Um cliente me fez a seguinte pergunta: Qual é o código de valor e conduta do Coach? Pergunta simples e difícil, como são todas as perguntas inteligentes. Embora seja coach e trabalhe com isso há muitos anos, nunca tinha pensado em sistematizar meu “código de valor e conduta”. Gostei da idéia e comecei a pensar naquilo que creio, e no modo como trabalho. Não tenho a pretensão de fazer um documento referencial. Também entendo que estas coisas são dinâmicas no tempo e no espaço. Por isso, vão aqui e agora as primeiras idéias sobre ser Coach. Pensei em onze idéias; afinal, não são mandamentos.

1.Nada será proibido, nada será obrigado; tudo será permitido. As regras só funcionam se a gente as entende e é capaz de conversar sobre elas. Proibir por proibir, fazer por fazer, torna-nos demasiadamente mecânicos. A vida não obedece o dualismo maniqueísta do certo-errado; bonito-feito; bom-mau; verdadeiro-falso. Tudo tem um outro lado. Ser Coach é ser capaz de entender o porquê das coisas, para fazer escolhas conscientes e responsáveis. Isto nos remete à uma competência muito útil: indagar para aprender.

2. Tudo é lícito, mas nem tudo convém. O universo é feito de uma infinidade de coisas, muito mais amplas do que pressupõe nossa capacidade de discerni-las. Coisas que nem sabe que existem, e coisas que existem, mas que não lhe são adequadas. O que convém a outros não convém, necessariamente, a você. Faça escolhas conscientes e, entenda que nossa visão é sempre parcial. Tudo tem outro lado. O seu é apenas um deles; logo, pode lhe ser conveniente, mas não é uma regra que vale para todos.

3. Tudo é lícito, mas não seja dominado por nada. Embora tudo lhe seja lícito, é a liberdade que reje a vida. Somos seres fundamentalmente livres. Tudo o que nos domina, tira de nós um pouco de nossa essência. Este é o preço. Portanto, cuide para que sua vida seja constituida de opções e não pela falta delas.

 4. A vida não é predeterminada. Limites fazem parte da vida. Conviva com eles, mas entenda que boa parte do que somos, é fruto de nossas escolhas. Cada escolha tem as respectivas consequências (boas e ruins, se você crê assim). Portanto, deixe de falar em sorte, azar, maldição e outras coisas semelhantes, e assuma a responsabilidade pelas escolhas que fez e faz. Se for oportuno, peça ajuda e melhore sua capacidade de fazer escolhas, mas não transfira para outros a responsabilidade das escolhas que fez.

5. Todo ser é, por natureza, legítimo, livre, autônomo e diferente. Não tente ser igual a ninguém e não obrigue ninguém a ser igual a você. Você é o que é, e é belo por isto. A beleza está em ser único com todas as possibilidades e limitações que isto traz. Faça concessões legítimas e tenha flexibilidade; mas não alegue ter sido obrigado a nada. O que você conta sobre você é a sua interpretação das coisas. Não gaste energia, nem tempo, tentanto convencer os outros de que isso é paradigma de sucesso.

6.  Viva a partir da aprendizagem. Saia da região de conforto. Viver é aprender sempre; por isso existem problemas. Eles foram criados para desenvolver nossa capacidade de solucioná-los. Se você aprender a vê-los como espaços de aprendizagem, vai descobrir que cada dia nos superamos. Tudo o que temos agora, em algum momento foi impossível, pecado ou proibido. No entanto, alguém quebrou a regra e fez diferente. Aprenda que a novidade é transgressora. Você pode querer, ou não, correr este risco.

7.  A culpa não é a melhor companhia. Não se culpe. Viver sob a sombra da culpa é construir um caminho para a depressão e demais doenças da alma. Seja honesto com você mesmo e faça o melhor que puder. Pode não ser o suficiente naquele momento, mas você aprenderá coisas novas. Entenda que a culpa paralisa. Não tente agradar a todos, nem fazer tudo. Esta é a fonte da culpa. Saber dizer não é um bom negócio.

8. Entenda que o tempo é agora e que as coisas só acontecem se você agir. Não se prenda ao passado, nem viva no futuro. O passado é uma referência e o futuro uma expectativa. É agora que você vai fazer a diferença. Quem quer que as coisas aconteçam, age! Quem se auto engana, começa o regime na segunda feira; vai ler aquele livro amanhã; parará de fumar assim que o maço acabar, etc. Agora é a hora de fazer por você aquilo que só você pode.

9. Nada é tão bonito quanto a pluralidade. Aprenda a conviver e a relacionar-se. A sustentabilidade da vida se dá pela diferença. Vê-la como possibilidade e não como ameaça faz toda a diferença. Os outros são diferentes de você e isso é bom e não deve ser causa de conflito. Tudo tem seu espaço e sua função. Aprenda a reconhecer a sua e a legitimar a do outro. Sua forma de entender o universo e sua mecânica é apenas uma possibilidade. Não é a única, nem a melhor, nem a mais verdadeira. Todos temos nossas filosofias de vida. A sua é uma delas e não cabe a você julgar a dos outros. O gostoso é ser capaz de conviver pelo simples prazer de usufruir das possiblidades entre diferenças. Você não conhece tudo o que existe, nem todas as razões; portanto, não julgue.

 10. A razão e emoção nos constituem e só são úteis quando atuam juntas. Essa idéia de que somos seres racionais é falsa e já cumpriu seu papel. Usamos nossa razão para dar sentido às nossas emoções. No entanto, quantas vezes você viveu o conflito de ter que escolher entre as duas, quer seja na vida pessoal, quer seja no trabalho? A vida é feita de escolhas, mas não há a necessidade de estabelecer um duelo entre razão e emoção. Este conceito antagônico já foi superado. O sucesso está, justamente, em aprender a tornar essas emoções fundamentais em aliadas.

 11. Competência se faz com inspiração e técnica. As grandes obras de arte, em todos os domínios, foram feitas por pessoas que eram possuídas por grandes sonhos e que esmeravam-se em torná-los realidade. A inspiração solitária só nos faz sonhadores; a técnica apurada, nos faz construtores; mas, é na combinação delas que surge a criação que expressa nossa identidade. Por isso, tenha sonhos, mas esmere-se no conhecimento técnico.

Termino este texto com minha utopia existencial. É algo que escrevi para mim mesmo, após reler A Chama de Uma Vela, de Roland Barthes. Espero que gostem.

… Enquanto ilumina, gasta-se a ofertar-se. Desapega-se ao ponto de não mais ser em si para vir a ser, além. Consome-se até não mais estar. Nisso que faz, ensina, tão plena e expontaneamente, que não se percebe desapegar-se, inclusive de si. Até que se torna espectro, viajando por todos os espaços a iluminar. Deixa de ser substantivo concreto para ser efemeridade….

Reflitam em paz!

Homero Reis.