A fábula é assim: Um dia uma raposa, querendo desdenhar da leoa a criticava por nunca conseguir gerar mais de uma cria. A leoa, ao escutar as provocações da raposa lhe disse: é uma só, mas é um leão. Moral: o valor está na qualidade do que se faz e não na quantidade.

O contexto desta fábula se dá numa época de profundas controvérsias entre os filósofos e os adeptos da mitologia. A população estava dividida entre os que criam na racionalidade humana e aqueles que julgavam que tudo era determinado pela vontade dos deuses. Esopo, então, conta essa fábula para mostrar que o valor das coisas não está na aparência, mas na natureza com que foram geradas. Portanto, o valor social não estaria nas ocorrências atribuídas aos deuses, mas na capacidade humana de refletir e conversar sobre elas. Isso nos remete a um princípio claro: mais vale uma idéia consistente e refletida do que muitas tarefas sem sentido.

Na gestão da vida esse dilema continua. Muitas vezes temos dificuldade de refletir sobre o que fazemos e vamos levando a vida num ativismo sem fim. Julgamos que é a quantidade de coisas que fazemos que dá sentido ao trabalho e não a qualidade das nossas ações. Produzimos muitas “raposas” e poucos “leões”. Vejo executivos e profissionais em geral com as agendas abarrotadas de coisas que, com um pouco de reflexão, planejamento, delegação, teriam uma qualidade de vida bem melhor, porque agregariam valor ao que fazem.

Do ponto de visa prático, isso pode ser resolvido assim: primeiro liste tudo aquilo que você faz na sua semana. Depois marque as tarefas personalíssimas; ou seja, aquelas que só você pode fazer. Essas não tem jeito – é você mesmo quem tem que dar conta do recado. Reserve-as em sua agenda. As demais podem ser delegadas e para isso você deve identificar sua rede de ajuda; ou seja, pessoas que fazem parte de sua networking e que podem lhe dar suporte. A questão mais profunda é que nem sempre confiamos no que as pessoas fazem. O resultado disso é que assumimos responsabilidades e compromissos que não conseguimos honrar.

Do ponto de vista filosófico, temos que entender que uma boa reflexão sobre o que fazemos é uma forma de agregar valor ao modo como atuamos. Conversar sobre nossas ações e resultados ajuda a entender em que somos efetivos ou não. O desafio é saber que as conversas não servem apenas para descrever o mundo, mas para criá-lo. Quando conversamos coisas acontecem, e o fazem na proporção exata da qualidade da conversa.

Tenho dito que fomos ensinados a falar, mas nunca nos preocupamos em aprender a conversar. Usando a fábula: falamos muito, mas obtemos pouco resultado. É comum escutar pessoas dizendo que já falaram inúmeras vezes sobre uma determinada coisa com alguém e nada aconteceu. O resultado disso é o ressentimento ou a resignação. Ficamos com raiva ou desistimos sob a alegação de que nada vai mudar.

Ao considerar a natureza das conversações, pode-se dizer que existe um fluxo natural para que uma conversa seja efetiva. A sequência é assim: toda conversa começa com a declaração de algo que nos está inquietando, seja o que for (de bom ou ruim, não importa). Esse é o objeto que nos mobiliza. No nível seguinte estão as conversas de explicações e juízos, onde agregamos os argumentos e as razões que conseguimos enxergar sobre o fenômeno. No entanto, tal agregação deve ser feita a partir do entendimento de que não sabemos tudo, nem temos a verdade final sobre coisa alguma. Portanto, a conversa de explicações e juízos deve abrir espaço para a aprendizagem. Feito isso, devemos subir mais um nível. Vamos agora para as conversas de possibilidades. Considerando a inquietação proposta, os juízos e as explicações dadas, o que é que se pode fazer? As conversas de possibilidades são conversas para estimular inovação, criatividade e pontos de vistas novos. Feito a lista das possibilidades, outro nível conversacional se apresenta. Conversas sobre ações e resultados; ou seja, vamos conversar sobre o que fazer e que resultados esperamos. Essa coordenação é fundamental para que as conversas não “morram na praia”. Da conversa sobre ações e resultados, deve-se ter como produto, um protocolo de conduta: quem faz o quê, para quem, de que modo, quando e com que resultado.

Concluída esta etapa, existem dois tipos conversacionais “extras” que nos ajudam na agregação de valor ao que fazemos. São as conversas de aprendizagem e as conversas sobre como conversamos. Nas conversas de aprendizagem, a pergunta que se procura responder é: o que podemos aprender sobre o que aconteceu (ou está acontecendo)? A idéia é ser capaz de não cometer os mesmos erros. Erros novos são bem vindos porque estimulam a aprendizagem. Erros antigos revelam que não aprendemos nada com o fenômeno. Nas conversas sobre como conversamos, a idéia é entender o modo como nos relacionamos quando estamos construindo alguma coisa: desqualificação do outro? Minimização do problema? Exercício de poder ou superioridade? Inibição e apatia? Superficialização? Essas e muitas outras questões devem ser discutidas sobre o modo como conversamos para nos estimular na criação de um contexto proativo para as conversas e seus resultados. Se usarmos esse ciclo da tipologia conversacional para orientar nossas conversas-ações, vamos descobrir que o fluxo proposto agrega muito valor a tudo o que fizermos. Aí, bastará um leão à muitas raposas.

Reflitam em paz!

Homero Reis