A época do Natal é, no mínimo, curiosa. Movidos por uma enorme necessidade de que as coisas façam sentido, nos metemos no comércio com uma fúria de fazer inveja a espartanos. Consumimos tudo como se as coisas fossem deixar de existir, comemos tudo com uma fome insaciável, nos relacionamos como se, de repente, a fraternidade que deveria ser exercida cotidianamente, devesse ser remida nessa data. Tudo passa a ter as dimensões do imediatismo, da urgência, da insaciedade e da necessidade de resolvermos nossa culpa ancestral – costumes de nosso tempo – servido com pernis e perus. Do meu lado, fico perplexo. Embora no fluxo natural das coisas, fico com um pouco de medo de fazer parte dessa loucura coletiva, principalmente pelo pouco de reflexão que traz. Como dizia Drummond “a vida precisa de pausas” e de silêncio – o acréscimo é meu. Parece-me que é nessa dimensão da pausa e do silêncio que as coisas realmente vão fazer sentido. Quero busca-las aqui!

Pois é! No Natal de 2011, estava com toda a família em Curitiba/PR para as festas de final de ano. Como de costume, tivemos nosso momento de silêncio e reflexão, com a devia pausa em todas as atividades, exceto nas que se referem à intensidade da convivência. Foi bom! Nesse encontro familiar, todos temos nossas responsabilidades para que as coisas aconteçam com um pouco de sanidade. A minha, em especial, é de preparar uma pequena meditação sobre tudo isso e promover um momento de conversas sobre erros, acertos, pedidos e ofertas. Esse ano, tendo em vista o frenesi instalado, vi-me motivado a falar sobre o Advento, tema que tem como ponto culminante no nascimento de Jesus. Fundamentado em algumas práticas rituais que antecedem a data propriamente dita, alguns princípios que simbolizam a chegada do menino-deus são objeto de reflexão nas quatro semanas que antecedem o Natal.

A primeira semana do advento (quarta antes do Natal), é dedicada à reflexão sobre o perdão e a reconciliação. O elemento de suporte é a história dos Magos que foram ver a Jesus e lhe ofertaram presentes. Conta a tradição que os magos eram estudiosos das estrelas que viram no céu o anúncio de que algo extraordinário estivesse por acontecer. Orientados por seus estudos, saíram com seus discípulos em busca do tal acontecimento. Cada um vinha de uma parte do globo. Um veio da Europa, outro da Ásia e outro da África. O simbolismo desse fato é a ideia de que o nascimento de Jesus promova a integração universal de todas as tribos, povos e raças. Na manjedoura de Belém da Judeia, nasce aquele que seria o príncipe da paz. A paz, como celebração das diferenças, confraternização das possibilidades e aceitação do outro. Tudo fica muito fácil quando é do meu jeito. Difícil é admitir que, diferente de mim, o outro também é legítimo. Esse é o exercício do perdão e da reconciliação: capacidade de reconhecer na diferença a legitimidade, a autonomia e a liberdade.

A segunda semana do advento (terceira antes do Natal), é dedicada à generosidade. A história de suporte refere-se aos presentes que foram ofertados a Jesus. Ouro, incenso e mirra eram produtos caros na época e tinham uma finalidade prática, muito além do simbolismo religioso. O incenso era usado para purificação, uma espécie de anticéptico ambiental. Maria deu a luz em um local usado para abrigar gado. Imagine um parto num local assim. O incenso teve uma importância vital para a saúde da mãe e do bebê. A mirra era um anestésico, muito usado nas cirurgias de então. O ouro era a moeda internacional da época. Foi esse presente que financiou Jesus e sua família, na fuga para o Egito, quando Herodes ordenou o infanticídio dos primogênitos com o objetivo de matar a Jesus.

A generosidade é a capacidade de compartilhar com outros, nossos recursos, competências e habilidades. É o reconhecimento de que as coisas que nos foram dadas, além daquelas que agreguei, tem uma finalidade relacional. Ninguém é o que é para si. Somos para o outro. Estamos a serviço do outro. Essa é a ideia do corpo. Todos os órgãos funcionam para sustentar algo maior que o próprio órgão. O coração não vive para si, o fígado não tem finalidade em si mesmo e assim por diante. Temos habilidades e competências para sustentar atitudes de generosidade que nos fazem responsáveis uns pelos outros. Essa ideia enlouquecida de “cada um por si” e de que o mercado é o “fiel” de toda a balança é um ledo engando relacional. Ser generoso é ser capaz de atuar espontaneamente na solução de um problema ou de uma situação que se nos aparece, a partir da demanda do outro. A pergunta que se deve fazer diante disso é: qual a finalidade maior daquilo que tenho, sei, sou e faço? Quando descubro que tal finalidade está em servir, descubro a generosidade. Egoístas, egocêntricos e pessoas da mesma natureza são seres adoecidos nos afetos. As vezes pergunto para meus alunos a razão da escolha da sua profissão. Raras vezes tenho como resposta uma ideia de serviço. Normalmente, a resposta vem eivada de motivos autocentrados. Quero me realizar, quero ganhar dinheiro, quero subir na vida, etc. Essas ideias não estão erradas, muito pelo contrário. A pergunta é: quando desejo isso, o faço com qual motivação? Locupletar-me ou servir? Essa escolha faz toda a diferença na saúde relacional porque revela nosso grau de generosidade.

A terceira semana do advento (segunda antes do Natal) é dedicada à esperança. A história de fundo fala da relação dos magos com a criança que encontraram. Estudiosos que eram, poderosos em suas áreas de conhecimento e na influência social, reconhecem na fragilidade daquele bebê o poder transformador do mundo. Essa é a ideia de esperança – a capacidade de reconhecer o poder transformador das pequenas coisas que aparentemente não tem a menor capacidade para tal. É fácil ter esperança quando se está respaldado por recursos, forças e poderes; difícil é ter esperança quando tudo falta ou quando o que se tem é demasiadamente frágil. Ter esperança é ser capaz de ver árvores a partir de sementes, é crer que a tormenta passa, é saber que o choro pode durar uma noite inteira, mas que a alegria virá pela manhã. Quem tem dispensa cheia não precisa orar pelo pão de cada dia. Ter esperança é ter maturidade para crer que é hoje que se constrói o futuro que se deseja.

A quarta semana do advento (primeira antes do Natal) é dedicada ao amor. A história de fundo é baseada no contexto universal em que se dá o nascimento de Jesus. Independente da literalidade dos fatos, da historicidade ou não, ou de suas narrativas poéticas, o imaginário cristão é profundamente influenciado pela conspiração cósmica em que o advento ocorre: estrela guiando magos, anjos avisando pastores, fuga espetacular para o Egito, sonhos, visões, planos de morte e tantas outras coisas. Essa confluência no entanto, não ocorre somente nessa ocasião. Toda a vida de Jesus é permeada por uma intensa trama de vida e morte. O curioso é que Jesus em si mesmo não oferece nenhuma ameaça ao status-quo. No entanto, foi sua capacidade de fazer amigos, acolher pessoas, incluir os excluídos, minorar a dor e o sofrimento, que o torna numa forte ameaça. Para além das questões religiosas, Jesus concentra em si o que se chama de espiritualidade; ou seja, a coerência e integridade entre o crer, o ser e o fazer no propósito maior que vai além de si mesmo. Sua forma de pensar a vida e atuar nela foi uma poderosa força que denuncia até hoje nossas contradições, revela nossas fragilidades, expõe nossas mazelas pessoais e sociais. Na verdade, Ele se torna no espelho cuja imagem não queremos ver; por isso quebramos o espelho. É justamente aí onde ocorre a celebração do amor. Apesar da imagem que temos sobre nós mesmos, alguém nos vê com olhos tais que nos perdoa e reconcilia, e generosamente nos restaura a esperança. Esse é o amor que liberta da culpa porque constrói a possibilidade e nos restaura na capacidade de servir.

O desafio do amor é nos tornar capazes de construir em nós e a partir de nós o mundo que queremos ter. É assumir a responsabilidade de fazer a partir do ser, é aprender que não somos o oceano, apenas fazemos parte dele. É ter a vida pronta para ser usada com o que se tem, porque de alguma forma isso é o necessário e o suficiente.

Reflitam em paz!

Homero Reis