Dias atrás uma paciente me fez relembrar aquela música do Vinícius que diz assim: “É melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração…”, Samba da Benção. Esta música fez parte da minha história. Ainda hoje faz. Quando me encontro com meus amigos para tocarmos um violão e cantarmos juntos, essa música é sempre parte do repertório. Mas, há tempos não pensava nela com a profundidade necessária, com o carinho que ela merece.

A paciente que trouxe essa música é de um grupo de terapia. Ela nos contava de sua vitória, de ter conseguido dar um desfecho diferente para uma situação que já lhe incomodava há bastante tempo. Naquela semana, conseguiu resolver, conseguiu restaurar sua emocionalidade e foi capaz de celebrar. Ela conta que, logo depois do feito, quando entrou no carro e ligou o rádio, essa música estava tocando e ela foi capaz de escutá-la como nunca dantes. Achou simbólico e declarou “este agora é meu lema! É melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração”.

Como a alegria é algo que contagia, nos contagiou a todos. Ficamos muito felizes por ela e com ela. Afinal, vínhamos acompanhando sua peleja e esforço em dar conta dessa situação que se arrastava. Assim que ela falou, levantei e escrevi este trecho da música num quadro de vidro que tenho em meu consultório e essa música nos embalou por toda a sessão. Foi um dia diferente.

Depois que terminou, que os pacientes foram embora, fiquei mais um pouco para arrumar as coisas e olhar mais um pouco para essa letra. São os presentes que ganhamos nesse ofício de coaches e psicólogos. Pequenos presentes que os pacientes e coachees nos dão e que nos fazem refletir. Essa música e a bela história dessa paciente foi um desses presentes. História de coragem e persistência, de alguém que aprendeu a se conhecer a partir de uma perspectiva amorosa e cuidadosa consigo mesma.

Fiquei ali, alguns instantes, olhando para aquela frase no quadro, recordando a história daquela mulher, de como ela chegou ao consultório a primeira vez e de como estava hoje. Fiquei emocionada. E comecei a refletir sobre essa alegria e sobre a falta dela.

Me dei conta de como temos uma facilidade grande de identificarmos o que nos falta, o que ainda não temos, o que temos que melhorar, que correr atrás, que buscar. Freud já dizia isso e Lacan reforçou: “nos constituímos da falta”. E agora, fiquei com vontade de reeditar minha história pensando diferente, pensando não nas coisas que foram difíceis, que também existiram, pensando não naquilo que eu não dei conta, mas fazendo uma lista das coisas especiais que aconteceram, daqueles pequenos momentos em que eu ri, dos momentos em que eu pude gargalhar, dos momentos em que não aconteceu nada de especial, mas foi um dia bom, um dia gostoso, um dia simples.

E eu sentei e fui fazer este exercício, de listar aquilo que me fez feliz, aquilo que me deixou satisfeita, que me alimentou a alma, que me nutriu. Foi uma delícia ver a quantidade de coisas gostosas e especiais que aconteceram, a quantidade de momentos que me fizeram entusiasmar, que fizeram meu coração bater mais forte. Pequenos e singelos momentos, mas que constituem a minha caminhada, e olhar para eles não é ter uma visão romântica diante da vida, um otimismo idealista. Não. É ter uma visão realista, sim, saber que as coisas difíceis estão aí, que, sim, existem coisas que precisamos melhorar, mas é também reconhecer sua história, sua trajetória. Perceber que você está no caminho, reconhecer o que já foi feito. Isso é muito importante pra seguir andando.

Reconhecer o que foi feito nos tira da angústia de estar começando do zero sempre. Quando não somos capazes de reconhecer as coisas boas, nos sentimos fracos, sem forças para, verdadeiramente, implementar a novidade, para seguir atrás daquilo que queremos. Então, reconhecer os aspectos bons, as alegrias, nos fortalece, nos motiva e nos inspira a continuar seguindo em frente, na busca daquilo que ainda não há, mas sabendo que já temos um ponto de partida.

Fazer isso, no domínio da alegria, traz para a jornada leveza, contentamento. Traz o pensamento de que a própria jornada é um prazer e eu posso desfrutar dela.

Pra mim foi uma delícia olhar para a minha história e percebê-la assim, e perceber que estes últimos tempos, que foram de muito aprendizado, me trouxeram, também, muitas alegrias, muitas descobertas sobre mim, e me reconectaram com uma alegria profunda, com o entusiasmo, que, às vezes, na correria do dia-a-dia, a gente esquece.

Então, o meu desafio é que você faça isso. Faça uma lista das coisas que te aconteceram do decorrer desse ano, desde as mais singelas, até as maiores, mas as coisas que te deixaram feliz, que te trouxeram alegria, que te trouxeram paz, contentamento… Faça esta lista. E, a partir dela, projete seu futuro.

Que a gente comece a treinar nossa visão e a nossa mente, para sermos capazes de olhar para aquilo que foi bom, para aquilo que a gente tem e sermos capazes de nos satisfazer. Não é se contentar, mas ser capaz de se satisfazer e ter na satisfação o ponto de partida para ir além.

E que nos venha sempre esta música, que a gente sempre lembre que é melhor ser alegre que ser triste, que a alegria é a melhor coisa que existe, porque ela é a luz no nosso coração.

E eu compartilho a minha luz com você o meu desejo é cada um compartilhe a sua luz com quem estiver ao redor.

Um grande beijo e vamos juntos!

Thirza Reis