Quando eu e minha esposa chegamos em North Vancouver – CA, trinta e um de dezembro de 2009, demos de cara com uma cidade submersa na neve. O motorista de taxi comentava que o inverno seria rigoroso. “Rigoroso” me chamou a atenção considerando que, poucas horas antes, embarcara no Rio de Janeiro a uma temperatura de quase quarenta graus, no típico verão carioca. O que poderia ser rigoroso?

Chegamos. A rua ladeada por “muralhas” de neve escondia as casas, quando o taxista parou o carro e me informou que havíamos chegado. Não consegui ver nada além de neve. Resoluto, enfrentei a montanha branca e achei a porta da casa. Esta foi minha primeira experiência canadense.

Durante as primeiras semanas tudo aquilo foi bem emocionante. Era muito bonito ver nevar em abundância, perceber a natureza em variações de cinza e ter um bom sistema de calefação. Com o passar do tempo, comecei a pensar quando é que “aquilo” iria terminar. Com mais algum tempo comecei a ter certeza de que “aquilo” não terminaria jamais. Os dias e as noites haviam se tornado num eterno branco-sobre-branco, envolto em frio-mais-frio.

Até que um dia a temperatura começou a subir; vagarosamente, é claro. Aos poucos os verdes começaram a aparecer, os pássaros voltaram a cantar e, como um milagre, todo o branco começou a pigmentar-se de cores sem fim, revelando uma infinidade de nuances jamais imaginada. Chegara a primavera.

Os jardins reflorescidos tornaram-se espaço para brincadeiras, namoros ou simplesmente contemplação. Pessoas saíram de casa, apareceram nos espaços abertos e aquela cidade “fantasma” ressurge linda e colorida. Mas, assim como a neve deu lugar à primavera, o verão apareceu trazendo consigo um calor inicialmente aceitável, mas que, em breve, se tornou insuportável. Os jardins sedentos e as pessoas abafadas foram regados como se o universo se liquefizesse e as chuvas torrenciais encharcavam tudo, o tempo todo. Quando tudo isso parecia novamente insuportável, eis que surge novamente um inverno que “seria rigoroso”. Este é o ciclo.

De repente, percebi, por trás de tudo isso, uma lição de vida que precisamos aprender para atuar na perspectiva da inteligência relacional. A vida tem suas estações. Às vezes vivemos momentos que nos parecem um eterno inverno, frio, monocromático. As noites longas e os dias curtos trazem a sensação de que nada pode ser feito. Em outros momentos a vida torna-se colorida e julgamos que tudo será sempre assim; mas, logo chegam aqueles momentos da agitação desenfreada e do calor intenso, que acabam por se liquefazerem, permitindo que, novamente, o frio se instale.

Disso fica a certeza de que tudo passa e este momento também vai passar. Aquilo que hoje nos parece enfadonho, certamente será algo de que nos lembraremos com saudade. Aquela incerteza do futuro, de repente se desvanecerá e a vida estará realizada. Teremos passado por ela, deixado o nosso legado, construído possibilidades para outras gerações, que também viverão suas próprias estações.

Como coach, atendo pessoas de todas as idades e fases da vida. É interessante vê-las transitar por situações tidas como insolúveis, para soluções satisfatórias. É comum ver a desesperança sucumbir diante das possibilidades; mas, é alentador acolher agora, algo que no passado parecia insuportável. Com isso, brinco com meus alunos lhes dizendo que quando não suportarem mais a universidade, estará na época de se formarem. Depois de algum tempo, os escuto dizerem que “aqueles tempos acadêmicos” foram muito divertidos. Quando comecei minha vida profissional, como auxiliar administrativo e tinha pela frente chefes e situações difíceis, às vezes parecia que jamais haveria para mim “um lugar ao sol”; hoje, olhando para a caminhada vejo que as diversas estações da vida foram se sucedendo numa espiral ascendente. Certamente não foi fácil como gostaria que fosse, mas não foi impossível como julgava que seria. A vida nos proporciona o que somos capazes de suportar, com o desafio de exigir de nós um pouco mais de foco, persistência e esforço, para nos capacitarmos a voos mais altos. Perder de vista as estações da vida é perder a beleza da vida. Julgar que a dificuldade presente será sempre presente é desfalecer prematuramente; crer que nada mudará “os tempos paradisíacos” é uma infantilidade. O ciclo da vida requer viver suas estações. Fique firme em seus propósitos, esse inverno vai passar; contemple sua primavera e desfrute dela, porque ela também vai passar; viva intensamente o verão, mas saiba que o outono chegará, preparando a tudo e a todos para um novo ciclo.

Reflitam em paz!

Homero Reis