Deixe-me voltar a esse tema. Há uma diferença bastante significativa entre gerenciar e liderar. Primeiramente, a gestão é uma função institucional enquanto a liderança é uma função social. Nomeiam-se gestores, já líderes são reconhecidos por sua capacidade de superar as expectativas do grupo no qual estão inseridos. Neste contexto, é possível ter organizações bem gerenciadas, mas mal lideradas. São instituições que se esmeram em buscar eficiência no que fazem rotineiramente, mas não lhes ocorre questionar se o que fazem deveria continuar sendo feito.

Prender-se a rotinas em ambientes de intensas e rápidas transformações é o mesmo que regredir continuamente. Mudar, ajustar, inovar e renovar são condições básicas para a continuidade e o desenvolvimento de toda organização. Nas organizações bem gerenciadas mas mal lideradas, as pessoas tendem a confinar sua atuação a questões do dia-a-dia, especialmente porque estas são de mais fácil tratamento (por mais complexas que possam parecer) do que as não rotineiras. Uma consequência imediata dessa tendência – pacto inconsciente com a rotina – é que mesmo os eventuais processos para inovação e mudança, “embutidos” nos próprios mecanismos formais de planejamento, encontrarão, na rotina, barreiras extremamente poderosas, exatamente em seu momento mais crítico: na fase de execução/implementação. É na fase do “fazer acontecer” que as armadilhas da rotina fazem muitas pessoas tenderem a entrar no “jogo do empurra”, no qual evita-se assumir responsabilidades e envolver-se com as consequências das ações necessárias. O lema básico do jogo é “mandar para cima” a responsabilidade de agir em situações não rotineiras.

Esse contexto sugere que a principal tarefa dos gestores que aspiram à condição de líderes é criar um “time de ponta”, uma equipe para “fazer o dia-a-dia acontecer”. Este deve ser um grupo misto (alguns subordinados de linha, alguns assessores) e compatível, no sentido de que seus membros sejam eficazes trabalhando juntos, mas diferenciados em termos de competência. Não deve ser uma equipe “uniforme” nem, tampouco, conformista. Deve ser, acima de tudo, um grupo composto por pessoas que conheçam, mais que o próprio gestor, tudo sobre suas respectivas áreas de competência e possam tratar dos assuntos diários como se fossem os próprios “donos do negócio”. Somente a partir daí é que se torna possível começar a pensar sobre o que o próprio líder deve fazer.

O líder deve ser um “conceitualista”, mais do que apenas um homem de ideias. Proposição conceitual e visão empreendedora para pensar estrategicamente sobre as forças que irão afetar os destinos do grupo é um requerimento fundamental; catalisar as ações devidas visando superar as expectativas do grupo é essencial. Nesse sentido, o líder deve estar o mais livre possível para cumprir sua missão principal: a de assegurar que todos atuem como um corpo na direção e no propósito mais alto do grupo e do conceito que instala sua identidade. Isso significa, por um lado, evitar o desperdício de energia em atividades não prioritárias; e, por outro, superar o comodismo da falta de ousadia e a perda de oportunidades por excesso de “cuidado”. Esse equilíbrio que se requer da liderança é de valor inestimável. Mais do que nunca as organizações precisam de líderes que encorajem, estimulem e acompanhem o grupo na construção de relacionamentos íntegros que se constituam como “servidores” da sociedade a que pertencem.

Lidar com a complexidade, a ambiguidade e as incertezas – desdobramentos naturais da aceleração nos processos de mudança – bem como com as expectativas dos grupos, não é tarefa fácil. Nesta era de rápidas transformações é necessário que as organizações se orientem para o futuro, ao tempo em que cuidam com impecabilidade das operações do dia-a-dia. Este é o desafio central para os executivos, especialmente os de alta administração: assegurar que a organização como um todo esteja apropriadamente sintonizada à sua missão. Líderes são necessários para criar a visão das possibilidades, agregar as pessoas entorno de um sonho, de uma ideia, de um futuro. Gestores são necessários para dar conta das operações requeridas por tal futuro.

A força interior dos líderes provém – em grande parte – de suas habilidades em lidar com as inquietações dos sonhos, com a salutar insatisfação com presente, com a necessidade de mudar. No entanto, são capazes também de ver na realidade objetiva da vida, as condições e os recursos para as transposições necessárias. A força de um líder vem da força se seu ideal que, a partir de uma emocionalidade contagiante capta outros para seguirem numa estrada, nem sempre pavimentada, mas cujos desafios fazem parte da maravilhosa aventura da superação. Líderes efetivos conectam-se com as pessoas e ganham sua confiança exatamente por esse tipo de relacionamento. Estimulam a participação, a comunicação, o respeito e a criatividade porque geram movimentos no sentido de fazer o grupo perceber que pode ser e fazer muito mais do que tem sido e feito.

Reflitam em paz!

Homero Reis