A fábula é assim: Um jovem pródigo havia consumido todo seu patrimônio. Restava-lhe apenas um manto, quando viu uma andorinha, que chegara antes da estação certa. Julgou, então, que tinha chegado a primavera e que não mais precisaria do manto. Assim pensando, o vendeu. Naquela mesma noite fez um frito descomunal e o jovem andando em busca de abrigo deparou-se com a andorinha morta de frio. Então lhe disse: – miserável, tu te perdeste e fizeste o mesmo comigo. Moral: tudo o que é feito fora do tempo é prejudicial.

Esta fábula deu ensejo a vários ditados populares: “mais vale um pássaro na mão, do que dois voando”, ou ainda, “quem tudo quer, tudo perde”. Na literatura sapiencial há um texto atribuído a Salomão o qual afirma que “tudo tem seu tempo determinado, e há tempo para todo própósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de edificar; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de saltar de alegria; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar; tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de gastar; tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de calar e tempo de falar; tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz” (Ec.3:1-8). Na moral da fábula, Esopo apresenta a falta de cuidado do jovem ao fazer uma avaliação precipitada do tempo a partir de uma única andorinha. Sua imprevidência revela um estilo de vida que justifica o fato de ter consumido todo o seu patrimônio. Este é (talvez) o mais difícil princípio da sabedoria: capacidade de se viver a partir de uma avaliação sensata do momento de vida.

Tive uma cliente de vinte e dois anos. Cheia de vida e de atividades, chegou ao escritório para fazer sessões de coaching. Sua demanda era “ser capaz de fazer as coisas certas”. Até aí, tudo bem. Comecei a conversar com ela para entender tal demanda. O que tive como resposta foi uma agenda lotada das mais diversas coisas: diversos cursos, empregos, estudos, negócios, estágios, leituras, concursos e uma conclusão: “não tenho tempo a perder”. Fiquei assustado e lhe perguntei em que momento da vida ela tinha tempo para ter vinte e dois anos. Em que momento da vida ela iria curtir sua idade, com todas as implicações que cada etapa da vida requer? Viver a vida com o devido equilíbrio é desafiador. Por isso que se conceitua sabedoria como o equilibrio dinâmico entre a idade e as possibilidades. Ser um velho aos dezoito e um garotão aos oitenta são inadequações. Cada momento da vida oferece infinitas possibilidades, ser capaz de escolhê-las adequadamente revela maturidade. Para tanto, somos desafiados a entender que sabedoria é estar adequado consigo mesmo e com o contexto.

O mundo moderno está construindo um tipo de demanda de competência que, a meu ver, é equivocado. Embalados por um discurso fantástico sobre as peculiaridades geracionais, sobre a mudança veloz, sobre a competitividade acirrada, sobre as exigências cada vez maiores, os jovens profissionais apegam-se às caracterizações desses rótulos para abandonar uma visão adequada de seus relacionamentos. Há um ano, mais ou menos, recebi um estagiário em minha empresa. Na entrevista inicial, apresentei a ele o padrão de convivência que tinhamos e as normas de conduta que a empresa adotava. Sua resposta foi direta: “diga-me o que tenho que fazer que do resto cuido eu”. Aí, percebi onde estava o erro. Ele conhecia suficientemente a teoria que adotavamos nos trabalhos, era capaz de citar autores e conceios, mas não era capaz de ter um relacionamento que primasse pela interação, pela aprendizagem, pelo processo natural de crescimento, pela leveza relacional. Do tipo workaholic, existia nele a presunção do conhecimento e da competência. Dono de um currículo escolar cheio das melhores notas, faltava-lhe, no entanto, a humildade de quem precisa mais do que ter informação, é preciso ter conhecimento. Faltava-lhe a capacidade de estar inteiro em cada momento com a devida serenidade com que as coisas devem ser feitas. É preciso saber que uma andorinha só não significa a chegada da primavera. É preciso saber que não se deve vender o último manto. É preciso saber que existem ingovernabilidades que não podem ser previstas, mas que podem ser minimizadas se somos previdentes. É preciso humildade para submeter-se.

Um amigo, recém-formado em medicina e dotado de um grande senso social, resolveu dedicar algum tempo de sua vida a uma ação de saúde comunitária numa tribo indígena, no interior amazônico. Chegou à tribo e, passado o tempo de ambientação, deparou-se com as práticas xamânicas do feiticeiro. Para ele aquilo era uma verdadeira aberração. Desde quando, cantorias, incensos e invocações dos espíritos ancestrais curam doencas? Essa era sua questão primordial. Resolveu enfrentar a “ignorância dos selvagens”. Receitava remédios e prescrevia tratamentos “científicos”. No entanto, descobriu uma enorme resistência entre os indígenas em aceitar suas orientações. Seu conflito foi tamanho que foi buscar ajuda com um antigo professor de antropologia. O mestre lhe disse algo bem interessante: “Filho, faça um acordo com o xamã. Aprenda com ele as práticas ancestrais para curar as doenças, demonstre interesse, submeta-se à sua autoridade; e, em troca, lhe dê suas aspirinas. Creio que essa combinação vai ajudá-lo com a saúde da tribo”. Temos aqui algo mais sábio do que a confrontação direta.

Tenho vivido entre os jovens universitários toda a minha vida. Aqueles que descobrem a naturalidade da vida passam a ser referência. No entanto, é preciso percorrer o tempo do aprendiz; haverá o tempo de ser gestor, antes porém é preciso percorrer o tempo de se deixar gerir; haverá o tempo de ser estratégico, antes porém, é necessário aprender a ser tático; haverá o tempo de mandar, antes porém, é necessário saber obedecer; haverá o tempo da crítica, antes porém, é necessário saber fazer; haverá o tempo do reconhecimento, antes porém, é necessário reconhecer; haverá o tempo de ser mestre, antes porém, é necessário ser discípulo. Não antecipar os tempos, nem apressá-lo, mas desfrutar dele, pode ser a mecânica que nos coloque na senda da maturidade.

O que tenho aprendido é que o valor da sabedoria não está na genialidade da excessão, mas na naturalidade da vida. É isso que tenho buscado: busco a impetuosidade dos jovens que fazem, mas que se deixam orientar; a quebra de paradigmas dos corajosos, mas que sejam capazes de reconhecer que erram; a ousadia dos inovadores, mas a reverência aos que a seu tempo também o foram; a informalidade das relações, mas o respeito aos papéis; a celabração das vitórias, mas também o silêncio das preces; as viradas de noite, mas também respeito ao sono. Esse é o desafio: todo tempo é tempo de aprender; cada momento é tempo de viver e, no devido tempo, haverá a colheita do que se plantou nos tempos certos.

Reflitam em paz!

Homero Reis