Dedicado a Zygmunt Bauman

RIP (19/11/1925 – 09/01/2017)

“Tudo o que era sólido se desmancha no ar”, famosa frase de Karl Marx, cunhada no  Manifesto do Partido Comunista em 1848, foi o mote para Zygmunt Bauman escrever sua obra sobre os mundos líquidos. Para Bauman, nos tempos atuais, as relações entre os indivíduos tendem a ser menos frequentes e menos duradouras, “as relações escorrem pelo vão dos dedos”. A partir desse conceito, a insegurança torna-se parte estrutural da constituição do sujeito pós-moderno; as relações amorosas deixam de ter aspecto de união e passam a reger-se pelo mero acúmulo de experiências; a busca pela “reencarnação” fica mais forte que a crença na “ressurreição”; tudo o que era sagrado é profanado e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua descartabilidade, numa realidade feita com data de vencimento. Tudo é feito para não durar, exigindo sua rápida substituição num processo cada vez mais veloz de obsolescência.

Por outro lado, o Dicionário de Oxford deu-nos uma valiosa contribuição para se entender o mundo em que vivemos ao escolher como palavra do ano uma expressão pouco conhecida: a era pós-verdade (Ralph Keyes, The Post Truth Era: Dishonesty and Deception in Contemporary Life; St. Martin’s Press, 2004). Pela definição do dicionário, pós-verdade quer dizer “algo que denota as circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência para definir a opinião pública do que o apelo à emoção ou crenças pessoais”. Em outros termos: a verdade perdeu o valor. Não nos guiamos mais pelos fatos, mas pelo que escolhemos ou queremos acreditar que seja verdade. No mundo da pós-verdade não há mais o reconhecimento da autoridade, há o “é assim que eu penso”, não importando quem seja seu interlocutor. “Não concordo com Freud” é uma declaração perfeitamente admissível que um jovem de dezoito anos pode fazer, mesmo nunca tendo lido nada do psicanalista checo.  As conversas giram em torno de um individualismo exacerbado cujo centro é a autopercepção das coisas sem nenhum critério, a não ser o “é minha opinião”.

Esse individualismo pós-verdade tem gerado algumas consequências. Dissolveu todas as fronteiras de gênero, de idade, de tratamento, de valores. Nos fez perder as referências das coisas. “Sou o que sou e nada há fora de mim que mude isso”. A era da pós-verdade não nos coloca no fim do mundo, mas sim, no fim de um tipo de mundo no qual a percepção pessoal tem peso de lei. Para tal sociedade, tudo o que é significativo tem menos de vinte anos. O que nos leva a repensar a frase de Sartre “o inferno são os outros”. No mundo da pós-verdade o inferno é um local sem conexão com a internet. Isso não é uma crítica à tecnologia, nem mesmo ao mundo midiático em que vivemos. Antes, uma constatação de que na vida midiática tudo o que se publica é assumido como “verdade” por quem publicou, por mais esdrúxula que seja tal publicação. Essa perspectiva da “verdade individual” dificulta o encontro e fomenta a solidão. Estamos entrando no mundo dos recados e perdendo o mundo das conversas. Tudo deve ser rápido, objetivo e com uma diretividade concreta como se as coisas devessem ser sempre claras o tempo todo. O mistério da existência é substituído por declarações simplistas que julgam explicar em segundos o que não foi possível em milênios. Ou, pior, é esclarecido por fórmulas esotéricas de toda a natureza.

Na era pós-verdade, uma oração subordinada é incompreensível, um texto reflexivo que não seja de autoajuda é imperscrutável, o ponto e vírgula não tem sentido, e por aí vai. O padrão do entendimento social é a “self”. Tudo é fotografado, filmado, gravado, postado, publicado, comentado, mas pouco vivido. A imagem passa a ser mais importante que o conteúdo. Isso coloca a informação antes da formação.

No mundo pós-verdade a quantidade de informação é absurdamente grande, enquanto a formação e a reflexão são reduzidas ao mínimo. Santo Agostinho (354-430 dC), bispo de Hipona, não leu mais que cinquenta livros durante toda a sua vida. No entanto foi capaz de reflexões que mudaram o mundo. Ele é apenas um dos muitos exemplos. Em função do modelo da linha de montagem, optamos por informar em massa e não promover nenhuma formação consistente. Hoje, qualquer pessoa pode ter acesso a todo tipo de informação, embora não tenha nenhum critério para tratar essa informação de modo substantivo. Isso capilariza o conhecimento, mas não aumenta nem melhora a compreensão do mundo. A experiência perdeu sua áurea reflexiva para ser uma mera vivência, sem a internalização dos valores fundamentais que sustentam a sociedade humana. Passamos a crer que é a quantidade de informação transmitida que gera o desenvolvimento humano.

Nesse modelo pós-verdade, tudo é customizado. A fé, a educação, os valores, a vida, os relacionamentos. Tudo serve a um propósito. Se o propósito cessa, tudo o mais se extingue. Agostinho dizia que “quem escolhe o que quer crer, crê somente em si”. O Deus da pós-verdade é, de todas as manifestações religiosas, o mais pessoal e exclusivo. Estamos construindo o “deus sob medida”, o “cara legal”, que está sempre ao meu lado, mas que não exige nada. O Deus que determinava condutas, a cruz (no sentido de missão) está em baixa. O senso de responsabilidade com a fé perdeu totalmente o sentido. Recentemente, num estacionamento de um shopping, vi um carro com a frase “presente de Deus” impressa no vidro traseiro e, logo abaixo, outra frase: “vende-se”. No mundo pós-verdade, bandidos oram o “pai nosso” antes de realizarem um assalto. O sagrado, como capacidade de reconhecer o outro como legítimo, embora diferente, deixou de ser um valor. O mistério não inspira mais a devoção, senão a crença fácil e conveniente das fórmulas mágicas e dos “manuais”: dez passos para ser feliz; como ganhar dinheiro em cinco dias; emagreça sem fazer força; dicas para ser contratado em tempos de crise; como sair da depressão e, por aí vai.

No mundo pós-verdade o trabalho é a nova religião com pilares no esoterismo, na autoajuda e na imagem do sucesso. Tem-se a obrigação de ser feliz, de ter uma agenda assoberbada, de correr o tempo todo. Pausas e contemplações não fazem sentido. Muito menos o “descansarás”. Para toda dor se tem um remédio fácil, rápido e indolor que se compra no shopping mais próximo. A superficialidade de caráter, a impaciência, a intolerância e o consumismo são os novos sacramentos onde o interesse pessoal é o ponto de partida de qualquer coisa. Conceitos como “bem comum”, “sociedade”, “país” estão em baixa. Isso tudo vem embrulhado numa sociedade aeróbica. Corra, abrace, coma, ame, mas faça rápido. Visitava uma livraria quando dei-me em frente a uma estante cujo nome era “filosofia rápida” e os títulos bem interessantes: Kirkegaard em noventa minutos; Kant em  noventa minutos; Aristóteles em noventa minutos. A pessoa compra um livro desses e, em noventa minutos, “torna-se” doutor no assunto, com competências para emitir opiniões e juízos seus, com ares de verdade.  Na pós-verdade, a sociedade do consumo tende a criar a sociedade da insatisfação.

Quanto à educação, temos preparado as crianças e, por consequência os adultos, para o mundo do fazer (trabalho) e não para o mundo do ser. Elas saem das escolas habilitadas a uma profissão, mas sem os valores humanísticos que devem sustentar uma sociedade: verdade, respeito, coragem, integridade etc.. A perda da referência ética decorre dessa instrumentalidade ego-centrada que nos permite fazer coisas, mas não entender nada sobre as pessoas. De alguma forma, em algum momento, vamos ter que pedir desculpas por vivermos tão velozmente. Essa pós-verdade na educação produz uma arrogância nunca dantes vista, cuja objetivação mais clara é a perda do respeito relacional, onde assinar um documento para garantir o pagamento da conta é mais importante do que acolher alguém que necessita de um atendimento de emergência. De alguma forma, perdemos o juízo de que a vida faça algum sentido.

No mundo pós-verdade, tudo aquilo que imaginávamos fora de nossas fronteiras, hoje bate à nossa porta de modo inquietante: a crise dos refugiados, o colapso das democracias, a angústia do meio ambiente, o estado islâmico e o terrorismo são apenas alguns exemplos. Ainda na educação pós-verdade, surge a inquietante questão: como educar quem está “programado” a crer que já sabe tudo? Principalmente quando devemos entender que os valores da coerência e da consistência devem vir antes da subsistência. Creio que a educação não é uma panaceia para todos os males, mas é fundamental para todo valor.

Pois bem, para qual futuro aponta esse cenário da pós-verdade? A julgar pelo que estamos vivendo, a perspectiva é sombria quanto à qualidade relacional. Se não nos atentarmos para as “pequenas ações elegantes” que devem nortear nossa forma de nos conduzir no mundo, as estruturas atuais de nossos relacionamentos sofrerão perdas irreparáveis. Família, escola, estado, religião, trabalho, perderão o sentido de construção social para engendrar uma desenfreada desigualdade que nos levará à insustentabilidade do sistema humano. O individualismo, sobrepondo-se a tudo, desenvolverá mecanismos de destruição do senso coletivo, que acabará por nos colocar em colapso.

Mas, por outro lado, também podemos entender que estamos numa confluência histórica a nos indicar novas possibilidades de rumo para a humanidade. Novo rumo que deve sustentar-se por alguns princípios. Primeiro, o entendimento de que é necessário refletir e atuar a partir do senso de emancipação de cada pessoa, criando condições para que, em todos os domínios, tornem-se adultos autônomos. É na perspectiva do adultecimento que se produz pessoas que refletem. Aqui, a educação tem um papel central, não como disseminadora de informações, mas como agente produtora de reflexão. Segundo, instrumentalizar o protagonismo da história por adultos autônomos empreendedores. O papel do estado então passa a ser o de criar condições para facilitar o processo de geração de riqueza comunitária, pela sociedade empreendedora, através do trabalho. Isso nos faz atuar na perspectiva da comunidade, bem antes de atender aos interesses individuais. Terceiro, compreender que o desenvolvimento tanto de pessoas, como de organizações, passa por estágios. Cada estágio consequente é mais complexo que o antecedente, e nenhum estágio pode ser saltado. Compreender isso nos faz estudar o caminho percorrido por pessoas e organizações bem sucedidas para se construir o caminho próprio. Quarto, atuar com a visão de que tudo é possível, mas nem tudo convém. A questão não é da possibilidade em si, mas da moralidade. A resistência aos tempos da pós-verdade requer a restauração de princípios éticos tendo por foco a forma de ser, vista pelo prisma do valor social. Quinto, ter na perspectiva comunitária a garantia de que cada instituição social compartilhe responsabilidades e inter-relacione-se para transformar-se no encontro com o outro. Todas as instituições sociais podem ser orientadas a se constituir como uma comunidade de aprendizagem. Essa conexão possibilita o exercício das relações sociais democráticas pelo respeito às diferenças. Ao ligar instituições, pessoas e a comunidade, nas muitas e complexas possibilidades do seu modo de existir, a aprendizagem comunitária torna-se instrumento de democracia, possibilitando a todos participarem das decisões que afetam o lugar onde vivem tornando-se parceiros de seu desenvolvimento sustentável.

Nesse novo rumo que a história parece nos indicar, tem-se a ampliação das liberdades das pessoas, com relação às suas capacidades e as oportunidades a seu dispor. Tem-se, também, o aumento da tolerância com o diferente e o banimento natural de toda forma de preconceito. No entanto, tal ampliação das liberdades passa pelo filtro da responsabilidade social, de modo com que cada um possa escolher a vida que deseja ter, sem que isso interfira no mesmo direito de escolha que os demais, igualmente, tem. Ora, essa interação só se resolverá, quando, pelo adultecimento, cada um for capaz de entender e aceitar que o melhor é aquilo que cabe a todos e não o que privilegia alguns.

Reflitam em paz!

Homero Reis