Normalmente, tem-se a tendência de explicar os relacionamentos humanos a partir de uma perspectiva técnica ou científica. Esta é, sem dúvida, uma boa abordagem. No entanto, não é a única, nem a melhor, nem a mais verdadeira. Nos últimos anos tenho pesquisado tal tema e sistematizado alguns princípios que ajudam a orientar a construção de relacionamentos mais efetivos, com significativa redução nos conflitos. Estes princípios não só diagnosticam a qualidade de nossas relações, como também instalam nelas uma nova inteligência. Vamos a alguns deles:

Primeiro – há um equívoco relacional quando se confunde a qualidade do relacionamento com a posição que se ocupa no grupo social. As relações humanas se estabelecem a partir de afinidades construídas pelas pessoas. Chamo isso de “princípio do teatro”; ou seja, todo relacionamento é estabelecido por personagens, em um cenário, com uma história de suporte, onde desempenham papeis específicos. Tendo isso em mente, deve-se considerar que quaisquer relacionamentos serão mais efetivos se esses elementos estiverem em harmonia.

Por exemplo, o papel de “chefe” requer um cenário em que os relacionamentos se estabelecem a partir da história deste papel. O papel de pai, amigo, colega, filho, e todos os demais, também seguem o mesmo princípio. Agora, imagine se um chefe se relaciona com sua secretária da mesma forma como o faz com sua namorada; ou se um pai trata sua filha de mesmo modo como trata um subordinado seu; ou atua em sua casa do mesmo modo como comanda sua empresa? Veja que esta confusão de papeis, personagens, cenários e história pode trazer muito conflito.

Cuidar dos protocolos relacionais para não confundir papeis sociais é fundamental para a qualidade dos relacionamentos. Alguns casos, por exemplo: a) Você é o dono da empresa, mas não é o pai de seus colaboradores, nem o dono da verdade. Atue com cuidado, respeito, capacidade conversacional e consideração, mas seja o dono da empresa. b) Você é pai. Seja amigo, acolha, participe, mas seja pai. É isso que seus filhos esperam de você. c) Você é cônjuge. Seja companheiro, ame, respeite, desenvolva cumplicidade, mas não seja o pai, nem o chefe do outro. Bem, acho que já deu para entender.

Segundo – há um mito de que o “inimigo” está lá fora. Vive-se na perspectiva de que as coisas externas a nós é que são responsáveis por nossa felicidade, infelicidade ou por qualquer coisa que nos afete negativamente. Este mito tira de nós a responsabilidade da autotransformação ou autodesenvolvimento, porque passamos a acreditar que somos “vítimas” de algo maior, o que não é verdade. Em última instância, é sempre possível dizer não, é sempre possível entender que o que acontece fora de nós é reflexo do que acontece dentro de nós. E se entre esses dois domínios há alguma incoerência, o espaço da ação é sempre possível no domínio “dentro de nós”. O mito do “inimigo fora” nos leva à transferência de responsabilidade.

É o governo que não faz as coisas, é o chefe que não enxerga minhas competências, é o meu filho que é rebelde, etc. A questão proposta pela inteligência relacional é muito clara quando afirma que “no mínimo, 50% de tudo o que acontece comigo é responsabilidade minha”. Se compro o tão sonhado carro, ganho de presente um trânsito engarrafado; se compro um cachorro, ganho as pulgas; se escolho morar em determinado local, ganho tudo o que aquele lugar tem de bom e de ruim. Portanto, somos responsáveis pelo que acontece fora de nós porque decorre de escolhas que fazemos antes, dentro de nós. É ingenuidade não perceber isso.

Terceiro – vivemos uma ilusão do controle. Tem-se a sensação de que se pode controlar as coisas. A inteligência relacional descobriu que a ingovernabilidade é a grande geradora das coisas. Pode-se estabelecer tendências, probabilidades, etc, mas controlar as “acontecências” é uma ilusão. Há uma boa chance das coisas continuarem sendo o que são, até o momento em que deixam de ser. A questão é: o que acontece comigo, quando algo que não previa ocorre, ou quando algo foge do meu controle? Um filho que deseja uma carreira que não aprovo; um engarrafamento no trânsito que me faz perder um voo; uma consulta com hora marcada cujo médico atrasa uma hora e meia; um cliente que não paga, embora tenha empenhado sua palavra que iria fazê-lo; um terremoto…

Em todas essas situações há algo que eu tenho que aprender. Se não há nada a fazer, é possível aprender a ficar em paz; se há algo a ser feito, que seja feito com a devida maturidade emocional. No entanto, se há algo que pode ser feito e eu não o faço, ou se nada há a fazer e eu insisto com isso, o melhor que se colhe é ressentimento ou resignação; ou, a adoção de uma emocionalidade reativa que culpa os outros e não faculta o aprender. Aí, ficamos reféns de nosso discurso histórico e reproduzimos durante a vida as mesmas situações. Aprenda que as ocorrências, de qualquer natureza são, por definição, instrumentos geradores de aprendizagem.

Quarto – o ativismo exacerbado. Para muitas pessoas a vida só se realiza se estamos em algum evento ou fazendo alguma coisa. Para tais pessoas, o conceito de fazer é muito limitado. Pensar é fazer, conversar é fazer, refletir é fazer. Contemplar parece ser perda de tempo. Ter agenda lotada, viver em stress, comer apressado, estar sempre correndo contra o tempo é o normal. Isso é uma doença do ativismo. A vida requer silêncio e pausas. Passava uma temporada em Paris, quando encontrei-me com um casal de amigos e resolvemos ficar alguns dias juntos.

O meu amigo é um ativista compulsivo. Levantava de manhã com a agenda cheia de visitas e compromissos na Cidade Luz. Começávamos no café da manhã fazendo um check-list de coisas a fazer com todos os tempos cronogramados: tantas horas para o Louvre, almoço à tal hora, Notre Dame às 20, etc. Um dia lhe sugeri que eu fizesse a programação. Ele aquiesceu. Levantamos e, no café ele me pergunta: “qual vai ser a agenda do dia?” Respondo: “andar”. “Só?”, questiona ele. “Sim”, respondo. “Só andar”. Andar pelas ruas, praças, jardins, contemplando o que nos envolve. Andar calmo, sereno e tranquilo, sentar num café e conversar, respirar, observar, enxergar onde estamos e toda história que está a nos rodear.
No início, foi muito difícil para ele. Mas, com o passar do dia, ele foi se acalmando e entendendo que “fazer turismo” não é ir aos lugares, mas estar nos lugares. Não precisa ser em todos, mas naqueles possíveis, que se esteja presente. A vida requer que façamos as coisas, mas também requer que uma das formas de fazer seja “não fazer”. A isso Domenico de Nasi chamava de ócio criativo. Esse ativismo exacerbado é uma herança maldita da linha de montagem de Ford, dos tempos modernos, do mundo globalizado, da resposta imediata. Assim, o fazemos de modo tão automático que não vemos os filhos crescerem, esquecemos como degustar um vinho ou uma comida, perdemos o melhor da festa porque temos que ir a todas, comemos tudo o que se oferece no buffet, e não saboreamos nada.

Bem, outros princípios existem, mas, por enquanto, fiquemos com esses.
Reflitam em paz!

Homero Reis