AS HISTÓRIAS QUE NÃO ME CONTO© Reflexões Sobre Os Não Ditos

por Homero Reis

Há histórias que habitam o silêncio. Elas não estão nos fatos que narramos, nem nas lembranças que exibimos como medalhas ou cicatrizes. Estão no que omitimos, no que esquecemos de mencionar, no que julgamos pequeno demais para ser contado. Essas histórias invisíveis, porém, são as que mais nos definem. Elas agem nas entrelinhas da nossa consciência, moldando gestos, sussurrando escolhas, assinando, sem nossa permissão, a versão que apresentamos de nós mesmos, ao mundo.

Desde sempre, aprendemos que contar nossa história é um ato de poder. Mas será que percebemos que o que deixamos de contar tem um poder ainda maior? Aquilo que silenciamos, por medo, por hábito, por desconhecimento, continua a agir. Transforma-se em pressuposto, em reação automática, em verdade não examinada. Enquanto nos preocupamos com a coerência da narrativa que construímos, é na periferia dessa narrativa que nossa identidade verdadeira se esconde, tecida por detalhes que julgamos irrelevantes, por emoções que não soubemos nomear, por relações que consideramos acidentais.

A consciência é uma construção social, mediada pela linguagem. No entanto, antes mesmo das palavras, há o não dito. Há o olhar que interpretou, o gesto que acolheu ou rejeitou, o tom de voz que ensinou o que era seguro ou perigoso.

Esses mediadores silenciosos, muitas vezes nem sequer lembrados, são os verdadeiros autores dos primeiros capítulos da nossa história. Eles não nos contaram apenas como ver o mundo; nos contaram, sobretudo, o que não ver, o que não questionar, o que não sentir.

Freud investigou os recalques; Nietzsche desconfiou das interpretações que confortam. Mas há uma camada anterior a ambas: a das histórias que nunca chegaram a se formar como narrativas. São fragmentos de experiência que, por falta de linguagem, por falta de testemunha, por falta de permissão simbólica, permaneceram à sombra. E é nessa sombra que mora o EU que acreditamos ser espontâneo.

Viver com inteligência relacional, não é apenas aprender a contar melhor a própria história. É, antes, aprender a escutar os próprios silêncios. É perguntar-se: o que esta memória esconde por trás do que ela mostra? O que esta emoção quer dizer que ainda não foi dito? O que esta relação me ensinou sem jamais ter falado? A tarefa não é preencher o vazio com mais palavras, mas iluminar o espaço entre elas, aquele mesmo espaço silencioso, invisível e poderoso onde a interpretação nasce e, sem que percebamos, nos assina.

Talvez a maior liberdade não esteja em reescrever o passado, mas em reler o que nunca foi escrito. É na lacuna entre o vivido e o narrado que encontramos a assinatura dos mediadores que nos formaram, e, ao encontrá-la, podemos finalmente, com tremor e coragem, assumir a pena. O futuro não começa quando mudamos a história que contamos; começa quando ouvimos, pela primeira vez, a história que sempre esteve lá, esperando apenas por uma testemunha.

Por isso escrevo a partir de uma convicção existencial: não sou apenas aquilo que vivi; sou, sobretudo, a forma como aprendi a narrar o que vivi. Entre os fatos que me atravessaram e o sentido que atribuí a eles existe um espaço silencioso, invisível e poderoso: o espaço da interpretação. É nesse espaço que a minha história deixa de ser apenas biográfica e se torna ontológica. É ali que eu passo a existir como sujeito.

Desde muito cedo, percebi que as pessoas contam poucas histórias sobre si mesmas, escolhidas intencionalmente, com consciência ou não, apesar de terem vivido milhares delas. Há fatos que se perdem no tempo, outros que se apagam por desuso, e alguns que retornam insistentemente, como se exigissem ser repetidos. Perguntei-me, então, por que conto as histórias que conto a meu respeito? Essa pergunta, simples à primeira vista, tornou-se uma das mais transformadoras da minha vida intelectual e relacional.

Na Psicologia Histórico-Cultural de Lev Vygotsky encontrei uma chave decisiva para essa reflexão. Para ele, a consciência não nasce pronta nem é produto exclusivo da interioridade; ela se constitui nas relações sociais e se expressa por meio da linguagem. Eu não penso sozinho; eu aprendo a pensar com outros. Não interpreto o mundo de forma autônoma desde o início; sou ensinado a interpretá-lo. Antes de dizer “eu”, alguém me disse quem eu era.

Essa constatação desloca radicalmente a ideia moderna de sujeito autossuficiente. O sujeito se torna autônomo, mas nunca autossuficiente. Sócrates já intuía isso ao afirmar que a vida não examinada não merece ser vivida. Mas o exame de si, longe de ser um monólogo interior, é sempre um diálogo mediado. Platão colocou esse diálogo no centro de sua filosofia; Aristóteles mostrou que o homem é um animal político, constituído na pólis. Vygotsky, séculos depois, traduziu essa intuição filosófica para o campo psicológico: eu me torno quem sou na trama das relações.

Quando falo da minha história, falo de fatos e de interpretações. Os fatos são irrecusáveis: aconteceram, acontecem. Não posso mudar a surra que levei, a perda que vivi, o medo que senti, o erro que cometi. Mas posso, e devo, revisitar o sentido que atribuí a esses acontecimentos. Viktor Frankl compreendeu isso de forma magistral ao afirmar que, mesmo quando não podemos mudar uma situação, somos chamados a mudar a nós mesmos diante dela. A liberdade humana começa na interpretação.

Conto as histórias que conto porque elas funcionam. Funcionam para me proteger, para justificar minhas escolhas, para sustentar uma identidade coerente. Ninguém é vilão em sua própria narrativa. Freud já havia alertado para os mecanismos de defesa que organizam nossa memória e nossa linguagem. Nietzsche foi ainda mais contundente: não existem fatos, apenas interpretações. O que chamamos de história pessoal é, muitas vezes, uma construção defensiva contra o caos da existência.

A linguagem, nesse contexto, não é apenas meio de expressão; é ferramenta de constituição do eu. É por meio dela que desenvolvemos aquilo que Vygotsky chamou de funções psíquicas superiores: pensar, refletir, projetar o futuro são atos linguísticos antes de serem atos mentais. A história que conto a meu respeito não apenas descreve quem sou; ela molda quem me torno.

Aprendi isso também pela vida. Nasci e vivi minha infância em uma fazenda. Convivi com animais grandes, com a terra, com o ritmo da natureza. Passei por baixo de vacas, montei a cavalo muito antes de saber explicar o que era coragem, nadei em rios antes de saber nadar, brincava na mata. Não me lembro de ter aprendido essas coisas; simplesmente as vivi. Meus pais nunca interpretaram aquele ambiente como perigoso. Para eles, aquele era o mundo. E porque eles o interpretaram assim, eu o vivi assim.

Hoje, observo meus filhos e netos e percebo o contraste. Crianças urbanas, cercadas por mediações artificiais, por cuidados excessivos, por medos transmitidos. Não se trata de julgar qual mundo é melhor. Trata-se de compreender como os mediadores interpretam a realidade e, ao fazê-lo, ensinam a viver. O medo, quando mediado, se torna professor ou carcereiro. A coragem, quando ensinada, pode libertar ou expor.

Vygotsky chama essas figuras de mediadores culturais. São eles que interpretam o mundo para quem chega. Pais, professores, líderes, comunidades inteiras. Antes de termos autonomia suficiente para reinterpretar a realidade, vivemos sob o olhar de outros. Kierkegaard diria que esse é o estágio estético e ético da existência, anterior à escolha consciente de si. Tornar-se adulto é assumir a tarefa de reinterpretar o mundo que nos foi dado e ter a coragem de viver nele.

Essa tarefa, no entanto, não é simples. Somos profundamente moldados pelo contexto histórico-cultural. O modo de vida, aquilo que Vygotsky chama de cultura, seleciona as relações que consideramos possíveis. Tendemos a nos aproximar de quem vive como nós. Bauman mostrou como, na modernidade líquida, buscamos relações que confirmem nossas narrativas, evitando o desconforto da diferença. A Inteligência Relacional nasce justamente da disposição de escutar outros mediadores.

Há também a dimensão comunitária da emoção. Cada comunidade desenvolve uma emocionalidade dominante. Comunidades guerreiras formam guerreiros; comunidades pastorais formam cuidadores. Atenas e Esparta são exemplos clássicos dessa diferenciação. Byung-Chul Han, ao analisar a sociedade do desempenho, mostra como a emocionalidade contemporânea é marcada pela exaustão e pela auto exploração. Somos filhos emocionais de nosso tempo.

Eric Berne acrescenta outra camada a essa compreensão ao falar da Análise Transacional. Para ele, a relação com o pai do sexo oposto influencia nossas escolhas de conteúdo; a relação com o pai do mesmo sexo influencia nosso modo de ser. Ao olhar para minha própria história, reconheço essas marcas. Mas reconheço também algo ainda mais importante: nenhuma dessas influências é determinante. Elas são condicionantes, não sentenças.

Aqui reside um ponto decisivo da Inteligência Relacional: a capacidade de ressignificar a própria história. Tornar-se adulto, do ponto de vista relacional, é assumir a autoria da própria narrativa. É deixar de ser apenas personagem e tornar-se narrador. Hannah Arendt dizia que a ação humana inaugura algo novo no mundo. Ressignificar a história é um ato político e ético.

Jesus expressou isso de forma radical ao falar de conversão: metanoia, mudança de mente, de olhar, de narrativa. Não se trata de apagar o passado, mas de redimi-lo. C.S. Lewis diria que Deus não desperdiça sofrimento; ele o reescreve. Paul Tillich falaria da coragem de ser, mesmo diante da angústia do não-ser.

A Inteligência Relacional, núcleo do meu trabalho, nasce desse ponto de interseção entre história, linguagem e liberdade. Relações inteligentes exigem consciência da própria narrativa e abertura para a narrativa do outro. Exigem escuta, responsabilidade e humildade epistemológica. Exigem reconhecer que minha história me define, mas não me aprisiona.

Quando ressignifico minha história, liberto-me dela sem negá-la. Abro espaço para novas formas de relação, novos futuros possíveis. O futuro, afinal, não é algo que acontece; é algo que se decide. E toda decisão começa na forma como conto e reconto a minha própria história.

Essa é, para mim, a tarefa ética da Inteligência Relacional: ajudar pessoas e comunidades a tornarem-se autoras de suas narrativas, sem romper com suas tradições e histórias, mas também sem se tornarem prisioneiras dela. É nesse movimento que a vida deixa de ser repetição e se torna criação.

Percebo, quase com espanto, que não sou apenas alguém que viveu coisas, mas alguém que aprendeu a explicá-las a si mesmo. Esse momento não chega de uma vez; ele se insinua lentamente, como uma pergunta incômoda que retorna: por que reajo sempre do mesmo modo? por que certas histórias insistem em voltar? por que algumas memórias ganham estatuto de verdade absoluta enquanto outras permanecem silenciosas?

Esse movimento de despertar da consciência não é ainda sabedoria, mas já é inquietação. E toda inquietação verdadeira nasce do encontro entre a experiência vivida e a suspeita de que a narrativa que construí sobre ela talvez não seja a única possível.

Platão, em sua alegoria da caverna, descreveu magistralmente esse processo. Os prisioneiros não estão acorrentados apenas fisicamente, mas narrativamente. Eles aprenderam a chamar sombras de realidade. O drama não é a escuridão em si, mas a familiaridade com ela. Algo semelhante acontece com a história de vida: tornamo-nos prisioneiros das narrativas que aprendemos a repetir, não porque sejam verdadeiras, mas porque são conhecidas. A libertação, como na caverna, dói. Exige desaprender.

Aristóteles acrescenta que esse processo não acontece fora da pólis. Não é no isolamento que revisito minha história, mas na relação. É no confronto com outros modos de vida que percebo o quanto o meu é contingente. Aquilo que chamo de “normal”, “natural” ou “óbvio” quase sempre é apenas o nome sofisticado do costume. A história que me contam é, antes de tudo, uma história socialmente aprendida.

A Psicologia Histórico-Cultural, ao revisitar esse tema, desmonta qualquer ilusão de neutralidade subjetiva. Minha consciência não é um dado, é uma construção. Ela nasce mediada por palavras, por gestos, por emoções emprestadas. Antes de eu sentir medo, alguém nomeou algo como perigoso. Antes de eu desejar, alguém me mostrou o que era desejável. Antes de eu me definir, alguém me descreveu.

Mas Freud ainda acreditava que, ao trazer à consciência os conteúdos reprimidos, alcançaríamos certa liberdade. Nietzsche foi mais radical: ele desconfiava da própria consciência. Para ele, nossas narrativas morais, nossas histórias de sentido, muitas vezes não passam de estratégias para tornar suportável aquilo que não ousamos encarar. A história que conto pode ser menos um caminho de verdade e mais um pacto com a minha própria covardia.

Essa suspeita é desconfortável, mas libertadora. Porque se a minha história é uma construção, ela pode ser reconstruída. Viktor Frankl levou essa intuição ao limite ao afirmar que a última das liberdades humanas é escolher a atitude diante das circunstâncias. Não se trata de negar o sofrimento, mas de recusar que ele tenha a última palavra sobre quem me torno. A história que me contam não precisa ser uma sentença.

Percebo isso com nitidez quando olho para os casos concretos da vida. Conheci pessoas que viveram infâncias duríssimas e fizeram disso uma narrativa de vítima perpétua. Conheci outras que viveram histórias semelhantes e transformaram essas mesmas experiências em fonte de empatia, cuidado e maturidade. Os fatos não explicam sozinhos as escolhas, nem os resultados. É a interpretação mediada, aprendida, reiterada que organiza o futuro.

Kierkegaard me acompanha de perto. Ele dizia que o desespero não é não ser quem se é, mas não querer sê-lo. Muitas pessoas vivem desesperadas não porque sofreram, mas porque se recusam a revisitar o sentido do que sofreram. Preferem a repetição conhecida ao risco da liberdade. Tornam-se fiéis à própria dor, como se ela fosse a última prova de identidade.

Esse apego à narrativa também é comunitário. Não sofremos sozinhos; sofremos em culturas que ensinam como sofrer. Bauman mostrou como a modernidade líquida dissolve vínculos, mas não dissolve o medo. Apenas o redistribui. Hoje, aprendemos a contar histórias de desempenho, de sucesso, de fracasso individual. O sofrimento deixa de ser destino compartilhado e se torna falha pessoal. A história que me contam, nesse contexto, costuma ser cruel: se não deu certo, a culpa é sua.

Aprendemos a contar histórias que produzem sujeitos exaustos, adoecidos não pela opressão externa, mas pela auto cobrança excessiva. A narrativa dominante já não é a do inimigo externo, mas a da insuficiência interna. Não sou impedido; sou inadequado. Essa história, quando internalizada, corrói as relações, porque transforma o outro em espelho de cobrança, não em espaço de acolhimento.

Por isso, manter um relacionamento inteligente comigo mesmo se torna não apenas um conceito, mas uma necessidade ética. Relações inteligentes exigem uma ruptura com narrativas únicas. Exigem a coragem de contar outras histórias internas e de escutar outros mediadores. Quando escuto alguém de outra geração, de outra cultura, de outra história emocional, descubro que o meu modo de contar não é universal. Ele é situado. Ele é histórico.

Essa escuta, no entanto, não é espontânea. Ela precisa ser aprendida. Aqui volto à minha própria história. Quando observo a diferença entre a forma como vivi minha infância e a forma como meus netos vivem a deles, não faço um julgamento moral. Faço um diagnóstico histórico. São mundos distintos, mediadores distintos, medos distintos. O erro é absolutizar qualquer um deles. A maturidade está em reconhecer que cada história forma e deforma ao mesmo tempo. Descubra outras histórias sobre si, e descobrirá outras formatações possíveis de ser.

Essas formações se cristalizam nos papéis que desempenhamos. A relação com as figuras de autoridade estrutura não apenas escolhas, mas modos de existir. Eric Berne, diante disso, não fala de destino. Ele fala de roteiro, e todo roteiro pode ser reescrito. A tragédia começa quando confundimos roteiro com essência.

Hannah Arendt dizia que nascer é iniciar algo novo no mundo. Mas essa natalidade não se esgota no nascimento biológico. Ela se renova sempre que ouso agir de modo diferente do esperado. Ressignificar a história é um ato de natalidade tardia. É permitir que algo novo comece, mesmo quando tudo parece já decidido.

Na teologia cristã temos uma contribuição decisiva. Jesus não nega a história das pessoas que encontra; ele a relê. Ao cego, não pergunta quem pecou. À mulher adúltera, não reduz sua identidade ao erro. A narrativa que ele propõe é sempre libertadora: vai e não peques mais. Não é apagamento do passado, é abertura de futuro. Paul Tillich chama isso de graça: ser aceito apesar de ser inaceitável e, a partir daí, poder mudar.

C.S. Lewis dizia que Deus sussurra em nossos prazeres, fala em nossa consciência e grita em nossas dores. Talvez a dor seja o ponto em que a história que contamos deixa de funcionar. E isso, paradoxalmente, é uma boa notícia. Quando a narrativa falha, abre-se o espaço da revisão. O sofrimento, então, deixa de ser apenas peso e se torna convite.

É exatamente esse convite que a Inteligência Relacional assume como método. Ajudar pessoas a revisitar suas histórias não para negá-las, mas para libertá-las de leituras estreitas. Ensinar que toda relação é um encontro entre narrativas e que conflitos muitas vezes não são choques de valores, mas de histórias não examinadas.

Ao longo da vida, aprendi que amadurecer não é esquecer o passado, mas fazê-lo parar de governar o presente. É assumir que a história que me contam explica muito, mas não explica tudo. A história que acredito me conforta e promove ganhos secundários. Mas sou mais do que isso. Sou histórias não contadas. O futuro, afinal, não é uma consequência automática do passado; ele é uma decisão tomada no presente. E essa decisão começa sempre pela narrativa que escolho habitar.

Se existe uma tarefa central no meu trabalho com o relacionamento das pessoas, é essa: convidar pessoas a tornarem-se autoras responsáveis de suas histórias. Não vítimas, não heróis, não vilões, autores. Porque somente quem assume a autoria da própria narrativa pode sustentar relações mais livres, mais éticas e mais humanas.

E talvez seja isso, no fim, que significa viver com sabedoria: não permitir que a história que me contaram e a história que escolhi contar, silencie a história que ainda posso escrever.

 

Reflitam em paz!

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