A fábula é assim: Era uma vez um corvo. Ousado e destemido em sua vida, descobriu que era mais fácil vivê-la comendo a carne encontrada nos sacrifícios aos deuses do que caçar seu alimento nos campos e florestas. Um dia, entretanto, caiu doente e pediu à sua mãe que rogasse aos deuses a graça de sua cura. Sua mãe então argumentou: – filho, certamente rogarei, mas a qual deles deverei fazê-lo? Qual terá piedade de ti?

Posto que tu, pelo menos uma vez, não lhes roubastes a oferenda? Moral: aquilo que se planta, se colhe.

Essa fábula é muito rica porque nos faz refletir sobre um princípio básico da sabedoria: a maneira como vivemos a vida é semelhante à maneira como seremos tratados. Uns chamam de sina, outros de karma, ainda outros de destino. Independente do nome que se dá ao fato, o fenômeno é o mesmo. Durante a nossa história de vida, vamos tomando decisões, fazendo escolhas e construindo estilos de comportamento que estruturam nossa identidade, nossa rede relacional e que definem os conteúdos destas redes. Portanto, cada vez fica mais claro para todos, mas nem sempre para nós mesmos, o modo como somos e como atuamos. Daí surgirem os estigmas que, independente de estarem certos ou errados, têm uma funcionalidade bastante significativa nos resultados que conseguimos obter.

Para esclarecer isso, vale uma reflexão pessoal. Durante a minha adolescência tive um grande amigo, Pedro. Éramos inseparáveis. Vivemos aqueles anos com enorme intensidade e aprendizagem. Depois, por razões da própria vida, nos separamos. Só fui reencontrá-lo vinte anos mais tarde. O interessante é que quando nos encontramos, havia uma tendência natural de nos comportarmos como o fazíamos nos tempos da adolescência. As lembranças, as brincadeiras, os temas conversados, pareciam ter ressurgido do nada e os tempos que estivemos separados acrescentaram muito pouco. Talvez seja por isso que, em certas circunstâncias, nos tornamos tão saudosistas. Tanto eu como Pedro, usamos nossas “lembranças históricas” para sustentar nossos comportamentos e conversações. Ora, se não tivéssemos nos separado, as condutas históricas teriam impregnado o estilo relacional e de identidade que desenvolvemos. Do ponto de vista prático, esse princípio é sustentado pela ideia de que você não pode ser diferente daquilo que construiu, sob pena de ter que fazer um enorme esforço para gerar novas condutas. Assim se diz que “o hábito faz o monge”.

Qual é então a aplicação que a fábula nos apresenta para esse princípio? É simples: se você se dedica a algo hoje, muito provavelmente sua dedicação irá moldá-lo ao ponto de fazer com que o objeto de sua dedicação se torne parte da sua identidade. Exemplos: se me dedico a ter uma conduta acadêmica exemplar, muito provavelmente terei uma conduta profissional exemplar; se me dedico a alimentar-me corretamente, muito provavelmente não terei problemas com o colesterol, salvo por questões genéticas; se me predisponho a ser cuidadoso em meus relacionamentos, provavelmente terei relações cuidadosas no futuro; se aprendi a conduzir-me com lisura e ética, provavelmente serei capaz de identificar e rejeitar situações enganosas. O que temos que enfrentar é o fato de que as coisas não nos acontecem por acaso. Temos responsabilidades para com elas, como seus co-criadores. Se não nos apercebemos disso criamos uma relação “esquizofrenizante” com o contexto de nossa vida. Começamos a crer que os outros são responsáveis por tudo que nos acontece, transferimos nossa responsabilidade para as circunstâncias, entramos numa emocionalidade de vitimização tipo “sou uma pessoa sem sorte”, construímos uma relação resignada com a vida do tipo “não mereço”, ou, ainda, me torno ressentido como tendo algum direito que me tem sido negado.

Recentemente participei como observador num processo de seleção de jovens trainees para uma companhia multinacional. O processo era corriqueiro a não ser por uma novidade que está se tornando uma tendência. A companhia incluiu nos requisitos de avaliação a análise do histórico escolar dos candidatos, bem como solicitou a eles exemplos de trabalhos acadêmicos feitos e pareceres de professores sobre a qualidade de sua vida universitária. Quando perguntei ao Gestor de RH sobre essa prática, a resposta foi contundente: cremos que as pessoas têm a tendência em manter seus estilos. Não devemos esperar que alguém que foi medíocre a vida toda, de uma hora para outra se torne um exemplo a ser seguido.

Portanto, cuide de suas escolhas agora e do modo como você está construindo seu perfil pessoal, social e profissional, porque muito provavelmente será isso que você vai colher mais à frente. O modo como você se dedica à sua família vai determinar que tipo de “adolescência” seu filho vai ter e em que bases seu relacionamento vai se manter. O modo como você aprender a encarar a autoridade, muito provavelmente determinará o modo como você será como gestor. Mas, isso pode ser mudado? Certamente. A questão aqui não é a impossibilidade, mas a relação custo-benefício que, com o tempo vai tornar-se cada vez mais desfavorável. Quanto mais tempo eu vivo em determinado padrão, mais difícil se torna alterá-lo. Tenho aprendido isso de um modo bem claro. Estava obeso e tive que fazer uma reeducação alimentar, deixar de ser sedentário, modificar meu estilo de vida, etc. Confesso que os resultados muito me agradaram, mas o esforço foi hercúleo. Ao final do processo, voltei ao médico na esperança de ser elogiado por ele, o que de fato aconteceu. No entanto, ao final da consulta disse-me ele: cuide-se, você continua obeso, apenas está magro. Esse cuidado você terá que ter a vida toda. Isso endossa a moral apresentada pela fábula: aquilo que se planta, se colhe.

Reflitam em paz!

Homero Reis