Fui convidado para ser paraninfo de uma turma de graduandos em administração. Senti-me honrado com o convite, mesmo porque, naquele dia, fazia trinta e oito anos que era eu quem colava grau, também em administração, naquela mesma escola, onde desde então sou professor. Não resta dúvida de que estava emocionado. Enquanto esperava o mestre de cerimônia me chamar para tomar assento na mesa que presidia os trabalhos, dei-me conta de que, ao longo dos anos de magistério como docente universitário, todos naquela mesa haviam sido meus alunos. Todos nós ali fazíamos parte da geração que cuidou do país nos últimos anos.

Fora paraninfo em minha colação de grau o então senador Ulisses Guimarães que, na ocasião, proferira um discurso entusiasmado falando das promessas que éramos para o Brasil, país emergente com destino de líder mundial. Suas palavras envolvidas por um ufanismo sincero jamais foram esquecidas. Ele falara do quanto éramos privilegiados por sermos jovens em um país eivado de futuro e nos apresentava seus ideais que nos levariam do Brasil que tínhamos ao Brasil que queríamos. Estávamos em meados de 1976.

Pois bem, para desempenhar bem meu papel de paraninfo, preparei uma pequena fala mostrando a importância da profissão abraçada por aqueles formandos. Pretendia falar da relevância da gestão na condução da “coisa pública”, bem como dos negócios privados etc etc etc. No entanto, quando dei-me conta da situação, resolvi abandonar o que havia preparado e falar a partir de minha emoção. Foi mais ou menos assim:

“Queridos alunos, sinto-me honrado. Foi com muita alegria que acolhi o convite de vocês para lhes ser paraninfo neste momento tão significativo de suas vidas. Minha alegria se dá porque, há trinta e oito anos, era eu quem estava sentado onde vocês estão agora e, aqui à frente, compondo a mesa, várias autoridades acadêmicas e da vida pública brasileira, testemunhavam o evento. Sei da alegria e emoção de vocês e quero dizer que dela compartilho porque a vivi na mesma circunstância que hoje vocês o fazem. Ao dar-me conta disso, percebo que devo fazer-lhes uma confissão e um desafio. Creio serem pertinentes ambas as coisas, dado o momento brasileiro de Copa do Mundo e eleições.

Confesso que não fui o cidadão que, naquela ocasião, prometi ser. Quando de minha formatura, embora nosso paraninfo fizesse um discurso cheio de esperança no Brasil, a realidade que vivíamos no país era de desesperança, corrupção e desmandos políticos, afora as enormes dificuldade sociais, econômicas e financeiras pelas quais passávamos. Na verdade, quero crer que ele sabia disso e por essa razão depositava em nós, formandos, a esperança da transformação do país naquilo que seu discurso desenhava. Ao ouvi-lo, meu coração foi aquecido por um enorme desejo de contribuir genuinamente para o desenvolvimento do Brasil. Senti que poderia fazer diferença no país e ajudar na construção de algo de que nos orgulhássemos. Prometi colocar minhas competências, habilidades e atitudes na edificação de um Brasil mais justo, que se tornasse padrão de justiça e ética; mais humano, que valorizasse as pessoas e as tivesse como prioridade de suas políticas públicas; um país em que nós fôssemos capazes de promover em nossas condutas profissionais, o bem comum nos domínios essenciais da vida coletiva. Saúde, educação, segurança, transporte, moradia, alimentação, emprego e renda seriam garantidos porque buscaríamos o melhor para todos. Nosso foco estaria em erradicar a miséria, a ignorância, a corrupção, a violência e a falta de liberdade. Seríamos impecáveis na conduta da coisa pública e na busca do bem comum. Nossas escolhas estariam voltadas para a sociedade e os interesses pessoais estariam em último plano. As lamentações, tão comuns até então, seriam substituídas por um compromisso radical em sermos agentes de mudança e, em nossas conversas, teríamos muito a nos orgulhar de nossa pátria. Iríamos parar de criticar os outros, pessoas, governos e instituições, e assumir pessoalmente a responsabilidade de transformar o país. “Se não eu, quem? Se não agora, quando?”, esse seria o nosso lema.

Pois bem, trinta e oito anos se passaram. Estou aqui e agora, diante de vocês e diante dessa mesa de autoridades, de quem tive a honra de ser professor de todos. Todos nós tivemos a chance de cumprir o que prometemos. Tivemos a oportunidade de transformar o Brasil que tínhamos no Brasil que queríamos. Os tempos passaram e hoje, o que vemos, é um país mergulhado em tudo aquilo que repudiávamos à época. Parece que nada do que é essencial foi alterado. Quero confessar-lhes que não fui suficientemente comprometido. Não fui suficientemente dedicado; não fui suficientemente cidadão; não fui suficientemente responsável. Hoje, pego-me gastando tempo em conversas críticas sobre coisas que seriam de minha responsabilidade mudar. Tornei-me exímio em ver todas as mazelas do país e julgar que não são de minha responsabilidade eliminá-las. Tercerizo e esquivo-me da responsabilidade pelas coisas que aconteceram nesse período. Falo do país na terceira pessoa, como se eu não fosse responsável. Por isso quero confessar-lhes que busquei meu próprio interesse, acima dos interesses de nosso povo. Quero confessar-lhes que não coloquei minhas habilidades e competências a serviço da nação. Quero confessar-lhes que não me empenhei em valorizar o Brasil. Quero confessar-lhes que me envergonho do que fizemos ou, por omissão, deixamos de fazer com o nosso país. Quero confessar-lhes que me tornei aquilo que mais repudiava na geração que me antecedeu; quero confessar-lhes minha incompetência em não ter feito mais, me doado mais, me responsabilizado mais, lutado mais, manifestado mais.

Agora, o futuro está nas mãos de vocês. O Brasil que teremos daqui a trinta anos nasce hoje. Vocês são a geração que irá administrar o país de agora em diante. Diante de vocês estão todas as possibilidades de fazer o que é preciso ser feito para que sejamos uma nação justa e digna para seus cidadãos. Minha geração não foi capaz de instalar a justiça social. Falhamos nos compromissos com nosso povo. No entanto, nessa noite a esperança se renova. Faço-lhes o desafio de serem melhores do que nós. Faço-lhes o desafio de construírem o Brasil. Faço-lhes o desafio de se colocarem como a geração da mudança. Faço-lhes o desafio de deixarem um legado diferente daquele que lhes deixamos. Espero que, daqui a trinta anos, alguém de vocês que hoje cola grau esteja aqui onde estou, falando aos então formandos; e, em seu discurso, possa dizer, com orgulho, do país em que nos tornamos. Ao ter-lhes confessado como me comportei ao longo desses anos e como me sinto agora diante de vocês, e ao tê-los desafiado com os desafios que fiz, coloco-me a mim e à minha geração à disposição de vocês para fazer o que preciso for para tornar o Brasil o país do presente. Presente para todos, orgulho de seu povo, gigante pela própria natureza, belo, forte, impávido colosso, e que em seu futuro espelhe esta grandeza. Ó pátria amada, idolatrada, salve, salve. Brasil, um sonho imenso, tornado realidade por vocês que hoje assumem os caminhos do futuro. Espero que aceitem o desafio para não correrem o risco de terem que confessar que não foram capazes. O Brasil merece mais, o Brasil merece vocês.

Parabéns!”

Reflitam em paz!