Em tempos de Copa do Mundo, os olhares de todos se voltam para as questões do futebol. Mesmo aqueles que pouco se interessam por este esporte se veem contaminados pelo clima da competição e pela visceral torcida dos apaixonados. Como se crê, no Brasil, isso é potencializado pela crença de que somos o país do futebol e que cada brasileiro é um técnico.

Logo, as discussões são intensas em todos os espaços sociais e os diversos “técnicos” se antagonizam nas questões que o tema sugere. Mesmo porque, o assunto não seria uma paixão nacional se houvesse consenso entre todos os interlocutores. A divergência é enriquecedora. Na verdade, as diferenças de percepção e os diversos prismas sobre os quais se pode abordar um tema é o que faz os relacionamentos serem significativos.

Considerando as questões sobre inteligência relacional e aplicando tais conhecimentos nos diversos domínios das relações humanas, o futebol tem muito a nos ensinar. Há que se entender que as paixões, muitas vezes, nos cegam em relação à nossa capacidade de escutar. Ouvimos, mas não escutamos. O que vejo nos comentários dos “especialistas” é que, na maior parte do tempo, as pessoas estão falando a mesma coisa, mas não são capazes de escutar umas às outras.

As discussões são infindáveis e, por horas a fio, se debate sobre coisas que os falantes concordam entre si, mas que são incapazes de perceber isso. Essa cegueira provocada deve ser entendida como um espaço de aprendizagem. Se sei que isso ocorre, devo ficar atento a algumas competências que me facultem o estabelecimento de conversas mais produtivas. Dentre elas está a capacidade de refletir e interpretar sobre o que o outro está dizendo. Tudo o que falamos decorre do modo como percebemos as coisas, e o nosso perceber não é certo ou errado em si mesmo, é apenas o nosso modo de perceber. Escutar o que o outro diz requer entender duas coisas: nos perguntar por que a coisa dita me afeta e como me afeta; e procurar entender a partir de que ponto de vista o outro diz o que diz. Fazendo isso, sou capaz de discernir o conteúdo efetivo do discurso.

Do ponto de vista prático, toda resposta dada de imediato é uma resposta automática fornecida pelo nosso mecanismo de defesa que visa estabelecer uma relação de poder na conversa. Se me permito “gastar um pouco de tempo”, digerindo, antes de dar resposta, posso mergulhar em um processo de reflexão, o que me permite atuar a partir do entendimento do que o outro está falando e evitar a construção de mecanismos de defesa. Tais mecanismos, se exacerbados, estimulam emoções mais intensas, cujo resultado potencializa os conflitos.

Outro aspecto importante é a capacidade de transferir, compartilhar e disseminar diferentes perspectivas sobre um determinado tema ou assunto. No futebol, isso refere-se à ligação que cada jogador deve ter com os demais, recebendo a bola, transferindo-a para outro colega e compartilhando de uma estratégia combinada com o time. É necessário que o atleta tenha domínio de todos esses aspectos, sob o peso de não constituir-se em equipe como os demais. Escutar é apenas uma parte do processo conversacional que fundamenta as relações inteligentes. Já afirmei que escutar requer considerar o que o outro diz, a partir do lugar que diz. Mas é preciso mais, é preciso refletir sobre o que percebo para receber tal informação com a legitimidade que ela possui pelo simples fato de ser emitida por outra pessoa que, em si mesma é legítima.

Receber algo do outro não significa necessariamente concordar, mas entender que o que foi dito é uma possibilidade. O modo como processo o que recebo e o transfiro é que vai dar maior amplitude à conversação. Do ponto de vista técnico, uma conversa se expande pelo acréscimo que cada sujeito faz ao tema e ao conteúdo que acolheu do outro sujeito. A desqualificação rasa, automática não acrescenta nada ao desenvolvimento das pessoas em suas relações. Por isso é que afirmo que nossa vida nada mais é que a história que contamos sobre nós mesmos. Precisamos do outro para escutá-la, refletir e nos devolver com suas perspectivas. É isso que torna o conversar um desafio poderoso no estabelecimento de relações estáveis e duradouras. Quem não se atenta para esses três aspectos (transferir, compartilhar e disseminar), pode até ser um grande jogador, mas “não ganha jogo”.

Por fim, assim como o objetivo de todos os jogadores em campo é conduzir o time à vitória e a vitória se faz com gols, o objetivo das conversas é gerar aprendizagem e crescimento entre os interlocutores, fazendo gols nas percepções segmentadas ou estreitas. Isso requer o entendimento de que as conversas são elementos estruturadores das ações. Conversar é agir. A qualidade de nossas ações está ligada à qualidade de nossas conversas. Muitas vezes escuto alguém dizer que, diante de tal ou qual assunto, “não adianta conversar”. Isso revela não a inefetividade das conversas, mas conversas inefetivas. O que está por trás dessa declaração é algo bem sutil, ou seja, quem assim o declara está confessando que não sabe conversar.

Quando uma conversa é orientada por escuta correta, reflexão madura, compartilhamento sincero, ela estimula a ação coordenada cujo resultado acrescenta conhecimento a todos os que dela participam e aos que nela estão envolvidos, direta ou indiretamente. Saber conversar requer o entendimento de que não se trata de uma disputa de palavras ou do exercício do poder. Conversar é ferramenta que promove a aproximação dos diferentes, é síntese dialética das teses e antíteses com as quais a história se move, é construir possibilidades até então despercebidas pelos interlocutores.

Pessoas que aprenderam a conversar são agentes de mudança e de agregação, e isso talvez seja a maior demanda de todos os tempos para uma sociedade cada vez mais “conectada”, mas cada vez mais distante na capacidade de estar junto. Em tempos de futebol, há que se considerar que nossas conversas, como nossos pés, direcionam a bola. Fazer isso com competência requer senso de time. Ganhar ou não é uma consequência, mas integrar-nos uns aos outros é que faz o campeonato ter sentido.

Reflitam em paz!

Homero Reis