Era uma vez uma floresta. Como todas as florestas, esta também era exuberante, cheia de vida e misteriosa. Nela, tudo estava em perfeita harmonia, até que um dia vieram os madeireiros em busca de matéria prima para seus negócios e boa parte da floresta foi derrubada, menos uma árvore que foi deixada de lado porque sua madeira não era nobre e, portanto, inútil para os propósitos econômicos. Em seguida, vieram os tintureiros em busca de pigmentos para suas tintas e outra parte da floresta sucumbiu. Menos aquela árvore inútil, deixada de lado porque não possuía nenhum pigmento que tivesse valor econômico. Por fim, vieram os perfumistas em busca de essências e o que restou da floresta veio abaixo. Menos aquela árvore inútil, porque não possuía nenhum olor que fosse economicamente significativo. Com o tempo e com as investidas, de tudo o que era floresta e mistério sobrou apenas uma aridez enorme e aquela árvore inútil. No entanto, o que os madeireiros não perceberam, os tintureiros não se deram conta e os perfumistas não viram é que todos eles, em sua voracidade utilitarista, abrigaram-se do sol à sombra daquela árvore inútil.

Quando Antoine de Saint-Exupéry escreveu O Pequeno Príncipe, na cena do encontro com a raposa há uma fala onde ela afirma que o essencial é invisível aos olhos. Parece que Exupéry estava antevendo um dos grandes dramas da sociedade pós-moderna. Transformamos tudo em objetividade econômica e julgamos que o custo das coisas pode ser medida apenas em valores objetivos. Uma empresa provoca um desastre ambiental e recebe uma multa em dólares, que julgamos resolver a questão. Ledo engano. Fazemos escolhas profissionais a partir dos benefícios objetivos e nos metemos em trabalhos que não gostamos, em relações que não administramos, em atividades distantes de nossa natureza. No final perdemos a vida, a saúde, a paciência, a alegria, o humor, mas compramos aquele carro, aquela casa, aquela roupa. Percebo que nossa visão da realidade é míope, o que nos impede de ver mais alternativas e possibilidades. Cremos que decidir rápido pelo atalho, pelo caminho mais fácil, é decidir corretamente. Tenho me perguntado o que está por traz das escolhas que fazemos. Quando escolho o que escolho, a quem estou atendendo? Quem são os atores presentes nas escolhas que faço, as vozes internas que me direcionam e que não sou capaz de contestar? A vida que vivemos é construída por escolhas e escolher requer mais que o senso de utilidade objetiva. Há um nível de percepção da realidade que não pode ser objetivado, mas que tem valores para além do econômico. Quanto vale a sombra que abrigou os desmatadores da floresta? Quanto vale a floresta? Essas questões colocam em cheque nosso estilo de vida utilitarista no qual uma baleia encalhada numa praia do sudeste, mobiliza uma cidade, enquanto as crianças que vivem nos lixões da mesma cidade são deixadas à própria sorte.

No segundo livro do Guia do Mochileiro das Galáxias, capítulo 23 – livro imperdível de Douglas Adams – há um relato sobre os principais tipos de vida inteligente que existe na terra. Na ironia de Adams, a redação é assim: “É um fato importante e de conhecimento de todos que as coisas nem sempre são o que parecem ser. Por exemplo, no planeta Terra os homens sempre se consideraram mais inteligentes que os golfinhos, porque haviam criado tanta coisa – a roda, Nova York, as guerras, etc. – enquanto os golfinhos só sabiam nadar e se divertir. Porém, os golfinhos, por sua vez, sempre se acharam mais inteligentes que os homens – exatamente pelos mesmos motivos”. Os humanos se julgam mais inteligentes do que os golfinhos porque constroem cidades, trabalham para ganhar muito dinheiro, vivem uma vida ativa, produtiva e apressada. Já os golfinhos se julgam os mais inteligentes porque vivem nadando, fazendo sexo, se divertindo e usufruindo de tudo o que os oceanos lhes proporcionam. As razões de ambos para julgarem-se os mais inteligentes se fundamentam na mesma questão: o que lhes é essencial? O que entendemos por essencial é o que nos move em nossas escolhas e decisões e estabelece nosso estilo de vida. No entanto, isso deve ser feito com a compreensão de que não existe a escolha perfeita, nem a situação plena onde todos os desejos e expectativas sejam alcançados. Há uma boa dose de renúncia em todas as nossas opções. Compreender isso nos permite ter equilíbrio em todas as dimensões da vida. Ao perguntar sobre o que nos é essencial, abrimos a chance de fazer escolhas mais efetivas e que nos trazem a melhor combinação possível de resultados. Essa é a regra que vale para se escolher uma profissão ou uma atividade; para se definir as prioridades nos relacionamentos, para se envolver com o trabalho, para se comer chocolate. Tudo aquilo que nos parece inútil, tem uma razão de ser. Descartá-lo tempestivamente é não ter a visão do todo, nem a percepção do que é essencial.

Reflitam em paz!
Homero Reis