A fábula é assim: Um trapaceiro comprometeu-se a provar a todos que o Oráculo de Delfus não era lá essas coisas. No dia estabelecido, dirigindo-se ao templo, pegou um pardal em sua mão e o escondeu sob o manto. Colocou-se diante do oráculo  e perguntou-lhe se o que ele tinha na mão estava vivo ou morto. Pretendia, se o oráculo dissesse “morto”, mostrar o pardal vivo; se dissesse “vivo”, iria estrangular o pardal e mostrá-lo morto. Mas, a sabedoria, ciente da trapaça, responde: Filho, o que tens em tua mão, se vivo ou morto,  só depende de ti. Moral: A sabedoria não é ingênua.

Essa é uma das mais famosas fábulas de Esopo. Gosto particularmente dela porque denuncia o modo sutil como construímos nossas relações com as coisas. Revela a dificuldade de ver o lado efetivo delas. Não se trata de ter uma visão “otimista” de tudo, nem de ser crédulo. Antes, nos desafia a estabelecer uma relação autêntica com tudo e com todos. Nós, brasileiros, temos uma tendência quase que endêmica de nos desqualificarmos o tempo todo. Não somos capazes de ver os progressos que temos tido, e se o vemos, dele falamos muito pouco. Dificuldades existem, mas reconhecer os progressos também faz parte da conversa.

Voltava de Orlando, Fl, onde fui passar alguns dias passeando com meu neto. Vôo direto Orlando – São Paulo, avião lotado. Ao desembarcarmos, cerca de 250 pessoas, formou-se uma pequena fila na imigração brasileira. Imagine 250 pessoas chegando ao mesmo tempo. Os oficiais da imigração trabalhavam rápidamente, a fila fluia e o tempo de espera era bastante razoável. Um casal à minha frente fez logo um comentário: chegamos ao Brasil; olha só a desorganização. Escutei, e como o clima estava propício para uma conversa, perguntei de onde eles estavam vindo: Orlando, parques temáticos. Diante disso fiz a seguinte pergunta: nos parques que visitamos, às vezes ficavamos 45 minutos em espera numa atração que dura cinco minutos, se tanto. Faziamos isso quase o dia todo. Em todos os lugares tinham filas e o serviço não era lá essas coisas. Lá é glamour, aqui é desorganização?

Tenho procurado observar em que medida somos capazes de renconhecer nossos progressos. Parece-me que o tempo todo estamos tentando “desafiar o oráculo de Delfos”. Temos a sensação de que reconhecer qualidades, progressos, falar bem das coisas é coisa de “mané”. Ser autêntico é falar mal, denunciar, não reconhecer. Esquecemos que estamos entre os dez paises mais ricos do mundo; que fazemos parte de um seleto grupo de emergentes; que somos o único pais emergente do continente americano. Estamos num pais que tem tido o maior sucesso no combate às  doenças sexualmente transmissíveis, incluindo a AIDS; e, nesse domínio somos exemplo mundial. O Brasil foi o único país do hemisfério sul a participar do Projeto Genoma. Numa pesquisa envolvendo 50 cidades de diversos países, a cidade do Rio de Janeiro foi considerada a mais solidária. Nas últimas eleições  gerais brasileiras o sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estava informatizado em todas as regiões do Brasil, com resultados em menos de 24 horas depois do início das apurações. O modelo chama a atenção do mundo pela qualidade e confiabilidade. Mesmo sendo um país em desenvolvimento, os internautas brasileiros representam uma fatia de mais de 60% do mercado na América Latina. No Brasil, há mais fábricas de veículos instaladas do que na maioria absoluta dos países vizinhos. Das crianças e adolescentes entre 7 a 14 anos, 98% estão estudando. O mercado de telefones celulares do Brasil é o segundo do mundo, com mais de 700 mil novas habilitações por mês. Na telefonia fixa, o país ocupa a quinta posição em número de linhas instaladas. Das empresas brasileiras de grande porte, mais de 10.000 obtiveram certificado de qualidade e de acreditação fornecidos por organismos internacionais, representando o  maior número entre os países em desenvolvimento, nos últimos dez anos. No México, foram apenas 300 empresas e 265 na Argentina. O Brasil é o segundo maior mercado de jatos e helicópteros executivos do mundo. O mercado editorial brasileiro é maior que o da Itália, com mais de 50 mil títulos novos a cada ano; temos o mais moderno sistema bancário do planeta; nossas agências publicitárias ganham os melhores e maiores prêmios mundiais quase todos os anos; grande parte da população faz trabalhos voluntários e se dedica a causas ambientais; somos hoje a terceira maior democracia do mundo; apesar de todas as mazelas, o judiciário está punindo quem precisa ser punido. Somos hospitaleiros e nos esforçamos para falar a língua dos turistas, e não medimos esforços para atendê-los bem. Já pensou na Copa? Os dados são da Antropos Consulting.

Li em algum lugar, um texto sobre o Brasil que dizia assim: “É! O Brasil é um país abençoado de fato. Bendito este povo, que possui a magia de unir todas as raças, de todos os credos. Bendito este povo, que sabe entender todos os sotaques. Bendita terra que oferece todos os tipos de climas para contentar toda gente. Bendita seja essa terra chamada Brasil”.

É, a sabedoria não é ingênua, o oráculo acertou e o trapaceiro não tem mais vez. Somos aquilo que fizermos com as nossas mãos. Hoje, os tempos são outros e os caminhos são novos;  e ser ativo nesse momento só faz bem porque as possibilidades são melhores do que nunca.

Reflitam em paz!

Homero Reis