“Não te alongues a contar as tuas façanhas, nem os perigos que terás passado; não podes querer que os outros tenham tanto prazer em escutar-te como tu em contá-los. Nunca te julgues capaz, nem fales em máximas na presença de ignorantes, mas age de acordo com essas máximas. Assim, num banquete, não ensines como é preciso comer, mas coma de maneira conveniente. São as dificuldades que mostram os homens. Todo o grande poder é perigoso para um principiante. Eu sou uma parte de tudo, tal como a hora é uma parte do dia. Os homens não são movidos ou perturbados pelas coisas, mas pelas opiniões que eles têm delas. Elimina de ti desejos e receios e nada terás que te tiranize. Qual é a primeira coisa que deve fazer quem começa a aprender? Rejeitar a presunção de saber. De fato, não é possível começar a aprender aquilo que se presume saber. Queiras ser livre. Para essa liberdade, só há um caminho: desligar-se das coisas que não dependem de ti. A tua tarefa é a de representares corretamente a personagem que te foi confiada. Quanto a escolhê-la, não depende de ti”.

Todas as frases acima foram ditas por Epicteto, um filósofo grego que viveu a maior parte de sua vida como escravo em Roma. De todos os seus ensinamentos, conserva-se o Manual, livro moral sobre preceitos de sabedoria, e alguns discursos editados por Flávio Arriano (92 – 175 d.C), pensador da Roma Antiga, cuja importância se dá por ser o historiador de Alexandre, o Grande.

Epicteto nasceu em 55 d.C. em Heliópolis, na Frígia (atualmente, Turquia). Chegou a Roma como escravo e permaneceu nessa condição durante muitos anos, até ser libertado numa situação insólita. Certa vez, foi levado a leilão. Como era um homem de beleza incomum, chamou a atenção de muitos por seu porte e altivez. O pregão foi aberto e os lances começaram. Um rico mercador vendo-o tão belo julgou ser um excelente presente para sua esposa e arrematou-o. Chegando em casa o deu à sua mulher, que ficou visivelmente impressionada com o presente. Epicteto então chama o mercador à parte, desnuda-se completamente e lhe diz: olhe para mim. Será prudente ter em tua casa alguém como eu, servindo tua esposa? O mercador contempla a situação e liberta Epicteto. Quando lhe perguntaram o que teria convencido seu senhor a libertá-lo, afirmou: não é sábio ser senhor de alguém que entende o desejo das pessoas livres.

Por volta do ano 93 d.C., Epicteto foi exilado pelo imperador Domiciano junto com outros filósofos residentes em Roma. Dirigiu-se então a Nicópolis, no noroeste da Grécia, onde abriu sua própria escola e acolhia cidadãos do mundo que o procuravam para estudar com ele, apesar do exílio. Epicteto faleceu em sua escola, em 135 d.C.
Ao lado de Sêneca e de Marco Aurélio, imperador romano, foi conhecido como um “estóico”, corrente filosófica que defendia a tese de que a virtude é o único bem da vida. “Viver de acordo com a virtude significa viver conforme a natureza que se identifica com a razão”, dizia ele. Na opinião dos estóicos, sendo a virtude o único bem, o vício de qualquer coisa é o único mal. Para eles, viver significa desenvolver o senso da responsabilidade.

Virtudes são todos os hábitos constantes que levam o homem para o bem, quer como indivíduo, quer como espécie, quer pessoalmente, quer coletivamente. A virtude, no mais alto grau, é o conjunto de todas as qualidades essenciais que constituem o homem de bem. Segundo Aristóteles, é uma disposição adquirida de fazer o bem, e aperfeiçoa-la pelo hábito. Muitas são as listas dos filósofos sobre os atributos da virtude. A mais comum entende-a como prudência, que “dispõe a razão para discernir em todas as circunstâncias o verdadeiro bem e a escolher os justos meios para o atingir”; justiça que é a “constante e firme vontade de dar aos outros o que lhes é devido”; fortaleza, que “assegura a firmeza nas dificuldades e a constância na procura do bem”; e temperança, que “modera a atração dos prazeres, assegura o domínio da vontade sobre os instintos e proporciona o equilíbrio no uso dos bens criados”.

Epicteto simplifica ao máximo seu pensamento, transformando-o em filosofia do cotidiano universal, exposto sob a forma de exortações morais, impregnadas de espiritualidade. Por isso, dedicava-se à educação moral das pessoas no sentido de fazê-las “irmãs”. Era conhecido pela irreverência e aversão aos valores efêmeros da sociedade romana, sendo essa a razão pela qual o tornaram escravo.

A vida de Epicteto nos faz refletir sobre nossa condição relacional, em qualquer domínio em que nos encontremos. Desafia-nos a confrontar as coisas que nos dominam e a ter sobre elas uma atitude libertadora. Vale a pena estar subjugado a alguma coisa? Seja ela qual for? Vale a pena ter um apetite descontrolado, um humor instável, uma língua voraz, uma amizade perniciosa, uma conduta duvidosa, uma moralidade conveniente? Certamente, muitas coisas que nos ocorrerão no futuro estão presentes nos “escravos que mantemos em casa”, hoje. Muitas vezes, tal qual o rico mercador que o arrematou, mantemos em nossa casa, nossa vida, nossos relacionamentos, nossas emoções, coisas que provocarão desastres iminentes. Arriano conta que, certa vez, perguntaram a Epicteto como ele se sentia sendo escravo. Sua reposta foi singela: “meus senhores me têm porque me compraram. Eu sempre fui livre. Será mesmo que sou eu o escravo?”

Reflitam em paz!
Homero Reis