Qual a diferença entre Inteligência Emocional e IR?

Na IE olhamos para o mundo emocional, para como vivemos as emoções e como elas nos disponibilizam para ação. Reconhecemos que somos seres emocionais e aprendemos a observar a habilidade emocional na qual temos vivido, percebemos como e quando as mudanças acontecem… e aprendemos a calibrar as emoções (como entrar nelas, vive-las e usufruir do seu potencial). Aprendemos a ampliar o repertório emocional e como ele se reverbera no corpo. Por exemplo: fizemos um trabalho com uma coachee que, chegou se sentindo perdida, sem direcionamento profissional. Estava sem força para agir, se dizia triste. Quando começamos o trabalho, começamos a ver que isso que ela chamava de tristeza na verdade era RAIVA. Raiva contida, que por aprendizado ao longo da vida ela não se permitia sentir. Como se a raiva fosse um sentimento ruim e inadequado. Consequência disso: não colocava limites nas relações, não se posicionava, permitindo muitas vezes abuso, excesso de demandas. Colocava a serviço dos outros suas competências, tão esmerada em atender ao outros e viver para proporcionar bem-estar para os outros, que se perdeu de si. Quando se deu conta disso, entrou, no que ela chamava de tristeza profunda, numa sensação de vazio.

O trabalho que desenvolvemos com ela foi intervir no Corpo. Percebemos que o corpo apresentava uma tensão generalizada. Havia um choro contido, mais do que isso, havia um grito contido, como se a voz não pudesse sair. Como se não houvesse espaço para ela se colocar.

Primeiramente, trabalhamos o CONHECER. Apresentamos a ela a distinção da Raiva: uma emoção que tem a ver com a projeção da ação, que tem a ver com a maneira como me coloco no mundo, com ocupar o lugar que me cabe. Não desde um aspecto agressivo, mas a partir da dignidade, de me autorizar ser e poder. A Raiva tem um tônus, e aqueles que abrem mão de vivenciá-la, vivem as consequências em sua maneira de ser no mundo. Essa distinção a vez conhecer da raiva e se dar conta de que aquilo que ela chamava de tristeza a tanto tempo, na verdade era raiva contida, que a imobilizava e não a permitia escutar e validar a própria voz.

Feito isso, entramos na etapa do ENTENDIMENTO. Como isso se conectava com a história dela, com seu repertório de vida, com seus modelos mentais e com a relação com o outro. “O outro era para ser agradado, servido, atendido além de mim e minha virtude e competência está em atende-lo”. Quando ela entende isso, abre espaço para se conectar com a raiva que, inicialmente, aparece como raiva de si mesmo, com uma fala “de como me deixei tanto tempo nesse lugar? Como me negligenciei esse tempo todo?”….

Nosso foco, então, não é em nos punir pelo passado que fomos capazes de viver. Mas, pelo contrário, nos conectar com aquilo que podemos fazer agora, a partir da honradez do que foi. Assim, nos despedimos desse passado e, agora, olhamos para frente. Como se beneficiar a partir da raiva? Como aprender do seu tônus, da sua respiração, do que ela te chama a fazer?

Assim, ela fez. Fomos para o momento da AÇÃO, onde começa a Ação Ética. Entendemos por isso a ação que reivindica a nós mesmos e aos outros. Estabelece uma nova ética relacional, que preconiza o respeito mútuo. Para construirmos isso com ela, começamos um aprendizado que nasce no corpo. Como este corpo se posiciona e atua na raiva? Treinamos a respiração, a postura, a expressão facial e a conversação que a raiva enseja. Prototipamos! (conectar com o modelo U) e construímos uma ação coletiva para que ela pudesse se posicionar e se colocar a prova na presença de outras pessoas, com quem ela pudesse aprender.

Nessa ação em grupo, ela se comprometeu a se colocar: falar na frente de todos aquilo que ela queria e como queria. E o grupo deveria dizer que percebia nela essa coerência entre o que ela dizia e o que ela fazia (corpo, emoção e linguagem).

Assim foi. Ela se posicionou, recebeu feedbacks e a medida que recebia os feedbacks ela ia reposicionando sua postura. Como coaches a acompanhamos nessa aprendizagem corporal e emocional necessária para que aprendizagens profundas possam se dar.

A prototipação, então, é um momento de prática, intermediário entre o Entender e a Ação Ética propriamente dita. Uma vez vivenciado e desenvolvidas distinções corporais, emocionais e linguísticas, se chega a hora de desenhar as conversações necessárias para reestabelecer o espaço da dignidade e integridade nos relacionamentos.

Este momento é talvez onde o maior nível de desafio se apresenta nos processos de aprendizagem. Tem a ver com desenvolver a coerência entre aquilo que dizemos querer e aquilo que realmente fazemos. Sem este passo ficamos aquém de quem somos e das relações que queremos construir. É onde é posta a prova a Inteligência Relacional.

Feita essa experiência com a coachee e seguindo seu aprendizado em busca de uma postura relacional mais autêntica e íntegra, começamos a acompanha-la nas conversas que precisava ter. Desenhamos essas conversas com ela e mapeamos as pessoas com quem essas conversas precisavam acontecer. À medida que isso acontecia, ela ganhava força e se conectava com seu querer mais íntimo e se responsabilizava pela sua construção.

Começou então a ter, de fato, as conversas com as pessoas que queria ter e essas conversas foram empoderadoras para ela e para sua vontade. Não foram conversas fáceis. Exigiram dela coragem, desenho, presença, resultando num ganho de maturidade relacional que a impulsionava para suas conquistas e cada vez mais consolidava o objetivo.

Conclusão: conseguiu sair do emprego onde estava, que a incomodava e que não a fazia se sentir valorizada e abriu seu próprio negócio, onde realmente se via capaz. Hoje está engajada em seu trabalho, com várias perspectivas de crescimento, se sentindo inteira em sua construção e feliz em sua escolha. Ainda requer de momentos de acompanhamento, porque este aprendizado é algo que nunca se finda e sempre precisamos do olhar do outro, quando estamos comprometidos com a aprendizagem relacional.

É muito fácil voltarmos a padrões antigos, a armadilhas emocionais. É fácil voltar a transitar num mundo que já conhecíamos tão bem. Uma das competências que se aprende nesse caminho de desenvolvimento da IR é pedir ajuda. Dessa forma, o coach serve como alguém que acompanha e que empresta o olhar para testemunhar o crescimento e sustentar com ela a transformação contínua que, nada mais é que o ganho de maturidade relacional.