Muitos temas intrigam a humanidade, desde o início dos tempos. Temas que, por sua natureza não conclusiva, provocam reflexões fundamentais, que nos orientam na construção de relacionamentos mais inteligentes, portanto, mais efetivos. Verdade, valores, certezas e crenças integram este conjunto de temas intrigantes. Nos próximos quatro artigos, quero compartilhar algumas coisas que tenho aprendido sobre eles.

Comecemos pela verdade. Genericamente falando, verdade é a qualidade pela qual um dado conteúdo cognitivo qualquer (mental, linguístico, fático ou comportamental), torna-se eficaz e consegue êxito. Ao longo da história da filosofia, independente dos conteúdos, cristalizaram-se cinco perspectivas fundamentais de verdade: verdade (1) como correspondência; (2) como revelação; (3) como conformidade; (4) como coerência; (5) como utilidade. Estas perspectivas tiveram importância diferenciada em cada momento da história, dependendo do contexto da própria história. Modernamente, tais perspectivas se fundem, não mais na busca de uma unidade absoluta para o conceito de verdade, mas como um conjunto de distinções que se integram numa visão orientadora daquilo que chamo de Inteligência Relacional.

A verdade como correspondência estabelece uma relação direta e necessária entre aquilo que se pensa (ou se sabe) com o objeto ao qual se refere tal correspondência. Assim, se entende que aquilo que penso sobre algo deve ser percebido nesse algo, ou ainda, aquilo que distingo em algo, deve existir nele. É verdade aquilo que a pessoa sabe de si mesmo, se esse saber é explicitado objetivamente nas coisas que a pessoa constrói no seu fazer (falar e agir). Nesse domínio, Aristóteles afirmava que a verdade, enquanto correspondência, é a realização do conhecimento, a partir de suas regras, de modo que ocorra a reflexão do ser sobre si mesmo. Na doutrina da correspondência ainda se requer que um enunciado da verdade, para fazer sentido, designe o estado das coisas existentes; ou seja, a declaração de uma verdade só é possível na medida em que o discurso corresponda àquilo que, de fato, é possível de ser percebido por todos.

A verdade como revelação ou manifestação é entendida sob dois aspectos. Primeiro, no sentido de que é verdade aquilo que é percebido de forma imediata pela sensação, intuição ou fenômeno. Nesse sentido a revelação tem um papel de objetividade. É verdade o que é evidente e percebido como tal por todos. Segundo, a noção de revelação requer um tipo de conhecimento privilegiado segundo o qual certas pessoas possuem certas competências e habilidades que as permitem saber, sem saber como, coisas que os demais não sabem. É o caso das verdades dos pajés, gurus, médiuns, esotéricos e demais pessoas de mesma natureza. A verdade, nesse caso, é algo inerente ao sujeito e nossa relação com ela se dá no domínio da crença, por intermédio do sujeito que diz sabe-la.

Quando se fala em verdade como conformidade, entende-se tudo aquilo que se concebe claramente e com nitidez porque está explícito no resultado do acordo. Refere-se portanto a uma promessa feita e cumprida conforme prometido. Conformidade presume a adequação do prometido ao realizado. É uma conformidade quando fatos ou eventos se apresentam de modo igual a todos os que tiveram experiências com eles. Pressupõe que todos entendam inequivocamente, que o que foi declarado como característica, se encontra no fato ou evento vivenciado. É a verdade implícita nos padrões de construção e avaliação da qualidade.

Do ponto de vista da coerência, verdade é a relação direta entre o que se diz e faz, entre o que se pensa e o que se fala, entre a promessa e o cumprimento, entre a intenção e a ação. Refere-se à ordem e a conexão que devem existir num sistema de conhecimentos e de relacionamentos, quando estes produzem harmonia. A verdade, então, torna-se uma realidade que se constrói na consciência que abraça harmonicamente, todo o múltiplo, disperso e contraditório, da aparência sensível, entendendo que há em tudo uma razão de ser. A coerência, nesse sentido, é muito mais do que a simples compatibilidade entre os elementos de um sistema de conhecimentos e comportamentos, implica não só na ausência de contradição, mas na presença de conexões positivas, isto é, exatas, que estabelecem harmonia na vida, em todos os seus domínios.

Por fim, verdade como utilidade é a aplicação do que se sabe à vida, em todos os seus domínios. Utilidade, não utilitarismo, é o que faz com que a competência (conhecimento, habilidades e atitudes) seja posta a serviço daquilo a que se refere sua natureza. Verdade nesse sentido é a disposição de ser a serviço da humanidade, tudo aquilo que se sabe, a partir da lei da moral universal. Ou seja, agir de forma a tratar toda a humanidade, tanto na sua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre como um fim e nunca unicamente como um meio. Verdade como utilidade pressupõe a constante reflexão sobre a minha intenção ao adquirir conhecimento.

Portanto, verdade é um princípio que se constitui para o ser humano a partir de suas características de correspondência, revelação, conformidade, coerência e utilidade. Não exclui nossa relação com o mistério da vida porque entende que a vida é maior do que aquilo que pressupomos saber dela. Mas, requer de nós submissão ao que sabemos e ousadia para modifica-lo, numa dinâmica harmoniosa, sem que isso nos torne incoerentes. Com isso, a verdade instala-se na correspondência percebida entre o saber e sua evidência, com a consciência de que tal saber não é definitivo, mas que é o que é possível agora, dadas as condições e circunstâncias. A verdade requer a honestidade com o que se sabe, mas a humildade diante do mistério; daí seu caráter como revelação. Requer conformidade entre o que se promete, a intenção com que foi prometido e as ações que expressam objetivamente tal compromisso. Por fim, sustenta-se na coerência entre ser, saber e fazer, de modo que a identidade do sujeito se constitua em integridade.

No entanto, a verdade não subsiste por si só, apesar de todos os aspectos que a constituem. Para tal, requer agregar valor. Vamos discutir isso, no próximo texto.

Reflitam em paz!

Homero Reis