No primeiro texto desta série discuti o conceito de verdade, no segundo o conceito de valores. Agora quero lhes apresentar o conceito de certeza. Genericamente falando, certeza é a plena adesão da mente humana a um juízo qualquer. As certezas se fundamentam quando uma verdade encontra um valor na experiência objetiva da pessoa. Os filósofos medievais diziam que a certeza, compatível com o conceito de convicção, é a adesão do espírito humano a algo que se constitui como uma lei natural da vida, construída a partir da experiência pessoal ou coletiva. Nesse sentido, certeza é a segurança subjetiva da verdade de uma experiência objetiva.

Há dois modos de se considerar a certeza. O primeiro deles refere-se a causa que lhe dá origem. Por exemplo: uma pessoa quer muito um emprego e faz esse pedido a algum ser espiritual em que ela crê. De alguma forma, ela consegue o emprego desejado e atribui àquele ser espiritual o mérito de tal façanha. Quanto mais tal relação é estabelecida, mais a pessoa terá certeza dos benefícios de sua relação com aquele ser espiritual. Portanto, nesses casos, a certeza se fundamenta nas causas que lhe deram origem. Em outras palavras, pode-se dizer que a certeza é construída pela relação existente entre um fato objetivo e a interpretação do caso, feito pela pessoa. Repare que os fatos objetivos são: havia o desejo de um emprego, um pedido foi feito, um emprego foi conseguido. Mas, existem infinitas possibilidades de ocorrência para o modo como tal coisa aconteceu. A intepretação de que a ocorrência foi mediada pelo ser espiritual a quem o pedido foi feito, é apenas uma das possibilidades. A adesão da mente humana à essa possibilidade (seja ela qual for) é um dos modos pelos quais se pode considerar a certeza. No entanto, nesse domínio da certeza decorrente do vínculo da causa que lhe dá origem, surgem muitas outras possibilidades que regem nossa forma de ver as coisas. Temos certeza de que se usarmos tal perfume, nos tornaremos irresistíveis; se comprarmos aquela marca de carro, seremos tão bem sucedidos como aquele galã que o anuncia na TV; se fizermos aquela dieta, vamos ter o corpo do atleta que a promove, aquela marca de margarina faz as manhãs serem sempre felizes, mesmo com filhos inquietos, pais e mães atrasados; etc. Esse tipo de mecânica mental nos faz ter certezas de coisas com as quais nos frustraremos, mas que se tornam verdades proclamadas porque aderimos a elas. Essa é uma das formas pelas quais a propaganda tem sua força como instrumento de mobilização social.

O segundo refere-se aos elementos culturais que lhe dão suporte. Por exemplo: a grande maioria das pessoas contextualizadas na sociedade judaico-cristã ocidental, tem certeza da existência de Deus. Muito provavelmente, jamais tiveram uma experiência fática com esse fenômeno, mas foram instadas a vida toda, a interpretar as ocorrências da vida a partir desta premissa. Diferentemente do primeiro modo que requer uma relação previamente estabelecida a partir da “vontade de crer”, o segundo modo é mais subjetivo porque estabelece as certezas como pressupostos. Nesses casos, o próprio diálogo sobre diferentes certezas é bem mais difícil porque há uma profunda relação entre identidade e os pressupostos sobre as coisas que nos dão certezas. Alguns filósofos, defensores desse segundo modo, vinculam a noção de certeza ao conceito de fé. Afirmam, baseados em texto bíblicos, que “a fé é a certeza de coisas que se esperam e a convicção de fatos que não se veem” (Hb.11:1 –VRA), ou “a fé e a certeza de que vamos receber as coisas que esperamos e a prova de que existem as coisas que não podemos ver” (Hb.11:1 – NHTL). A vinculação do conceito de certeza ao conceito de fé, parte do pressuposto de uma noção dogmática sobre a dinâmica da vida. Essa dinâmica é a adotar como a plena adesão da mente humana algo aceito como verdade; mas, como não se pode demonstrar, embora faça parte da identidade cultural daquela pessoa e do grupo ao qual está relacionada, é aceita como certeza. Isso não significa que todos, de uma mesma cultura, tem as mesmas certezas, mas tal aspecto caracteriza o traço cultural daquele povo. Por exemplo, certamente existem judeus ateus, mas o traço cultural daquele povo é a certeza da existência de Jeová.

Do ponto de vista mais objetivo, convencionou-se entender como certeza somente aquelas coisas que se reconhecem evidentemente como tal, em decorrência de uma mecânica objetiva de causalidade. Ou seja, as certezas são demonstráveis a partir de princípios que se relacionam de modo direto, independente de quem seja o sujeito, embora o sujeito tendo aprendido os princípios das relações causais em questão, adere sua mente plenamente a ele. Por exemplo: respeitados os princípios técnicos dos cálculos estruturais, teremos certeza de que o edifício será construído e permanecerá íntegro; combinando duas moléculas de hidrogênio com uma de oxigênio, teremos água; aprendendo tudo o que foi ensinado na matéria, passaremos nas provas, etc. Nesse caso, a certeza diz respeito ao reconhecimento evidente de que há uma relação causal entre as coisas. Aprendida essa relação tem-se a certeza dos fatos que dele decorrem. O que não puder ser demonstrado nessa ideia, será objeto de outro conceito e não, objeto do conceito de certeza.

Reflitam em paz!

Homero Reis