Escuto muitas histórias de vida. Histórias, em sua maioria, sofridas em busca de soluções mágicas. Histórias tidas como verdades, adotadas por conveniência ou por insuficiência, conscientes ou não, mas que, de alguma forma, fazem sofrer. Este é um contexto comum nos settings terapêuticos, dos quais o coaching faz parte. No entanto, o que precisamos saber é que nossas histórias nada mais são do que o modo como escolhemos interpretar as coisas que aconteceram conosco. Um dado fato pode ter várias interpretações. O que conto é apenas uma delas; é o que escolhi crer.

Aprendi isso com um exercício que me foi proposto por um antigo orientador. Fui desafiado a escrever minha biografia. Dediquei-me a isso com afinco. Feito o texto, meu orientador me pediu para compartilhá-lo com as três pessoas que mais me conheciam, com o objetivo de validar minhas histórias. Fiz isso escolhendo para tal minha mãe e meu pai, minha irmã, onze anos mais velha, e um amigo desde a infância. Enviei a eles cópias de minha biografia, pedindo que me certificassem dos fatos e relatos ali descritos. Qual não foi minha surpresa quando, nas devolutivas, muita coisa que “eu jurava ser como era”, não estava de acordo com a opinião dos meus companheiros de vida. Isso não foi assim, essa história não foi com você, esse fato não teve essa repercussão, isso não aconteceu nesse contexto, essa data está errada, etc, etc, etc. Fiquei perplexo e chamei meu orientador para uma conversa. É isso mesmo, disse-me ele, o que você escreveu é a história que você escolheu acreditar sobre você mesmo. No entanto, ela tem outras versões igualmente possíveis. A questão que se abriu então foi essa: por que escolhi a história que escolhi? A quem ela atende? Descobri que muito do nosso sofrer refere-se a uma interpretação que fazemos da vida que atende à nossa demanda de acolhimento, reconhecimento e aceitação. Usamos nossa história para gerar nos outros uma visão sobre nós mesmos que nos interessa de alguma forma.

Ao entender isso, comecei a sistematizar os elementos comuns nas histórias que escuto. Descobri, dentre outras coisas, que existem comumente três domínios nas interpretações que fazemos: o domínio do passado – presente – futuro; o domínio do eu e do outro; e o domínio do agora. Além do mais, tais domínios se movimentam em dois sentidos: restritivo, quando a interpretação é limitante; e expansivo, quando a interpretação é potencializadora da ação.

 

No domínio passado-presente-futuro, as interpretações mostram como as coisas que me aconteceram se ligam ao estado em que me encontro. Falo do passado como sendo algo que me impede de atuar agora. Se tivesse feito tal escolha, se tivesse escolhido tal curso, se tivesse me casado com aquela outra pessoa, etc. Construímos as interpretações da vida como se fora possível ver agora o resultado de uma escolha que não fiz. Nesse caso, fica fácil culpar ou responsabilizar alguém pelo que aconteceu conosco. Passamos a crer que as coisas que nos aconteceram foram provocadas exclusivamente por agentes externos. As mães e os pais são, nestes casos, os maiores protagonistas. Construímos uma interpretação na qual estes personagens assumem quase que a totalidade da responsabilidade do que nos aconteceu. Esquecemos, muitas vezes, que eles fizeram o que lhes foi possível, o que sabiam, o que lhes era permitido, dadas as circunstâncias. Ainda mais, não há nada que eu possa fazer agora para mudar isso, a não ser mudar a interpretação. Ter esta consciência possibilita uma retomada da vida e uma reconciliação com o passado, não para justifica-lo, mas para aceita-lo de que está posto. Sei quem foram os personagens com os quais me relacionei, sei o que fizeram, mas agora eles nada mais podem fazer e eu posso ressignificar os fatos; por isso, sigo em frente com minhas escolhas, assumindo total responsabilidade por elas. Liberte-se dessas memórias automáticas. É possível intervir nelas e lhes dar outro sentido que não aquele que me foi conveniente em algum momento da vida.

Quando damos ao passado o poder da resposta automática, no presente, nos tornamos céticos quanto as possibilidades e, com isso, não nos movemos. Deixamos o barco correr seguindo a correnteza, esquecendo de que é possível remar. Mudar a direção do barco certamente exigirá esforço. Mas, é esta a possibilidade que, no agora, a vida sempre nos oferece. O agora nos é dado como espaço de intervenção. Se não for eu, quem? Se não for agora, quando? Este é o desafio.

Quanto ao futuro, criamos uma interpretação projetiva que se limita aos modelos mentais que adotamos. Quando isso ou aquilo acontecer, quando me formar, quando ganhar na loteria, etc, farei isso ou aquilo. Essa é uma declaração limitante. Nada ocorrerá no futuro que não tenha sido agendado agora. Diz um provérbio chinês que “plantar é uma escolha, colher é inexorável”. Você vai colher o que estiver plantando hoje. Portanto, pergunte-se sobre a natureza do que está plantando. Nada acontecerá no futuro sem uma conexão histórica com todos os elos das escolhas que você faz.

No domínio do eu-outro, construo interpretações históricas focadas na percepção que tenho de mim mesmo, ou na forma como vejo os outros na minha vida. Brinca-se no anedotário terapêutico sobre a síndrome da Gabriela, personagem de Jorge Amado. “Eu sou mesmo assim, eu sou sempre assim, …”. Essa é uma forma de ver a vida, que atribui ao que se julga ser, a essência de sua identidade. Você não é ou deixa de ser nada por si mesmo. Você é o que acredita ser ou o que aprendeu a acreditar. Suas escolhas não são certas ou erradas em si mesmas. São apenas o que você é capaz de sustentar. Estar preso à sua visão de si mesmo é construir um limite que só você tem e do qual só você pode se desapegar. Libertar-se disso requer estabelecer relacionamentos com outras pessoas que tenham visões diferentes da vida e que lhe promovam aprendizado para o autoconhecimento. Entenda que as pessoas que pensam e são diferentes de você, não necessariamente lhe querem mal. Entenda, também, que nem tudo o que dizem a seu respeito é verdade. Você não é uma unanimidade. Portanto, não tente agradar a todo mundo, nem aceite tudo. Mas seja sincero consigo mesmo. Liberte-se do egocentrismo, como também da perda da identidade.

Não se prenda ao passado como desculpa, nem ao presente como uma “realidade”, muito menos ao futuro como uma ilusão. Construa a vida com todos os desafios que a vida oferece. Isso se chama domínio do agora. Quando me liberto das influências interpretadoras do trinômio passado-presente-futuro; quando me desvencilho dos domínios do eu-outro; quando reconheço os movimentos restritivos que minhas narrativas trazem, passo a ter uma nova visão das possibilidades que a vida oferece. Entender isso não é achar um atalho para o sucesso. É descobrir o agora, é descobrir uma estrada mais acidentada, mas que é a sua estrada, aquela que você está construindo para lhe levar ao sentido mais amplo de integridade e dignidade, é ter acesso ao espaço que é seu porque você é único.

Reflitam em paz!
Homero Reis