CONSTRUINDO RELAÇÕES INTELIGENTES© entre fatos e interpretações – o modo como me torno humano

por Homero Reis

Há momentos na minha vida em que sinto que tudo o que me acontece chega como um impacto. Algumas coisas me golpeiam pela força das acontecencias do mundo que me atravessa; outras brotam da minha força interna, da forma como reajo, respondo e interpreto aquilo que me acontece. Esse jogo entre o que vem de fora e o que nasce de mim é, talvez, a descrição mais honesta do meu próprio ser-no-mundo. Heidegger dizia que existir é sempre ser lançado no mundo, e eu acrescento: é ser lançado também nas relações, nos encontros, nos afetos e nos confrontos que moldam a forma como percebo a mim mesmo e aos outros.

Ao longo da minha vida, especialmente quando passei a compreender a linguagem da inteligência relacional, descobri que nada do que vivo é neutro. Tudo se organiza no espaço entre um fato e a interpretação que faço do fato. Tudo se passa nessa brecha microscópica e, ao mesmo tempo, gigantesca, onde a consciência constrói seus sentidos e onde decido, de modo discreto, mas decisivo, que história vou contar a mim mesmo.

I. Entre o que acontece e o que significa

O mundo me oferece fatos: quebrei uma perna, consegui um trabalho, perdi alguém, ganhei um amor, falhei, fui amado, fui rejeitado. Como ensinava Epicteto, “não são as coisas que nos perturbam, mas a opinião que temos delas”. Entendi, tardiamente talvez, que os fatos são o chão; mas as interpretações são o mundo inteiro. Maturana diria: “Não vivemos em um mundo de coisas, vivemos em um mundo de distinções”. E é justamente a distinção que faço que inaugura um horizonte.

Muito cedo percebi que não sofro pelo que vivi, mas por aquilo que aprendi a pensar sobre o que vivi. Quase sempre, quando me sinto ferido, não estou ferido pelo acontecimento em si, mas pela narrativa que construí sobre ele. Nietzsche, numa frase que sempre me desconcerta, escreveu: “Não existem fatos, apenas interpretações”. E embora eu preserve a dignidade daquilo que é real e concreto, entendo que a forma como o real me atravessa depende de mim, do meu olhar, das lentes emocionais que herdei do passado. Minhas histórias são sempre interpretações que faço da vida, com algum ganho secundário: elas não são fáticas, são interpretativas.

Hoje sei que, quando interpreto negativamente um gesto, uma palavra ou um silêncio, fecho portas. E quando interpreto como possibilidade, abro caminhos. Isso, porém, não é um otimismo ingênuo; é responsabilidade. Kierkegaard dizia que a liberdade é sempre uma tarefa, nunca um dado. Interpretar, portanto, é um gesto ético: eu decido qual versão de mim mesmo deixo viver.

II. As camadas que me constituem

Quando penso em mim mesmo, vejo mais do que um nome, um CPF ou uma fotografia. Sou, como afirmava Rubem Alves, “um cofre de memórias”, um arquivo vivo, uma colcha de retalhos costurada pelas mãos de pessoas que passaram pela minha história. Minha identidade não é uma substância fixa, mas um processo, uma narrativa contínua.

Aristóteles dizia que a identidade é aquilo que permanece sendo o que é, apesar das mudanças. Mas, no meu caso, percebo que sou justamente o movimento entre permanência e transformação. Sou o menino da fazenda que experimentou a escassez sem se sentir infeliz; e sou também o adolescente que, ao mudar para a cidade, aprendeu o peso das comparações. Aquele menino que nunca precisou de “tênis de marca” tornou-se, de repente, o observador de um mundo que lhe dizia: “Você é menos”.

Ali eu aprendi, sem perceber, que a comparação é uma fabricação do olhar, não um dado da vida. Freud lembraria que nossas primeiras feridas vêm sempre dessas descobertas: perceber-se insuficiente diante do outro é parte da construção do eu. Mas na minha adolescência, aquilo doía como verdade absoluta.

Com o tempo, e depois de muita reflexão, compreendi que posso perguntar a mim mesmo: o que eu tenho, o que eu sou, que é valor para mim? E mais: como posso comunicar meu valor sem desejar ser aquilo que não sou?

Essa descoberta de que não preciso desejar ver o cometa que não é da minha natureza ver, transformou meu modo de ser. A história da topeira, do gavião e da águia, que aprendi com Rubem Alves, tornou-se uma metáfora existencial. Cada ser tem sua biologia, seu campo de visão, seu território de beleza. A sabedoria está em oferecer ao outro a beleza do lugar de onde venho, em vez de me julgar menor por não habitar o céu deles.

Aprendi, enfim, que a identidade é construída no diálogo entre minhas limitações biológicas, minhas possibilidades interpretativas e a coragem de assumir o lugar do qual falo.

III. Espelho, contraste e revelação

Nenhuma identidade se sustenta sozinha. Só sei quem sou porque existe quem não sou. Para que eu tenha um “eu”, é preciso que exista um “outro”. Levinas diria que o rosto do outro me convoca, me desinstala e me humaniza. É na experiência relacional que percebo exatamente isso: o outro é aquele que revela aquilo que não vejo em mim, que evidencia minhas incoerências, que devolve minhas sombras, mas que também amplia minhas potências.

O outro me fascina e me desafia; e é esse fascínio que sustenta a amizade entre a topeira e os pássaros. É o outro que me oferece o céu que não posso ver e, ao mesmo tempo, que me pede que ofereça a ele o subterrâneo que ele jamais conhecerá.

Foucault lembrava que todo encontro humano envolve poder. Mas, ao contrário da visão punitiva do poder, ele também dizia que o poder é algo que circula, que se redistribui, que é exercido. Em cada relação que estabeleço, há sempre a escolha de permitir que o outro seja legítimo em sua diferença. Essa é a ética da inteligência relacional: reconhecer que o outro não é uma extensão minha, nem um inimigo a ser combatido, mas alguém tão legítimo quanto eu.

A diferença do outro não é ameaça, é convite. É justamente por ser diferente que o outro me dá a chance de crescer, revisar crenças, expandir fronteiras. Fromm dizia que amar é “permitir ao outro ser aquilo que ele é”, e isso, para mim, é também a definição de convivência inteligente. Mas, o fato é que, muitas vezes, por desconhecermos esse princípio, vemos o outro como “oponente”, aí, em vez de acolhê-lo, agimos para desqualificar, para afastar, e não para aprender e pacificar.

IV. O almoxarifado onde guardo minhas ferramentas

Carrego dentro de mim um almoxarifado emocional, uma espécie de depósito onde ficam guardadas as ferramentas com as quais interpreto o mundo. Meu passado é esse depósito. Mas ele não é feito de fatos. É feito das interpretações que, um dia, coloquei sobre os fatos. Essas interpretações acabam virando “verdades instrumentais” que não me permitem admitir a possibilidade do outro estar correto, ou de perceber nele contribuições significativas para a vida.

O dia em que deixei minha sandália virada com a sola para cima e ouvi minha mãe associar isso a uma maldição — “quem deixa a sandália virada quer que a mãe morra” — não foi apenas um acontecimento. Foi o nascimento de um vínculo psíquico que durou décadas. Freud explicaria que a infância é a matriz das nossas associações mais profundas, e ele estava certo. Mas hoje percebo que essa associação permaneceu intacta porque eu nunca a questionei.

Recentemente, quando tentei deixar a sandália virada, meu corpo inteiro se rebelou. Não foi o fato que me atingiu; foi a memória emocional inscrita nele. Foi como se minha mãe ainda estivesse ali. Foi a prova viva de que o passado é menos o que vivi e mais a interpretação que permanece em mim.

E no entanto, graças à inteligência relacional, descobri que posso reinterpretar. Posso dizer: “essa associação não me serve mais; posso deixá-la ir”. Não é fácil. O passado possui raízes profundas, como ensinaria Jung. Mas também é verdade que, como dizia Santo Agostinho, “o passado não existe; existe apenas a memória do passado”. Então, percebo que posso modificar não os fatos, mas os sentidos. Quando faço isso, abro novas possibilidades de futuro.

V. O ponto onde o passado encontra o possível

Byung-Chul Han escreve que vivemos numa sociedade do cansaço, onde estamos esmagados pelas exigências de desempenho, perfeição e produtividade. Muitas pessoas vivem enclausuradas em expectativas que não escolheram. E, olhando para minha história, percebo que grande parte do perfeccionismo, meu e de tantos que acompanho, nasce de exigências antigas, interpretações que aprenderam a temer o erro, a crítica, a rejeição.

Viver o presente, então, não é apenas estar aqui e agora. É libertar-se, pouco a pouco, das interpretações que mantêm minha vida algemada a expectativas irrealistas. É reinscrever o passado para caber no presente. É dar a mim mesmo a chance de nascer outra vez.

VI. O território das possibilidades – e não das certezas

O futuro não é uma linha reta. Como diria Paul Ricoeur, ele é sempre um “ainda-não”. E esse ainda-não é construído com material que vem do passado, mas é moldado pelas interpretações que faço no presente.

Se no passado carreguei interpretações de escassez, talvez veja o futuro como ameaça. Se carreguei interpretações de rejeição, talvez veja o futuro como abandono. Mas se me permito reinterpretar, redizer, renarrar a vida, então o futuro se abre como campo fértil.

Bauman falava da modernidade líquida, onde nada é estável, tudo escorre, tudo muda rapidamente. Mas o futuro, para a inteligência relacional, não é líquido nem sólido: é responsivo. Ele responde às escolhas interpretativas que  faço. Quando reinterpreto meu passado, mudo minhas possibilidades de futuro. Quando mudo minha narrativa, mudo meus possíveis. Quando mudo minha interpretação, mudo meu destino.

VII. Entrelaçamentos: o ofício de tornar-se humano

Quando chego ao final desta reflexão, percebo que construir relações inteligentes é, antes de tudo, construir a mim mesmo. Não como projeto acabado, mas como obra em andamento, como barro ainda úmido que recebe novas formas à medida que a vida me convida a rever aquilo que um dia tomei como verdade definitiva.

Hoje entendo que sou tecido por muitos fatos que não escolhi e por interpretações que, em algum momento, aceitei como únicas. Os fatos permanecem, mas as interpretações podem renascer, e é justamente aí que reside minha liberdade.

Também reconheço que o outro não é extensão de mim, nem ameaça, nem instrumento para meus desejos silenciosos. O outro é presença legítima, tão complexa e contraditória quanto eu. É alguém cuja existência me desafia a sair de mim mesmo, a abandonar minhas certezas rígidas, a desmontar minhas defesas afetivas para enxergar, sem filtros, a dignidade que pulsa naquela diferença que me desconcerta. Descobrir o outro, nesse sentido, é descobrir um espelho que não escolhi, mas que revela quem eu sou quando não estou desempenhando papel algum.

Do passado, carrego um baú de histórias que ainda me movem, algumas me fortalecem, outras me prendem. Penso, às vezes, naquele perfeccionismo que ainda insiste em me visitar. Vejo-me criança, diante de um pai exigente ou de uma professora impaciente, aprendendo que errar era fracassar e que fracassar era não merecer amor. Anos depois, ali estava eu, já adulto, repetindo padrões emocionais de uma vida que nem lembrava conscientemente. Até que um dia, diante de uma situação aparentemente banal, um projeto que não conseguia concluir, percebi que não era o projeto que me paralisava, mas a interpretação herdada: a ideia de que, se eu não fizesse perfeito, não deveria fazer. Ali entendi que meu passado continuava sentado ao meu lado, soprando narrativas antigas. E naquele instante, escolhi dizer não. Escolhi reinterpretar. Escolhi continuar. Esse pequeno gesto transformou mais coisas do que eu poderia imaginar. Às vezes, a vida muda quando ouso mover apenas meio milímetro do meu eixo.

E quanto ao futuro… percebo que ele não é punição nem promessa; é possibilidade. Não está pré-escrito, mas também não é terreno vazio. Levo comigo os fragmentos do que vivi e, com eles, construo a paisagem do que posso vir a ser. O futuro responde às escolhas interpretativas que faço hoje. Responde ao modo como reordeno as memórias, ao modo como trato o outro, ao modo como me trato. Responde à coragem que tenho de abandonar narrativas que me apequenam para abrir espaço para narrativas que me ampliam.

E assim, quando reúno essas percepções, a maleabilidade das interpretações, a legitimidade do outro, a força viva do passado e a plasticidade do futuro, compreendo que viver com inteligência relacional significa assumir o ofício de tornar-me humano, diariamente mais humano. É aceitar que sou autor e personagem, que sou história e reescrita, que sou limite e possibilidade. É entender que a vida não se resolve na linha do tempo, mas na forma como olho para ela.

Penso, por exemplo, em um cliente que atendi tempos atrás. Alguém extremamente talentoso, mas que vivia preso a um único episódio traumático da juventude. Durante muito tempo, ele acreditou que aquele fato o definia. E tudo o que fazia parecia justificar a interpretação antiga: “eu não sou suficiente”. Um dia, lhe perguntei, com a delicadeza que a dor alheia exige, se aquele fato ainda era real ou se tinha se tornado apenas um enredo repetido. A pergunta o desestabilizou, mas plantou uma semente. Meses depois, ele me disse: “Não consegui mudar o que aconteceu, mas consegui mudar o que significava”. Foi ali que compreendi, mais uma vez, que o coração humano só se liberta quando ousa reinterpretar sua própria história.

Por tudo isso, quero lhe fazer um convite, ou talvez um desafio. Que você examine sua vida como quem acende uma lanterna em um cômodo antigo: com cuidado, mas sem medo do que vai encontrar. Pergunte-se quais fatos ainda são fatos e quais interpretações já se tornaram prisões. Observe de que lugar você tem amado, reagido, fugido ou permanecido. Pergunte-se o que do seu passado ainda merece lugar e o que apenas insiste em ocupar espaço. Olhe para o outro com curiosidade, não com julgamento. E sobretudo, permita-se pensar: “E se eu olhar de novo? E se eu interpretar diferente? E se a vida estiver oferecendo mais caminhos do que eu imagino?”

No fim das contas, construir relações inteligentes é construir-se com coragem. É recusar a passividade diante da própria história. É decidir que a vida não será apenas aquilo que me aconteceu, mas aquilo que escolho fazer com o que me aconteceu. E é nesse gesto, simples e revolucionário, que começa a liberdade.

Reflitam em paz!

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