Friedrich Nietzsche dizia que toda verdade não acompanhada por uma risada era, por definição, falsa. Estava em São Paulo e fui ao teatro assistir a Cissa Guimarães na peça Doidas e Santas. A princípio achei que seria mais um besteirol dentre os muitos que ocupam nossos teatros. Mas não! É uma história contextualizada sobre os dramas da vida pós moderna, na qual os grandes temas contemporâneos afloram de modo sutil e provocante. Não deixa de ser uma comédia; e, como tal, nos faz rir as vezes por adesão, outras por auto crítica. De qualquer forma, ninguém sai impune do teatro.

O contexto é a história da psicanalista Beatriz (Cissa Guimarães) que vive a crise da mulher de meia idade, emancipada. No auge da carreira profissional, a vida pessoal anda um caos. Sua extravagante mãe voltou a morar com ela e vive às turras com sua filha adolescente. O casamento de vinte anos, está cada vez mais distante do que fora idealizado um dia. O marido mais surdo, mais mudo, mais morno, mais jogado no sofá. Três gerações em crise. Assim, não há quem aguente a vida. Não há quem se mantenha santo, e todos “endoidecem” um pouco.

A peça começa com uma pergunta insólita que me pegou em cheio: qual foi a última vez que você gargalhou? A pergunta não se referia aos sorrisos comportados e politicamente corretos que fomos treinados a dar; não. Tratava-se das gargalhadas que fazem doer a barriga, perder a compostura, tirar a noção do tempo, implodir as etiquetas, desfazer a maquiagem, gerar uma descompostura terapêutica. Pois é. Fazia muito tempo que eu não fazia isso (ou não me permitia fazê-lo). Fiquei surpreso porque estava aprendendo a crer que seriedade e humor seriam excludentes. Descobri que não. A gargalhada está ligada a uma disposição mental só encontrada em quem tem saúde emocional. Quem se leva demasiadamente a sério, se julga paradigma da verdade, se sente superior aos outros, protegido por alguma entidade superior ou intocável pelas loucuras da vida, dificilmente gargalha. Gargalhar não presume que a vida esteja perfeita, nem que você esteja vivendo no paraíso. Gargalhar é para fazer a vida perfeita, é para pôr as coisas nos trilhos apesar dos problemas. É saber que desarranjos ocorrem e que vivê-los faz parte das regras da vida. Tem coisa mais engraçada do que piada em velório? É o contraditório, o proibido, o transgressor que nos mostra a fragilidade de nossas conveniências. Um tropeção, uma “vídeo cassetada”, um espirro fora de hora, são coisas que nos tiram daquela posição de “orgulho da criação” e nos faz cair na real. Gargalhar é coisa de quem está de bem consigo e com os outros; é coisa de quem está desarmado e que entende que a vida é mais cômica do que trágica, é mais louca do que se imagina. Gargalhar é responder à vida, quando essa se apresenta absurdamente fora dos padrões que admitimos como “certos”. Por isso se diz que uma boa gargalhada é a melhor forma de denunciar nossa presumida prepotência diante das coisas. É a vida nos dizendo: “sou incontrolável, surpreendente e maior do que você pode imaginar. Não tente me controlar. Viva!”. Gargalhar é expressar que o humor está cheio de saúde. Por isso se diz que “rir é o melhor remédio”.

Esse estado de ânimo cuja intensidade representa o grau de bem-estar psíquico e emocional das pessoas, surgiu na medicina de Hipócrates. Naqueles tempos (460 – 370 a.C. – Tessália, Grécia), cria-se que o humor era o maior indicador de saúde. Se uma pessoa não fosse capaz de apresentar em sua fisionomia traços de alegria, de disponibilidade ao riso, leveza no olhar e comportamento afável, certamente estaria com alguma disfunção orgânica (pathos) que, mais cedo ou mais tarde, se manifestaria no corpo. Por isso, criam os gregos que a dor estaria para o corpo, como o humor estaria para a emoção. Se o corpo dói é porque há algo disfuncional nele; se o humor é pequeno é porque a emoção está adoecida; se a emoção está adoecida, o corpo começará a reclamar.

A teoria do humor constituiu-se no principal conjunto de explicações racionais da saúde e da doença entre os séculos IV a.C. e XVII d.C. Vale ressaltar que a palavra humor, originalmente significava fluido. Também conhecida como Teoria Hipocrática da Saúde, seguia a tese de que a vida seria mantida pelo equilíbrio dinâmico entre quatro humores (fluidos) fundamentais do corpo: sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra, cuja origem se davam no coração, sistema respiratório, fígado e baço, respectivamente. Cada um destes humores teria diferentes qualidades. O predomínio natural de um deles na constituição dos indivíduos, daria origem aos quatro tipos fisiológicos básicos, cujas emoções lhes seriam indexadas como características de suas identidades. Hipócrates também ensinava que as alterações desses fluidos se davam em função dos alimentos preferidos pelos indivíduos. Os alimentos, segundo ele, eram agrupados em quatro grandes categorias: ar (frutas), fogo (as carnes vermelhas preparadas a base de calor), terra (os vegetais) e água (peixes e líquidos em geral incluindo chás, vinhos, cervejas, etc).

O sanguíneo (sangue – coração), alimenta-se do ar. É emotivo, demonstrativo, entusiasta e expressivo. Tem uma personalidade cativante. É um verdadeiro falador e contador de histórias. Está sempre de bom humor, embora a sua disposição possa variar. Faz-se notar onde quer que esteja, sendo alegre, curioso, inocente e sincero. No entanto, quando explode é visceral, contundente, intenso. Manifesta-se como visionário e líder.

O fleumático (fleuma – sistema respiratório), alimenta-se da água. É calmo, quieto, cheio de humor e condescendente. Moderado, frio, diplomático, é digno de confiança. Demonstra ser uma pessoa objetiva, organizada, eficiente e prática. Por outro lado é egoísta, avarento, temeroso e desmotivado. Muitas vezes é preguiçoso, preocupado, indeciso e auto protetor. De raciocínio excessivamente complexo é exímio em atropelar-se.

O bilioso ou colérico (bílis amarela – fígado), alimenta-se do fogo. Tem vontade forte, espírito prático, produtivo e decidido. É Irritadiço, agressivo e corajoso, como também é independente, mas pouco visionário. Pode ser cruel, irado, sarcástico, vingativo, dominador e impetuoso. É auto-sufiente e muitas vezes insensível.

O melancólico (bílis negra – baço), alimenta-se da terra. É desanimado, inquieto, complexo, embora talentoso. É Analítico, habilidoso, indisciplinado, sensível e vitimizado. Julga que só atingirá seu potencial máximo se trabalhar excessivamente. É autocentrado mas tem dificuldades em trabalhar com os outros. É desconfiado, susceptível, vingativo e mal-humorado, mas disfarça bem. Em si mesmo é crítico, teórico, pessimista e não social.

 Cada tipo fisiológico manifesta um tipo específico de humor predominante, mas todos eles estariam em plena saúde se fossem capazes de gargalhar de suas próprias limitações e dos acontecimentos da vida. As doenças, consequências de desequilíbrios entre os humores (fluidos), seria tratada com os alimentos corretos e com estímulos às emoções que levariam o corpo (physis) a voltar a seguir seus mecanismos normais. A noção de “cura” era percebida pela restauração da capacidade de rir e de gargalhar espontaneamente.

Embora a associação dos temperamentos com os fluidos corporais esteja obsoleta, a teoria dos quatro humores foi adaptada por vários pesquisadores contemporâneos, e muitos ainda a adotam para descrever traços de personalidade. Dessa forma é comum vermos nas teorias modernas os nomes artesão para o antigo sanguíneo, racional para o antigo colérico, idealista para o antigo melancólico e guardião para o antigo fleumático. De qualquer forma, o humor é uma das chaves para a compreensão das pessoas. O homem é o único animal que ri, e, através dos tempos, a maneira humana de sorrir modifica-se acompanhando os costumes e correntes de pensamento. Em cada época a forma de pensar cria e derruba paradigmas, e o humor acompanha essa tendência sociocultural. Expressões culturais do humor podem representar retratos fiéis de uma época, como foi o caso das comédias gregas e como é o caso das comédias de costumes.

Apesar do humor ser largamente estudado, teorizado e discutido por filósofos e outros, permanece extraordinariamente difícil defini-lo. Determinado essencialmente pela personalidade de quem ri, pode-se pensar que o humor não ultrapassa o campo do jogo ou os limites imediatos da sanção moral ou social. No entanto, muito mais do que isso, o humor instala-se no que há de mais íntimo na natureza humana, no mistério do psíquico, na complexidade da consciência, no significado espiritual do mundo que nos rodeia. O humor é a mais subjetiva categoria do cósmico e a mais individual, pela coragem e elevação que pressupõe. Trata-se, portanto, de uma categoria intrinsecamente enraizada na personalidade, fazendo parte dela e definindo-a até.

Tomás de Aquino (1225-1274 d.C.) dizia que o humor é fundamental para a vida humana. “O corpo precisa do sono, assim como a alma precisa do humor”. Esta analogia entre o sono e o humor, bastante explícita no que diz respeito à sua importância na vida humana, ressalta o humor como um “bem útil”, mesmo sendo um vício por excesso ou por falta de controle. Aqueles que exageram no brincar tornam-se inoportunos, por querer fazer rir constantemente, ao invés de tentar não dizer algo agressivo para com aqueles a quem a “brincadeira” é dirigida. O humor pode também ser um vício por ausência. Aqueles que carecem de humor, irritam-se com os que o usam e tornam-se “frios” e distantes, não deixando a sua alma repousar pelo uso do humor. Como a virtude está no meio, aqueles que usam convenientemente o humor, têm a capacidade de converter as coisas que dizem ou fazem em riso.

O humor é tido como a dissolução de uma pressão emocional gerada por contextos conflitantes. É produzido pela associação de duas ideias inicialmente distantes, cuja conclusão surpreende por não ser óbvia, nem previsível. Segundo estes preceitos a piada de boa qualidade, o fato cômico, a ocorrência inusitada deverá necessariamente mesclar elementos altamente contrastantes de modo que se estabeleça forte relação entre eles, embora ilógica. Uma piada “lógica” é profundamente sem graça por ser previsível. Essa surpresa aparentemente incoerente e ilógica das “acontecências”, remove a tensão racional que nos impomos, resultado das censuras internas que nos impedem de dar forma aos impulsos naturais, como queria Freud. Segundo ele, o humor, seria uma forma de enganar a censura, provocando alívio e por conseguinte o riso, levando a pessoa a um estado de graça eivado de saúde.

Doidas e Santas chega ao final. Cissa Guimarães, Giusepe Oristanio e Josie Antello fazem rir e refletir, magistralmente. Várias gargalhadas depois, senti-me capaz de responder àquela pergunta insólita. Refeitas a alegria e a reflexão, a noite em São Paulo foi mais serena do que se previa. E esse texto, bem mais fácil de escrever.

Reflitam em paz!

Homero Reis