Dia desses dava uma aula sobre Freud e os processos de aprendizagem. A ideia central era apresentar como o psicanalista vienense desenvolveu sua doutrina e como tal doutrina impacta a construção de uma teoria sobre como as pessoas aprendem. Qual não foi minha surpresa quando, em meio à apresentação do conteúdo proposto, um aluno interrompe minha fala dizendo que não concordava com o pensamento freudiano. Esse tipo de intervenção me deixa particularmente muito feliz. Ter um aluno que é capaz de um posicionamento como este é algo raro hoje em dia. Comecei um debate com o dito aluno, na esperança de construir um clima acadêmico que estimulasse ainda mais a aprendizagem daquele grupo. No entanto, após os primeiros argumentos, percebi uma total inconsistência na conversa. Perguntei, então, o que de fato ele conhecia de Freud. A resposta deixou-me atônito: “professor, eu nunca li nada do Freud, mas não concordo com ele (…)”. Esse fato deixou-me reflexivo. Na verdade, parece-me que esta tem sido a tônica dos processos de aprendizagem de nossa sociedade acadêmica. Lê-se pouco, estuda-se pouco, mas emite-se opiniões categóricas sobre coisas das quais não se tem a menor ideia.

Comecei a observar as conversas das pessoas, sob esse prisma. Escutei gente desqualificando Charles Darwin sem nunca ter lido nada sobre a teoria da evolução; gente contestando a arqueologia, sem jamais ter estudado nada sobre a fundamentação desse domínio da ciência; gente discutindo a natureza das patologias sem sequer entender os processos rudimentares da biologia. Gente que faz afirmações contundentes sobre coisas das quais não tem o menor conhecimento. Gente que afirma um simplismo absurdo sobre os problemas mais complexos. Mas isso não fica apenas no domínio da ciência. Escuto gente falar sobre “coisas espirituais” e sobre a natureza de Deus como se fosse o próprio; ou, pior ainda, gente que fala de Deus como se Ele fosse sua criação pessoal. Minha perplexidade aumentou. Para resolver minha inquietude, comecei a observar e a sistematizar essas conversações e percebi alguns equívocos que usualmente cometemos acerca dos processos de aprendizagem.

Aprender diz respeito a uma hierarquia de processos que começa com o entendimento metodológico do fenômeno, para depois agregar valor a ele. Ou seja, primeiro a gente deve entender como a “coisa funciona”, depois a gente pode dizer se concorda ou não com ela. Concordar ou discordar sem antes conhecer é um exercício de leviandade. Aproveitei esse conceito para debatê-lo com meus alunos. O que estabelecemos foi assim: primeiro a gente entende como é a mecânica do fenômeno estudado, depois cada um constrói as razões para aderir ou não, a partir dos referenciais que possui. Meu papel como professor é ajudá-los na primeira fase – entender a mecânica dos fenômenos; depois, cada um tem a liberdade de aquiescer ou não.

Outro aspecto comum é a falácia de aprender sem conhecer. Na verdade isso é o mesmo que acumular informação sem ter para ela uma aplicação substantiva. Tenho um amigo que chama isso de “conhecimento de estante”. Está tudo ali, mas para nada serve se não for praticado, vivenciado e “experienciado” no trato da vida comum. O desafio que temos pela frente é sermos capazes de usar o que sabemos para nos tornarmos pessoas melhores, que convivem melhor e que constroem uma sociedade melhor. Como dizia Oscar Niemayer, “não basta construir cidades, é preciso melhorar as pessoas”. Não basta ser uma enciclopédia ambulante, é necessário fazer da informação algo que torne a vida melhor e nos melhore na vida.

Ainda há um outro equivoco: atitude crítica sem a sustentação do “saber fazer”. Vejo isso em muitos domínios. Pessoas sem a menor competência técnica operativa sobre determinado tema, mas que são críticos ferozes daqueles que fazem. Creio que o que nos dá autoridade para criticar algo é a capacidade que temos de executá-lo, de alguma forma. No caso das artes, especificamente, percebo que quando alguém diz que não gosta de alguma coisa, na verdade ela não conhece aquela “coisa”, nem sabe o que fazer com ela.

Em síntese é assim: saber como é antes de construir juízos de aceitação ou não; transformar informações em atitudes pela experiência real; e, por fim, saber fazer para ter autoridade para criticar. Esse desafio coloca-nos numa relação de interdependência uns dos outros. Cada um conhece um aspecto da “realidade” e pode contribuir com o “seu jeito de ser”, mas ninguém domina a “realidade” toda de modo a ter a última palavra sobre o que quer que seja. Temos apenas opiniões que podem ser sustentadas pela experiência e corroborada pelo conhecimento, mas que sempre revela o “nosso lado”.

Essa limitação, natural em nossa natureza, coloca-nos em xeque, todas as vezes que nos deparamos com a ignorância. Ter o “pressuposto saber” edifica uma muralha que nos impede de aprender e nos leva a fazer afirmações absurdas e simplistas sobre a vida e as coisas, levando-nos a cometer o erro clássico de que “quem não sabe fazer, faz o que sabe”. Ou seja, o “pressuposto saber” faz com que resolvamos todos os nossos desafios utilizando das ferramentas que possuímos, quando o desafio é aprender novas ferramentas. Quando estamos caminhando, pode ser que surja diante de nós um rio caudaloso. Podemos decidir atravessá-lo ou não. No entanto, se não o fizermos, corremos o risco de ficarmos para sempre à margem de nós mesmos. Não desistir diante de uma dificuldade é apenas metade da competência requerida. A outra metade é desenvolver novas competências sempre para atravessar os rios que aparecem no caminho. Daí a necessidade de estarmos juntos em grupos, equipes, comunidades, porque nos tornamos fortes quando aprendemos, de fato, a nos ajudar mutuamente.

Você não é obrigado a aceitar tudo, nem concordar com tudo. A diversidade é fundamental na construção da realidade. O que não se pode fazer é desqualificar o que não se conhece, ensimesmar-se na pressuposição de ter a última palavra, mediocrizar o conhecimento em nome da informação.

Reflitam em paz!
Homero Reis