O que é Inteligência Relacional?

Durante muito tempo, ouvi falar sobre o QI e sua importância. As pessoas eram medidas e avaliadas pelo seu coeficiente de inteligência e isso era tido como um grande diferencial. A capacidade de ter um raciocínio logico-matemático acima da média ou a capacidade de interpretar e escrever bem eram elementos que diferenciavam as pessoas.

Com o tempo e com as pesquisas de Daniel Goleman, entre outros, pareceu-me que se começou a atinar que o QI, embora importante, não fora capaz de jogar sozinho. Ser inteligente, do ponto de vista cognitivo, ajudava no processo de compreensão das coisas, mas a inteligência emocional começou a ser vista como fundamental para balizar como as pessoas reagem e o que as move.

Em tempos atuais, a partir de estudos, artigos e conversas promovidas pelo LAB – IR (inserir link) parece que descobrimos que, ambos, inteligência cognitiva e emocional são muito importantes, mas sozinhas ainda são insuficientes.Ocorre que não aprendemos a nos relacionar. Não aprendemos a conversar. Acreditamos que essas coisas são inatas. Que nosso aparelho fonoaudiológico funciona bem e o da pessoa com quem falamos também, então, é claro que ela vai entender o que estou dizendo. Partimos do pressuposto de que somos claros no nosso falar e “limitado” é o outro que não entendeu. Partimos do “princípio da obviedade”: se eu disse, é claro que ficou claro; é claro que ele entendeu! Como não entendeu?

Assim, nos enosmesmamos e achamos que estamos certos. Justificamo-nos na incompetência do outro e assim seguimos nossa vida. Nos vemos possuidores da razão e das certezas, como se nossa forma de ver fosse a “verdade” sobre os fatos. Como se houvesse uma verdade única. Acreditamos que o que vemos e sentimos é o que é. De fato, o que é em nosso universo íntimo e particular tem a cor da verdade para nós, o que nos torna soberbos e prepotentes, se não entendemos que o mesmo ocorre com todos.

Ao fazer isso, nos mantemos medíocres e imaturos em nossos relacionamentos. Medíocres, repetindo as mesmas histórias e padrões relacionais sem aprender com eles. Imaturos, com dificuldades de ter as conversações que precisamos ter. Essas duas coisas juntas nos fazem adiar decisões, evadir as pessoas, deixar embaixo do tapete conversações que ainda que difíceis dariam a oportunidade para as pessoas crescerem, expandirem sua capacidade relacional, ganhando maturidade e profundidade nos relacionamentos.

Daí, começamos a notar que a Inteligência Emocional e a Inteligência Cognitiva estavam precisando de uma nova companheira que as trouxesse para o mundo interrelacional. Chamo essa terceira inteligência de INTELIGÊNCIA RELACIONAL (IR). É quando nos damos conta que existe a forma como eu vejo e há também a parte do outro, como ele vê, como ele sente e como percebe o que está acontecendo. É na hora que nos damos conta disso, que abrimos a possibilidade de aprender das relações e entramos no domínio relacional. É aquilo que acontece entre Eu e Você, que, quando visto a partir da perspectiva do aprendizado, estimula processos de relacionamentos mais efetivos.

É nessa perspectiva de relacionamentos mais efetivos que transitamos para aprender sobre Inteligência Relacional (IR).

A IR é aquela que vai balizar as nossas relações. É a maneira como somos e o que nos tornamos na presença do outro. O que este outro desperta em mim? O que de mim surge na presença dele? Quem sou eu quando estou com ele?

Somos muitos. Cada um de nós é na verdade vários. Você já percebeu quão diferente você é a depender de com quem, onde e quando você está?

Começamos a perceber que desenvolver a inteligência relacional tem a ver com ser capaz de responder essas perguntas e de, a partir dessas respostas, melhor se compreender nas relações e poder escolher uma forma de estar nelas de maneira mais autêntica, saudável e real.

A inteligência cognitiva trata dos assuntos da racionalidade, do pragmatismo; a inteligência emocional olha para o mundo interno, para a autocompreensão; a inteligência relacional olha para o que acontece entre Eu e Você na hora que começamos a nos relacionar, na hora que nos esbarramos, na hora que nos encontramos, na hora que discutimos, na hora que nos dizem algo que não queremos ouvir.

Nossa inteligência relacional, assim como a emocional, tem uma latência diferente da cognitiva para se desenvolver. Elas são mais melindrosas, precisam de mais tempo, de cuidado para conseguirem sustentar a mudança, precisamos trabalhar o corpo, para sustentar essa nova emocionalidade, essa nova forma de ser nas relações.

Somos seres relacionais! Nos constituímos nas relações uns com os outros. Nossa identidade se constitui na presença do outro. É na hora que nos encontramos que precisamos nos diferenciar, que precisamos saber quem somos, para não nos misturarmos com o outro. Nesse momento que a inteligência relacional se faz necessária. A inteligência relacional é a possibilidade de tirar nossas relações da transparência e nos fazer olhar para a forma como nos relacionamos com o desejo de aprender sobre nossas relações e, assim, poder escolher como queremos vive-las.

Dessa forma, deixamos de ser reféns de nós mesmos, de nosso passado, daquilo que aprendemos (sem sequer nos darmos conta) com nossos pais e outras referencias e começamos a nos tornar protagonistas da nossa própria história. Nosso passado nos constitui e precisamos honrá-lo e respeitá-lo, mas ele não precisa nos limitar. Entender isso é perceber que somos inteligentes e podemos aprender com nossas experiências para viver a novidade.

Inteligência relacional é a possibilidade de vivermos o Encontro: duas pessoas inteiras em liberdade de se escolherem mutuamente, seja no domínio pessoal, profissional, seja onde for, podemos escolher viver em liberdade.