidades e preocupações de uma maneira compassiva e respeitosa. Isso envolve escutar atentamente os outros, expressar-se de forma clara e assertiva e buscar soluções que atendam às necessidades de todas as partes envolvidas. Cultive a apreciação pela diversidade reconhecendo e valorizando as diferenças individuais entre as pessoas, incluindo aí diferenças culturais, de opinião e de cosmovisão. Celebre a diversidade, não necessariamente para aceita-la, mas sobretudo para respeita-la. Isso pode ajudar a promover um senso de inclusão e respeito mútuo, combatendo assim o egoísmo e a intolerância.
Busque desenvolver-se pessoalmente comprometendo-se com um processo contínuo de crescimento pessoal e autoconhecimento. Isso pode envolver atividades conversacionais com amigos, mentores, líderes religiosos, além do desenvolvimento pessoal com leitura, meditação, terapia ou prática espiritual, que podem ajudar a promover uma maior consciência de si mesmo e dos outros.
Ao incorporar essas práticas e comportamentos em sua vida diária, será possível neutralizar gradualmente o egoísmo e promover um estilo de vida mais centrado, mas que considere os outros e suas necessidades, baseado na empatia, na generosidade e no respeito mútuo. Fazendo isso você estará dando passos significativos para neutralizar o egoísmo e construir relacionamentos mais saudáveis, gratificantes e significativos com os outros.
Lembre-se de que a jornada para se tornar uma pessoa mais compassiva e empática é contínua e requer dedicação e esforço, mas os benefícios para si mesmo e para os outros são inestimáveis. O futuro da humanidade agradece.
E você, gostou?
Faz sentido essa reflexão?
Vamos conversar sobre o tema.
Reflita em paz!
Homero Reis.

Um dos meus programas favoritos é, numa cafeteria charmosa, tomar café, ler, conversar com amigos. Pois é. Dia desses estava fazendo isso quando numa mesa ao lado sentaram-se algumas pessoas. O papo rolou solto. Mas, de repente, algo começo a chamar minha atenção. Os assuntos tratados eram os mais variáveis possíveis. Falaram de física quântica a massa de pizza, passando por politica internacional, psicologia profunda, previsão do tempo e, é claro, sobre os perigos da inteligência artificial. Fiquei boquiaberto. Ou aquelas pessoas eram enciclopédias ambulantes, ou falastrões. Fica a dúvida. Mas, ocorreu-me um questionamento legítimo (pelo menos me parece legítimo). É possível saber sem conhecer? O fato é que, a partir dessa experiência, comecei a “escutar as conversas alheias”. Impressiona-me o fato de que todo mundo tem opinião certa e segura sobre todas as coisas. Aliás, não me lembro de ter escutado alguém dizer: isso eu não sei, vou estudar o assunto, meu conhecimento sobre tal coisa é irrisório; enfim, as pessoas sabem sem conhecer, dão palpite em tudo sem ter a menor ideia do que estão falando. Por isso, resolvi escrever esse texto para propor uma reflexão sobre a questão do saber e do conhecer. A questão é intrigante e pode ser abordada de diferentes maneiras, dependendo das nuances conceituais atribuídas a esses termos. Vou começar por ai.
Se considerarmos o “saber” como a posse de informações factuais ou proposicionais, então é difícil argumentar que alguém possa saber algo sem, de alguma forma, estar familiarizado com esse algo, ou seja, sem conhecer. Afinal, o conhecimento está intrinsecamente ligado à compreensão e à familiaridade com o objeto de conhecimento. Nesse sentido só se conhece aquilo que se sabe, e só se sabe aquilo que se experiencializa ou se estuda na perspectiva de se estabelecer uma relação plausível entre causas e efeitos ou consequências. Se isso não ocorre e mesmo assim julga-se saber, o que decorre é um falatório sem sentido e com “pitadas” de arrogância.
Em um sentido mais abstrato ou filosófico, o “conhecer” poderia existir em um estado potencial, latente ou subconsciente, sem necessariamente se manifestar na consciência ou na experiência consciente. Por exemplo, alguém poderia ter adquirido conhecimento de algo sem estar totalmente consciente desse conhecimento ou sem ter tido a oportunidade de aplicá-lo ou expressá-lo em um contexto específico. Além disso, em certos contextos, como a linguagem cotidiana, pode-se usar o termo “conhecer” de forma mais ampla para se referir a uma crença ou convicção sobre algo, mesmo que essa crença não seja baseada em um saber completo ou profundo do assunto. Nesse sentido, alguém poderia “conhecer” algo de maneira superficial ou intuitiva, sem necessariamente “saber” plenamente os detalhes ou nuances do assunto. Mas aí, o conhecer é, de fato, apenas uma percepção ou (vou ser generoso), uma opinião que pode ser expressa, obviamente, apenas nessa categoria e não reivindicando para si, status de verdade.
Na história da reflexão filosófica sobre a diferença (e possibilidade) entre saber e conhecer encontramos grandes pensadores de peso. Platão, Aristóteles, Kant, Hegel, enfim, gente que discutiu o assunto sobre os mais diferentes vieses, mas que concordam em um ponto. Expressar o saber, sem conhecer é estupidez. E expressar o conhecer sem o saber é devaneio. Embora esses termos possam ser usados de forma intercambiável no discurso cotidiano, na filosofia, eles assumem significados distintos e profundamente significativos. Assim é que os filósofos recomendam a busca do conhecimento como expressão de sabedoria e o interesse em aprender a partir da declaração de ignorância, com um método oportuno.
Meus colegas de cafeteria não precisam ser experts em todos os temas apresentados naquele encontro, mas poderiam adotar a busca de informações ou o compartilhamento delas como uma forma de tornar a conversa mais agradável, sem o uso das prerrogativas “do sujeito pressuposto saber”.
Aprofundando um pouco mais. Saber é frequentemente associado ao domínio de informações factuais ou proposicionais. É o entendimento de algo específico, com uma base sólida de evidências ou razões. Por exemplo, saber que a Terra orbita o Sol ou que Paris é a capital da França são exemplos de conhecimento factual. O saber está intimamente ligado à capacidade de descrever, explicar e aplicar esse conhecimento de maneira coerente e consistente. Conhecer transcende a mera posse de informações. Conhecer implica uma conexão mais profunda e pessoal com o objeto de conhecimento. Envolve uma compreensão não apenas cognitiva, mas também experiencial e emocional. Conhecer uma pessoa, uma obra de arte ou um conceito abstrato implica uma familiaridade íntima que vai além do simples saber dos fatos associados a eles. Por exemplo, alguém pode saber muito sobre a teoria musical, mas só quem a conhece profundamente pode compor uma sinfonia emocionante ou pode sensibilizar-se com alguma música. Por isso, quando alguém me diz que não gosta de arte (p.ex.), escuto ela dizer que nada sabe sobre arte. Isso porque conquanto o conhecimento transcenda a mera informação, não pode prescindir do saber.
Platão, na Teoria das Formas[1], sugere que o conhecimento verdadeiro transcende o mundo sensível e está relacionado à contemplação das ideias eternas e imutáveis. Nesse contexto, conhecer é acessar a essência ou a realidade subjacente de algo, enquanto saber é reconhecer a sua manifestação no mundo empírico. Por exemplo: toda a percepção que tenho de verdade, a partir da experiência pessoal, remete a uma “realidade universal chamada de verdade”, o mesmo acontecendo com qualquer outra distinção.
Kant também segue esse caminho na distinção entre saber e conhecer. Para ele, o conhecimento é uma síntese entre o que percebemos (fenômeno) e as estruturas cognitivas inatas da mente (noumeno). Assim, o que sabemos é limitado ao que podemos perceber e compreender através do filtro das nossas capacidades cognitivas, decorrentes de nossas vivências, experiências e aprendizagens. Portanto, enquanto saber se concentra no conhecimento objetivo e factual, conhecer abarca uma compreensão mais profunda e subjetiva, incorporando experiência, intuição e conexão pessoal com o objeto de conhecimento. Ambos os aspectos são fundamentais e imprescindíveis para uma compreensão completa e enriquecedora do mundo ao nosso redor ou daquilo que “chamamos de realidade.
Além das análises filosóficas, as perspectivas da sociologia e da psicologia acrescentam camadas adicionais à distinção entre saber e conhecer. Na sociologia, a diferenciação se dá à luz das estruturas sociais e das dinâmicas de poder. O saber muitas vezes é associado ao conhecimento institucionalizado e legitimado pela sociedade, como o conhecimento científico ou acadêmico. Por outro lado, o conhecer pode envolver formas mais subjetivas de percepção e sensibilidade que são moldadas pela experiência pessoal e pela posição social. Por exemplo, as pessoas podem conhecer a realidade da pobreza não apenas por meio de estatísticas ou teorias sociológicas, mas também através de suas próprias experiências vividas ou na experiência de suas comunidades. No entanto, conhecer a partir da experiência revela apenas o modo como “eu” percebo tal experiência. Na relação social tal percepção deve ser “conferida” com outras percepções para se produzir um entendimento que explique, da forma mais ampla possível, o fenômeno. Isso porque uma coisa são os fatos e outra coisa são as interpretações pessoais que fazemos deles. Rafael Echeverria tem uma frase que deixa esse conceito mais claro. Diz ele: “as coisas não são como são; são apenas o modo como as percebemos ou interpretamos. Vivemos em mundos interpretativos”. Anaïs Nin, escritora francesa (1903-1977), acrescenta que “não vemos as coisas como são: vemos como somos”. Ora, isso é fundamental para se entender que qualquer forma de expressão do conhecimento sem o saber, está fadado a um jogo de poder ou a uma busca do saber. Novamente, meus colegas de cafeteria estavam mais próximos de uma “disputa de poder” do que, propriamente, conversando.
Na psicologia, a distinção entre saber e conhecer é entendida nos termos dos processos cognitivos e emocionais. O saber está relacionado à cognição consciente, à memória e ao pensamento racional, enquanto o conhecer pode envolver aspectos mais emocionais, intuitivos e subconscientes da mente. Por exemplo, alguém pode saber que um determinado alimento é saudável, mas ainda assim escolher comer algo prejudicial devido a impulsos emocionais ou hábitos arraigados. A psicologia destaca a importância do conhecimento tácito, ou seja, o conhecimento implícito e não articulado que influencia nossas ações e decisões. Esse tipo de conhecimento muitas vezes não pode ser totalmente descrito ou explicado verbalmente, mas é essencial para nossa compreensão do mundo e nossa interação com ele. Por exemplo, um artesão pode conhecer intuitivamente como esculpir uma peça de madeira, mesmo que não consiga explicar completamente seu processo mental. Mas, mesmo assim, se quer se tornar um artesão excelente, deve saber as melhores práticas da arte de esculpir. Daí a necessidade do estudo, da pesquisa, da prática experimental, enfim, da ciência. Qual a consequência disso? Veja, você pode filosofar sem ter estudado filosofia; você pode tocar um instrumento “de ouvido” sem ter estudado. Mas se quer ser um “virtuose” em qualquer coisa, saiba o que existe, pratique o que está disponível; e expresse seu saber com o conhecimento decorrente de sua subjetividade e sensibilidade.
Então, entendo que a distinção entre saber e conhecer é ainda mais complexa do que simplesmente uma questão de informação factual versus compreensão subjetiva. Envolve também questões de poder, experiência social, processos cognitivos e emocionais, e formas de conhecimento que podem ser tanto conscientes quanto inconscientes.
Não sei quanto a vocês, mas para mim, essas reflexões enriquecem nossa compreensão da natureza multifacetada do conhecimento humano e, se as temos, nossas conversas, ainda que de entretenimento, tornar-se-ão muito mais ricas. Veja, por exemplo, o que a Inteligência Relacional fala sobre o tema.
A perspectiva da Inteligência Relacional oferece insights valiosos sobre a distinção entre saber e conhecer, especialmente ao considerar a diversidade cultural e as diferentes formas de conhecimento que existem ao redor do mundo. Ao adotar o conceito de “etnocentrismo”, oriundo da antropologia, ela entende como diferentes culturas podem ter visões distintas sobre o que é considerado conhecimento legítimo e verdadeiro. O saber, muitas vezes, é moldado por sistemas de crenças e valores culturais específicos, o que pode levar a diferentes entendimentos sobre o que é considerado válido e verdadeiro em diferentes contextos sociais. Por exemplo, em algumas culturas, o conhecimento era (a ainda é), é transmitido oralmente de geração em geração, e a sabedoria é valorizada não apenas pelo que é dito, mas também pela maneira como é transmitida, incorporando histórias, mitos e rituais. Nesses casos, o conhecimento está enraizado na tradição e na prática cultural, e pode não se alinhar necessariamente com os padrões da validação científica, o que, de fato, não é necessariamente errado.
Além disso, a Inteligência Relacional entende a importância do “conhecimento local”, das “distinções pessoais” ou da “sabedoria prática” – conhecimentos específicos de determinados contextos culturais – como essenciais para a sobrevivência e adaptação em ambientes específicos. Por exemplo, as habilidades de navegação dos povos polinésios, os métodos agrícolas tradicionais de comunidades rurais, a sobrevivência na selva dos povos indígenas, o modo de vida dos esquimós, etc, podem ser considerados formas valiosas de conhecimento que não se enquadram nas categorias tradicionais de saber acadêmico. Isso legitima e amplia nossa compreensão da distinção entre saber e conhecer, destacando a importância da cultura, da tradição e da prática social na formação e na validação do conhecimento humano, mostrando e reconhecendo que diferentes sociedades e grupos sociais podem valorizar formas de conhecimento que vão além do conhecimento institucionalizado ou científico, enriquecendo assim nossa compreensão da diversidade e da complexidade do conhecimento humano. Esse princípio é o que valida as “tribos” urbanas, seus hábitos e valores.

Mas, vamos avançar. Do ponto de vista prático, como se pode diferenciar o saber do conhecer? Seguem alguns critérios que estou anotando sobre isso. Certamente existem outros, mas, por ora, fiquemos com esses.
Por fim, é importante reconhecer que, na prática, o saber e o conhecer frequentemente se entrelaçam e se complementam. Ambos são aspectos essenciais da nossa compreensão do mundo e do nosso lugar nele, e cada um oferece perspectivas únicas que enriquecem nossa visão global, embora dissociados promovam perspectivas muito limitadas. Meus colegas de cafeteria devem continuar conversando e celebrando a amizade. Mas deve-se tomar cuidado para não se pressupor conhecer o que não se sabe. Mas, a máxima que se deve considerar é: nosso conhecimento refere-se a fragmentos, nossa visão da “realidade” é particular e é na conversa interativa que busca o saber que desenvolvemos o conhecer. Que aprendamos uns com os outros.
E você, gostou?
Faz sentido essa reflexão?
Vamos conversar sobre o tema.
Reflitam em paz!
Homero Reis©.
Curitiba/PR, fevereiro/2024.
[1] Costuma-se chamar “teoria das Formas” de Platão a crença difusa nos diálogos platônicos de que para determinado conjunto de objetos tangíveis que compartilham de uma mesma qualidade, essa qualidade comum tem existência real configurando-se como uma Forma Inteligível da qual participando estes objetos recebem as características que apresentam; por exemplo, além das muitas coisas belas visíveis existe a beleza em si da qual participando as coisas belas são belas”; conforme afirma o Prof. Dr. José Lourenço Pereira da Silva

Recebi, recentemente, um texto sobre “cancelamento nas redes sociais”. Quem me enviou, pede-me uma opinião sobre o tema. Aceitei o desafio de refletir sobre o assunto e apresento agora, minhas considerações. Antes, segue o texto que me foi enviado.
“Hoje em dia as coisas tão mudando bastante. Antes, um monte de coisas que hoje a gente não curte, eram super normais, tipo comentários racistas, homofóbicos, machistas, étnicos. Essas paradas não colam mais. Cada vez mais a gente tá se manifestando contra essas atitudes e querendo botar um fim nelas. Você acha legal ver esse debate todo rolando nas redes sociais? A internet virou um lugar gigante pra se discutir causas importantes e se manifestar. Mas, olha só, às vezes, a galera que tá contra esses comportamentos errados acaba passando dos limites e virando uma espécie de “linchamento virtual” contra quem fez a besteira. É tipo uma punição, querendo fazer justiça social na hora. Só que, mano, todo mundo erra, né? E agora tá rolando uma parada chamada “cancelamento” online. Ou seja, se você vacila, pode acabar sendo “cancelado” pela galera. Mas, me diga o que faz alguém ser “cancelado”? É tipo assim: hoje em dia, com a tecnologia dominando tudo e as redes sociais crescendo sem parar, ser “cancelado” tá ligado direto ao jeito que você pensa? Tipo, se você fez alguma coisa que não tá no esquema, pode se preparar pra levar um “cancelamento”. E olha, na maioria das vezes, isso acontece por causa de discordâncias de opinião, né? Porque tem muita gente que acha que tem um jeito “certo” e um jeito “errado” de ser e agir na sociedade. E aí, professor, me diga o que você pensa”.
Olá, o tema é oportuno para uma conversa que, espero, não se esgote aqui. Mas, para começar, quero apresentar um autor que me ajuda a entender um pouco do que está acontecendo no cenário dos “costumes em nossa sociedade. Não sei se você conhece o psicólogo, antropólogo e sociólogo canadense Erving Goffman (1922-1982). Se não, vale a pena ler sua obra, principalmente em tempos de “redes sociais”. Ele foi considerado “o sociólogo norte-americano mais influente do século XX” e seu legado, a meu ver, é de fundamental importância para entendermos o mundo conectado das redes sociais e o modo como nos comportamos nele. Erving Goffman não conheceu o mundo digital, conectado pela internet e pelas redes sociais. Mas, dedicou sua vida à observação participante do comportamento humano, gerando vastíssimo material sobre as interações sociais e o lugar que cada indivíduo ocupa na estrutura e hierarquia social. Seu trabalho me tem sido de muita ajuda para entender esses “tempos modernos”. De toda sua obra, destaco três textos particularmente interessantes. O primeiro é A Representação do Eu na vida Cotidiana (1959), onde ele faz interpretações do comportamento humano, mostrando que ao se comportar socialmente, o indivíduo procura fazer com que os outros acreditem no que ele diz e faz, sendo verdade ou não. O segundo é o Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada (1963), onde ele estuda o que acontece na sociedade na relação entre pessoas “estigmatizadas” e as ditas “normais”. O terceiro é o Manicômios, prisões e conventos (1961), onde ele estuda como determinadas instituições sociais criam suas normas de condutas para “justificar” os comportamentos que elas valoram e os que são passíveis de punição. Esses textos vão lhe ajudar a entender melhor o “cancelamento”, além de lhe proporcionar um saber com conhecimento.
Para início de conversa, a Goffman defende a tese de que a “a conduta humana depende de seus cenários e das relações pessoais”. Estamos todos imersos em uma gestão constante da nossa imagem diante do resto do mundo, na tentativa de conseguir controlá-la a partir das impressões que queremos causar nos outros. O importante é que o maior número possível de pessoas pense, sobre mim, coisas que eu valorizo. Mas, se o que eu penso são verdades ou não, pouco importam. Esta interação que o indivíduo realiza com seu ambiente o incentiva a buscar a definição de cada situação com o objetivo de conseguir controlá-la e de punir quem discorda. No universo das redes sociais isso se manifesta, objetivamente, na quantidade de likes que tenho, na quantidade de seguidores que possuo, no quanto sou capaz de influenciar; e, eu uso isso para “exercer meu poder de punir” quem discorda de mim ou de “minha tribo”.
Mas Goffman continua seu raciocínio quando afirma que “somos atores interpretando nosso papel diante de um auditório que pode ser de uma ou de milhões de pessoas”. Somos atores num palco gigantesco, em um teatro global, seja tentando gostar, agradar, simpatizar, fazer com que nos odeiem. Todos nós agimos tentando ser conscientes, e até certo ponto coerentes, com a imagem pretendida.
Tudo bem! Esse é o contexto em que nos colocamos nas redes sociais. No entanto, “nem tudo são flores”. Do outro lado da cena estão os outros atores e espectadores com suas histórias, personagens e cenários, nem sempre amistosos e convergentes com os nossos. Aí surge a prática do cancelamento, fenômeno que tem sido amplamente estudado e discutido nos dias atuais, como uma prática que permite, imediatamente, o exercício da minha justiça pessoal e imediata, bem como o sentimento de injustiça quando “sou eu o cancelado”.
Para tirar alguma dúvida conceitual sobre o tema, entenda o seguinte: o cancelamento consiste na exclusão social de um indivíduo (ou de um grupo), geralmente em resposta a comportamentos considerados socialmente reprováveis. Tal exclusão ocorre principalmente nas plataformas digitais, onde a disseminação de informações é rápida e abrangente. Também é fato que as exclusões (ou cancelamentos), ocorrem a partir de um certo senso de “micropoder” que os canceladores julgam ter para punir ou reprovar os que pensam de forma diferente do senso que se acha majoritário em determinada cultura ou contexto.
O cancelamento pode ser desencadeado por vários motivos, desde atitudes claramente prejudiciais, como manifestações de preconceito, até opiniões ou posicionamentos divergentes. A rapidez com que uma pessoa pode ser cancelada e a severidade das consequências associadas a esse ato destacam a complexidade e a potencialidade danosa dessa prática. Além disso, o cancelamento não se limita ao indivíduo diretamente envolvido na polêmica, mas pode se estender às pessoas que mantêm algum tipo de vínculo com ele, como amigos ou seguidores nas redes sociais. Isso cria um ambiente de cautela e temor, onde a liberdade de expressão pode ser cerceada e a sinceridade nos relacionamentos pode ser comprometida.
A análise desse fenômeno levanta questões importantes sobre a natureza das interações sociais online e off-line, bem como sobre os valores e padrões de comportamento adotados pela sociedade contemporânea. Embora o cancelamento possa ser visto como uma forma de responsabilizar indivíduos por seus atos, também suscita preocupações sobre justiça, empatia e oportunidades de redenção, além do fato de que quem cancela, não dá ao outro o “direito de defesa”.

Goffman defende a tese da promoção do debate construtivo entre diferentes como forma de se pacificar as relações entre as pessoas, não pela busca de uma concordância sobre tudo e sobre todos, mas pelo aprofundamento das relações de respeito entre os divergentes. Isso porque em nossa sociedade avoluma-se cada vez mais, o “saber sem conhecer” como uma prática que “permite” a qualquer um dizer-se especialista em coisas “que só ouviu dizer”, mas que nada conhece sobre o tema. Ora, ao “cancelar” alguém, o que cancela revela uma atitude semelhante ao que foi cancelado. Por exemplo: você cancela alguém porque julga que suas opiniões, postagens, etc, são preconceituosas; mas, ao cancelar, você também revela preconceito àquela opinião ou postagem.
Bem, só para reforçar, isso que estou falando é uma interpretação que faço do pensamento de Goffman, a partir da Inteligência Relacional, mesmo porque ele jamais imaginou uma sociedade com o nível de conectividade e interatividade que temos e com a teia social que se constitui a partir das “redes”.
Do ponto de vista do pensamento de Goffman, o cancelamento em si mesmo, não representa uma prática saudável nas relações; antes, mostra o quão difícil é para “determinados segmentos e pessoas” conversarem sobre suas próprias diferenças. Preferimos uma “sociedade” de iguais porque fica mais fácil viver e justificar determinado estilo de vida. Para além da prática do cancelamento deve-se incentivar o diálogo reflexivo e aberto, a compreensão mútua e a busca por soluções que promovam a inclusão e o respeito às diferenças. Somente por meio de uma reflexão crítica e do engajamento coletivo será possível mitigar os efeitos negativos do cancelamento e construir uma sociedade mais justa e solidária.
Mas, Goffman nos possibilita ir além, apresentando como o cancelamento pode ser entendido pela sociologia. Nesse sentido o cancelamento é uma forma de controle social exercida pela comunidade virtual sobre seus membros, refletindo as normas e valores predominantes em determinados grupos sociais online, que podem ser influenciados por fatores como identidade cultural, geracional e contexto histórico, político e econômico. A sociologia nos ajuda a entender como as interações sociais nas “redes” refletem e reproduzem dinâmicas sociais mais amplas, incluindo hierarquias de poder, estruturas de dominação e processos de exclusão social. Esses são temas que merecem conversas e entendimentos e não, “simplesmente”, exclusão porque nos é mais confortável “continuar sendo como somos”.
Do ponto de vista filosófico, o cancelamento levanta questões éticas e morais sobre justiça, responsabilidade e perdão. O filósofo alemão Immanuel Kant, citado por Goffman, aborda a noção da responsabilidade moral individual em sua obra Fundamentação da Metafísica dos Costumes” (1785). Nessa obra, Kant destaca a importância de agir de acordo com princípios universalizáveis. Ora, sendo assim, Goffman, vê o cancelamento como uma forma de responsabilização por comportamentos considerados moralmente reprováveis, embora também suscite questões sobre a possibilidade de redenção e perdão. Filósofos contemporâneos, como Hannah Arendt, exploram o papel da ação pública e da responsabilidade política na esfera pública, oferecendo insights sobre os limites do poder de julgamento e punição nas sociedades democráticas.
Por fim, a abordagem antropológica entende o cancelamento como um mecanismo de reforço de identidade e coesão social dentro de comunidades online. Antropólogos como Clifford Geertz e Pierre Bourdieu estudaram como os símbolos culturais e as práticas sociais são utilizados para estabelecer e manter fronteiras simbólicas entre grupos. Nesse sentido, o cancelamento pode ser visto como uma forma de demarcar essas fronteiras e reafirmar os valores e normas compartilhados dentro de uma comunidade específica.
Muito embora se tenha diferentes abordagens sobre o tema, a ideia que prevalece em todas as formas do “pensar e agir sobre o cancelamento” é de que precisamos conversar sobre sua prática, reconhecendo que ela nos poderá ser útil, mas que não pode ser a primeira forma de agir em razão dos desacordos e das diferenças.
Esse espaço conversacional, proposto por Goffman, ajuda a entender como as redes sociais digitais proporcionam novas formas de sociabilidade e interação social, que muitas vezes desafiam as categorias tradicionais de identidade e pertencimento. Questões essenciais podem compor uma agenda sobre o tema. Por exemplo, como o cancelamento pode influenciar a construção e negociação de identidades sociais nas redes? Como ele pode impactar a autoimagem e o bem-estar psicológico dos envolvidos? De que maneira, o fenômeno do cancelamento nas redes sociais nos permite compreender nossas origens, dinâmicas, valores e, até mesmo, nossa noção de justiça, direito e punição? Ao integrar insights da sociologia, filosofia e antropologia, podemos desenvolver abordagens mais holísticas e informadas para lidar com esse fenômeno complexo e suas implicações para a sociedade contemporânea. Esse diálogo reflexivo nos trará imensos benefícios, começando pelo fato de superar a lógica intrinsecamente binária (seguir ou não; curtir ou não), característica dos ambientes digitais que acabamos por transferir para a dinâmica social nas redes não cibernéticas.
Enfim, o tema do cancelamento nas redes sociais por sua relevância e contemporaneidade, levanta questões que vão desde a ética e a moralidade até a construção de identidades e pertencimento nas comunidades virtuais. Ao integrar esse fenômeno à luz do pensamento de Erving Goffman, é possível compreender suas origens, dinâmicas e implicações para a sociedade contemporânea de maneira mais abrangente e informada. A prática do cancelamento, embora possa surgir como uma forma de responsabilizar comportamentos considerados reprováveis, também suscita preocupações sobre justiça, empatia e oportunidades de redenção, que merecem ser conversados através do diálogo reflexivo e da busca por soluções que promovam a inclusão e o respeito às diferenças. Se assim nos propusermos a fazer, certamente evitaremos os efeitos negativos do cancelamento e construir uma sociedade mais justa e solidária. Para tanto, é essencial reconhecer que as redes sociais digitais oferecem novas formas de sociabilidade e interação social, desafiando as categorias tradicionais de identidade e pertencimento. Ao promover um diálogo construtivo sobre o cancelamento, podemos transcender a lógica binária que muitas vezes permeia esses ambientes digitais e criar espaços mais inclusivos e reflexivos, tanto online quanto off-line.
Obrigado por participar. Espero que essa conversa continue. Estou disponível nas redes sociais.
Forte abraço,
Homero Reis©.

Reflexões sobre Sucesso, Qualidade de Vida e Meritocracia
Considere o seguinte contexto: uma vida pessoal e social inadequada; uma vida profissional sem sentido; solidão nos finais de semana e um sentimento de inadequação e insuficiência. Por outro lado, a “sociedade do trabalho” insiste em nos fazer acreditar que 1) uma carreira de sucesso é suficiente para gerar sentimento de pertencimento e realização; 2) vitórias sucessivas na vida são sinônimo de qualidade de vida; 3) somos o que conquistamos. De fato, tais premissas são “mentiras culturais” que precisamos enxergar melhor para ver se as coisas são mesmo assim. Vejamos.
Nossa vida societária nos conduz a acreditar em certas “verdades” culturais que acabam por moldar nossas expectativas em relação à carreira, conquistas pessoais e a tão almejada qualidade de vida pessoal e relacional. Quero questionar algumas dessas premissas que, ao invés de nos proporcionarem bem-estar, podem contribuir para uma vida pessoal e profissional desequilibrada.

Desafiando essas “mentiras culturais”, podemos redefinir nossas métricas de sucesso e qualidade de vida. Valorizar relacionamentos, saúde mental e a busca por um equilíbrio entre vida profissional e pessoal são aspectos fundamentais que muitas vezes são subestimados. A verdadeira realização está em abraçar nossa autenticidade, cultivar conexões significativas e buscar um entendimento mais profundo sobre o que realmente importa em nossas vidas. Para dar provocar sua reflexão, seguem algumas ideias para você começar a pensar em uma nova métrica para sua vida.
Ao desafiar essas noções culturais, abrimos espaço para uma reflexão mais profunda sobre o que realmente importa em nossas vidas e como podemos criar um caminho mais autêntico e satisfatório, indo além das falsas promessas de sucesso superficial.
Pense nisso!
Homero Reis
Curitiba, PR, jan/2024
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© Homero Reis, Curitiba/PR, 27 de janeiro de 2024, homero@homeroreis.com

[1]por Homero Reis©
Gestão do Desempenho é um processo organizacional sistemático e contínuo que envolve a definição, avaliação e desenvolvimento do desempenho individual e coletivo dos colaboradores em relação aos objetivos estratégicos da organização.
Este processo busca melhorar a eficácia, a eficiência, a efetividade e o desenvolvimento profissional, utilizando ferramentas de indicação e mensuração do desempenho, tais como: estabelecimento de metas, feedback constante, avaliações periódicas e estratégias de reconhecimento (dentre outras), com o objetivo de maximizar o alinhamento entre as contribuições dos funcionários e os objetivos da organização.
Gerir o desempenho é essencial para o sucesso de qualquer organização, pois ao se concentrar na otimização do rendimento individual e coletivo dos colaboradores, alinha-os aos objetivos estratégicos da organização, promovendo uma equilibração da cultura organizacional e gerando um clima corporativo de pertencimento e satisfação com o trabalho, com o compromisso de se ter impecabilidade nos processos de trabalho e nas entregas. Este processo melhora a eficiência, a produtividade e o desenvolvimento de todo “time”, gerando e mantendo um ambiente relacional saudável e estimulante dos relacionamentos inteligentes e pacificados.
As melhores práticas para se ter um processo de Gestão de Desempenho efetivo, consideram os seguintes aspectos:

OBSTÁCULOS, DESAFIOS E R ECOMENDAÇÕES
Conquanto a gestão do desempenho seja uma prática para a excelência, considerando os aspectos acima mencionados, sua implementação encontra obstáculos já mapeados na prática corporativa. Listo abaixo os mais comuns, ressaltando os desafios e as recomendações para enfrentá-los:
Superar esses obstáculos requer comprometimento organizacional, uma abordagem flexível e capacidade de ajustar continuamente as práticas de gestão do desempenho para atender às necessidades em constante evolução da organização e de seus colaboradores.
Reflitam em paz!
Homero Reis
[1] ©Homero Reis, homero@homeroreis.com, Curitiba/PR, 30/01/24

O coaching surge como uma grande oportunidade de fazer carreira no mercado. Muitas pessoas, já em fase de conclusão do primeiro ciclo profissional ou aspirantes de uma segunda carreira cheia de significado, têm encontrado no coaching um novo paradigma para colocar toda sua experiência a serviço daqueles que, de certa forma, precisam de suporte para alcançar um objetivo ou até mesmo “ver a luz no fim do túnel”.
Mas quando se trata do coaching, muitas dúvidas surgem a respeito do assunto, seja por ser uma profissão relativamente nova, seja pelas possibilidades de atuação ou mesmo pelo próprio significado da palavra. Deixe-me elucidar um pouco mais sobre cada uma dessas questões.
O que é coaching?
Coaching, que procede do verbo em inglês to coach, «treinar» é uma relação de parceria na qual o coach (profissional) serve ao coachee (cliente) para desenvolver as suas potencialidades, descobrir quem é e onde está para alcançar aquilo que deseja e superar seus limites.
Outra origem é o substantivo “coach”, também em inglês, que diz respeito às antigas carruagens que levavam nobres de um feudo a outro. Coach é a carruagem e também o cocheiro que, com as rédeas da carruagem nas mãos, leva o coachee (passageiro) aonde ele deseja e estabelece chegar. Nessa metáfora, não cabe ao coach definir ou direcionar, mas sim acolher o coachee e escolher as técnicas e caminhos que melhor se aplicam para o destino que o coachee deseja alcançar.
A ICF (international Coach Federation) define coaching como fazer “uma parceria com os clientes em um processo criativo e estimulante para o pensamento que os inspira a maximizar o seu potencial pessoal e profissional”.
Qual a nossa visão sobre o Coaching?
O coaching que praticamos e vivemos na Homero Reis – IRC é o Coaching Ontológico. Uma abordagem conversacional que parte do pressuposto de que, pela aprendizagem, nós recriamos e nos encontramos com quem somos. Temos como foco o que significa SER humano e geramos aprendizados que têm um poderoso impacto na vida em diversos domínios. Capacitamos as pessoas a fazerem mudanças profundas na sua maneira de ser, interferindo na sua observação do mundo e, consequentemente, no seu comportamento (ação).
Quanto ganha um coach?
Essa atividade, por sua relevância e pelo enorme bem que tem feito a seus clientes, é, sem dúvida, um nicho de mercado bem remunerado. Com o mercado em franca expansão, uma sessão de coaching (algo em torno de 60 minutos) pode variar de R$200,00, para os coaches principiantes, a R$ 1.000,00 (ou mais) para Master Coaches, conforme a competência e expertise do profissional. Isso é consequência de uma formação consistente e de muitas horas de experiência no atendimento.
O que significa ser Master Coach?
É comum a alcunha de Master Coach para profissionais com mais de 2.000 horas de atendimento. Portanto, tal título se dá por associação de formação técnica mais experiência prática, e não somente por ter feito um curso com tal designação.
O coach precisa de certificação?
O coaching no Brasil é uma atividade aberta, sem nenhuma regulamentação governamental. As certificações internacionais seguem critérios próprios conforme cada agência e não há nenhuma padronização entre elas. Cabe aqui, ao candidato, certificar-se da seriedade de tais agências certificadoras, bem como do caráter de cada escolha. Para isso, é mister procurar ouvir depoimentos, verificar a história de cada “fornecedor”, certificar-se de que exista uma legalização dos conteúdos – no caso brasileiro, feito pelo MEC – e demais cuidados de quem quer ter uma atividade profissional séria.
Como posso me tornar coach?
Existem muitas opções de formação profissional no mercado e com abordagens distintas. No entanto, nem todas seguem os padrões mais rígidos de formação profissional. Existem formações que dizem formar coaches em sessões de poucas horas e em um ou dois finais de semana. Fique atento! Isso não é formação. As boas escolas de coaching, que formam (e não apenas informam), possuem programas em torno de 360 h/aula. No Brasil, há poucas escolas com esse perfil e, menos ainda, certificadas. A Homero Reis – Inteligência Relacional e Coaching é uma delas. Nossa formação de Pós-graduação em Coaching é reconhecida pelo MEC e forma coaches desde o ano 2000, tendo seus Masters Coaches certificados pela FICOP (Federação Internacional de Coaches Ontológicos Profissionais).
Devemos nos lembrar de que o coaching não é “panaceia para todos os males”. As promessas de que você ficará rico e famoso em pouco tempo é um bom indicativo de que a oferta não é tão séria assim; as metodologias baseadas em manuais infalíveis de sucesso e superação tendem a ser pouco efetivas, além de abusar da credulidade de quem sofre.
Muito importante:
Falamos aqui das questões práticas sobre ser coach. No entanto, como dizemos aqui na Homero Reis – Inteligência Relacional e Coaching, ser coach é “ser vida a serviço da vida”. E levamos isso muito a sério! Para nós, coaching é um estilo de vida e forma de servir à comunidade e às pessoas. Mas esse tema é muito mais amplo do que posso expor aqui. Por isso, desafio você a assistir à videoaula “A carreira de coaching é pra você?”. Acredito que ela muito lhe ajudará a identificar se você possui essa chama, essa vocação para essa encantadora profissão. Se você quer avançar na decisão de se tornar coach, não deixe de assistir!
Forte abraço,
Homero Reis

Durante muito tempo ouvimos falar sobre o QI e a sua importância. As pessoas foram medidas e avaliadas pelo seu Coeficiente de Inteligência (QI). Você provavelmente já deve ter feito esse teste, ou talvez tenha ouvido alguém contar vantagem por ter um QI alto. A capacidade de ter um raciocínio lógico-matemático acima da média ou a capacidade de interpretar e escrever bem eram tidos como elementos diferenciais nas pessoas.
Mas com o tempo, percebeu-se que ter um QI alto não era garantia de sucesso e de felicidade. As pesquisas de Goleman trouxeram um novo conceito, o da inteligência emocional (QE), essa capacidade humana de autoconsciência, controle de impulsos, persistência, empatia e habilidade social. Para ele, a inteligência está ligada à forma como negociamos as nossas emoções, e isso mostra porque pessoas com QI alto fracassam e pessoas com QI mediano têm sucesso na vida.
Mas, a partir de vários estudos, artigos e conversas, percebeu-se que ambas – inteligência cognitiva e emocional – são muito importantes, mas sozinhas são insuficientes quando se trata de relações humanas. A verdade é que, nas relações, é onde tudo acontece: família, trabalho, amigos, projetos. Então, não basta ter apenas Inteligência Emocional (QE) e Inteligência Cognitiva (QI), é preciso saber se relacionar. Chamamos essa terceira inteligência de Inteligência Relacional (QR).
É o modo como lidamos com as relações. Ou seja, é como entendo o que acontece entre Eu e o Outro, sendo esse outro uma pessoa, um grupo, uma sociedade.
É quando nos damos conta de que existe a forma como eu vejo as coisas, mas há também a parte do outro, como ele vê, como ele sente e como percebe o que está acontecendo.
“Na hora em que nos damos conta disso, abrimos a possibilidade de aprender das relações e entendemos que é preciso ser inteligente para caminhar junto”.
Esse “campo” criado quando duas ou mais pessoas se relacionam é um rico espaço, cheio de diferença e que contém o germe da novidade, o desafio da terceira via, a construção da possibilidade. Um espaço onde a vida se recria e se constitui pelo encantamento de ser quem somos sem nos sentirmos ameaçados pela diferença, onde somos autorizados a construir novos caminhos juntos.
Por isso, entende-se Inteligência Relacional como “a capacidade de ler dentro dos relacionamentos” para entendê-los e neles interferir de modo a produzir uma vida mais intensa e verdadeira e com mais efetividade.
Desde a visão mais micro e particular (pessoas e famílias), até a visão mais macro (humanidade), vê-se um crescente mover da violência, da intolerância, das relações abusivas, da agressividade e das guerras, por motivos cada vez mais fúteis, revestidos muitas vezes de políticas de estado ou de conveniências pessoais. Daí a necessidade de entender como tais relacionamentos se fundam e como podem ser revertidos para uma qualidade de vida melhor em todos os sentidos.
Vários institutos e universidades ao redor do mundo têm apresentado pesquisas sobre o embrutecimento da humanidade. No entanto, todos concordam que nada precede o ato relacional. Tudo surge dele e a partir dele tudo se faz, independente de raça, tribo, língua, povo, etc. Independente também do quanto de tecnologia embarcada, do que cada povo ou nação possui, tudo se dá dentro dos relacionamentos.
Esse conceito surge na mesma trilha de tantas outras tentativas de entender o fenômeno humano para, não só explicá-lo, mas permitir que nos tornemos seres humanos melhores.
Ele é sustentado por diagnósticos relacionais e dados de realidade, e bebe em fontes como a Teoria Geral dos Sistemas de Ludwig Von Bertalanfy, pela Auto Poiése de Humberto Maturana, pelos ensaios sobre a sociedade líquida de Zygmunt Bauman, e pela Ontologia da Linguagem de Rafael Echeverria, entre outros.
Ser inteligente nos relacionamentos, entender como eles são constituídos e como ocorrem nos permite descobrir muitas razões pelas quais construímos, por exemplo, relações fadadas ao fracasso; nos permite entender o porquê das dificuldades de comunicação em todos os ambientes, sejam familiar, social ou profissional. A Inteligência Relacional nos fornece técnicas, ferramentas e um novo aprendizado para lidar melhor com nossos afetos ou com nossas equipes. Professores melhoram substantivamente suas relações acadêmicas e os alunos sentem-se mais estimulados no processo de aprendizagem. Um médico escuta melhor a queixa de seu paciente, um advogado entendem mais sistemicamente as demandas da família litigante, o pároco é capaz de ser mais cuidadoso com seu rebanho.
“Isso tudo, que antes da Inteligência Relacional era tido como ‘educação’ e ‘bom senso’, com ela, passou a ser uma competência que pode ser adquirida e desenvolvida.”
Pode sim. O teste de Inteligência Relacional, pesquisa já validada e que contém, atualmente, uma amostra de mais de 3 mil pessoas, pode indicar o seu estado atual e suas possibilidades de desenvolvimento de suas competências relacionais, analisando duas dimensões da vida humana:

Vivemos em um mundo que já traz muito pronta a noção de sucesso. Existem mil e um vídeos, blogs e livros nos mostrando os caminhos para a felicidade, a receita para nos tornarmos bilionários, as 10 dicas fundamentais para ser bem-sucedido. Com esse excesso de informação e de afirmação, parece que a vida ficou plastificada e que todos nós devemos seguir o mesmo caminho, já trilhado por outros, para nos tornarmos (ou melhor, para mostrarmos ser) aquilo que pode ser chamado de “bem-sucedido” ou de alguém que “venceu na vida”.
Muitas pessoas que procuram o coaching vêm com essa expectativa: “dominar o mundo”. E sim: podem e vão! Mas, antes disso, é preciso ter a primeira quebra de paradigma: pensar que mundo é esse que se está querendo dominar e o porquê. Para nós, coaches ontológicos da Homero Reis – Inteligência Relacional e Coaching, não basta saber aonde se quer chegar. É fundamental saber o porquê desse desejo e como ele se conecta com quem você é.
É preciso soltar a velha coerência. Quantas vezes dizemos que queremos uma coisa e nos comportamos de maneira oposta? Quantas vezes nos comprometemos com um projeto (focar na carreira, se exercitar, acordar mais cedo para meditar, estudar, passar em um concurso, passar mais tempo com a família, se dedicar a um hobbie, entre tantos outros) e não conseguimos sustentar? Aqui é o momento de percebermos o que está se passando para que isso aconteça. É preciso ver o que você está disposto a soltar e o que precisa aprender para fazer diferente, mas que ainda não sabe.
Aqui já há a primeira grande transformação que o processo de coaching ontológico pode promover: tirar este olhar plastificado e automatizado para a vida e fazer você refletir sobre o quê deste mundo é realmente seu.
A ideia deste primeiro momento é ampliar seu olhar sobre si mesmo e sobre o mundo, sem críticas ou julgamentos. Fazendo isso, você tem a possibilidade de entender melhor seus padrões, o que tem te movido na vida e quais são as dores e as delícias de ser você quem você é.
Então, vem a segunda mudança: você começa a sair de um discurso de vitimização (em geral com raiva, ressentimento ou mágoa) para uma fala mais protagonista e empoderada, entendendo como você faz parte daquilo que acontece na sua vida. Quais são os padrões que você tem repetido, quais são as crenças que tem te limitado e para onde você quer expandir.
O processo de coaching ontológico promove esse olhar de forma estruturada, com conexão com aquilo que há de mais importante em você – o seu Ser autêntico. Seu coach será seu companheiro de jornada, aquele que vai testemunhar seu caminho construindo junto com você o que há para aprender, o que já está posto e o que há para soltar e desaprender.
Gosto de me referir a este caminho como um mergulho, na verdade. Um mergulho em si mesmo, para encontrar a pérola – seu ser autêntico -, aquilo que há de mais precioso em ser quem você é, aquilo que o torna único. Esse mergulho é importante porque, uma vez que encontramos esse espaço interno de autenticidade e verdade, encontramos aquilo que dá sentido à nossa vida. Nada é mais poderoso do que isso! Neste espaço, a vida se expande, mil possibilidades surgem e você está no centro dela, para descobrir e decidir o que quer construir, o que está por vir. Este espaço de encontro com nosso Ser autêntico é a maior transformação que podemos viver.
Nos mantermos conectados com ele – nosso Ser autêntico – é o grande desafio: é quando começamos a voltar à superfície depois de um maravilhoso mergulho. O ser autêntico vira o trampolim com o qual ganhamos o impulso necessário para voltar à superfície. Ele potencializa a subida e torna as ações e os novos projetos muito mais significativos, porque nasceram a partir daquilo que realmente faz sentido e ecoa em você.
Aqui não há mais uma definição pronta de sucesso, não há automatismo, não há verdades emprestadas nem engolidas à força, não há receita. Aqui há você, no auge de sua autenticidade e exuberância, pensando, sentindo e querendo se colocar na vida a partir da sua integridade. Nesta subida, é o momento de avaliar o que você consegue e quer deixar ir, para deixar vir o futuro que almeja.
É hora de abraçarmos o silêncio, outra grande transformação que o processo de coaching ontológico promove. Silenciar as vozes exteriores para melhor escutar as vozes de dentro. As respostas mais importantes e transformadoras habitam no silêncio. Quando conseguimos silenciar, conseguimos escutar as vozes que nos movem e, aí, a criatividade começa a ter lugar e a novidade pode se inventar. Quando isso acontece, começa a construção de novos cenários, novas possibilidades, novas projeções de vida. A gana por realizar toma conta de todo o ser. Há espaço para a celebração e o regozijo, porque você começou a aprender quem é no mundo e como pode e quer contribuir.
O sucesso deixou, então, de ser um lugar de chegada para se tornar o próprio caminho, pessoal e intransferível, seu. Autenticamente seu.
Assim, caminhando lado a lado, seu coach o auxiliará a manter a qualidade dessa nova descoberta no caminho de volta à superfície para trazer à tona aquilo que é precioso, banhando de significado a vida, tornando-a uma experiência única.
Perceba que todo esse movimento (mergulho e subida) forma a letra “U”. A teoria “U” é uma das tecnologias de aprendizagem social mais avançadas da atualidade. Desenvolvida no MIT (Massachusetts Institute of Technology), essa tecnologia foi absorvida por nós e se tornou a base, juntamente com a ontologia, a partir da qual desenvolvemos o nosso modelo único de fazer coaching.
Fazendo o “U”, saímos do automatismo para um processo de degustação, de aproveitar e celebrar cada instante da jornada, entendendo-a como parte da vida; como preciosa, porque sempre nos possibilita revelar aquilo que há de único em cada um de nós. E isso promove mais uma linda transformação: o contágio ou a inspiração.
Ao se permitir fazer essa jornada de encontro consigo mesmo, há quem perceba que seu propósito e significado não se finda em si. É sempre algo que colocamos como oferta no mundo e, ao fazermos isso, construímos possibilidades e encorajamos outras pessoas a fazerem o mesmo: sair do automatismo para um processo de autenticidade e entrega real à vida, aos outros e ao mundo. Aqui está a grande transformação e, quem sabe, o sucesso autêntico.

Sou psicóloga e coach há mais de 15 anos e desenvolvo, na minha vida profissional, as duas atividades. Quero começar falando sobre o coaching.
Vivemos um boom do coaching no Brasil. Mas ainda não chegamos nem perto do número de coaches existentes em países onde a profissão é mais desenvolvida. Se nos EUA e na Europa temos 40 coaches para cada 1 milhão de habitantes, no Brasil temos apenas 5. Nos EUA, o cargo de coach em organizações já está se tornando comum, realidade bem diferente da nossa. Isso nos dá uma dimensão do quanto o coaching ainda tem para crescer no Brasil, e também do quanto a população em geral ainda não conhece o coaching.
O que me faz pensar que não faz mal nenhum as mídias ajudarem a popularizar o termo. Mas o problema começa quando a própria mídia não entende o coaching – ou entende parcialmente – e, embora de forma lúdica, transmite uma ideia equivocada. Na novela global, uma coach ajuda uma mulher abusada pelo padrasto, por meio da hipnose, a se curar. Sobre isso, precisamos esclarecer algumas coisas.
Coaching é um processo que se pressupõe desenvolver competências para se colocar no mundo de forma mais autêntica e, assim, alcançar seus objetivos de vida. Existem várias abordagens diferentes de coaching, mas elas não se destinam a tratar, cuidar ou curar aquilo que está no domínio da saúde mental. Isso cabe aos profissionais da área que estudaram amplamente, fizeram muitas horas de supervisão e se especializaram para melhor cuidar desses temas. Profissionais da psicologia, por exemplo, em geral, estudam psicopatologia, psicofarmacologia, psicofisiologia para melhor compreender os impactos bioquímicos desses sofrimentos na mente e no corpo e, assim, intervir de forma cautelosa.
Quando se trata de sofrimentos e traumas, a pessoa, em geral, está “quebrada”! É a alma que está ferida, em pedaços! Nestes casos, “querer” mudar a realidade não é o bastante, tarefa a que se propõe o coaching. É preciso “poder” primeiro, isto é, ser cuidada pelo profissional que realmente é habilitado para fazer isso. Este profissional possibilitará que a pessoa se recomponha, se reorganize, e possa voltar a “querer” transformar sua realidade e a se colocar de uma nova maneira na vida.
Não há milagre! Não é do dia pra noite. Traumas levam tempo, precisam de reflexão profunda para o paciente elaborar e ver o que realmente faz sentido para ele. O milagre, se assim posso dizer, é a construção do novo hábito, a disciplina para fazer um pouco a cada dia e ir construindo o futuro. E nem precisa dizer que requer muito conhecimento, estudo e especialização do profissional de saúde.
Para meus alunos em formação da Pós-graduação em Coaching, sempre faço questão de deixar claro o que é escopo do Coaching e o que não é. Nestes casos, o melhor a fazer é construir com o coachee a ação de procurar uma ajuda de um psicólogo, de um psiquiatra. Ou apenas declarar, com cuidado, ética e respeito, que estão entrando numa seara que seria importante ter acompanhamento de um profissional da saúde. Quem faz isso, não perde cliente. Só reitera seu profissionalismo e cuidado com o coachee.
Digo isso porque realmente tem me preocupado a leviandade que tenho visto em relação a isso. Formações-relâmpago de coaching estão colocando no mercado pessoas que nunca atenderam ninguém (e que na verdade precisariam ser atendidas primeiro) e encorajando-as a lidar com o humano lançando mão de um conhecimento raso e sem horas de experiência para saber o que realmente significa atender uma pessoa. Falta estudo, falta profundidade, falta compromisso e respeito com o humano, que busca este serviço acreditando na proposta.
É claro que temos excelentes profissionais coaches que atuam com excelência e cuidado. Mas precisamos estar atentos ao que está sendo vendido e a promessa. Milagres não existem! Tenho recebido muitas pessoas no consultório com feridas geradas por intervenções deste tipo.
Precisamos ter mais cuidado, afinal, o processo de Coaching é uma das abordagens que pode ajudar quem está no fundo do poço, mas ele não serve pra quem está num poço sem fundo. Para encontrar ou ajudar a construir o chão, existem outros profissionais mais bem preparados. Estejamos atentos!

Não é pelo fato de que você discorda ou concorda comigo que estamos alinhados ou desalinhados. O fato é que nós precisamos ajustar as expectativas que temos.

“O que torna um conflito bom ou ruim é a atitude frente a ele”

Dia desses visitava um cliente. Enquanto o aguardava fiquei na sala de espera observando a dinâmica dos colaboradores daquela empresa. Atento às falas, aos movimentos e comportamentos dos profissionais dali, pude observar algo que sempre me chama a atenção: o clima organizacional.
Segundo o Portal RH (http://www.rhportal.com.br/artigos), Clima Organizacional é o conjunto de propriedades mensuráveis do ambiente de trabalho percebido, direta ou indiretamente pelos indivíduos que vivem e trabalham neste ambiente e que influencia a motivação, o comportamento, a produtividade e os relacionamentos dessas pessoas.
Do ponto de vista organizacional, clima é o indicador de satisfação dos membros de um sistema produtivo qualquer, em relação aos diferentes aspectos da cultura ou realidade aparente desse sistema, tais como: políticas de RH, modelo de gestão, processos de comunicação, valorização profissional e identificação com a empresa e relacionamentos.
A organização e as condições de trabalho, bem como as relações entre os colaboradores condicionam em grande parte a qualidade da vida e os resultados corporativos. Construir um clima propício para o trabalho e a convivência em grupo é estar contribuindo no desenvolvimento concreto e pessoal de todos os elementos fundamentais que nos fazem seres humanos: autonomia, legitimidade, diferenças e liberdade, tanto no domínio individual como social.
No tempo em que fiquei esperando meu cliente, observei um elevado grau de ansiedade das pessoas, instabilidade de humor, relacionamentos indelicados, muita movimentação, muito individualismo e pouco resultado. As pessoas cumpriam seu papel no trabalho como se aquilo fosse um fardo bastante pesado. Era visível a enorme quantidade de energia usada para manter as coisas mais ou menos sob controle, desviando-as dos fatores produtivos e relacionais realmente necessários.
Pois bem, para se melhorar o clima organizacional é necessário entender um pouco mais fundo a questão dos relacionamentos humanos.
As relações entre pessoas nos sistemas organizados ocorrem a partir de dois movimentos: vertical e horizontal.
O movimento vertical se caracteriza pelas relações hierárquicas. Tradicionalmente tal movimento era construído por ações desumanas e unilaterais, onde predominava
os desmandos, a manipulação pelo medo, a competitividade entre colegas e a insegurança entre as pessoas. Com a humanização dos processos gerenciais e a reorganização do trabalho, novas características foram incorporadas a esse movimento: qualificação, polifuncionalidade, visão sistêmica do processo produtivo, rotação das tarefas, autonomia, flexibilização e harmonia relacional.
A tendência, hoje, observada em organizações de alto desempenho, é ter colaboradores com maior escolaridade, competência, eficiência, espírito competitivo, criatividade, qualificação e empregabilidade. Tal política, no entanto, visa um melhor ambiente e uma maior produção, obtida antes, pela eficiência e pelo trabalho intelectual do que pelo excesso do esforço físico. Isso inclui agilidade das empresas diante do mercado, sem perder a noção de qualidade relacional que deve ser a tônica do clima onde se realiza o trabalho.
Significa também, atender às demandas do mercado, o que leva os profissionais a terem que se adaptar e aceitar as constantes mudanças e novas exigências das políticas competitivas no mercado global, bem como construir relações internas que promovam a saúde e a qualidade de vida. Manter essa equidade é, hoje, sinônimo de eficiência.
O fenômeno horizontal está relacionado à pressão para produção. Tradicionalmente isso era feito, devido à instabilidade do mercado, a partir do medo que a perda do emprego gerava e as poucas alternativas formais que se tinha até então de manter-se empregado. O enraizamento e a disseminação do medo no ambiente de trabalho criavam possibilidades de atos individualistas e tolerância às práticas autoritárias que sustentavam a cultura da subserviência. No entanto, esse fato, hoje, está mudando. A estabilidade econômica, o espaço para o empreendedorismo e as conquistas trabalhistas, já não permite mais a gestão organizacional a partir da cultura do medo.
Algumas organizações que ainda atuam com esse clima, fatalmente irão descobrir, mais cedo do que pensam o alto custo em manter tal cultura. Atuar a partir de autoritarismo, estimular a competição sistemática entre colegas, incentivar a indiferença ao outro e explorar os profissionais até o limite da sanidade relacional, é uma das formas mais efetivas de aumentar custos, perder clientes e sair do mercado.
Este fenômeno provoca o rompimento dos laços afetivos entre os pares, aumento do individualismo e instauração do ‘pacto do silêncio’, com também o ‘pacto da mediocridade’. As consequências mais comuns são: relações afetivas frias e endurecidas, comprometimento da saúde, da identidade e da dignidade, sentimento de inutilidade, descontentamento e falta de prazer no trabalho, aumento do absenteísmo e diminuição da produtividade.
Construir ambientes de trabalho e convivência cujo clima seja saudável é uma questão de retorno à humanidade. É valorizar o que nos constituiu como seres humanos, é primar pela qualidade de vida e pela vida de qualidade, antes de qualquer valor econômico por si mesmo.
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Desenvolvemos uma ferramenta online para avaliarmos as 5 dimensões da cultura da sua empresa/organização.
O Exame da Cultura Organizacional foi desenvolvido para identificar os ambientes que compõem a cultura de uma dada organização e como tais ambientes se relacionam com seus resultados, ajudando o gestor a tomar as melhores decisões para promover o desenvolvimento organizacional.
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Quando completei cinquenta anos, fiquei perplexo. Nunca pensei que chegaria tão longe. Nos meus sonhos de infância, essa idade era atributo dos mais velhos, e eu, certamente, não me imaginava “mais velho”. Mas, fato é, os cinquenta chegaram, e já, já serão cinquenta e “uns”. Hoje sou um “mais velho”, teoricamente mais sábio, mais prudente, mais conhecedor da vida. Teoricamente, porque, de fato, me parece que a única coisa efetiva dessa ideia de idade é que com o tempo a gente aprende a ver as coisas por outro ponto de vista. Não sei se melhor ou pior, mas, certamente, diferente – isso é um dos atributos das idades: fazer a gente ser diferente a cada dia. Particularmente, gosto da ideia. A gente acaba por ver o mundo sobre uma perspectiva talvez mais integral, mais plena. Aprende-se a não ser o centro do universo. No meu caso, pelo menos, tem sido assim. Essa perspectiva, no entanto, tem se apresentado sempre a partir de uma boa recordação das histórias que ouvia na infância: os contos de fadas. Não sei porque, mas tenho me lembrado deles e tenho escrito muito sobre eles. Meus alunos sabem disso. Esse é o caso da história desse texto. Um dia, meu amigo e colega Prof. Pontes passou-me um e-mail falando sobre a Roupa Nova do Rei, um conto de Hans Christian Andersen. Uma história da infância que nos revela muito sobre as relações entre as pessoas. Pois é! Dessa lembrança surgiram algumas reflexões. Aí vão elas.
Pra começo de conversa, é bom fazer um resumo da história para aqueles que não a conhecem.
Era uma vez – toda boa história começa assim – um reino. Um reino governado por um rei muito vaidoso que gastava todas as riquezas do reino com sua vaidade. Carros, joias, viagens, massagens, banhos florais, plásticas e tudo o mais que pudesse fazer algum efeito em sua aparência. Mas, de tudo isso, o que ele mais gostava eram as roupas. Seu guarda-roupa vivia entulhado das mais finas e caras peças da moda.
Aliás, isso era motivo de críticas severas de todos os seus assessores, sem falar dos inimigos políticos, que viam nessa prática bons motivos para desqualificá-lo. O povo sofria com a falta de recursos, porque todas as riquezas eram gastas com a vaidade do rei e as coisas que precisavam ser feitas não o eram. Mas, no fundo, no fundo, ele não era um mau rei. Desorientado, talvez.
Um dia, dois espertalhões, sabedores das loucuras desmedidas do rei por causa de sua vaidade, apresentaram-se no palácio real como sendo grandes costureiros de uma longínqua terra mágica. Diziam-se capazes de fazer a mais bela de todas as roupas, uma roupa tão perfeita que tornava quem a usasse incomparavelmente belo. O rei logo se interessou pelo assunto. Com uma roupa dessas, ele seria muito mais feliz. Assim, sem mais delongas, tratou de contratar os costureiros mágicos, encomendando a mais bela e cara de todas as roupas.
Assim, os costureiros começaram logo a trabalhar. Depois de tirar as medidas reais, passaram a produzir a tal roupa, trabalhando todos os dias com afinco e determinação, numa produção secreta de fazer inveja a qualquer trabalhador. O rei estava ficando ansioso, porque o tempo estava passando e nada da roupa ficar pronta. O reino também estava vivendo a grande expectativa do dia em que o rei haveria de se apresentar vestido de tal beleza.
Tamanha era a ansiedade, que um dia o rei resolveu ver o que faziam os costureiros e em que pé estava a produção de sua roupa.
Foi até o atelier e surpreendeu-se ao ver que nada estava sendo produzido. Não avistara nem um carretel de linha sequer. Não havia nem um botãozinho pra contar história. Imediatamente, cheio de raiva e frustração, foi ter com os costureiros para exigir deles uma explicação para aquilo.
— Senhores, como pode ser isso? Contratei-os para cozer uma roupa real, mágica e bela, mas vejo que nada está sendo feito! – disse o rei,
— Perdoe-nos, Vossa Alteza, mas tudo está sendo feito a seu
tempo. Aliás, estamos adiantados na confecção de sua roupa mágica e podemos lhe assegurar que é a mais bela de todos os tempos. – disseram os costureiros.
— Como, se não encontrei nada no atelier?
— Sim, Excelência, porque a roupa está guardada em local seguro, e, além do mais, por ser uma roupa mágica, só pode ser vista por pessoas inteligentes. Venha, vamos mostrá-la ao Senhor, embora
isso não devesse ser feito antes de concluírmos os trabalhos. Assim, levaram o rei a uma sala onde nada existia, e, com enorme maestria, começaram a mostrar tecido que não se via, linha que não se via, desenhos e modelos que não se viam.
— Veja, Vossa Alteza, que belo recorte temos aqui. Certamente, sendo Vossa Alteza muitíssimo inteligente, pode perceber como ficou bonito esse detalhe nas mangas, esse corte no colarinho,
essa combinação de cores.
O rei, como pessoa inteligente, passou a ver tudo, cores, tecidos, modelos…
Enfim, ficou pronta a roupa. Todo o reino estava ansioso por vê-la. O rei, orgulhoso de sua roupa, mandou que se fizesse uma festa nacional, na qual ele, vestindo a roupa mágica, iria desfilar
para todos os súditos. Também deveria ser explicado que a roupa só poderia ser vista por pessoas que fossem inteligentes.
Os costureiros, depois de receberem uma fortuna pelo trabalho, entregaram a roupa mágica e partiram sem nunca mais serem vistos.
Dia da festa. Povo reunido, o rei vestindo a roupa que não se via, sai pelas ruas da cidade ostentando sua mais nova aquisição. Todos aplaudem e comentam sobre a beleza da roupa.
— Como ficou bem, diziam uns; que belas cores, afirmavam outros; que bom gosto, comentava-se aqui e ali. E transcorria a festa, repleta de gente e de comentários “inteligentes”. Até que, de repente, um súdito menos avisado, insurge na multidão e, percebendo toda a trama, grita: «O REI ESTÁ NU!»
Imediatamente, todos percebem o papel ridículo que estavam fazendo, e o rei, ao contemplar sua nudez, descobre quão insensato estava sendo em sua vaidade.
Bom, essa é a história, contada do meu jeito a partir das lembranças. História que me faz pensar em muitas coisas.
Primeiro, revela que nossa autoimagem é construída sobre alicerces pouco consistentes. Estamos mais preocupados com o que pensam de nós do que com aquilo que somos. Geramos mais ações para construir imagens do que para ganharmos consistência. Fazemos o jogo do poder constituído. Somos capazes de “ver roupas mágicas” apenas para sermos “inteligentes” aos olhos dos outros, mesmo que isso nos torne ridículos. Essa enorme necessidade de sermos aceitos a qualquer custo torna-nos vulneráveis e incapazes a um honesto processo de autoconhecimento.
Segundo, denuncia a tirania do poder. “Veja o que o rei quer que seja visto”, assim você continuará sendo amigo do rei e, obviamente, usufruindo os benefícios da Corte. Submetemo-nos ao senso comum porque é mais fácil transitar pelo caminho da aquiescência do que sugerir um novo caminhar. O poder sabe disso. As estruturas de comando instaladas na sociedade usam desse artifício para manter os “súditos” em total estado de alienação. Vive-se das aparências, mesmo sabendo que estamos nus. O medo de ser diferente paralisa a criatividade, inibe o desenvolvimento, impede uma honesta construção das novidades, nos aprisiona ao óbvio, nos impede de sermos honestos.
Terceiro, a história nos conta de um rei que não foi capaz de encarar suas próprias limitações. A associação de fragilidades com o poder socialmente constituído faz de nós tiranos. O professor Rubem Alves dá a receita para se fazer tiranos. Diz ele: “pegue alguém com certezas plenas, verdades
absolutas, convicções definitivas e lhe dê poder. Está pronto o tirano”. Pessoas que não se veem, que não identificam suas fragilidades, que não percebem suas fraquezas, que não entendem suas limitações, são pessoas incapazes de pedir ajuda. Isso as torna solitárias e defensivas. Porque a capacidade de pedir ajuda é uma das maiores ferramentas na construção dos processos de aprendizagem social, e a solidão, o maior de todos os males. Só aprendo quando reconheço que não sei e que preciso daquele conhecimento. Reconhecer a necessidade é o primeiro passo, descobrir que o outro pode ajudar é o segundo, o terceiro é pedir ajuda. Isso nos envolve com o outro, torna-nos participantes, cria interação, desenvolve o senso de identidade.
Quarto passo, o de que há sempre alguém à espreita de um vaidoso. Somos presas fáceis na medida em que não vemos nossa própria vaidade. O rei acredita no absurdo porque necessita do absurdo para alimentar sua própria vaidade. Acredita na magia barata, seja ela qual for, porque não suporta sua própria contingência. Aí está o terreno fértil para o surgimento dos “salvadores da pátria”, dos curandeiros de ocasião, dos leitores do futuro, dos profetas de plantão. Quando não se compreende a própria limitação, transfere-se a gestão da vida para quem não tem nenhuma responsabilidade para com ela. O rei dilapida o reino para se satisfazer. Os “costureiros mágicos” partem antes que se constate que o rei está nu e a sociedade, perplexa, se vê cúmplice de sua própria mazela.
Quinto passo, sempre tem alguém lúcido por perto. O súdito “menos avisado” é alguém que revela o que todos podem ver, mas que não querem ou não se interessam em ver. Essa denúncia revela que é possível desmontar a trama em que nos envolvemos se optarmos por um compartilhamento honesto de nossas próprias percepções. Não no sentido da competição por ser o mais certo, por se ter a palavra final, para ser a nova referência do grupo ou coisa assim. Mas um honesto compartilhar, no sentido de se apresentar novas possibilidades como simples possibilidades. De propor uma nova via para o conhecimento e para a ação.
O rei está nu, essa é a visão fatal. Ela expõe nossa condição ao revelar a superficialidade das relações. Se por um lado é doloroso saber que o rei está nu, por outro é condição necessária para, de fato, se vestir. Portanto, a denúncia não se torna um fim em si mesmo, mas, antes, uma possibilidade
de solução real. O rei está nu, todos estão nus. A vergonha do rei é a expressão da vergonha do reino. Nada há no poder que não emane de quem o constituiu. Portanto, a história nos leva a refletir sobre as coisas às quais atribuímos valor. O que é relevante para mim? Como gasto meu tempo? O que tem prioridade em minhas decisões? Como escolho em quem votar? Em que invisto minhas competências? Essas e outras perguntas de mesma natureza podem nos levar a descobrir o que “está nu em nós”.
Ser capaz de entrar nesse processo de autoconhecimento descortina muito de nossa natureza, gerando uma real possibilidade de intervenção criativa na composição dos relacionamentos. Ser capaz de entrar nesse processo possibilita uma integração maior entre os membros de um grupo, de modo que as diferenças existentes passam a ser vistas como possibilidades e não como ameaças. Por fim, ter os olhos atentos ao que está acontecendo no contexto nos faz entender que o rei está nu, mas que ainda é rei.

A experiência é inenarrável! Tem coisas que a gente só conhece se experimenta. Não adianta o outro falar, não adianta ler livros, assistir vídeos, fazer cursos, teorizar. Tudo isso é muito importante, mas se quiser saber mesmo é preciso vivenciar. É o caso de pular de paraquedas. Essa experiência nos ensina sobre muitas coisas!
Um dia, depois de muito pensar e refletir, você decide que vai pular de paraquedas. Os amigos já pularam, você viu gente dizendo que é incrível, etc. Você não quer ser paraquedista. Só quer ter a experiência. Então descobre onde isso acontece e parte para a execução do desejo. Aqui já tem alguma coisa para se refletir. Tem muita gente que fica pensando, pensando, pensando, desejando, desejando, desejando e não faz nada. Morre na intenção. Mas você não! Você quer pular de paraquedas e “correu atrás”. Chega no local, o coração já acelerou um pouco quando viu que “o buraco parece ser mais embaixo”. Um pensamento passa pela cabeça: será que a ideia é tão boa assim? Mas, tudo bem, ainda estamos na zona de conforto. O instrutor se apresenta, lhe informa da sua (dele) autoridade e credenciais e passa a lhe tratar como “um discípulo”: dá as informações, mostra poses, simula situações, orienta sobre os procedimentos, conta como vai ser o passo-a-passo. Você lá, firme (será???). Mas a coisa continua. Agora chegou o momento de aparamentar-se. Você veste o macacão, coloca o capacete, prepara o celular para a filmagem. Afinal tudo precisa ir parar nas redes sociais. O instrutor faz as últimas simulações: prende você nele porque seu salto será “assistido”, lhe coloca na posição que você deverá ficar quando estiver na porta do avião para saltar. Porta do avião, saltar? Eita! Essas palavras passaram a ter um outro sentido. De repente você percebeu um pequeno tremor nas pernas. Bobagem! Vamos em frente! O bambu treme mas não quebra.
Tudo certo, você caminha agora para o pátio onde está o avião (aviãozinho, diga-se de passagem). Como é que alguém pode acreditar que aquilo vai voar e que é seguro? Ainda mais cheio de gente? O tremor nas pernas fica um pouco mais forte e já reverbera na voz. O ar está pouco por aqui (você pensa enquanto o fôlego parece diminuir). Mas coragem é coragem; pelo menos por enquanto. Você segue com aquela sensação de “o que é que eu estou fazendo aqui”. Nesse momento a vontade de ir ao banheiro aparece, você precisa ligar para alguém, pensa num compromisso importante, acha que não está preparado… Será mesmo que vou fazer isso? Sério, serião??? Meu Deus! Onde é que fui me meter. O aviãozinho ficou mais “zinho” ainda e você entrou em estado de dormência.
Você chega perto “daquilo” e pela primeira vez tem a clareza de como as sardinhas se sentem dentro da lata. Mas a razão impera. Eu sou um ser humano ou um rato? Na real? Nesse momento você sente que está mais para rato. Sobe a escadinha do avião e tenta mostrar para todos que está tudo bem. Há um sorriso nos lábios que não engana ninguém, muito menos você; as pernas parecem desparafusadas e você fica com aquela vontade de pedir para o instrutor “segura minha mão???” Agora é “a hora da onça beber água”.
O aviãozinho corre desesperadamente pela pista, num ritmo frenético que só o seu coração é capaz de reconhecer: “isso não vai dar certo”. Mas, o bichinho é valente e sobe, sobe, sobre. As coisas vão ficando cada vez menores. Como é lindo o horizonte, a paisagem, a natureza; e você lá, firme “pero no mucho”.
Muito bem, gente! Diz o instrutor ao abrir a porta do avião. Vamos nos preparar porque estamos chegando na área de salto. Você pensa: salto, como assim???? É que você tinha esquecido do propósito enquanto apreciava a vista. E agora José????
Você começa a pensar se foi uma boa ideia, se estava preparado, se aquele era o momento adequado. Olha aí você se boicotando. Todo propósito desejado parece que vai sucumbir. Mas, você vai se superar (pelo menos espera). O que você não sabe é que as coisas vão ficar mais tensas.
O instrutor chama você, lhe prende ao macacão dele e, juntos vão para a porta do avião. “Como um cordeiro diante dos seus tosquiadores você não abre a sua boca”. Posicionados, você e o instrutor seguram na barra de salto. Nesse momento as instruções finais lhe dão todo o “choque de realidade”. É agora! Você não queria saber disso. O instrutor lhe diz: vou soltar a minha mão e você continua segurando firme, ok? Nós só vamos saltar se você quiser, quando quiser. A decisão é sua.
Meu Deus!!!!!! As informações sobre segurança, as estatísticas de sucesso, toda a preparação… Tem o paraquedas principal, tem o de segurança, o “cara” é o melhor paraquedista do mundo, todo mundo diz que é seguro, nunca aconteceu nada de errado… Pô, mas agora é comigo! Sou eu que estou “na fita”.
A história continua. Você, na porta do avião, segurando a barra de saltos com a firmeza de fazer inveja ao super-homem. Nesse momento você entendeu aquela conversa de “tá cortando agulha”. Entre seus dedos e a barra não passa nem pensamentos, muito menos por outros orifícios. E o instrutor insiste: quando você estiver pronto, é só soltar as mãos. Como assim? Só soltar as mãos!!!!!
O instrutor é alguém que já viveu centenas de vezes esse momento e lhe incentiva. Ele é um especialista em motivação, embora nem sempre funcione. Você dá conta, se quiser é só soltar as mãos, ninguém vai lhe forçar a nada, mas é você que tem que decidir. O tempo passa e você descobre a relatividade de Einstein. Cada segundo parece uma eternidade. Você quer saltar? O tempo está acabando. Solte as mãos…
***
Bem é aqui que o “bicho pega”. Você tem duas alternativas.
Primeira, você pode dizer que não consegue saltar, que não quer mais, que o paraquedas pode não abrir, sei lá. Tudo bem, o instrutor entende, respeita e comanda o avião para voltar para o aeroclube. O avião aterrissa e você desce pela escadinha com a sensação de que esteve “quase lá”. Foi por pouco. Essa é a forma mais clara de se entender o conceito e a experiência do que é frustração. Mas, ok, você vai lidar com isso (espero). Afinal não se deve correr riscos desnecessários, tudo tem limites e as terapias estão aí para isso mesmo. Porém, se você escolhe esse caminho, que história você vai contar para os seus netos???? Que você quase conseguiu isso ou aquilo? Como é que você vai se olhar no espelho? O pior é que tem gente que vive a vida inteira se frustrando e dando desculpas. É, mas o que está em jogo vai muito além disso. Você está lidando com certas dificuldades relacionais que precisam ser enfrentadas. Dificuldades que começam com o modo como você se vê no mundo, e isso vai mais além do que pular de paraquedas. Veja, cercar-se de informação, planejamento, tecnologia, recursos, etc, faz com que os riscos sejam minimizados, mas eles continuarão a existir. Viver é conviver com possibilidades e riscos e assumi-los como parte do processo. Quem só quer possibilidades e não aceita os riscos, não realiza o salto da vida. Muitas vezes aprende a preferir o conforto do “galinheiro” do que se arriscar na amplitude dos céus. No galinheiro há segurança, nos céus há liberdade e encantamento. Sobre isso há um livro lindo “A Águia e a Galinha” do Frei Leonardo Boff, que recomendo ler. Muitas vezes nosso medo racionaliza nossas possibilidades e nos convencemos de que somos “galinhas” e não deixamos nossa natureza de águia aflorar. O resultado é uma vida cheia de sonhos sem realização, cheia de vontades mas com pouca ação, cheia de conhecimento mas com pouca construção, cheia de títulos mas com pouca autoridade, cheia de conceitos mas com pouca vivencia. O nome disso é mediocridade.
Segunda, você reconhece sua vulnerabilidade, reconhece que existe um certo risco, assume o medo, enfrenta a si mesmo em nome do seu sonho e desejo. Acredita no que intencionou, planejou, preparou e se propôs a executar. E, contra todo sentimento do medo que paralisa, da autoproteção e da autossabotagem que querem lhe manter na “zona de conforto”, você está encantado diante da nova experiência e de toda aprendizagem que ela contém. Agora é a hora de respirar fundo e, heroica e bravamente, soltar a mão e cair no espaço, no nada, no vazio cheio de infinitas possibilidades. Essa queda livre é uma eternidade, embora não passe de alguns segundos. Nesse instante subatômico, nesse fragmento do microssegundo, na decisão do risco calculado, mas assumido, na intensidade do “jogar-se” é que a vida se constrói, que o “universo se fez”. Agora, solto no espaço, o coração saindo pela boca, a sensação é outra. De repente o paraquedas se abre e você sente que está navegando seguro. O céu foi conquistado e não há nada mais que você possa fazer a não ser viver a experiência. Você está voando, portanto, desfrute. A paisagem reveste-se de cores, formas e significados que você jamais imaginou. Afinal, “não fomos feitos para voar”, mas você está voando. Você superou os limites, atravessou o portal do conforto e, como uma águia, mergulhou no vazio que foi preenchido pela mais alucinante e inesquecível experiência que você jamais havia tido. São poucos minutos, mas sua mente mudou, sua emoção mudou, sua visão de mundo mudou, você é agora uma possibilidade alada. Você voou. Ao chegar no solo, a sensação é tão boa que dá vontade de fazer tudo de novo, agora. Cadê o aviãozinho, quero ele de novo para colocar-me diante do incomensurável. Aliás, “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, disse o Fernando Pessoa. Cada medo, cada momento, cada “risco”, cada insegurança, tudo se incorpora na experiência nova, na possibilidade do futuro que recomeça.
E aí, qual a alternativa que você escolhe? Quanta coisa você tem desejado realizar e que “só falta soltar a mão”? Meu desafio a você, e que tem sido minha luta diária, é ser capaz de permitir deixar-se encantar pelas infinitas possibilidades que nos são apresentadas diariamente. É tornar-se maior do que você mesmo. Os riscos existem, mas são infinitamente menores que as realizações, quando nos dispomos a ousar. Vá, faça o que lhe parece impossível e, de repente, descobrirá que pode construir um novo VOCÊ.
Reflita em paz.
Homero Reis.

A paixão fora intensa e fulminante. Enfim tinham encontrado suas almas-gêmeas, a metade da laranja. Foi tão arrebatador que em um ano estavam casados. Jovens, bonitos, inteligentes, bem-sucedidos, a vida era só alegria, sonhos e futuro. Dois anos depois o primeiro filho, no ano seguinte o segundo; um casal. Como quem herda, não rouba, os filhos saíram aos pais: bonitos, inteligentes, etc, etc, etc. Como se não bastasse, as famílias eram amigas de longa data. O casamento, os filhos e a vida em geral era orgulho e exemplo para muita gente.
De repente, não mais que de repente (será?), a coisa desandou. Já não se entendiam mais. Tudo era motivo para discussões e brigas de fato. Ele a acusava de trabalhar demais, de não cuidar da casa, de não dar atenção devida aos filhos. Ela se sentia só, ameaçada, não desejada, além de julgá-lo um ausente. O carinho já não existia; o sexo, nem pensar; as conversas pouco efetivas, as acusações abundantes de ambos os lados. “Todos ralham e ninguém tem razão”.
Aonde foi parar aquele amor outrora dito eterno?
O fato é que ninguém segurou a barra e a coisa desandou de vez: separaram-se. Emocionalmente destruídos, a amizade familiar fragilizou-se, os filhos ficaram confusos, alguns amigos se afastaram e não tinha ninguém para recolher “os cacos”.
Quem errou? De quem é a culpa? Onde foi que se perdeu o rumo? Apontar culpados ou atribuir causas ao desgaste relacional não é o mais importante. Apenas esteja consciente, que não há paixão ou amor, que resista a incompetência relacional.
Para nutrir relacionamentos, há que se criar um espaço de confiança, de respeito, no qual, diante dos desafios da vida, os sentimentos mais difíceis, as frustrações e as expectativas de um sobre o outro, sejam acolhidas de tal forma que se reflitam no dia a dia do casal.
Não é fácil, mas essa competência relacional pode ser desenvolvida. E saiba que investir tempo, energia e mesmo recursos financeiros é infinitamente menos custoso que o custo de rompimento de uma relação.
Se esse caso lhe soa familiar, se tem algo nessa história que lhe chama a atenção, quero lhe convidar para conversarmos sobre relacionamentos. Você poderá agendar um horário com a Marcela, no marcela@homeroreis.com, ou 061981221916
Abraços.

Nós somos seres autônomos, é fato, mas não somos autossuficientes.
Por isso tudo que aconteceu na nossa vida e tudo que acontece na nossa vida tem a contribuição de um grupo de pessoas, que compõe a nossa rede de relacionamentos.
Reconhecer a existência dessa rede e a importância das pessoas que passaram pela nossa vida e que passam pela nossa vida é um dos maiores desafios da inteligência relacional, por isso, para um pouquinho, pense, quanta gente lhe ajudou a ser quem você é e se possível dá um alô para essas pessoas, agradeça e você verá as suas relações frutificarem. 22

Nasci em maio de 1955. Na adolescência, por volta dos anos 70, as conversas na “turminha” giravam em torno do futuro. Naquela época, passava na televisão a série futurista Os Jetsons. Um desenho animado para televisão produzida pela Hanna-Barbera, exibida originalmente entre 1962 e 1963. No Brasil foi exibido pela antiga TV Excelsior, até meados de 1987. Nela, falava-se de robôs, casas flutuantes, carros aéreos, telecomunicações em som e imagem, além de inúmeras outras questões sobre relacionamentos, trabalho, tecnologia, educação etc. Para uns, era pura fantasia, para outros, alucinação. Mas sempre haviam aqueles que “juravam de pés juntos” que tudo aquilo seria possível. Era só esperar o ano 2000.
Pois bem, o ano 2000 chegou e muito daquilo que víamos nos Jetsons não se concretizou. Por outro lado, coisas impensáveis tornaram-se reais, embora as provocações daquele desenho continuem a nos desafiar. Por que não? É essa pergunta que, hoje, nos impulsiona ao futuro. A velocidade da criação tecnológica e a obsolescência das coisas estão produzindo um mundo bem mais avançado do que os Jetsons poderiam supor, e a reflexão filosófica presente nos primeiros vinte anos do século XXI segue o mesmo caminho. Agora sim, tudo é uma questão de tempo.
Essa é a grande questão da filosofia em tempos do terceiro milênio. Vou apresentá-la em dois grandes eixos. No primeiro eixo, discorro sobre o que a tecnologia está fazendo com a humanidade e como está fazendo isso. Assim sendo, o que esperar de um futuro próximo? No segundo eixo, discorro sobre como a humanidade está se relacionando com seus próprios valores num mundo tecnologicamente veloz e os impactos dessa relação no modo como as pessoas estão vivendo.

Começo lhes apresentando alguns dados que venho coletando nos últimos dez anos. A população mundial, hoje, ultrapassa sete bilhões de pessoas; 20% dessas pessoas estão na China, 17% estão na Índia. Juntos, esses dois países têm mais de 1/3 da população mundial. Se considerarmos os 16% mais qualificados da Índia, veremos que há mais pessoas qualificadas (mestres e doutores) na Índia do que o total da população brasileira em 2018. Esse dado cria um grande desafio para os estudantes no Brasil, impacta as políticas públicas no mundo e nos desafia resolver questões básicas como a própria sobrevivência da espécie no planeta. Temas como preservação da vida, igualdade de oportunidades, fronteiras nacionais, ideologia de gênero, lixo, poluição, segurança energética, alimentar e ecológica estão na pauta.
Mas, a coisa é bem mais séria do que parece. Enquanto você está lendo esse capítulo, 30 bebês nasceram no Brasil, 244 na China, 351 na Índia, fora os que estão sendo feitos agora. Isso não só juveniliza a população como incrementa a quebra de paradigmas. Cada vez se viverá mais, se consumirá mais, mais coisas serão necessárias em todos os domínios do viver humano. A produção de coisas necessárias é ilimitada? O planeta sustentará todos? Sairemos daqui para conquistar outros espaços na galáxia? A reflexão vai ficando complexa.
No início do século XX, a Inglaterra era o país mais rico do mundo, com o maior exército. Era o centro mundial de negócios e finanças, possuía o melhor sistema de educação, era líder em inovação e desenvolvimento tecnológico e social, detinha o melhor conceito de valor mundial e melhor padrão de vida. Hoje, isso já não é mais verdade e várias outras nações emergiram e estão emergindo e ameaçando a atual estrutura do poder mundial. Só para se ter uma ideia, em breve, a China será o país que mais falará inglês no mundo.
Nos USA, dados de 2017, mais da metade dos profissionais trabalha há menos de cinco anos na mesma empresa. Além disso, somente 25% desses profissionais permanecem na mesma empresa por mais de um ano. A juvenilização das profissões e o empreendedorismo estão modificando a noção de trabalho. Conversas sobre “estabilidade” no emprego só são mantidas em países subdesenvolvidos e por pessoas alheias ao grande cenário mundial.
Segundo a ONU, os estudantes de hoje, com 20 anos, passarão por 10 a 14 empregos antes de chegarem aos 38 anos de idade. Nos países desenvolvidos, a ideia de emprego fixo está cada vez mais fora da agenda dos jovens. Isso porque muitas das profissões indispensáveis em 2025, não existiam em 2010. O impacto disso na educação ainda é pouco percebido pelo sistema convencional de ensino. Ou seja, estamos preparando profissionais para profissões que ainda não existem e que usarão tecnologias que ainda não foram inventadas, para resolver problemas que ainda não sabemos que teremos.
Estamos usando a internet e os smartphones para tudo na vida. Tanto é que a frase que emoldura o pensamento estratégico e filosófico, hoje, é: o que não couber na sua mão, não terá lugar no futuro. Tudo está sendo feito através dos nossos smartphones e já se discute se eles serão mesmo necessários daqui a alguns poucos anos. Por enquanto, você está resolvendo tudo com eles: contrata transporte, aluga apartamentos, compra passagens e coisas no supermercado, resolve problemas bancários, certifica-se de sua saúde, reúne-se com pessoas que estão a milhares de quilômetros distantes, pede comida e faz ginástica. Pois bem, você já entendeu o contexto. A lista de possibilidades é infinita.
Mais alguns dados. Em 2012, nos USA, um em cada oito casais se conheceu e se casou a partir de sites de relacionamento. As operações financeiras feitas pela rede mundial de computadores são hoje mais volumosas que as operações convencionais, o que coloca em xeque a necessidade de se ter “agências bancárias” e muito menos “papel-moeda”, aquilo que chamamos de dinheiro. Tudo o que é socialmente vital está sendo gerido e controlado pela internet, de forma remota e a um custo cada vez mais baixo.
Nos últimos cinco anos, mais de 120 milhões de usuários se registraram nas mídias sociais, e só no Facebook são mais de cem milhões. Se o Face fosse um país, ele estaria entre os “Top Ten” do planeta, maior que a maioria dos países europeus. O Google responde a mais de 2,7 bilhões de perguntas por mês; ou seja, 3.750.000 perguntas por hora. Para quem fazíamos essas perguntas antes?
A quantidade de mensagens enviadas diariamente ultrapassa a quantidade de pessoas do planeta. Além disso, hoje existem cerca de 380.000 palavras e expressões novas em português que não existiam na época de Camões. Mais de 4.000 livros novos são publicados diariamente e, em sua maioria, feita por meio digital, o que coloca em xeque o modelo de negócios da indústria gráfica e a disseminação de informação.

Por outro lado, a quantidade de informação gerada somente este ano é maior do que toda a informação acumulada nos últimos 5.000 anos, além do fato de que tal quantidade dobra a cada 18 meses. Isso significa que o que se aprende no primeiro ano da faculdade estará desatualizado no terceiro ano. Além do mais, muitas profissões, atualmente ativas, vão ser inúteis dentro de 25 anos. A seguir, apresento-lhes parte da lista resultante de uma pesquisa feita na Universidade de Oxford, Inglaterra, em 2013, sobre os percentuais de risco que algumas profissões têm de serem extintas:
1. Operadores de telemarketing, corretores, etc – 96%
2. Árbitros em geral – 97%
3. Caixas, chefs, garçons – 94%
4. Assistentes jurídicos – 92%
5. Motoristas – 98%
6. Guias de turismo – 91%
7. Veterinários – 86%
8. Artesãos (carpinteiros, serralheiros, etc) – 76%
9. Engenheiros e arquitetos – 78%
10. Médicos generalistas – 75%
11. Profissões ligadas a artes – 40%
12. Advogados – 70%
A informação em meio físico está em franco declínio porque os meios digitais superam todas as mídias tradicionais fazendo com que o modelo de negócio da indústria da comunicação entre em crise profunda e em colapso nos próximos anos. É o fenômeno da “crônica da morte anunciada” para esse setor. Basta ver o que está acontecendo com jornais impressos, canais abertos de TV e a indústria fonográfica. O fato é que cada vez menos pessoas compram jornais, assistem a TV aberta convencional, compram mídias de música. Imprimir foto? Nem pensar. Isso significa que as coisas no mundo virtual serão cada vez melhores, mais baratas e mais acessíveis do que no mundo “real”, e se atualizarão mais rapidamente.
Depois de ser inventada, a eletricidade demorou 46 anos para ser adotada por, pelo menos, 25% da população americana. Foram necessários 35 anos para se adotar o telefone, 31 para o rádio, 26 para a televisão, 16 para o computador, 13 para o celular e 7 para a internet. Isso significa que as pessoas estão incorporando, cada vez mais rápido, as inovações e as tecnologias que estão sendo produzidas. Por outro lado, tais inovações não são feitas mais em “ilhas de excelência” mundo afora. São resultados de ações integradoras de diversos setores atuando juntos, cada vez mais quebrando os paradigmas que compõem a vida.
Negócios de “garagem”, conforme cita Mauricio Bevenutti, substituem grandes corporações. A Apple mudou não só o negócio de celulares e computadores, mas também o de lanternas, relógios de pulso, despertadores, fotografia e música. Se quer saber mais, é só se informar sobre o que aconteceu com a Kodak. Por outro lado, apenas a título de história, quando Thomas Edison inventou a lâmpada elétrica, irritou muito os acendedores de lampiões e os fornecedores de óleo combustível para iluminação urbana. Karl Benz, ao inventar o carro, irritou muito os carroceiros. A televisão irritou os radialistas; o computador, os datilógrafos; o WhatsApp irrita as telefônicas; a Tesla, os petroleiros; a NetFlix, as emissoras de TV e os distribuidores de filmes; o Uber, os taxistas; o Airbnb, a indústria hoteleira, e assim por diante. Isso nos ensina que não vai adiantar muito ser contra. As inovações e todas as ofertas da tecnologia estão chegando cada vez mais rápido e instalando-se independente da irritação de alguns segmentos sociais. Essa é a dinâmica do futuro.
Isso tudo altera a forma como a humanidade se expressa e se relaciona no mundo, o que nos remete ao modo como a sociedade está se relacionando com seus próprios valores.

A Sociedade do Espetáculo, texto magnífico do marxista Guy Debord, publicado originalmente em 1967 e a Civilização do Espetáculo, livro de 2012 do inquieto Mario Vargas Lhosa, cada um a seu estilo, trazem uma reflexão inquietante que, a meu ver, busca encontrar respostas ao apequenamento e à volatilização da cultura e da filosofia do mundo tecnologicamente veloz e relacionalmente distante. Esse mundo, chamado de líquido por Zygmunt Baumann (ele não gostava da expressão pós-modernidade), funda-se na visão da pós-verdade denunciada pela inteligência relacional. Tudo é possível, mas nada tende a ser coletivo. É a solidão em meio à multidão, como apresentado no livro de Martin Heidegger, Todos Nós… Ninguém. Talvez por isso a depressão será (se já não é), a doença do século.
O pano de fundo desse modelo, fundado na tecnologização da vida, nos expõe à sua natureza insólita. Desde as despretensiosas, mas acaloradas “conversas de boteco”, até as herméticas discussões da academia, a proposição de um futuro mágico cheio de robôs, chips, algoritmos e autômatos nos arma uma arapuca aventureira do tipo “como era gostoso meu francês”, filme de Nelson Pereira dos Santos (1971).
Os tempos atuais são mais de superficialidades e provocações desmedidas, fomentadas por controladores dos mercados culturais, do que de reflexões verdadeiras que nos coloquem na senda de um mundo mais denso, embora rápido, sem perder a leveza do ser como queria Milan Kundera. Nesse mundo de cibernéticos, toma-se a imagem pela realidade, a verdade incômoda pela interpretação conveniente que não nos faz refletir, os relacionamentos efêmeros pela “honestidade” relacional. Não precisamos nos melhorar porque o culpado é sempre o outro e, na pior das hipóteses, a fila anda. Os aplicativos e as facilidades eletrônicas estão famintos pela vida dos (ainda) “não aplicativos” porque sua sina não é fazer o mundo melhor, mas “automatizar” o mundo todo. Nesse mundo automático, não existe forma mais eficaz de entreter e divertir do que alimentar as paixões simplórias dos mortais, figuras resultantes de uma sociedade que aprendeu a consumir rápido e a descartar tudo. Assim, a catástrofe ameniza os dramas cotidianos. Tudo, desde terremotos a assassinatos em série, principalmente se neles houver agravantes de sadismos e perversões, é alimento para os consumidores pós-verdade, que descaracterizam a nobreza do humano pelo fato de que nada mais pode ser visto como estável. Sobre isso recomendo Jean-Pierre Dupuy, quando escreve sobre René Gerard no livro O Tempo das Catástrofes; belíssima reflexão sobre “quando o impossível é uma certeza”.
Nesse cenário, cabe a filosofia orientar e esclarecer as pessoas sobre o que elas estão consumindo sob o rótulo de cultura para lhes facultar não perder a consciência de que são seres humanos. A falta dessa consciência nos torna obsessivos por nós mesmos, fazendo com que o mito de narciso seja reinstalado no cotidiano de nossas ações sem que nos apercebamos para onde elas nos levarão. O orgulho narcisista promove a arrogância de pessoas que menosprezam tudo, menos a si mesmos. A isso, a sábia vingança dos deuses foi permitir a Narciso “beber de seu próprio veneno”. Apaixonado por si mesmo, definha-se na autocontemplação. Será esse nosso destino e futuro?
Mas, os desafios da filosofia prosseguem. Uma coisa é acreditar que todas as expressões culturais merecem consideração; outra é acreditar que são equivalentes. As perspectivas futuras da sociedade da tecnologia, nos apresenta uma filosofia que nos faz entender o tanto que a cultura atual prima pela ilusão e efemeridades levando os incautos do consumismo descartável ao destino decadente de uma sociedade superficial. Vale ressaltar que cultura não tem nada a ver com quantidade, e sim com a qualidade do que se escolhe como “alimento” da vida. O mundo dos robôs ri da desgraça, do exagero trágico, da vida fácil e da monetarização da catástrofe, contanto que tudo isso seja transformado em espetáculo comercial, conforme preconiza Lhosa.
Mas a reflexão filosófica sobre o futuro vai mais longe. Assume que a cultura pode ser experimentação, reflexão, pensamento e sonho, paixão e poesia. Mas entende que a revisão crítica, profunda e constante de todas as certezas e convicções, teorias e crenças, deve nos afastar dos lugares-comuns, do artifício, do sofisma e da desintegração do ser; mas não pode nos afastar da vida real, da vida verdadeira, da vida vivida em seus dramas e comédias que sustentam o ser humano em sua honesta busca de si mesmo, conforme queriam os pré-socráticos.
A filosofia denuncia, “realidade real” já não existe, foi subjugada pela “realidade virtual”, criada pelas imagens publicitárias, pelos meios de comunicação e pela possibilidade de se projetar no mundo fantástico das redes sociais. O ilusionismo, como a melhor versão do nosso tempo, ocupa o lugar daquilo que se é entendida como realidade histórica, conhecimento objetivo do desenvolvimento pessoal e social. Nada mais pode ser verdadeiro. Tudo nasce minado em sua natureza ontológica por um vírus dissolvente que é a projeção imagética e manipulada dos interesses dominantes. O resultado é uma humanidade domesticada pela fantasia midiática dentro da qual nascemos, vivemos e morreremos(?). Tudo, em nome do tempo real, é produzido, editado, colorido, encenado com sinfonias que dão o clima ao evento, entremeados por manhãs de famílias “felizes” porque consomem determinada margarina. A beleza estética e o gosto artístico, defendidos por Platão, e que esculpem as relações saudáveis entre os diferentes seres, é formatado por um modelo pasteurizado que tira de nós qualquer perspectiva crítica que promova uma melhoria real no ser humano e na sociedade contemporânea; são as dimensões do mercado. Os frutos estão aí, na denúncia de uma sociedade pós-moderna que desarmou estética, moral e politicamente a cultura do nosso tempo. O resultado disto, logicamente, é a alienação psicológica, um estado mental restritivo e confuso, imediatista e irascível, individualista, ainda que circunscrito pela multidão.
Tal movimento é belamente denunciado num livro de Vitor Santiago Borges, Zumbilândia (2018), que tive o prazer e a honra de prefaciar. Nele, o mito e a mentalidade patológica dos nossos dias são escancarados ao leitor honesto. Santiago provoca a reflexão quando afirma que a popularidade e o sucesso, nesse mundo onde os zumbis fazem sucesso, são conquistados não tanto pela inteligência e pela probidade quanto pela demagogia e pelo talento histriônico. Assim, ocorre o curioso paradoxo de que, enquanto nas sociedades autoritárias é a política que corrompe e degrada a cultura, nas sociedades ditas de futuro, é a cultura (ou aquilo que se chama por cultura) que corrompe e degrada as pessoas. Essa tese é aprofundada por Aldo Carotenuto, quando escreve sobre As Novas Doenças da Alma. Ali, ele sugere, que nos tempos atuais o que é oferecido para o consumo da alma é exatamente aquilo que a alma humana, por sua natureza, despreza, mas que pela força da universalização de tudo, acaba-se consumindo e adoecendo novas doenças: síndrome do pânico, depressão, solidão e outros dramas de mesma etiologia fazem parte desse diagnóstico. Vê-se o entendimento de que, no passado, a cultura foi a melhor forma de chamar a atenção da humanidade para os problemas da própria humanidade; agora, ela tem se tornado um mecanismo para nos fazer ignorar tais problemas e nos manter numa relação pasteurizada para tudo. Estamos no fim do mundo? Certamente não, mas estamos no fim de um mundo.
Será que nossa geração saberá lidar com todo esse cenário? Como poderemos capacitar aqueles que nos sucederão, para que a vida retome a reflexão profunda sobre as nossas relações com as pessoas e as coisas, de modo que a esperança, ao invés de ser a última que morre, torne-se a primeira a (re)nascer? Essas são questões nutritivas que a filosofia dos dias atuais procura discutir para fazer com que a humanidade no afã de ser “moderna” não perca seu principal valor que é “ser humana”.
Se você quiser aprofundar-se mais nessas questões, sugiro que leia quatro livros: “Incansáveis”, de Maurício Benvenutti; “Sapiens” e “Homo Deus”, de Yuvah Noah Harari; e, “Origem”, de Dan Brown. Esses livros são realmente inspiradores e não são ficção científica. São, na verdade, relatos do que está ocorrendo no mundo.
Reflitam em paz!
Homero Reis
Brasília, 12/07/18

O comprometimento afetivo é aquele associado à ideia de lealdade, desejo de contribuir junto, sentimento de orgulho em permanecer na organização.
“pode ser equiparado com sentimentos de autorresponsabilidade por um determinado ato, especialmente se eles são percebidos como livremente escolhidos, públicos eirrevogáveis”. (BASTOS, 1993)

5 – As organizações têm objetivos e estratégias “operadas” a partir da cultura organizacional: Esses elementos nem sempre estão claros para as pessoas. Dar feedbacks inclusivos é fazer com que a razão de ser das coisas (negócio, objetivos, estratégias etc.) esteja claro e alinhado com todos. Esse movimento amplia a força de atuação da equipe, evitando o desperdício de energia e recursos.


Tem ocorrido uma espécie de movimento que diz repetidamente “Você foi feito para vencer”. E eu me pergunto: “Então, porque às vezes eu não venço?”
Por que não alcanço aquele cargo? Por que não consigo trabalhar menos? Por que minha equipe não funciona como eu gostaria?
Em princípio, creio que duas coisas estão ocorrendo: nosso conceito de sucesso ou de ser vencedor está equivocado e nossa atitude diante da vida é míope.
Imaginem uma pessoa adulta, por exemplo, um artesão. Essa pessoa não conseguiu, até então, ter dinheiro para pagar aluguel de sua casa e nem mesmo casa tem; vive de doações dos amigos; é considerada pela população em geral como uma rebelde ou um louca pretensiosa. Essa pessoa pode ser considerada alguém de sucesso?
Se você disser que não, é preciso repensar. Estamos aqui falando do homem que tornou-se o maior de todos os protagonistas da história ocidental: Jesus. Com trinta e três anos de idade, ele era considerado absolutamente um pária da sociedade. As únicas pessoas que gostavam dele eram seus poucos discípulos. Ele não tinha dinheiro para viver, vivia do sustento dado por algumas mulheres. E morreu crucificado.
Van Gogh, Freud, Nietzsche ou Mozart são mais alguns exemplos de pessoas consideradas vencedoras mas que, se olharmos para dentro de suas jornadas de vida, veremos que viveram de forma totalmente diferente do conceito de sucesso pregado e vendido por aí.
Trago isso porque precisamos ter, sobre o sucesso, uma visão menos míope e mais clara:
“Sucesso, na verdade, é a capacidade que você tem de manter-se íntegro ao seu propósito, à sua natureza e à sua identidade. É seguir de forma determinada, consciente e consistente seu projeto de vida, a razão pela qual você veio ao mundo, a razão pela qual você se torna inspirador.”
Neste vídeo, eu trago algumas provocações sobre o conceito de vencer e de sucesso.
Além disso, ao meu ver, existem pelo menos duas perspectivas erradas no modo de ser contemporâneo que contribuem para essa visão errônea sobre sucesso: o imediatismo e a descartabilidade.
No imediatismo, perde-se a capacidade de esperar e constrói-se uma relação ansiosa com todas as coisas. Tudo começa a sofrer de uma imperiosa urgência que não respeita tempos, nem épocas. “Quero tudo agora e não sei esperar.”
“Quando não reconheço que aquilo que eu tenho hoje é fruto de um processo de escolhas que começou há vinte, trinta, quarenta anos, desenvolvo uma desastrosa ansiedade sobre tudo e todos”
Se fui feito para vencer, devo começar assumindo a responsabilidade sobre o que andei plantando nos últimos tempos.
Olhe para trás e pergunte-se sobre o que plantou, porque é isso que você está colhendo agora.
Olhe para a sua equipe, para a sua carreira e para a jornada que você tem feito na sua vida profissional. Olhe para a sua gestão.
Se você quer mudar alguma coisa, comece agora a plantar coisas novas. Daqui a algum tempo você vai colher os frutos.
As coisas não acontecem em função de nossa demanda imediata. Não é nossa ansiedade que faz as coisas acontecerem.
Entender isso é o primeiro passo para sermos, de fato, pessoas de sucesso e vencedores.
A descartabilidade é o princípio pelo qual eliminamos as coisas que já não nos são úteis; coisas que julgamos não darem mais os resultados que eu gostaria que elas dessem, sem nenhum esforço por restauração.
Aí jogo fora.
Por exemplo, antigamente, a gente botava meia-sola em sapato. Hoje, você não põe mais. Você joga o sapato fora e compra outro.
E nisso, a gente joga fora trabalhos, projetos, objetivos, colaboradores, relacionamentos. O que ou quem você tem jogado fora?
Outro aspecto de “ser vencedor” está ligado à capacidade relacional. As doenças relacionais trazem em si, 3 elementos:

Tem gente que trabalha dezoito horas por dia e não tem tempo para contemplar as coisas importantes da vida. Vive uma vida infernal, não tem agenda para absolutamente nada e diz que isso é uma vida de sucesso.
Não sabe delegar, não capacita outros, não confia e acha que o problema é falta de tempo.
“Tenho aprendido a ter uma agenda cheia de espaços vazios. Minha agenda é absolutamente lotada de espaços vazios. Eu digo para meus clientes que procuro ser desejável, e não disponível.”
Nós vencemos quando somos coerentes com o nosso propósito e entendemos que estamos num processo de melhoria contínua. Tendo clara sua missão e seu propósito, você precisa entender se eles são sustentáveis.
Pense nisto:
Por fim, quero terminar este artigo dizendo que ser vencedor significa vencer a si mesmo. Para isso é necessário responder uma pergunta:
Quem é o seu dono?
O desafio é fazer você rever seus conceitos sobre sucesso e fracasso sem definir o que é certo ou errado e, sim, o que é sustentável a partir de uma escolha que você faz de se colocar no mundo como ser protagonista da sua vida e inspirador para as pessoas ao seu redor.
Sugiro, ainda, outra leitura para melhorar suas reflexões sobre o tema: Inteligência Relacional


Com o avanço da tecnologia e a globalização crescente, as relações interpessoais se tornaram ainda mais importantes para o sucesso pessoal e profissional. A capacidade de se comunicar de forma clara e eficiente, de se colocar no lugar do outro e de gerenciar conflitos são alguns dos elementos da inteligência relacional. Neste artigo, vamos explorar, em detalhes, o que é a Inteligência Relacional, quais são as suas principais aplicações e como desenvolver essa habilidade tão valiosa.
Durante muito tempo, ouvimos falar sobre o QI e sua importância. As pessoas foram medidas e avaliadas pelo seu Coeficiente de Inteligência (QI) e isso era tido como um grande diferencial. A capacidade de ter um raciocínio lógico-matemático acima da média ou a capacidade de interpretar e escrever bem eram elementos que diferenciavam as pessoas. Com o tempo e com estudos encabeçados por pesquisadores como Daniel Goleman, entre outros, percebeu-se que o QI, embora importante, não era capaz de “jogar” sozinho. Ser inteligente, do ponto de vista cognitivo, ajudava no processo de compreensão das coisas, mas a Inteligência Emocional (QE) começou a ser vista como fundamental para balizar como as pessoas reagem e o que as move.
Hoje, já se sabe que, ambas – inteligência cognitiva e emocional – são muito importantes, mas sozinhas são insuficientes para interpretar as relações humanas.
Saiba mais ouvindo o nosso podcast sobre Inteligência Relacional
As pessoas foram para a terapia, começaram a buscar processos de autoanálise e desenvolvimento, o que é fundamental, mas que também, por si só, não promovem mudanças se não houver nelas a vontade, capacidade e disponibilidade para encarnar o aprendizado. Muitas vezes, não há maior compreensão sobre o que acontece, ou porque somos o que somos e, tais processos, tornam-se mais um elemento de autojustificativa do que de transformação.
Vivemos em um tempo que estimula muito a aquisição de informações, do ponto de vista técnico, mas que não promovem igualmente a capacidade relacional. Nunca se teve tanto acesso à informação hoje. A tecnologia tem nos facilitado a vida, mas estamos vivendo tempos de embrutecimento. Onde está o erro?
Parece-me que temos esquecido a questão relacional, ou, na melhor das hipóteses, a temos pressuposto como óbvia demais para que a problematizemos. A queixa que mais escuto de meus clientes, quer nas organizações, quer nos sets de mentoria, é justamente essa: “as pessoas não sabem mais se relacionar, não sabem conversar, não sabem negociar, não conseguem resolver conflitos”. A que se deve isso?
Ocorre que não aprendemos a nos relacionar, muito menos a conviver com as diferenças. Acreditamos que essas coisas são inatas e cremos que “a vida é assim mesmo”. Confiamos que se nosso aparelho fonoaudiológico funciona bem e o da pessoa com quem falamos também, então, é claro que ela vai entender o que estou dizendo. Partimos do pressuposto de que somos claros no nosso falar e “limitado” foi o outro que não entendeu. Partimos do “princípio da obviedade”: se eu disse, é claro que ficou claro; é claro que ele/ela entendeu! Como não entendeu? Disso surgem os dramas relacionais.
Com essa lógica esquizofrênica e narcísica, passamos a julgar que “sempre” estamos certos e que o problema relacional “são os outros”. Justificamo-nos na incompetência do outro e seguimos nossa vida. Vemo-nos possuidores da razão, como se nossa forma de ver as coisas fosse a “verdade” sobre as coisas. Criamos uma verdade única e absoluta e, por diferentes formas e razões, a temos conosco. Acreditamos que o que vemos e sentimos é o que é. De fato, o é em nosso universo íntimo e particular, mas isso não se torna padrão de verdade relacional.
Qual o resultado dessa mecânica? Mantemo-nos medíocres e imaturos em nossos relacionamentos porque resolvemos as coisas com a ideia de que o mundo perfeito é aquele que “eu” constituo. Assim, nos mantemos mesquinhos, repetindo as mesmas histórias e padrões relacionais sem aprender com eles; ficamos assim porque não superamos as dificuldades que temos de nos relacionar da forma como precisamos. Essas duas coisas juntas nos fazem adiar decisões, evadir as pessoas, deixar embaixo do tapete conversações que, ainda que difíceis, gerariam uma excelente oportunidade para crescermos e fazermos crescer, além de expandir nossa capacidade relacional e ganhar maturidade e profundidade nos relacionamentos.
Fale com a nossa equipe e agende uma palestra
Daí, começamos a notar que a Inteligência Emocional (QE) e a Inteligência Cognitiva (QI) estavam precisando de uma nova companheira que as trouxesse para o mundo interrelacional. Denomino-a Inteligência Relacional (QR). Ou seja, revela-se quando nos damos conta de que existe a forma como eu vejo as coisas, mas há também a parte do outro, como ele vê, como ele sente e como percebe o que está acontecendo. No momento em que nos damos conta disso, abrimos a possibilidade de aprender com as relações e entendemos que é preciso ser inteligente para caminhar junto. Esse entendimento gera um “campo relacional” que é gerado quando duas ou mais pessoas se relacionam. Trata-se de um rico espaço, cheio de diferenças e que contém o germe da novidade, o desafio da terceira via, a construção da possibilidade; um espaço onde a vida se recria e se constitui pelo encantamento que descobrimos de ser quem somos, sem nos sentir ameaçados pela diferença, o que nos capacita para construir novos caminhos, em unidade.
Conceitualmente falando, Inteligência Relacional é o modo como lidamos com as relações; ou seja, é como entendo o que acontece entre “eu e o outro”, sendo esse outro uma pessoa, um grupo, uma sociedade. Por isso, entende-se Inteligência Relacional como “a capacidade de ler dentro dos relacionamentos” para entendê-los e, neles, interferir de modo a produzir uma vida mais intensa e verdadeira para todos, com menos agressividade e mais harmonia e efetividade. Esse conceito surge na mesma trilha de tantas outras tentativas de entender o fenômeno humano para, não só explicá-lo, mas para permitir que nos tornemos seres humanos melhores. Desde a visão mais micro e particular (pessoas e famílias), até a visão mais macro (humanidade), vê-se um crescente mover da violência, da intolerância, das relações abusivas, da agressividade e das guerras, por motivos cada vez mais fúteis, revestidos muitas vezes de políticas de estado ou de conveniências pessoais. Daí a necessidade de entender como tais relacionamentos se fundam e como podem ser revertidos para uma qualidade de vida melhor em todos os sentidos.
Vários institutos de pesquisa e universidades ao redor do mundo têm apresentado pesquisas sobre o embrutecimento da humanidade. No entanto, todos concordam que nada precede o ato relacional. Tudo surge dele e, a partir dele, tudo se faz independente de raça, tribo, língua, povo, etc; independente também do quanto de tecnologia embarcada, cada povo ou nação possui, tudo se dá dentro dos relacionamentos.
Por isso, sustentado por diagnósticos relacionais e dados de realidade, foi que estruturei a ideia de Inteligência Relacional, sustentada pela Teoria Geral dos Sistemas, de Ludwig Von Bertalanffy, pela Autopoiese de Humberto Maturana, pelos Ensaios sobre a Sociedade Líquida de Zygmunt Bauman e pela Ontologia da Linguagem de Rafael Echeverria, dentre outros.
Com esse suporte, muito se tem aprendido sobre os relacionamentos humanos. Por exemplo: entender como os relacionamentos são constituídos e como ocorrem nos permite descobrir muitas das razões pelas quais as relações abusivas se constroem, entender o porquê das dificuldades de comunicação e gerenciar melhor nossa equipe de trabalho. Também nos fornece subsídios para lidar melhor com nossos adolescentes e nossos afetos.
Tudo que antes da Inteligência Relacional era tido como “educação” e “bom senso”, com ela, passou a ser uma competência que pode ser adquirida e desenvolvida, porque relacionar-se é tudo, menos óbvio.
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Por fim, a partir do conceito de Inteligência Relacional, muito se tem caminhado no sentido de poder diagnosticá-la e medi-la. Essa ideia tem como desafio proporcionar a todos os que se interessam pelo tema, um processo de monitoramento de suas competências relacionais. Tais medidas decorrem de estudos sobre duas dimensões da vida humana.
A primeira, dimensão temporal, cuida do passado, como a referência histórica de cada pessoa, modo que estabelece o modo como ela se vê no presente. Ainda na dimensão temporal, cuida-se também do futuro como projeção das expectativas. É nele, no futuro, que vamos viver o resto de nossas vidas.
A segunda, é a dimensão relacional, que cuida do “eu” no sentido de como minha identidade foi forjada na vida, como aprendi o que aprendi, com que valores, crenças, certezas e princípios, lido com as “ocorrências” do cotidiano. Ainda dentro da dimensão relacional, cuida-se do outro, entendido como todos aqueles para além de mim. No domínio do outro, aprendo o quanto sou sociável, cordato, resignado, ressentido e o quanto estou em paz com a diferença e o quanto os outros me deixam em paz, em aspiração e em encantamento.
Disso se derivou uma escala que pretende ser um indicativo do meu estado atual e das minhas possibilidades em termos de desenvolvimento das competências relacionais. Tudo isso, hoje, pode ser medido e diagnosticado de forma efetiva para oferecer “boas dicas” de como se autoconhecer para se relacionar melhor.
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De tudo o que temos conversado até aqui, surgem algumas perguntas relevantes, dentre as inúmeras inquietações para as quais temos que nos preparar para responder: Como funciona a Inteligência Relacional? Como medi-la? Que problemas ela nos ajudará a resolver? Pois bem, vamos às respostas.
No relacionamento entre duas ou mais pessoas surge “espaço relacional” que “batizei” de ERA – Espaço Reflexivo da Aprendizagem. Esse espaço é criado pelo próprio relacionamento a partir do fato de que as pessoas são diferentes. O modo como cada um percebe a conexão relacional existente (ou não), nos permite medir o que está ocorrendo entre tais pessoas. Essa medida chama-se “sê movente”. Quanto maior o índice, maior será a Inteligência Relacional presente no espaço relacional daquelas pessoas (indivíduos, grupos, sociedades, etc), revelando melhor o estado da qualidade relacional entre eles.
Cada indivíduo, nessa relação, traz em si histórias de vida. Histórias vividas ou assumidas como tal e que lhes confere a noção de identidade, expressando o modo como cada um se vê (eu), o modo como se vê o outro, como lidam como seus passados e como constroem as possibilidades de futuro.
Cada indivíduo é dotado de competências culturais que o habilita a relacionar-se com o “mundo”. Tais competências são equipamentos natos, “softwares” que compõem a natureza humana. Eles nos tornam capazes de aprender como as coisas ocorrem nos relacionamentos, e nos capacitam a tomar algumas decisões e a agir de alguma forma. No início de nossa vida, tais “softwares” estão vazios de conteúdo. Na medida em que a vida vai nos proporcionando experiências relacionais, vamos assimilando e sistematizando conteúdos para promover efetividade em nossas relações. Tal processo ocorre naturalmente, mas nem sempre com efetividade.
Do ponto de vista técnico, essas experiências são gerenciais por “softwares” que estão disponíveis em nossa natureza e são: a plasticidade, a ressonância límbica e o acoplamento. É assim que os mesmos fatos são apreendidos de forma distinta por pessoas distintas, mesmo que muito próximas, como entre irmãos gêmeos univitelinos. Essas apreensões da realidade irão constituir-se nas identidades e nos repertórios relacionais da cada um porque cada um é diferente dos demais.
Todo indivíduo relaciona-se com a “realidade” a partir de duas forças. Uma refere-se à forma como ele capta e interpreta o mundo exterior, apropriando-se dele e fazendo-o ter sentido para si. Essa força chama-se força concêntrica. Outra é a forma como ele devolve ao mundo exterior os significados processados internamente e que impactam diretamente seus relacionamentos porque são expressões de sua cosmovisão. Essa devolução se objetiva no corpo, na linguagem e nas suas emoções, portanto, no seu comportamento relacional gerando possibilidades, como também revelando suas limitações próprias e naturais. Essa força chama-se força excêntrica. Ambas as forças atuam dentro de determinados limites estabelecidos pela nossa biologia.
Nossa natureza biológica nos permite fazer algumas coisas e outras não, pelas características intrínsecas do nosso organismo. Da mesma forma, nossa natureza estabelece certos níveis de conforto e tensão nos processos de apropriação da realidade, bem como no modo como respondemos a ela. Quando em baixa tensão não somos capazes de reagir ao que nos ocorre, quando em alta tensão nos estressamos.
Em ambos os casos os relacionamentos ficam prejudicados por falta de reação ou por reações inadequadas, o que nos leva a pressupor a existência de um certo nível de tensão que seja mais adequado para a plenitude dos relacionamentos. Chamamos o melhor nível de tensão para ambas as forças de “normal”, e os níveis de baixa ou alta tensão de “estado de pressão”.
A força concêntrica é instrumentalizada pelos sentidos (visão, olfato, audição, tato e paladar), que são os “scanners” da realidade, aliada ao modo como aprendemos a dar significado às coisas.
Aristóteles dizia que não há nada na mente humana que não tenha passado antes pelos sentidos. Com eles captamos as coisas que nos ocorrem e as processamos, gerando significado para todas elas. Coisas não captadas pelos sentidos não se instalam na nossa mente, assim se tornam coisas para as quais o indivíduo não é capaz de construir significado e assim, se perdem.
Inicialmente esses significados nos são conferidos pelas relações primárias que nos são oferecidas: relações com a família, pessoas próximas, etc. Com o tempo, vamos aprendendo e sistematizando a forma como passamos a “construir significados” para as coisas e vamos ganhando autonomia interpretativa sobre os fatos. A isso se chama desenvolvimento e aprendizagem.
A força concêntrica organiza-se e se robustece na medida em que os estímulos oferecidos pelo meio (coisas, circunstâncias e pessoas) são interpretados de forma consistente e coerente ao longo da vida, funcionalidade típica dos relacionamentos.
Veja o quadro a seguir.
| FORÇA CONCÊNTRICA | TENSÃO NORMAL | ESTADO DE PRESSÃO |
| EU | plenitude | depressão |
| OUTRO | aproximação | distanciamento |
| PASSADO | reconhecimento | desconsideração |
| FUTURO | significação | perda de objetividade |
A dimensão relacional começa com os domínios do eu e do outro. Em tensão normal, a força concêntrica coloca o EU (nossa relação conosco mesmo), em estado de plenitude, ou seja, o modo como a realidade é captada e interiorizada por nós e que não nos causam nenhum desconforto. Isso não significa que não exija esforço; muito pelo contrário, mas não gera sentimentos de invasão, nem de inadequação. Aprendemos as coisas e lhes atribuímos sentido como um sentimento natural de adequação à nossa natureza. Sabemos que aquilo nos pertence porque somos acolhidos e sentimos que o que está acontecendo está de acordo com nossa natureza biológica que reage de forma natural e adequada. Por isso, somos capazes de conhecer e sistematizar os padrões de desenvolvimento dos seres vivos. Há coisas que vão acontecendo de forma natural e que, se acontecem assim, estamos no caminho certo.
Já em estado de pressão, ou seja, quando a força concêntrica está com baixa tensão ou em estado de estresse, o EU caminha rumo à depressão. Esse estado é muitas vezes acompanhado por sentimentos de baixa autoestima, perda de interesse pela vida, queda na libido, dentre outros acompanhamentos estudados pela psicologia moderna. As causas da força concêntrica em estado de tensão decorrem de uma combinação de fatores genéticos, ambientais, psicológicos e relacionais. Em todos os casos, entretanto, estão ligados à forma como o indivíduo aprendeu a interiorizar os fatos e as interpretações das coisas que lhe ocorreram (ou ocorrem).
São manifestações comuns desse estado: alterações no humor, interpretações costumeiramente críticas (no sentido negativo) da realidade, declarações do tipo “só acontece comigo”, “isso é minha cruz”, “essa é minha sina”, “não mereço” são comuns. Também encontram-se nas causas da força concêntrica em estado de tensão, as histórias familiares, as repentinas e significativas alterações na vida sem a devida reflexão e conversas, relacionamentos excessivamente controladores e autoritários.
Em modo normal, a força concêntrica coloca-nos em relação ao outro em estado de aproximação. Somos naturalmente gregários e nossa tendência é nos aproximar, fazer amizade, conversar, interagir. Essa tendência natural, é uma das estratégias mais efetivas na geração de nossa força social. Com ela, estabelecemos os vínculos humanos mais fortes e nos constituímos como uma irmandade em todo o planeta.
De certa forma é a força concêntrica na nossa relação com o outro que proporciona o sentido de afeto e permanência. A aproximação é uma relação afetiva entre duas ou mais pessoas, decorrentes de um “encontro” espontâneo. Em sentido amplo, proporciona um nível de relacionamento que envolve conhecimento mútuo, além da lealdade implícita em nossa natureza. A aproximação tem como origem o instinto de sobrevivência da espécie, a necessidade de proteger e ser protegido por outros seres, bem como o senso de cooperação e colaboração como formas de superar as limitações individuais. Na aproximação, somos naturalmente levados à aceitação do outro como ele realmente é, e isso torna-se um dos pilares dos relacionamentos inteligentes. Veja, por exemplo: duas crianças bem novas que nunca se viram antes e, por se encontrarem casualmente em um parque ou na praia, em pouco tempo, estão em um relacionamento intenso, espontâneo e verdadeiro. Aí está o melhor exemplo da força concêntrica em modo normal.
Já em estado de pressão, nossa relação com o OUTRO caminha rumo ao distanciamento. Vejo o outro como ameaça, como “inimigo”, como estranho. Tenho a percepção de que sou um “estranho no ninho” ou de que estou “sempre errado” porque comparo-me excessivamente com aquilo que vejo nos outros e isso gera em mim medo que produz insegurança, que evolui para mecanismos de defesa, que me faz agir com agressividade. Armo-me de muitos mecanismos de defesa com o objetivo de manter o mínimo de interação possível nos relacionamentos. Há uma tendência à solidão, à introversão excessiva, ao distanciamento. Em estado de pressão, a emocionalidade que vem acompanhada com a percepção do outro, é de ressentimento; não consigo aceitar-me diante das comparações que faço. Minha plenitude não se consolida porque desloco minhas referências daquilo que sou (tenho, faço, etc), para o que os outros são (tem, fazem, etc).
As crianças, usualmente, estão com a força concêntrica em estado normal na relação eu-outro. Agora veja o seguinte exemplo: uma mãe leva sua criança à praia. Pouco tempo depois, chega, ao local, uma outra criança totalmente desconhecida e, espontaneamente, os dois começam a brincar. A mãe chama seu filho para perto de si com a seguinte frase: “Joãozinho, já lhe falei para não falar com estranhos. Brinque aqui perto de mim”. Nesse momento a mãe introduz no sistema de valoração da criança um estado de pressão na força concêntrica que irá determinar o modo como a criança construirá as possibilidades de relacionamentos no futuro. É claro que isso não ocorre instantaneamente; é fruto de um comportamento sistemático entre o eu e a quem tal confere autoridade ao longo de um tempo.
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A dimensão temporal engloba os domínios do passado e do futuro. Em tensão normal, a força concêntrica coloca-nos em relação ao PASSADO em estado de reconhecimento. Recordamo-nos, de modo estável, das ocorrências de nossa vida, contidas nas histórias que contamos a nosso respeito e que envolvem nossas relações. Tais recordações nos dizem que foram o que foram e ficamos em paz com elas. Não há ressentimento nem resignação quanto aos fatos, mas sabemos das possibilidades de alterar as interpretações que fizemos das coisas que nos ocorreram. Meu passado torna-se uma poderosa força que justifica e protege minha identidade. Reconheço as dores, os sofrimentos, mas também as alegrias, superações, realizações; enfim, tenho a clareza de que a vida não erra se meu olhar para ela não for míope. Sou capaz de entender que cheguei onde cheguei porque segui determinado caminho que escolhi, consciente ou não. As lembranças são validadas e percebo equilíbrio nas emoções que evocam. Quando olho para traz e sinto saudades das coisas que aconteceram ou por perdas que tive, tenho a sensação de que valeram a pena. Em todo tempo, o passado me serve de referência para uma aprendizagem consistente. Permito-me pensar nas coisas que “poderiam ter sido” e não tenho restrições em pedir ajuda para entender melhor “como as coisas foram” e de que modo, se assim o desejar, posso ressignificá-las.
Já em estado de pressão, vemos o passado com desconsideração. Lamento “minha sorte” e sinto que houve uma conspiração cósmica a meu respeito. Julgo que teria sido melhor se tivesse tido outra origem, outras circunstâncias, outros recursos, outras decisões, ou se determinadas coisas não tivessem acontecido. O passado torna-se imutável quanto às interpretações que aprendi a fazer dele. Sinto-me culpado por coisas que fiz, sofri ou que deixei de fazer. As memórias dessas coisas me atormentam e me tornam refém de emoções não processadas. Usualmente, as lembranças fazem-me entrar em estado melancólico e tenho dificuldades em ver o mundo como possibilidade. Não raro, tenho dificuldades de falar sobre meu passado e sentimentos de agressividade e insegurança me acometem. Acredito que em minha história de vida alguns acontecimentos deixaram marcas profundas que me atrapalham e me inundam recorrentemente com memórias que considero traumáticas. Esse estado pode levar-nos a construir uma imagem de nós mesmos negativamente influenciada e, com isso, viver à sombra do passado, presos a ele, reduzidos a ele. Deixo de crer que a vida é, acima de tudo, um grande e constante desafio.
Em tensão normal, a força concêntrica coloca-nos em relação ao FUTURO em estado de significação. Aprendemos a vê-lo como infinitas possibilidades. Em tensão normal, a visão do futuro amplia nossas chances de criar oportunidades para todos os relacionamentos desejados de forma a orientar nossas decisões e atividades relacionais. Permite pensar “fora da caixinha” e antecipar possíveis barreiras e tendências que enfrentaremos. Além disso, ao construir uma visão de futuro significativa, as pessoas que envolveremos em nossas relações (ou outros), também contribuirão para que tenhamos resultados mais criativos e maiores oportunidades.
Uma visão de futuro significativa amplia o leque de oportunidades pela visualização de projetos de vida inovadores. Uma visão significativa de futuro é condição que antecede o processo de geração de possibilidades porque apresentam diversos componentes sinérgicos: a validação da história; as competências percebidas, os sonhos e planos pensados; as necessidades de aprendizagem; o contato com a proatividade, com o protagonismo e com a capacidade de empreender. A tensão normal é condição básica para o entendimento de que tudo o que teremos no futuro nasce de uma construção mental no presente, fundamentada em possibilidades que vemos a partir do passado.
Já em estado de pressão, vemos o futuro com perda de objetividade. Sabemos que estamos com a força concêntrica em estado de pressão quanto ao futuro, quando perdemos a esperança ou a temos por consolo. Perdemos a energia emocional que nos impulsiona na geração de possibilidades de resultados positivos relacionados com eventos e circunstâncias da vida pessoal. Temos pouca perseverança, desacreditando facilmente das possibilidades e desistindo delas diante da menor indicação de fracasso. Exponenciamos a percepção dos riscos e minimizamos as possibilidades de sucesso, julgamos que a “luta será inglória”, nos conformamos com o que temos porque sonhar é iludir-se, ficamos reféns dos modelos mentais que nossa história produziu e nos acomodamos ao que temos e somos, porque não acreditamos que seja possível algo novo.
Como tal, a força excêntrica é o vetor que nos faz exteriorizar o que temos dentro de nós. Ela nos possibilita oferecer-nos ao mundo, completando, assim, nosso processo relacional. Ou seja, interiorizamos a “realidade” para atuarmos sobre ela nos expondo e colocando-nos a serviço dos diversos papéis sociais que desempenhamos ou desempenharemos.
Evidentemente, a força excêntrica está fundada na força concêntrica. Nós nos expressamos a partir do que somos. Desse modo, também a força concêntrica atua em padrões normais e em estado de pressão. Há indicadores específicos para cada estado e o modo como os discernimos fará toda a diferença em nossos relacionamentos.
Considere o quadro a seguir:
| FORÇA EXCÊNTRICA | TENSÃO NORMAL | ESTADO DE PRESSÃO |
| EU | identidade | recuo |
| OUTRO | legitimidade | ausência |
| PASSADO | validação | culpa / arrependimento |
| FUTURO | projeção | Incertezas / medos |
A dimensão relacional excêntrica prossegue com os domínios do eu e do outro. Em tensão normal, a força excêntrica coloca o EU em plena expressão de nossa identidade. Naturalmente, nos expomos sem reservas. Nos reconhecemos, somos espontâneos e nos ofertamos ao mundo como somos. Em estado de tensão, temos a tendência ao recuo. Nos vemos com dificuldades em nos revelar, construímos um sentimento de “timidez”.
O estado de recuo ou acanhamento é percebido como desconforto e inibição em situações de interação pessoal e interferem, diretamente, na realização dos objetivos pessoais e profissionais. Caracteriza-se pela obsessiva preocupação com as atitudes, reações e pensamentos dos outros. Geralmente, mas não exclusivamente, em situações de confronto relacional, construímos comportamentos de fuga, escapismos e de não enfrentamento. O recuo pode comprometer de forma significativa a realização pessoal e constitui-se em fator de empobrecimento da qualidade de vida. A partir do recuo, pode-se instalar uma perda significativa na efetividade dos relacionamentos pela constatação de que o que desejamos, construído pela força concêntrica em estado normal, não é capaz de adquirir consistência em sua expressão social.
Em tensão normal, a força excêntrica coloca-nos em relação ao OUTRO no estado de legitimidade que, em Inteligência Relacional é a condição que atribuo ao outro de modo a reconhecê-lo como “não falsificado”, ou seja, admito que, embora diferente, o outro tem as mesmas prerrogativas minhas e, assim como espero ser reconhecido como tal, reconheço também. Isso não significa aceitação ou concordância, mas entendimento de que o outro é o que é e não cabe a mim desqualificá-lo ou julgá-lo por qualquer forma que seja.
Já em estado de tensão, a força excêntrica coloca o outro diante de mim em ausência, ou seja, o outro se torna invisível. Ao nos expressarmos, não o levamos em consideração, nem nos sensibilizamos por ele. O outro torna-se uma mera paisagem e relaciono-me com ele como se fosse inerte ou, na melhor das hipóteses, um elemento cenográfico que compõem o meu contexto. De modo geral o recuo se demonstra quando elaboro juízos sobre os outros, cujo conteúdo expressa alguma forma de crítica, cuja intenção é justificar meu afastamento. Por outro lado, o recuo demonstra a dificuldade que tenho de aceitar a diferença como possibilidade; antes, vejo-a como ameaça e, por isso, me afasto.
A dimensão temporal excêntrica prossegue com os domínios do passado e do futuro. Em tensão normal, a força excêntrica coloca-nos em relação ao PASSADO no estado de validação, ou seja, tudo o que vivi pode ser exteriorizado sem que isso me envergonhe ou que me faça sentir culpa. Orgulho-me de contar minhas histórias de vida e de relacionamentos. Não sou uma “propaganda enganosa”, nem procuro construir uma imagem externa incompatível ou inadequada ao meu conteúdo (imagem interna). O que expresso é verdadeiro.
Conforme Agostinho (354-430 d.C), em sua autobiografia intitulada Confissões, diz: “expresso-me de forma a manifestar-me como sou”. Esse estado nos promove uma grande consistência ontológica porque mantém a perfeita adequação entre meu mundo interno (força concêntrica) e o modo como expresso isso ao mundo externo (força excêntrica).
Leibniz (1646-1716 / Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano), corrobora com esse conceito ao afirmar que “a validade no ser humano é um atributo do que é verdadeiro no ser quando há a correspondência entre as proposições que faz e aquelas que estão no seu espírito, inerentes às coisas das quais se trata”. Já em estado de tensão, relaciono-me a partir da culpa e do arrependimento. Expresso-me como “santo do pau oco”. Minha comunicação ao mundo externo se dá por vitimização ou fantasia. Esse estado de tensão apresenta atitudes tóxicas porque nos levam a expressar coisas que não correspondem com a realidade interna, revelando incoerência. Essa visão distorcida mostra um processo de idealização e “fantasiamento” que, em estado avançado fomenta a mentira sistêmica ou a omissão da verdade.
Em tensão normal, a força excêntrica coloca-nos em relação ao FUTURO no estado de projeção. Sou capaz de coordenar ações efetivas (fazer pedidos, ser uma oferta e fazer reclamações), no sentido de instrumentalizar comportamentos e decisões de modo a concretizar aquilo que foi pensado como significativo pela força concêntrica no estado normal. Expresso-me com objetividade. O futuro mostra-se como promissor e com muitas possibilidades diante das quais não me acovardo. Corro riscos calculados e necessários, e não me abato com eventuais desventuras e perdas. Recomeço sempre. Aprendo com isso e retomo minha vida relacional.
Já em estado de tensão, relaciono-me a partir de incertezas e medos. Internamente posso ter grandes ideias e bons planos, mas não sou capaz de efetivá-las porque não consigo relacionar-me com ousadia, por que desconfio de minha própria capacidade. Creio que “boas ideias são bons negócios” em si mesmas e não consigo avançar nas ações que vão construir o futuro pensado. Acerco-me de juízos tais como: “não sei o que quero”, “não tenho certeza sobre meus planos”, “tenho dúvidas se estou no caminho certo”. Perco a capacidade de risco. Nesses casos, a resultante mais provável é uma vida relacional fantasiada e pouco efetiva. Tem-se grandes planos e poucas realizações. A vida passa e fico imaginando como poderia ter sido, embora em tempo algum arrisquei-me a ser.
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Da combinação das forças concêntrica e excêntrica, em seu estado normal, surge o conceito de AGORA – momento de maior energia relacional, de presença plena. É caracterizado por um estado de disposição que nos mantém ativos na reflexão, no movimento e na ação. Pesquisas e estudos nesse campo apontam uma provável forma da energia psíquica, proveniente dos nossos pensamentos e emoções, na medida em que somos capazes de expressar coerentemente aquilo que está dentro de nós.
De outra forma, essa energia psíquica também permite que a força concêntrica seja exponenciada quando a ela agregamos os conteúdos que desejamos tornar objetivos na vida exterior. Essa mecânica coloca-nos, permanentemente, no domínio da aprendizagem. Essa energia também vem do exterior, dos ambientes por onde nos movemos, dos nossos semelhantes e outros agentes que nos direcionam na vida como mentores ou pessoas de referência. Nesse caminho, encontramos estados emocionais como fonte geradoras do amor, seguidos de otimismo, alegria, fé e esperança. No entanto, a combinação das forças concêntrica e excêntrica, em seu estado de tensão faz surgir o conceito de fuga do agora, cujo resultado pode gerar um estado relacional promissor para o ódio, a inveja, o imobilismo, a preguiça, o mau humor, o medo inadequado ou fantasioso, a ansiedade, o estresse, os sentimentos de culpa e de frustração, a lamúria, o comodismo e coisas assemelhadas. Também gerará possibilidades de provocar dificuldades de concentração, excesso de sono ou insônia, pesadelos e diversos outros tipos de mal-estar.
Pois bem, a partir do conceito de AGORA e das combinações possíveis dos estados normal e em tensão das forças concêntricas e excêntricas, podemos estabelecer uma escala que nos permitirá avaliar o nível da Inteligência Relacional instalada em cada um de nós. Se você chegou até aqui, quero desafiá-lo a ter essa experiência quali-quantitativa de avaliar sua inteligência relacional.
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Reflitam em paz!

Um dia, o porco e a galinha foram desafiados pelo fazendeiro a preparar um café da manhã diferente a cada dia da semana pelas próximas duas semanas.
No caso de falha, definida pela falta de um cardápio variado em um desses dias, o café da manhã seria preparado pelo próprio fazendeiro que, sem opção, prepararia linguiça com ovos.
Motivados, o porco e a galinha, empenharam-se a cumprir a missão e entregar um cardápio diferente conforme a demanda do fazendeiro.
Nos primeiros dias, tudo correu bem.
O porco começava o dia, proativamente, a pensar no cardápio para o dia seguinte e a planejar as tarefas necessárias para obter os resultados desejados.
Com o passar dos dias, as “novidades” foram ficando cada vez mais difíceis.
A galinha, por sua vez, gastava seu tempo ciscando o chão em busca de minhocas e demais derivativos oferecidos pelo ambiente.
Nada parecia lhe preocupar, mesmo quando “as novidades” não estavam tão inovadoras assim.
Um dia, o porco, assustado com os possíveis resultados dessa situação, chama a galinha para uma conversa.
– Você não está preocupada com nossos resultados e o nosso futuro?
– Não, respondeu a galinha. Eu tenho oferecido um ovo todos os dias e o fazendeiro parece-me feliz.
– É – respondeu o porco -, mas eu serei a linguiça.” (autor desconhecido)
A história da galinha e do porco evidenciam dois pontos de vista desafiadores, quando se fala sobre comprometimento.
Existem pessoas que estão comprometidas com as coisas, enquanto outras apenas se envolvem.
O porco está comprometido, afinal a linguiça requer “sua vida”.
Já a galinha está apenas envolvida. Ela só precisa botar mais um ovo.
É claro que a fábula é uma metáfora e deve ser entendida como tal.
As lições que podemos extrair dela, decorrem da questão de se saber o que faz a diferença entre compromisso e envolvimento.
Comprometimento está relacionado diretamente com o propósito da vida. Quando alguém está comprometido, está empenhado em algo que reflete sua própria natureza e identidade.
O envolvimento, por sua vez, requer uma resposta mais instrumental, embora seja uma boa resposta. A galinha, de fato, produz o que “foi contratado”, mas o que se espera é “algo mais” dos líderes e das equipes de alto desempenho.
Veja bem, todos os grandes “avatares” de nossa cultura, no que se refere a líderes, foram pessoas comprometidas com suas causas.
Jesus, Sidarta Gautama (o Buda), Mandela, Madre Tereza de Calcutá, entre outros, tinham uma missão que jamais poderia ser “monetarizada”.
Em outras palavras, essas e tantas outras referências que temos, não faziam o que faziam por uma remuneração no final do mês. Eles estavam “metidos visceralmente” em suas atividades e todas as suas tarefas, condutas e relacionamentos estavam orientados para a missão que acreditavam.
Seus seguidores também foram desafiados a terem os mesmos valores e compromissos. Tanto é que, os resultados da vida dessas pessoas, falam por si mesmos em termos de referenciais para o mundo.
Em minha jornada profissional, tenho encontrado pessoas nas mais diversas posições corporativas e nas mais diversas atividades, que são exemplos de comprometimentos com um propósito maior.
Recentemente, escutei de um gestor público, uma fala emocionada em resposta à minha pergunta:
– Qual a sua missão nesse órgão?
Ele me respondeu:
– Contribuir na construção do país que todos desejamos, e não importa onde eu esteja, isso orienta a minha vida.
Felizmente ele não é o único, embora ainda existam bem poucos.
Mas também escutei de um aluno que, quando perguntado sobre a razão pela qual queria ser servidor público, respondeu:
– Eu quero ter estabilidade e segurança.
Interessante, nenhuma menção ao “servir” o público ou a nação.
Comprometimento tem a ver com fazer o que se faz porque aquilo é expressão de uma identidade.
Pessoalmente, sou professor, atuo como tal e todas minhas orientações na vida seguem esse princípio.
Faço o que faço porque sou o que sou, e não há como fazer diferente porque é isso (ser professor) que me move na vida.
Não importa onde, nem o quê, sou e sempre serei professor.
A remuneração é importante?
Certamente, mas não é a primeira coisa que está na orientação de pessoas e times comprometidos.
O que orienta tais pessoas e times é muito mais que dinheiro.
Em geral, encontramos nelas as seguintes características:
1o – Forte crença e aceitação nos valores humanos que sustentam o projeto ou organização;
2o – Atitude aprendiz;
3o – Disposição para aplicar competências, habilidades e atitudes visando garantir os resultados desejados;
4o – Forte sentimento de pertencimento;
5o – Alta intensidade nos relacionamentos, gerando vínculos pessoais e sociais para além dos exigidos pelo projeto ou organização.
Quando esses cinco comportamentos estão presentes e, portanto, passíveis de observação, nota-se uma forte noção de corresponsabilidade e compromisso no time.
Isso produzirá apoio recíproco na equipe, tanto para o enfrentamento de situações desafiadoras, estimulando a aprendizagem e a solução de problemas, como para celebração das vitórias conquistadas.
Inclusive, eu discuto cada um desses pontos com mais profundidade nesse artigo 5 características das equipes de alto desempenho.
Para concluir, pergunte-se (e estenda as seguintes perguntas às suas equipes):
“Não pergunte o que seu país pode fazer por você, pergunte-se o que você está fazendo pelo seu país”? (frase de John F. Kennedy)
Isso faz toda a diferença na hora de compor, com os demais, um time de alta performance.
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Se você acha importante estabelecer este espaço de conversas com essas e outras questões significativas para a sua organização, temos um programa especializado em gerar conversas nutritivas entre líderes e equipes.
Esse programa foi aplicado em diversas organizações públicas e privadas, com mais de 90% de avaliações positivas.
Em um evento de 4h, é possível colocar grupos entre 15 e 500 pessoas conversando simultaneamente em um processo criativo, integrativo, motivacional e sobretudo, nutritivo.
Conheça mais clicando aqui ou entrando em contato com nosso time pelo (61) 3034.7414.

Há alguns anos, estava atendendo a um cliente, presidente de uma grande companhia de eletrodomésticos. O projeto em que estávamos trabalhando era a construção de equipes de alto desempenho, o que incluía, dentre outras coisas, feedback entre os diversos profissionais gestores.Numa reunião entre a presidência e o corpo diretor, o presidente solicitou que lhe fossem dados feedbacks. Houve um silêncio inicial até que um dos diretores disse textualmente:– “O senhor é o presidente, então é o senhor que deve nos dizer o que temos de melhorar”.O presidente respondeu com muita sabedoria:– “Sou o dono da empresa e não o dono da verdade”.
Quando não coordenamos ações em termos de tempo e de condições de satisfação, o feedback “cai no vazio” e perde-se com o tempo.


[A mecânica do conflito é] o desequilíbrio das forças que integram sujeitos ou sistemas sociais diferentes. Uma relação harmônica só pode ser obtida em decorrência dos ajustes originados nas situações de conflito, o que o torna um elemento fundamental para o amadurecimento das pessoas e da sociedade.
“Não vivemos em mundos perfeitos. Vivemos em mundos possíveis.”

Escolhi a profissão certa? Casei-me com a pessoa certa? É isso que quero para mim e minha família? Minha carreira está no rumo certo? Quero fazer o que estou fazendo hoje, no resto da minha vida? O que fiz dos meus sonhos?

O mundo está mudando e você sabe disso. Não é possível passar uma data tão significativa como 8 de Março em branco.
Mas…
Se a verba disponível só te leva a pensar em flores, bombons ou cosméticos, aqui vão 5 ideias pra você fazer algo de real valor e tornar essa data mais que especial na sua empresa:
1. Faça um Sarau na empresa. Convide as mulheres para escolherem livros, poemas e música que falem sobre os desafios da mulher contemporânea. Dicas de livros: Faça acontecer (Sheryl Sandberg). Deixe a peteca cair (Tiffany Dufu). Mulheres que correm com os lobos (Clarissa Pinkola Estés). Tudo nela brilha e queima (Ryane Leão). O que eu sei de verdade (Oprah Winfrey). O cálice e a espada (Palas Athena). A Coragem de ser imperfeito (Brené Brown). Histórias de Ninar Para Garotas Rebeldes (Livro por Elena Favilli). Pergunte também às mulheres quais livros elas já leram que poderiam fazer parte do Sarau.
2. Se a sua equipe não for muito grande, escreva post-its personalizados para cada mulher com elogios sinceros ou frases que inspirem, e cole-os em seu material de trabalho.
Não se apegue a questões de aparência, seja criativo(a)! Algo como: “Ana, hoje acordamos mais felizes quando lembramos que você estaria aqui”. “Laura, você fica deslumbrante vestida de felicidade”. “Mariana, hoje é seu dia. Dia das mulheres feitas de ferro e flor.” Mais legal ainda, se forem escritos de próprio punho e assinados pelos líderes da organização.
3. Promova uma sessão de filmes sobre mulheres fortes.
Pegue o projetor da empresa, organize uma sala, prepare pipocas e convide todas. Depois, promova uma conversa sobre o tema do filme. Você pode avisar com antecedência para que elas consigam se ausentar com tranquilidade do trabalho durante este momento. Na internet, há várias listas de filmes pra te ajudar na escolha.
4. Convide uma palestrante experiente que inspire verdadeiramente as mulheres da sua organização.
Não caia na tentação de escolher uma palestra motivacional, mesmo que venha de uma palestrante mulher. O que seu time feminino precisa é dialogar com profundidade sobre os desafios profissionais e pessoais da mulher contemporânea, com alguém que entenda realmente seus problemas com honestidade e mostre caminhos possíveis para mudar o mundo para melhor.
5. MAS SE VOCÊ TEM POUCO RECURSO DISPONÍVEL, NÃO CONSEGUE JUNTAR TODA A EQUIPE EM UM ÚNICO EVENTO E QUER ENTREGAR ALGO REALMENTE SIGNIFICATIVO, eu preparei a SMTM – Semana para Mulheres que Transformam o Mundo.
A SMTM é um pacote de 7 palestras on-line que inspiram mulheres a reconhecerem ainda mais a sua força, coragem e determinação para enfrentarem seus principais desafios na vida profissional e pessoal. É uma maneira supercriativa e de alto impacto para entregar mais valor para as mulheres, pelo mesmo preço de flores ou bombons.
Se ficou curioso(a) para conhecer mais sobre a SMTM, clique aqui (lembrando que o Dia da Mulher vai dar na semana do Carnaval, então você precisa escolher rapidamente).

Conta-se uma história interessante sobre Michelangelo. Dizem que o mestre do renascimento italiano andava pela cidade de Roma, seguido por alguns alunos. Ao passar por escombros, parou e lhes disse: “Vejam, ali está um anjo!” Os discípulos, perplexos por nada verem, perguntaram ao mestre onde estava o anjo. Michelangelo respondeu: “Está aprisionado naquele pedaço de mármore descartado. Basta tirar da pedra o excesso que ele aparece.” Entusiasmados, os discípulos ajudaram a levar a pedra para o ateliê e o observaram trabalhar intensamente. Ao fim de algumas semanas, lá estava o anjo.
Se a história é verdadeira ou não, pouco importa. O que importa é a lição que ela nos traz – de fato, a beleza se esconde. Para tê-la é necessário o exercício da arte, e arte é o que sustenta a educação, a pintura, a escultura, as relações pessoais – enfim, a vida.
Transformar tudo em arte – esse é o grande projeto dos relacionamentos humanos. Fazer da vida algo belo é o desafio maior. Criar a beleza é fruto da sabedoria. “E viu Deus que isso era bom”, ensinam as Escrituras sobre o ato criador. Trazer a beleza para fora, expô-la, nos faz seres encantados.
No entanto, transformar a vida em arte pressupõe certas habilidades que a história da pedra e do anjo parece nos revelar.
Primeiro: há que se ter uma atitude restauradora. Muito provavelmente Michelangelo nutria, todo o tempo, uma visão de mundo onde tudo pode ser construído, melhorado, embelezado – uma mente de artista. Uma pedra jogada fora é algo mais que simplesmente uma pedra jogada fora. Michelangelo era um edificador, alguém capaz de ver anjos onde outros só viam pedra. Alguém capaz de tirar beleza de pedaços desprezados. Nem sempre temos a visão de que as coisas podem ser construídas, restauradas, edificadas. Achamos mais fácil abandonar, jogar fora e comprar algo novo. Um aluno difícil, estigmatizado por colegas e professores, torna-se uma pedra jogada fora. Um relacionamento caracterizado por amarguras transforma os envolvidos em pedras desprezadas. Uma emoção mal dirigida inviabiliza muitas oportunidades.
Muitas vezes, diante de situações como essas, o que fazemos, no máximo, é colocá-las no lixo. É mais fácil abandonar algo que incomoda do que reconstruí-lo. Essa visão imediatista do mundo tira de nós a competência restauradora. O primeiro pensamento que deve nutrir nossas relações, mesmo nos momentos difíceis, é que tudo pode ser reconstruído. Nutrir pensamentos assim nos transforma em artistas.
Segundo: há que se ter visão de futuro. A incapacidade de ver o futuro torna nossas decisões expressões da ansiedade, faz de nossas opções um grandioso apelo ao aqui e agora, tira de nós a perspectiva do inefável.
O anjo esculpido por Michelangelo preservou a pedra que estava no lixo. A visão de futuro nos capacita a ter esperanças. Os olhos do futuro são menos imediatistas que os olhos do presente; eles nos fazem ver possibilidades que agora parecem apenas pedras jogadas no lixo.
Ver o futuro é sonhar com a possibilidade. A própria natureza humana ensina isso. Quando vejo uma mulher grávida, sempre penso: ali vai um extraordinário grito da esperança. Engravidar é ter visão de futuro, é construir a esperança. Aliás, certa vez escrevi um poema sobre isso: chama-se Natus est:
“Conceber a vida não é apenas engravidar;
É deixar-se fecundar de esperança
É replantar o futuro
É construir a eternidade.
É ser parceiro da ternura
É pintar uma lua
É andar descalça e nua
É ter o coração em festa.
Conceber a vida é mais que fazer nascer
É montar um amanhecer
Sol que aquece e ilumina
Orvalho que rega e alimenta
Que desperta e faz crescer.
Conceber a vida é morrer
É deixar-se consumir nesta paixão
É envolver o coração
É enxergar o que não se vê.”
Pensar em nossos atos como construções de futuro dá outro significado às coisas. Corrigir um filho, orientar um aluno, fazer uma promessa, declarar um amor, plantar uma árvore são atos capazes de configurar diversos futuros, conforme a natureza de nossa visão ou de nossos sonhos. Pensar em nós mesmos como construtores de futuro é elevar a vida ao mais alto padrão estabelecido por Deus. É ser capaz de enxergar o que não se vê.
Terceiro: é preciso conhecimento e estudo. Michelangelo estava preparado para esculpir, conhecia a técnica, exercitava-se nela. Quanto mais estudo, mais competência. A criação surge sempre de uma mente preparada. As oportunidades pousam em mentes abertas. A ideia de que algo possa acontecer sem preparação é uma ideia infantil e pouco prática. Na melhor das hipóteses, gera uma enorme frustração quando descobrimos que não percebemos as oportunidades porque não tínhamos distinções capazes de vê-las.
Nos dias de hoje, a quantidade de informação disponível e a dinâmica das relações fazem com que as possibilidades estejam presentes a todo tempo. Vê-las é um exercício da capacidade, da sensibilidade e de inspiração. No entanto, essas coisas não são frutos de processos misteriosos; são, isso sim, resultados de muita dedicação e aprendizagem. Existe por aí um universo a ser descoberto, muitos anjos a serem libertos, muitas pedras a esculpir. Mas uma das coisas que se requer para tal façanha é estarmos preparados para enfrentar as pedras e transformá-las em arte. Isso é fruto de trabalho, conhecimento e técnica.
As antenas captam sinais. No entanto, não há vantagem alguma em uma antena captar sinais fortes. Toda antena deve fazer isso. Boas antenas, por sua vez, captam sinais fracos. Aí está o diferencial. Ver o que todos veem nos faz iguais. Ver o que alguns veem nos faz menos gerais. Ver o que ninguém vê nos permite esculpir o futuro, construir uma nova história, criar possibilidades. Nada há que substitua o conhecimento, e não há conhecimento sem esforço.
Quarto: capacidade de contemplar. Michelangelo andava pelas ruas de Roma com os olhos atentos. Olhos de quem sabe desfrutar o que vê. Nada passa despercebido a quem tem o coração preocupado em contemplar. “Olhai os lírios do campo”, dizia Jesus. Eles não tecem nem fiam; no entanto, nem Salomão se vestiu como eles. Contemplar é desenvolver a capacidade divina de ver que o que é bom.
“E viu Deus que isso era bom”. Creio que Deus fez as coisas, contemplou-as e só depois declarou que eram boas coisas. No entanto, quando acabou de fazer o homem e o contemplou, descobriu que faltava algo. “Não é bom que o homem esteja só.” Deus descobriu o que estava faltando porque contemplou o que fez. Na contemplação não só descubro a beleza, como também descubro o outro. Contemplar é investir tempo na descoberta do que me cerca para ser capaz de usufruir da beleza – alimento da alma. Contemplar é permitir que se desenvolva a generosidade e a gratidão. Quem não contempla não sabe o que agradecer. Quem não sabe agradecer ainda não aprendeu a contemplar. Olhem os lírios, olhem as nuvens, olhem uns aos outros, olhem a árvore sem folhas, olhem o jardim florido, olhem a dor e o sorriso, olhem a vida e a morte. Enxerguem o Pai. Olhem sem pressa e vejam que em tudo há beleza, mesmo nos escombros.
Quinto: trabalho, esforço, envolvimento e empenho. A beleza não se dá por acaso, é fruto de uma boa jornada de trabalho. “Doce é o sono do trabalhador”, declaram as Escrituras. Aquela pedra achada por Michelangelo e colocada no ateliê foi alvo de muito suor. Martelo, cinzel e muita força foram utilizados para desbastar o mármore. A construção da arte e da vida exige do artista trabalho e empenho. De início, golpes fortes, inserções profundas, instrumentos duros – depois, instrumentos finos, golpes mais delicados e precisos, e por fim polimento suave e gentil.
Na medida em que se cresce, refina-se o cuidado, aprofunda-se o sentido, imortaliza-se… Na vida também a coisa funciona assim. Nas diversas fases pelas quais passamos, necessitamos de instrumentos específicos para nos moldar e para sermos moldados.
No entanto, nada substitui o trabalho, o esforço pessoal e o envolvimento. Michelangelo envolveu-se com a obra, envolveu-se com a pedra, envolveu-se com o futuro. Uma das indicações mais objetivas da qualidade da vida relacional é perceber o quanto estamos envolvidos com nossos projetos de vida, e a quantos envolvemos, com quantos nos relacionamos. Aqui está uma das grandes funções da comunidade e da amizade. “Não deixemos nossa congregação como fazem alguns”, ensina a carta aos hebreus. É triste estar só. A beleza e a arte de viver bem não são atributos da sorte nem das facilidades almejadas por nossas ilusões. Antes de tudo, são construções que, para terem consistência, para se tornarem em anjo, devem ser lavradas a partir do duro mármore.
A vida nos coloca em situações diversas, como colocou aquela pedra no caminho de Michelangelo. Trabalhar as situações com coragem e determinação faz de nós pessoas mais inteiras, mais resistentes às intempéries, menos volúveis e mais livres. Acima de tudo, pessoas que conseguem fazer anjos a partir de pedras.
Por fim, há uma habilidade ensinada pelo próprio mármore – há que se deixar moldar. O mármore se permite esculpir. Resiste, é fato. Mas também se entrega ao cuidado do artista. Submete-se ao ato criador de outrem, admite que a beleza precisa de um outro para elaborá-la a partir dos elementos com os quais se relaciona.
Somos esculturas e escultores, simultaneamente. Interferimos na vida uns dos outros, conscientemente ou não. Às vezes cinzelamos com força, ferimos muito; outras somos negligentes, deixamos de cuidar dos detalhes. Mas o que importa sempre é descobrir que podemos cuidar do outro. É mister descobrir o outro como uma possibilidade. O modo como fazemos isso faz toda a diferença. Somos treinados para ser escultores; falta-nos mansidão para sermos esculpidos. A paixão de Cristo, tão bem retratada pelo filme de Gibson, é, talvez, o mais eloquente de todos os apelos a esse princípio. Não vivemos como queremos, mas vivemos a partir do que tornamos possível ou do que aprendemos a admitir como possível. Vivemos na dimensão relacional.
Assim conta-se a história do anjo e da pedra. Nada é tão resistente e tão dócil como esses dois seres. Nada é mais verdadeiro que as lições que inspiram.
Quando estava na Espanha, fui visitar o museu da rainha Sofia. Lá havia uma exposição de instalações. Após visitar vários salões, um chamou-me a atenção em particular. Era uma instalação feita com papel higiênico, tinta e resina: linda, etérea, diferente, serena. O folheto explicativo dizia: “Valor do material: quinhentos euros: valor da obra – um milhão de euros.” Que coisa extraordinária! Não importa o material que se tem, tudo pode ser transformado em arte quando a genialidade criativa e a honestidade relacional estão postas a serviço da beleza.
Você pode encontrar mais histórias como essa no meu livro “A Branca de Neve e os Sistemas Gerenciais”, adquira agora!


“O sucesso é sempre resultado do time e, os erros, responsabilidade do líder.” Peter Drucker

Dia desses visitava um cliente. Enquanto o aguardava fiquei na sala de espera observando a dinâmica dos colaboradores daquela empresa. Atento às falas, aos movimentos e comportamentos dos profissionais dali, pude observar algo que sempre me chama a atenção: o clima organizacional.
Segundo o Portal RH (http://www.rhportal.com.br/artigos), Clima Organizacional é o conjunto de propriedades mensuráveis do ambiente de trabalho percebido, direta ou indiretamente pelos indivíduos que vivem e trabalham neste ambiente e que influencia a motivação, o comportamento, a produtividade e os relacionamentos dessas pessoas.
Do ponto de vista organizacional, clima é o indicador de satisfação dos membros de um sistema produtivo qualquer, em relação aos diferentes aspectos da cultura ou realidade aparente desse sistema, tais como: políticas de RH, modelo de gestão, processos de comunicação, valorização profissional e identificação com a empresa e relacionamentos.
A organização e as condições de trabalho, bem como as relações entre os colaboradores condicionam em grande parte a qualidade da vida e os resultados corporativos. Construir um clima propício para o trabalho e a convivência em grupo é estar contribuindo no desenvolvimento concreto e pessoal de todos os elementos fundamentais que nos fazem seres humanos: autonomia, legitimidade, diferenças e liberdade, tanto no domínio individual como social.
No tempo em que fiquei esperando meu cliente, observei um elevado grau de ansiedade das pessoas, instabilidade de humor, relacionamentos indelicados, muita movimentação, muito individualismo e pouco resultado. As pessoas cumpriam seu papel no trabalho como se aquilo fosse um fardo bastante pesado. Era visível a enorme quantidade de energia usada para manter as coisas mais ou menos sob controle, desviando-as dos fatores produtivos e relacionais realmente necessários.
Pois bem, para se melhorar o clima organizacional é necessário entender um pouco mais fundo a questão dos relacionamentos humanos.
As relações entre pessoas nos sistemas organizados ocorrem a partir de dois movimentos: vertical e horizontal.
O movimento vertical se caracteriza pelas relações hierárquicas. Tradicionalmente tal movimento era construído por ações desumanas e unilaterais, onde predominava
os desmandos, a manipulação pelo medo, a competitividade entre colegas e a insegurança entre as pessoas. Com a humanização dos processos gerenciais e a reorganização do trabalho, novas características foram incorporadas a esse movimento: qualificação, polifuncionalidade, visão sistêmica do processo produtivo, rotação das tarefas, autonomia, flexibilização e harmonia relacional.
A tendência, hoje, observada em organizações de alto desempenho, é ter colaboradores com maior escolaridade, competência, eficiência, espírito competitivo, criatividade, qualificação e empregabilidade. Tal política, no entanto, visa um melhor ambiente e uma maior produção, obtida antes, pela eficiência e pelo trabalho intelectual do que pelo excesso do esforço físico. Isso inclui agilidade das empresas diante do mercado, sem perder a noção de qualidade relacional que deve ser a tônica do clima onde se realiza o trabalho.
Significa também, atender às demandas do mercado, o que leva os profissionais a terem que se adaptar e aceitar as constantes mudanças e novas exigências das políticas competitivas no mercado global, bem como construir relações internas que promovam a saúde e a qualidade de vida. Manter essa equidade é, hoje, sinônimo de eficiência.
O fenômeno horizontal está relacionado à pressão para produção. Tradicionalmente isso era feito, devido à instabilidade do mercado, a partir do medo que a perda do emprego gerava e as poucas alternativas formais que se tinha até então de manter-se empregado. O enraizamento e a disseminação do medo no ambiente de trabalho criavam possibilidades de atos individualistas e tolerância às práticas autoritárias que sustentavam a cultura da subserviência. No entanto, esse fato, hoje, está mudando. A estabilidade econômica, o espaço para o empreendedorismo e as conquistas trabalhistas, já não permite mais a gestão organizacional a partir da cultura do medo.
Algumas organizações que ainda atuam com esse clima, fatalmente irão descobrir, mais cedo do que pensam o alto custo em manter tal cultura. Atuar a partir de autoritarismo, estimular a competição sistemática entre colegas, incentivar a indiferença ao outro e explorar os profissionais até o limite da sanidade relacional, é uma das formas mais efetivas de aumentar custos, perder clientes e sair do mercado.
Este fenômeno provoca o rompimento dos laços afetivos entre os pares, aumento do individualismo e instauração do ‘pacto do silêncio’, com também o ‘pacto da mediocridade’. As consequências mais comuns são: relações afetivas frias e endurecidas, comprometimento da saúde, da identidade e da dignidade, sentimento de inutilidade, descontentamento e falta de prazer no trabalho, aumento do absenteísmo e diminuição da produtividade.
Construir ambientes de trabalho e convivência cujo clima seja saudável é uma questão de retorno à humanidade. É valorizar o que nos constituiu como seres humanos, é primar pela qualidade de vida e pela vida de qualidade, antes de qualquer valor econômico por si mesmo.
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Desenvolvemos uma ferramenta online para avaliarmos as 5 dimensões da cultura da sua empresa/organização.
O Exame da Cultura Organizacional foi desenvolvido para identificar os ambientes que compõem a cultura de uma dada organização e como tais ambientes se relacionam com seus resultados, ajudando o gestor a tomar as melhores decisões para promover o desenvolvimento organizacional.
Clique aqui para obter um acesso gratuito ao exame. Exame da Cultura da Organização – Homero Reis


