Gosto de histórias e, principalmente, de vê-las por outro ponto de vista. Assim, quero examinar um pouco o modo como temos entendido o trabalho e suas consequências na vida.

“Do suor do teu rosto comerás o teu pão” (Gn. 3:19). Pronto, estava instituído o trabalho. O contexto é o seguinte: o ser humano – Adão e Eva – vivia no paraíso até que desobedeceu a Deus. Consequência: foram expulsos e castigados. O castigo foi ter que trabalhar para garantir seu sustento. Essa história, conforme narrada em Gênesis, levou muitos a entenderem o trabalho (e outras coisas), como a maldição pelo pecado. Independente da história ser fato ou mito, ou ainda se é verdadeira ou falsa, o fato é que influenciou muito (e ainda influencia) o modo como construímos nossas explicações sobre a vida. Tanto é que o termo “trabalho” provém do latim tripalium – instrumento de tortura composto por três varas em cruz onde se prendia e torturava o réu ou, ainda, “ferro em tripé que servia para ferrar os cavalos.”

A noção de trabalho, conforme a temos hoje, não foi uma constante na vida da humanidade. Os povos pré-históricos tinham uma noção diferente do que era trabalhar. Tal noção, diretamente ligada à ideia de identidade do grupo, estava plenamente integrada com a natureza de seu modo de vida e com as narrativas que a sustentavam. As pessoas faziam o que lhes parecia necessário e suficiente para garantir a vida e os relacionamentos.

O período em que a humanidade foi nômade, vivendo da colheita e da caça, favorecia as movimentações geográficas e sociais dos grupos humanos em torno da sobrevivência – garantia de comida e água. A humanidade viveu durante essa época, um período de harmonia, uma época em que tudo estava à disposição. Teria sido essa época a que decidimos chamar de paraíso? A natureza pródiga fornecia o que o homem precisava de modo abundante. No entanto, era necessário um conjunto de atividades para se apropriar disso. Essa era a ideia de trabalho. Certamente bem diferente da que temos hoje. O próprio homem, na qualidade de ser ser natural, vivia de acordo com rigores e ritmos naturais. O trabalho, assim concebido, era executado de forma coletiva, cooperativa, comunitária. As tarefas eram distribuídas em função do sexo, da idade, das habilidades naturais e não se discutia muito isso, nem tampouco tal acomodação fazia parte dos problemas existenciais da humanidade. As mulheres cuidavam dos filhos, os mais idosos transmitiam as histórias, os homens, conforme sua natureza apanhavam frutos, caçavam, pescavam e a vida estava estabelecida.

Somente após a revolução industrial do Século XVIII é que a noção de trabalho assume o perfil que temos hoje. É bem verdade que o caminho da sociedade nômade, pré-histórica, até hoje, foi longo. Discutiremos isso em outra provocação. Passamos por vários momentos e fases, fomos artesãos, escravos, mercadores, financistas, intelectualistas, trabalhadores do conhecimento. No entanto, começamos a cultivar uma dicotomia entre trabalho e lazer, como se fossem coisas excludentes. O advento constante, embora cada vez mais veloz da tecnologia, trouxe-nos um mundo novo, movimentado, irrequieto, mas com uma boa dose do antigo conceito de trabalho como “um mal necessário” a que estamos inexoravelmente presos.

Mas será que existe uma outra forma de pensar isso? Creio que sim. A noção de trabalho como pagamento pelo pecado é uma narrativa típica da cultura que construímos, embora hajam outras possíveis. Assisti, recentemente, um vídeo interessante em que aparece uma mulher indígena, moldando um pode de cerâmica que seria usado para guardar grãos. A seu lado, uma criança, “destruindo” o pote moldado. A mulher então refaz o pote e a criança estraga o pote. Assistindo a cena estão o diretor do documentário e um antropólogo. A cena se repete dezenas de vezes. Ao comentar o fato, o diretor, indignado, afirma que aquela criança deveria ser educada a respeitar o trabalho da mãe. O antropólogo, por sua vez, argumenta que não há ali nenhuma falta de respeito. O que há é o princípio produtivo do amar e brincar. A mãe está brincando de produzir o que precisa (um pote), a criança está brincando com o que ela faz. Depois de algum tempo, a criança foi brincar com outra coisa e a mãe teve o pote que precisava. O dia passou em paz e ambos cumpriram seu papel social sem os dramas da narrativa industrial, mercadológica, capitalista, pós moderna. A criança cria seu espaço relacional ao viver na intimidade do contato social e corporal com sua mãe. A convivência em total aceitação e confiança mútuas só ocorre a partir da qualidade desse contato; isto é, o que a criança fará, ouvirá, cheirará, verá, pensará, temerá, desejará, ou rechaçará como aspectos óbvios de sua vida individual e social, dependerá desse relacionamento. Na qualidade de membro de uma família e de uma cultura, ela será consequência desse relacionar-se em uma comunidade que pensa e age de uma forma específica e que colherá, no futuro, os resultados dessa forma específica de ser. Assim é com a nossa cultura. Estamos colhendo, em todos os domínios de nossas vidas, o resultado das narrativas que escolhemos sobre como nos relacionamos com a noção de trabalho.

– Ora, se a criança respeitasse o trabalho da mãe, ela poderia ter produzido muitos potes.

– Para que? Ela só precisava de um.

– Ela poderia vende-los.

– Para quê?

– Comprar alguma coisa, economizar.

– Veja, estamos no meio da floresta, a mãe não tem esta demanda e esta não é a narrativa dessa cultura.

Essa narrativa pode parecer romântica demais para os nossos dias. É verdade! Mas podemos pensar sobre ela como se fosse uma provocação para entendermos os desdobramentos práticos que nos fornece. Ao pensar sobre isso, podemos construir uma nova forma de nos relacionar com o “trabalho”, de modo a pacificar nossas relações conosco mesmos, com as coisas e com as pessoas.

Qual seria o contraponto da noção de trabalho como castigo? Será que o homem “no paraíso” viveria em estado de contemplação? Em que medida a contemplação não requer também “trabalho”? Cuidar do Éden não seria uma forma de trabalhar? Quando se faz o que gosta e gosta-se do que se faz, a narrativa sobre o trabalho deixa de ser algo penoso e converte-se numa atividade produtiva prazerosa cujo fundamento básico é o que estou chamando aqui de amar e brincar. Quando o amor brinca, engravida. E não há nada mais produtivo e efetivo do que o resultado disso.

Parece-me que confundimos a necessidade de produzir com o conceito de trabalho. Isso é tão transparente para nós que julgamos que ao brincar as crianças não estão “trabalhando”. De fato, não estão, mas estão produzindo. Piaget, psicólogo genebrino, fundador do construtivismo, concorda totalmente com essa afirmação. Ao brincar, a criança constrói e reconstrói o mundo onde está inserido, desenvolvendo o que mais tarde lhe dará a autonomia para adultecer. Quando desrespeitamos o “brincar da criança” e seus momentos de construção do mundo, podemos estar gerando um adulto com muitas dificuldades quanto a criatividade, relacionamentos e emocionalidades. Quando temos uma concepção utilitarista de nossas atividades, julgamos que o produzir muitos potes é mais importante do que brincar com eles. Julgamos que trabalhar é um fardo que temos que carregar.

Esse novo pensar, onde substituímos a ideia de trabalho pela ideia de amar e brincar, possibilita o surgimento de uma nova cultura produtiva guiada e demarcada precisamente por uma nova emoção que começa a se conservar na aprendizagem das crianças.

Percorrer o caminho reflexivo da relação materno-infantil que lhes expus, envolve amar e brincar num processo que produz, mas que cuida e sustenta-se num novo conjunto de valores que restaura nosso senso de humanidade.

O ato de produzir que lhes apresentei, vivida no amar e brincar, só é possível se baseada na total confiança e aceitação mútuas e não no controle e na exigência. Quero com isso, convida-los a uma participação responsável na modulação dessa história de acordo com o modo como desejamos viver, antes de viver conforme pensamos que deveríamos fazê-lo.

Amar e brincar é uma nova narrativa que questiona se o que fazemos faz sentido para nós mesmos e para os outros; agora e no futuro. Uma pesquisa que mantenho desde 1998, mostra que menos de 10% dos estudantes universitários estão fazendo o curso que desejam. A maioria escolhe sua profissão por conveniência ou por atender a demandas de outros, sejam eles quem forem. Ao amar e brincar, descubro que sou presenteado com a possibilidade de ter que viver a minha vida, e não a de outrem; descubro a possibilidade de aprender a fazer o que gosto e a gostar do que faço.

Amar e brincar me faz entender que precisamos ser previdentes, mas isso não significa deixarmos de ser generosos. Significa rever nosso estilo de vida que está tornando o mundo insustentável, exageradamente desigual, perigosamente raivoso e relacionalmente instável. Isso tem a ver com o estilo de vida que adotamos. Modificar isso é complexo, mas começa com uma alteração na nossa forma de ver como nos relacionamos com as coisas que fazemos. Quem ama e brinca, está sempre de férias e em processo produtivo. Os dias acontecem, as dificuldades existem, mas a emocionalidade com a qual lido com essas e outras coisas, é muitíssimo diferente.

Amar e brincar coloca-me na senda de um humanismo consciente, de uma liberdade responsável, de um compromisso com o outro, de uma existência significativa. Essa narrativa modela o modo como escolho minha profissão, meu modo de vida, meus relacionamentos. Faz-me responsável pela qualidade de vida que tenho e que promovo, pelos valores que cultivo, professo e dissemino; faz-me coerente com tudo isso e corresponsável pelo futuro. Amar e brincar é uma ideia. Convido-os a refletir comigo.

Reflitam em Paz!

Homero Reis