Para finalizar esta série de artigos sobre Inteligência Relacional, quero discutir a noção de crença. No significado mais geral, diz-se que crenças são os penhores da emoção. Estão ligadas às coisas nas quais empenha-se a vida. Filosoficamente falando, vai pressupor os conceitos de verdade, valores e certezas, discutidos anteriormente, ainda que não se ligue a eles objetivamente. Por assim dizer, crenças são as atitudes de quem reconhece como verdadeira uma proposição qualquer, por razões pessoais ou coletivas, relativas e subjetivas.

Uma crença se sustenta porque se manifesta objetivamente em comportamentos racionais ou não, o que implica a validade da noção a qual ela se dedica. Disso decorre que o alcance das crenças vai além dos domínios da religião e da fé, incluindo também alguns postulados da ciência. Em sua noção específica, crença implica tão somente o empenho dado a qualquer coisa sobre a qual se tenha uma opinião, obtida de qualquer modo. Dessa forma, uma crença não requer racionalidade em sua demonstração, mas a adesão da pessoa a ela com implicações diretas em suas atitudes, ações e comportamentos. Crenças, portanto, estão ligadas também à construção de preconceitos ou de superstições. Aristóteles afirmava que “é impossível que alguém, ao ter uma opinião sobre alguma coisa, não creia nesta opinião”. Tal declaração infere que a crença é o pensar com sentimento.

O ato de crer contém a firme adesão do indivíduo a uma parte do todo, tomada como verdade. Nisto implica o estabelecimento de padrões de relacionamentos humanos também formatados a partir da parte e não do todo. Todavia, o conhecimento de quem assim procede não é completo pela sua própria natureza, mas faz com que o indivíduo a ele se empenhe completamente. Disso deriva-se grande parte dos conflitos humanos, pois são sustentados por atitudes que se tomam por verdadeiras, definindo-se isso pela adesão a uma parte do todo. O que se define sociologicamente por tribos (urbanas ou não) normalmente são subgrupos sociais que se agregam em torno de crenças assumidas como verdades, daí o diálogo com outras formas de ver a vida, por essa mesma razão, se torna insustentável. Isso porque não há muita evidência ou racionalidade nas coisas que se crê, o que dificulta as demonstrações de objetividade das próprias crenças.

São Tomás de Aquino e seus seguidores, afirmavam que a crença decorria da imaginação. Diferentes graus de imaginação determinavam diferentes níveis de crenças. Assim, crenças sustentadas por episódios experimentados na vida tornavam-se certezas, que ao serem incorporadas à vida, assumiam a condição de valores que, com o tempo e a sedimentação temporal das narrativas históricas, viravam verdades. É o caso de muitos “mitos” da humanidade que são assumidos como fatos históricos “irrefutáveis”, quando, na verdade, nada há que os comprove. Paraísos, dilúvios, mares que se abriram, etc, são crenças que determinaram (e determinam) muitos de nossos comportamentos, tanto individuais como coletivos. Não se trata de dizer que tais crenças sejam falsas ou verdadeiras, apenas de entende-las como tal. A crença, portanto, é uma experiência do espírito humano que extrai das ideias decorrentes das ficções da imaginação, juízos para explicar a vida. No decorrer desses juízos, encontra-se, no mesmo viés da crença, a fé e a opinião.

Do ponto de vista metodológico, Freud, em suas conversas com Franz Brentano, conclui que as crenças se caracterizavam por três elementos: 1º é algo de que tomamos consciência por alguma razão pessoal ou coletiva; 2º é algo que aquieta a irritação da alma humana diante da dúvida; 3º é algo que estabelece uma regra de ação, ou seja, um hábito. Isso posto, para desenvolver a crença em alguma coisa não se deve fazer mais do que determinar os hábitos que tal crença produz, pois aquilo que uma coisa significa é simplesmente o hábito que ela implica. O que é acreditado não é uma pura essência de nada, nem uma verdade, mas uma coisa que passa a existir para nós por vincular-se à nossa identidade. Torna-se uma “experiência animal”, isto é, uma relação de ações e reações com as quais o organismo se localiza no mundo. Assim, a vida pode adquirir um sentido ou um valor para aquele que acredita que ela o tenha. Simplificando o raciocínio, somos o que cremos e isso se integra à nossa identidade de tal forma que, aceitar outras crenças é como abrir mão dessa identidade. Por isso excluímos pessoas e coisas, julgamos, discriminamos e depreciamos tudo aquilo que difere de nossas crenças. Construímos grupos fechados, nos tornamos preconceituosos e intolerantes, julgamos que nossa forma de ver a vida é a verdade e mandamos os diferentes para o inferno.

De tudo isso, tem-se a clareza de que uma crença é a atitude de empenho em face de uma noção qualquer, entendendo que tal empenho pode ser mais ou menos justificado pela validade objetiva das razões que deram origem a tal noção – seja pela experiência individual, pela escolha pessoal ou pela experiência do grupo. Tem-se por claro também que o próprio empenho, decorrente da crença, transforma a noção adquirida em uma regra de comportamento, objetivamente observada nos “hábitos-ações” materializados nos ritos da pessoa ou do grupo. Como regra de comportamento, a crença pode, em alguns campos, produzir a própria realização da pessoa, do grupo ou de um povo. Assim se diz que a crença é mais insólita das instâncias do conhecimento, embora seja a mais visceral.

O que fica de tudo isso deve ser o entendimento de que crer não é um mal em si mesmo, desde que se entenda que são escolhas pessoais e não verdades universais. Crer não é um mal em si mesmo, desde que não feche as portas ao diálogo e à reflexão. Crer não é um mal em si mesmo, desde que possibilite a convivência de diferentes. Crer não é um mal em si mesmo, desde que não feche a porta ao aprendizado e ao amadurecimento. Crer não é um mal em si mesmo, desde que se saiba que conviver com diferentes crenças não significa a obrigatoriedade de aceitar todas. Crer não é um mal em si mesmo, desde que se mantenha a integridade e a dignidade dos relacionamentos. Crer não é um mal em si mesmo, desde que promova a paz e a convivência pacífica a partir dos interesses convergentes. Crer não é um mal em si mesmo, desde que não impeça as trocas afetivas e o desenvolvimento de um humanismo íntegro. Crer não é um mal em si mesmo, desde que se entenda que o outro é legítimo, autônomo, livre e diferente.

Reflitam em paz!

Homero Reis